quinta-feira, 14 de maio de 2026

Dois pesos e duas medidas!



Hoje falo sobre as exigências que o mundo tem para connosco e a completa desproporção quando se trata de sermos nós a reivindica-las também!

Onde está a palavra de honra, onde está o brio, o profissionalismo, a vontade de fazer melhor?

Tudo nos é cobrado, mas e ao contrário não teremos nós, igualmente, todo o direito de o fazer?

Torna-se cada vez mais difícil confiar e a leviandade com que se rematam certos problemas deixa tanto a desejar!

Por isso a minha reflexão de hoje vai no sentido de exercitamos a capacidade de nos colocarmos por um minutinho que seja no lugar do outro e perguntar: "e se fosse comigo?"

Tenho para mim que este é um dos segredos que tornaria o mundo num lugar melhor.



Lucília Miranda

quarta-feira, 13 de maio de 2026

Estar vivo aleija

É habitual dizermos que a vida é maravilhosa e um dom. No meu caso, talvez por inexperiência, tenho descoberto que só assim é porque estar vivo aleija. As grandes coisas da vida, os seus recantos mais valiosos, só são realmente extraordinários porque implicam algumas maçadas. É o caso da liberdade que nos leva a ter de estar expostos a opiniões diferentes das nossas. Tenho para mim, por isso, que um dos grandes atentados à dignidade humana nos dias que correm é, precisamente, a tentativa de anular este tipo de “complicações”; a tentativa de promover a vida plana, a eliminação das contradições. Pessoalmente acredito que devemos desconfiar das promessas de perfeição. Sempre que se quis edificar o Paraíso, acabou-se a contruir o inferno. A obsessão contemporânea por alcatifar a existência, por arredondar todas as esquinas do dia-a-dia, por garantir que não nos cortamos, tem resultado numa nova forma de apatia e ansiedade. Na física, não há calor sem fricção. No Evangelho, não há dom sem custo. Uma semana da vida servirá, assim, para celebrar essa desproporção. Não para tornar a vida um slogan, como se ela precisasse de marketing. Não para a revestir de cores publicitárias e mercantis. Não para lhe roubar ou omitir o desconforto e a indecisão. Quando era criança – embora não seja certo que não o continue a ser – existiam uns desenhos animados chamados “era uma vez a vida”. No genérico anunciava-se: que a vida “é música, som e harmonia”. Mas hoje tenho a sensação que, para muita gente, isso é capaz de ainda ser um luxo. Num comovedor e essencial livro, recentemente traduzido para português, denominado “Tudo na natureza apenas continua”, Yiyun Li escreve sobre a morte de um filho aquilo que, no fundo, podemos afirmar sobre a vida: “não é uma onda de calor, uma tempestade de neve, nem uma corrida de obstáculos para vencer rapidamente, nem uma doença aguda ou crónica da qual devemos recuperar rapidamente”. Talvez precisemos de concluir como a autora chinesa que, a certo momento, insinua que a vida é “uma simplificação de algo muito maior do que essa palavra”, porque possivelmente a grande pergunta que habita o coração humano não é se esta vida vale a pena ser vivida, mas se “vale a pena sofrer por ela”. Há uma música de Zeca Afonso, em que se diz que “a mulher, na democracia, não é biombo de sala”. Não façamos o mesmo à vida. Não permitamos que ela seja transformada numa “metáfora para a esperança e a resignação”. Não a domestiquemos. Não lhe roubemos o escárnio.

Padre João Bastos


terça-feira, 12 de maio de 2026

Eu vivo em vós vivereis




                           «Devemos sempre confiar no poder e no amor de Deus,
                                           mesmo na hora mais escura do nosso sofrimento.»

                                                                                                         John Piper

Quando as encruzilhadas da vida nos apanham…

Quando o sofrimento nos faz desesperar…

Quando a indecisão avassala o tempo que não passa…

Quando o tear fia e desfia a dor de viver na solidão…

Quando nos perdemos no caminho e apagamos a luz dos outros…

Quando vivemos fora do verdadeiro sentido Cristão…

Quando as gotas de suor são de sangue e invisíveis a olhos nus…

Quando as nossas escolhas nos pregam rasteiras de morte…

Quando quem amamos não está feliz…

Quando afastamos o nosso coração do Amor mais puro…


Jesus vem e resgata-nos.


Atravessa as encruzilhadas e sorri.

Sara as nossa feridas com o bálsamo da Paz.

Decide que a brisa é mais forte do que o tempo em que nos afastamos de Deus.

Fia e desfia a Esperança da comunhão e da fraternidade.

Acende a luz e abraça-nos.

Arrasta-nos para o convívio intenso e maravilhoso da Sua Igreja.

Seca-nos o rosto e fita o Seu olhar misericordioso no nosso.

Levanta-nos do chão com um grito de Ressurreição.

Rasga o Seu coração e faz-nos amar o irmão.

Ama-nos! Como somos!



 Liliana Dinis, 

segunda-feira, 11 de maio de 2026

Se me amas

 


Se me amas...
Tudo começa com um punhado de palavras
carregadas de delicadeza e de estima.
“Se me amas. Guardarás os meus mandamentos”.
Um ponto de partida TÃO LIVRE,
tão FRÁGIL, tão HUMILDE, tão CONFIANTE e tão PACIENTE...
Jesus não impõe.
Não se trata de uma ORDEM, mas de uma busca
de um procurar, de um caminhar...
Jesus procura espaços, espaços no coração, espaços de transformação: se me amardes, tornar-vos-eis como Eu. Eu posso tornar-me como Ele, adquirir nos meus dias um sabor de Céu e de história boa; sabor de liberdade, de mansidão, de paz, de força, de inimigos perdoados, e depois de mesas cheias, de relações boas e fecundas que são a beleza do viver...
Amar transforma; uma pessoa transforma-se naquilo que ama;
transforma-se naquilo que o habita.
«Quem me ama, será amado por meu Pai e eu amá-lo-ei» (Jo.14,21).
A promessa de Jesus só se realiza naqueles que se
DEMORAM e se ESPECIALIZAM na arte de amar,
Pôr Deus em primeiro lugar, dando-lhe tempo e coração...
Amar, a começar pelos de casa;
Respeitar o bem dos outros;
Ter palavras e gestos belos:
Não querer tudo e mais alguma coisa... Criar silêncio...
Para o cristão, amar como Jesus nos amou não é uma cantiga,
não é um dado adquirido, de uma vez por todas.
É algo ARTESANAL que se constrói todos os dias....


Padre João Torres

domingo, 10 de maio de 2026

Semana da Vida | 10 a 17 de maio de 2026

 

A Semana da Vida de 2026 convida-nos à reflexão sobre a proteção da Vida, enquanto forma concreta de pacificação: cuidar, acolher, defender, promover e acompanhar. Entre os dias 10 e 17 de maio, somos convidados a rezar com o tema “Bem-aventurados os que Protegem a Vida”.

                                 ORAÇÃO PELA VIDA

                      Senhor da Vida e da Paz,
                 Dá-nos um coração capaz de proteger cada vida,
                     especialmente as mais frágeis e esquecidas.
                       Ensina-nos a ser construtores de paz
                 num mundo ferido pela guerra e pela indiferença.
              Que o teu Espírito nos torne guardiões da dignidade humana
                         e testemunhas da esperança que não morre. Amém
              

Espírito da Verdade

 

https://www.youtube.com/watch?v=KFNZx6iyw68

A liturgia do 6º Domingo da Páscoa convida-nos a descobrir a presença - discreta, mas eficaz e tranquilizadora - de Deus na caminhada histórica da Igreja. A promessa de Jesus - "não vos deixarei órfãos" - pode ser uma boa síntese do tema.

O Evangelho apresenta-nos parte do "testamento" de Jesus, na ceia de despedida, em Quinta-feira Santa. Aos discípulos, inquietos e assustados, Jesus promete o "Paráclito": Ele conduzirá a comunidade cristã em direcção à verdade; e levá-la-á a uma comunhão cada vez mais íntima com Jesus e com o Pai. Dessa forma, a comunidade será a "morada de Deus" no mundo e dará testemunho da salvação que Deus quer oferecer aos homens.
Jesus garantiu aos seus discípulos o envio de um "defensor", de um "consolador", que havia de animar a comunidade cristã e conduzi-la ao longo da sua marcha pela história. Nós acreditámos, portanto, que o Espírito está presente, animando-nos, conduzindo-nos, criando vida nova, dando esperança aos crentes em caminhada. Quais são as manifestações do Espírito que eu vejo na vida das pessoas, nos acontecimentos da história, na vida da Igreja?

A primeira leitura mostra exactamente a comunidade cristã a dar testemunho da Boa Nova de Jesus e a ser uma presença libertadora e salvadora na vida dos homens. Avisa, no entanto, que o Espírito só se manifestará e só actuará quando a comunidade aceitar viver a sua fé integrada numa família universal de irmãos, reunidos à volta do Pai e de Jesus.
Uma comunidade cristã é uma comunidade onde se manifesta a comunhão com Jesus e a comunhão com todos os outros irmãos que partilham a mesma fé. É na comunhão com os irmãos, é no amor partilhado, é na consciência de que fazemos parte de uma imensa família que caminha animada pela mesma fé, que se manifesta a vida do Espírito. Cada crente precisa de desenvolver a consciência de que não é um caso isolado, independente, autónomo: afirmações como "eu cá tenho a minha fé" não fazem sentido, se traduzem a vontade de percorrer um caminho à margem da comunidade, sem aceitar confrontar-se com os irmãos... Cada comunidade precisa de desenvolver a consciência de que não é um grupo autónomo e sem ligações, mas uma parcela de uma Igreja universal, chamada a viver na comunhão, na partilha, na solidariedade com todos irmãos que, em qualquer canto do mundo, partilham a mesma fé.

A segunda leitura exorta os crentes - confrontados com a hostilidade do mundo - a terem confiança, a darem um testemunho sereno da sua fé, a mostrarem o seu amor a todos os homens, mesmo aos perseguidores. Cristo, que fez da sua vida um dom de amor a todos, deve ser o modelo que os cristãos têm sempre diante dos olhos.
Diante das dificuldades, das propostas contrárias aos valores cristãos, é em Cristo - o Senhor da vida, do mundo e da história - que colocamos a nossa confiança e a nossa esperança? Ou é noutros esquemas mais materiais, mais imediatos, mais lógicos, do ponto de vista humano?

https://www.dehonianos.org/

sábado, 9 de maio de 2026

SONHAR É UMA FORMA DE RESISTÊNCIA INTERIOR

 


Eu continuo a acreditar que é possível sonhar.
Mesmo quando a esperança se esconde atrás de pequenas desilusões que ninguém vê.
Sonhar, às vezes, não é fugir da realidade.
É exatamente o contrário: é não deixar que a realidade nos roube por dentro.
Há livros que não se leem apenas com os olhos, mas com a alma. O diário de Etty Hillesum é um desses lugares onde a vida se torna mais nua, mais verdadeira, mais exigente.
E nela encontro uma voz que não se resigna, mesmo no meio da dor. Uma voz que fala de Deus não como distância, mas como presença a ser cuidada dentro de nós.
Ela escreve algo que inquieta e, ao mesmo tempo, ilumina:
não é Deus que nos deve servir como resposta imediata a tudo…
mas somos nós que, de algum modo, somos chamados a não deixar que essa presença desapareça da forma como vivemos.
Há aqui uma inversão profunda do olhar.
Não é um Deus distante que resolve tudo por nós…
mas uma responsabilidade interior de não deixar morrer o que é mais humano em nós.
“Salvar um pedaço de Deus em nós.”
Que frase estranha e bela.
Como se o sagrado não estivesse fora, à espera de ser encontrado…
mas dentro, à espera de não ser esquecido.
Não te peço nenhuma justificação para a vida.
Peço apenas que não deixes morrer o lugar onde ainda é possível recomeçar.
Porque talvez viver seja isto:
não deixar que o mundo apague aquilo que, em nós, ainda acredita.
E enquanto houver essa chama…
ainda é possível sonhar.


Padre João Torres
Madona de Porto Lligat, 1950, Salvador Dalí