sábado, 25 de abril de 2026

Guiné Equatorial: Papa visita prisão e defende justiça focada na reabilitação



Leão XIV sublinha necessidade de «reconstruir a vida quer das vítimas, quer dos culpados, quer das comunidades feridas»
Foto: Vatican Media

Bata, Guiné Equatorial, 22 abr 2026 (Ecclesia) – O Papa defendeu hoje que o sistema de justiça deve investir na dignidade e nas potencialidades da pessoa, falando durante uma visita à Prisão de Bata, na Guiné Equatorial.

“A verdadeira justiça procura não tanto punir, mas sobretudo ajudar a reconstruir a vida quer das vítimas, quer dos culpados, quer das comunidades feridas pelo mal”, afirmou Leão XIV, perante a comunidade prisional.

“Não há justiça sem reconciliação”, acrescentou, durante um encontro que decorreu no pátio interior da prisão.

O Papa pediu que as instituições prisionais ofereçam oportunidades concretas de reintegração, desejando que se faça todo o possível para garantir acesso ao estudo e ao trabalho digno durante o cumprimento das penas.

“A vida não é determinada apenas pelos erros cometidos, que geralmente são resultado de circunstâncias duras e complexas: existe sempre a oportunidade de se reerguer, de aprender e de se tornar uma pessoa nova”, sublinhou.

O Papa realçou que “ninguém é excluído do amor de Deus”.

A visita à prisão, num país governado há 47 anos pelo presidente Teodoro Obiang Nguema Mbasogo, ganha maior simbolismo perante denuncias de organizações internacionais que documentam um histórico de abusos e métodos de tortura no sistema penal do país africano.

“Deus nunca vos abandonará e a Igreja estará ao vosso lado”, disse Leão XIV, a centenas de reclusos presentes no encontro.

“A administração da justiça tem por objetivo proteger a sociedade, mas, para ser eficaz, deve sempre investir na dignidade e nas potencialidades de cada pessoa”, acrescentou.

Antes do seu discurso, Leão XIV referiu-se à forte chuva que se fez sentir e disse que é uma “bênção de Deus”.

A intervenção do Papa foi precedida pelo testemunho do capelão prisional e de um recluso, que reconheceu os erros cometidos.

“Embora as nossas mãos tenham feito coisas más no passado, o nosso coração ainda sonha em fazer o bem”, referiu o recluso, agradecendo ao Papa por os procurar num lugar onde muitos pensavam que ninguém iria.

O administrador da prisão também discursou, reforçando o compromisso da instituição em aliar a segurança a processos de “reabilitação”.

A visita ficou ainda marcada pela oferta de uma cruz de madeira, feita pelos próprios reclusos, ao pontífice.

À chegada à prisão, o Papa tinha sido recebido pelo ministro da Justiça do país, Reginaldo Biyogo Mba Ndong Anguesomo.
Foto: Vatican Media


No trajeto desde o aeroporto, Leão XIV fez uma breve paragem na Catedral de São Tiago e de Nossa Senhora do Pilar, para um momento de oração.

A passagem pela cidade costeira de Bata prossegue com uma homenagem junto ao monumento comemorativo das vítimas das explosões de 7 de março de 2021.

A tragédia no quartel militar de Nkoantoma causou 107 mortos e mais de 600 feridos devido à detonação negligente de explosivos.

A primeira viagem apostólica de Leão XIV a África, que se iniciou a 13 de abril e incluiu passagens pela Argélia, Camarões e Angola, termina esta quinta-feira com uma Missa no Estádio de Malabo, antes do voo de regresso a Roma.

OC

sexta-feira, 24 de abril de 2026

DAS CRUZES DE BARCELOS ÀS CRUZES DO MUNDO ...




As festas assinalam o ritmo da vida dos povos, das sociedades, das comunidades, das instituições, das associações, dos clubes, das famílias, das pessoas... São momentos de rutura com o quotidiano, marcam a diferença, fomentam a consciência de pertença, solidificam a unidade, assinalam momentos fortes, refrescam e renovam a vida e a esperança no futuro.
Tal como se costuma falar da época dos saldos, das férias, das colheitas, dois incêndios, das praias, das vindimas..., também podemos dizer que está a chegar a época das festas, sobretudo das festas populares, com origem e sabor religioso, com afirmação da fé e grande expressão festiva. A festa faz parte da natureza humana. Porque a Festa das Cruzes, em Barcelos, é considerada a primeira grande romaria do Minho, e joga-se por estes dias, entre o fim deste mês e o princípio do outro, falemos, sobretudo, do seu cariz religioso, cujo centro é o templo do Bom Jesus da Cruz.
Como sabemos, o nosso Deus é o Deus da Alegria e da Festa. A sua alegria é a nossa força. Ele próprio participava nas festas do seu tempo, iniciou a sua vida pública numa festa. Quis que a sua alegria estivesse em nós e a nossa alegria fosse completa. E tudo fez para que, em comunhão com Ele, já, neste mundo, vivendo as festas da vida, fizéssemos da vida uma festa. E não partiu sem nos convidar e oferecer um ‘lugar’, comprado por ele por um alto preço (1Cor 6,20), para nos sentarmos à mesa da grande Banquete do seu Reino, à mesa das Bodas do Cordeiro (cf. Lc 14, 15-24; Mt 22, 1-14).
Ora, a Festa que dá origem a todas as festas, isto é, a Festa das festas, a Festa por excelência, é a Festa da Páscoa da Ressurreição, a Festa da vitória da vida sobre a morte, a Festa da vitória da Luz sobre as trevas, a Festa da vitória da alegria sobre a tristeza, a Festa do dom da vida em plenitude como destino final do ser humano. Nas festas, sobretudo cristãs, é isso que conta, é isso que verdadeiramente se celebra e deve ser realçado, é isso que não se deveria esquecer com a preocupação de lhes associar muitas outras coisas para que a festa seja maior. Tudo quanto nelas se associa e se promove, deveria ser para centralizar no essencial e não para descentralizar. Ir à festa e não ir ao epicentro da mesma é capaz de ser mais sem sentido do que ir a Roma e não ver o Papa, é andar na festa sem saber bem porquê. Talvez ande por lá por ver andar os outros, embora se possa divertir como convém e é dado que aconteça...
Na Festa das Cruzes, afirma-se, professa-se que Deus falou e continua a falar por meio da Cruz, por meio do mistério de seu Filho, morto e ressuscitado, expressão máxima do amor de Deus para com a Humanidade. A Cruz de Cristo está enraizada no coração da Humanidade e da sua História. Nela, Jesus revela ao mundo o rosto visível de Deus invisível. Nela, manifesta-se a face humana e frágil da infinita misericórdia de Deus: “Pai, perdoai-lhes porque não sabem o que fazem” (Lc 23, 34). Pela Cruz, sempre o Povo de Deus manteve e mantém o olhar fixo em Jesus Cristo, o ‘autor e consumador da fé’ (Heb 12,2). Olhar Jesus na Cruz, faz descobrir “a alegria do amor, a resposta ao drama da tribulação e do sofrimento, a força do perdão face à ofensa recebida e a vitória da vida sobre o vazio da morte, tudo isto encontra plena realização no mistério da sua Encarnação, do seu fazer-Se homem, do partilhar connosco a fragilidade humana para a transformar com a força da sua ressurreição” (Bento XVI, P. Fidei, 13).
Se, na Procissão da Festa, a presença das Cruzes processionais das 89 paróquias do Arciprestado, é que lhe dá o nome de Festa das Cruzes (no plural), na mente e no coração de todos está o Senhor Jesus da Cruz. Da Cruz que não exalta o mistério da dor sem sentido, mas que exalta o mistério do amor de Deus que dá sentido à dor de todas as cruzes da humanidade. Ali, na sabedoria da Cruz, revela-se o amor e a glória de Deus. É uma parábola impressionante e dolorosa, é ‘um livro’, como dizia o Papa Francisco, um livro que não basta comprá-lo, tê-lo e expô-lo na parede ou trazê-lo ao pescoço ou no bolso. É preciso abri-lo, lê-lo e compreendê-lo, aceitando-o como ele é e quanto ele significa e revela. Símbolo de vida e de esperança, símbolo da fé cristã, a Cruz é o emblema de Jesus, morto e ressuscitado, escândalo para uns, loucura para outros, mas fonte de vida e de salvação para as pessoas de todos os tempos e lugares. É um sinal verdadeiramente grande e precioso, como afirmava Santo André de Creta, no século VII: “Grande, porque é a origem de bens inumeráveis, tanto mais excelentes quanto maior é o mérito que lhes advém dos milagres e dos sofrimentos de Cristo. Precioso, porque a Cruz é simultaneamente o patíbulo e o trofeu de Deus: o patíbulo, porque nela sofreu a morte voluntariamente; e o trofeu, porque nela foi mortalmente ferido o demónio, e com ele foi vencida a morte”.
A Cruz do Senhor Jesus estende-se, de forma solidária, a todos os crucificados e oprimidos da história, a todos os que sofrem por causa de guerras, catástrofes climáticas, falta de oportunidades, preconceitos, discriminação, racismo, xenofobia, sistemas políticos e económicos perversos, descarte, fracasso, doença, pobreza nas suas várias dimensões, cansaço, dor, desprezo, solidão, droga, violação, tráfico humano, violência doméstica, incompreensão, ganância e ódio de terceiros… Na Cruz de Cristo, fonte de vida e de luz, de esperança e de salvação, estão significadas todas as cruzes do mundo e da humanidade, toda a dor e sofrimento.
Dela, da Cruz do Senhor Jesus da Cruz, ecoa o convite sempre atual e atuante de quem tanto nos amou: “Vinde a mim, todos vós que andais cansados e oprimidos, que eu vos aliviarei... aprendei de mim que sou manso e humilde de coração ...e encontrareis descanso para as vossas vidas, pois o meu jugo é suave e o meu fardo é leve” (Mt11,28-29). Ir ao encontro de Jesus e caminhar com Jesus implica negar-se a si mesmo e assumir a cruz de cada dia, com alegria e esperança (cf. Mc 8, 34). Desde a fundação de Portugal, também a Cruz de Cristo é um dos símbolos mais caraterísticos da nossa identidade nacional. Ela reflete-se em espaços geográficos, nas instituições, na cultura, nas artes, na liturgia, na vida dos crentes e das famílias... até no brasão de armas de Portugal se refletem as feridas da Paixão.
“In hoc signo vinces”!

D. Antonino Dias
Caminha, 24-04-2026.

quinta-feira, 23 de abril de 2026

Que eu veja, Senhor!



Dá-me um olhar puro, uma sabedoria capaz de ver o que os meus olhos não alcançam e compreender o que a minha mente não aceita.

Peço-te Senhor, a capacidade de ver o melhor que o meu irmão tem, sem achar que tenho de ter algo a dizer que não seja a seu favor.

Peço-te Senhor, a capacidade de reconhecer que nem sempre tenho de ter opinião sobre tudo o que vejo, pois nem sempre tenho o olhar limpo de preconceito.

Permite-me ver o que me faz falta e não tanto o que me querem vender.

Acima de tudo, faz com que eu veja o que preciso para ser uma pessoa melhor.

Sabes Senhor, não é fácil ver o bom das coisas quando vemos tanta injustiça. Nem reconhecer o outro quando não nos sentimos reconhecidos.

Não é fácil ver o belo sem parecermos ignorantes ou insensatos.

Não é fácil ver e reconhecer quando é tempo de falar ou tempo de calar.

Não é fácil Senhor, mas disso Tu também sabes!

Não deve ter sido fácil convencer os teus apóstolos a remar contra a corrente de uma religião tão presa a preceitos que descurava o essencial. Também não deve ter sido fácil perdoar as traições, injúrias e ofensas que te levaram à Cruz.

Confias-te até ao fim e sei que queres que eu confie.

Não preciso de ver para acreditar, nada disso, mas preciso de sentir que nada é em vão.

Que o empenho e a oração, a dádiva e a solidariedade não são minados por comportamentos menos próprios, pelo desdém ou a mera indiferença.
Vemos muita coisa Senhor, mas parece que somos cegos para a beleza que nos rodeia e que nos lembra, dia a após dia que temos de confiar pois, uma semente pra brotar, passou meses a preparar-se para isso e tu e eu nem demos por isso.

Que eu Te veja!

E tu amiga, o que sentes que não estás a conseguir ver?



Raquel Rodrigues

quarta-feira, 22 de abril de 2026

Fica connosco, Senhor, porque anoitece

 


Fica connosco, Senhor, porque anoitece

“A vida é um mistério a ser vivido,
não um problema a ser resolvido.”
Há dois homens atordoados, desiludidos, traumatizados,
sem saber o que fazer das suas vidas,
fazem uma viagem de Jerusalém para Emaús
fugindo para longe de todas as tribulações.
Quem não experimenta a solidão, que torna pesado o coração?
Quem não sente, no percurso da sua vida, o fardo pesado da incerteza
e da precariedade destes tempos, o medo do futuro?
Que faz Jesus àqueles homens perdidos de Emaús?
Não se apresenta,
Não os julga! Caminha com eles.
E, em vez de erguer um muro, abre uma nova brecha.
Faz-lhes perguntas, como é próprio de quem ama
para lhes corrigir as respostas
e que ajuda a “deitar para fora” o desânimo e a tristeza que os habitava...
Lentamente, eles foram fazendo a “travessia”
de uma memória pesada, triste, doentia...
a uma memória saudável, curativa e aberta ao futuro.
Por meio da bênção e do ato de partir e compartilhar o pão,
os discípulos fazem a ligação com o passado.
Chega o momento do reconhecimento, e eles transformam-se.
Cheios de estímulo e esperança,
voltam para Jerusalém a fim de partilhar a nova descoberta.
Se eu te amo, quero que haja luz nos teus olhos
e quero estar junto de ti como contágio de luz...
Aquele Homem Deus Cheio de Luz
Pouco a pouco, transforma o desânimo numa brecha de Luz
INFLAMA o coração e ABRE os olhos,
E um convite nasce naquela noite válido para todas as noites da vida
Fica connosco porque anoitece


Padre João Torres

terça-feira, 21 de abril de 2026

Viver em verdade



Viver em verdade é um desafio permanente.

Parece que a cada momento somos chamados a fazer desvios da essência que nos habita. É como se o que fosse mais válido e mais aceite socialmente fosse, precisamente, aquilo que não somos.

Para sobreviver, somos muitas vezes chamados a mostrar uma versão da nossa vida que pode parecer mais atraente para os outros, mas menos real para nós. E o perigo de mostrarmos algo que não corresponde ao que somos é o de deixarmos de saber, ao certo, que linhas cosem a nossa raiz.

Para singrar e para ser aceite há quem consiga mentir, contar meias-verdades, fazer alguém acreditar numa história que só existe na sua cabeça. E é assim que o coração e alma adoecem automaticamente. Só que é muito fácil (e tentador) convencermo-nos desta versão idealizada. Construída para agradar os outros. Erguida para nos proteger daquilo que, por vezes, nos custa ver.



Nalguns momentos, custa-nos ver que a vida que temos ou construímos não é exatamente aquilo que gostaríamos. Custa-nos ter a consciência da possibilidade de podermos ter decidido diferente ou de ter feito melhor. É mais simples ficar à espera que tudo se resolva, que as coisas aconteçam por si só.

Viver em verdade parece algo óbvio. Inevitável. Mas talvez não seja assim tanto. Talvez cada um de nós esconda (ou guarde?) para si partes que não quer ver reveladas ou escrutinadas pelo olhar alheio. Parece-nos um pouco difícil imaginar que o outro nos compreenderia e aceitaria como somos. Sem mais nem menos.

Talvez essas resistências a viver uma vida em verdade e em coerência existam apenas dentro de nós. Talvez esse julgamento externo só exista como projeção do nosso próprio “tirano” interno.

A maior honestidade que podemos viver é quando decidimos sê-lo connosco. A verdade é profundamente mais simples do que o esforço de construir uma ilusão ou uma mentira para quem nos olha.

Quem sabe se os outros não estão também distraídos com as suas próprias especificidades e não estão, sequer, interessados em analisar-nos ou avaliar-nos.

Afinal, talvez uma vida em verdade deva ser vivida de dentro para dentro. E não de dentro para fora.


Marta Arrais

segunda-feira, 20 de abril de 2026

Não basta ajudar — é preciso caminhar juntos



A missão profética da Igreja de Jesus não se mede pelas esmolas que distribui, nem pelas estruturas que sustenta, nem pelos discursos que proclama. Mede-se pelo lugar onde decide estar. E a verdade, quando levada a sério, incomoda: somos chamados a ser uma Igreja pobre com os pobres — não uma pobre Igreja rica que, à distância confortável, socorre os pobres sem nunca partilhar verdadeiramente a sua vida.
Porque há uma diferença que desinstala: ajudar mantém a distância; caminhar juntos derruba-a.
No concreto do dia-a-dia, isto ganha rosto e nome. Está na mesa onde falta comida, mas não falta partilha. Está no trabalhador que vive no limite, mas não abdica da sua dignidade. Está na mulher que, em silêncio, sustenta uma casa inteira com coragem invisível. E está também em nós — nas nossas escolhas, nas nossas prioridades, na forma como olhamos (ou evitamos olhar).
Quantas vezes ajudamos sem escutar? Quantas vezes damos sem nos deixarmos tocar? Quantas vezes mantemos o controlo, a segurança, a posição… e chamamos a isso caridade?
Uma Igreja que apenas “dá” corre o risco de nunca aprender. De nunca se converter. De nunca reconhecer que também é pobre — pobre de tempo, de escuta, de proximidade, de verdade. E talvez seja por isso que o Evangelho continua a ser tão exigente: não nos pede gestos ocasionais, pede-nos vida partilhada. Não nos pede que sejamos benfeitores, pede-nos que sejamos irmãos.
Irmãos não resolvem à distância. Comprometem-se. Misturam-se. Deixam-se transformar.
Os pobres não são um problema a resolver, nem um número a reduzir, nem um projeto a apresentar. São presença viva que questiona, que ensina, que desmonta as nossas ilusões de suficiência. São lugar de encontro com Deus — não um “campo de ação”, mas um caminho de conversão.
E talvez o mais desconcertante seja isto: quando nos aproximamos verdadeiramente, percebemos que não somos nós que levamos Deus até eles — são eles que nos revelam um Deus que ainda não conhecíamos.
Por isso, a pergunta permanece, firme, inevitável:
queremos continuar a ajudar de longe… ou temos coragem de viver perto, com menos certezas e mais verdade?

Padre João Torres