terça-feira, 28 de julho de 2026

As nomeações de párocos:

 


As nomeações de párocos: como uma cesariana que deixa cicatrizes
Há dores que não significam que algo correu mal.
Significam apenas que houve amor.
Uma mãe que dá à luz por cesariana leva consigo uma cicatriz. Não é uma ferida que fala de fracasso. É uma marca que recorda que a vida passou por ali. Que foi preciso abrir para que alguém pudesse nascer.
As nomeações de párocos fazem-me pensar nessa imagem. Também elas deixam cicatrizes.
No sacerdote que faz as malas sem levar consigo as pessoas que aprendeu a amar.
Na comunidade que vê partir aquele que batizou os seus filhos, abençoou o seu casamento, acompanhou os seus doentes, sepultou os seus familiares, escutou os seus silêncios e lhes anunciou, domingo após domingo, que Deus nunca abandona os seus filhos.
É natural que doa. Só sofre quem amou. Só custa deixar quem se tornou família. O problema começa quando transformamos uma cicatriz numa ferida que nunca queremos deixar sarar.
É curioso. Aceitamos com naturalidade que um médico seja colocado noutro hospital, que um professor mude de escola, que um juiz seja transferido, que um militar parta para outra missão. Mas quando um sacerdote é enviado para outra comunidade, sentimos quase uma injustiça.
Talvez porque um padre não ocupa apenas um lugar. Ocupa um espaço no coração.
E isso não se substitui. Nem deve ser substituído. Guarda-se. Agradece-se. Mas também se entrega.
Ninguém na bancada da igreja conhece a totalidade das urgências, dores e solidões de uma diocese inteira. Uma nomeação não é feita contra uma comunidade; é feita a pensar no bem de todas.
Na Igreja, os sacerdotes não se escolhem: enviam-se. As comunidades não se possuem: acolhem-se. E a pergunta que nos salva não é "Porque é que ele vai embora?", mas sim: "Que comunidade seremos nós para quem está prestes a chegar?"
Que saibamos guardar a gratidão sem a transformar em prisão, e olhar para a cicatriz não como uma ferida aberta, mas como a marca de um caminho que continua.

Padre João Torres

O amor a falar-nos

 




Aqueles abraços que chegam, de mansinho, e que abrigam tudo em nós.

Aquelas mãos que seguram as nossas como quem nos segura o coração.

Aqueles olhares que se demoram em nós com ternura.

Aqueles sorrisos que tornam o nosso dia mais bonito.

Aquelas palavras que nos confortam a alma.

Aqueles silêncios que nos sentem o coração.

Aquelas mensagens que chegam no momento certo.

Aquelas companhias que, só por estarem, fazem tudo melhorar.

Aqueles gestos que nos fazem sorrir.

Aquelas pessoas que nos recordam que, faça chuva ou faça sol, estão sempre perto de nós.

São formas que o amor vai encontrando, todos os dias, para se pousar em nós.

Na poesia das coisas simples, na bondade que ainda existe.

E para nos recordar que ele – o amor – ainda mora aqui.

 Daniela Barreira


segunda-feira, 27 de julho de 2026

Movidos pela alegria

 


Se Deus nos aparecesse em sonhos e nos dissesse:
“Pede o que quiseres”, o que pediríamos?
Talvez muitos de nós responderíamos:
– Saúde para nós e para aqueles que amamos;
– O Euromilhões para ter uma vida descansada;
– Um emprego seguro;
– Uma casa digna;
– Mais reconhecimento, fama ou poder.
Mas o jovem rei Salomão surpreende-nos. Quando Deus lhe oferece a possibilidade de pedir tudo, ele não pede “longa vida, riqueza ou a morte dos seus inimigos”.
Pede uma sabedoria lúcida, que não lhe roube a alegria de uma vida simples.
Pede uma inteligência fundada no amor, capaz de olhar para além do imediato, para além das aparências, para além daquilo que parece ser importante aos olhos do mundo.
O Evangelho deste domingo recolhe algumas parábolas brilhantes de Jesus, que pretendem comunicar algo, que tantas vezes esquecemos: o encontro com Deus. É a coisa mais bela que nos pode acontecer, é uma surpresa pela qual vale a pena abandonar tudo, uma alegria que nos faz esquecer todo o resto. Mas para que tal aconteça temos que agir com astúcia e urgência.
É mesmo necessário submeter a nossa vida àquela intensa rajada de verbos: «Vai, vende, dá, vem e segue-me!» (Mateus 19,21).
O QUE É DEIXAR TUDO, VENDER TUDO?
Esse “tudo” que é o acumular de coisas e de amarras; de preconceitos e rotinas; de justificações e mágoas, de seguranças e proteções...
Podíamos perguntar: o que é que eu ganho com isso?
GANHO ALEGRIA!
“Nunca é tarde na vida para começar a viver...
A perspetiva com que olhamos as situações marca a diferença: o que fazemos rotineiramente, o ambiente que criamos,
- as relações, o trabalho, as atividades que descobrimos,
- a abertura ao saber, as escolhas, e até a fé e o amor...
TUDO PODE SER MELHOR.
E só não é melhor porque nos acomodamos.
Porque preferimos o muito ao melhor!

Padre João Torres

domingo, 26 de julho de 2026

Deus habita em nós

 

https://www.youtube.com/watch?v=JcKfjlVOBAg&list=PLAqKRngqwuSfPdOPEvu7KzjdvMvB1w33f&index=156

A liturgia deste domingo convida-nos a reflectir nas nossas prioridades, nos valores sobre os quais fundamentamos a nossa existência. Sugere, especialmente, que o cristão deve construir a sua vida sobre os valores propostos por Jesus.

A primeira leitura apresenta-nos o exemplo de Salomão, rei de Israel. Ele é o protótipo do homem "sábio", que consegue perceber e escolher o que é importante e que não se deixa seduzir e alienar por valores efémeros.
Algumas pessoas e grupos com um peso significativo na opinião pública procuram vender a ideia de que a realização plena do indivíduo está num conjunto de valores que decidem quem pertence à elite dos vencedores, dos que estão na moda, dos que têm êxito... Em muitos casos, esses valores propostos são realidades efémeras, materiais, secundárias, relativas. Quase sempre, por detrás da proposição de certos valores, estão interesses particulares e egoístas, a tentativa de vender determinada ideologia ou a preocupação em tornar o mercado dependente dos produtos comerciais de determinada marca... O "sábio", contudo, é aquele que está consciente destes mecanismos, que sabe ver com olhar crítico os valores que a moda propõe, que sabe discernir o verdadeiro do falso, que distingue o que apenas tem um brilho doirado daquilo que, na essência, é um tesouro que importa conservar. O "sábio" é aquele que consegue perceber o que efectivamente o realiza e lhe permite levar a cabo, dentro da comunidade, a missão que lhe foi confiada. Como é que eu me situo face a isto? O que me seduz e que eu abraço é o imediato, o brilhante, o sedutor, ainda que efémero, ou é o que é exigente e radical mas que me permite conquistar uma felicidade duradoura e concretizar o meu papel no mundo, na empresa, na família ou na minha comunidade cristã?

No Evangelho, recorrendo à linguagem das parábolas, Jesus recomenda aos seus seguidores que façam do Reino de Deus a sua prioridade fundamental. Todos os outros valores e interesses devem passar para segundo plano, face a esse "tesouro" supremo que é o Reino.
Porque é que os cristãos apresentam, tantas vezes, um ar amargurado, sofredor, desolado? Quando a tristeza nos tolda a vista e nos impede de sorrir, quando apresentamos semblantes carrancudos e preocupados, quando deixamos transparecer em gestos e em palavras a agitação e o desassossego, quando olhamos para o mundo com os óculos do pessimismo e do desespero, quando só nos deixamos impressionar pelo mal que acontece à nossa volta, já teremos descoberto esse valor fundamental - o Reino - que é paz, esperança, serenidade, alegria, harmonia?
Mais uma vez o Evangelho convida-nos a admirar (e a absorver) os métodos de Deus, que não tem pressa nenhuma em condenar e destruir, mas dá tempo ao homem - todo o tempo do mundo - para amadurecer as suas opções e fazer as suas opções. Sabemos respeitar, com esta tolerância e liberdade, o ritmo de crescimento e de amadurecimento dos irmãos que nos rodeiam?

A segunda leitura convida-nos a seguir o caminho e a proposta de Jesus. Esse é o valor mais alto, que deve sobrepor-se a todos os outros valores e propostas.
Diante da oferta de Deus, somos livres de fazer as nossas opções - opções que Deus respeita de forma absoluta. No entanto, a vida plena está no acolhimento desse "valor mais alto" que é o seguimento de Jesus e a identificação com Ele. É esse o "valor mais alto", o "tesouro" pelo qual eu optei de forma decidida no dia do meu baptismo? Tenho sido, na caminhada da vida, coerente com essa escolha?

https://www.dehonianos.org/

sábado, 25 de julho de 2026

É tão bom que existas!

 




Talvez todos sejamos mais frágeis do que parecemos. Precisamos uns dos outros, e quando nos ajudamos, as nossas fraquezas e cansaços quase perdem importância.

Todos falhamos. É também por isso que precisamos sempre de muito mais amor do que aquele que merecemos. Nessa medida, só o excesso do amor consegue elevar a nossa pequenez. O perdão é um dos dons mais sublimes do amor, talvez o maior, porque aceita o outro como ele é, apesar de todas as suas imperfeições.

A existência de quem nos ama dá sentido à nossa vida. A verdade é que com o amor podemos levantar o outro do chão e fazê-lo chegar às nuvens, não porque o mereça nem porque dele precise, mas porque decidimos amá-lo.

Há quem julgue que só deve amar quem o ama. Ora, isso nunca é amor, porque o amor é generoso e desinteressado, avesso a qualquer tipo de comércio ou troca. Quando o amor não é gratuito, não é amor.

É certo que todos precisamos de ser amados. Ser humano é ser carente, é como que viver todos os dias uma solidão desconfortável, ansiando por um abraço e um olhar carinhoso.

Nenhuma vida existe para si mesma, por mais que os egoístas estejam convencidos do contrário. A necessidade aumenta quando é escondida ou disfarçada por quem a tem. O egoísmo é muitas vezes uma tentativa de negar essa dependência dos outros, mas não resulta. Não há egoístas felizes. Nem um. Parecem, mas ninguém – nem eles mesmos – acredita que o sejam.

Obrigado por existires, por te dares a mim, mais do que mereço, e assim me ajudares a ser feliz.

Obrigado por existires, por me aceitares assim, apesar de mereceres mais do que aquilo de que sou capaz, e assim me ajudares a ser feliz.

É tão bom que existas!


José Luís Nunes Martins

sexta-feira, 24 de julho de 2026

Entre o nada e o Pai Nosso





O Xico não era homem de rezas,
nem de santos, nem de igrejas.
Mas era um homem de respeito,
daqueles que não julgam,
que olham de frente,
e que escutam em silêncio o que não entendem.

Quando soube que eu estava a preparar um Retiro para os doentes,
em Fátima, terra de fé e de promessas,
veio ter comigo, com o seu jeito directo, e disse-me:
“Também quero ir.”

Olhei-o com surpresa (sim, é verdade),
mas sem desconfiança.
Expliquei-lhe:
“Um Retiro não é um passeio, Xico.
Lá, há silêncio.
Há oração.
Há tempo para mergulhar para dentro.”

Ele não hesitou:
“Eu não rezo,
mas sei estar calado.”

E foi.
Com os outros,
com a alma na rectaguarda
mas com o coração curioso.

Lá, não dobrava os joelhos,
mas detinha-se nos tempos longos de silêncio.
Enquanto outros falavam com Deus,
o Xico apenas… escutava.

Voltou o mesmo (ou talvez não... Não sei).
Continuava sem rezas,
mas trazia nos olhos um respeito mais sereno,
como quem sabe que há mistérios que não se entendem,
mas que merecem ser acolhidos.

O tempo passou,
como sempre passa,
e um dia chegou-lhe o cancro.
Veio sem convite,
bateu forte e ficou.

Estive com ele ao longo dos dias que escureciam.
Falávamos pouco,
mas bastava.
Havia um modo novo de estar ali,
sem fé declarada,
mas com uma confiança muda,
como se me dissesse:
“Continua aí.
Isso basta.”

Depois veio a morte.
Silenciosa, como a oração que nunca fez.

Fui ao funeral.
Sem cruz,
sem salmos,
sem incenso.

Mas na sala mortuária,
a mãe do Xico,
com os olhos marejados e ternos,
entregou-me um envelope.
“É para si,” disse-me.
“Ele deixou comigo,
e disse que só lho entregasse quando partisse.”

Abri-o.
Lá dentro,
uma carta breve.
Apenas uma linha:

“No dia em que eu morrer, quero que o Fernando reze por mim, e comigo, um Pai Nosso.”

E naquele instante,
no meio do silêncio dos que ficam,
as palavras mais antigas ergueram-se devagar.

Pai Nosso, que estais no Céu…

E ali, naquele espaço sem rituais,
o invisível tocou o visível.
A oração não foi de conversão,
foi de comunhão.
Foi de ternura.
Foi de confiança.

O Xico não partiu crente,
mas partiu de mãos dadas
com a Esperança.

Porque há caminhos
que não passam pelas palavras,
mas chegam ao coração de Deus
pelo silêncio de um homem
que apenas quis ser lembrado
com dignidade,
e com um Pai Nosso
dito devagar.

Amém.


 Fernando d'oliveira

quinta-feira, 23 de julho de 2026

Estar presente nas férias!

 



Às vezes é difícil estarmos, realmente, presentes e a experienciar o momento que estamos a viver.

Muitas vezes, vivemos em modo de sobrevivência. Ou em estado de alerta constante, em estado de Hiper vigilância e em modo de permanente antecipação de todos os problemas e cenários caóticos que poderão, um dia, vir a existir. Enquanto assim é, não estamos realmente presentes no momento e no dia que estamos a viver. Vamos navegando numa prisão mental que nos impede, tantas vezes, de ver a realidade tal como ela é.

Como nos habituamos a viver presos ao passado ou em antecipação do futuro, desaprendemos a arte de aproveitar o dia-a-dia. E quando assim é, nem quando vamos de férias conseguimos realmente disfrutar e aproveitar. Podemos estar num cenário idílico e com uma excelente companhia e conseguir, ainda assim, deixar que a nossa mente nos leve para longe do cenário quase perfeito que nos rodeia.

Assim, trazemos um desafio forte para estas próximas férias: vivê-las! Parece simples, não é? Mas a mim parece-me bastante mais complexo do que poderíamos julgar à primeira vista. Senão vejamos: quando estamos de férias, estamos mais relaxados; mas também temos mais tempo para pensar e para divagar, uma vez que a mente está menos ocupada em produzir, chegar a horas ao trabalho, fintar o trânsito, corresponder aos desafios físicos (e de calendário) diários.

Vamos de férias, mas parece que os problemas que a nossa cabeça cria (ou tinha adiado) voltam para nos perturbar.

Fica a proposta para este tempo de maior acalmia que estamos prestes a viver.

Focar a nossa atenção no que podemos controlar. Na forma como queremos reagir e receber o que nos vai acontecendo. Pensar que só podemos, realmente, viver o dia de hoje porque não temos (mesmo) mais nenhum. E isto pode ser complicado, mas há pequenas estratégias que podem resultar: ocupar o tempo com atividades e pessoas de que(m) realmente gostamos. Não nos forçarmos a fazer o que não nos apetece ou a partilhar tempo com pessoas que nos retirem energia.

Prescindir dos ecrãs pelo menos algumas horas por dia e substituir esse tempo estéril pela leitura de um livro (mesmo que o tempo de concentração seja curto e que só consigamos ler duas ou três páginas de cada vez). Sair da zona de conforto em doses homeopáticas: explorar um novo caminho, um novo restaurante, uma praia diferente. E o mais importante: ter tempo de qualidade sozinha. Ou sozinho.

É no silêncio do nosso coração que nascem os projetos mais bonitos e que se apaziguam as maiores tempestades. Dentro do que somos há sempre sol. Mesmo que não o consigamos sempre ver.


Marta Arrais