“A vida é um mistério a ser vivido, não um problema a ser resolvido.” Há dois homens atordoados, desiludidos, traumatizados, sem saber o que fazer das suas vidas, fazem uma viagem de Jerusalém para Emaús fugindo para longe de todas as tribulações. Quem não experimenta a solidão, que torna pesado o coração? Quem não sente, no percurso da sua vida, o fardo pesado da incerteza e da precariedade destes tempos, o medo do futuro? Que faz Jesus àqueles homens perdidos de Emaús? Não se apresenta, Não os julga! Caminha com eles. E, em vez de erguer um muro, abre uma nova brecha. Faz-lhes perguntas, como é próprio de quem ama para lhes corrigir as respostas e que ajuda a “deitar para fora” o desânimo e a tristeza que os habitava... Lentamente, eles foram fazendo a “travessia” de uma memória pesada, triste, doentia... a uma memória saudável, curativa e aberta ao futuro. Por meio da bênção e do ato de partir e compartilhar o pão, os discípulos fazem a ligação com o passado. Chega o momento do reconhecimento, e eles transformam-se. Cheios de estímulo e esperança, voltam para Jerusalém a fim de partilhar a nova descoberta. Se eu te amo, quero que haja luz nos teus olhos e quero estar junto de ti como contágio de luz... Aquele Homem Deus Cheio de Luz Pouco a pouco, transforma o desânimo numa brecha de Luz INFLAMA o coração e ABRE os olhos, E um convite nasce naquela noite válido para todas as noites da vida Fica connosco porque anoitece
Parece que a cada momento somos chamados a fazer desvios da essência que nos habita. É como se o que fosse mais válido e mais aceite socialmente fosse, precisamente, aquilo que não somos.
Para sobreviver, somos muitas vezes chamados a mostrar uma versão da nossa vida que pode parecer mais atraente para os outros, mas menos real para nós. E o perigo de mostrarmos algo que não corresponde ao que somos é o de deixarmos de saber, ao certo, que linhas cosem a nossa raiz.
Para singrar e para ser aceite há quem consiga mentir, contar meias-verdades, fazer alguém acreditar numa história que só existe na sua cabeça. E é assim que o coração e alma adoecem automaticamente. Só que é muito fácil (e tentador) convencermo-nos desta versão idealizada. Construída para agradar os outros. Erguida para nos proteger daquilo que, por vezes, nos custa ver.
Nalguns momentos, custa-nos ver que a vida que temos ou construímos não é exatamente aquilo que gostaríamos. Custa-nos ter a consciência da possibilidade de podermos ter decidido diferente ou de ter feito melhor. É mais simples ficar à espera que tudo se resolva, que as coisas aconteçam por si só.
Viver em verdade parece algo óbvio. Inevitável. Mas talvez não seja assim tanto. Talvez cada um de nós esconda (ou guarde?) para si partes que não quer ver reveladas ou escrutinadas pelo olhar alheio. Parece-nos um pouco difícil imaginar que o outro nos compreenderia e aceitaria como somos. Sem mais nem menos.
Talvez essas resistências a viver uma vida em verdade e em coerência existam apenas dentro de nós. Talvez esse julgamento externo só exista como projeção do nosso próprio “tirano” interno.
A maior honestidade que podemos viver é quando decidimos sê-lo connosco. A verdade é profundamente mais simples do que o esforço de construir uma ilusão ou uma mentira para quem nos olha.
Quem sabe se os outros não estão também distraídos com as suas próprias especificidades e não estão, sequer, interessados em analisar-nos ou avaliar-nos.
Afinal, talvez uma vida em verdade deva ser vivida de dentro para dentro. E não de dentro para fora.
A missão profética da Igreja de Jesus não se mede pelas esmolas que distribui, nem pelas estruturas que sustenta, nem pelos discursos que proclama. Mede-se pelo lugar onde decide estar. E a verdade, quando levada a sério, incomoda: somos chamados a ser uma Igreja pobre com os pobres — não uma pobre Igreja rica que, à distância confortável, socorre os pobres sem nunca partilhar verdadeiramente a sua vida. Porque há uma diferença que desinstala: ajudar mantém a distância; caminhar juntos derruba-a. No concreto do dia-a-dia, isto ganha rosto e nome. Está na mesa onde falta comida, mas não falta partilha. Está no trabalhador que vive no limite, mas não abdica da sua dignidade. Está na mulher que, em silêncio, sustenta uma casa inteira com coragem invisível. E está também em nós — nas nossas escolhas, nas nossas prioridades, na forma como olhamos (ou evitamos olhar). Quantas vezes ajudamos sem escutar? Quantas vezes damos sem nos deixarmos tocar? Quantas vezes mantemos o controlo, a segurança, a posição… e chamamos a isso caridade? Uma Igreja que apenas “dá” corre o risco de nunca aprender. De nunca se converter. De nunca reconhecer que também é pobre — pobre de tempo, de escuta, de proximidade, de verdade. E talvez seja por isso que o Evangelho continua a ser tão exigente: não nos pede gestos ocasionais, pede-nos vida partilhada. Não nos pede que sejamos benfeitores, pede-nos que sejamos irmãos. Irmãos não resolvem à distância. Comprometem-se. Misturam-se. Deixam-se transformar. Os pobres não são um problema a resolver, nem um número a reduzir, nem um projeto a apresentar. São presença viva que questiona, que ensina, que desmonta as nossas ilusões de suficiência. São lugar de encontro com Deus — não um “campo de ação”, mas um caminho de conversão. E talvez o mais desconcertante seja isto: quando nos aproximamos verdadeiramente, percebemos que não somos nós que levamos Deus até eles — são eles que nos revelam um Deus que ainda não conhecíamos. Por isso, a pergunta permanece, firme, inevitável: queremos continuar a ajudar de longe… ou temos coragem de viver perto, com menos certezas e mais verdade?
Primeiro discurso de Leão XIV denuncia «cadeia de interesses» que potencia violência e exclusão social
Foto: Lusa
Luanda, 18 abr 2026 (Ecclesia) – O Papa defendeu hoje em Luanda a superação urgente da conflitualidade e o fim da “lógica extrativista” em África, num encontro com as autoridades angolanas.
“Quanto sofrimento, quantas mortes, quantas catástrofes sociais e ambientais acarreta esta lógica extrativista! Em todas as partes do mundo, vemos como ela, no fundo, alimenta um modelo de desenvolvimento que discrimina e exclui, mas que ainda pretende impor-se como o único possível”, disse Leão XIV, perante responsáveis políticos, representantes religiosos e da sociedade civil, além de membros do corpo diplomático.
O pontífice aterrou esta tarde no Aeroporto Internacional de Luanda, onde foi recebido pelo presidente João Lourenço e por duas crianças que lhe ofereceram flores, sendo acompanhado por milhares de pessoas ao longo do percurso pelas estadas da capital do país lusófono.
Após a cerimónia de boas-vindas, o pontífice deslocou-se ao Palácio Presidencial para um encontro privado com o chefe de Estado angolano, antes do discurso inaugural.
Leão XIV centrou o seu primeiro discurso na necessidade de proteger a dignidade humana e os recursos do continente contra a exploração.
“É necessário quebrar esta cadeia de interesses que reduz a realidade e a própria vida a uma mera mercadoria”, apelou, lendo em português.
O Papa alertou para o sofrimento e as catástrofes ambientais provocadas por modelos de desenvolvimento excludentes.
A África tem uma necessidade urgente de superar situações e fenómenos de conflitualidade e inimizade, que dilaceram o tecido social e político de tantos países, fomentando a pobreza e a exclusão”.Foto: Lusa
O discurso denunciou a atuação de líderes autoritários que procuram dominar a população através do desânimo.
“Os déspotas e os tiranos do corpo e do espírito pretendem tornar as almas passivas e os ânimos tristes, propensos à inércia, dóceis e subjugados ao poder”, observou.
Leão XIV incentivou os detentores de autoridade em Angola a valorizarem a diversidade e a gerirem os conflitos como caminhos de renovação.
“Colocai o bem comum acima do das partes, não confundindo nunca a vossa parte com o todo”, insistiu.
A intervenção destacou a vitalidade da juventude africana, classificando a sua alegria e esperança como virtudes políticas fundamentais.
“A África é, para o mundo inteiro, uma reserva de alegria e esperança, que eu não hesitaria em definir como virtudes ‘políticas’, porque os seus jovens e os seus pobres ainda sonham, ainda esperam, não se contentam com o que já existe, desejam reerguer-se, preparar-se para grandes responsabilidades, empenhar-se em primeira pessoa”, sustentou.
O Papa reiterou o compromisso da Igreja Católica em promover a justiça e a convivência fraterna na sociedade.
“A Igreja Católica, cuja obra de serviço ao país sei o quanto estimais, deseja ser fermento na massa e promover o crescimento de um modelo justo de convivência, livre das escravidões impostas por elites com muito dinheiro e falsas alegrias”, indicou o pontífice.
Leão XIV seguiu para a Nunciatura Apostólica, onde pernoita durante a sua estadia em Luanda, tendo vindo à janela para saudar a multidão que se reuniu diante da embaixada da Santa Sé.
A agenda do dia encerra-se pelas 19h00, num encontro privado entre o pontífice e os bispos de Angola.
Este domingo o Papa visita o maior lugar de peregrinação religiosa no país, o Santuário da Muxima (palavra que significa “coração” na língua quimbundo).
O programa de domingo começa celebração da Missa campa em Kilamba (10h00), a 30 quilómetros de Luanda, e a recitação do terço no Santuário mariano da Muxima, um dos centros da devoção católica em Angola, pelas 16h30.
A 20 de abril, Leão XIV viaja até Saurimo, no leste do país, ara visitar uma casa de acolhimento de idosos (09h45) e presidir à Eucaristia (11h15), regressando a Luanda ao final da tarde para um encontro com os bispos e os agentes pastorais, na Paróquia de Nossa Senhora de Fátima (17h30).
A última etapa da viagem apostólica começa a 21 de abril, com a partida de Luanda para a Guiné Equatorial, às 09h15.
Leão XIV é o terceiro Papa a visitar Angola, depois de São Paulo II ter realizado uma visita apostólica ao país, que incluiu uma passagem por São Tomé e Príncipe, entre os dias 4 e 10 de junho de 1992, e depois Bento XVI, de 20 a 23 de março de 2009.
O Missal da Viagem Apostólica do Papa Leão XIV a África, divulgado pelo Vaticano, coloca a oração pela reconciliação nacional no centro das cerimónias dos próximos dias, num país em que os católicos são cerca de 58% da população.
A certeza da vitória de Jesus sobre a morte continua a ecoar ao longo de cada hora deste “grande domingo” que é o tempo pascal. Mas hoje a liturgia lembra-nos, especificamente, que também nós podemos experimentar a presença de Jesus, vivo e ressuscitado, nos caminhos que todos os dias percorremos. Essa experiência transforma-nos, renova-nos, santifica-nos e faz de nós testemunhas vivas do Ressuscitado.
No Evangelho o “catequista” Lucas convida-nos a acompanhar dois discípulos que, abalados pela aparente falência do projeto de Jesus, desistem da comunidade cristã e põem-se a caminho de uma outra vida. No entanto Jesus, sem se identificar, acompanha-os no caminho, ajuda-os a encontrar respostas, devolve-lhes a esperança. Eles só reconhecem Jesus quando, à mesa, Ele parte e reparte o pão. O relato – com um evidente “sabor” eucarístico – é uma maravilhosa parábola sobre os nossos desencontros e encontros com Jesus ressuscitado: Ele nunca deixará de nos acompanhar no caminho, de nos explicar o sentido da vida e de nos alimentar com a sua Palavra e o seu Pão. Os relatos pascais referem amiudamente a alegria irreprimível que enche o coração dos discípulos que se encontram com Jesus ressuscitado. A narração da aparição de Jesus aos discípulos de Emaús, sem falar concretamente de alegria, alude ao entusiasmo que aqueles dois discípulos sentiram pela presença e pela companhia de Jesus ressuscitado. É o entusiasmo que resulta de uma Presença que enche de paz, que dissipa o temor, que multiplica a coragem, que oferece esperança, que aumenta o amor, que dá sentido ao caminho… Conseguimos ver, hoje, essa alegria e esse entusiasmo no rosto dos discípulos de Jesus? Conseguimos perceber essa alegria na vida, na partilha, no testemunho, na celebração da fé nas nossas comunidades cristãs?
A primeira leitura é um extrato do discurso de Pedro na manhã de Pentecostes. Anuncia aos habitantes de Jerusalém e ao mundo que, aquele Jesus assassinado pelas autoridades judaicas, derrotou a maldade, a injustiça, a violência e a própria morte. Pedro, com ousadia profética, garante: “disso todos nós somos testemunhas”. É esta Boa Notícia que os discípulos de Jesus de todas as épocas continuam a anunciar ao mundo. . A Igreja – a comunidade dos discípulos de Jesus – é hoje, no mundo, a testemunha de Jesus, da sua ressurreição, da verdade da sua proposta, da viabilidade do seu projeto. Sentimo-nos investidos dessa missão? Os homens desiludidos e desorientados que todos os dias se cruzam connosco nos caminhos do mundo encontram em nós – testemunhas de Cristo ressuscitado – uma proposta de vida definitiva e de realização plena? Somos nós que contaminamos o mundo com a Boa Notícia de Jesus e lhe oferecemos uma alternativa à desilusão e ao desespero, ou é o mundo que nos domestica e nos convence a abandonar os valores propostos por Jesus?
Na segunda leitura, um autor cristão do séc. I lembra aos batizados a vocação fundamental a que são chamados: a santidade. Para dar mais força ao seu apelo a uma vida santa, recorda-lhes que foram resgatados por um preço bem alto: pelo sangue precioso de Cristo. Ao ressuscitar e glorificar o seu Filho Jesus, Deus caucionou a proposta de vida que Ele nos veio oferecer. Não podemos ficar indiferentes diante da ação de Deus em nosso favor. Um amor tão grande como aquele que Deus nos mostrou ao entregar-nos a vida do seu Filho Jesus, exige uma resposta clara e inequívoca da nossa parte. Qual? De acordo com o autor da Primeira Carta de Pedro, a nossa resposta deve traduzir-se numa conduta nova, numa atitude de acolhimento de Deus, de obediência total a Deus, de entrega incondicional nas mãos de Deus, de adesão completa aos planos, valores e projetos de Deus. O amor de Deus inspira-nos e motiva-nos para vivermos uma vida santa, uma vida “segundo Deus”?
Leão XIV deixa mensagem de despedida, no último encontro público com os católicos do país
Annaba, Argélia, 14 abr 2026 (Ecclesia) – O Papa alertou hoje para a “espiral negativa” de violência do mundo, numa mensagem de despedida aos católicos da Argélia.
“Reconheçamos que a situação atual do mundo, como uma espiral negativa, tem origem, no fundo, no nosso orgulho. Precisamos de Deus, da sua misericórdia. Só Nele o coração humano encontra a paz”, disse Leão XIV, no final da Missa a que presidiu na Basílica de Santo Agostinho, em Annaba, a antiga cidade de Hipona, no Império Romano.
Perante cerca de 1500 pessoas, que participaram na primeira Missa pública presidida por um Papa na Argélia, o pontífice pediu que todos se voltem para Deus com “humildade”.
“Só com Ele poderemos todos juntos, reconhecendo-nos como irmãos, trilhar os caminhos da justiça, do desenvolvimento integral e da comunhão”, acrescentou.
Leão XIV agradeceu pelo acolhimento da comunidade católica e pela “hospitalidade atenciosa” as autoridades civis, ao longo destes dois dias de visita.
O primeiro Papa da Ordem de Santo Agostinho falou desta viagem como “um dom especial da providência de Deus”, em referência à passagem pela cidade onde o doutor da Igreja foi bispo, no século V.
“É um dom que o Senhor quis fazer a toda a Igreja por intermédio de um Papa agostiniano. E parece-me poder resumi-lo assim: Deus é amor, é o Pai de todos os homens e de todas as mulheres”, afirmou.
Na manhã desta quarta-feira, Leão XIV ruma aos Camarões, com chegada prevista à capita, Iaundé.
A agenda no território camaronês integra uma deslocação a Bamenda, na quinta-feira, para um encontro pela paz com a comunidade local e a celebração da Missa.
O dia 17 de abril é marcado por uma passagem por Douala, com uma missa em estádio e a visita a um hospital católico, antes do regresso a Iaundé para um encontro com o mundo universitário.
O núncio apostólico em Iaundé, D. José Avelino Bettencourt, destacou à Agência ECCLESIA o simbolismo da presença do Papa em contextos de elevada fragilidade social e militar, como acontece em Bamenda, no território anglófono, “uma zona de guerra”.
O Papa despede-se dos Camarões a 18 de abril, dia em que a comitiva papal viaja para Angola.
A viagem termina a 23 de abril, após passagem pela Guiné-Equatorial.