sábado, 4 de abril de 2026

UM PEDAÇO DE SILÊNCIO



Ontem, com um gesto rápido,
apanhei um pedaço do manto de Cristo.
Era um pedaço de silêncio.
E percebi…
que há silêncios que não são ausência —
são presença que ainda não sabemos escutar.
O Sábado Santo é isso:
um dia suspenso,
um tempo que não avança nem recua,
um espaço onde tudo parece ter terminado…
e nada ainda começou.
A cruz já ficou para trás.
A Ressurreição ainda não chegou.
E no meio… fica este silêncio.
Silêncio pesado.
Silêncio que dói.
Silêncio de quem perdeu,
de quem não entende,
de quem já não tem palavras para rezar.
A pedra foi colocada.
O sepulcro fechou-se.
E com ele, parecem fechar-se também
as certezas, os sonhos, a esperança.
Quantas vezes a nossa vida é assim…
um longo Sábado Santo.
E custa.
Custa quando Deus não fala.
Quando não intervém.
Quando parece ausente.
Mas talvez…
talvez seja precisamente aí
que Ele mais profundamente trabalha.
O Sábado Santo não é vazio.
É gestação.
É o tempo em que Deus parece ausente,
mas está a descer às profundezas da nossa noite,
aos nossos medos,
às nossas perdas,
às zonas onde já não acreditamos em nada…
E aí, onde ninguém chega,
Ele entra.
Rompe cadeias.
Abre caminhos.
Acende luz.
Por isso, este silêncio não é o fim.
É um intervalo sagrado.
É o tempo da fé mais pura —
aquela que não vê,
mas permanece.
É o tempo de aprender a esperar.
A confiar sem garantias.
A permanecer, mesmo sem sentir.
Talvez hoje a tua vida esteja assim:
em suspenso,
em silêncio,
num Sábado que parece não ter fim.
Não fujas.
Fica.
Escuta.
Acolhe.
Porque é neste silêncio
que Deus te refaz por dentro.
E mesmo que ainda não o vejas…
mesmo que tudo pareça fechado…
a pedra já começou a mover-se.


Padre João Torres

quinta-feira, 2 de abril de 2026

Judas vendeu Jesus, mas não conseguiu comprar paz



Judas caminhou com Jesus, ouviu Seus ensinamentos, presenciou milagres, viu o poder de Deus manifestado diante dos seus olhos. Ainda assim, seu coração foi seduzido por algo menor: trinta moedas de prata.

O problema de Judas não foi apenas a traição, foi a troca. Ele trocou o eterno pelo imediato, o Salvador pelo dinheiro, a verdade pela vantagem.
Há pessoas que caminham perto de Jesus, mas o coração ainda está negociando valores. Estão na igreja, mas ainda fazem acordos silenciosos com o pecado, com a ambição, com a aprovação dos homens.
A história de Judas nos lembra uma verdade profunda: quem vende princípios para ganhar algo neste mundo pode até receber as moedas… mas perde a paz, perde a consciência e, muitas vezes, perde a própria alma.
Dinheiro nenhum compra descanso para um coração que sabe que traiu a verdade. Poder nenhum silencia uma consciência que sabe que negociou aquilo que era sagrado.
Por isso Jesus disse em
Mateus 16:26:
“Pois que aproveita ao homem ganhar o mundo inteiro e perder a sua alma?”
O Reino de Deus não é construído por pessoas perfeitas, mas por pessoas que decidiram que existem coisas que não estão à venda.
Que a nossa fé não esteja à venda.
Que nossa consciência não esteja à venda.
Que nossa lealdade a Cristo não esteja à venda.
Porque quando Cristo é o nosso maior tesouro, nenhuma moeda deste mundo é capaz de nos comprar.
Quem negocia princípios pode até ganhar moedas… mas sempre perde algo que dinheiro nenhum pode devolver: a própria alma.

(Celebrando a Vida)

quarta-feira, 1 de abril de 2026

As palavras valem pouco

 


As nossas palavras nem sempre são bem entendidas. São tantas aquelas que, em vez de esclarecer, acabam apenas por aumentar a escuridão.

Pensa antes de falar, diz o que tens a dizer, com calma e clareza. As palavras são, na maior parte dos casos, desnecessárias. Um olhar pode dizer muito mais do que um longo discurso.

No dia a dia, as nossas conversas, muitas vezes, começam por algo útil, passam depressa ao inútil e acabam no que é condenável. É quase impossível não falar demais.

Não acredites em palavras maldosas. Tem cuidado com o que ouves. Quantas pessoas usam a palavra amor sem saber o que significa? O que estarão elas a pensar e a querer dizer? Mais vale não acreditar quando o olhar de quem fala não é autêntico.

De que palavras, entre todas as que nos foram ditas, nos lembramos? Talvez de promessas nas quais assentámos partes da nossa vida. Mas, porque não há boas palavras sem obras, a desilusão perante um compromisso assumido — e não honrado — pode ser terrível.

A sabedoria está ou no silêncio ou em poucas palavras. Quais? Aquelas que uma criança entenderia sem necessidade de qualquer explicação.

Honra-te. Promete e cumpre — ou cumpre apenas. Talvez a honra seja ainda maior se não tiver havido promessa.


José Luís Nunes Martins

terça-feira, 31 de março de 2026

C(alma)

 



Calma.

Outra das minhas palavras favoritas.

Calma principalmente no coração.

Calma na pressa dos dias, que amanhã já são anos.

Calma para contemplar o pôr do sol, a lua que rasga a noite, as gotas de orvalho pela manhã.

Calma para sentir o cheiro das flores e a brisa do mar.

Calma para saborear a maçã.

Calma para olhar nos olhos, para escutar atentamente, para acordar a Alma.

Calma para perceber que com calma o mundo também avança.

C(alma) que o amor nunca falha.



Lucília Miranda

segunda-feira, 30 de março de 2026

Quando se ama.

 


...quando se ama.
Todas as palavras me parecem
verdadeiramente a mais neste dia.
...porque diante de um crucificado
temos que aprender a fazer silêncio...
o “Maior” em Deus não se veste
com as roupas dos grandes deste mundo
nem lhes imita o destino...
Entra em Jerusalém no meio de palmas e ramos…
Aclamado como rei.
Os ramos das aclamações triunfais tornam-se cinza…
Como todos os poderes deste mundo!
A Hora de Jesus não é a Hora do sucesso e das palmas do mundo.
Tudo acontece tão rápido…
perseguido, traído, preso, negado,
condenado à falsa fé e assassinado.
A suprema beleza da história
aconteceu fora de Jerusalém,
sobre a colina,
onde o Filho de Deus se deixa pregar,
pobre e nu, a um lenho para morrer de amor.
Compreendeu-o primeiro não um discípulo mas um estrangeiro,
o centurião pagão: “Na verdade, este homem era filho de Deus!”
«Porquê a cruz
o sorriso
a pena inumana?
Acreditai-me
é muito simples
quando se ama» (J. Twardowski).
Texto: Pe. Rui Santiago

domingo, 29 de março de 2026

Procissão de Ramos

 

A celebração do Domingo de Ramos, hoje, dia 29 de março, abriu solenemente a programação da Semana Santa na Paróquia. Com a tradicional Benção dos Ramos na Igreja de Nª Srª da Luz, seguida da procissão de Ramos até *a igreja Matriz onde foi celebrada missa ás 12h.











DOMINGO DE RAMOS

 

https://www.youtube.com/watch?v=eq7Ruq5v5hs&list=PLAqKRngqwuSfPdOPEvu7KzjdvMvB1w33f&index=165

A liturgia deste último domingo da Quaresma convida-nos a contemplar esse Deus que, por amor, desceu ao nosso encontro, partilhou a nossa humanidade, fez-Se servo dos homens, deixou-Se matar para que o egoísmo e o pecado fossem vencidos. A cruz (que a liturgia deste domingo coloca no horizonte próximo de Jesus) apresenta-nos a lição suprema, o último passo desse caminho de vida nova que, em Jesus, Deus nos propõe: a doação da vida por amor.

A primeira leitura apresenta-nos um profeta anónimo, chamado por Deus a testemunhar no meio das nações a Palavra da salvação. Apesar do sofrimento e da perseguição, o profeta confiou em Deus e concretizou, com teimosa fidelidade, os projectos de Deus. Os primeiros cristãos viram neste "servo" a figura de Jesus.
Jesus, o "servo" sofredor, que faz da sua vida um dom por amor, mostra aos seus seguidores o caminho: a vida, quando é posta ao serviço da libertação dos pobres e dos oprimidos, não é perdida mesmo que pareça, em termos humanos, fracassada e sem sentido. Temos a coragem de fazer da nossa vida uma entrega radical ao projecto de Deus e à libertação dos nossos irmãos? O que é que ainda entrava a nossa aceitação de uma opção deste tipo? Temos consciência de que, ao escolher este caminho, estamos a gerar vida nova, para nós e para os nossos irmãos?
Temos consciência de que a nossa missão profética passa por sermos Palavra viva de Deus? Nas nossas palavras, nos nossos gestos, no nosso testemunho, a proposta libertadora de Deus alcança o mundo e o coração dos homens?

A segunda leitura apresenta-nos o exemplo de Cristo. Ele prescindiu do orgulho e da arrogância, para escolher a obediência ao Pai e o serviço aos homens, até ao dom da vida. É esse mesmo caminho de vida que a Palavra de Deus nos propõe.
Os valores que marcaram a existência de Cristo continuam a não ser demasiado apreciados no séc. XXI. De acordo com os critérios que presidem à construção do nosso mundo, os grandes "ganhadores" não são os que põem a sua vida ao serviço dos outros, com humildade e simplicidade, mas são os que enfrentam o mundo com agressividade, com auto-suficiência e fazem por ser os melhores, mesmo que isso signifique não olhar a meios para passar à frente dos outros. Como pode um cristão (obrigado a viver inserido neste mundo e a ser competitivo) conviver com estes valores?
Os acontecimentos que, nesta semana, vamos celebrar, garantem-nos que o caminho do dom da vida não é um caminho de "perdedores" e fracassados: o caminho do dom da vida conduz ao sepulcro vazio da manhã de Páscoa, à ressurreição. É um caminho que garante a vitória e a vida plena.

O Evangelho convida-nos a contemplar a paixão e morte de Jesus: é o momento supremo de uma vida feita dom e serviço, a fim de libertar os homens de tudo aquilo que gera egoísmo e escravidão. Na cruz, revela-se o amor de Deus - esse amor que não guarda nada para si, mas que se faz dom total.
Contemplar a cruz, onde se manifesta o amor e a entrega de Jesus, significa assumir a mesma atitude e solidarizar-se com aqueles que são crucificados neste mundo: os que sofrem violência, os que são explorados, os que são excluídos, os que são privados de direitos e de dignidade... Olhar a cruz de Jesus significa denunciar tudo o que gera ódio, divisão, medo, em termos de estruturas, valores, práticas, ideologias; significa evitar que os homens continuem a crucificar outros homens; significa aprender com Jesus a entregar a vida por amor... Viver deste jeito pode conduzir à morte; mas o cristão sabe que amar como Jesus é viver a partir de uma dinâmica que a morte não pode vencer: o amor gera vida nova e introduz na nossa carne os dinamismos da ressurreição.

https://www.dehonianos.org/