sábado, 20 de junho de 2026

La Moreneta de Montserrat

 


Um pequeno apontamento da visita de Leão XIV a Espanha.

Cinquenta quilómetros separam Barcelona de Montserrat. O Papa subiu à montanha onde se encontra a abadia que guarda La Moreneta, padroeira da Catalunha. A Senhora Negra, que segundo a lenda foi encontrada numa gruta por algumas crianças, é uma estátua românica da Virgem Maria esculpida em madeira, que fica no alto de uma montanha rochosa. Pelo tom escuro que a madeira adquiriu ao longo dos séculos devido ao fumo das velas e ao verniz, os fiéis começaram a chamá-la carinhosamente em catalão de La Moreneta, ou A Morenita, em português. Atrai peregrinos de todo o mundo há mais de um milénio.

Na visita à basílica, Leão XIV explicou que a escolheu «para lhe confiar, cheio de fé na sua intercessão materna, o meu ministério petrino e a missão da Igreja no mundo que clama por justiça e paz». E também para lhe implorar que «nos ajude a revestir-nos unicamente com a armadura de Deus».

Não é por acaso que recorda a conversão de Santo Inácio de Loyola, fundador da Companhia de Jesus, «que neste lugar evocativo, após uma noite de oração diante da Virgem, entregou a sua armadura de cavaleiro, momento que marcou o início de uma nova vida ao serviço de Cristo».

Em 1521, quando ainda era conhecido pelo seu nome de batismo, Íñigo, sofreu um grave ferimento de bala de canhão numa perna durante a defesa de Pamplona. Durante a sua longa e dolorosa recuperação, leu livros religiosos que despertaram o desejo de imitar os santos e seguir uma vida espiritual. Assim que recuperou forças para caminhar, Inácio decidiu fazer uma peregrinação. O seu primeiro grande destino espiritual foi o Santuário de Montserrat, em março de 1522.

A passagem de Inácio de Loyola pelo santuário da Morenita ficou marcada por três gestos carregados de simbolismo cavaleiresco e desapego material. A Confissão Geral: Inácio passou três dias a preparar-se e a escrever os seus pecados, fazendo uma longa e profunda confissão com um dos monges do mosteiro para purificar o passado. A Troca de Roupas: Ele tirou as suas vestes nobres de fidalgo e cortesão e deu-as a um homem pobre. Em substituição, vestiu uma túnica austera feita de pano de saco, o traje típico dos peregrinos humildes. A Vigília d’Armas: Como antigo cavaleiro, Inácio adotou a tradição militar da "vigília d’armas". Ele passou toda a noite de 24 de março de 1522 de pé ou de joelhos diante da imagem da Morenita. No altar da Virgem, ele pendurou e abandonou a sua espada e o seu punhal.

O significado espiritual deste ato diante da Morenita representou a sua demissão do exército terreno e o alistamento no que ele considerava o exército de Cristo. A espada, que antes servia para procurar a fama e a honra humana, foi entregue à Virgem Maria.

Leão XIV sublinhou a importância deste gesto: «Maria conduz-nos a Cristo e ensina-nos a escutar a sua voz», mas também «convida-nos a alcançar um coração reconciliado com os critérios do Evangelho». Porque «Jesus mostra-nos o caminho da misericórdia, da reconciliação, da verdade e da mansidão. Ao mesmo tempo, desmascara a violência que pode estar escondida nas nossas palavras e atitudes: a crítica que humilha, a condenação que destrói e a agressão que divide. Esta violência oculta pode muitas vezes estar revestida de uma aparente armadura com que procuramos proteger as nossas feridas, os nossos medos ou o sofrimento causado pela injustiça». Por isso, o Papa pede-nos que, tal como Inácio, depositemos «aos seus pés a armadura que gradualmente endureceu os nossos corações».

O exemplo de Santo Inácio é muito importante para todos nós, cristãos, peregrinos em busca do sentido da vida, em busca do Senhor. Em Montserrat, depôs as suas armas materiais. Hoje, nós, cristãos, e toda a humanidade somos chamados a depor as armas da guerra, certamente, mas também aquelas armas afiadas como espadas, que são as palavras que causam dano, que criam divisão e ódio entre pessoas e povos. E é dos cristãos que deve vir, hoje mais do que nunca, uma palavra de paz, para que a humanidade aprenda a desarmar não só as palavras, mas também as atitudes e viver uma cultura de encontro que proteja cada ser humano.


Paulo Victória,

Olha à tua volta

 



Olha à tua volta.

Deixa-te serenar. Silenciar o ruído, por dentro e por fora. Para respirares, para sentires, para veres com o coração.

E olha bem à tua volta.

Ainda existe beleza... No abraço que é porto de abrigo, na mão que ampara, no sorriso do coração.

Ainda existe beleza... No olhar que abraça a alma, na ternura que cura, no colo que tudo acalma.

Ainda existe beleza... Na palavra que conforta, no silêncio que compreende (e que tanto fala), no riso que contagia.

Ainda existe beleza... Na companhia que faz tudo melhorar, no gesto que faz sorrir, nas pessoas que te querem bem.

Ainda existe beleza... Nos momentos que tocam (para sempre) o coração, na delicadeza das coisas simples, no amor que salva.

Olha à tua volta.

Ainda existe beleza... Mesmo que existam os dias cinzentos, as noites escuras, as tempestades.

Ainda existe beleza... Enquanto o amor ainda morar aqui.

E em ti... que ainda és vida que cuida, bondade que abraça, esperança que não se apaga.

Olha à tua volta.

Vês?

Daniela Barreira

sexta-feira, 19 de junho de 2026

ACHADO POLICIAL DE VALOR INCALCULÁVEL!...


Nas minhas escavações arqueológicas, momentos houve em que pulei ao jeito de Arquimedes no zénite do seu achado, mas com uma grande diferença. Ele descobriu o ‘Princípio do Empuxo’ e logo correu a gritar: “Eureka!”. Eu descobri um recorte do ‘Diário Popular’ e logo vociferei uma jaculatória minhota! É... são sortes!
Arquimedes, com a sua descoberta, denunciou a falcatrua do ourives e sossegou Hierão II, rei tirano de Siracusa, que entendeu que a sua cabecinha de rei bem merecia uma coroa de ouro puro sem prata à mistura. Eu, com o meu achado amarelecido pelo tempo, redescobri que o nosso rei, avesso a coroas doiradas, preferia a devota prece dos seus pides sem pregações à mistura.
Arquimedes percebeu que, ao entrar na banheira, o volume de água que transbordava correspondia ao volume exato do seu corpo. Ora, sendo a prata mais leve que o ouro, uma coroa de ouro com prata à mistura, teria maior volume que uma coroa de ouro puro com o mesmo peso. Assim, a tramoia do ourives ficaria descoberta e o rei sossegado. Eu, porém, logo apliquei o princípio: quando os pides entravam numa igreja, a piedade não transbordava porque a sua devoção não tinha qualquer peso, o rei continuava enganado pelas aldrabices dos seus ‘ourives’, o pio parenético lá dentro da igreja, mesmo que gravado, até esse seria deturpado pelos preconceituosos bufos, mirones e testemunhas. Mas, vamos ao que importa antes que anoiteça e o leitor adormeça ou perca a paciência.
Dirigida “aos senhores diretores de serviços, chefes das delegações, subdelegações e postos de vigilância na metrópole”, com data de 21 de março de 1973, o major Silva Pais, diretor da Pide/DGS, teve a gentil bondade de fazer correr a seguinte circular:
“Como é do conhecimento dos Serviços, são já de certo modo numerosos os sacerdotes que, em ato de culto, atacam declaradamente as instituições e a política ultramarina do Governo – direi da própria Nação – e os seus princípios morais. Trata-se de uma ação subversiva que a lei penal prevê iniludivelmente. Muitas das prédicas de que nos chega conhecimento enquadram-se claramente nas disposições daquela legislação. Há que enfrentar esta atividade delituosa, decididamente. Assim, as homilias dos padres conhecidos nas áreas por tais atividades, devem ser seguidas atentamente, de modo a colherem-se elementos para a devida participação inicial, com indicação de testemunhas, para consequente decisão. Aos domingos, há que fazer assistir à missa habitual pelo menos três agentes, que tomarão boa nota no caso de o sacerdote entrar em afirmações de carácter delituoso. O funcionário mais graduado ou antigo fará depois a devida participação, o que tudo será exposto aos Serviços Centrais (caso das delegações, subdelegações e postos de vigilância). Promover também, sendo possível, a gravação das homilias, sem que isso dispense a simultânea prova testemunhal. O que se torna imperioso é que os serviços se habilitem com os elementos indispensáveis para se promover a devida ação penal, se assim for entendido. O que não pode é assistir-se passivamente, com simples protestos verbais, à ação dissolvente e subversiva conduzida por esses sacerdotes”.
Oram vejam lá se esta coisa não é mesmo de valor incalculável! Incalculável também era a expressão dum cicerone do museu da catedral de Braga - já muito idoso ao nosso olhar de rapazes, mas talvez muito mais novo do que esses rapazes hoje são -, que, desaferrolhando aquelas portas com aquelas chaves de grande medida e peso, nos ia guiando por salas adentro. O refrão era sempre o mesmo sobre tudo e cada coisa: ‘de valor incalculável, de valor incalculável...”. Não sei se o fazia por estar cansado de explicar sempre o mesmo, se por entender que os rapazes eram demasiado traquinas para entender qualquer douta explicação, se era mesmo por, para ele, a explicação menos maçadora e mais valiosa era mesmo essa em jeito de refrão: ‘de valor incalculável, de valor incalculável...’.
Coisa também admirável é o que nos diz, esta semana, uma conceituada revista semanal: um dos seus jornalistas “foi a sete missas diferentes. E quis ir a mais uma”. Se, por um lado, me fez lembrar aqueles que pertencem a nove confrarias e não descansam enquanto não pertencem a mais alguma sem estar em nenhuma, por outro lado, embora o seu artigo resulte também de conversa com pessoas pertencentes a esses movimentos que alcunha de ‘mais conservadores’, o seu zelo de ir a sete missas e de ter sido barrado de ir a mais uma, mesmo que o não seja, dá ares de muito pidesco.
Mas também, caro leitor, quero contar-lhe outra coisa de valor incalculável. Essa sim, é mesmo mesmo de valor incalculável! Numa das paróquias do Arciprestado de Castelo Branco, o Pároco, e também eu algumas vezes, celebrámos com a presença de dois GNRs plantados mesmo ali ao lado do altar. Acho que ainda hoje isso acontece. Perante essa ‘estranha’ presença, o leitor ficará incrédulo e com ares de certa revolta me perguntará: ‘mas, porquê?’. É que ambos tocavam, cantavam e rezavam no Grupo Coral. Ó gente boa e afinada, feliz e colaboradora: um abraço!

D. Antonino Dias
Caminha, 19-06-2026.

Quem olha por ti?

 



Podemos saber por quem olhamos, mas conseguiremos saber quem olha por nós?

Alguns de nós afirmam que não têm ninguém, que estão sós. Talvez até pudesse ser verdade em alguns casos, mas como pode alguém ter essa certeza?

Acredito que qualquer pessoa que esteja a ler este texto consegue fazer uma lista com pelo menos 25 nomes de pessoas importantes na sua vida. Não é uma tarefa simples, porque quem se propõe a tal assume sempre que deve apontar o nome daqueles que ama ou pelos quais nutre bons sentimentos.

Mas quantos dos que constam da minha lista me têm na deles?

Mais ainda, será que o meu nome não aparece nas listas de pessoas que eu desconheço ou de quem já nem me lembro que existem?

Não somos importantes apenas para quem o queremos ser. Algumas vezes, nem esses nos aceitam como tal.

Por outro lado, a nossa vida pode ser um dom para pessoas cujo nome nunca conheceremos ou que julgamos serem apenas figurantes da nossa existência.

Outros ainda podem olhar por nós e amar-nos sem deixar grandes pistas que nos permitam encontrá-los. Se existirem – e existem! – por que razão não querem sequer que lhes agradeçamos?

É bom ser bom, mais ainda sem esperar ser reconhecido por isso.

Será que me lembro – e guardo no coração – todos os que me fizeram e fazem bem, que me amaram e ainda me amam?

Quantas vezes, ao longo da minha vida, caí em desgraça e fui encontrado por alguém no chão, levado para um abrigo — e, quando acordei, nem percebi bem como fui ali parar?

Ilustração de Carlos Ribeiro

José Luís Nunes Martins

quinta-feira, 18 de junho de 2026

As nossas inconstâncias

 



Gosto de confiar nas pessoas;

Gosto de saber que posso contar com elas;

Gosto que se cumpram compromissos;

Gosto de alguma previsibilidade de comportamentos.

E tu?

Não gosto quando me dizem que vão e não vão;

Não gosto que digam algo que não corresponde às ações;

Não gosto que se comprometam e depois ignorem o compromisso.

E tu?

Tenho um pouco de dificuldade em confiar nas pessoas que parece que fazem tudo, e nos vendem a ideia de que amanhã te resolvem o problema e depois desaparecem e escondem-se atras de desculpas e desculpas.

Aquelas pessoas que se comprometem a passar logo lá em casa para te resolver algo, e não aparecem.

Aqueles que dizem que adoram o que faço mas quando pergunto, nem se quer sabem do que falo.

Arrisco-me a dizer que já todos fizemos isto. Em algum momento tivemos uma epifania de euforia e dizemos: “eu faço isto e aquilo” e depois passa como uma brisa. Depois fracassamos e pomos nas gavetas os projetos que idealizamos. É agora…mas não foi!

O problema aumenta quando envolvemos outros nas nossas inconstâncias e fracassamos com as nossas promessas. O problema é que há cada vez mais pessoas que ora é tudo, ora é nada e isso quebra qualquer espirito de confiança que alicerça as relações.

Quando no auge da nossa vontade, nos comprometemos, devemos garantir que caso não o façamos, pelo menos desculpamo-nos e assumimos: olha que o outro repara, e às vezes o outro és tu.

Não pares de sonhar e envolver quem te ama, mas mostra-lhe respeito tanto no sucesso como no fracasso.

E tu amiga, tens sido inconstante?


Raquel Rodrigues

terça-feira, 16 de junho de 2026

AMO A MINHA IGREJA

 


Ele há gente sem NOME, sem NORTE nem SORTE, sem MEMÓRIA, sem VIDA e sem FUTURO. Onde cada um se ESCONDE, NEGAR-SE E PERDER-SE....
«Jesus, percebeu-lhes o sofrimento, adivinhou-lhes a angústia, sentiu-lhes o aperto. Porque era gente dispersa e não reconhecida. Gente entregue a si mesma, não amada. Gente «stressada», ocupada no imediato, sem alma que brilhasse...
Jesus vê que estamos perdidos, como ovelhas sem pastor, porque não temos dentro de nós as respostas para todas as perguntas.
Jesus comove-se e inventa a Igreja. Jesus pensa numa companhia, numa busca comum, num sonho realizado: homens e mulheres, seus discípulos, capazes, juntos, de buscar sentido e plenitude, moderação e alegria.
Jesus escolhe doze pessoas para começar a construir o Reino, doze que ficam com ele, para depois se tornarem capazes de conduzir outros... E a missão é simples. CURAR, CHAMAR, LIBERTAR, COMPROMETER...
Quando ouvimos as palavras de Jesus: “Pedi ao Senhor da seara que mande trabalhadores para a sua seara”, interpretamos este convite de maneira redutora.
Significa pedir a Deus que me mande a mim como trabalhador da ternura... que me mande com um coração de carne comer o pão das lágrimas com quem chora e beber o cálice do sofrimento com quem sofre...
Vou-vos contar um segredo: eu amo a Igreja.
Amo esse sonho louco de Deus que sou chamado a viver...
Vamos nos entender:
não aquele rabisco de igreja muitas vezes cultivado
por membros mornos e fanáticos, que se acham perfeitos.
Não: a Igreja é uma comunidade de companheiros de viagem
chamados a tornar presente o Pastor nos seus gestos...
que têm vontade de ensinar e cuidar uns dos outros,
que se esforçam por serem um sorriso de Deus para os irmãos...
É dessa gente louca de Deus que a nossa Igreja precisa...

Padre João Torres

segunda-feira, 15 de junho de 2026

Só damos o que temos



“Só damos o que temos.

Cada um oferece aquilo que tem e transborda de dentro de si.”
Augusto Branco



Deus chama por cada um de nós.

Não é a nossa resposta verbal que faz a diferença.

A nossa atitude diária perante as adversidades do caminho,

é o que nos faz trabalhadores da seara.


Honrar a aliança que Deus fez com o Seu Povo, é um renovar o amor a cada amanhecer.

Para isso, muitas vezes, morremos para o mundo!

Permanecemos em silêncio…

Gastamos mais um bocadinho da nossa paciência…

Escutamos os outros…

Partilhamos o pouco que possuímos…

Vamos ao encontro de quem está sozinho…

Costuramos feridas abertas com um abraço…

Abrimos a boca para que as palavras sejam regaço que acolhe…

Acendemos luzes no caminho da Reconciliação…

…e em troca ambicionamos um sorriso!


As tristezas e as lamentações diárias

tornam-se mais leves quando sorrimos.

Um brilho no olhar,

que pode ser o início de uma lágrima que quer cair;

ou a alegria de ser ovelha que se arrepende e Acredita na Boa Nova.


Hoje, somos convidados a ir.

Mais do que partir ao encontro é ser encontro!

Sentar ao pé do mar e tocar o coração de alguém…

Subir à montanha e reconstruir uma Alma que sofre…

Deitar na relva fria e agarrar a mão de quem amamos…


Sejamos alegres trabalhadores na seara do Reino do Pai!

Eu vou! Vens?


Liliana Dinis