quinta-feira, 30 de julho de 2026

O lugar onde mora o teu coração



O lugar onde mora o teu coração


Há uma pergunta que atravessa toda a Bíblia e que raramente fazemos a nós próprios: onde mora o meu coração?

Não me refiro ao órgão que pulsa no peito, mas àquele centro invisível onde nascem as decisões, os afetos, os medos, os sonhos e a fé. Na linguagem bíblica, o coração é o lugar da pessoa inteira. É aí que Deus fala, que a consciência desperta e que se decide a santidade ou a ruína.

Por isso, o livro dos Provérbios adverte: «Acima de tudo, guarda o teu coração, porque dele brotam as fontes da vida» (Pr 4,23).

Vivemos, porém, numa época estranhamente preocupada em cuidar de tudo, menos do coração. Protegemos os nossos investimentos, fazemos cópias de segurança dos nossos ficheiros, contratamos seguros para as casas e os automóveis, contamos passos, calorias e horas de sono. Mas quem protege o coração da erosão do orgulho, da inveja, da indiferença ou da desesperança?

A ferrugem da alma não faz ruído.

Instala-se lentamente. Primeiro desaparece a capacidade de admirar. Depois deixa-se de agradecer. Em seguida, perde-se a alegria de servir. Finalmente, deixa-se de acreditar que alguém ainda pode mudar. O coração endurece sem que quase ninguém dê por isso.

Foi esta tragédia que os profetas denunciaram vezes sem conta. Ezequiel anuncia a promessa de Deus: «Dar-vos-ei um coração novo e porei em vós um espírito novo; arrancarei do vosso peito o coração de pedra e dar-vos-ei um coração de carne» (Ez 36,26).

A conversão cristã não consiste, antes de mais, em mudar comportamentos. Consiste em deixar que Deus transforme o coração. Afinal, toda a história da salvação é a história de um Deus que procura o coração do homem para nele fazer a sua morada.

Santo Agostinho compreendeu-o como poucos. Depois de procurar a felicidade em tantos lugares, escreveu a frase que continua a ecoar ao longo dos séculos: «Fizeste-nos para Ti, Senhor, e o nosso coração está inquieto enquanto não repousar em Ti.» Não é uma inquietação psicológica; é uma saudade ontológica. O coração humano foi criado para o infinito e nunca encontrará descanso definitivo nas coisas finitas.

Talvez por isso Jesus fale tantas vezes do coração. Não começa pelas mãos, mas pelo interior. «Onde está o teu tesouro, aí estará também o teu coração» (Mt 6,21). O Evangelho nunca se limita a corrigir gestos; procura converter desejos. Porque uma vida muda verdadeiramente quando muda aquilo que ama.

O mundo moderno convida-nos a seguir o coração. O Evangelho propõe algo mais exigente: educar o coração, purificá-lo e orientá-lo para o Bem. Nem tudo o que sentimos nos aproxima da verdade. Nem todos os desejos conduzem à liberdade. Um coração sem Deus pode confundir paixão com amor, impulso com vocação, sucesso com felicidade. A verdadeira liberdade nasce quando o Espírito Santo molda os nossos afetos à medida do Coração de Cristo.

É por isso que a liturgia permanece sempre nova. Em cada Eucaristia, antes de entrarmos na grande Oração Eucarística, o celebrante lança um convite que atravessa quase dois milénios de tradição cristã: «Corações ao alto!» — Sursum corda. Não é uma simples fórmula ritual. É um programa de vida. Desde os primeiros séculos, a Igreja recorda-nos que o coração não foi criado para rastejar entre as coisas passageiras, mas para se elevar até Deus. Quem responde «O nosso coração está em Deus» compromete-se a viver com o olhar voltado para o Alto, sem fugir às responsabilidades da terra. É a síntese admirável da espiritualidade cristã: pés firmes no mundo, coração inteiramente em Deus.

A Igreja não nos pede que desprezemos a realidade terrestre, mas que não lhe entreguemos o coração. Quem absolutiza o sucesso acaba escravo do fracasso; quem idolatra a riqueza descobre que ela não compra a paz; quem vive apenas para o imediato perde o horizonte da eternidade.

No fundo, a santidade talvez seja isto: conservar o coração suficientemente livre para que Deus continue a habitá-lo.

No Evangelho, Cristo não promete uma vida sem cruz, mas um coração novo capaz de transformar a cruz em caminho de ressurreição. É esse coração que perdoa quando todos condenam, espera quando tudo parece perdido, ama quando o egoísmo se torna regra e permanece fiel quando a cultura da descartabilidade convida a desistir.

Guardemos, pois, o coração. Não por sentimentalismo, mas porque ele é o verdadeiro altar onde Deus deseja ser adorado. Que nunca o deixemos apodrecer entre as pequenas ambições, os ressentimentos ou as ilusões efémeras. Elevemo-lo todos os dias, como a Igreja nos ensina desde os tempos apostólicos: Sursum corda! Corações ao alto. Porque só um coração elevado por Deus é capaz de elevar o mundo.


Sérgio Carvalho

quarta-feira, 29 de julho de 2026

Quando tudo para, o que continua a mover-nos?

 



O corpo não tem raiz.
Ditado popular


Hoje, é tempo de parar o corpo, a mente, o trabalho e a azáfama diária.

O que nunca para é o coração.

A Fé alimenta o coração humano com uma Esperança infinita.


O nosso coração acredita com todas as forças que é possível alcançar a felicidade.

Esta é a razão pela qual o coração palpita.

Faz o coração cumprir a sua missão com um ânimo bombástico.

E dá-lhe a capacidade de escutar a voz de Deus!


Escutar o chamamento do Pai, estar atento aos Seus pequenos sinais diários,

afasta-nos de uma vida morna.

Arrasta-nos para um imenso campo, repleto de tesouros por descobrir.

Predestina-nos uma pérola por cada gesto de amor.

Acolhe-nos como rede que salva e não mata.


Como Salomão, peçamos a Deus a graça de uma inteligência enraizada no coração.

Uma grande inteligência num coração de pedra não dá fruto.

Vamos cuidar do nosso coração?


Receituário:

Eucaristia aos Domingos!

Palavra de Deus meditada aos Sábados!

Oração diária!

Fé nos desígnios do Pai!

Esperança na promessa do Filho!

Caridade sem limites iluminada pelo Santo Espírito!


Liliana Dinis,


terça-feira, 28 de julho de 2026

As nomeações de párocos:

 


As nomeações de párocos: como uma cesariana que deixa cicatrizes
Há dores que não significam que algo correu mal.
Significam apenas que houve amor.
Uma mãe que dá à luz por cesariana leva consigo uma cicatriz. Não é uma ferida que fala de fracasso. É uma marca que recorda que a vida passou por ali. Que foi preciso abrir para que alguém pudesse nascer.
As nomeações de párocos fazem-me pensar nessa imagem. Também elas deixam cicatrizes.
No sacerdote que faz as malas sem levar consigo as pessoas que aprendeu a amar.
Na comunidade que vê partir aquele que batizou os seus filhos, abençoou o seu casamento, acompanhou os seus doentes, sepultou os seus familiares, escutou os seus silêncios e lhes anunciou, domingo após domingo, que Deus nunca abandona os seus filhos.
É natural que doa. Só sofre quem amou. Só custa deixar quem se tornou família. O problema começa quando transformamos uma cicatriz numa ferida que nunca queremos deixar sarar.
É curioso. Aceitamos com naturalidade que um médico seja colocado noutro hospital, que um professor mude de escola, que um juiz seja transferido, que um militar parta para outra missão. Mas quando um sacerdote é enviado para outra comunidade, sentimos quase uma injustiça.
Talvez porque um padre não ocupa apenas um lugar. Ocupa um espaço no coração.
E isso não se substitui. Nem deve ser substituído. Guarda-se. Agradece-se. Mas também se entrega.
Ninguém na bancada da igreja conhece a totalidade das urgências, dores e solidões de uma diocese inteira. Uma nomeação não é feita contra uma comunidade; é feita a pensar no bem de todas.
Na Igreja, os sacerdotes não se escolhem: enviam-se. As comunidades não se possuem: acolhem-se. E a pergunta que nos salva não é "Porque é que ele vai embora?", mas sim: "Que comunidade seremos nós para quem está prestes a chegar?"
Que saibamos guardar a gratidão sem a transformar em prisão, e olhar para a cicatriz não como uma ferida aberta, mas como a marca de um caminho que continua.

Padre João Torres

O amor a falar-nos

 




Aqueles abraços que chegam, de mansinho, e que abrigam tudo em nós.

Aquelas mãos que seguram as nossas como quem nos segura o coração.

Aqueles olhares que se demoram em nós com ternura.

Aqueles sorrisos que tornam o nosso dia mais bonito.

Aquelas palavras que nos confortam a alma.

Aqueles silêncios que nos sentem o coração.

Aquelas mensagens que chegam no momento certo.

Aquelas companhias que, só por estarem, fazem tudo melhorar.

Aqueles gestos que nos fazem sorrir.

Aquelas pessoas que nos recordam que, faça chuva ou faça sol, estão sempre perto de nós.

São formas que o amor vai encontrando, todos os dias, para se pousar em nós.

Na poesia das coisas simples, na bondade que ainda existe.

E para nos recordar que ele – o amor – ainda mora aqui.

 Daniela Barreira


segunda-feira, 27 de julho de 2026

Movidos pela alegria

 


Se Deus nos aparecesse em sonhos e nos dissesse:
“Pede o que quiseres”, o que pediríamos?
Talvez muitos de nós responderíamos:
– Saúde para nós e para aqueles que amamos;
– O Euromilhões para ter uma vida descansada;
– Um emprego seguro;
– Uma casa digna;
– Mais reconhecimento, fama ou poder.
Mas o jovem rei Salomão surpreende-nos. Quando Deus lhe oferece a possibilidade de pedir tudo, ele não pede “longa vida, riqueza ou a morte dos seus inimigos”.
Pede uma sabedoria lúcida, que não lhe roube a alegria de uma vida simples.
Pede uma inteligência fundada no amor, capaz de olhar para além do imediato, para além das aparências, para além daquilo que parece ser importante aos olhos do mundo.
O Evangelho deste domingo recolhe algumas parábolas brilhantes de Jesus, que pretendem comunicar algo, que tantas vezes esquecemos: o encontro com Deus. É a coisa mais bela que nos pode acontecer, é uma surpresa pela qual vale a pena abandonar tudo, uma alegria que nos faz esquecer todo o resto. Mas para que tal aconteça temos que agir com astúcia e urgência.
É mesmo necessário submeter a nossa vida àquela intensa rajada de verbos: «Vai, vende, dá, vem e segue-me!» (Mateus 19,21).
O QUE É DEIXAR TUDO, VENDER TUDO?
Esse “tudo” que é o acumular de coisas e de amarras; de preconceitos e rotinas; de justificações e mágoas, de seguranças e proteções...
Podíamos perguntar: o que é que eu ganho com isso?
GANHO ALEGRIA!
“Nunca é tarde na vida para começar a viver...
A perspetiva com que olhamos as situações marca a diferença: o que fazemos rotineiramente, o ambiente que criamos,
- as relações, o trabalho, as atividades que descobrimos,
- a abertura ao saber, as escolhas, e até a fé e o amor...
TUDO PODE SER MELHOR.
E só não é melhor porque nos acomodamos.
Porque preferimos o muito ao melhor!

Padre João Torres

domingo, 26 de julho de 2026

Deus habita em nós

 

https://www.youtube.com/watch?v=JcKfjlVOBAg&list=PLAqKRngqwuSfPdOPEvu7KzjdvMvB1w33f&index=156

A liturgia deste domingo convida-nos a reflectir nas nossas prioridades, nos valores sobre os quais fundamentamos a nossa existência. Sugere, especialmente, que o cristão deve construir a sua vida sobre os valores propostos por Jesus.

A primeira leitura apresenta-nos o exemplo de Salomão, rei de Israel. Ele é o protótipo do homem "sábio", que consegue perceber e escolher o que é importante e que não se deixa seduzir e alienar por valores efémeros.
Algumas pessoas e grupos com um peso significativo na opinião pública procuram vender a ideia de que a realização plena do indivíduo está num conjunto de valores que decidem quem pertence à elite dos vencedores, dos que estão na moda, dos que têm êxito... Em muitos casos, esses valores propostos são realidades efémeras, materiais, secundárias, relativas. Quase sempre, por detrás da proposição de certos valores, estão interesses particulares e egoístas, a tentativa de vender determinada ideologia ou a preocupação em tornar o mercado dependente dos produtos comerciais de determinada marca... O "sábio", contudo, é aquele que está consciente destes mecanismos, que sabe ver com olhar crítico os valores que a moda propõe, que sabe discernir o verdadeiro do falso, que distingue o que apenas tem um brilho doirado daquilo que, na essência, é um tesouro que importa conservar. O "sábio" é aquele que consegue perceber o que efectivamente o realiza e lhe permite levar a cabo, dentro da comunidade, a missão que lhe foi confiada. Como é que eu me situo face a isto? O que me seduz e que eu abraço é o imediato, o brilhante, o sedutor, ainda que efémero, ou é o que é exigente e radical mas que me permite conquistar uma felicidade duradoura e concretizar o meu papel no mundo, na empresa, na família ou na minha comunidade cristã?

No Evangelho, recorrendo à linguagem das parábolas, Jesus recomenda aos seus seguidores que façam do Reino de Deus a sua prioridade fundamental. Todos os outros valores e interesses devem passar para segundo plano, face a esse "tesouro" supremo que é o Reino.
Porque é que os cristãos apresentam, tantas vezes, um ar amargurado, sofredor, desolado? Quando a tristeza nos tolda a vista e nos impede de sorrir, quando apresentamos semblantes carrancudos e preocupados, quando deixamos transparecer em gestos e em palavras a agitação e o desassossego, quando olhamos para o mundo com os óculos do pessimismo e do desespero, quando só nos deixamos impressionar pelo mal que acontece à nossa volta, já teremos descoberto esse valor fundamental - o Reino - que é paz, esperança, serenidade, alegria, harmonia?
Mais uma vez o Evangelho convida-nos a admirar (e a absorver) os métodos de Deus, que não tem pressa nenhuma em condenar e destruir, mas dá tempo ao homem - todo o tempo do mundo - para amadurecer as suas opções e fazer as suas opções. Sabemos respeitar, com esta tolerância e liberdade, o ritmo de crescimento e de amadurecimento dos irmãos que nos rodeiam?

A segunda leitura convida-nos a seguir o caminho e a proposta de Jesus. Esse é o valor mais alto, que deve sobrepor-se a todos os outros valores e propostas.
Diante da oferta de Deus, somos livres de fazer as nossas opções - opções que Deus respeita de forma absoluta. No entanto, a vida plena está no acolhimento desse "valor mais alto" que é o seguimento de Jesus e a identificação com Ele. É esse o "valor mais alto", o "tesouro" pelo qual eu optei de forma decidida no dia do meu baptismo? Tenho sido, na caminhada da vida, coerente com essa escolha?

https://www.dehonianos.org/

sábado, 25 de julho de 2026

É tão bom que existas!

 




Talvez todos sejamos mais frágeis do que parecemos. Precisamos uns dos outros, e quando nos ajudamos, as nossas fraquezas e cansaços quase perdem importância.

Todos falhamos. É também por isso que precisamos sempre de muito mais amor do que aquele que merecemos. Nessa medida, só o excesso do amor consegue elevar a nossa pequenez. O perdão é um dos dons mais sublimes do amor, talvez o maior, porque aceita o outro como ele é, apesar de todas as suas imperfeições.

A existência de quem nos ama dá sentido à nossa vida. A verdade é que com o amor podemos levantar o outro do chão e fazê-lo chegar às nuvens, não porque o mereça nem porque dele precise, mas porque decidimos amá-lo.

Há quem julgue que só deve amar quem o ama. Ora, isso nunca é amor, porque o amor é generoso e desinteressado, avesso a qualquer tipo de comércio ou troca. Quando o amor não é gratuito, não é amor.

É certo que todos precisamos de ser amados. Ser humano é ser carente, é como que viver todos os dias uma solidão desconfortável, ansiando por um abraço e um olhar carinhoso.

Nenhuma vida existe para si mesma, por mais que os egoístas estejam convencidos do contrário. A necessidade aumenta quando é escondida ou disfarçada por quem a tem. O egoísmo é muitas vezes uma tentativa de negar essa dependência dos outros, mas não resulta. Não há egoístas felizes. Nem um. Parecem, mas ninguém – nem eles mesmos – acredita que o sejam.

Obrigado por existires, por te dares a mim, mais do que mereço, e assim me ajudares a ser feliz.

Obrigado por existires, por me aceitares assim, apesar de mereceres mais do que aquilo de que sou capaz, e assim me ajudares a ser feliz.

É tão bom que existas!


José Luís Nunes Martins