JÁ APRECIOU A PORTA DA SUA IGREJA?
Ainda não?!... então venha daí que eu vou fazer-lhe uma visita guiada. Ajudá-lo-ei a descobrir a rara beleza que a porta da sua igreja contém. Por detrás do que se vê, há particularidades tão preciosas que fazem dela uma joia de valor incalculável. Tenha sido atamancada por um amador, burilada por um artista de renome ou feita por um faz-tudo assim-assim, todos devem enlevar-se pelo seu encanto e alcance. Há muitas, muitas, muitíssimas portas, é verdade! A porta da sua igreja, porém, é mesmo muito especial. Quando a olha ou por ela entra, mesmo que esteja carcomida pelo tempo, pelo desleixo ou pela velhice, tem motivo para se orgulhar, para a contemplar, agradecer e se inclinar reverentemente perante a sua importância e os seus desafios. Foi ela que, no dia do seu Batismo, se abriu para o abraçar e tornar membro do discipulado universal de Jesus. É ela que continua a escancarar-se para o acolher, individualmente, em família ou em assembleia celebrante. Não lhe estou a dizer que a vamos observar como se ela representasse um daqueles momentos extraordinários da salvação, como aquelas portas que, por decisão ou licença do Papa, se abrem solenemente em Anos Santos ou em Jubileus universais ou diocesanos. Perante essas, peregrina-se e mergulha-se na profundidade do mistério que se evoca e na intensidade da experiência da conversão. Essas são o símbolo máximo da indulgência e do perdão, curando as feridas da alma. Embora ambas manifestem a passagem do profano para o sagrado, elas operam em graus e tempos litúrgicos diferentes. Estou apenas a referir-me à porta da sua igreja paroquial, a esse limiar comum entre o fora e o dentro, dando acesso à celebração das realidades da vida e da fé: tanto das alegrias como das tristezas, tanto das festas pessoais, familiares e comunitárias como dos lutos e afins. Cruzar esta porta é um ato de fidelidade normal, onde o crente entra para agradecer, alimentar e celebrar a fé, saindo fortalecido para ser testemunha da fé, na família e no mundo. Cruzar, ou apenas olhar essa porta, deve lembrar a necessidade da conversão permanente, da passagem do pecado à graça, do homem velho ao homem novo, abraçando uma vida nova em Cristo. A sua importância, pelo seu simbolismo, está muito para além do ser uma mera porta de entrada para um edifício que é preciso cuidar e defender.
Nos apriscos das ovelhas da antiga Palestina não existia nenhuma porta. O pastor recolhia as ovelhas e deitava-se ele próprio na abertura do aprisco. Ao deitar-se ali, o pastor era a porta. Ninguém podia entrar para fazer mal às ovelhas. Nenhuma ovelha saía sem ele dar por isso. Ele era o único responsável pelas ovelhas perante o seu dono e o pastor dado pelo dono às suas ovelhas. Ele as conduzia a pastagens verdejantes e seguras, isto é, a pastagens de erva fresca, à água para matarem a sede, aos lugares livres de predadores e ladrões, a lugares seguros para o descanso, enfim, ele as protegia, alimentava e cuidava.
Quando Jesus afirma: “Eu sou a porta das ovelhas” (Jo 10, 7-19), está-nos a dizer que ele é o único mediador legítimo entre Deus e os homens, entre os homens e Deus. É o Bom Pastor que dá a vida pelas suas ovelhas, que oferece a sua própria vida, o seu próprio corpo como barreira contra o mal, contra os ladrões e salteadores, contra o egoísmo e os inimigos do bem. Não é uma porta de prisão, mas a garantia da verdadeira liberdade, de proteção e cuidados. Não reclama força para se fechar ou abrir. Ela funciona ao som da voz do pastor. Ele conhece uma por uma as suas ovelhas, chama-as pelo nome, elas seguem-no porque conhecem a sua voz, e ele leva-as a pastagens verdejantes. Estas pastagens verdejantes a que Cristo nos conduz, representam o sustento espiritual, a paz e a segurança que ele providencia, sobretudo, através da sua Palavra, da sua graça, do seu próprio Corpo feito pão da vida, do alívio e restauro das forças espirituais aos que estão cansados e oprimidos, do abrigo seguro contra os perigos, do acesso à comunhão plena com Deus. A porta da sua igreja simboliza, pois, Cristo, que afirmou: "Eu sou a porta. Quem entrar por mim salvar-se-á"(Jo 10,9). Ele é a única porta pela qual cada pessoa deve passar para descobrir a sua verdadeira dignidade, para entrar na vida plena, na graça, na salvação. É a porta que o Pai misericordioso abriu no meio do mundo, no meio da história, no meio da sua paróquia. Entrar pela porta da sua igreja significa o desejo de se configurar a Jesus Cristo, de o conhecer cada vez melhor, de acolher o Seu amor, de assumir o caminho da conversão, de viver a plena liberdade, de entrar para o recolhimento com o Senhor e de sair para o mundo, para a missão, totalmente protegido e fortalecido. Cruzar o limiar dessa porta especial, implica escancarar as portas do coração a Cristo Redentor, deixando entrar o ar fresco do seu Espírito, para o aggiornamento pessoal, a conversão. “Eis que estou à porta e bato" (Ap 3,20). E porque bate? “Porque vos amo, porque vos chamei amigos, porque sem mim nada podereis fazer, porque sou o caminho, a verdade e a vida, porque quero que onde eu estiver vos estejais também, porque não há outro nome debaixo do céu pelo qual possais ser salvos’.
Quando entrar ou passar em frente da porta da sua igreja, lembre-se do que ela simboliza, lhe lembra e pede. Se estiver aberta e entrar, ele lá está, no Sacrário, à sua espera. Convide-o para o centro da sua vida, da sua família, das suas escolhas, do seu dia-a-dia para que a rotina da vida não torne a vida rotineira.
D. Antonino Dias
Caminha, 18-09-2026