Sob o título “Venite ad Me”, o Dicastério para a Doutrina da Fé, depois de aprovado por Leão XIV, acaba de publicar uma Nota que convém ter em conta. Ela oferece uma reflexão específica e dá sugestões concretas para o anúncio do Evangelho. Não se trata de uma Nota doutrinária. Trata-se de Considerações sobre a transmissão da fé nestes tempos de grande fragmentação. Pretende estimular a reflexão eclesial e o empenho pastoral em torno da transmissão da fé, embora seja uma questão sempre em aberto para novas análises e desenvolvimentos.
‘Os capítulos I e II estabelecem suas bases teológicas, partindo do anúncio do amor do Pai manifestado na pessoa e nas obras de Jesus de Nazaré, para chegar aos seus principais contextos de transmissão na Igreja, ou seja, a família e a comunidade. O capítulo III aborda os desafios da mudança de época, cuja característica marcante é uma dificuldade sem precedentes em dar continuidade às formas tradicionais de transmissão da fé, à qual o capítulo IV responde apontando o coração pulsante dessa obra, ou seja, o anúncio do kerigma. O capítulo V apresenta diversas reflexões práticas sobre a transmissão da fé na vida das comunidades em seus vários aspetos, enquanto os capítulos VI e VII, respetivamente, aprofundam a relação entre fé e cultura, indicando algumas atenções pastorais específicas. O capítulo VIII, por fim, reúne alguns testemunhos concretos que mostram a transmissão da fé no contexto da vida quotidiana das pessoas’. Como não podia deixar de ser, a referência é Jesus, que “está sempre a caminho. Ele não espera. Não cria um santuário próprio nem uma escola. Ele viaja. Entra nas aldeias e nas cidades de seu povo e de seu tempo. Ele conversa com as pessoas simples, mas também com aqueles que ocupam cargos de poder público, religioso ou político. Por meio desses gestos e dessas palavras, Jesus leva a bom termo a revelação confiada ao povo de Israel” (n.º14). Usando uma linguagem próxima e familiar, ele conquista o coração dos simples ao mesmo tempo que desconcerta e inquieta as autoridades da época. E “não se limita apenas ao anúncio do amor incondicional de Deus. Ele dá testemunho concreto desse amor por meio de uma predileção especial por todos aqueles que já quase não esperam mais nada de ninguém: nem de seus parentes, nem de seus amigos, nem de seus compatriotas, nem de seus correligionários e talvez nem mesmo do Deus da Aliança dos Pais”.
Diante do cansaço e das fadigas do coração humano, Jesus apresenta-se como fonte de descanso, aproximando-se de cada pessoa na realidade concreta da sua vida, concedendo-lhe aquela verdadeira paz que só nele é possível encontrar: “Vinde a mim, todos os que estais cansados e carregados de fardos, e eu vos darei descanso” (cf. n.º1).
De facto, só em Cristo se encontrarão as respostas para os problemas e inquietações da humanidade. Como lemos na Constituição Gaudium et Spes, nenhuma lei humana pode assegurar a dignidade da pessoa e a liberdade do homem, como o Evangelho de Cristo. O Evangelho "anuncia e proclama a liberdade dos filhos de Deus, rejeita toda a servidão que, em última análise, provém do pecado, respeita escrupulosamente a dignidade da consciência e a sua livre decisão, adverte, sem desfalecimento, que todos os talentos humanos devem frutificar para o serviço de Deus e para o bem da humanidade e, por fim, confia cada um ao amor de todos” (GS41).
Há dias, por ocasião do 100.º Dia Mundial das Missões, os nossos Bispos, manifestando gratidão a todos quantos, pessoas e comunidades, ao longo destes cem anos assumiram com empenho, alegria e entusiasmo, a missão de evangelizar em fidelidade à pessoa e ao mandato de Cristo, afirmavam que, se o anuncio do Evangelho continua a ser uma dimensão essencial da Igreja, essa missão, hoje, não se coloca apenas como necessária em terras longínquas. “Hoje, a missão passa pelas nossas cidades, aldeias, escolas, universidades, famílias e lugares de trabalho. Passa por aqueles que se afastaram da fé, por gerações que já não receberam o anúncio cristão e também pelo encontro quotidiano com pessoas de diferentes culturas e tradições religiosas. Não se trata de olhar para esta realidade com medo. Trata-se de reconhecer nela um apelo. Portugal é também, hoje, terra de missão”. E acrescentava que a missão “não pode limitar-se a transmitir doutrina, normas ou competências religiosas: somos chamados a gerar na fé. Evangelizar é fazer acontecer Jesus na vida das pessoas. É permitir que alguém descubra que é amado por Deus. É acompanhar uma pessoa até que o Evangelho deixe de ser apenas uma mensagem exterior e se transforme em princípio de vida. É ajudar a formar comunidades onde Cristo possa ser encontrado, reconhecido e seguido. É gerar homens e mulheres novos, capazes de viver segundo a lógica das Bem-aventuranças e de levar ao mundo a paz, a justiça, a fraternidade e a esperança que nascem do Evangelho”.
Neste documento do Dicastério para a Doutrina da Fé que acaba de ser publicado, salienta-se a necessidade de “uma profunda renovação kerygmática da própria catequese”. O anúncio do kerygma deve “ser capaz de apresentar a boa nova do amor e da misericórdia de Deus de tal forma que aqueles que a recebem possam compreender efetivamente que é justamente a eles que esse amor e essa misericórdia se dirigem”.
D. Antonino Dias
Caminha, 22-10-2026.












