Paróquia de Arronches
quarta-feira, 5 de agosto de 2026
De que nos fala o medo?
O medo fala-nos sempre de futuro. Quando nos falta a capacidade de viver no presente, surge o medo.
O medo fala-nos de possibilidades que podem nunca vir a concretizar-se. Mas enquanto surgem e desfilam na nossa tela mental, retiram-nos do centro. Transportam-nos para um lugar de vulnerabilidade quase infantil e desprotegido.
O que será que nos ensina, então, o medo? Como podemos encontrar estratégias para o fintar e para o sentar num lugar que nos afete um pouco menos?
O medo ensina-nos a sobreviver. Protege-nos. Está ali como um guarda-costas empenhado e comprometido. Observa tudo e todos e envia-nos mensagens premeditadas e antecipadas para nos impedir de sofrer. Tem boas intenções, pelo menos! O problema é que quando o faz em excesso, tornando-se um guarda-costas demasiado focado em nós e no que fazemos, torna-se sufocante. Deixa de ser um protetor e passa a ser quase um agressor. É aqui que precisamos de entrar com medidas mais drásticas.
Quando o medo ocupa todo o nosso espaço interno, precisamos de tentar encontrar gavetas que nos ajudem a respirar. A ideia não será eliminar o medo, de todo. Mas dizer-lhe que, de momento, estamos bem. Estamos seguros e protegidos. Não há perigo. E se houver, nós somos adultos e crescidos e vamos conseguir resolver o que vier. Fica um alívio, não fica?
Colocar a mão no coração, fechar os olhos e dizer ao medo:
Está tudo bem. Eu sei que me queres proteger e guardar de todo o mal. Mas nem tu, nem ninguém o pode fazer. Por muito que gostássemos.
Tenho entendido os (meus) medos como uma prisão. Uma jaula que se ergue à volta de tudo e que deixa pouco espaço para respirar. Mas já compreendi que tudo o que queremos rejeitar em nós ganha força. E o mesmo acontece com o medo se eu lhe disser que não o quero aqui.
Num mundo em que todos parecem tão seguros de si em todos os aspetos, parece absurdo falar de medo e de vulnerabilidade. Mas existem. Dentro de todos os que parecem imparáveis e perfeitos.
Que os nossos medos encontrem um lugar ao sol para nos dar descanso e que o mar nos traga a presença e a motivação para viver apenas um dia de cada vez.
Marta Arrais
terça-feira, 4 de agosto de 2026
Quando o simples se torna impossível
Quando o simples se torna impossível
Há dias em que não nos cansam os grandes problemas.
Cansam-nos os pequenos.
Entramos num serviço para resolver uma questão simples e saímos com um papel na mão, três números de telefone, quatro balcões visitados e a sensação de que ninguém decidiu coisa nenhuma.
"Isso não é comigo."
"Tem de falar com outro departamento."
"Eu só faço esta parte."
"Tem de voltar amanhã."
E aquilo que levaria dois minutos transforma-se numa viagem sem fim entre procedimentos, autorizações, plataformas, carimbos e pessoas que parecem ter perdido a liberdade de pensar.
O mais curioso é que, muitas vezes, ninguém fez nada de errado. Cada um cumpriu o regulamento. Cada um seguiu o protocolo. Cada um respeitou a hierarquia.
Só que, no meio de tanta regra, perdeu-se aquilo que nunca devia desaparecer:
o bom senso.
As organizações existem para servir pessoas,
não para obrigar as pessoas a servir a organização.
Quando a burocracia se torna mais importante do que a solução, quando o procedimento vale mais do que a pessoa e quando o medo de decidir pesa mais do que a vontade de ajudar, alguma coisa deixou de funcionar.
Talvez precisemos de menos formulários e mais humanidade.
Menos departamentos e mais responsabilidade.
Menos "isso não é comigo" e mais "deixe-me ver como posso ajudar".
E sim… felizmente, em Portugal isto acontece muito pouco. Afinal, quem nunca resolveu um assunto simples depois de apenas cinco senhas, três repartições e uma assinatura que afinal precisava de outra assinatura?
Uma sociedade não se mede apenas pela quantidade de regras que cria, mas pela capacidade que tem de cuidar das pessoas.
Padre João Torres
No fim, todas as empresas, instituições e serviços têm máquinas, sistemas e procedimentos… mas nenhum deles substitui aquilo que verdadeiramente faz a diferença: um ser humano diante de outro ser humano, com a humildade de dizer: “Eu vou ajudar a resolver.”
Porque, quando ninguém assume a responsabilidade, até colocar sal em pipocas pode parecer uma missão impossível.
segunda-feira, 3 de agosto de 2026
Porque temos tanto medo de repartir
«Minha mãe ensinou-me:
Se nós temos um pão e o vizinho não tem pão…
Então, nós temos meio pão e o vizinho tem outro meio.»
História popular
O Amor é a maior força que Deus semeia no peito de cada ser humano.
Uma pequena dose diária de Amor faz maravilhas…
Mas, como e onde podemos obter tal porção mágica?
O princípio básico do Amor é a distribuição.
Quanto mais dás… mais se enchem os cestos!
Se tens medo de saciar a sede ao teu irmão, também tu terás sede…
Quando hesitamos aceitar viver em comunidade e ao serviço, não saboreamos o Pão Vivo!
Não temos vida em nós…
Somos corpo sem sal e com diabetes…
que vive apenas do doce que o mundo tem para oferecer.
Aquele sabor passageiro que fica amargo e perde a força, à primeira hora.
Corrompe o nosso corpo e não alimenta a nossa Alma.
Deixa-nos um cansaço extremo e oprime a nossa mente!
MAS… há um Pão sem fermento e sem sal,
que Se parte e reparte-Se, por inteiro, a cada dia, em cada Eucarist
Tu e eu apenas temos de nos levantar.
Caminhar calmamente até ao altar e abrir as mãos.
Acolher o pedacinho de Pão na nossa boca.
Fazer com que rapidamente chegue ao nosso coração.
Permanecer em silêncio, em ação de graças…
e sair a anunciar que o maior Milagre de Jesus,
une-nos à volta de uma mesa simples, onde nunca irá faltar o Pão,
porque O Senhor do Universo, nunca desiste de habitar em cada um de nós!
Vem!
O Pão é infinito e o Amor é um doce que não amarga.
Liliana Dinis,
Eucaristia: é um treino para praticarmos a justiça.
Jesus estava no LAGO, subiu à MONTANHA, seguia-o muita gente, estava PRÓXIMA A PÁSCOA e de repente Jesus perguntou: “onde podemos comprar pão para dar ao povo?” Jesus muda a sua agenda ao ver aquela multidão e aquele desconforto, ao ver a fome daquela gente...
Não vos quero provocar, mas este relato provoca-nos: quando foi a última vez que tu mudaste a tua agenda por causa da fome, do desconforto de alguém?
Este relato é um piscar de olho à Eucaristia. Não podemos passar ao lado da mudança da agenda de Jesus e da relação que Jesus estabelece entre a Eucaristia e a justiça.
VAMOS À EUCARISTIA FAZER O QUÊ?
Vamos para nos sentirmos bem com Deus?
Vamos para esquecer a exigência de cada dia da semana?
Vamos para uma relação pessoal com Deus?
Nós vamos porque não desistimos de ver Deus na comunidade!
De ver Deus nos laços.
Quer seja por causa, quer seja por consequência a vinda de cada um à eucaristia é um treino para praticarmos a justiça. É um treino para praticarmos a justiça.
Não vamos à eucaristia para nos darmos bem com Deus!
Nós vamos para nos darmos bem uns com os outros!
Nós vamos para arranjar forças para pedir perdão e para perdoar!
Nós vamos rever os nossos preconceitos.
Nós vamos reconhecer que ainda condenamos gente! Que ainda não nos diz nada o desconforto dos outros, o mesmo desconforto que fez Jesus mudar de agenda.
Nós vamos à eucaristia, porque estamos em caminho e em processo e queremos dar forma ao sonho de Jesus. Que façamos da eucaristia um pretexto para mudarmos de agenda! Para sermos gente de mais justiça!
Texto adaptado do Padre António Pedro Monteiro
Padre João Torres
domingo, 2 de agosto de 2026
Na partilha do pão, a razão de viver!
https://www.youtube.com/watch?v=IKRKHn9Cl-w&list=PL7Zt-5fD4oJhPpMPYGpfws_kYf8rQHiXA&index=14
A liturgia do 18º Domingo do Tempo Comum apresenta-nos o convite que Deus nos faz para nos sentarmos à mesa que Ele próprio preparou, e onde nos oferece gratuitamente o alimento que sacia a nossa fome de vida, de felicidade, de eternidade.
Na primeira leitura, Deus convida o seu Povo a deixar a terra da escravidão e a dirigir-se ao encontro da terra da liberdade - a Jerusalém nova da justiça, do amor e da paz. Aí, Deus saciará definitivamente a fome do seu Povo e oferecer-lhe-á gratuitamente a vida em abundância, a felicidade sem fim.
Para acolher os dons que Deus oferece, é preciso desinstalar-se, abandonar os esquemas de comodismo e de preguiça que impedem que no coração haja lugar para a novidade de Deus e para os desafios que ele lança. Estou disponível para deixar cair os meus preconceitos, seguranças, esquemas organizados, egoísmos, e para me deixar questionar por Deus e pelas suas propostas?
O Evangelho apresenta-nos Jesus, o novo Moisés, cuja missão é realizar a libertação do seu Povo. No contexto de uma refeição, Jesus mostra aos seus discípulos que é preciso acolher o pão que Deus oferece e reparti-lo com todos os homens. É dessa forma que os membros da comunidade do Reino fugirão da escravidão do egoísmo e alcançarão a liberdade do amor.
É preciso criarmos a consciência de que os bens criados por Deus pertencem a todos os homens e não a um grupo restrito de privilegiados. O Vaticano II afirma: "Deus destinou a terra com tudo o que ela contém para uso de todos os povos; de modo que os bens criados devem chegar equitativamente às mãos de todos (...). Sejam quais forem as formas de propriedade, conforme as legítimas instituições dos povos e segundo as diferentes e mutáveis circunstâncias, deve-se sempre atender a este destino universal dos bens. Por esta razão, quem usa desses bens temporais, não deve considerar as coisas exteriores que legitimamente possui só como próprias, mas também como comuns, no sentido de que possam beneficiar não só a si, mas também os outros. De resto, todos têm o direito de ter uma parte de bens suficientes para si e suas famílias" (Gaudium et Spes, 69). Como me situo face aos bens? Vejo os bens que Deus me concedeu como "meus, muito meus e só meus", ou como dons que Deus depositou nas minhas mãos para eu administrar e partilhar, mas que pertencem a todos os homens?
A segunda leitura é um hino ao amor de Deus pelos homens. É esse amor - do qual nenhum poder hostil nos pode afastar - que explica porque é que Deus enviou ao mundo o seu próprio Filho, a fim de nos convidar para o banquete da vida eterna.
Esse amor veio ao nosso encontro em Jesus Cristo, atingiu a nossa existência e transformou-a, capacitando-nos para caminharmos ao encontro da vida eterna. Ora, antes de mais, é esta descoberta que Paulo nos convida a fazer... Nos momentos de crise, de desilusão, de perseguição, de orfandade, quando parece que o mundo está todo contra nós e que não entende a nossa luta e o nosso compromisso, a Palavra de Deus grita: "não tenhais medo; Deus ama-vos".
Descobrir esse amor dá-nos a coragem necessária para enfrentar a vida com serenidade, com tranquilidade e com o coração cheio de paz. O crente é aquele homem ou mulher que não tem medo de nada porque está consciente de que Deus o ama e que lhe oferece, aconteça o que acontecer, a vida em plenitude. Pode, portanto, entregar a sua vida como dom, correr riscos na luta pela paz e pela justiça, enfrentar os poderes da opressão e da morte, porque confia no Deus que o ama e que o salva.
sábado, 1 de agosto de 2026
As conversas que curam almas
As conversas que curam almas
Com certeza já estiveste numa conversa em que simplesmente ”desligaste” e deixaste de estar presente, porquê? O que te fez não querer ouvir?
Mas também tenho a mesma certeza de que já tiveste conversas para as quais desejas-te não terem fim de tão boas que são. Certo?
O que será que as distingue? São as pessoas, os temas, o sítio?
É difícil atribuir responsabilidades mas reconheço que não é fácil teres uma conversa em que te sintas escutada tanto como ouvida. Não me refiro a uma moeda de troca mas da reciprocidade da conversa.
Por vezes, até gostamos muito de um amigo, mas ele não tem a capacidade de desenvolver uma conversa com profundidade e ficamos ali a discutir o mais trivial que existe.
Outros são de tal ordem egoístas que nunca nos perguntas se estamos bem, mas afirmam e constatam que “estamos bem”.
Raras são as conversas em que se perguntam o que se pensa, o que se sente sobre um assunto sem que degenere na discórdia ou na desvalorização do que pensas por força de um rótulo qualquer.
Gosto de falar com pessoas que me perguntam sobre as minhas coisas, os meus pensamentos, os meus projetos. Pessoas que se preocupam em sair do óbvio e do supérfluo para esventrar aquilo que às vezes precisa de ser falado e oficializado.
Recentemente tive um jantar com uns amigos que têm esse dom! O dom de nos porem tão à vontade que falamos das nossas coisas sem filtros e ao mesmo tempo sem domínio absoluto. Falamos do que sentimos e sim, sentimento puxa sentimento com mais facilidade do que imaginamos e quando te aperceberes é um pedacinho da alma que curaste.
Podemos todos treinar melhor essa capacidade de falar e de ouvir mas essencialmente de nos conhecermos mais e melhor. Como? Podemos começar por fazer mais perguntas em vez de afirmações.
E tu, amiga com quem são as conversas que curam a tua alma?
Raquel Rodrigues
sexta-feira, 31 de julho de 2026
DOS PESSIVISTAS AOS PICA-MIOLOS E DOGMÁTICOS
Há dias, entrando numa dessas superfícies onde há milhares de milhentas coisas de que eu não preciso, passei pela secção dos livros, uma secção bem mais aliviada daquele frenesim que por lá se mexe e remexe. Dei volta, olhei, peguei, folheei, reconheci o autor e trouxe ‘O Século dos Imbecis’, de Valter Hugo Mãe. Dentro do valor da obra, da arte na escrita e da valia do autor, gosto de leituras que disponham bem, que tenham humor, que façam rir, que deixem marca e conteúdo, que enriqueçam. O mundo, mesmo que se divirta sob muitas e variadas formas, inclusive sob a desafinada polifonia de políticos a lerem fora da pauta com prejuízo da arte nobre que é a política, o mundo – dizia eu -, anda demasiadamente macambúzio, vive sem grande apreço pela beleza, pela graça, pela jocosidade. Sem se sair de casa, os livros são um excelente tgv para, sem necessidade de gps, nos levarem às lonjuras geográficas e humanas, nem que seja até à Malandrinha, à sua gente e gente de ao redor, sem esquecer os principais protagonistas que animam a sua história, cada um ao seu jeito e propósito. Carreguei o livro como se fosse uma balança digital de referência com fita métrica associada. Sem receio da obesidade ou da magreza, senti vontade de me pesar, medir e ver se estaria dentro dessa plêiade emburrada que enche o século de imbecis, ou se ainda poderia afirmar como José Régio no seu ‘Cântico Negro’: “Sei que não vou por aí”.
Ainda não conclui o empreendimento. Vou indo, como quem aprecia um doce que desejaria não acabasse. Atendendo, porém, à mensagem da parábola do trigo e do joio (Mt 13, 24-30), estou convencido que muita coisa me vai dar pela barba. No mundo, há trigo e joio a crescerem juntos. Cada um de nós também é um mundo: e que mundo! Aí, também há joio e trigo, subidas e descidas, montanhas e vilas, lucidez e confusão, interesses e desinteresses, luz e trevas, noite e dia... e quem disser que não, que atire a primeira pedra! (cf. Jo 8, 7).
O Marquês da Malandrinha é o protagonista principal do livro, mas, para dar título a este texto, deitei mão da Pessivista, achei graça ao termo e à personagem. É uma “ativista pessimista” de se lhe tirar o chapéu. Entre as suas ações e influências, positivas e negativas, ela policia “os costumes para impor limites à euforia e ao deslumbre”, assim diz o autor sobre todos os pessimistas. São gente “cujo feitio inquina as boas intenções e não vê senão a óbvia derrocada das condutas humanas ... são agentes de corrosão que assinalam a derrocada do que ainda só começa a ser construído ... adoram responsabilizar e exigem indemnizações, compensações, reversões, demissões, direitos, muita igualdade”. Onde diabo é que eu já ouvi destas aves agoirentas, logo ampliadas pelos altifalantes dos pica-miolos?!... Sim, os pica-miolos existem, resistem, insistem, persistem, não desistem de martelar no sótão de qualquer bípede humano, por mais justo e expedito que seja. O objetivo é colocar-lhes a paciência a pique, ko, nocaute. Dizem os estudiosos que o pica-pau – não o antropomórfico de walter Lantz, mas o conhecido entre nós por Peto -, dizem que bate o bico 100 vezes por minuto sobre o tronco das árvores para se alimentar de larvas e insetos e fazer o seu ninho. Os pica-miolos, porém, vão muitíssimo mais além! Se o fizessem num só minuto apenas, seria suportável. Mas fazem-no até à exaustão, noite e dia, dia e noite, tarde e manhã, manhã e tarde, em toda a parte e por todos os meios: o zapping é testemunha! Também sabemos que os pica-cebola - os de carne e osso -, muitas vezes não resistem aos sulfuretos e enzimas que as cebolas libertam ao serem descascadas e sacrificadas em prol dos pitéus culinários. Choram e choram, não por comoção e pena da cebola, mas para lavar, limpar e defender os olhos daquele gás ácido com que a cebola tenta defender-se. Os pica-miolos, mesmo que os descascados estrebuchem, esperneiem, barafustem e lhes arremessem o ácido da sua indignação até à sua consciência, não sentem comoção nem pena, não choram, têm prazer em torturar de forma lenta e persistente. Uns baseiam-se no dever de informar, querem chegar primeiro, vender o produto e manifestar trabalho, competência e zelo: repetem, repetem, repetem, repetem, uf... são fãs de Napoleão, o qual teria dito que a melhor figura de retórica é a repetição; outros apoiam-se no direito de ser informados, mesmo que isso venha a manifestar curiosidade mórbida e apenas interesse em abater o alvo: exigem mais explicações, e mais, e mais, e mais, e mais: uma exigência sempre em aberto e nunca satisfeita. Outros ainda reclamam o dever de escrutinar, sem que o escrutínio tenha limites ou linhas vermelhas, logo degenerando em fofoquice: e mais isto que a lei diz e eu interpreto assim, e mais aquilo que vem de fonte fidedigna, e mais tal e tal que eu li nas páginas amarelas, e mais aquilo que me disse um amigo do meu amigo no café da esquina, ih...
É verdade que não é tudo farinha do mesmo saco, sim, é verdade. Há quem procure, honesta e respeitosamente, e informe, denuncie, escrutine e peça as necessárias explicações, mesmo quando alguém possa pensar que o seu estatuto não pode descer a esse nível para dar explicações. Sim, há quem trabalhe e lute, com dignidade, para que o bem comum seja saudável e intelectualmente habitável! Mas perante os que são farinha daquele outro saco, até um santo como Job, de fusíveis NH bem mais reforçados, terá dificuldade em resistir. São como abelhas à volta da cortiço, não para defender a rainha, mas para ver quem a descarta, mais depressa e primeiro. Olham sempre de cima para baixo, julgando-se exemplares. Na vigília do dia 5 de agosto de 2023, em Lisboa, o Papa Francisco dizia que “a única situação em que é legítimo olhar para uma pessoa de cima para baixo é para a ajudar a levantar-se. Quantas vezes vemos as pessoas olharem para nós assim, por cima do ombro, de cima para baixo? É triste.”
Muito para lá do tempo dos afonsinhos, já o rei David dizia que é “melhor cair nas mãos de Deus, pois a sua misericórdia é grande, do que cair nas mãos dos homens” (2Sam 24, 13-14).
Tanta gente difamada pelos fiscais da sociedade em braço dado com os pica-miolos. Há quem se julgue com todos os direitos e deveres nenhuns. Neste mundo e no mundo que cada um de nós também é, há trigo e joio, todos temos disso um pouco. Os dogmáticos, aqueles que acham que são diferentes, que são apenas trigo e defendem as suas opiniões como verdade absoluta e inquestionável, mas deixam dúvidas sobre gato escondido com rabo de fora, logo entram em suspeita de acumulação de joio, tornando-se presa apetitosa para ‘pessivistas’ e pica-miolos, não deixando de preocupar quem deseja estabilidade e melhor bem comum. Como Manuel Carvalho refere no Público de ontem, há quem tenha “um apurado instinto necrófago para aproveitar oportunidades destas”. Só a verdade e a humildade nos libertará, disse-nos Cristo.
D.Antonino Dias
Caminha, 31-07-2026.
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