sábado, 17 de outubro de 2026

Cem Anos de Comunhão

 Cem Anos de Comunhão

                                         Foto: Jornal Reconquista.

Há cem anos, o Papa Pio XI decidia criar o Dia Mundial das Missões com dois grandes propósitos: promover a formação e o envio de missionários e valorizar a conscientização e mobilização missionária de toda a Igreja. Em cem anos, muita coisa aconteceu e muitas foram as mudanças na realidade civilizacional e eclesial, mas este propósito fundamental continua válido, agora situando o Dia Mundial das Missões em outubro e dinamizando todo este mês em função desta corresponsabilização missionária. Instrumentos importantes para esta mobilização têm sido as mensagens dos Papas para este dia, assiduamente publicadas desde 1963.

Estas mensagens papais são bem a expressão de como, ao longo de mais de sessenta anos, o pensamento da Igreja relativamente à Missão sempre considerou a importância da comunhão, das relações de diálogo e encontro entre povos e sensibilidades, valorizando a escuta como lugar incontornável da missão de servir, anunciar o Evangelho, orar e santificar. A mensagem do Papa Leão XIV para o Dia das Missões deste ano debruça-se precisamente sobre isso: a unidade supõe a diversidade, já que a diversidade é o ambiente próprio da unidade: assim é com Deus, tal como Se nos revelou em Jesus, assim é connosco, se quisermos viver à maneira de Jesus, “enxertados” na cepa vivificante que Ele é.

Quando os cristãos se entendem assim, unidos na diversidade e alicerçados num Deus de Amor que sai de si para se encontrar com todos e a todos acolher, isso tem imensas consequências práticas no modo como estão presentes no mundo e vivem a própria missão. Isso é especialmente notório na realidade contemporânea em que nos situamos: se nos processos de transformação civilizacional que estamos a viver descobrimos muitas e fascinantes novas realidades, também é verdade que nos preocupam as tendências de medo e fechamento que parecem crescer nas sociedades ocidentais. O medo é o ambiente propício para se criarem narrativas simplistas que procuram exorcizar as ameaças sentidas, identificando culpados fáceis (normalmente a partir de critérios redutores e, por isso, distorcidos), e propondo, por vezes de modo muito rígido e até agressivo, medidas de exclusão de uns, para favorecer outros, de diabolização de grupos minoritários, em nome da identidade a preservar ou da segurança a salvaguardar. Um tal ambiente pode facilmente ser aproveitado por grupos populistas, ideológicos e, com frequência, com agendas obscuras que buscam poder político ou ganhos económicos.

Num tal contexto, a Igreja é desafiada a manter-se fiel a si própria e à sua missão, mesmo sabendo que tal fidelidade poderá encontrar firmes opositores fora dela e até dentro dela. Esta fidelidade à missão sempre esteve ligada à doutrina social da Igreja e ao modo como esta doutrina se articula, incontornavelmente, com a oração, com o anúncio e com as práticas pastorais, partindo do olhar lúcido e crítico do Evangelho, que promove as pessoas, a vida, os valores fundamentais que permitem que o Reino de Deus cresça.

No mundo contemporâneo, na linha do que ficou dito atrás, um dos fenómenos preocupantes é o crescimento das narrativas xenófobas, que veem nos migrantes focos de perigo e na sua rejeição um caminho de autopreservação. Os complexos mecanismos sociais, culturais e políticos destas tendências põem as pessoas migrantes na rota da violência e da exclusão: todos os indicadores estatísticos apontam para o crescimento da intolerância e da violência, em muitas latitudes, particularmente contra as minorias e os migrantes. Não deixa de ser irónico que tal tendência esteja a crescer (perigosamente!), nas sociedades ocidentais, onde, nunca como hoje, a população autóctone envelheceu e a mão-de-obra estrangeira se tornou indispensável para a sustentabilidade da economia, dos sistemas de segurança social e do crescimento e vitalidade do tecido social.

Para além das análises estritamente técnicas dos fenómenos migratórios e dos benefícios que a presença migrante traz para as sociedades de acolhimento, é importante que, na Igreja, não se perca nunca de vista os valores fundamentais de comunhão, unidade e universalidade que, ao longo dos séculos, nos orientaram (ainda que, como sabemos, com sombras e maus períodos…). A unidade, dom de Deus, que acolhemos na Igreja, onde todos são irmãos e irmãs, independentemente de origens, culturas ou línguas, é a mesma unidade universal que propomos ao mundo: propomo-la pelo testemunho de fraternidade universal que vivemos e propomo-la no anúncio claro de Jesus e do Seu Evangelho. Esta proposta é crítica e lúcida, afirmando o valor da diversidade e do respeito por todos como base para a justiça e para a viabilidade das comunidades, sejam elas eclesiais ou de outra natureza, alargando-se até ao âmbito nacional e global. A defesa da vida, desde a conceção à morte natural, implica a defesa de todas as vidas, em todos os registos – biológico, cultural, espiritual… pessoal, mas também social; individual, mas também coletivo. Todas as vidas: as europeias ou americanas, mas também as africanas ou asiáticas, as brancas ou as negras…

Os bem conhecidos quatro verbos estruturantes da proposta cristã para a gestão das relações com a população migrante são realmente importantes, não apenas para as questões da imigração, mas também, no fundo, para toda o entendimento da construção de uma família humana minimamente compatível com os valores do Evangelho. Assim, os verbos “acolher”, “proteger”, “promover” e “integrar” mantêm-se referenciais de avaliação para todas as propostas de carácter político, económico ou cultural: olhando cada proposta concreta, política, económica, cultural, e também pastoral, no que se refere às relações com os outros, e particularmente com os mais frágeis, urge sempre perguntar: estamos a acolher, proteger, promover e integrar?

Não falamos de missão de modo abstrato, com belos discursos retóricos e pouco relacionados com as questões reais das pessoas reais. Para nós, cristãos, a missão é sempre encarnada e a nossa intervenção faz-se sempre com base na atenção concreta às pessoas concretas, num pressuposto de empatia, solidariedade e compromisso com todos, especialmente com os mais frágeis. E isso em nome de Deus e do Evangelho que em Jesus Cristo nos comunicou e nos encarregou de anunciar, também com palavras… mas sobretudo com obras, olhar crítico, intervenção assertiva, posicionamentos coerentes com o Amor, de modo sereno e firme.


Que bom se este mês das missões nos ajudar a crescer nisto!



in diocese-braga.pt


D. Pedro Fernandes, Bispo da Diocese de Portalegre-Castelo Branco




Fa
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Papa apela à união em torno da «missão evangelizadora» da Igreja

Leão XIV defendeu que a evangelização concretiza-se «quando as diferenças culturais, espirituais e litúrgicas se expressam plena e harmoniosamente na mesma fé»



O Papa apelou à união em torno da missão evangelizadora da Igreja e incentivou a reforçar o “sentido de comunhão missionária eclesial”, numa mensagem em vídeo divulgada hoje.

“Ao admirar os missionários e as missionárias, dirijo um apelo especial a toda a Igreja: que todos nos unamos a eles na missão evangelizadora através do testemunho de vida em Cristo, da oração e do contributo para as missões”, afirmou Leão XIV, na intervenção publicada pela Sala de Imprensa da Santa Sé.

O vídeo foi lançado a propósito do centenário do Dia Mundial das Missões, que se celebra a 18 de outubro, e para o qual o Papa escreveu uma mensagem com o tema “Um em cristo, unidos na missão”.

“Se a unidade é a condição da missão, o amor é a sua essência. A Boa Nova que somos enviados a anunciar ao mundo não é um ideal abstrato: é o Evangelho do amor fiel de Deus, encarnado no rosto e na vida de Jesus Cristo”, expressou.

O pontífice, que foi missionário no Perú, recorda que, “ao longo dos séculos, multidões de cristãos — mártires, confessores, missionários — deram a vida para dar a conhecer este amor divino ao mundo”.

“Assim, a missão evangelizadora da Igreja continua sob a orientação do Espírito Santo, Espírito de amor, até ao fim dos tempos”, assinalou.

Na mensagem, o Papa agradece “especialmente aos missionários e missionárias ad gentes de hoje: pessoas que, tal como São Francisco Xavier, deixaram a sua terra, a sua família e todas as suas certezas para anunciar o Evangelho, levando Cristo e o seu amor a lugares muitas vezes difíceis, pobres, marcados por conflitos ou culturalmente distantes”.

“Continuam a doar-se com alegria, apesar das adversidades e das limitações humanas, porque sabem que o próprio Cristo, com o seu Evangelho, é a maior riqueza a partilhar”, realçou.

Leão XIV frisou que o “mundo continua a precisar destes corajosos testemunhos de Cristo, e as comunidades eclesiais continuam a precisar de novas vocações missionárias”, que todos devem “sempre ter no coração e pelas quais é necessário rezar continuamente”.

No vídeo, o Papa destacou que “ser cristão não é, antes de mais, um conjunto de práticas ou ideias: é uma vida em união com Cristo” e apontou que “renovar e manter viva a unidade espiritual e fraterna entre os seus membros” é “a primeira responsabilidade missionária da Igreja”.


Em muitas situações, assistimos a conflitos, polarizações, incompreensões e desconfiança mútua. Quando isto acontece também nas nossas comunidades, enfraquece o nosso testemunho. A missão evangelizadora, que Cristo confiou aos discípulos, exige, antes de mais nada, corações reconciliados e ansiosos de comunhão”, disse.

Nesta perspetiva, Leão XIV ressaltou que seria “importante intensificar o empenho ecuménico com todas as Igrejas cristãs, aproveitando também as oportunidades suscitadas pela celebração comum do 1700.º aniversário do Concílio de Niceia”.

Dirigindo-se à União Missionária Pontifícia, fundada em 1916, o Papa reconheceu o empenho em “animar e formar o espírito missionário de sacerdotes, pessoas consagradas e fiéis leigos, promovendo a união de todas as forças evangelizadoras”.

“Nenhum batizado, de facto, é alheio ou indiferente à missão: todos, cada um segundo a sua vocação e condição de vida, participam na grande obra que Cristo confia à sua Igreja. Como o Papa Francisco recordou várias vezes, o anúncio do Evangelho é sempre uma ação coral, comunitária e sinodal”, enfatizou.


Desta forma, o Papa indicou que “unidos na missão significa guardar e alimentar a espiritualidade de comunhão e de colaboração missionária”.

Segundo o pontífice, a “unidade missionária, obviamente, não deve ser entendida como uniformidade, mas como convergência dos diversos carismas para o mesmo fim: tornar visível o amor de Cristo e convidar todos ao encontro com Ele”.


A evangelização concretiza-se quando as comunidades locais colaboram entre si e quando as diferenças culturais, espirituais e litúrgicas se expressam plena e harmoniosamente na mesma fé”, referiu.

“Encorajo, portanto, as instituições e as realidades eclesiais a reforçarem o sentido de comunhão missionária eclesial e a desenvolverem, com criatividade, formas concretas de colaboração entre si, para e na missão”, exortou.

Na mensagem, o Papa faz também agradecimentos às “Obras Missionárias Pontifícias pelo serviço prestado à cooperação missionária”, que teve a oportunidade de “experimentar com gratidão” durante o seu ministério no Peru.

No final do vídeo, o Papa apela todos a contribuir, “cada um segundo a sua vocação e os dons recebidos, para a grande missão evangelizadora, que é sempre obra do amor”.

As vossas orações e o vosso apoio concreto, especialmente por ocasião do Dia Mundial das Missões, serão de grande ajuda para levar o Evangelho do amor de Deus a todos, sobretudo aos mais pobres e necessitados. Cada oferta, mesmo a mais pequena, torna-se um ato significativo de comunhão missionária”, declarou.

LJ ( Eclésia)


sexta-feira, 16 de outubro de 2026

UMA CORDA TRIPLA NÃO REBENTA FACILMENTE

Querem saber quem cacarejou tal coisa? Foi um hebreu reguila do tempo dos Ptolemeus. Viveu antes de ontem, no século III antes de Cristo, na Palestina, colónia helenista! Se apenas parece ou era mesmo um pessimista de gema, não sei, mas o que ressalta dos seus escritos, em estilo um pouco assim-assim, é que era uma pessoa profundamente atenta, crítica, lúcida, realista, inspirada, com ares de genial! Desanca no absurdo da condição humana, sobretudo quando a humanidade aplaude e abraça seguranças ilusórias! O seu dito: “uma corda tripla não rebenta facilmente” (Ecl 4,12) arremessou comigo até Roma para espreitar alguma coisa do que ali presentemente acontece, sim, presentemente. Quanto ao passado, em qualquer pedra que por lá se levante com um mero tropeção, logo se podem ler muitas histórias da História! Nem todas felizes!...
Os chefes das Igrejas Orientais, os presidentes de todas as Conferências Episcopais, alguns casais e diversos especialistas foram convocados pelo Papa Leão XIV para, de 7 a 10 de outubro, celebrarem o décimo aniversário da Exortação Apostólica Amoris Laetitia.
No quarto dia desse encontro, debruçaram-se, sobretudo, sobre a necessidade de “escutar atentamente a experiência dos jovens casais: como contam aquilo que estão a aprender juntos ou aquilo que os impede de aprender e crescer; os recursos que descobrem no sacramento do matrimónio; o que esperam das comunidades cristãs e como compreendem a própria responsabilidade missionária.” Acentuou-se a importância da pastoral da continuidade para que o sacramento não seja apenas celebrado mas também vivido e cultivado ao longo da vida. Casar-se significa doar-se reciprocamente, construir um projeto comum, aprender a amar-se no concreto da vida, com suas alegrias e dificuldades. Mais do que uma preparação concentrada sobretudo na celebração das núpcias, importa uma pastoral que ajude os esposos, antes, durante e depois do matrimónio. Os primeiros anos, o nascimento dos filhos, as responsabilidades profissionais, as dificuldades económicas, a doença e as mudanças pessoais exigem capacidade de diálogo, paciência, perdão e uma renovada vontade de permanecer unidos. O casal precisa de “oferecer a si mesmo um tempo de qualidade para conversar, revisitar a própria história, reconhecer pontos fortes e fragilidades, rezar e discernir”.
Construir um “nós”, sem anular a identidade do “eu” e do “tu”, não nasce automaticamente “do facto de duas pessoas se amarem, nem é a soma de dois indivíduos, nem uma fusão, mas o encontro de duas culturas familiares que dão origem a uma terceira, nova e irrepetível”. Isso exige tempo de qualidade, escuta recíproca, partilha da fé e capacidade de enfrentar os conflitos sem permitir que enfraqueçam o vínculo, mas transformem a sua união num testemunho concreto de fidelidade, perdão e esperança. O matrimónio cristão “não é apenas uma história de duas pessoas; é também uma vocação eclesial, chamada a crescer e a desenvolver-se dentro de uma comunidade”. São “duas liberdades que, sustentadas pela fidelidade de Jesus Cristo, fazem do acolhimento recíproco o sinal visível de um Amor maior”. Como sabemos, “a unidade não exige a supressão da diferença; pertencer não significa possuir; cuidar não significa dominar; e a fidelidade permite atravessar as transformações sem abandonar a aliança.”
O matrimónio entre batizados não é apenas um contrato entre um homem e uma mulher. É uma realidade que não pertence, apenas, ao plano natural, mas adquire uma nova dimensão, a dimensão da graça, a ser assumida pelo homem novo à imagem de Jesus Cristo. É uma aliança sagrada, é um sacramento, onde Jesus Cristo é o centro, a base e o elo de ligação do casal. É ele que lhe dá sentido e concede a graça indispensável para serem vividos em conformidade com a sua vontade. Isto significa que é um sinal visível e eficaz da graça invisível de Deus. Cristo não é uma mera testemunha do casamento. Ele passa a habitar na união do casal. O casal não conta apenas com o amor humano, mas com a graça divina para superar os desafios, perdoar e manter-se fiel. A Sagrada Escritura compara a união entre marido e mulher à união entre Cristo e a Igreja. O amor do casal deve espelhar o amor de Jesus: um amor que é total, fiel, indissolúvel e fecundo, um amor disposto a dar a vida um pelo outro. Cristo torna-se o modelo de entrega e paciência para o marido e para a esposa. Essa realidade tripla não rebenta facilmente, pois a união do casal não confia apenas na força humana de ambos. Com Cristo, a união ganha uma força divina, tornando o matrimónio muito mais resistente às crises e ao desgaste do tempo. Ajuda-os a caminhar como discípulos de Cristo, avançando sempre mais na própria perfeição e na mútua santificação.
Como é agradável ver os casais envolvidos nas comunidades e a participarem, juntos, e com os filhos, na liturgia, sobretudo na santa Missa. Reunir em comunidade, ouvir a Palavra, participar e trocar entre si aquele ósculo da paz que a liturgia convida a fazer, quão benéfico é para lembrar o amor de Cristo pela sua Igreja, aprendendo a ir em frente com alegria e esperança, testemunhando um ao outro e aos filhos a fé que os anima, aperfeiçoando-se, dando firmeza à sua unidade indissolúvel, perdoando, desculpando, ultrapassando obstáculos, acolhendo e integrando as diferenças que sempre enriquecem.
‘Uma corda tripla não rebenta facilmente’! Esta certeza deve ser a dos esposos. Mesmo que a sua formação teime em dizer-lhes que sim, os esposos nunca estão sozinhos no combate contra momentos adversos ou contra a tentação de seguranças ilusórias. Se esticarem os olhos e olharem bem, com eles está e atua Jesus como outrora nas bodas de Caná, proporcionando-lhes que a festa das bodas continue na alegria e entusiasmo da primeira hora.

D. Antonino Dias
Caminha, 16-10-2026

A caridade não é aquilo que fazemos



A caridade não é aquilo que fazemos. É aquilo que somos.

Dá para fazer muito pelos outros e continuar longe deles.
Podemos preencher o formulário, entregar o cabaz, marcar a consulta, cumprir o horário, fechar o relatório. Tudo isso é preciso, e quem o faz merece o nosso respeito. Mas há quem saia de um balcão com o papel carimbado e o coração na mesma. E há quem saia sem papel nenhum, só com a sensação de que alguém o viu.
Fazer bem não é o mesmo que estar presente.
A caridade cristã pede mais do que respostas. Pede proximidade, escuta, tempo. Pede que o outro deixe de ser um caso e volte a ser um rosto.
Costumamos dizer, com orgulho e com razão: «Temos um Centro Social. Temos uma Conferência Vicentina. Temos a santa Casa da Misericórdia. Temos uma equipa socio-caritativa.» É bom que existam. Mas antes de todas as respostas há uma pergunta mais funda: que pessoas somos nós quando encontramos alguém que sofre?
O jesuíta Paul Valadier avisa-nos de um risco silencioso. Não critica as obras sociais da Igreja, nem a urgência de cuidar dos pobres. Teme que a caridade, de tanto se organizar, acabe a gerir a pobreza em vez de a combater. Que passemos a administrar, com toda a competência, a permanência de alguém no sítio de onde devia sair.
Uma instituição pode funcionar na perfeição e já ter perdido a alma.
E acontece sem darmos por isso. A pessoa vai desaparecendo atrás do processo.
O pobre passa a ser um processo.
O idoso passa a ser uma vaga.
O doente passa a ser um diagnóstico.
O preso passa a ser um número.
A família passa a ser um agregado.
O toxicodependente passa a ser um caso.
O alcoólico passa a ser um problema.
Quem vive sozinho passa a ser uma estatística.
Precisamos de nomes, de critérios, de organização. Mas chega um momento em que é preciso parar e perguntar: onde está a pessoa?
Jesus nunca encontrou categorias. Encontrou pessoas. Ele não começava por perguntar o que tinham feito. Perguntava o que lhes estava a acontecer. É uma diferença enorme. É a diferença entre julgar e acolher.
Uma coisa é olhar para alguém e dizer «é um pobre», «é um preso», «é um problema». Outra, bem diferente, é reconhecer: «É alguém. Tem nome. Tem história. Tem feridas. Tem uma dignidade que ninguém lhe pode tirar.»
É aqui que a caridade começa a sério. Não quando classificamos melhor, mas quando voltamos a ver. Não quando gerimos melhor a pobreza, mas quando encontramos o rosto que ela esconde.
E fica a pergunta, só para si: quando foi a última vez que alguém lhe soube o nome sem precisar de consultar a ficha?
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Padre João Torres

quinta-feira, 15 de outubro de 2026

UM DOMINGO MUITO ESPECIAL NA NOSSA PARÓQUIA

 


No próximo domingo, 18 de outubro, a nossa comunidade vai viver um momento de grande alegria e comunhão. Às 12h00, na Igreja Matriz de Arronches, celebramos a Eucaristia que assinala o Início do Ano Catequético!

Será uma celebração repleta de significado, onde iremos vivenciar

:Festa do Acolhimento: Damos as boas-vindas aos mais pequeninos e a todos os que iniciam este caminho de fé.

Envio dos Catequistas: O momento em que a comunidade envia e agradece a missão daqueles que vão guiar as nossas crianças e jovens.

Bênção das Mochilas: Convidamos todas as crianças e jovens a trazerem as suas mochilas escolares para receberem uma bênção especial para este ano letivo.

Contamos com a presença de todos os catequizandos, famílias, catequistas e de toda a comunidade paroquial. 

Vamos começar este ano com o coração cheio de esperança!

quarta-feira, 14 de outubro de 2026

Ver-me com os olhos de Deus




 

Vale a pena olhar para mim próprio com os olhos de Deus. Com justiça e amor. Aceitando-me. Acolhendo os meus erros, os meus arrependimentos e as minhas fragilidades. Procurando com ternura as razões daquelas falhas que eu próprio não consigo (ou não quero) assumir, enfrentar e tentar resolver.


Deus vê para lá do que os olhos conseguem saber. Abre o Seu coração ao meu coração e procura o meu abraço tanto quanto eu procuro o Seu.

O perdão é uma escolha de amor. Quem perdoa não deixa de sentir dor. Não se deve perdoar de acordo com a medida da falta, nem com as emoções, mas sim de acordo com o amor que se tem e se quer ter por quem se perdoa.

É duro perdoar, mas é ainda pior não o fazer. Há quem dê abrigo dentro de si a mágoas de que se poderia livrar se perdoasse a quem é responsável por elas… e, muitas vezes, é a própria pessoa que não é capaz de se perdoar.

Importa perguntar a mim mesmo o que quero de Deus. Desejo os benefícios que Ele me pode dar para não sofrer e ter aquilo com que sonho (ainda que não mereça nem uma coisa nem outra!)? Ou quero a Sua presença e a força para continuar a viver e amar com vontade, sabedoria e perseverança, apesar de tudo o que me dói, de tudo o que me falta e de todos os sonhos que não consigo alcançar?

E o que quererá Deus de mim? Será que consigo escutá-lO como Ele me escuta?


José Luís Nunes Martins

terça-feira, 13 de outubro de 2026

Há convites que nunca chegam




“Adoro o convite feito pelo olhar. Que não precisa dizer nada. Só sentir.”
Aline Goulart


Quando recebemos um convite para uma festa temos duas reações:

adoramos, porque amamos quem nos fez o convite;

detestamos, porque vamos gastar dinheiro.


Por vezes, surgem aquelas evasivas questões:

Porque será que fui convidado?

O que querem que eu leve para a festa?

Nem sei o que vestir?


E às vezes… quando o convite não chega…

Ficamos indignados e muito tristes.



No nosso relacionamento com Deus, o convite não chega pelas mãos divinas.

O Pai fica amorosamente a preparar o Banquete.

Todos os pormenores da grande Festa passam pelos Seus olhos

e são delicadamente tecidos no tear do Seu coração.



O Senhor que nos dá a Vida oferece a importante missão da entrega do Convite a mim e a ti.

Somos nós, a Igreja d’O Cristo,

quem chama cada homem e cada mulher ao Banquete, que é a Eucaristia.



Eis a pergunta que hoje deve crescer no nosso coração:

Como entrego eu o convite do Senhor?

Com um sorriso no rosto.

Com Fé, Esperança e Caridade.

Com Amor verdadeiro!



E quem tem de receber o convite?

«Todos! Todos! Todos!»

Com persistência e sem julgamentos.

Com aquele olhar repleto de Amor…

Porque O único que pode dizer quem é ou não é digno, é o Rei.



A mim e a ti só nos compete levar Jesus a todos e todos a Jesus,

na certeza de que nunca nada nos faltará,

porque sabemos viver na fartura e na fome!

Afinal… é O próprio Deus quem nos prepara o Banquete.


Liliana Dinis