Embora seja importante, não sei escrever sobre que livros se devam ler nas escolas. Apesar de concordar que “não há maior fragata que um livro para nos levar a terras distantes”, como afirmava Emily Dickinson, não me sinto à altura de o fazer. Acredito, no entanto, que seja uma grande e justa preocupação em quem tem essa responsabilidade. Além disso, também não estou dentro da verdadeira causa da iniciativa e dos parâmetros estabelecidos para analisar tal questão, quer se trate de saber se há alguma toxicidade nas leituras que estão em uso, quer se trate de mera rotina a confirmar a sua potabilidade, quer se trate de escolher fontes mais empáticas, capazes de provocar uma maior procura dessas águas em prol da saúde pública dos estudantes e do seu desenvolvimento integral. Presumo, no entanto, que, criar o gosto pela leitura, incutir a estima e a gratidão por quem tem o dom e a arte de escrever, apreciar o estilo do autor e levar a interpretar e a saber triar o conteúdo daquilo que se lê, com verdadeiro sentido crítico, é bem mais importante do que temperar o que se deve ler com o sal da obrigatoriedade ou o piripiri de qualquer ideologia.
A minha intenção está em reiterar o apelo do Papa Francisco na sua última Carta Encíclica: é preciso regressar ao coração. Se a preocupação dos pais, dos formadores e professores, isto é, se a preocupação de quem educa, ensina e forma, também incluir a necessidade de formar o coração dos seus educandos, o mundo terá muita mais beleza e encanto! Até evitaremos os tiranos, os egocêntricos e gananciosos, o individualismo doentio!
Hoje aposta-se muito na formação da inteligência, no conhecimento, na defesa dos valores da liberdade, da vontade... e bem, são valores evangélicos. No entanto, se as leituras que se procuram, além do interesse cultural ajudarem a que as ações das pessoas “sejam colocadas sob o ‘controle político’ do coração, que a agressividade e os desejos obsessivos sejam acalmados no bem maior que o coração lhes oferece e na força que ele tem contra os males; que a inteligência e a vontade sejam também postas ao seu serviço, sentindo e saboreando as verdades em vez de as querer dominar, como algumas ciências tendem a fazer; que a vontade deseje o bem maior que o coração conhece, e que a imaginação e os sentimentos se deixem também moderar pelo bater do coração”, então, todos lucraremos, pois cada um será o seu coração, será o coração que o distingue, o molda, o põe em comunhão com os outros, o torna possível de qualquer vínculo autêntico, o faz ultrapassar a fragmentação do individualismo. A desvalorização deste centro íntimo do homem, porém, vem de longe, diz o Papa. Ele “teve pouco espaço na antropologia e é uma noção estranha ao grande pensamento filosófico. Preferiram-se outros conceitos, como a razão, a vontade ou a liberdade. O seu significado permanece impreciso e não lhe foi atribuído um lugar específico na vida humana”. No entanto, ao não se dar o devido valor ao coração, dizia Francisco, quando não “se consideram as especificidades do coração, perdemos as respostas que a inteligência por si só não pode dar, perdemos o encontro com os outros, perdemos a poesia. E perdemos a história e as nossas histórias, porque a verdadeira aventura pessoal é aquela que se constrói a partir do coração. No fim da vida, só isto contará”.
Levar o coração a sério, reformá-lo com “os olhos postos no mundo inteiro e naquelas tarefas que podemos realizar juntos para o progresso da humanidade” terá verdadeiras consequências sociais, a sociedade mundial recuperará o seu coração, pois os “desequilíbrios de que sofre o mundo atual estão ligados com aquele desequilíbrio fundamental que se radica no coração do homem”. Neste mundo líquido, “é necessário voltar a falar do coração; indicar onde cada pessoa, de qualquer classe e condição, faz a própria síntese; onde os seres concretos encontram a fonte e a raiz de todas as suas outras potências, convicções, paixões e escolhas. Movemo-nos, porém, em sociedades de consumidores em série, preocupados só com o agora e dominados pelos ritmos e ruídos da tecnologia, sem muita paciência para os processos que a interioridade exige. Na sociedade atual, o ser humano corre o perigo de se desorientar do centro de si mesmo. O homem contemporâneo encontra-se com frequência transtornado, dividido, quase privado de um princípio interior que crie unidade e harmonia no seu ser e no seu agir. Modelos de comportamento infelizmente bastante difundidos, exaltam a sua dimensão racional-tecnológica ou, ao contrário, a instintiva. Falta o coração”.
É, pois, “necessário recuperar a importância do coração quando nos assalta a tentação da superficialidade, de viver apressadamente sem saber bem para quê, de nos tornarmos consumistas insaciáveis e escravos na engrenagem de um mercado que não se interessa pelo sentido da nossa existência”. O coração é o “centro unificador que dá a tudo o que a pessoa experimenta um substrato de sentido e orientação”. É “o lugar da sinceridade, onde não se pode enganar ou dissimular”. Ele costuma “indicar as verdadeiras intenções, o que se pensa, se acredita e se quer realmente”. É no coração “que se decide tudo: ali não conta o que mostramos exteriormente ou o que ocultamos, ali conta o que somos. E esta é a base de qualquer projeto sólido para a nossa vida, porque nada que valha a pena pode ser construído sem o coração. As aparências e as mentiras só trazem vazio”.
Antonino Dias
Caminha, 17-04-2026.




