sexta-feira, 23 de janeiro de 2026

Sem tempo para cuidar das feridas



Poucos são os dias em que a vida nos é agradável sem que tenhamos de lutar por isso. Não podemos controlar o que nos acontece, mas somos chamados a responder a tudo o que sucede connosco e à nossa volta, procurando sempre apontar o rumo da história para onde queremos.

Não se trata de uma escolha por ano, nem sequer por semana; é necessário decidir várias vezes ao dia, corrigindo os desvios das adversidades e anulando as tentações a que estamos sempre expostos. É mais fácil deixar-se ir, mas nesse caso o destino é quase sempre um conjunto de desgraças cada vez maiores.

Neste oceano dos dias, quem não se esforça para se manter à superfície vai ao fundo como se fosse uma pedra.

Contudo, há algo verdadeiro que parece ilógico à maior parte das pessoas: se procuramos o nosso próprio bem, nunca chegaremos a concretizar os nossos sonhos. Só é feliz quem luta contra os seus instintos egoístas e se dedica a cuidar do bem dos que lhe estão próximos.

Só é feliz quem ama, todos os dias. Só ama quem vence o seu natural egoísmo.

Muitas são as doenças graves que não se podem combater, porque o adversário não joga segundo as mesmas regras que nós. Na verdade, ninguém perde a luta contra uma enfermidade, porque nela não existe qualquer justiça. Ainda assim, nesses casos, cabe a cada um de nós lutar contra o desânimo que, qual tempestade, procura enfraquecer-nos e fazer de nós vivos sem vida.

Somos chamados a ser guerreiros, amando os que estão próximos de nós a cada dia e cuidando do que há de bom em nós, pensando neles.

Se há algo que pude aprender na vida é que temos de lutar tanto que, quando acontece uma vitória, não é uma enorme alegria que sinto, mas um alívio pelos meus esforços terem valido a pena.

Consiga cada um de nós que o seu último sopro aqui e o primeiro lá – seja um só suspiro… de alívio!


José Luís Nunes Martins

quinta-feira, 22 de janeiro de 2026

Sei por onde não quero ir



É fácil perdermo-nos quando os caminhos sugeridos são imensos.

Vai por aqui.

Dizem.

Faz assim. Compra isto. Faz esta viagem. Experimenta este restaurante. Segue este influencer. De repente, todos somos peritos em sugestões e em caminhos.

No meio de tanta informação ficamos sem bússola. Ou melhor, a nossa bússola começa a disparar em todas as direções. Torna-se complexo saber que rumo será o acertado a cada momento. Faço porque os outros me dizem para fazer ou faço porque me faz sentido?

De que forma posso acertar o ponteiro da minha bússola interna?

Talvez a solução não caiba da mesma forma a cada um. Mas, pode fazer sentido encontrar tempo para respirar fundo, sozinho(a), no silêncio que nem sempre sobra no final de cada dia. E nesse movimento tentar compreender, de olhos fechados, e sem distrações ou estímulos, por onde é que quero seguir.

Acompanhado ou solitário?

Silencioso ou comunicativo?

Empenhado ou a privilegiar o descanso?

Expressivo ou mais contemplativo?

Julgo que todos temos os dois lados das várias moedas. Por vezes preferimos fazer caminho de mãos dadas e, outras vezes, preferimos encontrar apenas a presença da nossa própria mão. Há alturas em que nos faz sentido falar e outras em que o silêncio nos ajuda mais a comunicar.

Precisamos de todos os nossos estados. Mas, essencialmente, precisamos de nos habitar a nós próprios, independentemente das opiniões díspares dos outros.

O que faz sentido para mim e o que rima com a minha raiz interna é o que deve prevalecer.

Mesmo que, às vezes, tenhamos de virar as costas a uma ou outra ideia. A esta ou aquela pessoa.

E quando não soubermos qual o caminho a seguir, que saibamos sempre por onde não queremos ir.


Marta Arrais

quarta-feira, 21 de janeiro de 2026

Quando a consciência pesa mais do que o lucro


Vivemos num tempo em que, no quotidiano português, muitas vezes não vendemos apenas produtos — criamos necessidades. Dizemos às pessoas que lhes falta algo, mesmo quando até ontem viviam bem sem isso. E quem trabalha a fazê-lo sabe: nem sempre o desconforto é económico; muitas vezes é interior. Há um peso silencioso quando o que se vende entra em conflito com aquilo em que se acredita.
Entre o emprego que paga as contas, a pressão dos números, os objetivos mensais, o prestígio social ou institucional, cresce uma tensão profunda: ser fiel a quem somos ou adaptar-nos ao que convém. No café, no escritório, na empresa, na paróquia, na escola, nas instituições — esta pergunta atravessa a vida comum de todos nós. Quantas vezes mudamos o discurso para agradar? Quantas vezes inventamos urgências para justificar decisões? Quantas vezes trocamos a verdade pela eficácia?
Talvez uma das maiores lutas do nosso tempo seja esta: manter a coerência num mundo que recompensa a aparência. Não se trata de demonizar o mercado nem de romantizar a pobreza, mas de reencontrar equilíbrio, consciência e humanidade. Saber distinguir o que é essencial do que é acessório. O que serve verdadeiramente as pessoas do que apenas as transforma em consumidores.
No meio da correria diária, entre notificações, prazos e campanhas, importa parar e perguntar:
o que é que não estamos dispostos a perder?
Qual é a essência da nossa vida, do nosso trabalho, das nossas instituições, que não pode ser vendida, negociada ou mascarada?
Enquanto esta pergunta nos inquietar, ainda não estamos perdidos. Porque quando a consciência fala, o humano resiste.

Padre João Torres

terça-feira, 20 de janeiro de 2026

Reza por mim



Rezar é uma conversa com aqueles que não estão fisicamente, a lembrança daqueles que nos precederam e a oração para seguir o seu exemplo. Rezar é pedir por eles. E também pedir a eles por aqueles que estão aqui.

Rezar é o momento mais calmo do dia, e, no meu caso, o das primeiras horas da manhã, pouco depois das seis, com a água quente do duche a cair devagar sobre os ombros.

Rezar é uma fotografia a sépia, um regresso à casa dos avós e ao tempo sem tempo da infância.

É um Pai-Nosso dito a Deus para que ajude nos exames. É o abrigo contra o frio e o silêncio acolhedor. Rezar é ter memória.

Rezar é o que vem antes ou depois do trabalho, mas nunca o substitui.

É o único que se pode fazer quando já não se pode fazer mais. É a forma de compromisso de quem não tem outro meio, como quando rezamos por um doente prestes a ser operado e já tudo está nas mãos do cirurgião (e de Deus).

Rezar faz milagres, consola quem reza e aquele por quem se reza. Rezar nunca é inútil, porque conforta sempre.

Rezar é dizer ‘rezarei por ti’ e, também, ‘reza por mim’. É, portanto, o contrário da vaidade.

Rezar é a aceitação das nossas limitações. É aprender a resignar-se quando o que podia ter sido não foi. É viver sem rancor, aprender a esquecer, aceitar a derrota com dignidade e celebrar a vitória com humildade.

Rezar é procurar forças quando não se tem e confiar que as coisas serão como devem ser.

Rezar é otimismo, é não dar nada por perdido, é lutar e resistir. Rezar é fragilidade e firmeza.

Rezar é desligar e apagar o telemóvel. É introspeção na sociedade do exibicionismo. É relaxar e acalmar os nervos. É preparar-se mentalmente para o que está para vir. Não é apenas procurar coragem, mas também inspiração, a ideia, o enfoque, a luz, a clareira no meio da espessura.

Rezar é raciocinar, ainda que pareça o mais irracional. É a mente a funcionar como num jogo de ténis: a planear, a antecipar as jogadas. É abstração em tempos de materialismo. É pausa num mundo excitado. É calma quando tudo é ansiedade. E é aborrecido na ditadura do entretenimento.

Rezar é uma forma extrema de independência.

Rezar é um prazer escondido, reservado para a intimidade. Um ato privado, quase às escondidas, que, quando partilhado, exige muita confiança.

Rezar é uma declaração de amor pela pessoa que se leva nas orações. É derramar carinho sobre os que mais amamos e sentir o carinho dos que rezam por nós.

Rezar é ter outros nas tuas orações e estar nas orações de outros – o que é muito mais do que estar apenas na sua memória.

Rezar, e sobretudo que rezem por ti, é a maior aspiração que alguém pode ter na vida. Um privilégio imenso. É amar tanto alguém ao ponto de rezar por ele, e ser amado tanto ao ponto de que rezem por ti.
Haverá maior orgulho? Existirá maior plenitude do que saber que uma mãe, um irmão, um filho ou um amigo deseja que Deus te proteja, te dê saúde, te ilumine, te ajude, te acompanhe e esteja sempre contigo?

Rezar é ter fé. Fé na vida, nas pessoas, nos amigos, nos filhos, nos pais, em Deus.

Rezar é um superpoder que nos predispõe para o bem.

Rezar é acreditar e ser praticante de um mundo melhor.


«Reza por mim» é um texto de Miguel Ángel Robles publicado no ABC de Sevilla

segunda-feira, 19 de janeiro de 2026

Quando um banco de jardim deixa de ser vazio


Quando um banco de jardim deixa de ser vazio


Foi num sábado de manhã que me sentei num jardim e percebi que os bancos também têm memória. Estavam cheios de corpos cansados e vazios de presenças. Muitos idosos, sozinhos, à espera que o tempo passasse — ou que a morte chegasse — de braços cruzados, como se já não houvesse nada a fazer para aquietar a dor.
Sentou-se à minha frente uma senhora pequena, rosto pálido, cabelo branco, uns 83 anos escritos no corpo e muitos mais no silêncio. A solidão dela via-se à distância. Bastava deixar-se tocar. Sentei-me ao lado. Não para resolver, mas para partilhar.
Era viúva, reformada, mãe, avó. Tinha filhos que a amavam, mas viviam longe. Tinha pessoas à volta, mas faltava-lhe alguém por dentro. A solidão consumia-lhe a alma, enfraquecia-lhe o corpo, enchia-lhe a casa de memórias. “A vida agora parece que assobia o nada dentro de mim”, disse. E naquela frase cabia um mundo inteiro.
Ficámos ali, a conversar. Ela a falar, eu a aprender. Percebi que ouvir um idoso é entrar numa biblioteca viva, onde cada ruga é uma página e cada silêncio um parágrafo por ler. Aquele tempo valeu mais do que qualquer ecrã, qualquer distração, qualquer pressa.
Os idosos estão cada vez mais sós. Nas cidades cheias e nas aldeias vazias. Sós com os outros, sós consigo mesmos. A pior solidão não é a ausência de gente, é a ausência de sentido. É estar rodeado de pessoas e viver numa ilha deserta.
Fizemos um pacto simples e revolucionário: encontrar-nos naquele banco todos os meses. Eu dar-lhe-ia presença. Ela dar-me-ia tempo. Comeríamos um do outro a sede de felicidade. Porque a solidão mais negra é não ter com quem repartir a fome de abraços.
Nesse dia nasceu algo novo em mim. Aprendi que a solidão não se combate — constrói-se. Constrói-se com encontros, com escuta, com disponibilidade. Os momentos de solidão são necessários para que os encontros não sejam apenas barulho, mas casa.
Talvez seja isso que nos falta: sentarmo-nos mais nos bancos da vida e menos nos bancos da indiferença.


Padre João Torres

domingo, 18 de janeiro de 2026

Eu venho, Senhor, para fazer a vossa vontade.





As leituras que a liturgia deste domingo nos propõe recordam-nos que Deus conta connosco para concretizar o seu projeto de salvação em favor dos homens. Ele escolhe-nos, chama-nos, envia-nos e habilita-nos para sermos suas testemunhas no mundo. Não temos o direito de frustrar, com as nossas recusas, o projeto de Deus.

A primeira leitura traz-nos a história de vocação de um “servo de Javé”, escolhido por Deus “desde o seio materno” para ser “luz das nações” e levar a salvação de Deus “até aos confins da terra”. Consciente de que Deus o sustenta com a sua força, o “servo” dispõe-se a cumprir a missão que lhe é confiada. Quando Deus nos inclui nos sus planos, a nossa resposta só pode ser um “sim” sem reticências.

Poderemos nós, seres frágeis e indignos, ser sinais de Deus no mundo? Poderemos, com todas as nossas limitações, concretizar a “obra” de Deus no meio dos nossos irmãos e anunciar, com palavras e com gestos, um mundo mais belo, mais justo e mais humano? Sim podemos, com a força de Deus. Convém, no entanto, que não nos iludamos: aquilo que fazemos de extraordinário não resulta das nossas forças ou das nossas qualidades, mas sim de Deus. Quando nos louvarem ou nos aplaudirem por causa das obras que fazemos, que o nosso coração não se encha de orgulho, de vaidade, de autossuficiência, de autoconvencimento: por detrás de todos os nossos êxitos está Deus, esse Deus que é capaz de renovar e transformar o mundo a partir da nossa fragilidade. Estamos bem conscientes dos nossos limites e, em simultâneo, da força de Deus que atua em nós e através de nós?

Na segunda leitura Paulo de Tarso, lembra aos cristãos da cidade de Corinto que todos são chamados a cumprir a missão que Deus lhes destina. Paulo, chamado por Deus a ser apóstolo de Jesus Cristo, irá anunciar o Evangelho em todo o lado aonde a vida o levar; os coríntios, chamados à santidade, deverão viver de forma coerente com a vida nova que assumiram no dia em que se comprometeram com Jesus e com o Evangelho.

Paulo lembra aos cristãos de Corinto – e a nós também – que todos os batizados são chamados à santidade. Para muitos cristãos, contudo, a palavra “santidade” assusta: parece demasiado exigente e, portanto, irrealizável. Na verdade, a vocação à santidade não implica obrigatoriamente seguir caminhos extremos de ascese, de privação, de sacrifício, de renúncia, de abandono do mundo; mas significa, sobretudo, viver de forma coerente com a vida nova que assumimos no dia em que fomos batizados, o dia em que nos comprometemos no seguimento de Jesus; significa deixarmos para trás as obras das trevas e passarmos a viver na luz, como pessoas novas, animadas pelo Espírito. Temos procurado concretizar a nossa vocação à santidade? A nossa vida dá testemunho dos valores de Deus?

No Evangelho
, João Batista apresenta Jesus: Ele é “o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo”, o “Filho de Deus” que possui a plenitude do Espírito e que vem batizar os homens no Espírito. Jesus recebeu do Pai a missão de oferecer aos homens a vida nova de Deus; e irá cumpri-la com absoluta fidelidade. Nós, os que nos aproximamos de Jesus e que decidimos segui-l’O, continuamos a obra de Jesus: somos enviados a levar ao mundo a salvação de Deus.

Segundo João Batista, Jesus veio “batizar no Espírito”. A todos aqueles que se dispuserem a acolher a sua proposta, Jesus comunica a vida de Deus, a força de Deus, o amor de Deus (o Espírito Santo). Os primeiros discípulos de Jesus fizeram essa experiência no dia de Pentecostes (cf. At 2). Aquele que recebe esse “batismo no Espírito”, passa a viver segundo um dinamismo novo: os seus gestos, as suas palavras e o seu estilo de vida refletem a vida de Deus. O que é batizado no Espírito, renuncia à escravidão do pecado e passa a fazer as obras de Deus. Ser batizado no Espírito corresponde a um novo nascimento. Para nós, este caminho começou no dia em que fomos batizados, o dia em que nos comprometemos a caminhar com Jesus e recebemos d’Ele a vida de Deus. Temos vivido de forma coerente com essa opção? Renovamos em cada dia a nossa decisão por Jesus ou, entretanto, optamos por outros caminhos, outras propostas, outras formas de vida? A nossa vida, as nossas escolhas, os nossos valores, os nossos gestos refletem a opção que fizemos no dia em que fomos “batizados no Espírito”?

https://www.dehonianos.org/

sábado, 17 de janeiro de 2026

DE PRESIDENTE DA REPÚBLICA A BOLO SIDÓNIO





Será que um Presidente da República pode ser simbolizado por um simples pastel ou bolo?!... Acho que sim! No entanto, sempre dependerá da qualidade do material e do gosto ou desgosto de quem trabalha a massa e os ingredientes que o próprio pode oferecer, mas lá isso pode. Ai pode, pode! Em Viana do Castelo, há um bolo com formato retangular, em forma de caixão fúnebre, que, em jeito de homenagem, evoca um Presidente da República. São os ‘Sidónios’, os ‘Sidónios sem ossos’, um doce feito de amêndoa, açúcar e ovos, dizem os livros. A Brasileira, no centro histórico de Viana do Castelo, junto à Sé, na Rua Sacadura Cabral 25, e que escreve a sua história desde 1902, ficou famosa por dar origem a tais doces, os "Sidónios".
Foi Domingos Amorim Viana, emigrante no Brasil e natural de Santa Marta de Portuzelo, o mestre da proeza. Não sei se amigo se desamigo de Sidónio Pais, foi ele o autor do feito e da fama que, por causa dos sidónios, a confeitaria conquistou.
Sidónio Bernardino Cardoso da Silva Pais, nasceu a 1 de maio de 1872, às 21 horas, na Rua Direita n.º 115, em Caminha. Foi eleito Presidente da República a 28 de abril de 1918 e assassinado a 18 de Dezembro do mesmo ano. Era o filho mais velho de Rita Júlia Cardoso da Silva e de Sidónio Alberto Marrocos Pais, funcionário judicial, o qual, por razões profissionais, em 1879 foi mudado para Pedrógão e mais tarde para a Sertã, sempre acompanhado pela família. Tendo-se deslocado a Dornes, a casa do amigo Cotrim Garcez, faleceu subitamente, vítima de pneumonia, o que, por estar presente, causou profunda mossa na vida do jovem Sidónio, com 11 anos de idade, futuro Presidente da República. Após esta morte, a família regressou a Caminha. Aos 13 anos, Sidónio foi para Coimbra, levado pela sua tia Claudina, com o objetivo de prosseguir os estudos. No ano letivo de 1885-86 frequentou várias disciplinas em Coimbra, vindo fazer o exame ao Liceu de Viana do Castelo. Já com as habilitações necessárias para frequentar a universidade, regressou a Coimbra, onde se inscreveu na Universidade, em 1887, no curso de Filosofia e, em 1888, no curso de Matemática. Ingressou também na carreira militar, tendo assentado praça como voluntário a 12 de dezembro de 1888, no regimento de Infantaria n.º 23 em Coimbra, onde serviu até 1889. Em Novembro de 1890, foi chamado para ingressar na Escola do Exército, em Lisboa, interrompendo o curso universitário e vindo a fazer aí o curso de Artilharia. A 2 de Fevereiro de 1895, casou com Maria dos Prazeres Martins Bessa, na Igreja de S. Gonçalo, em Amarante. Nesse mesmo ano retomou a Universidade, finalizando os bacharelatos em Matemática e Filosofia. A 24 de Julho de 1898 doutorou-se em Matemática. Foi professor catedrático, em Coimbra, de Cálculo Diferencial e Integral e eleito vice-reitor após o 5 de Outubro de 1910. Além de outros afazeres e responsabilidades diversas, foi Deputado, Ministro do Fomento, das Finanças e representante de Portugal em Berlim, acabando por ser ele também quem liderou o golpe de Estado que afastou o governo de Afonso Costa e derrubou o Presidente da República, Bernardino Machado, em dezembro de 1917. Tendo presidido à Junta Militar, em 28 de abril de 1918 foi eleito Presidente da República, nas únicas eleições presidenciais da I República, por voto direto e universal, mas restrito a cidadãos do sexo masculino. Obteve 468 275 votos. Tomou posse a 9 de maio de 1918, tendo sido aclamado na varanda dos Paços do Concelho, em Lisboa. Passado o estado de graça, sucedem-se as greves, as contestações, e as tentativas de pôr fim ao regime sidonista. Após barriga farta no Restaurante Silva, no Chiado, a 14 de dezembro de 1918, Sidónio Pais dirigia-se para a estação do Rossio, em Lisboa, para partir para o Porto. Um esquerdista republicano, José Júlio da Costa, que não morria de amores por Sidónio Pais e o tinha como ditador e traidor, aproveitou o momento para, furando o cordão policial, ripar a arma de debaixo do seu capote alentejano e o alvejar com dois tiros. Foi grande o alarido e maior o rebuliço, tendo José Júlio da Costa sido brutalmente espancado pela multidão e Sidónio Pais falecido na Sala do Banco de Urgências do Hospital de São José. Após os exames forenses e ter estado alguns dias em câmara ardente na Sala dos Embaixadores, no Palácio de Belém, o funeral realizou-se a 21 de dezembro de 1918, com um cortejo fúnebre que saiu dos Paços do Concelho em direção ao Mosteiro dos Jerónimos, onde ficou. Foi um funeral marcante na cidade de Lisboa, permitindo as homenagens da nação, com pompa e circunstância. Com a sua morte desaparecia o regime por ele fundado, isto é, a “República Nova”, a qual já tinha alterado a Constituição e introduzido um regime presidencialista, uma experiência inovadora, escreve António Araújo, “uma experiência inovadora que antecipou em vários aspetos - populismo, chefia carismática, contornos autoritários - a tendência totalitária e fascizante de vários governos desenvolvida na Europa durante o período entre as duas guerras mundiais”. A par, nascia o mito do salvador, do “Santo Sidónio, do Presidente-Rei”, como o definiu Fernando Pessoa num dos seus poemas. Estava traçado o destino da primeira República e uma crise permanente que só terminou com a Revolução Nacional de 28 de maio de 1926, pondo fim ao regime. As conveniências do Estado Novo, porém, fizeram recuperar a personalidade política de Sidónio Pais, trasladando, em 1966, dos Jerónimos para o Panteão Nacional.
No livro “O essencial sobre Sidónio Pais”, António Araújo, seu autor, termina assim: “Antes do golpe que o levou à chefia do Estado português, Sidónio Pais não se destacara em nada. Militar de baixa patente, académico sem originalidade ou rasgo, parlamentar apagado e ministro efémero, diplomata no Reich que só falou com o imperador uma vez, Sidónio tornou-se, sem que ninguém o esperasse, Presidente da República e Comandante em Chefe das Forças de Terra e Mar. Este livro acompanha a vida daquele a quem muitos chamaram «Presidente-Rei», numa tentativa de explicar as causas para a sua ascensão meteórica e para o mito que ainda hoje o rodeia”.
Senhor Empregado de Mesa, saia, por favor, um Sidónio e um galão!...

D. Antonino Dias
Caminha, 16-01-2026.