Ontem, com um gesto rápido,
apanhei um pedaço do manto de Cristo.
Era um pedaço de silêncio.
E percebi…
que há silêncios que não são ausência —
são presença que ainda não sabemos escutar.
O Sábado Santo é isso:
um dia suspenso,
um tempo que não avança nem recua,
um espaço onde tudo parece ter terminado…
e nada ainda começou.
A cruz já ficou para trás.
A Ressurreição ainda não chegou.
E no meio… fica este silêncio.
Silêncio pesado.
Silêncio que dói.
Silêncio de quem perdeu,
de quem não entende,
de quem já não tem palavras para rezar.
A pedra foi colocada.
O sepulcro fechou-se.
E com ele, parecem fechar-se também
as certezas, os sonhos, a esperança.
Quantas vezes a nossa vida é assim…
um longo Sábado Santo.
E custa.
Custa quando Deus não fala.
Quando não intervém.
Quando parece ausente.
Mas talvez…
talvez seja precisamente aí
que Ele mais profundamente trabalha.
O Sábado Santo não é vazio.
É gestação.
É o tempo em que Deus parece ausente,
mas está a descer às profundezas da nossa noite,
aos nossos medos,
às nossas perdas,
às zonas onde já não acreditamos em nada…
E aí, onde ninguém chega,
Ele entra.
Rompe cadeias.
Abre caminhos.
Acende luz.
Por isso, este silêncio não é o fim.
É um intervalo sagrado.
É o tempo da fé mais pura —
aquela que não vê,
mas permanece.
É o tempo de aprender a esperar.
A confiar sem garantias.
A permanecer, mesmo sem sentir.
Talvez hoje a tua vida esteja assim:
em suspenso,
em silêncio,
num Sábado que parece não ter fim.
Não fujas.
Fica.
Escuta.
Acolhe.
Porque é neste silêncio
que Deus te refaz por dentro.
E mesmo que ainda não o vejas…
mesmo que tudo pareça fechado…
a pedra já começou a mover-se.
Padre João Torres
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