terça-feira, 31 de março de 2026

C(alma)

 



Calma.

Outra das minhas palavras favoritas.

Calma principalmente no coração.

Calma na pressa dos dias, que amanhã já são anos.

Calma para contemplar o pôr do sol, a lua que rasga a noite, as gotas de orvalho pela manhã.

Calma para sentir o cheiro das flores e a brisa do mar.

Calma para saborear a maçã.

Calma para olhar nos olhos, para escutar atentamente, para acordar a Alma.

Calma para perceber que com calma o mundo também avança.

C(alma) que o amor nunca falha.



Lucília Miranda

segunda-feira, 30 de março de 2026

Quando se ama.

 


...quando se ama.
Todas as palavras me parecem
verdadeiramente a mais neste dia.
...porque diante de um crucificado
temos que aprender a fazer silêncio...
o “Maior” em Deus não se veste
com as roupas dos grandes deste mundo
nem lhes imita o destino...
Entra em Jerusalém no meio de palmas e ramos…
Aclamado como rei.
Os ramos das aclamações triunfais tornam-se cinza…
Como todos os poderes deste mundo!
A Hora de Jesus não é a Hora do sucesso e das palmas do mundo.
Tudo acontece tão rápido…
perseguido, traído, preso, negado,
condenado à falsa fé e assassinado.
A suprema beleza da história
aconteceu fora de Jerusalém,
sobre a colina,
onde o Filho de Deus se deixa pregar,
pobre e nu, a um lenho para morrer de amor.
Compreendeu-o primeiro não um discípulo mas um estrangeiro,
o centurião pagão: “Na verdade, este homem era filho de Deus!”
«Porquê a cruz
o sorriso
a pena inumana?
Acreditai-me
é muito simples
quando se ama» (J. Twardowski).
Texto: Pe. Rui Santiago

domingo, 29 de março de 2026

Procissão de Ramos

 

A celebração do Domingo de Ramos, hoje, dia 29 de março, abriu solenemente a programação da Semana Santa na Paróquia. Com a tradicional Benção dos Ramos na Igreja de Nª Srª da Luz, seguida da procissão de Ramos até *a igreja Matriz onde foi celebrada missa ás 12h.











DOMINGO DE RAMOS

 

https://www.youtube.com/watch?v=eq7Ruq5v5hs&list=PLAqKRngqwuSfPdOPEvu7KzjdvMvB1w33f&index=165

A liturgia deste último domingo da Quaresma convida-nos a contemplar esse Deus que, por amor, desceu ao nosso encontro, partilhou a nossa humanidade, fez-Se servo dos homens, deixou-Se matar para que o egoísmo e o pecado fossem vencidos. A cruz (que a liturgia deste domingo coloca no horizonte próximo de Jesus) apresenta-nos a lição suprema, o último passo desse caminho de vida nova que, em Jesus, Deus nos propõe: a doação da vida por amor.

A primeira leitura apresenta-nos um profeta anónimo, chamado por Deus a testemunhar no meio das nações a Palavra da salvação. Apesar do sofrimento e da perseguição, o profeta confiou em Deus e concretizou, com teimosa fidelidade, os projectos de Deus. Os primeiros cristãos viram neste "servo" a figura de Jesus.
Jesus, o "servo" sofredor, que faz da sua vida um dom por amor, mostra aos seus seguidores o caminho: a vida, quando é posta ao serviço da libertação dos pobres e dos oprimidos, não é perdida mesmo que pareça, em termos humanos, fracassada e sem sentido. Temos a coragem de fazer da nossa vida uma entrega radical ao projecto de Deus e à libertação dos nossos irmãos? O que é que ainda entrava a nossa aceitação de uma opção deste tipo? Temos consciência de que, ao escolher este caminho, estamos a gerar vida nova, para nós e para os nossos irmãos?
Temos consciência de que a nossa missão profética passa por sermos Palavra viva de Deus? Nas nossas palavras, nos nossos gestos, no nosso testemunho, a proposta libertadora de Deus alcança o mundo e o coração dos homens?

A segunda leitura apresenta-nos o exemplo de Cristo. Ele prescindiu do orgulho e da arrogância, para escolher a obediência ao Pai e o serviço aos homens, até ao dom da vida. É esse mesmo caminho de vida que a Palavra de Deus nos propõe.
Os valores que marcaram a existência de Cristo continuam a não ser demasiado apreciados no séc. XXI. De acordo com os critérios que presidem à construção do nosso mundo, os grandes "ganhadores" não são os que põem a sua vida ao serviço dos outros, com humildade e simplicidade, mas são os que enfrentam o mundo com agressividade, com auto-suficiência e fazem por ser os melhores, mesmo que isso signifique não olhar a meios para passar à frente dos outros. Como pode um cristão (obrigado a viver inserido neste mundo e a ser competitivo) conviver com estes valores?
Os acontecimentos que, nesta semana, vamos celebrar, garantem-nos que o caminho do dom da vida não é um caminho de "perdedores" e fracassados: o caminho do dom da vida conduz ao sepulcro vazio da manhã de Páscoa, à ressurreição. É um caminho que garante a vitória e a vida plena.

O Evangelho convida-nos a contemplar a paixão e morte de Jesus: é o momento supremo de uma vida feita dom e serviço, a fim de libertar os homens de tudo aquilo que gera egoísmo e escravidão. Na cruz, revela-se o amor de Deus - esse amor que não guarda nada para si, mas que se faz dom total.
Contemplar a cruz, onde se manifesta o amor e a entrega de Jesus, significa assumir a mesma atitude e solidarizar-se com aqueles que são crucificados neste mundo: os que sofrem violência, os que são explorados, os que são excluídos, os que são privados de direitos e de dignidade... Olhar a cruz de Jesus significa denunciar tudo o que gera ódio, divisão, medo, em termos de estruturas, valores, práticas, ideologias; significa evitar que os homens continuem a crucificar outros homens; significa aprender com Jesus a entregar a vida por amor... Viver deste jeito pode conduzir à morte; mas o cristão sabe que amar como Jesus é viver a partir de uma dinâmica que a morte não pode vencer: o amor gera vida nova e introduz na nossa carne os dinamismos da ressurreição.

https://www.dehonianos.org/

sábado, 28 de março de 2026

INFORMAÇÃO PAROQUIAL

                      ZONA PASTORAL DE ARRONCHES

PREPARAR E CELEBRAR A PÁSCOA 2026



 Domingo 29 de Março -- Domingo de Ramos
Muda a hora, entra em vigor a hora de Verão, adiantar os relógios 1hora

ARRONCHES -11h45m- BENÇÃO DOS RAMOS, Igreja de Nª Srª da Luz seguida de PROCISSÃO até á Matriz. 12h00 Missa
 
15h00 - Missa e Benção dos Ramos em Besteiros ( Srª da Lapa)

SEGUNDA- FEIRA, 30 DE MARÇO- ALEGRETE-18H00. CONFISSÕES
SEGUNDA- FEIRA, 30 DE MARÇO- ARRONCHES-19H00. CONFISSÕES

QUINTA- FEIRA - 2 DE ABRIL- SÉ DE PORTALEGRE- 10H00- MISSA CRISMAL COM BENÇÃO DOS SANTOS ÓLEOS

QUINTA- FEIRA - 2 DE ABRIL- ARRONCHES- 18H00- CELEBRAÇÃO DA CEIA DO SENHOR, MISSA E LAVA-PÉS

QUINTA- FEIRA - 2 DE ABRIL- ALEGRETE- 18H00- CELEBRAÇÃO DA CEIA DO SENHOR,

SEXTA-FEIRA- 3 DE ABRIL- 15H00 - ARRONCHES. CELEBRAÇÃO DA PAIXÃO DE JESUS

SEXTA-FEIRA- 3 DE ABRIL- 15H00 - ALEGRETE. CELEBRAÇÃO DA PAIXÃO DE JESUS

SEXTA-FEIRA- 3 DE ABRIL- 21H00 - VIA SACRA EM VALE DE CAVALOS

SÁBADO, 4 DE ABRIL- ARRONCHES. 21H30- SOLENE VIGÍLIA PASCAL COM AS 4 LITURGIAS: LITURGIA DALUZ E BENÇÃO DO LUME NOVO E DOS CÍRIOS PASCAIS DE TODAS AS COMUNIDADES, LITURGIA DA PALAVRA, BENÇÃO DA ÁGUA E LITURGIA BATISMAL E LITURGIA EUCARÍSTICA.

DOMINGO, 5 DE ABRIL- PÁSCOA DA RESSURREIÇÃO DE JESUS
( Horário habitual das missas nas Paróquias)

QUINTA-FEIRA, 9 DE ABRIL- ARRONCHES-21H00- CONFISSÕES E ENSAIO DOS CRISMANDOS

DOMINGO, 12 DE ABRIL- ARRONCHES- 12H00- CELEBRAÇÃODOS CRISMA DOS JOVENS DE ARRONCHES E DEGOLADOS  E ADULTOS QUE SE PREPARAM PARA ISSO, PRESIDIDA PELO NOSSO BISPO, D. PEDRO FERNANDES.

Quando vier a Primavera. Alberto Caeiro

 


https://www.youtube.com/watch?v=ZNWEmKLLFWA




Alberto Caeiro é o Mestre dos heterónimos pessoanos e do próprio Fernando Pessoa. Poeta bucólico, "de espécie complicada", Caeiro dizia que "o verso nunca se emenda". Recordamos o autor de "O Guardador de Rebanhos" com este poema "Quando vier a Primavera", dito pelo ator Pedro Lamares.


Quando vier a primavera,
Se eu já estiver morto,
As flores florirão da mesma maneira
E as árvores não serão menos verdes que na primavera passada.
A realidade não precisa de mim.

Sinto uma alegria enorme
Ao pensar que a minha morte não tem importância nenhuma.

Se soubesse que amanhã morria
E a primavera era depois de amanhã,
Morreria contente, porque ela era depois de amanhã.
Se esse é o seu tempo, quando havia ela de vir senão no seu tempo?
Gosto que tudo seja real e que tudo esteja certo;
E gosto porque assim seria, mesmo que eu não gostasse.
Por isso, se morrer agora, morro contente,
Porque tudo é real e tudo está certo.

Podem rezar latim sobre o meu caixão, se quiserem.
Se quiserem, podem dançar e cantar à roda dele.
Não tenho preferências para quando já não puder ter preferências.
O que for, quando for, é que será o que é.

Alberto Caeiro in Poemas inconjuntos

sexta-feira, 27 de março de 2026

IMAGEM MARCANTE!... HISTÓRICA!... INESQUECÍVEL! ...



Março de 2020, dia 27, sexta-feira!
 Dia chuvoso aquele, dramático e triste! Ao entardecer, numa Praça habituada a multidões diárias, mas totalmente vazia, Francisco, sozinho, em direto para todo o mundo, sobe vagarosamente aquela praça sob o olhar atento e meigo de crentes e não crentes. Foi um momento solene e comovente, para, qual rocha firme em papel de Pedro, como interlocutor da solidariedade humana e da esperança no Senhor da vida, abraçar a Humanidade sofrida e fazer da Palavra de Deus e da oração um gesto extraordinariamente solidário, espiritualmente unificador, pedindo ao Senhor a bonança no meio daquela tempestade pandémica.
Como ele afirmou, “Densas trevas cobriram as nossas praças, ruas e cidades; apoderaram-se das nossas vidas, enchendo tudo dum silêncio ensurdecedor e um vazio desolador, que paralisa tudo à sua passagem: pressente-se no ar, nota-se nos gestos, dizem-no os olhares. Revemo-nos temerosos e perdidos. À semelhança dos discípulos do Evangelho, fomos surpreendidos por uma tempestade inesperada e furibunda. Demo-nos conta de estar no mesmo barco, todos frágeis e desorientados mas ao mesmo tempo importantes e necessários: todos chamados a remar juntos, todos carecidos de mútuo encorajamento. E, neste barco, estamos todos. Tal como os discípulos que, falando a uma só voz, dizem angustiados “vamos perecer”. E o Papa reconhecia que no meio de toda esta história, muitos companheiros de viagem, muitas pessoas habitualmente esquecidas, escreveram “os acontecimentos decisivos da nossa história: médicos, enfermeiros e enfermeiras, trabalhadores dos supermercados, pessoal da limpeza, curadores, transportadores, forças policiais, voluntários, sacerdotes, religiosas e muitos - mas muitos - outros que compreenderam que ninguém se salva sozinho. Perante o sofrimento, onde se mede o verdadeiro desenvolvimento dos nossos povos, descobrimos e experimentamos a oração sacerdotal de Jesus: «Que todos sejam um só» (Jo 17, 21). Quantas pessoas dia a dia exercitam a paciência e infundem esperança, tendo a peito não semear pânico, mas corresponsabilidade! Quantos pais, mães, avôs e avós, professores mostram às nossas crianças, com pequenos gestos do dia a dia, como enfrentar e atravessar uma crise, readaptando hábitos, levantando o olhar e estimulando a oração! Quantas pessoas rezam, se imolam e intercedem pelo bem de todos! A oração e o serviço silencioso: são as nossas armas vencedoras”.
Francisco baseara a sua reflexão em Mc 4, 35-41, quando os discípulos, aflitos no meio duma tempestade no mar da Galileia, acordam Jesus que dormia sossegado na proa do barco e lhes disse: “Porque sois tão medrosos? Ainda não tendes fé?”. A pandemia, tal como esta “tempestade – dizia Francisco - desmascara a nossa vulnerabilidade e deixa a descoberto as falsas e supérfluas seguranças com que construímos os nossos programas, os nossos projetos, os nossos hábitos e prioridades. Mostra-nos como deixamos adormecido e abandonado aquilo que nutre, sustenta e dá força à nossa vida e à nossa comunidade. A tempestade põe a descoberto todos os propósitos de ‘empacotar’ e esquecer o que alimentou a alma dos nossos povos; todas as tentativas de anestesiar com hábitos aparentemente ‘salvadores’, incapazes de fazer apelo às nossas raízes e evocar a memória dos nossos idosos, privando-nos assim da imunidade necessária para enfrentar as adversidades. Com a tempestade, caiu a maquilhagem dos estereótipos com que mascaramos o nosso ‘eu’ sempre preocupado com a própria imagem; e ficou a descoberto, uma vez mais, aquela (abençoada) pertença comum a que não nos podemos subtrair: a pertença como irmãos”.
“Porque sois tão medrosos? Ainda não tendes fé?”. Francisco afirmava que esta palavra de Jesus “atinge e toca-nos a todos. Neste nosso mundo, que Tu amas mais do que nós, avançamos a toda velocidade, sentindo-nos em tudo fortes e capazes. Na nossa avidez de lucro, deixamo-nos absorver pelas coisas e transtornar pela pressa. Não nos detivemos perante os teus apelos, não despertamos face a guerras e injustiças planetárias, não ouvimos o grito dos pobres e do nosso planeta gravemente enfermo. Avançamos, destemidos, pensando que continuaríamos sempre saudáveis num mundo doente. Agora, nós, sentindo-nos em mar agitado, imploramos-Te: “Acorda, Senhor!”. Nesta Quaresma, dizia o Papa, ressoa este apelo urgente: “Convertei-vos…”. Um apelo sempre atual: é “o tempo de decidir o que conta e o que passa, de separar o que é necessário daquilo que não o é. É o tempo de reajustar a rota da vida rumo a Ti, Senhor, e aos outros (...) Não somos autossuficientes, sozinhos afundamo-nos: precisamos do Senhor como os antigos navegadores, das estrelas. Convidemos Jesus a subir para o barco da nossa vida. Confiemos-Lhe os nossos medos, para que Ele os vença. Com Ele a bordo, experimentaremos – como os discípulos – que não há naufrágio. Porque esta é a força de Deus: fazer resultar em bem tudo o que nos acontece, mesmo as coisas ruins. Ele serena as nossas tempestades, porque, com Deus, a vida não morre jamais”.

D. Antonino Dias
Caminha, 27-03-2026.

Papa visita Mónaco com apelos à paz e à ecologia

Leão XIV vai realizar primeira viagem internacional na Europa



Cidade do Vaticano, 25 mar 2026 (Ecclesia) – A Santa Sé apresentou hoje o programa da viagem de Leão XIV ao Principado de Mónaco, agendada para 28 de março, destacando temas como a paz, a defesa da vida e a ecologia.

“[O Mónaco é um] país de dimensões reduzidas, mas com um grande horizonte, no qual o Pontífice poderá oferecer uma primeira reflexão sobre o seu papel na Europa”, disse aos jornalistas o diretor da Sala de Imprensa da Santa Sé, Matteo Bruni,

A deslocação, na véspera da Semana Santa, é a primeira de um Papa na era contemporânea ao Mónaco, segundo Estado mais pequeno do mundo, a seguir ao Vaticano.

Matteo Bruni destacou, em conferência de imprensa, que a viagem acontece numa “época de polarização social, em que muitas vezes as vidas são negligenciadas e se nota a necessidade de recompor as fraturas”.

O portal de notícias de Vaticano destaca a existência de imigrantes de 150 países, no Principado, com destaque para a comunidade portuguesa.

O programa oficial arranca às 09h00, com a chegada ao heliporto de Mónaco, onde Leão XIV será recebido pelo Príncipe Alberto II e pela Princesa Charlene, seguindo-se uma visita de cortesia ao Palácio do Príncipe.

Após uma passagem pela Catedral da Imaculada Conceição para um momento de oração com a comunidade católica local, o Papa desloca-se à igreja de Santa Devota para um encontro com jovens e catecúmenos, onde ouvirá testemunhos dos participantes.

O ponto alto desta viagem internacional acontece a partir das 15h30 (menos uma em Lisboa), com a celebração da missa no estádio Louis II, sob a presidência do Papa, perante cerca de 15 mil fiéis.

Todos os discursos da visita serão proferidos em língua francesa, adiantou o Vaticano, explicando que esta deslocação “relâmpago” foi encaixada na agenda antes da viagem apostólica a África, prevista para o mês de abril.

O Mónaco é um dos últimos países europeus a manter o catolicismo como religião de Estado; a Constituição de 1962 garante liberdade de culto aos residentes.

A primeira viagem internacional de Leão XIV levou-o à Turquia e ao Líbano, entre 27 de novembro e 2 de dezembro de 2025.

OC

quinta-feira, 26 de março de 2026

Chorar é amar com os olhos




A morte é o maior inimigo do homem, o mais temível. Ela é a montra maior da nossa fragilidade.

Para o homem contemporâneo, a morte é um tabu: não só temos medo de falar sobre ela, como também lutamos para a esconder. Por exemplo: uma criança ver o cadáver de um amigo ou familiar, pode ficar traumatizada. Ou, o medo irracional de manter o corpo em casa antes do funeral... Escondemos o luto…

No entanto, os cristãos recebem o dom de encarar a morte com esperança! A luz da fé deve iluminar o olhar e ajudar a enfrentar este acontecimento com confiança, na certeza de que a vida não é tirada, mas sim transformada. É verdade que ninguém quer morrer. O crente, porém, pode reconciliar-se com a morte ao ponto de a chamar "irmã", como Francisco de Assis.

A fé em Jesus, morto e ressuscitado, é o fundamento deste dom: o Filho de Deus, com a sua paixão, morte e ressurreição, venceu-a. «Onde está, ó morte, a tua vitória? Onde está, ó morte, o teu aguilhão? O aguilhão da morte é o pecado, e a força do pecado é a lei. Graças a Deus, que nos dá a vitória por meio de nosso Senhor Jesus Cristo!». (1 Coríntios 15. 54-57)

Vista na perspetiva da Páscoa, a morte deixa de nos aterrorizar, revelando-se como uma porta que se abre para uma vida plena e abundante.

Ouvimos no Evangelho deste domingo: «Eu sou a ressurreição e a vida». Observemos a ordem das palavras. A ressurreição vem em primeiro lugar, não a vida. Para Jesus, a libertação vem em primeiro lugar, e depois a vida autêntica.

Viver é o resultado de muitas ressurreições: do medo, do desespero, da violência, da solidão. A ressurreição é uma questão do agora, deste momento! Erguer-se de vidas tranquilas e medíocres, de vidas sem sonhos.

Quantos amigos rodeiam Lázaro, quantas lágrimas! Marta e Maria choram, os judeus, e até Jesus. Este, demonstrando a humanidade de Deus. Admirados, dizem todos os presentes: "Vejam como Ele o amava". Chorar é amar com os olhos. Lázaro ressuscita não pelo poder de um Deus, mas pelo amor de um amigo.

Invejo Lázaro, não porque regressa à vida uma segunda vez, mas porque vive num mundo cheio de amigos.

O "problema da morte" é a oportunidade de meditar sobre o sentido último da nossa existência, ela ajuda-nos a viver melhor o presente.

«O que os olhos não viram, os ouvidos não ouviram e o coração do homem não imaginou, são as coisas que Deus tem preparado para aqueles que o amam». (1 Coríntios 2. 9)


Paulo Victória

quarta-feira, 25 de março de 2026

Papa apela a superação de dinâmicas marcadas por violência, consumo e superficialidade

Leão XIV sublinha proximidade da Semana Santa, apontando a fé na Ressurreição como resposta à dispersão contemporânea




Vaticano, 22 mar 2026 (Ecclesia) – Leão XIV alertou hoje no Vaticano para a necessidade de superar dinâmicas de violência, consumo e superficialidade, apontando à próxima celebração da Semana Santa.

“A narrativa da ressurreição de Lázaro convida-nos a estar atentos a essa necessidade profunda e, com a força do Espírito Santo, a libertar os nossos corações de hábitos, condicionamentos e formas de pensar que, como grandes pedras, nos aprisionam nos sepulcros do egoísmo, do materialismo, da violência e da superficialidade”, disse o Papa, desde a janela do apartamento pontifício, antes da recitação do ângelus.

Perante milhares de pessoas na Praça de São Pedro, o pontífice criticou a procura incessante por novidades, alertando para o sacrifício de valores fundamentais.

“Este mundo parece estar em constante busca de mudanças e novidades, mesmo que isso implique sacrificar coisas importantes – tempo, energias, valores, afetos –, como se a fama, os bens materiais, os divertimentos e as relações passageiras pudessem preencher o nosso coração ou tornar-nos imortais”, advertiu.

O Papa identificou esta desorientação atual como “sintoma de uma necessidade de infinito” que cada um traz em si, mas “cuja resposta não pode ser confiada ao que é efémero.”

A reflexão exortou os católicos a libertarem-se do egoísmo na preparação para a Semana Santa, apontando a fé na Ressurreição como resposta à dispersão contemporânea.

“A Liturgia convida-nos a reviver, na Semana Santa que se aproxima, os acontecimentos da Paixão do Senhor – a entrada em Jerusalém, a Última Ceia, o julgamento, a crucificação e o sepultamento – para compreender o seu sentido mais autêntico e abrir-nos ao dom da graça que eles encerram”, afirmou.

A intervenção dominical concluiu-se com um desafio à renovação interior.

“Também a nós Jesus ordena ‘vem cá para fora!’, encorajando-nos a sair, regenerados pela sua graça, desses espaços confinados, para caminharmos na luz do amor, como mulheres e homens novos, capazes de esperar e amar segundo o modelo da sua caridade infinita, sem cálculos e sem limites”, observou.

OC

terça-feira, 24 de março de 2026

A dor torna-nos mais sábios


Ninguém gosta de sofrer, de passar dificuldades e de provações. Ninguém gosta de contar o dinheiro ao fim do mês, de se sentir injustiçado e só. Ninguém gosta de perder quem ama, de viver em guerra e conflito constante. Ninguém…

Mas há algo no processo do sofrimento que nos transforma e atrevo-me a dizer: Torna-nos mais sábios!

Podemos achar que já vivemos muito e sentimos dores terríveis, mas sempre que a vida nos apresenta uma contrariedade somos novamente postos à prova. Reclamamos, questionamos Deus, zangamo-nos contra o mundo e contra os nossos mas, no fim acabamos por resistir e seguir caminho com uma resiliência ímpar.

Nesse processo, somos convidados, sem que às vezes tenhamos consciência disso, a olhar o mundo de uma maneira diferente. Olhamos para o que nos rodeia com novos olhos e nem sempre de amor. A raiva e a revolta podem toldar-nos a mente, mas no fim, se quisermos, o amor sobressai e manifesta-se através de nós. Podes estar num momento complicado, mas se vires alguém pior do que tu, és bem capaz de tirar a única camisola que te resta.

És capaz de reconhecer em ti sentimentos que outrora não tinhas sentido ou prestado a atenção. A dor pode endurecer o nosso coração, apenas para proteger temporariamente o que de precioso queremos guardar: a nossa dignidade.

No processo da dor, podes zangar-te com todos, e em especial contigo e questionar: Porque eu Senhor?!

Não é fácil olhar para o sofrimento como aprendizagem, mas é ele que nos permite reconhecer os nossos limites, forças e âncoras.

Conheço algumas pessoas que estão a passar o “inferno” na sua vida, mas que se recusam baixar os braços e querem assumir a sua dor sem pieguices mas como um exemplo de humanidade para os outros. Sim, quem sofre consegue sempre ver o bom onde para outros é rotina. Reconhece melhor do que ninguém os gestos de amor e empatia, agarra-se com unhas e dentes ao que os outros dão e são, nem que seja apenas uma mensagem ou um gesto de Luz.

Se pudesses afastar esse “cálice” de ti, sei que o farias, eu também, mas se tiveres que beber dele acredita que há algo a transformar-se e em ti e que será um exemplo para tantos.

Que a tua dor encontre o amparo e a capacidade de reconhecer que és mais sábia do que antes.

E tu amiga, o que tem aprendido com a dor?


Raquel Rodrigues

segunda-feira, 23 de março de 2026

O dia em que a morte morreu...

 


O dia em que a morte morreu...
A morte, na realidade, vence e engole a vida. Porém, aquilo que vence a morte é o amor. O motivo da ressurreição de Lázaro é o amor de Jesus, um amor até às lágrimas, até ao fim.
A rebelião de Jesus contra a morte passa por três níveis:
Removei a pedra. Fazei rolar os penedos que estão à entrada do coração, os escombros sob os quais vos sepultastes com as vossas próprias mãos; afastai os sentimentos de culpa, a incapacidade de vos perdoardes a vós mesmos e aos outros; afastai a memória amarga do mal recebido...
Lázaro, vem para fora! E di-lo a mim: vem para fora da gruta negra dos arrependimentos e das desilusões, dos olhares só para ti mesmo...
Libertem-no e deixem-no ir. Libertai-vos todos da ideia de que a morte é o fim de uma pessoa. Libertem-no de máscaras e medos. E depois: deixem-no ir, deem-lhe uma estrada, e amigos com quem caminhar, algumas lágrimas e esperança, para habitar...
Que sentido de futuro e de liberdade emana deste Jesus que sabe amar, chorar e gritar; que liberta e coloca caminhos no coração. E compreendo que Lázaro sou eu. Eu sou Aquele-que-Tu-amas, que nunca aceitarás ver acabar no nada da morte.


Padre João Torres

domingo, 22 de março de 2026

“Eu sou a ressurreição e a vida.

 

https://www.youtube.com/watch?v=7VtnQ_ICuGs&list=PLAqKRngqwuSfPdOPEvu7KzjdvMvB1w33f&index=166



A quinta etapa do nosso caminho quaresmal, a Palavra de Deus continua a desafiar-nos à conversão, ao reencontro com Deus, à vida nova. Este é o tempo de desatar os nós que nos prendem à morte, de sair dos cantos sombrios do nosso comodismo e de abraçar aquela oferta irrecusável de vida que Deus insistentemente nos faz.

Na primeira leitura, através da voz profética de Ezequiel, Javé promete aos habitantes de Judá exilados numa terra estrangeira, desesperados e sem futuro, uma vida nova. “Vou abrir os vossos túmulos e deles vos farei ressuscitar, ó meu povo” – diz-lhes Deus. O desígnio de Deus para os seus queridos filhos é e sempre será um desígnio de vida; por isso, Ele nunca deixará de vir ao encontro do seu povo e de o guiar, pela sua própria mão, até às fontes da vida eterna.
É Deus que vem em nosso auxílio para nos tirar dos “túmulos” onde estamos encerrados; é Deus que infunde em nós o seu Espírito, esse Espírito que nos transforma, que nos renova, que nos faz reviver… No entanto Deus, tantas e tantas vezes, vem ao nosso encontro através de pessoas – como Ezequiel – que nos oferecem, em gestos concretos, a bondade, a misericórdia, a vida e o amor de Deus. Deus age no mundo e na vida dos homens através dos seus enviados. Talvez Deus também conte connosco para sermos, junto dos nossos irmãos, testemunhas e sinais da sua bondade e do seu amor. Dispomo-nos a colaborar com Deus e a gastar algum do nosso tempo a “curar” os males que ferem os irmãos que caminham ao nosso lado?

O Evangelho oferece-nos – a partir da história de um amigo de Jesus chamado Lázaro – uma magnífica catequese sobre o projeto de vida que Deus tem para o homem. Diz-nos que Jesus veio ao nosso encontro, enviado por Deus, para nos oferecer uma vida que a morte nunca poderá vencer. Àqueles que manifestam interesse em acolher essa vida, Jesus garante-lhes: “Eu sou a ressurreição e a vida. Quem acredita em Mim, ainda que tenha morrido, viverá; e todo aquele que vive e acredita em Mim, nunca morrerá”. Chegamos à vida se ousarmos seguir atrás de Jesus, como discípulos.
Estamos a percorrer o “caminho quaresmal”, o caminho que nos leva em direção à Páscoa, à vida nova, à Ressurreição. É uma boa oportunidade para redescobrirmos o compromisso que assumimos no dia do nosso batismo e para redirecionarmos o sentido da nossa existência. Talvez as nossas mãos, os nossos pés, o nosso coração, estejam enfaixados por ligaduras que nos prendem na morte e que nos impedem de sair dos túmulos sujos em que nos deixamos encerrar pelo nosso egoísmo, pelo nosso comodismo, pelo nosso orgulho, pela nossa ambição, pela nossa autossuficiência… Talvez necessitemos de prestar atenção à voz de Jesus que nos chama (“Lázaro, sai para fora”) e que nos convida a começar uma vida nova, uma vida gloriosa e cheia de sentido. Quais são as “ataduras” que nos mantêm agarrados a uma vida de sombras e de escravidões? Nesta Páscoa, estamos dispostos a ressuscitar com Jesus e a passar com Ele da morte para a vida?

Na segunda leitura o apóstolo Paulo convida os cristãos de Roma – e os discípulos de Jesus de todos os tempos e lugares – a relembrarem o compromisso que assumiram no dia do seu batismo e a viverem sob o domínio “do Espírito”. Aqueles que escolheram Cristo e que vivem no Espírito, pertencem a Deus e integram a família de Deus. Estão destinados à vida eterna, à vida plena e verdadeira.
Nós, os que fomos batizados e que estamos contentes com essa opção, temos procurado viver de forma coerente a nossa vocação batismal e caminhamos “no Espírito”? Nós os que fomos batizados mas depois nos desleixamos e deixamos de dar importância ao seguimento de Jesus, não gostaríamos de renovar o nosso compromisso batismal, de retomar o nosso contacto com Jesus e de viver de forma coerente com a opção que fizemos quando fomos batizados? Nós os que desistimos de Jesus e optamos conscientemente por outros caminhos, não estaríamos interessados em redescobrir a beleza de “viver no Espírito”, de procurar um sentido e uma realização mais completa da nossa vida?


https://www.dehonianos.org/

sábado, 21 de março de 2026

Obrigada



Se há palavras que fazem parte de mim, obrigada, é sem dúvida, uma delas. Aliás sinto-me despida se a deixo em casa, motivo pelo qual andamos sempre juntas.

Devo dizer que me faz imensa confusão quem não a veste, quem não se lembra dela, como aqueles a quem chamo "os sem noção"!

Fico triste com a falta de gratidão que nos rodeia. Mesmo. É que ainda quero acreditar que para cada causa há um efeito e assim sendo, para cada gesto de educação, de respeito, de empatia, de trabalho, de boa vontade deve seguir-se sempre o nosso obrigado. Ainda conservo essa expectativa e, mais ainda, essa esperança.

Tenho, porém, vindo a perceber que esse obrigado não tem que ter ligação direta e que se não recebes de quem dás, talvez o recebas de Deus e do Universo. E procuro não desistir dessa convicção, pois creio que há sempre uma luz bem perto de nós que nos guia e sempre uma ponte para a travessia do bem.

E é, certamente, "dando que se recebe".



Lucília Miranda

sexta-feira, 20 de março de 2026

UM JOVEM CRIMINOSO A CAMINHO DOS ALTARES?!...


Sim, é verdade! A sua Quaresma fê-lo entender, desejar e viver a vida nova do Mistério Pascal! Se a sua conversão comoveu multidões, não deixou de ser escândalo para uns, loucura para outros e indignação para puritanos, desconfiados, maldizentes e ciumentos sem pecado. O que interessa, porém, é que foi uma sublime e feliz surpresa de Deus para todos quantos acreditam que não há pecado, por mais grave que seja, que retraia Deus Pai, rico em Misericórdia, de vir ao encontro de qualquer filho pródigo para lhe reiterar, com um abraço e lágrimas de alegria e festa, a sua proposta de amor, de vida e liberdade, de regresso a casa, de salvação! Recordemos então Jacques Fesch, nascido de família abastada a 6 de abril de 1930, em Saint-Germain-en-Laye, França, sendo decapitado aos 27 anos de idade, depois de três anos na prisão de Santé, Paris. Está em curso o seu processo de beatificação.
Sem gosto pelos estudos, na Alemanha combateu pelo exército francês. Após o serviço militar, arranjaram-lhe emprego com alto salário, sendo demitido após três meses. Com vida mundana e fama de playboy, casou aos 21 anos, com Pierrette, filha duma vizinha, da qual nasceu a filha Verónica. Os seus pais, porém, não aceitaram bem a nora por ser filha de pai judeu, eram antissemitas. Sem que o casamento lhe alterasse os modos de vida, nasceu-lhe Gerardo, um filho bastardo que foi entregue aos cuidados de um orfanato. Desnorteado, inquieto, divorciado, pensou aliviar-se, navegando à vota do mundo. Seus pais, tendo-o como sonhador e mais o quê, não aceitaram o seu pedido de ajuda para comprar um barco e iniciar a viagem. Porque estava com ela ferrada, não desiste da ideia e tenta resolver a situação junto de um cambista famoso. Dirige-se à casa de câmbio, aponta um revolver e exige o dinheiro guardado na registadora. O cambista reage e é atingido com duas coronhadas na cabeça. Fugindo com a quantia roubada por rua movimentada, depara-se com um policia que havia sido alertado e lhe ordena que se entregue. Em vez disso, dispara sobre o polícia e mata-o. A multidão persegue furiosa o assassino, que, continuando a disparar, ainda atinge uma jovem no pescoço, mas logo se rende e é preso. Os ecos do crime soaram ao longe. O homicida não era um qualquer fulano, era o filho do diretor de um banco belga instalado em França. Sem manifestar arrependimento, limita-se a dizer, sarcasticamente, que só se arrepende “de não ter usado uma metralhadora”. Já na prisão, à espera de julgamento, disse ao Capelão: “Não tenho fé. Não se preocupe comigo”. Se o Capelão não deixou de se preocupar com ele, também o seu advogado, que era católico convicto, decide batalhar não só para lhe salvar a vida, mas, sobretudo, para lhe salvar a alma. Dizem as crónicas que, Jacques, com o passar do tempo começou a sentir uma angústia profunda. Não só pela vergonha a que sujeitou a sua família, mas também pela pena a que iria ser condenado. Pirrónico e descrente, chegou a ponderar dar cabo da própria vida. No entanto, Deus tem os seus caminhos e o caminho faz-se caminhando, mesmo que difícil e lentamente. Enquanto o seu crime corria pelas salas dos tribunais à procura de justiça, o jovem criminoso, na solidão da sua cela, lia o que lhe chegava às mãos. Embora sem formação cristã - seu pai era ateu e de vida pouco recomendável -, também o Capelão e o seu Advogado lhe facilitavam leituras espirituais. Tocado pelo que lia, ficou profundamente sensibilizado pelas pessoas de Francisco de Assis, Teresinha do Menino Jesus e Teresa de Ávila. Na noite de 28 de fevereiro de 1955, passou por uma experiência mística que o abalou seriamente. É ele que escreve: “Estava deitado, olhos abertos, realmente a sofrer pela primeira vez na vida. Repentinamente, um grito saiu de meu peito, uma súplica por ajuda – Meu Deus – e, como um vento impetuoso que passa sem que soubesse de onde vem, o Espírito do Senhor me agarrou pela garganta. Tive a impressão de um infinito poder e de uma infinita bondade que, daquele momento me fez crer com convicção que nunca estive abandonado”.
Em tempo, a um amigo seu confiou: “agora tenho verdadeiramente a certeza de começar a viver pela primeira vez. Estou em paz e dei um sentido à minha vida, enquanto antes não era mais que um morto vivo”. Isolado na sua pequena cela, comunica a sua fé em cartas que se tornaram objeto de leitura e reflexão para muitos jovens. Depois da conversão, levou uma vida ascética, afirmando que existem duas formas de viver na cadeia: a de se revoltar contra a sua própria situação, ou a de adotar um estilo de vida conventual. Após quase três anos de espera, Jacques foi levado ao julgamento definitivo onde mostrou sincero arrependimento. Não obstante a eloquência do advogado e as suas lágrimas de contrição, houve unanimidade em o condenar à morte. Agendada a data da decapitação, procurou aguardar a execução em paz e oração, tendo-a como uma forma de santificação. E se a sua última esperança fosse a absolvição, aceitou a sentença como ocasião de graça, sem odiar aqueles que o haviam condenado a tal destino. A sua conversão comoveu a sociedade. Nas vésperas da execução, escreveu: “Último dia de luta; amanhã, a esta hora, estarei no Céu! O meu advogado acaba de me dizer que a execução se realizará amanhã, lá pelas quatro horas da manhã. Que se faça a vontade do Senhor em todas as coisas! Tenho confiança no amor de Jesus (...). Devo fortalecer a vontade e, para isso, penso na procissão dos decapitados que honram a Igreja. Serei eu mais fraco do que eles? Deus me livre disso!”
Às 5H30 do dia 1 de outubro de 1957, festa de Santa Teresinha, os guardas foram buscá-lo para a morte e encontraram-no de joelhos, em oração, ao lado da cama: “Senhor, não me abandones, eu confio em Ti” – foram as suas últimas palavras. Apesar de uma vida condenável, Jacques viveu a sua Quaresma. Soube ouvir a voz de Deus e, de forma exemplar, inverter a marcha.
D. Antonino Dias
Caminha, 20-03-2026.

No meio do caos, o silêncio


Vivemos mergulhados em crises. Se não é por uma razão é por outra. Se não é por rebentar uma guerra externa, é porque rebenta uma guerra a partir de dentro de nós. Parece-me que acaba por ser difícil recordar-nos dos tempos calmos ou pacíficos. Quase sentimos que nem sequer existiram realmente.

Quando tentamos encontrar sentido para o mundo lá vamos recorrendo às notícias, ao que nos é comunicado nas mais diversas formas. E, mais uma vez, o que encontramos são autênticas odes ao caos. Ao medo. Ao desespero. É como se não houvesse outra forma de gerir os assuntos a não ser através da desesperança que se espalha e contagia.

Se pensarmos bem, tudo nos aponta caminhos que nos enrolam sobre nós próprios. Que nos fazem deixar de ver o que é mais importante.

É profundamente importante que consigamos encontrar lugares e espaços que nos permitam ser quem somos. Que nos permitam sentir a segurança do momento presente, por muito que o futuro pareça confuso. Que o tempo para estarmos em silêncio seja construído mesmo no meio da confusão, das rotinas, das filas de trânsito intermináveis.

Só quando voltamos a nós podemos estar realmente em paz.

O que se passa for a de nós não está ao alcance nem da nossa asa nem do nosso controlo.

Por isso, na dúvida, volta para ti. Retira-te de tudo o que te distrai e te destrói e rema para o lado de dentro.

As águas das decisões dos outros não podem ser navegadas por ti.

As tuas sim.

Apesar de tudo o que nos acontece e nos desarma tão completamente, ainda há esperança. Ainda há verdade. Ainda há caminho.

Que saibamos dar-nos a mão e levar-nos por onde precisamos de ir.

Ou parar-nos nos lugares que precisam do nosso amor.

O lugar mais precioso mora dentro de tudo o que somos. Que saibamos cuidar melhor dele. Para nosso bem. E de todos.


Marta Arrais

quinta-feira, 19 de março de 2026

Pai meu, o pai seu, o Pai Nosso.

 


Pai meu, o pai seu, o Pai Nosso.

Todos os pais:
os que estão no céu,
os pais da terra,
os de paz e os de guerra.
E o pai que sumiu, e o pai que voltou.
O pai que você nunca viu.
O pai que é cego e o que vê demais.
O pai que é mãe e a mãe que é pai.
O pai que lê jornal, o pai que não lê nada.
O pai brigão e o pai que conta piada.
O pai que a gente ajuda, o pai que dá mesada.
O pai elegante e o pai de camisa cavada.
O pai viajante e o pai que não sai.
Em nome do seu, do meu, de todos.
Pois tem pai que ama e tem pai que esquece do amor.
Tem pai que adota, tem pai que abandona.
Tem pai que não sabe que é pai, e tem filho que não sabe do pai.
Tem pai que dá amor, tem pai que dá presente, e tem pai por amor.
E tem pai por acaso.
Tem pai que se preocupa com os problemas do filho,
Tem pai que não sabe dos problemas do filho.
E tem pai que ensina, tem pai que não tem tempo.
Tem pai que sofre com o sofrimento do filho,
Tem pai que deixa o filho esquecido.
E tem pai de todo jeito.
Tem pai que encaminha o filho,
Tem pai que deixa o filho no caminho.
Tem pai que assume, tem pai que rejeita.
Tem pai que acaricia, tem pai que não sabe onde está o filho que precisa de carinho.
E tem pai que afaga, tem pai que só pensa em negócios.
Tem pai de todo jeito bom...
E que Deus Pai abençoe a todos os pais nesta sua missão de pai...

Padre João Torres

Espiritualidade não é fast food

 



Espiritualidade começa quando paramos e entramos dentro de nós.
Vida interior significa isto:
ter momentos de silêncio,
ter coragem de ficar consigo mesmo,
não ter medo de olhar para a própria vida.
Na nossa vida real.
Nos nossos dias comuns.
No café partilhado com um amigo.
No cuidado por um pai doente.
Na paciência com um filho difícil.
No perdão que custa dar.
Uma pessoa espiritual é alguém que:
consegue apreciar o silêncio;
é capaz de se conhecer sem máscaras;
aceita as próprias fragilidades;
não precisa fingir ser perfeita.
Há serenidade interior.
Não porque a vida seja fácil.
Mas porque a pessoa se reconciliou com quem é.
O que destrói a vida interior?
Há três coisas muito comuns hoje.
Primeiro: barulho constante.
Não deixamos espaço para escutar.
Segundo: superficialidade nas relações.
Falamos muito… mas partilhamos pouco.
Terceiro: ativismo sem alma.
Fazemos mil coisas, mas esquecemos as pessoas.
E há ainda algo mais perigoso: os três falsos deuses do nosso tempo.
O pão.
O prazer.
O poder.
Eles prometem felicidade…
mas acabam por cegar o coração.

Padre João Torres

quarta-feira, 18 de março de 2026

O amor ainda mora aqui



Para ti, que também precisas de um abraço que chegue sem pressa, que se demore e que te deixe demorar, que te envolva como refúgio.

Para ti, que também precisas de uma mão que segure a tua, de um olhar que te veja por dentro, de um sorriso que te ilumine o dia (e o coração).

Para ti, que também precisas de um colo onde serenar a alma, de uma palavra feita de ternura, de um silêncio que te compreenda o coração.

Para ti, que também precisas de uma companhia que permaneça, que te ampare e que faça tudo melhorar, só por estar ali.

Para ti, que também precisas de um gesto que te salve o dia, que te toque a vida, que te faça sorrir o coração.

Para ti, que também precisas de um abraço. Mesmo sem saber.

Para ti (e para mim):

Ainda há esperança. Na poesia das coisas simples, na bondade que ainda existe, no amor que ainda mora aqui.

Um abraço para ti.


Daniela Carreira

terça-feira, 17 de março de 2026

OLHAMOS PARA TUDO… MAS VEMOS NADA!


Curar o cego foi fácil para Jesus.
Um pouco de terra misturada com saliva.
Um gesto simples.
Um caminho até à piscina de Siloé…
E o homem começou a ver.
Mas o verdadeiro problema desta história não é a cegueira de quem não via.
O verdadeiro problema é a cegueira de quem pensava ver.
Porque há uma cegueira pior do que não ver:
é pensar que já se vê tudo, mas não se vê nada!
Vivemos rodeados de imagens, opiniões e certezas.
Olhamos para tudo… mas vemos tão pouco.
Passamos pelas pessoas, pelas suas histórias, pelas suas lutas silenciosas…
e tantas vezes nada nos toca.
A rotina cansa o olhar.
O orgulho endurece o coração.
E a presunção faz-nos acreditar que já sabemos tudo.
Mas Deus vê de outra maneira.
A Bíblia diz-nos:
“O homem vê as aparências. Deus vê o coração.”
Nós vemos o exterior.
Deus vê a história.
Nós vemos erros.
Deus vê possibilidades.
Os olhos daquele cego abriram-se…
mas foi o coração que aprendeu a ver.
Talvez a oração mais verdadeira deste Evangelho seja simples:
Senhor, que eu veja.
Que eu veja o bem que existe nas pessoas.
Que eu veja a tua presença na minha vida.
Que eu veja a beleza escondida nas pequenas coisas.
Que eu veja a dor que precisa da minha compaixão.
Porque quando Deus abre os olhos de alguém…
o mundo continua o mesmo —
mas tudo começa a ser visto de outra maneira.

Padre Joâo Torres

Procissão do Senhor dos Passos



No quarto domingo da quaresma, a Paróquia de Arronches, voltou a viver um dos momentos mais significativos da sua vivência quaresmal com a Procissão do Senhor dos Passos. A celebração teve início com a Eucaristia, seguida da Procissão, que partiu da Igreja Matriz, às 17h00, com a presidência do Padre Fernando Farinha e dirigiu-se ao Largo Serpa Pinto, onde a celebração teve o Encontro com Nossa Senhora das Dores num momento de oração e recolhimento, com orientação do sermão do Padre Rui Lourenço.

Organizada pela Paróquia, com o apoio da Câmara Municipal de Arronches, esta procissão evoca a Paixão e a Morte de Jesus Cristo, convidando os fiéis a percorrer os diversos “passos” da Paixão pelas ruas da vila, acompanhada pela Banda União Artística de Castelo de Vide

Dezenas de pessoas acompanharam o cortejo ao longo do trajeto, num ambiente de profundo recolhimento espiritual neste itinerário de fé, integrando a procissão e unindo-se em oração à sua passagem, fazendo desta tarde de domingo um tempo privilegiado de encontro com o mistério da Paixão de Cristo.


MHR

segunda-feira, 16 de março de 2026

Quando o pano se abre...



Para mim, Jesus foi o maior político e psicopedagogo de todos os tempos.

Desde criança que adoro as suas parábolas. Tinha livros que contavam todas as estórias; eu conseguia passar tardes a ler e a imaginar cada detalhe.

Diz o Evangelho que um dia um cego de nascença começou a ver.

Talvez Jesus, não mostre apenas sobre olhos que se abrem.

Talvez seja também sobre a forma como cada um de nós olha para o mundo. Porque ver não é apenas uma questão de visão, é também uma questão de disponibilidade interior.

Cada pessoa constrói, ao longo da vida, o seu próprio cenário, de acordo com as suas crenças, medos, experiências...

Como num teatro, o palco está preparado, as personagens já têm lugar e a história parece conhecida.

E, quando o pano se levanta, tudo o que acontece tende a ser interpretado dentro dessa perspetiva.

Por isso, a verdadeira cegueira nem sempre está nos olhos. Está, sim, na forma como escolhemos ver o mundo.

Há vida nos bastidores.
Há gestos que não são visíveis.
Intenções que não são ouvidas.
Histórias que acontecem para além daquilo que o olhar alcança.

Não basta abrir os olhos.
É preciso abrir o coração, a escuta, a humildade de reconhecer o que está para além do pano.

Talvez o milagre não esteja apenas em alguém passar a ver.
Talvez esteja no convite silencioso que esta parábola nos faz.

O convite a olhar o mundo com mais profundidade.
Com menos pressa de julgar.
Com mais espaço para aquilo que ainda não compreendemos.
Porque, por detrás de cada palco, existe sempre uma história maior, mas nem todos os olhos estão preparados para a ver.

Boa semana!


Carla Correia

domingo, 15 de março de 2026

LUZ E TREVAS

 

https://www.youtube.com/watch?v=LQIu6Z8_jVg&list=PLAqKRngqwuSfPdOPEvu7KzjdvMvB1w33f&index=167



Não fomos feitos para a escuridão; as trevas assustam-nos e não nos deixam caminhar em direção à vida plena. Só concretizamos a nossa vocação quando nos deixamos conduzir e iluminar pela luz de Deus. “Ama a luz, escolhe a luz, busca a luz, vive na luz” – pede-nos a Palavra de Deus que nos é dirigida nesta quarta etapa do caminho quaresmal.

No Evangelho Jesus apresenta-se como “a luz” que vem iluminar o mundo e libertar os homens das “trevas”. É essa a “obra” que o Pai Lhe confiou e na qual Ele irá trabalhar. Quem adere a Jesus, recebe o seu batismo e acolhe as suas indicações, envereda por um caminho novo, belo, desafiante, luminoso, onde progressivamente encontra a liberdade, a realização, a vida em plenitude. O homem que aceita viver na luz torna-se um Homem Novo, um homem que concretiza o projeto original que Deus tinha quando criou os seres humanos. João, o autor do Quarto Evangelho, garante-nos: apesar das nossas escolhas erradas, apesar das nossas mentiras e hipocrisias, apesar do nosso egoísmo e da nossa autossuficiência, apesar da nossa instalação e do nosso comodismo, a nossa plena realização continua a ser a prioridade de Deus. Deus nunca se conforma quando vê os seus queridos filhos caminharem sem rumo, mergulhados e acomodados numa vida de “trevas”. Foi por isso que Ele enviou ao nosso encontro o Seu Filho Jesus. Jesus veio, segundo a Sua própria expressão, “trabalhar na obra” de Deus; e a “obra de Deus” é oferecer aos homens a possibilidade de abandonarem as trevas para viverem na luz. Jesus lutou objetivamente para derrotar as ideologias, as doutrinas, as instituições, as leis, os valores, os costumes que geram “escuridão”, sofrimento, injustiça, maldade. Jesus disse-nos claramente – com a Sua vida, com as Suas palavras, com os Seus gestos – como deveríamos viver para não ficarmos atolados numa vida sem saída. Deixou-se matar para vencer as “trevas” que dominavam o mundo. Apesar de tudo isso, continuamos – vinte e um séculos depois – a viver num mundo cheio de sombras. Porquê? O que é que está a faltar para que a luz de Deus ilumine plenamente os caminhos e a história dos homens?

Na segunda leitura, o apóstolo Paulo lembra aos cristãos de Éfeso que, depois de terem aderido a Cristo, cortaram definitivamente com as trevas e abraçaram uma nova realidade. Agora são “filhos da luz” e devem produzir obras de bondade, de justiça, de verdade, de reconciliação, de misericórdia e de paz. Através deles e da luz que projetam, Jesus continua a iluminar o mundo e a história dos homens.

Luz” e “trevas” são, neste texto da Carta aos Efésios, duas esferas de poder capazes de tomar conta do homem e de condicionar a sua vida, as suas opções, os seus valores, os seus comportamentos. Não somos obrigados por ninguém – nem sequer por Deus – a escolher uma destas duas “ordens” em detrimento da outra: a nossa vida não é dirigida por um cego determinismo que se nos impõe, quer queiramos, quer não. Somos livres de fazer as nossas escolhas. Não somos obrigados a escolher Deus e os caminhos que Ele nos aponta; no entanto, devemos ter consciência de que escolher Deus implica renunciar a tudo aquilo que está em absoluta contradição com o mundo de Deus: o egoísmo, a mentira, a violência, o orgulho, a ambição, a vaidade, a autossuficiência. Nós, os que um dia escolhemos Deus e recebemos o batismo, optamos pela luz. Temos de viver de forma coerente com essa opção. Jesus, o Filho de Deus que veio ao encontro dos homens para lhes mostrar a realidade de Deus, indica-nos o caminho que devemos percorrer, enquanto “filhos da luz”. Nós, os que optamos por Deus e que nos comprometemos a seguir Jesus, vivemos de forma coerente com essa opção? Quais são os esquemas, comportamentos e valores que devem ser definitivamente saneados da nossa vida, a fim de que sejamos verdadeiras testemunhas da “luz”?

A primeira leitura conta a escolha de David, o filho mais novo de Jessé de Belém, para rei de Israel. À luz da lógica dos homens, parece, em todos os sentidos, uma escolha estranha; mas Deus parece não ter qualquer pejo em subverter as nossas lógicas e em escolher pessoas “improváveis” para serem uma luz que brilha na noite do mundo. Quem são esses que Deus escolhe para, através deles, intervir no mundo e transformar a história dos homens? São anjos? São seres especiais, perfeitos, feitos de um material diferente do “barro” dos outros homens e mulheres? Não. São pessoas normais, mas que, apesar da sua fragilidade e limitações estão, simplesmente, disponíveis para colaborar no projeto que Deus tem para o mundo; são todos aqueles que aceitam ser instrumentos de Deus e que aceitam sonhar o sonho de Deus para o mundo; são todos aqueles que, como dizia Jesus, aceitam ser “sal da terra” e “luz do mundo”; são todos aqueles que caminham pela vida semeando à sua volta sementes de esperança. Estamos conscientes de que isto nos diz respeito? No dia em que escolhemos Deus e aceitamos integrar a família de Deus, recebemos a missão de colaborar com Deus na construção desse mundo mais justo e mais fraterno que queremos ver nascer. Temos cumprido o nosso papel? Temos sido sinais vivos de Deus no mundo e na vida dos irmãos que caminham ao nosso lado?

https://www.dehonianos.org/

sábado, 14 de março de 2026

A LÍNGUA QUE OS FILHOS APRENDEM

 



A língua dos pais molda a língua dos filhos. E o que os filhos ouvem, quase sempre, repetem — primeiro em voz alta, depois por dentro.

Desde o primeiro instante de vida, a criança percebe mais do que imaginamos.
Antes de entender palavras, já entende o tom.
Antes de compreender frases, já sente o clima da casa.
Percebe o peso dos silêncios.
A temperatura das vozes.
A verdade — ou a ausência dela — nos gestos.

A infância não é apenas uma fase bonita para fotografias.
É o tempo em que a alma começa a registar como foi recebida no mundo.

Os pais são os primeiros espelhos.
É neles que o filho procura segurança, referência, sentido.
Se encontra serenidade, aprende que o mundo pode ser habitável.
Se encontra gritos, aprende que o amor pode ferir.
Se encontra indiferença, aprende a recolher-se.

Nenhum comportamento nasce do nada.
A criança observa o que se diz — mas, sobretudo, o que se vive.

Quando cresce num ambiente de tensão constante, o corpo aprende a estar em alerta.
Quando convive com o desespero, interioriza que a vida é ameaça.
Quando falta acolhimento no olhar de quem devia proteger, começa a duvidar do próprio valor.

E assim nascem medos que mais tarde chamamos ansiedade.
Silêncios que mais tarde chamamos dureza.
Carências que mais tarde chamamos frieza.

Muitos ciclos atravessam gerações.
Adultos feridos educam a partir das próprias feridas.
Repetem ausências que sofreram.
Exigem o que nunca receberam.

Educar é muito mais do que corrigir palavras.
É vigiar a própria presença.
Não basta oferecer sustento — é preciso oferecer paz.
Não basta impor limites — é preciso dar segurança.
Não basta amar — é preciso que o amor seja reconhecido como tal.

Talvez uma das maiores lições da maternidade e da paternidade seja esta: enquanto tentam formar um filho, muitos pais estão a ser convidados a reconstruir-se.

Porque a língua que o filho aprende hoje
será a língua com que ele falará ao mundo amanhã — e a língua com que falará a si mesmo para o resto da vida.

Padre João Torres

sexta-feira, 13 de março de 2026

A REALIDADE DA POBREZA E A ILUSÃO DOS NÚMEROS



A Presidente da Cáritas Portuguesa, falando sobre a pobreza em Portugal, afirmou que “Nem sempre as percentagens que os números oficiais nos apresentam correspondem à realidade”. As estatísticas oficiais são “um retrato incompleto” de tais situações. Têm por base inquéritos que “não incluem as pessoas em situação de sem-abrigo, os reclusos nas prisões, os nacionais e estrangeiros que vivem em alojamentos temporários ou as comunidades nómadas”. Outras pessoas muito vulneráveis são as de baixos níveis de escolaridade, de menor participação no mercado de trabalho, de famílias monoparentais, de pessoas com deficiência e famílias imigrantes. Há ainda aqueles pobres que permanecem invisíveis. Dada a sua proximidade às pessoas, através das dioceses, paróquias, associações de fiéis e movimentos eclesiais de ação social, a Cáritas Nacional é credível nas suas afirmações. A terceira edição do seu Relatório anual, sobre a Pobreza e a Exclusão Social, sinaliza mais de um milhão de pessoas em privação material e social, dois quais cerca de 460 mil em privação severa. Cerca de dois milhões em risco de pobreza ou exclusão social! O número dos sem-abrigo mais que duplicou desde 2019. É de prever ainda, que, às pobrezas que se procuram combater, outras vão surgindo, talvez mais subtis e perigosa.
O Governo tem um Plano de Ação Estratégia Nacional de Combate à Pobreza, 2021-2030, para mitigar tais desigualdades e reduzir o número de pessoas em situação de pobreza ou exclusão social. Este combate à pobreza, porém, é um desafio para toda a sociedade.
Na sua Exortação Apostólica ‘Dilexi Te’, sobre o cuidado da Igreja pelos pobres e com os pobres, Leão XIV escreve: “A condição dos pobres representa um grito que, na história da humanidade, interpela constantemente a nossa vida, as nossas sociedades, os sistemas políticos e económicos e, sobretudo, a Igreja. No rosto ferido dos pobres encontramos impresso o sofrimento dos inocentes e, portanto, o próprio sofrimento de Cristo. Ao mesmo tempo, deveríamos falar, e talvez de modo mais acertado, dos inúmeros rostos dos pobres e da pobreza, uma vez que se trata de um fenómeno multifacetado; na verdade, existem muitas formas de pobreza: a daqueles que não têm meios de subsistência material, a pobreza de quem é marginalizado socialmente e não possui instrumentos para dar voz à sua dignidade e capacidades, a pobreza moral e espiritual, a pobreza cultural, aquela de quem se encontra em condições de fraqueza ou fragilidade seja pessoal seja social, a pobreza de quem não tem direitos, nem lugar, nem liberdade” (DT 9).
A pobreza que mata, denunciava Francisco, “é a miséria, filha da injustiça, da exploração, da violência e da iníqua distribuição dos recursos. É a pobreza desesperada, sem futuro, porque é imposta pela cultura do descarte que não oferece perspetivas nem vias de saída. É a miséria que, enquanto constringe à condição de extrema indigência, afeta também a dimensão espiritual, que, apesar de muitas vezes ser transcurada, não é por isso que deixa de existir ou de contar. Quando a única lei passa a ser o cálculo do lucro no fim do dia, então deixa de haver qualquer freio na adoção da lógica da exploração das pessoas: os outros não passam de meios. Deixa de haver salário justo, horário justo de trabalho e criam-se novas formas de escravidão, suportada por pessoas que, sem alternativa, devem aceitar este veneno de injustiça a fim de ganhar o mínimo para comer”
No seguimento da Boa Nova de Jesus, muitas são as pessoas cuja vida permanece como estimulo e apelo às gerações futuras. Teresa de Calcutá, por exemplo, dizia: “Queremos proclamar a boa nova aos pobres, de que Deus os ama, de que nós os amamos, de que eles são alguém para nós, de que eles foram criados pela mesma mão amorosa de Deus, para amar e ser amados. Os nossos pobres são ótimas pessoas, pessoas muito amáveis, eles não necessitam da nossa pena ou compaixão, eles precisam do nosso amor compreensivo. Eles precisam do nosso respeito; eles precisam que os tratemos com dignidade”. E dela disse São João Paulo II: “Onde foi que Madre Teresa encontrou a força para se dedicar completamente ao serviço do próximo? Encontrou-a na oração e na contemplação silenciosa de Jesus Cristo, do seu Santo Rosto, do seu Sagrado Coração . Ela mesma o disse: “O fruto do silêncio é a oração; o fruto da oração é a fé; o fruto da fé é o amor; o fruto do amor é o serviço, o fruto do serviço é a paz”.

D. Antonino Dias
Caminha, 13-03-2026.

Não somos só o que fica depois das perdas


Carregamos ao colo as nossas perdas mais íntimas, embalamos os sonhos que, entretanto, nos morreram. Nunca se tornam apenas fracassos do passado, são feridas que nos continuam a doer e das quais temos de cuidar.

Tornamo-nos responsáveis pelo que amamos, só que muitas das coisas e das pessoas que amamos perdem-se, deixam de estar ou morrem. Há em nós, como crianças que não param de chorar, um conjunto de vazios que reclama a nossa atenção – por mais que isso nada resolva e até acabe, muitas vezes, por agravar a dor.

Amamos ausências e impossibilidades. Entregamo-nos e embalamos muitas realidades que ou já não respiram ou nunca chegarão a fazê-lo.

Mais do que carregarmos as nossas perdas, somos moldados por elas, como se esculpissem a nossa alma, transformando um bloco bruto numa obra-prima.

O que somos nasce do que perdemos, mais até do que daquilo que possuímos.

Alguns desistem e não amam, porque lhes parece que tudo, até o seu amor, é passageiro, substituível e descartável.

Outros amam, apesar de saberem que é quase certo que terão de sofrer por causa disso.

A identidade é o resultado do que se escolhe e do que se renuncia, do que se ganha e do que se perde, do que se entrega e do que se recebe.

A maturidade talvez consista em não negar as perdas, nem fazer delas um altar. Há perdas que nos paralisam e há outras que nos ensinam a amar melhor. O luto pode endurecer o coração ou amaciá-lo.

Não somos apenas o que ficou depois das perdas; somos também a maneira como cuidamos do que sobreviveu. Alguns transformam as ausências em amargura, outros em compaixão. Alguns fecham-se para não sofrer, outros tornam-se mais atentos à dor alheia.

Talvez crescer no interior seja isto: aprender a embalar as perdas sem deixar que elas nos impeçam de voltar a amar. Porque, se o que somos nasce do que perdemos, então o que seremos depende do que, apesar de tudo, ainda formos capazes de decidir amar.


José Luís Nunes Martins

quinta-feira, 12 de março de 2026

Somos muito mais do que os erros que cometemos.



Há erros que nos marcam mas não nos definem

Há erros que nos mudam a vida mas que não são inúteis.

Mas então, porque será que temos a tentação de estar sempre a procurar os erros dos outros. Há um apetite voraz de procurar as falhas dos outros mas para quê?

É natural que reparemos nas coisas que os outros fazem e que não gostamos assim tanto, mas escarafunchar e estar constantemente a relembra disso parece-me vão. Outras vezes adoramos realçar o pior do outro para camuflar falhas nossas.

Todos erramos, seja em palavras ou em atitudes que, ao olhar mais atento, não nos deixam orgulhosos. Eu pelo menos sei de umas tantas, resultado de impulsividade e de alguma mágoa. Mas serão esses erros que me definem como pessoa? Não creio.

Quando erro, e me apercebo de tal, nem sempre sei corrigir, outras vezes não há muito a fazer a não ser conter os danos e pedir desculpa. Mas se quiser, esse erro vai ser um excelente ensinamento.

Ora o que me custa é como catalogamos as pessoas quando elas cometem erros, como somos cruéis na condenação ”eterna”, como não damos o benefício nem da dúvida nem da aprendizagem.

Enquanto puder irei tentar olhar para quem erra como muito mais do que isso. E sabes, se estivermos bem atentos poderemos encontrar coisas preciosas e estimular a que o erro dê lugar a um novo rumo.

Lamento informar que vou continuar a errar, e não o digo com orgulho, mas com a humildade de reconhecer que faz parte do crescimento. Até lá, tem paciência comigo e não me rotules pelos erros que cometo mas dá-me o benefício da dúvida: pelo menos tentei!


E tu amiga como te defines?


Raquel Rodrigues

quarta-feira, 11 de março de 2026

As sementes...

 


Há momentos na vida em que a terra se move debaixo dos nossos pés. 
Há algo que nos desinstala. Mas, no entanto, é precisamente nesses instantes que o solo se torna fértil. 
 
A terra só se abre quando algo precisa de ser plantado; e a semente 
traz uma sabedoria profunda. Ela não tem pressa de florescer. Tem vontade de se enraizar primeiro. 
 
A semente permanece, silenciosamente. Não discute com o inverno. Não tenta convencer o solo de que é árvore.  
 
Todos nós  carregamos sementes. Todos nós carregamos experiências. 
 
Como e onde as queremos plantar? Como e onde as queremos cultivar?  

A terra nem sempre é gentil; 
Há quem transforme o conflito em muralha. Há quem transforme o conflito em raiz. 
 
Que em cada dia, as sementes que se instalam no nosso coração possam crescer, para tudo o que de verdade traz sabedoria, consciência e liberdade de ser. 
 
No seu tempo, no seu tempo...
 
Boa semana! 

 Carla Correia