sexta-feira, 30 de abril de 2021

QUANDO OS PATRÕES REZAM PELOS OPERÁRIOS e vice-versa



A frase em título vai provocar sisudez em alguns leitores. Paciência, não perco casamento! Uns acharão que isso é um disparate ou uma ousadia de mau gosto. Outros levarão a mão à boca, escandalizados, como se eu tivesse dito uma blasfémia ou uma sonante jaculatória minhota a ecoar por entre a bigorna, o martelo e o estribo, até dos surdos. Seja como for, nada retiro, nem que o rabo torça a porca (com licença, dizia-se na minha terra sempre que se apelava a porcos, com licença!). E quem diz responsáveis diz empresários, dirigentes de instituições, clubes, etc. etc. etc... O Papa Francisco, que ainda há dias, no 25 de abril, foi citado na Assembleia da República, não se cansa de repetir que “não nos esqueçamos nunca de rezar uns pelos outros”. Chamei-lhe Assembleia da República, e bem. Todos nós acreditamos que é e deve ser a Casa da Democracia. No entanto, segundo uma versão recentíssima dada à luz por quem esgravata nos arcanos desse saber, esse sítio é o “sítio mais sagrado da maçonaria”, é o “maior templo de maçonaria em Portugal”. Assim sendo, os nossos dedicados representantes, aí reunidos mas nunca unidos, constituem, nesse sagrado templo, uma assembleia orante mui “discreta”, mui “secreta”, mui “embiocada”! E será mesmo que, de cada dez dos parlamentares mais homenageados, nove são maçons?... “Hombre! yo tampoco creo en las brujas, pero que las hay, las hay... y crecen como hongos!...” Mas voltemos ao nosso tema antes que seja tarde e desapareça.
Num Estado laico, como é o nosso, o poder é imparcial em relação a questões religiosas. Ser imparcial, porém, não significa que seja ateu, agnóstico ou que discrimine a fé dos cidadãos ou os proíba de a exercer e se afirmarem. A Igreja sempre rezou e ensina o povo a rezar pelos governantes e por outros responsáveis e dirigentes sociais. Não para que o explorem e desprezem. Mas para que o sirvam com competência e honestidade e lhe garantam uma vida digna, calma e tranquila. É possível que muitos cristãos nem sempre se lembrem de rezar pelos seus súbditos, funcionários, operários, associados, dirigidos, alunos, clientes, utentes... Interceder pelos outros é um gesto nobre e fraterno, também de gratidão pelas suas pessoas, pelo seu serviço ou trabalho ou até, depende de que lado se está, são eles quem lhes garante o emprego ou o seu crescimento económico. É belo o testemunho que nos dá um oficial romano, em Cafarnaum. Quando Jesus entrou na cidade, este centurião foi ao seu encontro para lhe implorar a cura do seu servo que estava às portas da morte. Reparem: era um escravo a quem o centurião, carinhosamente, chama “meu filho”! (cf. Lc 7,1-10). Dizer que todos somos irmãos, implica reconhecer que temos um Pai comum, que é Deus. Dizer que todos somos irmãos é, pois, entender que o povo não é uma espécie de palco onde “estranhos” sobem e pisam como meros atores para satisfazer interesses concertados pelos camarins e anexos! Por certo que há muita gente que reza pelos seus súbditos, e não só. Outros, porém, sem ninguém lho perguntar, até se adiantam a dizer que são ateus, graças a Deus, ou agnósticos. Quando se insinuam desse jeito, até parece que estão a fazer um ato de fé ao contrário. Querem fazer-se de fortes e passar por pessoas desempoeiradas e sabidas, como se a fé os diminuísse ou lhes mordesse. A fé no Deus de Jesus Cristo não deve envergonhar ninguém, antes pelo contrário, é um dom nunca demais agradecido. Ele dinamiza, humaniza, dá sentido à existência, às coisas e ações da vida, salva. Quem se envergonhar de Mim diante dos homens, também Eu Me envergonharei dele diante de Meu Pai que está nos céus, disse-nos Jesus (cf. Lc 9, 26).
Quando Pilatos quis chamar Jesus à pedra, puxou pelos seus galões de governante para lhe recordar que tinha autoridade para o soltar e para o crucificar. Jesus respondeu-lhe: “Não terias nenhuma autoridade sobre Mim se ela não te fosse dada por Deus”. Naquele outro bate papo sobre se se devia ou não pagar o tributo a César, Jesus disse aos interlocutores que era preciso respeitar a autoridade civil e as suas leis: dai a César o que é de César. Mas também lhes disse que não se pode absolutizar o poder. A ninguém pertence assumir o que é exclusivo de Deus. Por isso, Jesus acrescentou: e dai a Deus o que é de Deus”.
Acredito que, quem de direito, se esmere por dar ao povo o que o povo espera deles, porque neles confiou. Mesmo que não sejam crentes, é uma excelente forma de dar a Deus o que é de Deus, se não se entrar por caminhos dúbios. O povo não é uma massa inerte a ser manipulada e instrumentalizada para servir os caminhos da altivez, da corrupção ou da barbárie. Aos discípulos em busca de poder, Jesus disse-lhes que aquele que quisesse ser o maior se tornasse o último e servisse a todos, sobretudo os mais frágeis. Os responsáveis pelo destino dos povos, nos seus mais diversos setores de intervenção, devem ser estimados, respeitados e obedecidos desde que humanos e as suas leis sejam justas, humanizantes e balizadas. Não é uma obediência passiva e de total submissão, até porque, se alguma autoridade se julgasse acima do próprio Deus e agisse libertinamente, “é preciso obedecer antes a Deus do que aos homens”, mesmo que isso venha a causar dissabores (cf. At 5, 29).
Os governos, se legítimos, exercem uma autoridade conferida pelo próprio Deus, como diz São Paulo (Rom 13.1-2). Não para se arvorarem em poderes teocráticos como se Deus lhes dissesse segredos aos ouvidos em linguagem encriptada, lhes desse poderes para discriminação de género, para escravizar, esfolar e matar, e os ilibasse da ética da responsabilidade e do bom senso. Não para que surjam poderes messiânicos, opressivos e despóticos a impor sujeição absoluta, endeusando-se para explorar ou exterminar pessoas e povos só porque sim, ou porque pensam e são diferentes. Também nenhuma autoridade, ou seja quem for, é uma espécie de marionete ou instrumento nas mãos de Deus. A soberania de Deus abarca a todos, sim, mas em liberdade na responsabilidade. Ele confia em cada um as funções que cada um é capaz de exercer honestamente e segundo as suas próprias capacidades em favor do bem comum. Para isso, a todos deu inteligência para pensar, investigar e programar. Deu talentos, vontade e força para trabalhar e concretizar o possível e o melhor. No coração de todos escreveu uma Lei, a lei do amor a Deus e ao próximo, com uma consciência que aplaude ou reprova os procedimentos. Esta confiança que Deus coloca naqueles que exercem autoridade, seja ela qual for, obriga-os a promover a vida social na verdade, na justiça, na solidariedade e na paz. Só o abandono de Deus levará alguém a espezinhar o homem, o povo.
Os pais da União Europeia, homens humildes e políticos de eleição, tinham consciência de que eram instrumentos bem limitados de uma Providência que se servia deles para a realização de desígnios que os ultrapassava. Isso dava-lhes serenidade e maior sentido de responsabilidade. Sabiam que o maior revolucionário de toda a história serviu de coração humilde e morreu de braços abertos na cruz, abraçando a todos. E não tinham receio de alavancar o seu universalismo, a sua política de união e de fraternidade, de justiça e de paz, no fermento do Evangelho. Também Tomás Moro, Patrono dos Governantes e dos Políticos, agindo diante de Henrique VIII como João Batista diante de Herodes, foi condenado à morte. Sempre dedicado e leal ao rei, nunca deixou de defender as suas convicções sobre a família. No momento da execução afirmou: “…morro fiel servidor de Deus e do rei, mas primeiro de Deus…”.
Respondendo a uma pergunta de alguém, o Papa Francisco afirmou que os cristãos não podem fazer de pilatos, lavar as mãos...têm a obrigação de se envolver na política… é uma das formas mais elevadas da caridade, visto que procura o bem comum... e se ela está muito suja “não será porque os cristãos se envolveram na política sem espírito evangélico?”.
“A Igreja encara com simpatia o sistema da democracia, enquanto assegura a participação dos cidadãos nas opções políticas e garante aos governados a possibilidade quer de escolher e controlar os próprios governantes, quer de os substituir pacificamente, quando tal se torna oportuno” (CA46). Bem como defende a reforma pacífica das estruturas e instituições políticas para mudar os regimes corruptos e ditatórias em sistemas mais democráticos e participativos. Neste mês de abril, por exemplo, o Papa Francisco propôs como oração comum para toda a Igreja, rezar “por aqueles que arriscam a vida lutando pelos direitos fundamentais nas ditaduras, nos regimes autoritários e também nas democracias em crise”.
D. Antonino Dias- Bispo Diocesano
Portalegre-Castelo Branco, 30-04-2021.


A oração vocal


Audiência Geral: Catequese - 30. A oração vocal



Estimados irmãos e irmãs, bom dia!


A oração é diálogo com Deus; e, num certo sentido, todas as criaturas “dialogam” com Deus. No ser humano, a oração torna-se palavra, invocação, cântico, poesia... A Palavra divina fez-se carne, e na carne de cada homem a palavra volta a Deus na oração.

As palavras são as nossas criaturas, mas são também as nossas mães, e em certa medida plasmam-nos. As palavras de uma prece levam-nos em segurança através de um vale escuro, orientando-nos para prados verdes, ricos de água, fazendo-nos banquetear diante dos olhos de um inimigo, como o Salmo nos ensina a recitar (cf. Sl 23). As palavras nascem dos sentimentos, mas há também o caminho inverso: aquele em que as palavras moldam os sentimentos. A Bíblia educa o homem para garantir que tudo vem à luz através da palavra, que nada de humano seja excluído, censurado. Acima de tudo, a dor é perigosa se permanecer coberta, fechada dentro de nós... Uma dor encerrada dentro de nós, que não se exprime nem desabafa, pode envenenar a alma; é mortal.

É por este motivo que a Sagrada Escritura nos ensina a rezar até com palavras às vezes audazes. Os escritores sagrados não nos querem enganar sobre o homem: sabem que no seu coração existem também sentimentos pouco edificantes, até mesmo o ódio. Nenhum de nós nasce santo, e quando estes sentimentos negativos batem à porta do nosso coração, devemos ser capazes de os desarmar com a oração e com as palavras de Deus. Nos Salmos encontramos também expressões muito duras contra os inimigos – expressões que os mestres espirituais nos ensinam a atribuir ao diabo e aos nossos pecados – mas são palavras que pertencem à realidade humana e que acabaram no contexto das Sagradas Escrituras. Estão ali para nos testemunhar que se, perante a violência, não houvessem palavras para tornar inofensivos os maus sentimentos, para os canalizar de modo que não prejudiquem, o mundo inteiro seria inundado por eles.

A primeira oração humana é sempre uma recitação vocal. Os lábios movem-se sempre em primeiro lugar. Embora todos saibamos que rezar não significa repetir palavras, no entanto a oração oral é a mais segura e pode ser praticada sempre. Os sentimentos, por mais nobres que sejam, são sempre incertos: vêm e vão, abandonam-nos e regressam. Não só, mas até as graças da oração são imprevisíveis: às vezes as consolações abundam, mas nos dias mais escuros parecem evaporar-se completamente. A oração do coração é misteriosa e em certos momentos falha. A oração dos lábios, aquela que é sussurrada ou recitada em coro, está sempre disponível, e é tão necessária quanto o trabalho manual. O Catecismo afirma: «A oração vocal é um elemento indispensável da vida cristã. Aos discípulos, atraídos pela oração silenciosa do seu Mestre, este ensina-lhes uma oração vocal: o Pai-Nosso» (n. 2701). “Ensina-nos a rezar”, pedem os discípulos a Jesus, e Jesus ensina uma oração vocal: o Pai-Nosso. E naquela prece há tudo.

Todos deveríamos ter a humildade de certos idosos que, na igreja, talvez porque a sua audição já não é aguda, recitam em meia-voz as orações que aprenderam quando eram crianças, enchendo a nave de sussurros. Esta prece não perturba o silêncio, mas dá testemunho da sua fidelidade ao dever da oração, praticada durante uma vida inteira, sem nunca falhar. Com a oração humilde, estes orantes são frequentemente os grandes intercessores das paróquias: são os carvalhos que de ano em ano alargam os seus ramos, para oferecer sombra ao maior número de pessoas. Só Deus sabe quando e quanto os seus corações estavam unidos àquelas orações recitadas: certamente essas pessoas também tiveram que enfrentar noites e momentos vazios. Mas pode-se permanecer sempre fiel à prece vocal. É como um âncora: agarrar-se à corda para permanecer ali, fiéis, aconteça ou que acontecer.

Todos temos que aprender com a constância daquele peregrino russo, mencionado numa famosa obra de espiritualidade, que aprendeu a arte da oração repetindo a mesma invocação inúmeras vezes: «Jesus Cristo, Filho de Deus, Senhor, tende piedade de nós, pecadores!» (cf. CIC, 2616; 2667). Repetia só isto. Se as graças entraram na sua vida, se um dia a oração se tornou tão ardente que ele sentiu a presença do Reino aqui entre nós, se o seu olhar se transformou até ser como o de uma criança, foi porque ele insistiu em recitar uma simples jaculatória cristã. No final, ela torna-se parte da sua respiração. É bonita a história do peregrino russo: é um livro ao alcance de todos. Recomendo-vos que o leiais: ajudar-vos-á a compreender o que é a oração vocal.

Por conseguinte, não devemos desprezar a oração vocal. Alguém diz: “Mas, é coisa para as crianças, para gente ignorante; estou procurando a prece mental, a meditação, o vazio interior para que Deus venha”. Por favor, não se deve cair na soberba de desprezar a oração vocal. É a oração dos simples, a que Jesus nos ensinou: Pai nosso que estais no céu… As palavras que pronunciamos levam-nos pela mão; às vezes restituem o sabor, despertam até o mais adormecido dos corações; estimulam sentimentos dos quais tínhamos perdido a memória, e levam-nos pela mão rumo à experiência de Deus. E acima de tudo, de maneira segura, são as únicas que dirigem a Deus as perguntas que Lhe aprazem. Jesus não nos deixou na névoa. Disse-nos: «Eis como deveis rezar!». E ensinou a oração do Pai-Nosso (cf. Mt 6, 9).

Saudações:

Saúdo cordialmente os fiéis de língua portuguesa. Vos convido a nunca abandonar as orações simples que aprendemos de pequenos no seio da nossa família e que guardamos na memória do coração. São vias seguras de acesso ao coração do Pai. Que Deus vos abençoe!


(Papa Francisco)

quinta-feira, 29 de abril de 2021

Que Igreja teremos?



Acredito firmemente que a Igreja nos próximos tempos será renovada e terá uma nova forma de estar no mundo e na vida das pessoas. Deixará de ser vista como "prestadora de serviços sacramentais" e terá uma força maior no servir e na entrega. Deixará, porventura, o elevado número de fiéis, mas encontrará, naqueles que permanecerem, uma fé sedenta, arejada e alegre sem se deixarem prender pelos ritos ou à doutrina. Não haverá cristãos de procissões ou mais ou menos praticantes. Haverá, isso sim, cristãos que deixarão que a mensagem d'Aquele em quem acreditam lhes marque o compasso das suas palavras, dos seus gestos e dos seus passos.

A Igreja dos próximos tempos, e espero não estar a pronunciar nenhuma barbaridade, será a oportunidade de muitos poderem encontrar-se como são. Será o único espaço onde muitos poderão questionar todas as suas vidas. Será o local onde tantos e tantas encontrarão a paz que não aliviará, nem apagará todo o sofrimento, mas que será alimento para continuar a lutar por aqueles a quem a sociedade ateima em não lhes dar um rosto, um nome.

A Igreja dos próximos tempos terá de ser preenchida e reconhecida pelo amor que transporta e acolhe todos os que lhe procuram independentemente da sua condição ou história de vida. Terá de se deixar encontrar por todos e não temer que a sua única resposta seja a simples presença ou o silêncio. Terá de permitir que a sua linguagem se adapte aos novos tempos sem nunca esquecer que o Espírito Santo apontará sempre para Aquele que tudo nos revelou: Jesus Cristo!

A Igreja dos próximos tempos terá de ser humana e não fingir que vive uma santidade mascarada ou que se situa mais elevada por simplesmente transportar a maior de todas as novidades. A Igreja dos próximos tempos dará a conhecer O divino pela sua humanidade, frágil, pecadora, mas renovada pelo Seu amor e pela Sua misericórdia.

Acredito plenamente que nos próximos anos a Igreja não será reconhecida pelo serviço ativo do seu clero, mas sim pelo que tu fazes, pelo que eu faço, pelo que nós fazemos para voltarmos a reerguer os que se cruzam connosco e ensinarmos, todos os que queiram, a andar sobre as águas da vida. Será revelada pelo jeito com que parte e reparte o pão.

A Igreja dos próximos tempos terá de ser reconhecida, de novo, pela forma como se alegra e ama… os outros e a vida!



Emanuel António Dias


quarta-feira, 28 de abril de 2021

É possível ser um bom egoísta?

 


Não sejas um egoísta básico, daqueles que só pensam em si a curto prazo. Agarram-se a tudo o que lhes dá prazer e fogem de qualquer sacrifício ou dor. Nunca são felizes, porque vivem desassossegados por nunca saberem quando lhes acaba o que julgam ter ao seu dispor de bom, ao mesmo tempo que vivem com medo de que algo de mau lhes aconteça.

Os egoístas primários não compreendem que são eles próprios os responsáveis pela sua inquietude sem fim. Só são infelizes porque, apesar de até poderem estar no caminho certo, estão a caminhar na direção errada!

Também há os egoístas sábios. São pessoas que procuram o que é melhor para si, não no imediato, mas a médio e longo prazo. Só pensam em si mesmas, apesar de compreenderem que é quase sempre necessário pagar um preço para alcançar algo de importante. E, porque o pagam, a vida sorri-lhes mais do que aos básicos. Embora isso te possa parecer muito equilibrado, não te deixes cair na armadilha deste tipo de pessoas interesseiras, que só fazem algo se tiverem a quase certeza de um lucro qualquer no futuro.

O egoísmo que importa aprender é aquele que coloca a sua meta muito para lá de qualquer interesse, ao ponto de compreender que qualquer gesto que busque um benefício vindo de fora é estúpido e só nos afasta do verdadeiro bem.

O bom egoísmo é aquele que compreende que só quem é capaz de se dar sem esperar nada em troca, só quem consegue escutar o outro sem fazer julgamentos cria verdadeiras ligações, só quem é o que de melhor pode ser… é que atinge a felicidade! Aquela que não passa, a que permanece mesmo quando se tem de carregar uma cruz às costas.

Devemos pensar em nós mesmos, mas como meios e instrumentos da felicidade dos que nos rodeiam.

O amor é a condição da felicidade. Se queres ser feliz, esquece-te de ti e concentra-te no que és, no que que te é possível e no que te rodeia. Contempla o mundo como algo em que podes e deves fazer alguma coisa de bom.

Mais do que procurarmos ser felizes, devemos querer ser merecedores da felicidade.

Se o seremos ou não, isso já não depende apenas de nós.

segunda-feira, 26 de abril de 2021

O (teu) amor muda o mundo



Há alguém, algures por aí, à espera do seu lugar. O seu lugar-mais-amor do mundo. Onde (de)morar sem datas de validade. És tu. O teu abraço é o melhor lugar do mundo para alguém.

Há alguém, algures por aí, à espera de quem lhe cative o coração. De quem o abrace. Para sempre. És tu. O teu sorriso abraça corações.

Há alguém, algures por aí, à espera de um porto de abrigo. Que sossegue tempestades e medos. Onde descansar do mundo. És tu. As tuas mãos são o abrigo de alguém.

Há alguém, algures por aí, à espera de um gesto que abrace tudo. Que cure o que se parte. Que cure o que dói. És tu. O teu abraço cura.

Há alguém, algures por aí, à espera de quem lhe sinta o coração. De quem lhe abrace a alma. Como quem respira amor. És tu. O teu sorriso é em forma de amor.

Há alguém, algures por aí, de olhos perdidos no vazio. À espera de quem os olhe por dentro. De quem os faça brilhar. És tu. Os teus olhos sorriem e fazem sorrir.

Há alguém, algures por aí, à espera de um milagre. Que salve do abismo. Que salve de tudo. És tu. O teu abraço salva.

Há alguém, algures por aí, à espera de quem lhe mude o dia. De quem lhe mude a vida. E o coração. És tu. O teu sorriso é a melhor parte do dia de alguém.

Há alguém, algures por aí, à espera de quem fique ali. Ao seu lado e do lado de dentro. Como quem segura. Como quem guarda. És tu. As tuas mãos foram feitas para abraçar outras mãos.

Há alguém, algures por aí, à espera de um sorriso em forma de abraço. De um sorriso tatuado no coração. És tu. O teu abraço faz corações sorrir.

És tanto. Mais do que sabes.

Há sempre alguém, algures por aí, a quem tu mudas o mundo. Mesmo sem saberes. Quando abraças. Quando sorris. Quando abraças mãos. Quando olhas. Quando vives, quando és, com amor. Quando amas. O (teu) amor muda o mundo. Sabes?

Em quantos corações já tatuaste um sorriso?


Daniela Barreira

domingo, 25 de abril de 2021

MENSAGEM DO PAPA FRANCISCO PARA O 58º DIA MUNDIAL DE ORAÇÃO PELAS VOCAÇÕES



MENSAGEM DO PAPA FRANCISCO

PARA O 58º DIA MUNDIAL DE ORAÇÃO PELAS VOCAÇÕES
[25 de abril de 2021 - IV Domingo da Páscoa]



«São José: o sonho da vocação»




Queridos irmãos e irmãs!

No dia 8 de dezembro passado, teve início o Ano especial dedicado a São José, por ocasião do 150º aniversário da declaração dele como Padroeiro da Igreja universal (cf. Decreto da Penitenciaria Apostólica, 8 de dezembro de 2020). Da parte minha, escrevi a carta apostólica Patris corde, com o objetivo de «aumentar o amor por este grande Santo» (concl.). Trata-se realmente duma figura extraordinária e, ao mesmo tempo, «tão próxima da condição humana de cada um de nós» (introd.). São José não sobressaía, não estava dotado de particulares carismas, não se apresentava especial aos olhos de quem se cruzava com ele. Não era famoso, nem se fazia notar: dele, os Evangelhos não transcrevem uma palavra sequer. Contudo, através da sua vida normal, realizou algo de extraordinário aos olhos de Deus.

Deus vê o coração (cf. 1 Sam 16, 7) e, em São José, reconheceu um coração de pai, capaz de dar e gerar vida no dia a dia. É isto mesmo que as vocações tendem a fazer: gerar e regenerar vidas todos os dias. O Senhor deseja moldar corações de pais, corações de mães: corações abertos, capazes de grandes ímpetos, generosos na doação, compassivos para consolar as angústias e firmes para fortalecer as esperanças. Disto mesmo têm necessidade o sacerdócio e a vida consagrada, particularmente nos dias de hoje, nestes tempos marcados por fragilidades e tribulações devidas também à pandemia que tem suscitado incertezas e medos sobre o futuro e o próprio sentido da vida. São José vem em nossa ajuda com a sua mansidão, como Santo ao pé da porta; simultaneamente pode, com o seu forte testemunho, guiar-nos no caminho.

A vida de São José sugere-nos três palavras-chave para a vocação de cada um. A primeira é sonho. Todos sonham realizar-se na vida. E é justo nutrir aspirações grandes, expectativas altas, que objetivos efémeros como o sucesso, a riqueza e a diversão não conseguem satisfazer. Realmente, se pedíssemos às pessoas para traduzirem numa só palavra o sonho da sua vida, não seria difícil imaginar a resposta: «amor». É o amor que dá sentido à vida, porque revela o seu mistério. Pois só se tem a vida que se dá, só se possui de verdade a vida que se doa plenamente. A este propósito, muito nos tem a dizer São José, pois, através dos sonhos que Deus lhe inspirou, fez da sua existência um dom.

Os Evangelhos falam de quatro sonhos (cf. Mt 1, 20; 2, 13.19.22). Apesar de serem chamadas divinas, não eram fáceis de acolher. Depois de cada um dos sonhos, José teve de alterar os seus planos e entrar em jogo para executar os misteriosos projetos de Deus, sacrificando os próprios. Confiou plenamente. Podemos perguntar-nos: «Que era um sonho noturno, para o seguir com tanta confiança?» Por mais atenção que se lhe pudesse prestar na antiguidade, valia sempre muito pouco quando comparado com a realidade concreta da vida. Todavia São José deixou-se guiar decididamente pelos sonhos. Porquê? Porque o seu coração estava orientado para Deus, estava já predisposto para Ele. Para o seu vigilante «ouvido interior» era suficiente um pequeno sinal para reconhecer a voz divina. O mesmo se passa com a nossa vocação: Deus não gosta de Se revelar de forma espetacular, forçando a nossa liberdade. Transmite-nos os seus projetos com mansidão; não nos ofusca com visões esplendorosas, mas dirige-Se delicadamente à nossa interioridade, entrando no nosso íntimo e falando-nos através dos nossos pensamentos e sentimentos. E assim nos propõe, como fez com São José, metas elevadas e surpreendentes.

Na realidade, os sonhos introduziram José em aventuras que nunca teria imaginado. O primeiro perturbou o seu noivado, mas tornou-o pai do Messias; o segundo fê-lo fugir para o Egito, mas salvou a vida da sua família. Depois do terceiro, que ordenava o regresso à pátria, vem o quarto que o levou a mudar os planos, fazendo-o seguir para Nazaré, onde precisamente Jesus havia de começar o anúncio do Reino de Deus. Por conseguinte, em todos estes transtornos, revelou-se vitoriosa a coragem de seguir a vontade de Deus. Assim acontece na vocação: a chamada divina impele sempre a sair, a dar-se, a ir mais além. Não há fé sem risco. Só abandonando-se confiadamente à graça, deixando de lado os próprios programas e comodidades, é que se diz verdadeiramente «sim» a Deus. E cada «sim» produz fruto, porque adere a um desígnio maior, do qual entrevemos apenas alguns detalhes, mas que o Artista divino conhece e desenvolve para fazer de cada vida uma obra-prima. Neste sentido, São José constitui um ícone exemplar do acolhimento dos projetos de Deus. Trata-se, porém, de um acolhimento ativo, nunca de abdicação nem capitulação; ele «não é um homem resignado passivamente. O seu protagonismo é corajoso e forte» (Carta ap. Patris corde, 4). Que ele ajude a todos, sobretudo aos jovens em discernimento, a realizar os sonhos que Deus tem para cada um; inspire a corajosa intrepidez de dizer «sim» ao Senhor, que sempre surpreende e nunca desilude!

Uma segunda palavra marca o itinerário de São José e da vocação: serviço. Dos Evangelhos, resulta como ele viveu em tudo para os outros e nunca para si mesmo. O Povo santo de Deus chama-lhe castíssimo esposo, desvendando assim a sua capacidade de amar sem nada reservar para si próprio. Libertando o amor de qualquer posse, abriu-se realmente a um serviço ainda mais fecundo: o seu cuidado amoroso atravessou as gerações, a sua custódia solícita tornou-o patrono da Igreja. Ele que soube encarnar o sentido oblativo da vida, é também patrono da boa-morte. Contudo o seu serviço e os seus sacrifícios só foram possíveis, porque sustentados por um amor maior: «Toda a verdadeira vocação nasce do dom de si mesmo, que é a maturação do simples sacrifício. Mesmo no sacerdócio e na vida consagrada, requer-se este género de maturidade. Quando uma vocação matrimonial, celibatária ou virginal não chega à maturação do dom de si mesmo, detendo-se apenas na lógica do sacrifício, então, em vez de significar a beleza e a alegria do amor, corre o risco de exprimir infelicidade, tristeza e frustração» (Ibid., 7).

O serviço, expressão concreta do dom de si mesmo, não foi para São José apenas um alto ideal, mas tornou-se regra da vida diária. Empenhou-se para encontrar e adaptar um alojamento onde Jesus pudesse nascer; prodigalizou-se para O defender da fúria de Herodes, apressando-se a organizar a viagem para o Egito; voltou rapidamente a Jerusalém à procura de Jesus que tinham perdido; sustentou a família trabalhando, mesmo em terra estrangeira. Em resumo, adaptou-se às várias circunstâncias com a atitude de quem não desanima se a vida não lhe corre como queria: com a disponibilidade de quem vive para servir. Com este espírito, José empreendeu as viagens numerosas e muitas vezes imprevistas da vida: de Nazaré a Belém para o recenseamento, em seguida para Egito, depois para Nazaré e, anualmente, a Jerusalém, sempre pronto a enfrentar novas circunstâncias, sem se lamentar do que sucedia, mas disponível para dar uma mão a fim de reajustar as situações. Pode-se dizer que foi a mão estendida do Pai Celeste para o seu Filho na terra. Assim não pode deixar de ser modelo para todas as vocações, que a isto mesmo são chamadas: ser as mãos operosas do Pai em prol dos seus filhos e filhas.

Por isso gosto de pensar em São José, guardião de Jesus e da Igreja, como guardião das vocações. Com efeito, da própria disponibilidade em servir, deriva o seu cuidado em guardar. «Levantou-se de noite, tomou o menino e sua mãe» (Mt 2, 14): refere o Evangelho, indicando a sua disponibilidade e dedicação à família. Não perdeu tempo a cismar sobre o que estava errado, para não o subtrair a quem lhe estava confiado. Este cuidado atento e solícito é o sinal duma vocação realizada. É o testemunho duma vida tocada pelo amor de Deus. Que belo exemplo de vida cristã oferecemos quando não seguimos obstinadamente as nossas ambições nem nos deixamos paralisar pelas nossas nostalgias, mas cuidamos de quanto nos confia o Senhor, por meio da Igreja! Então Deus derrama o seu Espírito, a sua criatividade sobre nós; e realiza maravilhas, como em José.

Além da chamada de Deus – que realiza os nossos sonhos maiores – e da nossa resposta – que se concretiza no serviço pronto e no cuidado carinhoso –, há um terceiro aspeto que atravessa a vida de São José e a vocação cristã, cadenciando o seu dia a dia: a fidelidade. José é o «homem justo» (Mt 1, 19) que, no trabalho silencioso de cada dia, persevera na adesão a Deus e aos seus desígnios. Num momento particularmente difícil, detém-se «a pensar» em tudo (cf. Mt 1, 20). Medita, pondera: não se deixa dominar pela pressa, não cede à tentação de tomar decisões precipitadas, não segue o instinto nem se cinge àquele instante. Tudo repassa com paciência. Sabe que a existência se constrói apenas sobre uma contínua adesão às grandes opções. Isto corresponde à laboriosidade calma e constante com que desempenhou a profissão humilde de carpinteiro (cf. Mt 13, 55), pela qual inspirou, não as crónicas da época, mas a vida quotidiana de cada pai, cada trabalhador, cada cristão ao longo dos séculos. Porque a vocação, como a vida, só amadurece através da fidelidade de cada dia.

Como se alimenta esta fidelidade? À luz da fidelidade de Deus. As primeiras palavras recebidas em sonho por São José foram o convite a não ter medo, porque Deus é fiel às suas promessas: «José, filho de David, não temas» (Mt 1, 20). Não temas: são estas as palavras que o Senhor dirige também a ti, querida irmã, e a ti, querido irmão, quando, por entre incertezas e hesitações, sentes como inadiável o desejo de Lhe doar a vida. São as palavras que te repete quando no lugar onde estás, talvez no meio de dificuldades e incompreensões, te esforças por seguir diariamente a sua vontade. São as palavras que descobres quando, ao longo do itinerário da chamada, retornas ao primeiro amor. São as palavras que, como um refrão, acompanham quem diz sim a Deus com a vida como São José: na fidelidade de cada dia.

Esta fidelidade é o segredo da alegria. Como diz um hino litúrgico, na casa de Nazaré reinava «uma alegria cristalina». Era a alegria diária e transparente da simplicidade, a alegria que sente quem guarda o que conta: a proximidade fiel a Deus e ao próximo. Como seria belo se a mesma atmosfera simples e radiosa, sóbria e esperançosa, permeasse os nossos seminários, os nossos institutos religiosos, as nossas residências paroquiais! É a alegria que vos desejo a vós, irmãos e irmãs que generosamente fizestes de Deus o sonho da vida, para O servir nos irmãos e irmãs que vos estão confiados, através duma fidelidade que em si mesma já é testemunho, numa época marcada por escolhas passageiras e emoções que desaparecem sem gerar a alegria. São José, guardião das vocações, vos acompanhe com coração de pai!

Roma, São João de Latrão, 19 de março de 2021, Solenidade de São José


Francisco


Domingo do Bom Pastor

 


O 4º Domingo da Páscoa é considerado o "Domingo do Bom Pastor", pois todos os anos a liturgia propõe, neste domingo, um trecho do capítulo 10 do Evangelho segundo João, no qual Jesus é apresentado como "Bom Pastor". É, portanto, este o tema central que a Palavra de Deus põe, hoje, à nossa reflexão.
O Evangelho apresenta Cristo como "o Pastor modelo", que ama de forma gratuita e desinteressada as suas ovelhas, até ser capaz de dar a vida por elas. As ovelhas sabem que podem confiar n'Ele de forma incondicional, pois Ele não busca o próprio bem, mas o bem do seu rebanho. O que é decisivo para pertencer ao rebanho de Jesus é a disponibilidade para "escutar" as propostas que Ele faz e segui-l'O no caminho do amor e da entrega.
A primeira leitura afirma que Jesus é o único Salvador, já que "não existe debaixo do céu outro nome, dado aos homens, pelo qual possamos ser salvos" (neste "Domingo do Bom Pastor" dizer que Jesus é o "único salvador" equivale a dizer que Ele é o único pastor que nos conduz em direcção à vida verdadeira). Lucas avisa-nos para não nos deixarmos iludir por outras figuras, por outros caminhos, por outras sugestões que nos apresentam propostas falsas de salvação.
Na segunda leitura, o autor da primeira Carta de João convida-nos a contemplar o amor de Deus pelo homem. É porque nos ama com um "amor admirável" que Deus está apostado em levar-nos a superar a nossa condição de debilidade e de fragilidade. O objectivo de Deus é integrar-nos na sua família e tornar-nos "semelhantes" a Ele.


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sábado, 24 de abril de 2021

Deixar-me encontrar




Metro de Lisboa. Sento-me e, enquanto espero, olho e observo à volta, como sempre.

Ela chega, de passos pequeninos e cansados. Talvez perto dos 80 anos. Olha-me e aproxima-se de mim, meio confusa, mas já a sorrir-me. Pergunta-me se está no sentido certo.

- É que sabe, menina, lá fora, na rua, é mais fácil. Aqui dentro é confuso. Há muitas linhas e muitas pessoas cheias de pressa.

Sorrio-lhe.

- Sim, está no sentido certo. Pode entrar comigo e sai já na estação seguinte.

Espera junto de mim, em silêncio. Mas continua com o sorriso de ternura que me abraça e me serena de toda a pressa que nos rodeia. O metro chega. Levanta-se, olha-me de novo a sorrir-me e chega-se mais a mim.

- A menina dá-me a mãozinha para eu entrar consigo? É que sabe, menina, as pernas já não me obedecem como antes.

Sorrio-lhe. Dou-lhe a mão e caminhamos as duas em direcção ao metro. Enquanto caminhamos, aperta-me tanto a mão. Tanto. Treme, mas aperta-a forte. Como se toda a segurança que ela precisa para aqueles passos pequeninos e cansados estivesse ali, na mão que aperta tanto. São passos pequeninos e cansados, mas eu não tenho pressa. Deixei de sentir toda a pressa que nos rodeia.

Entramos no metro. Sugiro que se sente. Não quer. O tempo de viagem é curto e é-lhe mais difícil sentar-se e ter de se levantar depois.

- É que sabe, menina, as pernas já não me obedecem como antes.

Não me larga a mão. Faz aqueles minutos de viagem junto de mim, a apertar-me a mão. Sempre sem a largar. E, enquanto a sua mão aperta a minha, eu sinto que está tudo certo.

Chegamos ao seu destino. Olha-me de novo a sorrir-me e ainda a apertar-me a mão.

- Obrigada, menina. Deus a abençoe. Que tenha sempre muito amor toda a vida.

Haverá coisa melhor para se desejar a alguém?

Sorrio-lhe. Enquanto ela sai, devagarinho, aperto-lhe, em resposta, a mão que treme e que ainda aperta tanto a minha. Olha-me de novo a sorrir-me e larga-me a mão apenas quando já está do outro lado.

- Obrigada eu. – Digo-lhe.

Segue o seu caminho de passos pequeninos e cansados. E eu sigo o meu caminho e sinto que foram aqueles passos pequeninos e cansados, aquele sorriso de ternura e aquela mão, que apertou tanto a minha, que me trouxeram o amor hoje.

Eu sigo o meu caminho e sei... Hoje vi Deus. Ele sorriu-me… e eu dei-lhe a mão.


Daniela Barreira

sexta-feira, 23 de abril de 2021

QUANDO OS AMIGOS O SÃO DE VERDADE



Nesta jornada Mundial de Oração pelas Vocações, vou desafiar os jovens. Aliás, desafio toda a gente de boa vontade a tirar um pouquinho de tempo para ser protagonista desta jornada. Como? Sendo verdadeiramente amigo ou amiga. Não amigos da onça ou de Peniche, mas amigos que façam parar, refletir e sonhar, tornando-se promotores corajosos na construção dum mundo mais belo com a colaboração e a felicidade de todos. Que cada um se interrogue sobre a importância que tem dado às vocações ao ministério ordenado e à vida consagrada e faça com que os seus amigos se interpelem sobre este assunto que sempre nos ocupa, mas sobretudo nesta semana. Se há uma diversidade enorme de caminhos, é porque todos são possíveis de serem percorridos e há gente para todos eles. Uma sociedade intelectualmente habitável não pode ser preconceituosa, mas deve construir-se com a diversidade de opções para ser, saber, saber fazer e conviver. Presumo que muitos teriam feito opção diferente se, no momento oportuno, os amigos tivessem dado um ombrozinho. Às vezes - e perdoem-me a ousadia! -, às vezes, até parece que nem os pais são amigos. Francisco diz que o Senhor “deseja moldar corações de pais, corações de mães: corações abertos, capazes de grandes ímpetos, generosos na doação, compassivos para consolar as angústias e firmes para fortalecer as esperanças”. Ninguém deve negar-se a rasgar horizontes no coração de adolescentes e jovens, alimentando-lhes a alegria de sonhar nos sonhos que Deus sonhou para eles. Cortar-lhes as asas, orientá-los segundo interesses vários, desviá-los da sua liberdade e gosto de optar pelos sonhos que comandam a vida e são fonte de alegria, não é ser amigo. Alguém, assim influenciado, até pode ingressar num curso superior e chegar ao fim com grande êxito e aplauso, mas sem alegria nem entusiasmo. O curso não é a concretização de um sonho seu, não sabe bem o que vai fazer com ele, não era aquilo que verdadeiramente sonhava. E agora? Passar a vida a remar contra a maré?!
Os senhores professores, catequistas, chefes de escuteiros, associações juvenis, colegas e tantos outros, quando têm verdadeira consciência da sua altíssima missão, são, muitas vezes, os melhores empreiteiros a rasgar estradas e autoestradas na vida de adolescentes e jovens. O seu testemunho de vida, a sua palavra, o ambiente que criam para o diálogo e a reflexão séria e sem preconceitos, são lições de vida a abrir pistas para quem sonha nos sonhos de Deus e quer ser feliz e útil. Se o dever e a amizade funcionassem, não haveria tantas escolhas a desembocar em nada ou em muito pouco, negando a alegria e o entusiamo pela vida.
Sabemos que os adolescentes e jovens têm muita facilidade em fazer amigos. Há gente que se compraz em dizer que é amiga de toda a gente e toda a gente é sua amiga. No entanto, se há muita gente conhecida, os amigos são poucos, pouquíssimos, talvez nenhum. O livro dos Provérbios e o Eclesiástico são férteis em conselhos sobre os amigos e a amizade. Muita literatura exprime a frustração de tantas vítimas de amigos que o não eram. Uns, amigos de ocasião, levam à ruína. Outros, fogem quando se está em apuros. Outros, transformam-se em inimigos e até envergonham o amigo revelando as suas fraquezas. Outros, companheiros de mesa, sempre presentes quando tudo corre bem, quando as coisas correm mal, logo se afastam, voltam as costas, escondem-se. Outros, talvez os piores!, são aqueles que se riem, denegrindo os sonhos de quem sonha diferente e mais alto, sobretudo quando de vida sacerdotal ou vida consagrada se trata. Enfim!...
Quem encontra um verdadeiro amigo tem um tesouro de valor incalculável, sem preço. Sendo mais dedicado que um irmão, jamais abandona o amigo sejam quais forem as circunstâncias existenciais ou as de tempo e lugar. Não usa amizade fingida para dizer sempre “amem”. Sabe bater o pé e dizer não quando é preciso dizer não. Sabe repreender mesmo que doa. A sua luz brilha na vida do amigo. A sua sabedoria é fonte de vida. O seu testemunho eleva, enriquece, ajuda a promover a relação do amigo consigo mesmo, com Deus, com os outros, com a vida. São Paulo, ele que sentiu na pele a cobardia dos amigos, adverte para que não se rivalize nessa hipocrisia. Com firmeza e alegria, porém, ele confessa que apenas teve um Amigo que nunca o abandonou: “o Senhor ficou comigo e encheu-me de força...”.
Este é o Amigo que nunca falha, apesar de ter sido traído pelos seus amigos. Mesmo quando traído por Judas que o entregou com um beijo, Jesus, sem qualquer espécie de fingimento, referiu-se a ele chamando-o de amigo: “Amigo...”, a que vens? Neste IV Domingo da Páscoa, celebramos esse Verdadeiro Amigo, chamando-o de Bom Pastor, o Amigo por excelência. Aquele que nos conhece e anda à nossa procura para nos levar como cordeirinhos ao colo. Ele quer conquistar o nosso coração, quer abrir o coração de todos e de cada um às surpresas de Deus Pai, não pela força ou artimanhas palavrosas, mas pelo amor que nos dedica.
Francisco, da vida de São José, realça três importantes atitudes para esta jornada Mundial de Oração pelas Vocações. Diz ele que é preciso SONHAR a vida na aventura dos sonhos de Deus para SERVIR com disponibilidade e através duma FIDELIDADE que faça da existência um dom de amor aos outros. Um dom vivido na alegria, tantas vezes tendo de sacrificar os próprios projetos sonhados fora dos sonhos de Deus. Toda a verdadeira vocação ao sacerdócio ou à vida consagrada, a vocação matrimonial, celibatária ou virginal, nascem do amor, nascem do dom de si mesmo. Se assim não for, corre o risco de exprimir infelicidade, tristeza e frustração (cf. PC7). E como os amigos podem ser importantes em momentos de opções fundamentais de vida!
A propósito, ou talvez não, lembro que um dia, em Cafarnaum, quatro amigos dum paralítico, na impossibilidade de se puderem aproximar de Jesus devido à multidão que estava dentro e rodeava a casa onde Jesus se encontrava, resolveram fazer um buraco no teto, por cima do lugar onde Jesus estava. Por lá, enfiaram a cama com o paralítico, implorando a sua cura. Apreciando a sua fé, Jesus curou o paralítico que logo se levantou (cf. Mc 2, 1-12). Os sábios sabidos ficaram a rabujar contra Jesus. Não sabemos se alguém ficou a berrar contra a corrente de ar que viria pelo buraco do teto ou se por algum sarrafo lhe ter acariciado a testa. O que sabemos é que Jesus aproveitou para anunciar quem era e ao que vinha. O paralítico, porém, carregou a cama às costas e foi-se porta fora, deixando boquiabertos quem nunca vira coisa assim! Ninguém pode dizer que ele não foi festejar com os seus amigos. Tampouco se poderá dizer que Jesus não foi associar-se à festa, entoando um hino à coragem destes amigos que, de forma criativa, colocaram o seu amigo no centro das suas atenções. A amizade funcionou: ajudaram o paralítico, rezaram por ele a Jesus!
Se somos cristãos, se todos precisamos de famílias abertas aos sonhos de Deus, não esqueçamos de ser amigos e promover as vocações ao ministério ordenado e à vida consagrada, tão necessárias à Igreja e à sociedade em geral. É por elas que nesta semana rezamos. É por elas que, com amizade e por dever, provocamos os jovens e adolescentes. É por elas que pedimos a intercessão de São José, patrono da Igreja católica.
D. Antonino Dias - Bispo Diocesano
Portalegre-Castelo Branco, 23-04-2021.

Abraça as tuas sombras!

 


A tua vida é uma mensagem. Que a tua existência seja um sinal de esperança para quem a admire. Que os outros vejam em ti a prova de que todos temos a possibilidade de ser feliz neste mundo, nos tempos e espaços de todos os dias.


Deixa que os outros te leiam. Hoje, mais do que heróis, são necessárias pessoas comuns capazes de estar no mundo com vontade de viver. Abertas ao inesperado, sem a arrogância própria daqueles que julgam que já nada os surpreende.

A admiração nem sempre motiva que se passe à ação. Talvez porque costumamos colocar os modelos demasiado altos, a um ponto tal que se tornam inacessíveis, e muitas vezes tal é feito com essa mesma intenção. Os exemplos a seguir devem ser os de pessoas como nós, que, num ponto ou noutro, conseguem encontrar a forma de fazer o que é correto.

É urgente que haja quem vá ao encontro dos outros sem os julgar, quase como que se fazendo seu réu. O orgulho não se vence com um orgulho maior, porque só com humildade se chega ao mais importante.

Cada vez mais se dá valor ao que é secundário. O essencial é o simples. O principal é aquilo que preenche as nossas necessidades básicas. Tudo o mais é apenas superficial e bastante passageiro.

Já reparaste que a vida passa?

Onde está a criança que foste? E o adolescente que chegou depois? O jovem adulto que olhava o mundo com vontade de o fazer melhor?


Sem nos apercebermos, morremos e nascemos a cada dia.

O que podemos fazer? Há quem ignore e finja que tal não acontece; há quem resista, como se isso fosse possível! E há muita gente que se entristece com a resignação própria de quem se sente enganado.

Talvez o melhor seja mesmo aceitarmos a vida tal como ela é. Devemos abraçar até a nossa própria sombra, o que em nós é menos bom. Aceitando as perdas como sendo parte do caminho. Viver é também ir perdendo forças, amigos, memórias e sonhos.

Nunca é tarde para se viver e ser um grande amor.

Até porque o caminho de muita gente para o céu pode passar por ti.



José Luís Nunes Martins

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quinta-feira, 22 de abril de 2021

Ainda falta muito?



Julgo que teremos deixado, em parte, que estes novos tempos se apoderassem dos nossos dias e da nossa vida. Já não pensamos muito em dias especiais ou de festa, porque não se podem celebrar. Tentamos não pensar muito em quem nos morreu porque não os pudemos chorar devidamente. Tentamos não pensar na viagem que adiámos e que, provavelmente, já nem chegaremos a fazer. Tentamos contentar-nos com as vídeo chamadas, com as funcionalidades dos vários chats, com as muitas alternativas pobres ao verdadeiro “estarmos juntos”.

Os novos tempos que vivemos não querem deixar-nos. Colaram-se à nossa pele e não conseguimos enxaguar a nossa vida, os nossos dias, a nossa alma, o nosso coração. A pandemia tornou-se palavra velha. Os números de casos passaram a ser ruído de fundo. As esplanadas que abriram não nos trouxeram o ânimo que esperávamos e tudo parece exatamente igual ao que estava há um ano atrás. Estamos mais conformados, para sofrer menos. Estamos mais cabisbaixos para não pensar nas alegrias que eram tão fáceis de conseguir e que, agora, são impossíveis. Estamos mais anestesiados para que tudo doa um pouco menos.

No entanto, e ainda que a ideia de uma vida sem pandemia pareça estar longe, não nos podemos esquecer do mais importante: a vida ainda não acabou. Tudo é temporário. Até isto. Tudo passa. Até isto. Enquanto tentamos encontrar estratégias para lidar com tudo o que nos aconteceu, acontece e acontecerá (ainda neste contexto), não convém que nos esqueçamos das razões que ainda temos para estar bem. Ainda há alegria no meio do caos. Ainda há ternura escondida atrás das máscaras. A Primavera chegou na mesma, com a promessa de uma esperança que vence tudo.

Ainda assim, no mais íntimo de nós, continuamos a perguntar (como crianças pequenas impacientes):

Ainda falta muito?


Marta Arrais



quarta-feira, 21 de abril de 2021

Talvez o amor seja tudo o que importe

 


Talvez um abraço te seja casa. E o mundo fique mais bonito.

Talvez uma mão te abrace os sentidos. E o mundo fique mais bonito.

Talvez um olhar te olhe dentro da alma. E o mundo fique mais bonito.

Talvez um sorriso te cative o coração. E o mundo fique mais bonito.

Talvez um beijo te cure de tudo. E o mundo fique mais bonito.

Talvez um colo te mostre a forma do amor. E o mundo fique mais bonito.

Talvez um silêncio te conte o segredo da vida. E o mundo fique mais bonito.

Talvez uma cumplicidade te tire a respiração e te salve ao mesmo tempo. E o mundo fique mais bonito.

Talvez um coração te sinta de verdade. E o mundo fique mais bonito.

Talvez alguém te tatue para sempre o coração. E o mundo fique mais bonito.

Talvez o amor, um só segundo de amor. E o mundo fique mais bonito.

Talvez o amor importe.

Ou, deixa-me dizer-te, talvez o amor seja tudo o que importe.

E, assim e só assim, o mundo fique mais bonito.


Daniela Barreira


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domingo, 18 de abril de 2021

Testemunhas



Jesus ressuscitou verdadeiramente? Como é que podemos fazer uma experiência de encontro com Jesus ressuscitado? Como é que podemos mostrar ao mundo que Jesus está vivo e continua a oferecer aos homens a salvação? É, fundamentalmente, a estas questões que a liturgia do 3° Domingo da Páscoa procura responder. O Evangelho assegura-nos que Jesus está vivo e continua a ser o centro à volta do qual se constrói a comunidade dos discípulos. É precisamente nesse contexto eclesial - no encontro comunitário, no diálogo com os irmãos que partilham a mesma fé, na escuta comunitária da Palavra de Deus, no amor partilhado em gestos de fraternidade e de serviço - que os discípulos podem fazer a experiência do encontro com Jesus ressuscitado. Depois desse "encontro", os discípulos são convidados a dar testemunho de Jesus diante dos outros homens e mulheres.
A primeira leitura apresenta-nos, precisamente, o testemunho dos discípulos sobre Jesus. Depois de terem mostrado, em gestos concretos, que Jesus está vivo e continua a oferecer aos homens a salvação, Pedro e João convidam os seus interlocutores a acolherem a proposta de vida que Jesus lhes faz.
A segunda leitura lembra que o cristão, depois de encontrar Jesus e de aceitar a vida que Ele oferece, tem de viver de forma coerente com o compromisso que assumiu D Essa coerência deve manifestar-se no reconhecimento da debilidade e da fragilidade que fazem parte da realidade humana e num esforço de fidelidade aos mandamentos de Deus.

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sábado, 17 de abril de 2021

A Igreja mestra em oração

 

Audiência Geral: Catequese - 29




Estimados irmãos e irmãs, bom dia!


A Igreja é uma grande escola de oração. Muitos de nós aprendemos a silabar as primeiras orações enquanto estávamos no colo dos pais ou dos avós. Talvez conservemos a memória da mãe e do pai que nos ensinavam a recitar as orações antes de dormir. Estes momentos de recolhimento são frequentemente aqueles em que os pais ouvem algumas confidências íntimas dos filhos e podem dar os seus conselhos inspirados pelo Evangelho. Depois, no caminho do crescimento, há outros encontros, com outras testemunhas e mestres de oração (cf. Catecismo da Igreja Católica, 2686-2687). É bom recordá-los.

A vida de uma paróquia e de cada comunidade cristã é cadenciada pelos tempos da liturgia e da oração comunitária. Aquele dom, que na infância recebemos com simplicidade, compreendemos que é um património grande, um património muito rico, e que a experiência da oração merece ser aprofundada cada vez mais (cf. ibid., 2688). O hábito da fé não é engomado; desenvolve-se connosco; não é rígido, cresce, até através dos momentos de crise e ressurreição; aliás, não se pode crescer sem momentos de crise, porque a crise te faz crescer: entrar em crise é um modo necessário para crescer. E o sopro da fé é a oração: crescemos na fé tanto quanto aprendemos a rezar. Depois de certas passagens da vida, compreendemos que sem fé não poderíamos ter bom êxito e que a oração foi a nossa força. Não só a oração pessoal, mas também a dos irmãos e irmãs, da comunidade que nos acompanhou e apoiou, das pessoas que nos conhecem, das pessoas às quais pedimos que rezem por nós.

Também por este motivo na Igreja florescem continuamente comunidades e grupos dedicados à oração. Alguns cristãos sentem até a chamada de fazer da oração a ação principal dos seus dias. Na Igreja existem mosteiros, conventos e eremitérios onde vivem pessoas consagradas a Deus e que muitas vezes se tornam centros de irradiação espiritual. São comunidades de oração que irradiam espiritualidade. São pequenos oásis nos quais se partilha uma oração intensa e se constrói a comunhão fraterna dia após dia. Trata-se de células vitais, não apenas para o tecido da Igreja, mas para a própria sociedade. Pensemos, por exemplo, no papel que o monaquismo desempenhou no nascimento e no crescimento da civilização europeia, e também noutras culturas. Rezar e trabalhar em comunidade faz progredir o mundo. É um motor.

Tudo na Igreja nasce na oração, e tudo cresce graças à oração. Quando o Inimigo, o Maligno, quer combater contra a Igreja, fá-lo primeiro procurando secar as suas fontes, impedindo-as de rezar. Por exemplo, vemos isto em certos grupos que concordam em levar a cabo reformas eclesiais, mudanças na vida da Igreja... Há muitas organizações, há os meios de comunicação que informam todos... Mas a oração não se vê, não se reza. “Devemos mudar isto, temos de tomar esta decisão que é um pouco forte...”. É interessante a proposta, é interessante, apenas com o debate, apenas com os meios de comunicação, mas onde está a oração? A oração é aquela que abre a porta ao Espírito Santo, o qual inspira a ir em frente. As mudanças na Igreja sem oração não são mudanças da Igreja, são mudanças de grupo. E quando o Inimigo – como já disse – quer lutar contra a Igreja, fá-lo primeiro procurando secar as suas fontes, impedindo-as de rezar, e [induzindo-as a] fazer estas outras propostas. Se a oração cessar, por algum tempo parece que tudo pode continuar como habitualmente – por inércia – mas depois de pouco tempo a Igreja compreende que se torna como que um invólucro vazio, que perdeu o seu eixo central, que já não possui a nascente do calor e do amor.

As mulheres e os homens santos não têm uma vida mais fácil do que os outros, pelo contrário, também eles têm os próprios problemas para enfrentar e, além disso, são frequentemente objeto de oposições. Mas a sua força é a oração, que haurem sempre do “poço” inesgotável da mãe Igreja. Com a oração alimentam a chama da sua fé, como se fazia com o óleo das lâmpadas. E assim vão em frente, caminhando na fé e na esperança. Os santos, que muitas vezes contam pouco aos olhos do mundo, na realidade são aqueles que o sustentam, não com as armas do dinheiro e do poder, dos meios de comunicação e assim por diante, mas com as armas da oração.

No Evangelho de Lucas, Jesus apresenta uma pergunta dramática que nos faz sempre refletir: «Quando vier o Filho do Homem, encontrará acaso fé sobre a terra?» (Lc 18, 8), ou será que só encontrará organizações, como um grupo de “empresários da fé”, todos bem organizados, fazendo beneficência, muitas coisas..., ou será que encontrará fé? «Quando vier o Filho do Homem, encontrará acaso fé sobre a terra?». Esta pergunta surge no final de uma parábola que mostra a necessidade de rezar com perseverança, sem se cansar (cf. vv. 1-8). Portanto, podemos concluir que a lâmpada da fé estará sempre acesa na terra, enquanto houver o óleo da oração. A lâmpada da verdadeira fé da Igreja estará sempre acesa na terra enquanto houver o óleo da oração. É o que leva em frente a fé e a nossa vida pobre, débil e pecadora, mas a oração leva-a em frente com segurança. Uma pergunta que nós cristãos devemos fazer a nós mesmos: rezo? Rezamos? Como rezo? Como papagaios ou rezo com o coração? Como rezo? Será que rezo com a certeza de que estou na Igreja e rezo com a Igreja, ou rezo um pouco de acordo com as minhas ideias e deixo que as minhas ideias se tornem oração? Isto é oração pagã, não oração cristã. Repito: podemos concluir que a lâmpada da fé estará sempre acesa na terra enquanto houver o óleo da oração.

Esta é uma tarefa essencial da Igreja: rezar e educar para rezar. Transmitir de geração em geração a lâmpada da fé com o óleo da oração. A lâmpada da fé que ilumina, que governa tudo como deve ser, mas que só pode ir em frente com o óleo da oração. Caso contrário, apaga-se. Sem a luz desta lâmpada, não poderíamos ver o caminho para evangelizar, aliás, não poderíamos ver o caminho para crer realmente; não poderíamos ver os rostos dos irmãos dos quais nos devemos aproximar e servir; não poderíamos iluminar a sala onde nos encontramos em comunidade... Sem fé, tudo desmorona; e sem a oração, a fé extingue-se. Fé e oração, juntas. Não há outro caminho. Por isso a Igreja, que é casa e escola de comunhão, é casa e escola de fé e de oração.

Saudações:

Saúdo a todos vós, amados ouvintes de língua portuguesa, desejando que eventuais nuvens sobre o vosso caminho não vos impeçam jamais de irradiar e enaltecer a glória e a esperança depositadas em vós, cantando e louvando sempre ao Senhor em vossos corações, dando graças por tudo a Deus Pai. Assim Deus vos abençoe!


Papa Francisco


sexta-feira, 16 de abril de 2021

QUANDO UMA MÃE INSISTE E PERSISTE!...



Desde que Adão e Eva partiram os pratos e foram expulsos daquele jardim à beira rios plantado, a humanidade jamais correu sobre rodas. Segundo a mensagem do Génesis, Adão e Eva não tiveram pai nem mãe, mas foram os primeiros pais a sofrer a morte de um filho: Caim matou Abel, eram irmãos. O Papa João Paulo I, o “Papa do sorriso”, afirmou que "Deus é Pai, mas também é Mãe". Foi Ele quem criou o homem e a mulher. Foi Ele quem esteve junto deles nessas horas difíceis e trágicas da sua vida familiar. Apesar de todo aquele mercadejar entre a serpente, Eva e Adão, apesar de não se poder provar bem bem qual o conteúdo concreto desse ato de corrupção, apesar de ninguém colocar em dúvida a sua existência, apesar de todos estarmos a sofrer as suas pesadas consequências, nunca houve rosas que fizessem esquecer tais espinhos nem tempo que fizesse prescrever esse delito. No entanto, se os penalizou, nunca Deus os abandonou, nem a eles nem a nós, seus descendentes, que apanhamos por tabela. Deus foi-nos falando ao longos dos tempos, como a amigos, para nos reconvidar à comunhão com Ele, ao ponto de nos enviar o seu Filho. A morte de Cristo na cruz é uma morte expiatória, cobre a multidão das corrupções humanas. É uma morte propiciatória, Deus perdoa, torna-se favorável. É um sacrifício vicário, uma morte substitutiva, Jesus morre por todos nós, em nosso lugar. É uma morte redentora, Jesus resgata-nos, reconcilia-nos com Deus, traz vida nova aos que n’Ele creem e vivem em conformidade. Viver em conformidade, é ter consciência daquela fragilidade humana que, se foi original, acabou por ser originante de todas as corrupções humanas. No entanto, mesmo que nem sempre seja fácil fugir aos hábeis truques do mafarrico, sabemos que Deus é fiel e ninguém é tentado acima das suas próprias forças, desde que aceite os meios e a força para suportar e sair da tentação (cf. 1Cor 10, 13). Com a formação humana e a força que brota da cruz, o agir humano é sempre passível de aperfeiçoamento nos caminhos do bem e do respeito pelos outros.
Na reflexão passada, realcei a força da oração do pai, apresentando exemplos de pais que nos aparecem nos Evangelhos. Hoje realçarei sobretudo a importância da oração da mãe, e o seu testemunho, também a partir do Evangelho. Se é importante a presença ativa do pai para o bem da família, não o é menos a da mãe, sem prejuízo, como é evidente, da sua vida social e laboral (cf. GS52).
Embora por lá se encontrem perfis de mães para muitos gostos, a Bíblia apresenta-nos grandes figuras de mães, exemplos de fé, confiança em Deus e oração. A mais importante de todas é, sem dúvida, Maria, esposa de José, a Mãe de Jesus. Nessas grandes figuras de mãe, a fé, a escuta e a aceitação da vontade de Deus na vida, não significou que a vida lhes fosse isenta de problemas, sofrimento e aflições, inclusive à Mãe de Jesus. No entanto, se a fé e a oração não evitam nem minimizam as vergastadas da vida sofridas por tantas pessoas e famílias, essas famílias e pessoas sabem olhar e enfrentar de modo diferente o sofrimento. Acabam por ter uma força interior capaz de tudo ultrapassar e transformar em caminho de santificação, gerando empatia, contagiando.
Todos conhecemos a reação de Jesus tocado pela tristeza e dor da viúva de Naim que levava a sepultar o seu único filho, com grande presença e consternação da comunidade envolvente (Lc 7,11-17). Mas não vou falar dessa mãe. Prefiro apresentar o testemunho orante duma outra mãe, uma mãe sofrida com a grave doença da sua filha. Na linguagem de São Marcos, era uma mulher sirofenícia. São Mateus diz que era cananeia.
Tanto para um como para outro, era uma mulher não judia, pagã. Para mim, é uma das mais belas e comoventes atitudes dum coração de mãe sofrida com a falta de saúde da sua filha. Ela reconhece em Jesus não só uma personalidade humana excecional, mas Alguém que traz algo de novo com autoridade e verdade. E confia plenamente que Ele lhe pode valer, por isso, embora sempre humilde e perseverante, ela dá luta a Jesus. Apesar de ser estrangeira, ela chama-lhe “filho de David”, um título messiânico dado ao futuro “rei de Israel”. Apresenta-se com uma fé inabalável, com uma confiança total em Jesus a quem pede, com humildade e perseverança, a cura da sua filha: “Senhor, filho de David, tem piedade de mim”.
Jesus, porém, parece que tinha acordado mal disposto. Mostra-se duro, dá a entender que não ouve, não lhe dirige uma palavra nem um olhar. Os discípulos, impacientes, acabam por pedir a Jesus que mande aquela mulher embora. Não com pena dela nem da filha, com certeza, mas para se verem livres dela: “Manda embora essa mulher, porque ela vem a gritar atrás de nós”. Jesus, continuando com ares de pouca ou nenhuma graça, lembra que a sua missão se limita ao povo judeu: “Eu fui mandado somente para as ovelhas perdidas do povo de Israel”. A mulher, porém, é que não desarma, ela precisava de ajuda, a sua filha estava a morrer! Por isso, aproxima-se mais um pouco, ajoelha-se diante de Jesus e reitera o seu angustiante pedido: “Senhor, ajuda-me”.
Para os israelitas, os estrangeiros e os pagãos eram considerados como “cachorros”, desconhecedores que eram da lei de Deus. Segundo os chefes israelitas, só Israel era a alegria do Senhor, tinham-se como as únicas pessoas dignas das atenções de Deus. Jesus permanece na sua e testa a senhora duma forma que, para a nossa sensibilidade, até nos parece tremendamente indelicado: “Não está certo tirar o pão dos filhos e lançá-lo aos cachorrinhos”. A mulher, porém, permanece firme e confiante, ela precisava de ajuda. E perante esta resposta tão forte de Jesus, ela responde com delicadeza: “Sim, Senhor, é verdade; mas também os cachorrinhos comem as migalhas que caem da mesa dos seus donos”. Para ela, uma migalhinha caída da mesa de Jesus significava tudo aquilo de que ela precisava naquele momento: o dom, a graça da cura da sua filha que estava às portas da morte. Perante a sua resposta e confiança, Jesus nada mais teve a dizer senão louvar-lhe a sua grande fé e atendê-la: “Mulher, é grande a tua fé! Seja feito como desejas”. E desde aquele momento a sua filha ficou curada” (Mt 15, 21-28; Mc 7, 24-30).
A salvação trazida por Jesus, embora devesse ser anunciada em primeiro lugar ao povo de Israel, que, aliás, foi preparado para isso ao longo dos tempos, não era para ser seu monopólio ou privilégio. Nem tampouco bastava pertencer a esse povo para que alguém fosse considerado justo e bom. A salvação que Jesus trouxe é para todos os que acreditarem n’Ele e na sua missão, em qualquer tempo, em qualquer parte, seja quem for. Na atitude desta mulher, para além da sua fé em Jesus e num mundo novo por Ele anunciado, para além da sua oração, humildade, perseverança e confiança, aplica-se o que diz o Evangelho: “Pedi e ser-vos-á dado! Procurai e encontrareis! Batei e abrir-vos-ão a porta! Pois todo aquele que pede, recebe; quem procura, encontra; e a quem bate, a porta será aberta” (Mt 7, 7-8). Jesus elogiou a fé desta mulher não judia: “Mulher, é grande a tua fé!”. Mas também, noutra ocasião, reagiu perante a pouca fé dos seus discípulos quando a tempestade os assustou: “Porque tendes medo, homens de pouca fé?”. Os momentos de crise e dificuldade na vida são sempre uma espécie de termómetro a medir o grau de consciência que as pessoas ou as famílias têm da presença de Cristo entre elas, é um sintoma da sua maturidade ou infantilidade na fé.
A Exortação Apostólica sobre a Família Cristã afirma que um elemento fundamental e insubstituível da educação para a oração é o exemplo concreto, o testemunho vivo dos pais. Só rezando em conjunto com os filhos, o pai e a mãe, entram em profundidade no coração deles, deixando marcas que os acontecimentos futuros da vida não conseguirão fazer desaparecer. E se, no artigo passado, lembrei o apelo de Paulo VI ao pai de família, hoje lembro o seu apelo às mães: “Mães, ensinais aos vossos filhos as orações do cristão? Em consonância como os Sacerdotes, preparais os vossos filhos para os sacramentos da primeira idade: confissão, comunhão, crisma? Habituai-los, quando enfermos, a pensar em Cristo que sofre, a invocar o auxílio de Nossa Senhora e dos Santos? Rezais o terço em família?” (FC60). E afirma o Papa Francisco: “ser mãe não significa somente colocar um filho no mundo, mas é também uma escolha de vida. O que escolhe uma mãe, qual é a escolha de vida de uma mãe? A escolha de vida de uma mãe é a escolha de dar a vida. E isto é grande, é bonito”.
Como seria belo que a fé de cada filho fosse elogiada como São Paulo elogiou a de seu amigo Timóteo: “Lembro-me da fé sincera que há em ti, a mesma que havia antes na tua avó Loide, depois na tua mãe Eunice e que agora, estou convencido, também está em ti” (2Tm 1, 5). Como é bom entender a palavra de Jesus: “que adianta ao homem ganhar o mundo inteiro se perde a própria vida?” (Mc 8, 36).

D. Antonino Dias - Bispo Diocesano
Portalegre-Castelo Branco, 16-04-2021.


Nota Pastoral da Conferência Episcopal Portuguesa “A propósito dos 25 anos da Peregrinação Nacional dos Acólitos”




1. Ao comemorar-se o vigésimo quinto aniversário da Peregrinação Nacional dos Acólitos, saudamos todos os acólitos e acólitas das nossas Dioceses portuguesas e agradecemos-lhes o dom do inestimável serviço ao altar da Eucaristia e à comunidade cristã. Renovamos o sentido da sua missão, como publicámos nos Desafios pastorais da pandemia à Igreja em Portugal: «Todos os serviços e ministérios na Igreja, tanto os existentes como os que possam ser criados, devem estar impregnados por um profundo dinamismo missionário, um renovado anúncio do Evangelho nas comunidades cristãs, nas famílias e na sociedade».

2. Em 1996 os acólitos do Santuário de Fátima tomaram a iniciativa de se encontrarem com acólitos de outras dioceses para realizarem uma peregrinação àquele santuário no dia 1 de maio. Passados vinte e cinco anos, os pouco mais de cem acólitos presentes na primeira peregrinação são agora mais de cinco mil. Este número reflete também a importância crescente que a pastoral de acólitos tem tido no nosso país. De imediato, a organização da Peregrinação Nacional passou para o Secretariado Nacional de Liturgia, da Comissão Episcopal de Liturgia e Espiritualidade, fundando-se, assim, o Serviço Nacional de Acólitos.

3. O Serviço Nacional de Acólitos tem por missão fomentar as estruturas diocesanas de pastoral para os acólitos e ser dinamizador em tudo o que se relaciona com o ministério dos Acólitos. A Peregrinação Nacional tem especial relevo na sua ação. Em contexto internacional é desejável que os serviços diocesanos e o Serviço Nacional incrementem a sua presença junto do Coetus Internationalis Ministrantium. A Peregrinação Internacional a Roma é um marco significativo da participação dos acólitos portugueses junto do Santo Padre, onde manifestam a sua fidelidade e amor à Igreja num clima de festa e comunhão.

4. O acolitado não é um mero serviço funcional, mas um ministério que abrange crianças, jovens e adultos, rapazes e raparigas, que devem ser pastoralmente acompanhados para riqueza e edificação, não apenas dos próprios, mas de toda a comunidade. Por isso se requer uma contínua e adequada preparação técnica, bíblica, litúrgica, pastoral e espiritual. É de valorizar os momentos de escuta de Palavra de Deus, de oração e de retiro espiritual que muitos grupos de acólitos procuram realizar.

5. Muitas das vocações ao sacerdócio nasceram da dedicação de muitos rapazes ao serviço do altar como acólitos. Também as raparigas podem e devem aproveitar o dom do serviço do altar para se questionarem vocacionalmente. O serviço do altar deve, primeiramente, fazer redescobrir a primordial vocação do batismo. Haja especial cuidado da parte dos Párocos para fomentar, acarinhar, acompanhar e educar os grupos de acólitos em cada comunidade paroquial. Têm sido implementados serviços diocesanos de apoio à pastoral dos acólitos, com bons frutos.

6. Reconhecido como patrono universal dos acólitos, o mártir São Tarcísio era um jovem romano que muito amava a Eucaristia e seria um acólito. Acolhendo a difícil missão de levar a Eucaristia a prisioneiros, São Tarcísio encontrou o martírio no ano 257, “ao defender a Santíssima Eucaristia de Cristo, que uma multidão furiosa de gentios pretendia profanar, preferiu ser apedrejado até à morte”. Aquando dos 100 anos do nascimento de São Francisco Marto, na Peregrinação Nacional, a 1 de maio de 2009, a Conferência Episcopal Portuguesa proclamou o santo pastorinho de Fátima como patrono dos acólitos portugueses. São Francisco Marto, tocado pelas aparições da Virgem Maria, sentia um ardente desejo de consolar a Jesus especialmente na Adoração Eucarística, a que chamava de “Jesus Escondido”. Estes jovens santos são para os acólitos portugueses um exemplo de dedicação e entrega à Eucaristia. Ambos tinham vidas transformadas pela Eucaristia e pelo amor a Cristo. São Tarcísio, determinado no serviço e no levar Jesus aos que mais d’Ele necessitavam, São Francisco Marto, contemplativo da Eucaristia e diligente na caridade para com outras crianças pobres. A breve vida de cada um deles é testemunho de como os acólitos, crianças, jovens e adultos devem alimentar a sua vida de serviço ao altar da Eucaristia como fonte e meta do seu ministério e do seu quotidiano.

7. Desde há alguns anos que os acólitos assumiram uma oração que surge como compromisso e programa de vida eucarística. Reconhecendo a importância dos acólitos em cada uma das suas comunidades e da estima por nós nutrida por cada um, queremo-nos associar a essa oração pedindo a bênção de Deus para cada acólito e cada acólita, e que a Virgem Santa Maria, a primeira a acompanhar e a servir o Senhor Jesus, estenda o seu olhar maternal sobre eles, e juntamente com São Tarcísio e São Francisco Marto os fortifique e anime na fé e na entrega ao serviço de “Jesus Escondido”.


Senhor Jesus Cristo, sempre vivo e presente connosco,
tornai-me digno de Vos servir no altar da Eucaristia,
onde se renova o sacrifício da Cruz e Vos ofereceis por todos os homens.
Vós que quereis ser para cada um o amigo e o sustentáculo no caminho da vida,
concedei-me uma fé humilde e forte, alegre e generosa,
pronta para Vos testemunhar e servir.
E porque me chamaste ao vosso serviço, permiti que Vos procure e Vos encontre,
e pelo Sacramento do vosso Corpo e Sangue, permaneça unido a Vós para sempre.
Amém.



Fátima, 15 de abril de 2021

quinta-feira, 15 de abril de 2021

Semana das Vocações quer despertar comunidades católicas para tema «esquecido ou secundarizado»


D. António Augusto Azevedo aponta desafio de ver a vida noutra perspetiva, valorizando opção de consagração

Foto: Agência ECCLESIA/HM


(Ecclesia) – A Igreja Católica em Portugal vai celebrar de 18 a 25 de abril a 58ª Semana de oração pelas Vocações, procurando dar nova centralidade a um tema “esquecido” nas comunidades católicas.

“A realização desta semana deve servir também para despertar a consciência de todos para a problemática da vocação, dado que, por vezes fica a impressão de que é um tema esquecido ou secundarizado”, escreve D. António Augusto Azevedo, presidente da Comissão Episcopal das Vocações e Ministérios (CEVM), na sua mensagem para esta celebração.

O bispo de Vila Real defende uma “verdadeira cultura vocacional” que ajude os cristãos, a começar pelos mais jovens, a “olhar a vida numa outra perspetiva, a da vocação”.

“A esta luz, as várias escolhas que se fazem na vida não se reduzem a meras escolhas pragmáticas, nem podem esquecer que tudo constitui uma vocação”, precisa.

A semana conclui-se na celebração do IV domingo da Páscoa, Domingo do Bom Pastor, sublinhando, segundo D. António Augusto Azevedo, “o valor e a especificidade da vocação consagrada e a sua importância para a missão da Igreja”.

“Olhamos com preocupação e com esperança a realidade atual em que é patente, por um lado, a carência de vocações consagradas mas em que, por outro, vão surgindo pequenos sinais de novidade”, aponta.

O presidente da CEVM convida a intensificar a oração pelas vocações consagradas, apresentando-as “com a sua especificidade e a sua riqueza próprias”.

Na Igreja Católica, a Vida Consagrada é constituída por homens e mulheres que se comprometeram, pública e oficialmente, a viver (individualmente ou em comunidade) os votos de pobreza, castidade e obediência para toda a vida; hoje inclui leigos, sacerdotes, religiosas e religiosos.

“Estamos certos de que o Senhor continua a chamar e sabemos também que esse chamamento é atraente e fascinante”, escreve o bispo de Vila Real.

O responsável destaca a importância de um processo de discernimento “bem acompanhado”, que possa levar a “decisões livres, corajosas e sempre sustentadas no amor e na fidelidade de Deus”.

A CEVM preparou um conjunto de propostas de oração e divulgação, disponíveis online, propondo que em cada dia da semana se reze por uma vocação específica: matrimónio, leigos consagrados, missionários, sacerdotes e vida religiosa (ativa e contemplativa).

A iniciativa vai contar com testemunhos, nas redes sociais, sobre as várias formas de viver a própria vocação, na Igreja Católica.

A 19 de março, o Papa publicou a sua mensagem para o próximo Dia Mundial de Oração pelas Vocações, apresentando a figura de São José como modelo de paternidade e fidelidade a Deus.

“Deus vê o coração e, em São José, reconheceu um coração de pai, capaz de dar e gerar vida no dia a dia. É isto mesmo que as vocações tendem a fazer: gerar e regenerar vidas todos os dias”, assinala Francisco.


O 58.º Dia Mundial de Oração pelas Vocações celebra-se a 25 de abril, quarto domingo de Páscoa, com o tema ‘São José: o sonho da vocação’, no ano especial que o Papa lhe decidiu dedicar, por ocasião do 150.º aniversário da sua declaração como padroeiro da Igreja universal.

OC

quarta-feira, 14 de abril de 2021

Ficas comigo?



Esta semana sentamo-nos na praia com O que veio do Céu. Estamos à beira-mar como quem espera por uma revelação capaz de mudar a vida toda. As ondas vêm e vão. Tocam os nossos passos ao de leve para depois se despedirem deles novamente.

Esta semana sentamo-nos à beira de tudo o que o Pai quis fazer por nós. Temos os nossos pesos vestidos e a roupa da nossa pele continua com os rasgões de sempre. Já velhos e secos, mas visíveis. A roupa da nossa vida continua com as feridas se sempre. Algumas já a rimar com cicatrizes e outras, ainda, frescas como uma parede que se acabou de pintar e onde, ainda, não podemos tocar.

Olhamos, devagar e sem pressas, para tudo o que vivemos este ano, nesta pandemia, nesta Quaresma, nestes dias que nos desarrumaram tanto. Que nos marcaram tanto.

As ondas não desistem de nós e continuam a procurar a nossa presença, aqui, nesta beirinha onde o nosso coração está.

Esperamos que Deus nos fale. Que nos diga o que fazer. Que nos explique como devemos viver estes dias em que as suas Feridas se inauguram mais uma vez. Queremos que nos diga como evitamos o sofrimento. Como lidamos com a perda dos nossos mais queridos. Como guardar tudo aquilo que nos corta por dentro, ainda.

Nesta praia onde estamos a viver os últimos dias desta Semana, desfilam à frente dos nossos olhos todos os momentos que vivemos ultimamente. Ou mais lá atrás. Os pássaros atravessam os nossos pensamentos para nos lembrar, também, das alegrias que nasceram das imensas mágoas.

Sabemos que Deus não vem sentar-se connosco na praia onde estamos e que não O podemos ver e ouvir como gostaríamos. Sabemos que não vem a correr de braços abertos para nós, como vemos nos filmes. Que a Sua presença física não existe e que a Sua pele não tocará, nunca, a nossa.

No entanto, e quando menos esperamos, vemos ao longe alguém. Esticamos o pescoço e os braços de dentro com a esperança de Deus. Que disparate. Mas gostávamos tanto que fosse! A figura aproxima-se. Caminha devagar como quem sabe, desde sempre, para onde vai. Abrimos mais os olhos para tentar perceber quem é.

A primeira coisa que vemos é o sorriso. Impossível de esconder mesmo com a barba comprida e desgrenhada. O cabelo é entre o curto e o meio comprido, de um ruivo acastanhado de surfista que apanhou demasiado sol. Uma t-shirt branca, simples, que quase parece ter luz. Umas calças de ganga rasgadas num dos joelhos. Descalço. Uma pele dourada e marcada, também, pelo sol que fez casa nela.

Estamos ainda sem saber bem que pessoa é esta e o que quer, mas não nos desviamos. Não nos levantamos. Temos a sensação de ter, já, encontrado esta figura nalgum lado.

Senta-se ao nosso lado. Olha para dentro dos nossos olhos rapidamente e deixa-se contemplar tudo o que vemos também.

Num silêncio que não conseguimos largar, olhamos para as mãos dele, que as abre quando vê que as procuramos. No centro de cada uma mora uma ferida viva, de um vermelho sangue que já não dói.

Não podemos acreditar. És mesmo Tu?

Respondes como quem pede:

Ficas comigo?


Marta Arrais


terça-feira, 13 de abril de 2021

Ressurreição: a refeição de toda a vida!



“Vede as minhas mãos e os meus pés: sou Eu mesmo; tocai-Me e vede: um espírito não tem carne nem ossos, como vedes que Eu tenho». Dito isto, mostrou-lhes as mãos e os pés. E como eles, na sua alegria e admiração, não queriam ainda acreditar, perguntou-lhes: «Tendes aí alguma coisa para comer?» Deram-Lhe uma posta de peixe assado, que Ele tomou e começou a comer diante deles.”

Lc 24, 40-43


Não O reconheceram na chegada, nem quando O tocaram. Só se perceberam que era Ele quando pediu para comer. Só aí é que os seus olhos se abriram. Só aí é que as suas desconfianças foram por água abaixo (pois bem sabiam que à Sua mesa só poderia ser partilhado um vinho doado e brindado).

Não deixa de ser curioso todos estes pormenores. Só se deixam acreditar quando estão de novo à mesa. Só se deixam confiar quando a comida lhes mostra de novo a Sua humanidade, o seu apetite. É preciso o alimento da vida terrena para que eles reconheçam Aquele que é o alimento de todas as vidas. É preciso um simples prato de peixe para que descubram de novo a beleza d'Aquele que um dia lhes tinha feito pescadores de Homens.

Só na partilha, na convivência e na comunhão é que O voltaram a reconhecer. Tal como os discípulos de Emaús, tudo voltou a fazer sentido no gesto simples da refeição. E nós podemos nem saber o que será ou como será a Ressurreição, mas todos nós sabemos a vida que pode surgir à volta de uma mesa. E, se calhar, precisamos de começar a olhar para este mistério da Ressurreição como quem olha para uma mesa recheada de comida, de amigos, de alegrias e partilhas.

Se o Ressuscitado se dá a conhecer no partir do pão e no simples sentar à mesa para saborear uma refeição, então a Ressurreição pode acontecer todas as vezes em que brindamos a vida. Pode acontecer todas as vezes em que unidos e reunidos à volta da mesa damos a conhecer toda a nossa história. Pode acontecer todas as vezes em que multiplicamos as nossas gargalhadas e em tantas outras em que dividimos as nossas lágrimas, dores e incompreensões.

Se acreditarmos verdadeiramente nisto, apesar de todas as nossas dúvidas, então podemos salvar e salvarmo-nos. Se acreditarmos profundamente nisto, estaremos a ser salvos à mesa. Se acreditarmos plenamente nisto, ninguém poderá ser deixado para trás.

Somos salvos na refeição. Somos salvos à mesa. E haverá lugar mais bonito para que a nossa vida possa ser res(suscitada)?


Emanuel António Dias