sexta-feira, 26 de dezembro de 2025

«Sou eu e o meu deus?»

 



Numa época que parece já não precisar de Deus: Eis a tecnologia! Eis a inteligência artificial! Eis que desenvolvem novos conhecimentos e novas conquistas!...

Numa época em que a frequência dos sacramentos e a vida de fé estão a diminuir significativamente, embora muitos afirmem crer mesmo sem frequentarem a Igreja ou as comunidades cristãs da sua residência...

Da época em que a fé cristã influenciou a vida dos povos e as suas instituições políticas, hoje, especialmente nos países ocidentais, a questão de Deus parece estar a perder relevância...

Esta mudança leva os cristãos a sentirem-se uma minoria...

Mas é aqui e agora que devem sentir crescer a responsabilidade do testemunho evangélico no mundo. A fé cristã é um compromisso pessoal com Jesus. Exige como resposta a vivência de uma vida imersa em Cristo e um testemunho visível e credível para o mundo.

O risco de viver uma fé íntima, onde "sou eu e o meu deus", as minhas orações e práticas religiosas, corre o risco de empobrecer a dimensão testemunhal da vida cristã.

Aos muitos cristãos tentados a refugiar-se numa privacidade confortável ou a isolar-se em círculos fechados e íntimos, renunciando à dimensão social do Evangelho, e a alguns que desejam um Cristo puramente espiritual, sem carne e sem cruz, o Papa Francisco recordou-nos que o Evangelho convida-nos sempre a correr o risco de encontrar a face do outro, com um ar de desafio ou com a sua dor e os seus pedidos.

O que celebramos no Natal? Não é um Deus que veio para a salvação de todos os homens?

O Natal pede-nos que participemos e testemunhemos essa salvação universal, composta por gestos de atenção, cuidado e solidariedade para com os que estão próximos e distantes, para nos tornarmos próximos, vencendo a tentação da indiferença que fere a humanidade.

Os cristãos não são ilhas, mas seres de comunhão, de relação, capazes de criar laços, mesmo quando isso implica o esforço do diálogo e do confronto ou a tensão de viver a fé num ambiente pluralista, por vezes indiferente ou hostil.

Isso não nos deve desanimar, antes pelo contrário, deve encorajar-nos a abraçar a nossa fé.

O Natal, como disse Hannah Arendt, é o milagre que preserva o mundo da ruína, infundindo fé e esperança nos vivos, fé e esperança que encontram a sua «expressão mais gloriosa e eficaz nas palavras com que o Evangelho anunciou a alegre notícia do Advento: “Nasceu-nos um menino”».

Votos de um Santo Natal!


Paulo Victória

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