quarta-feira, 31 de dezembro de 2025

O novelo da vida...




Termino o ano com a reflexão que talvez seja de mais consistência no meu dia a dia: a vida tem uma sabedoria única e nós vamos compreendendo com o desfiar do novelo a beleza de cada instante... mesmo todos aqueles instantes que nos pedem uma presença que nem sempre sabemos sustentar, mas que ainda assim nos ensinam e nos devolvem a nós mesmos.

Fio, a fio, a vida vai-se revelando... e nós crescemos em força, confiança e amor.

Não há maior beleza do que aquela em que nos desprendemos do que não somos. Do medo, do ego, das expectativas alheias e do controlo da vida. E, porque sabemos que nunca seguimos sozinhos.

Existir não é acumular, é confiar.

Cada entrega é um ato de fé; a fé que somos sustentados por algo maior do qual nunca estamos separados, pois o amor que nos abraça e guia é eterno dentro de cada um.

Simbolicamente, o recomeçar é o tempo em que a vida abranda e a alma se ilumina. É permanecer sem pressa e sem máscaras. É tempo de luz no meio do inverno. De voltar a casa por dentro, onde basta estar e ser inteiro.

Boa semana e que 2026 seja inteiro em amor.

Carla Correia

terça-feira, 30 de dezembro de 2025

✨ Basta deixares acontecer ✨




Há coisas deslumbrantes que nos acontecem — e não pedem licença. Não batem à porta com alarde, não chegam vestidas de espetáculo. Entram-nos pelos olhos dentro, silenciosas, quase tímidas, como quem confia. E nesse instante, a Vida faz-nos uma pergunta simples e decisiva: acolhes ou não acolhes?
As coisas mais essenciais são assim. Simples. Nuas de complicação. Um olhar que demora mais um segundo. Um gesto que não estava na agenda. Um encontro que desmonta o plano do dia. A verdade é esta: viver não é assim tão complicado — nós é que insistimos em torná-lo.
Quando o Amor nos desarranja a agenda, tudo se esclarece. Ele não pede tempo, ele cria tempo. Não exige espaço, ele abre espaço. O Amor chega e reorganiza-nos por dentro, lembrando-nos do óbvio que esquecemos: o que importa não grita, sente-se.
E o que há a fazer, afinal?
É tão simples que quase assusta.
Acolher.
E sorrir.
Acolher o que vem sem tentar controlar. Acolher o que toca sem tentar explicar. Acolher a Vida como ela se oferece — imperfeita, generosa, profundamente humana. E sorrir não por ingenuidade, mas por reconhecimento.
Porque algo verdadeiro acabou de acontecer.
O Natal não acabou ontem. Nunca acaba. Ele dura no instante em que escolhes ser presença. Dura quando abrandas. Quando escutas. Quando deixas o coração disponível. O Natal é esse estado de abertura em que a Vida encontra lugar para entrar.
Basta deixares acontecer...




Padre João Torres

segunda-feira, 29 de dezembro de 2025

Olhar para todos os lados



Nenhuma família é perfeita.
Todas carregam amor e cansaço, esperança e feridas, gestos de cuidado e silêncios que pesam. Viver em família é caminhar juntos sem garantias, aprendendo a cada dia a arte frágil de permanecer.
Há momentos em que nos amamos, mas não nos entendemos. Queremos o bem, mas tropeçamos nas palavras. Exigimos sem escutar, protegemos sem confiar, seguimos em frente sem parar para ver se ainda estamos juntos no mesmo caminho.
Por isso, de tempos a tempos, é preciso parar. Respirar. Olhar para todos os lados. Perguntar com verdade: estamos a cuidar uns dos outros ou apenas a sobreviver lado a lado?
A vida corre depressa. A pressa entra em casa. O trabalho ocupa o lugar da presença. Os ecrãs roubam o brilho do olhar. E quase sem dar por isso, o essencial vai ficando para depois.
Cuidar é mais do que sustentar.
É escutar antes de responder.
É perdoar antes que o silêncio endureça.
É acompanhar quem cresce, amparar quem envelhece, levantar quem cai.
É escolher, todos os dias, proteger a vida frágil que nos foi confiada.
A família não é um lugar pronto. Descobre-se no tempo. Constrói-se na fragilidade. Aprende-se no erro e recomeça-se no amor. Quando uma família tem a coragem de rever o caminho, de ajustar os passos, de voltar a sonhar junta, mesmo imperfeita, está no rumo certo.
Porque cuidar da família é olhar para todos os lados…
e decidir, outra vez, caminhar juntos.

Padre João Torres

domingo, 28 de dezembro de 2025

FESTA DA SAGRADA FAMÍLIA DE JESUS, MARIA E JOSÉ




O Deus que se vestiu de menino frágil e se apresentou aos homens no presépio de Belém encontrou abrigo numa família humana, a família de José e de Maria, dois jovens esposos de Nazaré, uma aldeia situada nas colinas da Galileia. Neste domingo, ainda em contexto de celebração do Natal do Senhor, a liturgia convida-nos a olhar para essa Sagrada Família; e propõe-nos que a vejamos como exemplo e modelo das nossas comunidades familiares.

Na primeira leitura um sábio israelita do séc. II a.C., empenhado em preservar os valores tradicionais do seu povo, convida os seus concidadãos a amarem e a honrarem os pais em todos os momentos da vida. Garante que Deus não esquecerá aqueles que assim procederem.
Apesar da sensibilidade moderna aos direitos humanos e à dignidade das pessoas, a nossa civilização cria, com frequência, situações de abandono, de marginalização, de solidão, cujas vítimas são, muitas vezes, aqueles que já não têm uma vida considerada produtiva, ou aqueles a quem a idade ou a doença trouxeram limitações. No entanto, do ponto de vista de Deus, nenhum ser humano é “descartável”, ou estará alguma vez fora do prazo de validade. Não podemos admitir – com a nossa indiferença ou com o nosso silêncio cúmplice – que as pessoas em situação de fragilidade sejam abandonadas na berma da estrada, sempre que o mundo caminha a um ritmo que elas não podem acompanhar. Temos consciência disto?

Na segunda leitura Paulo de Tarso lembra-nos que a opção por Cristo deve traduzir-se, na vida do dia a dia, em comportamentos compatíveis com a realidade do Homem Novo. Vivendo ao ritmo do amor, conforme as indicações de Cristo, devemos vestir-nos “de sentimentos de misericórdia, de bondade, humildade, mansidão e paciência”, cuidando uns dos outros e perdoando as debilidades dos irmãos. Dessa forma seremos no mundo testemunhas e arautos da fraternidade.A nossa vida de todos os dias é, a cada instante, marcada por tensões, ansiedades, conflitos e problemas que mexem com o nosso equilíbrio e a nossa harmonia. Perdemos o controlo, tornamo-nos quezilentos e conflituosos, criticamos os outros com palavras que magoam, assumimos poses de arrogância e de superioridade, enchemos as redes sociais com comentários infelizes… Talvez nos faça bem cada dia, em jeito de exame de consciência, reservar um momento para olhar para Jesus e para confrontar os nossos gestos, as nossas palavras, as nossas escolhas com os gestos, as palavras e as suas opções. Admitimos que esse “confronto” pode ajudar-nos a situar as perspetivas e a recentrar a nossa vida “em Cristo”?

No Evangelho
Mateus oferece-nos uma “foto” a cores da família de Jesus. É, antes de mais, uma família que conta com Deus e que vive de Deus: escuta as indicações de Deus, aceita percorrer os caminhos de Deus, confia incondicionalmente em Deus. É, também, uma família unida, solidária, fraterna, onde cada um pode contar com o apoio incondicional dos outros, onde ninguém é descartado e deixado para trás, onde cada um é querido, cuidado, protegido e amado. É assim que se constrói uma família capaz de superar todas as provas e crises que a vida trouxer.Nestes dias de celebração natalícia, tempo por excelência de reunião familiar e de fortalecimento dos laços familiares, a Igreja convida-nos a contemplar a Família de Jesus, Maria e José. Que vemos? Com que cores nos aparece desenhado este quadro familiar? Sobretudo com as cores da unidade, da solidariedade, da fraternidade, da comunhão. A Família de Nazaré não é uma família “sem problemas”, onde a vida não “dói” e onde tudo é um mar de rosas: é uma família perseguida e ameaçada, que tem de abandonar a comodidade do seu lar para viver na clandestinidade, que enfrenta a pobreza, a privação, a precariedade, talvez a hostilidade da gente da terra onde procurou refúgio… No entanto, é uma família que as vicissitudes e crises não conseguem derrotar. Os membros desta família mantêm-se unidos, solidários, dispostos a enfrentar juntos os riscos e perigos, disponíveis para qualquer sacrifício quando a vida de algum deles está em causa. Não vivem em compartimentos estanques, onde a dor do outro não chega; não se fecham nos seus mundos pessoais, surdos e indiferentes àquilo que se passa à volta… Sentem-se responsáveis pela vida do outro, estão dispostos a dar a vida pelo outro, amam-se verdadeiramente. São assim as nossas famílias? Nas nossas famílias há solidariedade, união e fraternidade? Sentimos os problemas do outro e empenhamo-nos seriamente em ajudá-lo a superar as dores que a vida traz? A nossa família é, apenas, um hotel onde temos (por preço módico) casa, mesa e roupa lavada, ou é um verdadeiro espaço de encontro, de partilha, de construção, de solidariedade, de comunhão, de amor?

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sábado, 27 de dezembro de 2025

Perdoa mais, vive mais feliz



Hoje parece que o perdão é cada vez mais raro, como se ele não fosse tão precioso para quem o dá como para quem o recebe. Chega até a haver quem prefira alimentar os ressentimentos em vez de viver em paz com o mundo e consigo mesmo.

Todos erramos. Muitas vezes. Julgar alguém com base num único ato será, no mínimo, injusto e imprudente. Mais ainda se for algo que possa ter mais do que uma interpretação. Quantas vezes errámos nós sem que nem hoje nos apercebamos disso? Ainda mais: que seria de mim se todos aqueles a quem fiz mal se tivessem afastado de mim?

Todos merecemos uma segunda oportunidade. Se depois o erro se repete, então talvez nessa altura, e talvez só nessa altura, valha a pena dialogar com a pessoa e tentar compreender se está consciente de que há algo de errado e de que precisa de mais uma oportunidade, ou não…

Hoje, um instante chega para que todos se julguem seguros para condenar alguém, pouco lhes importa se há um mal-entendido, uma sequência de causas estranhas à vontade ou um simples dia menos bom. O maior problema aqui é que já não distinguimos um ato isolado de um comportamento habitual.

A confiança que alguém deposita em nós, apesar das nossas imperfeições, pode ser a força decisiva que nos impulsiona a tornarmo-nos melhores.

Será que o outro estará de facto a errar, ou, sob certas condições, eu poderia estar a fazer o mesmo?

Porque será que nos perdoamos mais a nós próprios do que aos outros?


José Luís Nunes Martins

sexta-feira, 26 de dezembro de 2025

«Sou eu e o meu deus?»

 



Numa época que parece já não precisar de Deus: Eis a tecnologia! Eis a inteligência artificial! Eis que desenvolvem novos conhecimentos e novas conquistas!...

Numa época em que a frequência dos sacramentos e a vida de fé estão a diminuir significativamente, embora muitos afirmem crer mesmo sem frequentarem a Igreja ou as comunidades cristãs da sua residência...

Da época em que a fé cristã influenciou a vida dos povos e as suas instituições políticas, hoje, especialmente nos países ocidentais, a questão de Deus parece estar a perder relevância...

Esta mudança leva os cristãos a sentirem-se uma minoria...

Mas é aqui e agora que devem sentir crescer a responsabilidade do testemunho evangélico no mundo. A fé cristã é um compromisso pessoal com Jesus. Exige como resposta a vivência de uma vida imersa em Cristo e um testemunho visível e credível para o mundo.

O risco de viver uma fé íntima, onde "sou eu e o meu deus", as minhas orações e práticas religiosas, corre o risco de empobrecer a dimensão testemunhal da vida cristã.

Aos muitos cristãos tentados a refugiar-se numa privacidade confortável ou a isolar-se em círculos fechados e íntimos, renunciando à dimensão social do Evangelho, e a alguns que desejam um Cristo puramente espiritual, sem carne e sem cruz, o Papa Francisco recordou-nos que o Evangelho convida-nos sempre a correr o risco de encontrar a face do outro, com um ar de desafio ou com a sua dor e os seus pedidos.

O que celebramos no Natal? Não é um Deus que veio para a salvação de todos os homens?

O Natal pede-nos que participemos e testemunhemos essa salvação universal, composta por gestos de atenção, cuidado e solidariedade para com os que estão próximos e distantes, para nos tornarmos próximos, vencendo a tentação da indiferença que fere a humanidade.

Os cristãos não são ilhas, mas seres de comunhão, de relação, capazes de criar laços, mesmo quando isso implica o esforço do diálogo e do confronto ou a tensão de viver a fé num ambiente pluralista, por vezes indiferente ou hostil.

Isso não nos deve desanimar, antes pelo contrário, deve encorajar-nos a abraçar a nossa fé.

O Natal, como disse Hannah Arendt, é o milagre que preserva o mundo da ruína, infundindo fé e esperança nos vivos, fé e esperança que encontram a sua «expressão mais gloriosa e eficaz nas palavras com que o Evangelho anunciou a alegre notícia do Advento: “Nasceu-nos um menino”».

Votos de um Santo Natal!


Paulo Victória

quinta-feira, 25 de dezembro de 2025

Natal: uma Saudação Incómoda

 


Natal: uma Saudação Incómoda

Meus irmãos e minhas irmãs,

Faltaria ao meu dever se vos desejasse um "Feliz Natal" sem vos inquietar a alma. Recuso-me a oferecer saudações vazias, protocolares, presas apenas à folha do calendário. Por isso, entrego-vos os meus votos: profundos, verdadeiros e, acima de tudo, incómodos.
Que o Menino Jesus, nascido por puro amor, vos sacuda desta vida egoísta e cinzenta, onde falta a coragem das alturas. Que Ele vos conceda a graça de reinventarem a vossa existência através da entrega, do silêncio e da oração que não pede, mas que se oferece.
Que o Recém-nascido deitado na palha vos roube o sono. Que sintais o vosso travesseiro tão duro como a pedra enquanto não acolherdes, com verdade, o desalojado e o pobre que deambula pelas nossas ruas, órfão da nossa compaixão.
Que o Deus feito Carne vos pese no peito sempre que o orgulho ou a carreira se tornarem os vossos ídolos; sempre que o vosso projeto de vida for atropelar o próximo ou usar as costas do outro como degrau para a vossa subida.
Que Maria, que apenas encontrou estrume e palha para o Filho que carregava, vos obrigue — com aquele seu olhar ferido — a suspender as festas e os brindes até que a consciência desperte. Até que vejais, finalmente, as vidas que exterminamos nas margens da nossa indiferença.
Que José, rosto de tantas portas fechadas, vos confronte com o desperdício obsceno e com o exagero da nossa abundância. Que ele vos faça sentir a dor dos pais que choram por filhos sem saúde, sem trabalho e sem futuro.
Que os Anjos, mensageiros da paz, tragam a guerra à vossa tranquilidade sonolenta. Que o vosso silêncio cúmplice seja quebrado perante as injustiças, o fabrico de armas e a condenação de povos inteiros à fome e ao esquecimento.
Que os pobres que correm para Belém, enquanto os poderosos conspiram na sombra, vos despertem. Que percebais que a "Grande Luz" exige que nos levantemos e partamos. As esmolas de quem lucra não aquecem a alma, e o escândalo da riqueza especulativa ao lado da miséria extrema é um grito que chega aos olhos de Deus.
Que os pastores, vigilantes no silêncio da noite, vos ensinem a emoção do abandono em Deus. Que vos inspirem a viver pobres em espírito, porque só assim se morre rico perante o Criador.
Que, neste nosso mundo tão cansado, nasça finalmente a Esperança.
Aquela que arde e transforma.

P. João Torres
(texto adaptado de D. Tonino Bello que serviu como bispo de Molfetta-Ruvo-Giovinazzo-Terlizzi de 1982 até sua morte em 1993.

NATAL DO SENHOR

 




A liturgia deste dia é, toda ela, um hino ao amor de Deus. Canta a iniciativa desse Deus que, por amor, se vestiu da nossa humanidade e “estabeleceu a sua tenda entre nós”. Em Jesus, o menino nascido em Belém, Deus veio ter connosco e falou-nos, com palavras e gestos humanos, para nos oferecer a Vida plena e para nos elevar à dignidade de “filhos de Deus”.

Na primeira leitura, Isaías anuncia a chegada do Deus libertador. Ele é o rei que traz a paz e a salvação, proporcionando ao seu Povo uma era de felicidade sem fim. O profeta convida, pois, a substituir a tristeza pela alegria, o desalento pela esperança.A alegria pela libertação do cativeiro da Babilónia e pela “salvação” que Deus oferece ao seu Povo anuncia essa outra libertação, plena e total, que Deus vai oferecer ao seu Povo através de Jesus. É isso que celebramos hoje: o nascimento de Jesus significa que a opressão terminou, que chegou a paz definitiva, que o “reinado de Deus” alcançou a nossa história. Para que essa “boa notícia” se cumpra é, no entanto, necessário que nos disponibilizemos para acolher Jesus e para aderir ao “Reino” que Ele veio propor. Neste dia de Natal, comprometemo-nos a acolher Jesus e a caminhar com Ele?

A segunda leitura apresenta, em traços largos, o plano salvador de Deus. Insiste, sobretudo, que esse projeto alcança o seu ponto mais alto com o envio de Jesus, a “Palavra” de Deus que os homens devem escutar e acolher.
Jesus Cristo é a Palavra viva e definitiva de Deus, que revela aos homens o verdadeiro caminho para chegar à salvação. Celebrar o seu nascimento é acolher essa Palavra viva de Deus… “Escutar” essa Palavra é acolher o projeto que Jesus veio apresentar e fazer dele a nossa referência, o critério fundamental que orienta as nossas atitudes e as nossas opções. A Palavra viva de Deus (Jesus) é, de facto, a nossa referência? O que Ele diz orienta e condiciona as minhas atitudes, os meus valores, as minhas tomadas de posição? Os valores do Evangelho são os meus valores? Vejo no Evangelho de Jesus a Palavra viva de Deus, a Palavra plena e definitiva através da qual Deus me diz como chegar à salvação, à vida definitiva?

O Evangelho desenvolve o tema esboçado na segunda leitura e apresenta a “Palavra” viva de Deus, tornada pessoa em Jesus. Sugere que a missão do Filho, “Palavra” viva de Deus, é completar a criação primeira, eliminando tudo aquilo que se opõe à vida e criando condições para que nasça o Homem Novo, o homem da vida em plenitude, o homem que vive uma relação filial com Deus.Acolher a “Palavra” é deixar que Jesus nos transforme, nos dê a vida plena, a fim de nos tornarmos, verdadeiramente, “filhos de Deus”. O presépio que hoje contemplamos é apenas um quadro bonito e terno, ou uma interpelação a acolher a “Palavra”, de forma a crescermos até à dimensão do Homem Novo?
Jesus é para nós a “Palavra” suprema que dá sentido à nossa vida, ou deixamos que outras “palavras” nos condicionem e nos induzam a procurar a felicidade em caminhos de egoísmo, de alienação, de comodismo, de pecado? Quais são essas “palavras” que às vezes nos seduzem e nos afastam da “Palavra” eterna de Deus que ecoa no Evangelho que Jesus veio propor?

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quarta-feira, 24 de dezembro de 2025

Mensagem de Natal- Dom Pedro Fernandes



Queridos irmãos e irmãs da nossa Diocese de Portalegre – Castelo Branco, esta é a primeira vez que celebro convosco o Natal, e é com muita alegria e muita esperança que vivo esta experiência.
É também nessas atitudes, de alegria e esperança, que vos convido a vive-la, neste ano, neste novo ano de 2026 que agora se inicia.
Alegra-me estar convosco e alegra-me esta certeza de que é Jesus Cristo que nos congrega, nos dá sentido ao caminho. Ainda com este sabor de Jubileu, guardo estas duas palavras fundamentais que podem guiar-nos ao longo de 2026: Peregrinação e Esperança.
Peregrinação porque temos um caminho e temos uma meta – e sabemos que Deus não nos abandona, por muito difíceis que sejam os desafios que encontrarmos no caminho – e esperança precisamente por isso mesmo, porque o caminho tem sentido, porque sabemos para onde vamos e porque não vamos sozinhos.
O mundo em que vivemos tem imensos desafios, sabemos que são muitos os problemas e dificuldades de justiça social, de desigualdade, de oportunidades para todos, de crescimento económico, mas também, e sobretudo, humano e espiritual. É com os olhos fixos em Jesus Cristo, ao celebrarmos este Natal, ao iniciarmos um novo ano, que abordamos todos estes desafios na atitude de quem vence.
Quem vence com a vida nova que Jesus nos dá, com este abraço de Deus cheio de esperança, cheio de confiança na nossa humanidade.
Deus confia em nós. Nós precisamos de confiar n’Ele e confiarmos uns nos outros.
Os desafios são grandes e é importante que estejamos juntos, unidos, na grande diversidade que compõe a nossa diocese e que há ao mesmo tempo um caminho de unidade e de comunhão.
Que o Senhor, o Senhor da unidade e da diversidade, o Senhor que abraçou a nossa fragilidade e a nossa pobreza no presépio de Belém, continue a ser o nosso guia, a nossa luz, a nossa inspiração.
Desejo-vos a todos um santo e feliz Natal e um ano de 2026 cheio de bênçãos, muito fecundo e muito missionário.

Feliz Natal! Feliz Ano Novo!

Dom Pedro Fernandes
( Bispo Diocesano)

Noite de Natal

 

O tecido da vida...



A vida é um tecido de simbologias. Cada gesto ganha profundidade. O amor é lente, é linguagem, é presença.

O tecido da vida leva-nos ao essencial. A aceitar e a ver com o coração, onde tudo o que precisamos nasce de um caminho singelo, humilde, frágil, silencioso... quase de forma invisível.

E é por isso que brilha!
No advento nasce uma luz que orienta e que revela.

A humanidade espera por sinais de poder, mas somos convidados aos pequenos símbolos de amor.

A uma escuta sincera.
A um abraço que conforta.
A uma coragem que constrói.

Compreender que a vida nos mostra no simples significados maiores, é reconhecer o seu mistério.

Bom e Santo Natal!


Carla Correia

terça-feira, 23 de dezembro de 2025

Que o Natal te aconteça

 



Que o Natal te aconteça.

Que o Natal te aconteça e (re)acenda a chama da esperança no teu coração.

Que o Natal te aconteça naqueles abraços que te envolvem como porto de abrigo, naquelas mãos que, enquanto seguram a tua, seguram tanto de ti também e naqueles olhares que te tocam a alma.

Que o Natal te aconteça naqueles sorrisos que te abraçam o coração, naqueles beijos que te mostram que a ternura cura e naqueles colos que sabem sempre como te serenar.

Que o Natal te aconteça naquelas palavras que te falam ao coração, naqueles silêncios que te escutam o coração e naquelas companhias que fazem tudo melhorar, só porque estão contigo.

Que o Natal te aconteça naqueles gestos que te salvam o dia e que te fazem sorrir, naqueles momentos que se tatuam, para sempre, no teu coração e naquelas pessoas que te querem bem, de verdade.

Que o Natal te aconteça nas coisas mais bonitas: as coisas do coração.

E que o Natal te aconteça naquilo que, de verdade, importa: o amor.

Que o Natal te aconteça.

Que (re)acenda a chama da esperança no teu coração.

E que tu sejas essa luz que faz o Natal acontecer a alguém, também.


Daniela Barreira

segunda-feira, 22 de dezembro de 2025

Não somos luz, apenas testemunhamos a Luz.

 



Uso muitas vezes a expressão: “És luz” para representar o que de mais positivo a pessoa representa na minha vida. Seja pelo carinho, atenção ou ajuda dada, essa pessoa foi uma luz num momento mais escuro da minha vida. Acredito que todos o devemos ser!

No entanto, numa homilia que escutei sobre João Batista, apercebi-me de algo que mexeu com as minhas convicções sobre ser ou não ser Luz. Diz João: “Ele veio como testemunha, para dar testemunho da luz, para que todos chegassem à fé por meio dele. Ele não era a luz, mas veio dar testemunho da luz” (João 1,7-8).

Na verdade, parece arrogante considerar-mos que somos a Luz capaz de salvar o dia de alguém! Acredito, pois que a Luz que transporto não é minha, mas que também tenho o enorme poder de a esconder ou de a ampliar. Se para alguém a minha inspiração é "luz", a minha alegria é "luz", o meu otimismo e esperança é "luz", então que seja, mas que eu tenha consciência que eu não sou a luz, mas decidi testemunhar a luz que recebi, em vez de a limitar a ser meramente figurativa.

Isso tranquiliza-me, mas ao mesmo tempo responsabiliza os meus atos.

Se quero testemunhar ou não essa Luz, é da minha responsabilidade, pois a Luz que carrego… essa ofusca qualquer preguiça. A luz que testemunho é forte mas nem sempre sou o melhor receptáculo. Nem sempre me apetece pôr a render os talentos que recebi ou dar esperança a quem me procura. Nem sempre me sinto luz, porque não sou! Não sou eu a estrela, nem a protagonista, mas Cristo em mim.

Imagino-me um candeeiro em vidro com uma luz terna e suave que constantemente me pede: “limpa os vidros, muda-me de sitio, vá lá, não te prendas à beleza da chama, não te distraias, leva-a onde faz falta”. E lá vou eu, insistindo em levar a luz que me deram e a garantir que não se apague cultivando o que me melhor possuo, partilhando o que sei e afastando o que possa ofuscar o que realmente é verdadeiro. Não é nada fácil! Levamos cada rajada de vento:)! Somos sobressaltados por dúvidas, por coisas mundanas que nos distraem as vistas e oferecem outras coisas luminosas, mas que não ardem cá dentro.

E tu, amiga, tens testemunhado a luz que carregas?



Raquel Rodrigues

domingo, 21 de dezembro de 2025

Acolher

 


No último Domingo do Advento, a liturgia apresenta-nos o Menino cujo nascimento nos preparamos para celebrar: Ele é o “Emanuel”, o “Deus connosco”, o Deus Amigo e Irmão que vem ao nosso encontro para nos salvar de tudo aquilo que impede o nosso encontro com a vida verdadeira. A Boa Notícia da vinda do Menino Deus dá um sentido novo e pleno à história dos homens.

Na primeira leitura o profeta Isaías garante ao rei Acaz – preocupado porque o seu reino está sob ameaça dos inimigos – que há razões para encarar o futuro com esperança. A jovem esposa do rei vai dar à luz um menino que assegurará o futuro da nação. O nascimento desse menino será um sinal de que Deus está e estará sempre com o Seu povo, acompanhando-o nos caminhos da vida e da história.Para aqueles que são capazes de observar a história dos homens com os olhos da fé, há uma realidade incontornável, que se vai manifestando a cada momento e das mais variadas formas: a “vinda” de Deus ao encontro dos homens para os acompanhar e guiar, a presença decisiva de Deus em cada curva do caminho que a humanidade está a percorrer, o cuidado e a ternura de Deus pelos seus queridos filhos que peregrinam no mundo ao encontro da vida verdadeira. O “caso” referido na primeira leitura deste quarto domingo do Advento encaixa-se bem neste molde: num tempo de desnorte e de crise, quando o rei Acaz insiste em arrastar Judá para caminhos sem saída, Deus vem ao encontro do Seu povo para lhe apontar o caminho que leva à salvação. Desde Acaz até aos nossos dias muita água correu sob as pontes da história; mas Deus, felizmente, ainda não perdeu essa bela “mania” de se meter connosco, de vir ao nosso encontro, de nos apontar caminhos, de ser o “Deus connosco”. A celebração do nascimento de Jesus – que ocorrerá dentro de poucos dias – coloca-nos frente a essa realidade. Estamos disponíveis para acolher o Deus que, em Jesus, vem ter connosco? Estamos dispostos a pôr de lado as nossas velhas ideias e preconceitos, os nossos interesses mesquinhos, as nossas certezas absolutas, para acolher as propostas e indicações de Deus?

No Evangelho temos uma composição do “catequista” Mateus sobre o Menino que vai nascer de Maria de Nazaré e que será o “Emanuel”, o “Deus connosco”, o Deus que vem visitar-nos para ficar ao nosso lado e para nos oferecer a salvação. José, o jovem “prometido” de Maria, é convidado a colaborar no projeto de Deus e a acolher esse menino. A resposta humilde e generosa de José às solicitações de Deus fazem dele um exemplo para todos aqueles que se preparam para acolher o nascimento de Jesus.
Vivemos nestes dias imersos num ruído de fundo que nos deixa pouco espaço para preparar o encontro com o Senhor… É o folclore das prendas “obrigatórias”, as luzes que piscam nas ruas e nas nossas “árvores de natal”, as músicas natalícias mil vezes repetidas, as tradições familiares que fazemos questão de respeitar, os petiscos tradicionais que é necessário preparar, os artefactos que a sociedade de consumo nos impõe, o cenário superficial e manipulado que nos espera sempre que entramos num centro comercial… Como conseguiremos descobrir, por detrás de tanta superficialidade e aturdimento o mistério do Deus que vem ter connosco, do bebé chamado Jesus (“Deus salva”) que vem amorosamente trazer-nos uma proposta de salvação? Passaremos ao lado do Natal de Jesus se não conseguirmos fazer silêncio no nosso coração, abrir o coração ao mistério de um Deus que se aproxima de nós, saborear profundamente a chegada desse Deus Amigo que vem visitar-nos e quer encontrar lugar na nossa vida e no nosso coração. Ainda estamos a tempo: queremos, neste Natal, atirar para segundo plano as coisas supérfluas e abraçar o essencial, o Menino de Belém?

Na segunda leitura o apóstolo Paulo apresenta-se aos cristãos de Roma. Define-se como “servo de Jesus Cristo, apóstolo por chamamento divino, escolhido para o Evangelho que Deus tinha de antemão prometido pelos profetas nas Sagradas Escrituras, acerca do Seu Filho”. Paulo, depois de ter sido “visitado” pelo Senhor Jesus, construiu toda a sua vida à volta d’Ele e tornou-se Sua testemunha até aos confins da terra.
Paulo, depois de se encontrar com Jesus, tornou-se “apóstolo”. Aceitou o chamamento de Deus e fez-se “testemunha” de Jesus e do Seu projeto por todos os lugares onde a vida o levou. Não podia ser de outra forma: quando alguém faz uma verdadeira experiência de Jesus, percebe que não pode ficar calado; tem de partilhar com o mundo inteiro a Boa Notícia que descobriu. O anúncio do Evangelho torna-se então, não apenas um imperativo, mas uma missão plenamente assumida, necessária, incontornável. É por isso que Paulo dizia: “ai de mim se eu não evangelizar” (1Cor 9,16). Vamos, nestes dias, celebrar o nascimento de Jesus. Vamos acolhê-l’O e acolher a Boa Notícia de Deus que Ele nos traz. Depois de ouvirmos Jesus, vem o momento do testemunho. Aceitamos ser arautos do Evangelho de Jesus neste mundo que tão necessitado está de escutar a proposta de salvação que Deus faz aos homens?

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sábado, 20 de dezembro de 2025

A que sabe o Natal?

 


Dirá a maioria, sabe a quentinho da lareira, delícias na mesa, conversas a pôr em dia e presentes no sapatinho!

Sabe a tradição que se cumpre, família que se reúne, e a partilha em comunidade!

Mas nem para todos?

E é para os Natais daqueles que vivem "num presépio de lata" que entrego o meu desejo de saúde para quem está doente, alegria para quem está triste, esperança para quem perdeu tudo, luz para quem vive na escuridão e amor para resgatar quem sofre.

Que a magia do Natal possa tocar esses corações mais fragilizados como faz brilhar os olhos de uma criança e que nunca se perca.

Que cada um de nós seja tocado por essa magia e a carregue consigo todos os dias!

Feliz Natal


Lucília Miranda


sexta-feira, 19 de dezembro de 2025

O Advento em mim...

 



Gosto do natal, da azáfama dos dias, das cores, dos cheiros, da alegria.
Do espírito de maior bondade e cuidado que nasce em cada gesto.

Mas também gosto da inquietude que esta época me provoca.
O questionamento e a busca pela paz no meio das tempestades.

A insatisfação, dá-me coragem.
A dúvida, dá-me um olhar atento.
O medo, faz-me avançar.
A falha, transforma-me.

Nestes dias, olho atentamente a natureza; ela mostra-me que vivemos num contraste e que é aí que crescemos. A natureza é o espelho do que procuro.

A natureza é o meu advento.
O lugar sagrado, onde também me reencontro com Deus.

Boa semana!


Carla Correia

quinta-feira, 18 de dezembro de 2025

Que eu não me esqueça

 



Que eu não me esqueça nos meus dias mais felizes, daqueles que estiveram comigo nas minhas noites mais frias e escuras.

Que eu não me esqueça que, ainda que tenha todos os meios, se não souber amar, jamais tocarei o coração de quem tenho diante de mim.

Que eu não me esqueça de todas as vezes em que já fui perdoado, mesmo do não estava arrependido.

Que eu não me esqueça dos porquês dos meus erros e de tudo o que eles causaram, para que não os repita muito mais vezes.

Que eu não me esqueça de que quase todas as notícias de hoje já não terão qualquer interesse amanhã.

Que eu não me esqueça dos que, amando-me, me ensinaram a amar. E, apesar de distantes, que eu os honre e os torne presentes, através do bem de que for capaz.

Que eu não me esqueça de estar sempre atento a tudo o que está à minha volta em busca das belezas simples, profundas e inesquecíveis.

Que eu não me esqueça de sonhar e de alimentar a minha esperança, mais ainda quando as dores do passado tentarem invadir o meu coração.

Que eu não me esqueça de agradecer, de perdoar e de me esquecer de tudo o que perdoei.

Que eu não me esqueça de criar tantas memórias ao ponto de não conseguir recordar-me de todas!


José Luís Nunes Martins

quarta-feira, 17 de dezembro de 2025

Por vezes, falta-me esperança



Dizem que sem fé não há esperança, mas acontece-me ter fé e, mesmo assim, não conseguir sentir esperança.

Enfrentar os dias sem acreditar que há muito de bom para acontecer faz-nos perder as forças para caminhar. A verdade é que pouco importa se quero ir ou não, o futuro chega de qualquer forma. O problema é que, se desisto de lutar, com as minhas forças e talentos, por um bom amanhã, o mais provável e lógico é que o futuro chegue sem grandes presentes.

Por vezes, por pouco tempo, falta-me a fé, e é como se tremesse e desabasse o chão por baixo da alma que segura os meus dois pés… o vazio é tão grande, a sensação de queda é tão vertiginosa, que, de súbito, compreendo que, mesmo sem eu poder compreender, Deus existe e eu sou alguém que Ele conhece.

O maior problema é como passo da fé à esperança. Afinal, preciso de aceitar que eu tenho a liberdade de dar um propósito à minha vida e que devo agir de acordo com essa responsabilidade. Mas saber que temos um pai é diferente de termos vontade de ser bons filhos… e eu chego, por vezes, a julgar que talvez seja melhor confessar a minha falta de capacidade para levar adiante qualquer plano.

É possível que o amor, que só pode mover alguém com fé e com esperança, talvez seja a solução para o problema da ligação entre elas.

O amor é a entrega do que somos a uma incerteza absoluta, porque também ela é livre. E este será o único caminho para a felicidade. Não há segurança nem garantias para quem se dispõe e arrisca a amar.

Só a fé pode justificar a coragem quase absurda diante de um futuro que se deseja e se pressente. Mas desse futuro não há provas nem indícios de certeza de que o bem vencerá.

E eis que recupero a esperança sempre que assumo que quero que a minha vida seja, mais do que uma história, uma aventura, uma verdadeira aventura de amor.

Não sei, depois, o que me anima — se a fé, a esperança ou o amor. Mas a verdade é que sigo adiante como se tivesse a certeza absoluta de que há alguém que deposita em mim a sua fé e a sua esperança, que me ama e que, mesmo sem que eu o possa compreender, me espera num tempo depois deste. Tal como um pai espera um filho que foi para longe e há de voltar.


José Luís Nunes Martins,

terça-feira, 16 de dezembro de 2025

Mensagem de Natal- Dom Pedro Fernandes

 


Caríssimos irmãos e irmãs da nossa Diocese de Portalegre-Castelo Branco:



Esta é a primeira carta que vos escrevo, como mensagem de Advento e Natal, neste feliz momento em que vivemos ainda o Ano de Jubileu proclamado pelo Papa Francisco. Ao longo deste ano jubilar, que agora se aproxima da sua conclusão, foi-nos dado viver um tempo de renovação da esperança, na consciência de que somos caminhantes, peregrinos que sabem que têm uma meta, assumindo o chamamento de Jesus Cristo, que mobiliza, une a si e à sua missão e nos mostra continuamente o quanto nos ama e perdoa, por mil sinais oferecidos pela força do Seu Espírito Santo e através de tantos irmãos e irmãs que se fazem próximos.


O Jubileu é, tanto na sua génese bíblica como na Tradição viva da Igreja, um precioso tempo de Graça para reavivar a possibilidade de recomeçar, apesar de tantas vezes nos sentirmos cansados ou desalentados diante dos tropeços e pesos do caminho. Viver o Jubileu é ainda celebrar a gratidão pela possibilidade do perdão, pelo dom infinito da misericórdia incondicional de Deus que, todos os dias, nos indulgencia e convida a retomar o caminho. Juntos e fazendo memória da Fonte de Vida de onde viemos.
Encerrar o Ano Jubilar não é, de todo, encerrar esta alegria num Deus de misericórdia que nos convida sempre a ser “peregrinos da esperança”. Se este tempo de Jubileu teve tanto sentido é precisamente porque nos relança na alegria de sermos peregrinos portadores de esperança e sentido num mundo tão cansado de injustiça, violência e desequilíbrios de toda a espécie.
É verdade que, nos “pequenos mundos” que são as nossas vidas pessoais, familiares e comunitárias, também não falta esta marca do sofrimento, dos desequilíbrios e pecados que nos magoam e dificultam a agilidade do caminhar. Por isso, continua a fazer tanto sentido viver o tempo do Advento como oportunidade sempre nova de reavivar as razões da nossa esperança, partilhando-as com os outros. Com os olhos fixos em Maria, a dócil discípula. Com o coração a deixar-se inspirar pelo jovem José, sempre tão despojado de si, para que o Evangelho nascesse.
Por isso, é tão urgente que, ao menos nós, cristãos, celebremos o Natal de um modo verdadeiramente cristão, centrado no essencial deste Deus-Misericórdia que se sujeita à nossa condição humana para nos encher da Sua Paz e da alegria de nos tornarmos, por Ele e com Ele, Filhos de um mesmo Deus, irmãos e irmãs de uma só família. A mesa da fraternidade universal, de que os cristãos são testemunhas e arautos, funda-se nesta certeza de fé de sermos todos irmãos e irmãs, porque todos enraizados em Cristo e por Ele unidos ao mesmo Pai.
Temos razões para, com gratidão, reconhecer no mundo em que vivemos muitas sementes do Verbo de Deus, muita gente de boa vontade que se esforça por construir a paz, ser sinal de unidade, defender a integridade da casa comum, pela preservação do ambiente e da justiça para todos. Mas seria ingénuo fechar os olhos aos horrores da guerra de povos que agridem outros povos, ou da violência de pessoas que ferem pessoas, muitas vezes no seio desse santuário de vida que deveria ser sempre a família. Crescem os discursos de ódio, também nas nossas sociedades europeias, que propõem soluções demasiado fáceis para problemas demasiado complexos, respostas simplórias e enganosas e, por isso mesmo, perigosas para o bem-estar e para a justiça social.
Quando, uma vez mais, neste Natal proclamarmos, com os anjos de Belém, “Glória a Deus nas Alturas e Paz na terra aos homens”, lembremo-nos que tal pregão não pode ser decorativo, mas, sendo dádiva de Deus, terá de ser igualmente compromisso nosso. Se assim não fosse, o Natal poderia ser um tempo cheio de decorações e retórica cansada, mas não seria ainda o Natal de Jesus, que transforma as nossas vidas e nos torna gente de paz, comprometida com a reconciliação que valoriza todos, integra os mais ameaçados e frágeis e se implica na defesa de uma justiça fundada na verdade e no reconhecimento da bondade e da beleza de todos.
Ao encerrarmos o Ano Jubilar, também na nossa diocese, não esqueçamos que a Graça que este tempo nos trouxe, como tudo aquilo que vem de Deus, encerra em si uma imensa responsabilidade, que só podemos assumir porque nos sabemos alicerçados na fidelidade do Espírito Santo. Somos responsáveis de prosseguir no mundo essa sinalização da Paz e da Justiça, da fé num Deus maior, da afirmação da presença de Jesus Cristo Ressuscitado, num mundo tão necessitado de regressar a Deus e ao sentido da Verdade e da Bondade. Somos portadores dessa alegria; que jamais o medo ou os respeitos humanos nos impeçam de viver a Missão!

É assim que vos desejo um Santo e luminoso Natal. E um ano de 2026 cheio de fecundidade evangélica e de frutos de paz e justiça.

+ Pedro Fernandes, CSSp
(Bispo de Portalegre-Castelo Branco)

segunda-feira, 15 de dezembro de 2025

O Advento em mim...



Gosto do natal, da azáfama dos dias, das cores, dos cheiros, da alegria.
Do espírito de maior bondade e cuidado que nasce em cada gesto.

Mas também gosto da inquietude que esta época me provoca.
O questionamento e a busca pela paz no meio das tempestades.

A insatisfação, dá-me coragem.
A dúvida, dá-me um olhar atento.
O medo, faz-me avançar.
A falha, transforma-me.

Nestes dias, olho atentamente a natureza; ela mostra-me que vivemos num contraste e que é aí que crescemos. A natureza é o espelho do que procuro.

A natureza é o meu advento.
O lugar sagrado, onde também me reencontro com Deus.

Boa semana!


Carla Correia,

domingo, 14 de dezembro de 2025

Domingo da Alegria

 



Continuamos, nesta terceira etapa do “caminho do advento”, a preparar a vinda do Senhor. Chamado “domingo Gaudete”, este terceiro domingo do advento convida-nos à alegria: a vinda do Senhor aproxima-se; a nossa libertação está cada vez mais perto.

Na primeira leitura um profeta anónimo anuncia aos habitantes de Judá, exilados na Babilónia, que estão a acabar os anos de tristeza e que vão finalmente chegar os tempos novos da alegria e da esperança. Porquê? Porque Deus “aí está para fazer justiça”. Ele vai intervir na história, vai salvar Judá do cativeiro, vai abrir uma estrada no deserto para que o seu Povo, em procissão triunfal, possa regressar a Sião. Deus nunca desiste dos seus queridos filhos.O Advento é o tempo da espera do Senhor que vem. É um tempo de “gravidez”, durante o qual esperamos ansiosamente o nascimento do Deus-Menino que vem trazer uma esperança nova ao nosso mundo e às nossas vidas. Sabemos, no entanto, que o Deus-Menino só vem ter connosco se tivermos lugar para Ele, se estivermos dispostos a acolhê-l’O. Temos aproveitado esta “caminhada de advento” para limpar a nossa vida de toda a “tralha” inútil que se acumula no nosso coração e que não deixa espaço para o Amor, para o Perdão, para a Bondade, para a Justiça, para a Paz, para todos esses dons que o Deus-Menino traz para nos oferecer?

No Evangelho, o próprio Jesus define a missão que o Pai lhe confiou quando o enviou ao encontro dos homens: dar vista aos cegos e tirá-los da escuridão onde se afundam, libertar os coxos de tudo aquilo que os impede de caminhar, curar os leprosos e reintegrá-los na família de Deus, abrir os ouvidos dos surdos que vivem fechados no seu mundo autossuficiente, devolver a vida àqueles que se sentem às portas da morte, anunciar aos pobres a “Boa Notícia” do amor de Deus. Com Jesus, o Reino de Deus chegou à vida e à história dos homens.

Na segunda leitura um tal Tiago, que se apresenta como “servo de Deus e do Senhor Jesus Cristo”, avisa os pobres, vítimas das prepotências dos poderosos, que o Senhor, o “juiz” dos homens, está a chegar para fazer justiça. A sua vinda irá libertá-los da opressão a que têm estado sujeitos. Enquanto esperam, os pobres devem colocar a sua confiança em Deus e continuar a percorrer, com fidelidade e sem desânimo, o seu caminho que têm à frente.Tiago recomenda aos cristãos que não respondam com a violência, a agressividade, o ódio, o rancor, a vingança, as queixas, às injustiças e arbitrariedades que os atingem. Esses sentimentos violentos são destrutivos para quem os cultiva: envenenam o coração, roubam a paz, impedem de ter um olhar positivo e construtivo sobre a vida. Quando esses sentimentos tomam posse de alguém, destroem-no. Não deixam qualquer espaço na pessoa para o encontro com a ação libertadora e salvadora de Deus. Temos algum desse “lixo” a ocupar espaço no nosso coração? Estamos dispostos a livrar-nos dele a fim de arranjar espaço para o Senhor que vem ao nosso encontro?

PALAVRA PARA O CAMINHO.

Paciência! Uma palavra em sentido contrário aos nossos comportamentos: exigimos tudo, imediatamente! Dois milénios em que esperamos a vinda do Senhor! Ainda não veio! Mas já está! Renovemos, reajustemos o nosso olhar de fé e redescubramo-l’O bem presente, e em ação, em lugares e situações em que tantas vezes não esperávamos encontrá-l’O! Sempre em atitude de alegria e de esperança.


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sábado, 13 de dezembro de 2025

“Fala para seres feliz… não fales para impressionar os outros".





“Fala para seres feliz… não fales para impressionar os outros".


Esta frase saiu-me num jogo de palavras; cada vez compreendo melhor a importância daquilo que dizemos, a intenção com que dizemos e a presença que oferecemos quando falamos.

Nem sempre a palavra que sai de cada um é impecável. Mas, ainda assim, a palavra guarda o poder de aproximar, de acolher e de preparar caminho.

Talvez seja por isso, que neste tempo de Advento, a consciência da palavra se torne ainda mais profunda.

O advento é um tempo de espera, mas não uma espera vazia. É um tempo que nos convida a refletir sobre o que trazemos dentro. Sobre os nossos pensamentos, as nossas emoções e... as nossas palavras.

A palavra pode ser semente.

Uma palavra que vem do coração abre espaço para chegar ao outro.
Abre espaço para a reconciliação.
Abre espaço para a paz e para a esperança...

Nesta época somos chamados a falar menos para impressionar e mais para sermos felizes. Quando a expressão vem de um lugar de amor, só pode iluminar.

Que neste advento, eu possa compreender que a palavra constrói e que o silêncio também tem espaço, para revelar internamente, o que verdadeiramente deve ser dito.

Que a palavra nos faça sorrir.

Boa semana!


Carla Correia


sexta-feira, 12 de dezembro de 2025

Espelho meu!





Sabes, realmente, quem és ou demoraste tanto tempo a construir a tua máscara que já não te é possível reconhecer o que, antes, habitava em ti?

Consegues encontrar-te quando te vês ao espelho ou, por vezes, é como se aquele rosto nem sequer te pertencesse?

As pessoas conhecem-te ou conhecem, apenas, a parte de ti que permites que esteja a descoberto?

Quantas camadas colocaste por cima da tua raiz, da tua essência, do teu corpo físico ou emocional?

Será que a pessoa genuína que eras pode ter dado lugar a uma versão mais facilmente aceitável por todos?

Fica difícil responder, com verdade, a estas perguntas. Julgo que talvez sejamos uma mistura da nossa versão original, e em bruto, e uma junção forçada da nossa versão social. Da versão que espera ser aceite pelos outros. Pela família. Pelos amigos. Ou por um estatuto que nem se sabe quem definiu.

No entanto, a versão nossa que interessa a Jesus é a mais tosca. A mais imperfeita. Aquela que não tem base nem batom. Aquela que não coloca um sorriso amarelo mesmo quando nos apetece nem olhar para ninguém. A nossa versão que rima com o presépio que nasceu com o Menino-Deus é aquela que não queremos mostrar a ninguém. Aquela que até preferíamos que nem existisse. Habituámo-nos a dar-nos pouco. Para sofrermos menos. E acabamos por nos esquecer, sem querer, de quem somos quando todas as luzes se acendem à volta de uma época que rima pouco com a verdade de quem nasceu para ser amado a partir da sua maior imperfeição. Da sua maior ferida. Da sua maior dor.

É quando tiramos todas as máscaras que podemos encontrar O verdadeiro amor. A verdadeira presença. E o silêncio de Quem nos salva, mais uma vez, a partir da estrela que guiou aqueles três reis.


Marta Arrais



quinta-feira, 11 de dezembro de 2025

Abrir a janela da vida



Como seria maravilhoso, neste Natal,
eu abrir a janela da vida que mantenho fechada há tanto tempo.
Há janelas que não se fecham por causa do vento ou da chuva.
Fecham-se por medo.
Por cansaço.
E, muitas vezes, por orgulho, esse velho guardião que se instala no peito e não deixa que a vida circule. Esse orgulho que diz “não foste tu que erraste”, “não és tu que tens de dar o primeiro passo”, e que nos convence, dia após dia, a manter a janela trancada por dentro.
E eu sei bem quais são as minhas janelas fechadas. Aquela que se fechou quando deixei de falar com um irmão. A outra que se fechou, devagarinho, ao pensar no cunhado, no filho, no vizinho, no antigo colega de trabalho que me feriu em lugares que ainda doem.
A mágoa ainda lá está, não se apaga, não se dissolve, não evapora.
Há memórias que não se esquecem, e talvez nem precisem de ser esquecidas. Mas carregá-las como pedras não tem de ser o destino.
O ódio mantém-nos divididos, cansados, encolhidos no canto escuro de nós próprios. E, no entanto, continuamos a segurá-lo, como se fosse um direito que não queremos largar.
O amor, por outro lado, é a força desarmada que cura, a coragem silenciosa que restaura, a compaixão que se atreve a olhar o outro — e a si próprio — com misericórdia. O amor é claridade a entrar onde já só havia pó.
Entre estas duas escolhas eu fico:
preso ao ressentimento ou livre para compreender. Preso ao orgulho ou livre para recomeçar. Acorrentado pelo ódio ou livre para acolher.
Custa reconhecer que também eu falhei, que também eu feri, que talvez tenha esperado demasiado que o outro viesse ao meu encontro. Custa baixar a guarda, reencontrar a humildade, permitir que o coração se abra antes da razão.
Mas… e se neste Natal eu tivesse essa coragem?
Se escolhesse a paz possível, não a perfeita, não a ideal, apenas a possível,
seria como vestir a alma para a festa.
Seria abrir a janela da vida e deixar entrar o ar fresco que há anos não respiro.
Seria sentir a brisa fria no rosto,
o cheiro da terra molhada a subir do chão,
a transformar o pó do ressentimento em adubo, para que outra vida possa nascer dentro da minha.
Imagino, então, como seria o Natal nas nossas famílias
se o programa fosse simples e profundo:
abrir a janela da salvação
onde hoje há bloqueios, divisões,
querelas antigas, orgulho endurecido,
e ressentimentos entranhados que pareciam impossíveis de derrubar.
Mas talvez — só talvez —
a primeira janela a abrir não seja a do outro.
Seja a minha.
E permitir, finalmente, que a luz volte a entrar.


Padre João Torres

quarta-feira, 10 de dezembro de 2025

Nada nos pertence. Tudo nos é emprestado.



Nenhum de nós tem nada.
Por mais que apertemos as mãos, nada nos pertence de verdade. A vida empresta-nos tudo — a casa, o tempo, as pessoas, o corpo e, no dia em que partirmos, tudo ficará exatamente onde sempre esteve.Alugado. Provisório. Transitório. Mas é tão fácil esquecermos isso.
Convencemo-nos depressa de que somos donos: donos das coisas, donos dos lugares, donos até das pessoas. Corremos como se o mundo nos tivesse sido entregue em propriedade absoluta, e zangamo-nos por migalhas, por ninharias, por poeira que o vento leva antes mesmo de entendermos o que estávamos a segurar.
Disputamos o carro, defendemos a casa, vangloriamo-nos das férias, como se qualquer uma dessas coisas pudesse acompanhar-nos na última hora da nossa despedida.
Quanto mais vivo, mais percebo: não são as coisas que fazem a vida, é a atitude com que a atravessamos. A atitude pesa mais do que os factos. É maior que a educação que recebemos, o dinheiro que juntamos,
as circunstâncias que nos moldaram, os fracassos que tememos, os sucessos que exibimos.
É maior que tudo o que os outros pensem, digam ou façam. Maior que a aparência. Maior que o talento. Maior que a habilidade.
A atitude ergue ou derruba uma empresa…
uma comunidade…
uma igreja…
uma casa.
E o extraordinário, o verdadeiramente extraordinário, é que todos os dias nos é dada a possibilidade de escolher. Não podemos alterar o passado, nem controlar o modo como os outros agem, nem travar o inevitável. Mas podemos transformar que nos foi confiado: a forma como respondemos, o espírito com que levantamos os olhos, o tom com que seguimos em frente.
Estou convencido:
a vida é 10% o que me acontece
e 90% a forma como eu reajo.
Assim é comigo.
Assim é contigo.
Não somos donos de nada,
mas somos inteiramente responsáveis
pela atitude com que vivemos aquilo que nos é temporariamente emprestado.
E, no fim, talvez seja isso
o único verdadeiro património que deixamos no mundo.

Padre João Torres

terça-feira, 9 de dezembro de 2025

E o Compromisso?



Mas afinal o que implica assumir um compromisso? Cada um de nós já teve de assumir vários e também cumprir as obrigações dos compromissos assumidos por outros mas, parece que a palavra perdeu eficácia, se calhar, tanta como tantas outras.

O compromisso assumido com alguém, com uma causa, ou até contigo mesmo implica responsabilidade e ação o que nem sempre se parece ajustar ao nosso modo de vida. Ora elenca lá, a quantidade de compromissos que tens hoje? Demasiados? Creio que ninguém gosta de estar preso a compromissos que nos fazem sair da nossa zona de conforto. De compromissos que nos fazem perder tempo, que nos irritam, que nos cansam e nos entopem a agenda. Se calhar assumimos demasiados compromissos, ou então, não assumimos nenhum porque não confiamos que o vamos cumprir.

Somos talentosos a arranjar desculpas para falhar a certos compromissos: ora o cansaço, as tarefas…e vamo-nos desculpando sem pensar bem nas consequências da nossa ausência. Normalizamos as nossas falhas e justificamos demasiadas vezes as nossas ausências sem uma pena de remorsos e tudo “fica a para a próxima”. Noutras nem justificamos, limitam-nos a falhar sem pinga de remorsos. Outras vezes somos meros corpos presentes que não emprestamos o nosso talento e capacidade ao outro, ou à causa porque: ”dá trabalho”.

Vemos cada vez mais pessoas com medo de assumir um compromisso, seja uma relação, uma reunião, uma proposta de atividade e opta por ficar no seu casulo alegando que assim está bem. E acredito mesmo que esteja! Mas será que não poderemos estar e fazer melhor? Imaginas como o teu mundo seria mais rico se te comprometesses também com causas ou movimentos?

Não tenhas medo do compromisso mas, ao assumir compreende entre outras coisas que:Se fazes parte de um grupo, responde a mensagens.
Se tens uma reunião, aparece.
Se te pedem uma tarefa, executa com brio.

Mesmo que às vezes não te apeteça, e até aches que és sempre a mesma a incentivar e a fazer, não falhes ao compromisso com leviandade. Se tiveres de faltar, faz com elegância e propões-te a fazer melhor. Caso contrario talvez o melhor seja não assumir o compromisso, no entanto, não desvalorizes a força da tua presença e da tua ação no mundo. Procura compromissos, não por serem fáceis, mas por serem valiosos para o bem comum e como tal para ti também. Não desperdices o dom que tens em ti.

E tu, amiga, quais os compromissos que tens?


Raquel Rodrigues

segunda-feira, 8 de dezembro de 2025

Solenidade da Imaculada Conceição

 

https://www.dehonianos.org/portal/liturgia/?mc_id=1029


Na Solenidade da Imaculada Conceição somos convidados a equacionar o tipo de resposta que damos aos desafios de Deus. Ao propor-nos o exemplo de Maria de Nazaré, a liturgia convida-nos a acolher, com um coração aberto e disponível, os planos de Deus para nós e para o mundo.
A segunda leitura garante-nos que Deus tem um projeto de vida plena, verdadeira e total para cada homem e para cada mulher, um projeto que desde sempre esteve na mente do próprio Deus. Esse projeto, apresentado aos homens através de Jesus Cristo, exige de cada um de nós uma resposta decidida, total e sem subterfúgios.
De acordo com o texto, Deus "elegeu-nos... para sermos santos e irrepreensíveis". Já vimos que "ser santo" significa ser consagrado para o serviço de Deus. O que é que isto implica em termos concretos? Entre outras coisas, implica tentar descobrir o plano de Deus, o projeto que Ele tem para cada um de nós e concretizá-lo dia a dia com verdade, fidelidade e radicalidade. No meio das solicitações do mundo e das exigências da nossa vida profissional, social e familiar, temos tempo para Deus, para dialogar com Ele e para tentar perceber os seus projetos e propostas? E temos disponibilidade e vontade de concretizar as suas propostas, mesmo quando elas não são conciliáveis com os nossos interesses pessoais?
A primeira leitura mostra, recorrendo à história mítica de Adão e Eva, o que acontece quando rejeitamos as propostas de Deus e preferimos caminhos de egoísmo, de orgulho e de autossuficiência... Viver à margem de Deus leva, inevitavelmente, a trilhar caminhos de sofrimento, de destruição, de infelicidade e de morte.
O texto ensina, ainda, que prescindir de Deus e dos seus caminhos significa construir uma história de inimizade com o resto da criação. A natureza deixa de ser, então, a casa comum que Deus ofereceu a todos os homens como espaço de vida e de felicidade, para se tornar algo que eu uso e exploro em meu proveito próprio, sem considerar a sua dignidade, beleza e grandeza. O que é que a criação de Deus significa para mim: algo que eu posso explorar de forma egoísta, ou algo que Deus ofereceu a todos os homens e mulheres e que eu devo respeitar e guardar com amor?
O Evangelho apresenta a resposta de Maria ao plano de Deus. Ao contrário de Adão e Eva, Maria rejeitou o orgulho, o egoísmo e a autossuficiência e preferiu conformar a sua vida, de forma total e radical, com os planos de Deus. Do seu "sim" total, resultou salvação e vida plena para ela e para o mundo.
Diante dos apelos de Deus ao compromisso, qual deve ser a resposta do homem? É aí que somos colocados diante do exemplo de Maria... Confrontada com os planos de Deus, Maria responde com um "sim" total e incondicional. Naturalmente, ela tinha o seu programa de vida e os seus projetos pessoais; mas, diante do apelo de Deus, esses projetos pessoais passaram naturalmente e sem dramas a um plano secundário. Na atitude de Maria não há qualquer sinal de egoísmo, de comodismo, de orgulho, mas há uma entrega total nas mãos de Deus e um acolhimento radical dos caminhos de Deus. O testemunho de Maria é um testemunho questionante, que nos interpela fortemente... Que atitude assumimos diante dos projetos de Deus: acolhemo-los sem reservas, com amor e disponibilidade, numa atitude de entrega total a Deus, ou assumimos uma atitude egoísta de defesa intransigente dos nossos projetos pessoais e dos nossos interesses egoístas?


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domingo, 7 de dezembro de 2025

Preparar o caminho

 

https://www.youtube.com/watch?v=LVQF6Fe9_iU


Preparamo-nos para celebrar o nascimento de Jesus. Na segunda etapa do “caminho do advento”, a liturgia refere-se à razão da vinda de Jesus ao encontro dos homens: Ele vem concretizar as promessas de Deus e inaugurar um mundo novo, radicalmente diferente desse mundo velho que conhecemos, cheio de ódios, de conflitos, de mentiras, de violências, de guerras. A Palavra de Deus que escutamos neste domingo pede-nos que acolhamos esse Menino de braços abertos e que aceitemos o desafio que Ele nos faz para integrar a comunidade do Reino de Deus.

Na primeira leitura, o profeta Isaías propõe, com a linguagem de um poeta e a convicção de um profeta, o projeto que Deus se propõe realizar em favor do Seu povo: no tempo oportuno irá chegar um “ungido” de Javé, nascido da família do rei David, que inaugurará um reino de justiça e de paz sem fim. Nesse mundo belo e harmonioso que então nascerá, “o lobo viverá com o cordeiro e a pantera dormirá com o cabrito; o bezerro e o leãozinho andarão juntos e um menino os poderá conduzir. A vitela e a ursa pastarão juntamente; e o leão comerá feno como o boi. A criança de leite brincará junto ao ninho da cobra e o menino meterá a mão na toca da víbora”. Esta janela de sonho permite-nos entrever, ao longe, o Menino de Belém. Neste tempo de advento – o tempo em que nos preparamos para celebrar a vinda de Jesus à história dos homens – faz sentido questionarmo-nos sobre aquilo que ainda nos impede de acolher Jesus e a proposta que Ele, por mandato de Deus, nos veio trazer. O que é que temos de mudar na nossa mentalidade, na nossa forma de ver o mundo e os outros, na nossa forma de atuar, nos valores sobre os quais vamos edificando a nossa existência, para que se torne realidade o mundo sonhado por Deus? Há alguma coisa na nossa vida que esteja a ser obstáculo para que Jesus chegue até nós e para que possamos acolher a Sua proposta?

No Evangelho, João Baptista deixa um aviso a todos aqueles que vão procurá-lo no vale do rio Jordão: a concretização do Reino de justiça e de paz, outrora anunciado por Deus, está próxima. Para acolher o enviado de Deus, é necessário primeiro “converter-se”. Converter-se é abandonar os caminhos sem saída em que se anda e “voltar para trás”, ao encontro de Deus. Os que aceitarem fazer esse “caminho de conversão”, estarão preparados para acolher o Reino de Deus e para fazer parte da comunidade do Messias.João anuncia a chegada próxima de Alguém mais forte do que ele, que vem batizar “no Espírito Santo e no fogo”. A catequese cristã sempre entendeu que esse “Alguém” é Jesus. Ser batizado em Cristo é aceitar o convite para integrar a família de Deus, revestir-se de Cristo e identificar-se com Ele, receber o Espírito e deixar-se conduzir por Ele, passar a integrar a comunidade da salvação e comprometer-se a dar testemunho da vida de Deus. Nós, os que fomos batizados em Cristo, levamos isto a sério? Vivemos de forma coerente com a nossa condição de batizados? Sentimo-nos família de Deus? Identificamo-nos com Jesus e seguimo-l’O no caminho que Ele nos aponta? Vivemos atentos às indicações do Espírito? Somos membros de uma Igreja viva e colocamos ao serviço da comunidade os dons que recebemos? Damos testemunho da vida de Deus no meio dos outros homens e mulheres com os quais nos cruzamos todos os dias?

Na segunda leitura o apóstolo Paulo, dirigindo-se aos cristãos de Roma, lembra-lhes algumas das exigências que resultam do compromisso que assumiram com Cristo. Sendo, junto dos seus concidadãos, o rosto visível de Cristo, eles devem dar testemunho de união, de harmonia, de fraternidade, acolhendo e ajudando os irmãos mais débeis e sendo sinais desse mundo novo que Cristo veio inaugurar.Neste tempo de advento – o tempo em que nos preparamos para celebrar a vinda de Jesus à história dos homens – faz sentido questionarmo-nos sobre aquilo que ainda nos impede de acolher Jesus e a proposta que Ele, por mandato de Deus, nos veio trazer. O que é que temos de mudar na nossa mentalidade, na nossa forma de ver o mundo e os outros, na nossa forma de atuar, nos valores sobre os quais vamos edificando a nossa existência, para que se torne realidade o mundo sonhado por Deus? Há alguma coisa na nossa vida que esteja a ser obstáculo para que Jesus chegue até nós e para que possamos acolher a Sua proposta?

https://www.dehonianos.org/

sábado, 6 de dezembro de 2025

ELES E ELAS SÃO A FINA FLOR DA HUMANIDADE

Na história da humanidade constam figuras proeminentes: líderes, políticos, cientistas, pensadores, artistas, atletas, ativistas e muitos outros que tiveram impacto significativo no mundo e na história dos povos. Uns fazem-no, com humildade, persistência e eficácia, pondo a render todos os seus talentos ao serviço de toda a comunidade humana, com sentido de responsabilidade e de missão no desenvolvimento da sociedade, do seu bem-estar, do bem comum. Outros ficam na história pela negativa, por se julgarem donos e senhores do mundo e agirem como tal, com prepotência inimaginável e ambição destruidora, sem valores nem respeito por ninguém, como verdadeiros predadores do próprio homem, esquecendo que estão a destruir-se a si próprios. Sim, que adianta ao homem ganhar o mundo inteiro se vem a perder a sua vida? (cf. Mc 8,36). Que adianta dar aso às ambições terrenas, sempre ilusórias e transitórias, desviando-se do que é, de facto, fundamental e eterno?
Entre as pessoas ilustres da humanidade estão os santos e as santas. Foram pessoas influentes ou menos influentes nos destinos da história na diversidade dos seus setores ou pessoas simples ‘de ao pé da porta’. Eles e elas são a ‘fina flor da humanidade’. Souberam ter prioridades na vida, investiram nela como um dom, entenderam que tudo quanto é dom de Deus implica tarefa humana, sem fugirem do mundo, sem cruzarem os braços, mas amando e servindo, com alegria e total dedicação, influenciando muitos e fazendo passar a mensagem de Jesus, seu Mestre, que passou pelo mundo a fazer o bem. Por isso, como lemos na Sagrada Escritura, “Muitos louvarão a sua inteligência, que jamais será esquecida. Não desaparecerá a sua memória e o seu nome viverá de geração em geração. As nações proclamarão a sua sabedoria e a assembleia celebrará os seus louvores” (cf. BSir 39, 8-14). Entre esses estão três grandes Arcebispos de Braga: São Martinho, São Frutuoso e São Geraldo que, em liturgia, celebramos conjuntamente. São Martinho, ‘oriundo da Panónia, na atual Hungria, nasceu no princípio do século VI. Era um homem de grande erudição e veio para a Galécia, por volta do ano 550. Converteu os suevos do arianismo à fé católica e fixou-se em Dume. Aí fundou um mosteiro, de que foi eleito bispo. Em 569 ficou a ser também bispo metropolita de Braga. Morreu no dia 20 de março, por volta do ano 579. Frutuoso nasceu no princípio do século VII, de nobre família visigótica. Fundou numerosos mosteiros, que muito contribuíram para a educação da juventude, como centros de vida religiosa e cultural. Finalmente, nomeado bispo metropolita de Braga, a fama da sua santidade e sabedoria estendeu-se a toda a Península Hispânica. Morreu no dia 16 de abril, por volta do ano 665. Geraldo nasceu na Gália, de nobre família. Professou no mosteiro de Moissac, de onde passou para Toledo. Eleito bispo de Braga, exerceu grande atividade na reorganização da diocese, na promoção da vida monástica, na reforma litúrgica e pastoral, bem como na aplicação da disciplina eclesiástica. Morreu na localidade de Bornes, no dia a 5 de dezembro de 1108, quando fazia as visitas pastorais nessa distante região’ (SNL).
Volto a transcrever, o que São Martinho escreveu no seu Opúsculo “Fórmula de vida honesta”, no século VI, e que sempre recordamos na Liturgia das Horas do dia 5 de dezembro. Diz-nos ele:
“Não procures granjear a amizade de alguém por meio da adulação, nem permitas que outros por meio dela granjeiem a tua. Não sejas ousado nem arrogante; submete-te e não te imponhas; conserva a serenidade e aceita de boa mente as advertências e com paciência as repreensões. Se alguém te repreender com razão, reconhece que é para teu bem; se o faz sem motivo, admite que é com boa intenção. Não temas as palavras ásperas, mas sim as brandas. Emenda-te dos teus defeitos e não sejas curioso indagador ou severo censor dos alheios; corrige os outros sem incriminação, prepara a advertência com mostras de sincera simpatia, e ao erro dá facilmente desculpa. Não exaltes nem humilhes pessoa alguma. Sê discreto a respeito do que ouves dizer e acolhedor benévolo dos que te querem ouvir. Responde prontamente a quem te pergunta e cede facilmente a quem porfia, para que não venhas a cair em contendas e imprecações. Se és moderado e senhor de ti mesmo, vigia sobre as moções do teu ânimo e os impulsos do teu corpo, evitando todas as inconveniências; não os ignores pelo facto de serem ocultos; pois não importa que ninguém os veja, se tu de facto os vês. Sê flexível, mas não leviano; constante, mas não teimoso. A tua ciência não seja ignorada nem molesta. Considera a todos iguais a ti; não desprezes os inferiores com altivez, e não temas os superiores, se vives rectamente. Em matéria de obséquios e saudações não te dispenses nem os exijas. Para todos deves ser afável; para ninguém, adulador; com poucos, familiar; para todos, justo. Sê mais severo no discernimento do que nas palavras e mais nobre na vida do que na aparência. Afeiçoa-te à clemência e detesta a crueldade. Quanto à boa fama, não apregoes a tua nem invejes a alheia. Sobre rumores, crimes e suspeitas não sejas crédulo nem inclinado a pensar mal, mas opõe-te decididamente àqueles que com aparente simplicidade maquinam a difamação alheia. Sê tardo para a ira e fácil para a misericórdia; firme nas adversidades, prudente e moderado nas prosperidades; ocultador das próprias virtudes, como outros o são dos vícios. Evita a vanglória e não busques o reconhecimento das tuas qualidades. A ninguém desprezes por ignorante. Fala pouco, mas tolera pacientemente os faladores. Sê sério mas não desumano, e não menosprezes as pessoas alegres. Sê desejoso da sabedoria e dócil. Sem presunção, ensina o que sabes a quem to pedir; e sem disfarçar a ignorância, pede que te ensinem o que não sabes.”


D. Antonino Dias
05/12/2025


sexta-feira, 5 de dezembro de 2025

Pelos cristãos em contextos de guerras e conflitos - O Vídeo do Papa - Dezembro 2025

 


https://www.youtube.com/watch?v=W2S9AgoaS8g&list=PLbrmDDANazj1Zcr8Eh7qKB-Rh2aAS0Q_r&index=1

Na última intenção de oração do ano de 2025, o Papa nos pede que rezemos "para que os cristãos que vivem em contextos de guerra ou de conflito, especialmente no Oriente Médio, possam ser sementes de paz, reconciliação e esperança”. Às vésperas de sua primeira viagem apostólica, à Turquia e ao Líbano, o Santo Padre nos convida a não “cair na indiferença” e a ser “construtores de unidade”, rezando com ele ao “Deus da paz” por estas comunidades para que não se sintam abandonadas. As imagens deste vídeo, realizado pela Rede Mundial de Oração do Papa, nos mostram exemplos de uma fé inquebrantável, inclusive em meio dos escombros. Vemos as celebrações em povoados iraquianos que voltaram à vida, a força da comunidade paroquial de Gaza e o trabalho indispensável de Cáritas no Líbano entre os pobres e refugiados. 

---- Rezemos para que os cristãos que vivem em contextos de guerra ou de conflito, especialmente no Oriente Médio, possam ser sementes de paz, reconciliação e esperança.

 Deus da paz,
que, pelo sangue do Teu Filho, 
reconciliaste o mundo contigo,
 hoje rezamos pelos cristãos 
que vivem em meio a guerras e violências.

 Mesmo cercados pela dor,
 que nunca deixem de sentir
 a gentil bondade da Tua presença 
e as orações de seus irmãos e irmãs na fé. 

Pois somente por Ti,
 e fortalecidos pelos laços fraternos,
 podem tornar-se sementes de reconciliação,
 construtores de esperança em pequenos e grandes gestos, 
capazes de perdoar e seguir adiante,
 de superar divisões
 e de buscar a justiça com misericórdia.

 Senhor Jesus, que chamaste bem-aventurados
 os que promovem a paz, 
fazei de nós instrumentos da Tua paz, 
mesmo onde a harmonia parece impossível. 

Espírito Santo,
 fonte de esperança nas horas mais sombrias,
 sustentai a fé dos que sofrem 
e fortalecei a sua esperança. 
Não permitas que caiamos na indiferença,
 e fazei de nós construtores da unidade, como Jesus.

Rede Mundial de Oração do Papa

E tu, já pediste desculpa hoje?






Hoje talvez não, mas tenho, certamente, algumas a pedir!

Também tenho, certamente, algumas a haver! Não teremos?

Na azáfama dos dias (azáfama essa que parecemos gostar de criar e manter com afinco), passa-nos tantas vezes ao lado essa palavrinha milagrosa: desculpa.

Desculpa por tudo e às vezes por nada, mas que demonstra empatia, compaixão, respeito pelos outros.

É outra das minhas palavras favoritas, e é por isso que abomino a célebre frase: "as desculpas não se pedem evitam-se" porque para mim é exatamente o contrário: AS DESCULPAS NÃO SE EVITAM, PEDEM-SE.


Lucília Miranda


quinta-feira, 4 de dezembro de 2025

Nunca partimos de onde queremos



De que serve um mapa para um tesouro, se não soubermos onde estamos? Ninguém escolhe o seu ponto de partida. Importa saber e assumir o ponto exato em que nos encontramos na vida.

Qualquer peregrinação começa do ponto exato em que estamos quando tomamos a decisão de partir. O primeiro passo, que é o mais difícil, é passar da decisão à ação.

Mas ninguém pode ir de onde não está. Há quem não aceite as suas próprias circunstâncias e tente esconder a verdade ao mesmo tempo que apresenta uma mentira qualquer, mais ou menos elaborada.

Quase nunca estamos onde gostávamos de estar. Há quem se entristeça quando, depois de tanto sonhar, abre os olhos e percebe que neste mundo há pouco daquilo que desejava, mas também há quem viva de olhos abertos e descubra belezas até nos cenários mais pobres e sombrios.

Os males atingem-nos a todos. Alguns veem para lá do momento e acreditam no bem que existe antes e depois de todos os males.

Nós somos tanto de onde estamos como de onde viemos. Mas, mais do que de qualquer um desses dois, somos de onde havemos de chegar. Porque a vida é um caminho, uma aventura — para alguns, uma tragédia até — mas o final… bem, o final será o que cada um de nós decidir lutar para alcançar.

O céu é o fim que não tem fim, a vida da qual esta vida faz parte, e que muitos escolhem como sua meta.

Esta nossa vida é apenas a parte do caminho em que, livres, nos é dado decidir o destino que ambicionamos e o rumo que escolhemos para lá chegar.

Quantas vezes estamos longe e perdidos? Que bom seria que, mesmo aí, soubéssemos e nos sentíssemos a caminho. A caminho no nosso caminho. A caminho do nosso destino.



José Luís Nunes Martins

quarta-feira, 3 de dezembro de 2025

Diz a quem te ama que sentes o seu amor!



É essencial expressarmos o nosso amor a alguém através de palavras claras. Mas há algo que quase nunca fazemos: reconhecer o amor que sentimos que alguém nos dá.

O orgulho faz-nos cometer muitos erros. Julgamo-nos muitas vezes superiores aos outros e chegamos a pensar que eles têm o dever de nos estimar e admirar. Vivemos como se o mundo girasse à volta do trono em que nos colocamos. Com muito egoísmo, apenas contabilizamos o bem que fazemos, mas nunca o que nos fazem a nós.

Na verdade, é mesmo muito difícil que alguém reconheça que recebeu o que não merece. Como seria bom se eu fosse capaz de agir de forma diferente e tivesse, com autenticidade, coragem para dizer a alguém: “Sinto que me amas”.

Agradecer é sempre justo. Sempre. Reconhecer o amor que percebemos que alguém nos dá é ainda mais do que um simples Obrigado. “Tu amas-me” é uma afirmação humilde que engrandece quem dela for capaz. Quem a escuta poderá ficar mais seguro de que o amor que nos dá chega ao destino e é sentido.

Além disso, há ainda quem nos ame sem se fazer notar e que nós não conseguimos distinguir na confusão dos dias, por estarmos longe de pensar na verdade e na origem do que nos chega. Uma das maiores virtudes de uma graça é a discrição.

O amor, quando é verdadeiro, não supõe reciprocidade. É generosidade pura. Dar e dar-se sem esperar, e muitas vezes nem querer, retribuição alguma. Amar com verdade, e por mais sofrimento que implique, é já, em si mesmo, a sua própria recompensa.


José Luís Nunes Martins