Conhecem a fábula de Esopo sobre as rãs que pediram insistentemente um rei? Perguntem à meta! E têm presente o que aconteceu ao povo judeu quando implorou a Samuel que também lhe desse um rei, já que ele estava velho? (1Sam 8, 1-22). Será bom recordar, pois a escolha de um governante deve ser esclarecida e livre. E neste processo de esclarecer ou confundir, não estão isentos de algum mérito ou demérito quem noticia coisas e loisas a esmo, só para mostrar serviço e entreter, um pouco assim como quem deita palha ao gado para que fique sossegado e a remoer. De facto, “Vivemos numa sociedade da informação que nos satura indiscriminadamente de dados, todos postos ao mesmo nível, e acaba por nos conduzir a uma tremenda superficialidade no momento de enquadrar as questões morais” (EG64). Não se pensa criticamente, não se oferece um caminho de amadurecimento nos valores, está-se nas tintas para com a dignidade da pessoa e o bem comum, promovem-se as aparências de bem e os populismos que, camaleonicamente, querem levar a água ao seu moinho como se tudo fosse igual a tudo. “Assim como o bem tende a difundir-se, assim também o mal consentido, que é a injustiça, tende a expandir a sua força nociva e a minar, silenciosamente, as bases de qualquer sistema político e social, por mais sólido que pareça” (EG59). E tão culpado é quem entra no jogo como quem fica na bancada a aplaudir e incentivar. Neste ‘tic tic dare dare’, o dinheiro, a ambição, a ganância e a ilusão do poder pelo poder cantam de galo tão assumidamente que nem o milagroso galo de Barcelos, ao saltar do prato, foi capaz de o fazer com tanta mestria e garbo! E assim, lá se vai a honestidade, a ética e a centralidade no bem comum, precisamente aquilo que faz da política essa arte nobre de bem servir o homem e a criação, vocacional e belamente.
De facto, Jesus esclareceu que “Ninguém pode servir a dois senhores: ou não gostará de um deles e estimará o outro, ou se dedicará a um e desprezará o outro” (Mt 6, 24). E São Paulo não se esqueceu de advertir que “a raiz de todos os males é a ganância do dinheiro” (1 Tm 6, 10). E exorta a comunidade a abandonar os vícios, referindo-se à ganância como "uma idolatria" e um pecado social (Col 13,5). São Lucas exorta: "Guardai-vos de toda a ganância, porque a vida de um homem não consiste na abundância dos bens que ele possui" (Lc 12,15). E a Carta aos Hebreus exorta à simplicidade e à confiança na providência divina: "Seja a vossa vida isenta de ganância, contentando-vos com o que tendes" (Heb 13,5). Não se trata de deitar a riqueza ao mar ou de a condenar como pérfida e hostil à vida, trata-se, isso sim, é de saber como é adquirida e como é usada. O dinheiro pode invadir o campo da consciência individual e impor aí a sua lei, a lei do enriquecimento a qualquer preço, nem que seja através de formas de criminalidade organizada ou esmagando, anestesiando ou matando quem a produz. Pior ainda, quando, porventura, há autoridades que apenas se movem nesse campo, não assumem a defesa intransigente do bem comum e só olham para o seu umbigo, goste quem gostar ou doa a quem doer. O ladrão não pede riquezas, só quer que lhe digam onde é que elas estão!
De facto, mal vai quando a relação com o dinheiro é semelhante à relação de um patrão tirano com quem o serve por necessidade. Francisco dizia que “a crise financeira que atravessamos faz-nos esquecer que, na sua origem, há uma crise antropológica profunda: a negação da primazia do ser humano. (...) A adoração do antigo bezerro de ouro (cf. Ex 32, 1-35) encontrou uma nova e cruel versão no fetichismo do dinheiro e na ditadura duma economia sem rosto e sem um objetivo verdadeiramente humano” (EG55).
E ao comentar a parábola do rico avarento, Francisco afirmava que a ganância do rico o faz vaidoso e soberbo. Vive de aparências que são a máscara do seu vazio interior, é prisioneiro da exterioridade, da dimensão mais superficial e efémera da existência (cf. EG 62). Veste-se como se fosse um rei, simula a posição de um deus, esquece-se que é um simples mortal, assume que nada mais existe além do seu próprio eu. O dinheiro é o seu ídolo, um ídolo tirânico de quem se orgulha e a quem se escraviza. Em vez de instrumento ao seu dispor para fazer o bem e exercer a solidariedade com os outros, o dinheiro subjuga-o, a si e ao mundo inteiro, numa lógica egoísta que não deixa espaço ao amor e dificulta a paz (cf. Audiência 18/05/2016; e Mensagem Quaresma 19/02/2017).
No Antigo Testamento, a ganância é criticada principalmente pelo seu impacto comunitário e pela ilusão de segurança que as riquezas trazem. No Livro do Eclesiastes, por exemplo, lemos que "Quem ama o dinheiro jamais se fartará de dinheiro; e quem ama a riqueza nunca ficará satisfeito com os seus lucros" (Ecl 5,9). A ganância torna as pessoas insaciáveis. O Livro de Amós insurge-se contra quem coloca o lucro acima da dignidade humana, sendo capaz de vender "o justo por dinheiro e o necessitado por um par de sandálias" (Amós 2,6-7). Isaías atira-se àqueles que “juntam casa a casa e acrescentam campo a campo, até não haver mais terreno e serem os únicos a habitar no meio do país” (Is 5,
. Ou do mundo!... Neste Dia Mundial de Oração pelo Cuidado da Criação, rezemos por estes pobres tão pobres tão pobres tão pobres que só têm dinheiro e poder e ainda querem mais, nem que seja destruindo as pessoas e o pobre planeta. Coitados, são uns pobres sem abrigo, que, pelo menos, bem mereciam a compaixão de uma cadeia!D. Antonino Dias
Caminha, 01-09-2026







