domingo, 13 de setembro de 2026

Arronches despede- se do Padre Fernando

Reverendo Padre Fernando Farinha,

Celebrar os seus 56 anos de sacerdócio e, em particular, os últimos 17 anos dedicados à nossa comunidade é um ato de elementar justiça e profunda gratidão. A Igreja Matriz de Arronches testemunhou hoje não uma despedida, mas sim o reconhecimento público de uma vida inteira entregue a Deus e ao próximo.

É com o coração cheio de emoção e de uma profunda gratidão que hoje nos despedimos das suas funções como nosso pároco. Foram 17 anos de uma dedicação incansável às paróquias de Assunção, Esperança e Mosteiros, mas, acima de tudo, foram 17 anos em que o Padre Fernando foi mais do que um pastor — foi um amigo, um conselheiro e uma presença constante nas nossas vidas.
Obrigado pelo seu brio, pela sua sensibilidade e pela forma tão bonita como sempre cuidou da nossa comunidade.
Agradecemos o seu zelo pastoral, o cuidado que dedicou às nossas paróquias e a dignidade com que sempre celebrou a fé entre nós. O seu dever foi cumprido com uma entrega exemplar.
Levaremos sempre connosco o seu exemplo de fé e humanidade. Que esta nova etapa da sua vida lhe traga o merecido descanso, com a certeza de que a sua marca em Arronches é eterna..
Rezamos para que Deus o abençoe nesta nova fase de recolhimento, concedendo-lhe saúde e paz. Arronches será sempre a sua casa.

Senhor Deus,
Hoje elevamos o nosso coração em ação de graças pela vida, vocação e ministério do Padre Fernando Farinha. Obrigado pelos 58 anos de sacerdócio que ele ofereceu à Tua Igreja e, de forma especial, pelos 17 anos em que ele foi o bom pastor das nossas paróquias de Arronches.
Abençoa-o, Senhor, pelo pão que repartiu, pelas palavras de conforto que proferiu e pelo amor com que nos guiou. Pedimos-Te que lhe concedas agora o descanso merecido, saúde e a constante certeza de que a sua semente deu frutos generosos na nossa terra. Protege-o e guarda-o sempre no Teu amor.
Amén.


Com toda a nossa amizade e gratidão,

Muito obrigado por tudo.




COITADO!... O HOMEM CHORAVA COMO UMA MULHER!...

 


Não fui eu quem viu!... Não fui eu quem o disse!... Tampouco sei apreciar tão lacrimosos epifenómenos através desse suor das janelas da alma!... Sim, isto de ver rios de água a serpentear cara abaixo de qualquer homem feito Madalena ou de qualquer Madalena feita homem não é, para mim, coisa agradável de se ver. Muito menos eu faria uma afirmação assim tão deselegante. A não ser que perdesse o tino e me deixasse influenciar pela baixaria que ecoa lá pela ‘Universidade Politécnica do Parlamento’, no ensino e exercício prático com que transmite e educa o país na arte nobre da política. Se ela fosse uma das competências de avaliação do PISA, haveríamos de ver como o ranking da maior parte dos eleitos pelo povo os faria chorar as pitangas, mas sem propósito de emenda. Perante a contumácia, só um GPS de marmeleiro lhes indicaria o rumo certo!... ihhihihihih!
Terá sido Aixa, mãe do rei de Granada, quem viu e afirmou essa coisa em título. E ao que parece, não eram lágrimas de crocodilo. Eram o amargo fruto daquela tremebunda e monarca tristeza, sentada lá pelos sofás daquele coração feito em cacos, destroçado! Ninguém gosta de perder nem que seja a feijões ou na raspadinha!... Na impossibilidade de torcer o pescoço aos reis de Espanha, o dito cujo, com a mochila às costas carregada com mísseis de raiva visceral, disparou, lá do alto do monte por onde passava, o seu último olhar e suspiro sobre a cidade! Não destruiu nada, não matou ninguém, ninguém se intimidou, foi um mero desabafo em alívio daquele patriótico nó na garganta. Presumo até que, naquele momento, o seu único consolo seria o de saber que iria chegar a casa a tempo e horas para o jantar, com a certeza de que, a partir de agora, iria ter tempo com fartura para o que desse e viesse! Acabava de entregar, à governança de Espanha, definitivamente, as chaves dessa sua amada pátria: Granada. Era o 2 de janeiro de 1492. O monte passou a ser conhecido por “Suspiro do Mouro”. Sua mãe, mulher resistente, de carácter forte e ‘pelo na venta’, de ‘antes quebrar que torcer’, que tudo tinha feito pelo seu filhote rei e pelo reino de todos, desgostosa pela sua fraqueza e capitulação, ter-lhe-á dito, ironicamente: “Chora, chora agora como uma mulher o que não soubeste defender como um homem”....
Mudando o bico ao prego, há muitas coisas na vida que também nós, homens e mulheres, temos de defender com determinação, com valentia e orgulho, para que um dia não tenhamos de chorar a perda daquela Pátria definitiva que nos está reservada. Uma Pátria que nem os olhos viram, nem os ouvidos escutaram, nem o coração suspeitou, nem qualquer mente humana, por mais fulgurosa que seja, pode sequer imaginar quão sublime ela é (cf. 1Cor 2,9). Uma dessas coisas que é preciso defender e cuidar é a fé de que já falámos no texto anterior e continuaremos a falar. Mas o que é a fé? Não é um vago sentimento religioso que toda a gente tem, todas as civilizações e culturas tiveram e continuam a ter. O desejo de Deus “é um sentimento inscrito no coração do homem, porque o homem foi criado por Deus e para Deus. Deus não cessa de atrair o homem para Si e só em Deus é que o homem encontra a verdade e a felicidade que procura sem descanso” (CIC1). A fé também não é um saber de cor um conjunto de princípios que alguém ensinou a papaguear. Não é qualquer coisa que se possa reivindicar pelas ruas, comprar na quermesse, na feira, na farmácia, na loja dos chineses ou no supermercado, embora, mesmo que já se tenha e dela se viva, se deva pedir constantemente com humildade e confiança. Dizer que se tem fé está para além do dizer que se acredita e do clamar pelo Senhor. Não é uma mera concordância intelectual, pois, como São Tiago afirma, “também os demónios creem” (Tg 2,19). Não é uma espécie de passaporte, uma força interior a exigir que Deus satisfaça os nossos caprichos, como São Tiago também denuncia (Tg 4,3). Não é um compromisso cego, um sentimento arbitrário, um otimismo vazio, uma mera esperança humana. Não é coisa que se oponha à razão. Fé e razão devem ser como Romeu e Julieta, precisam uma da outra e uma implica a outra, completam-se, são duas janelas diferentes de olhar o mundo, duas formas diferentes de procurar a verdade, “duas asas pelas quais o espírito humano se eleva para a contemplação da verdade”, como escreveu São João Paulo II no Prólogo da Fides et Ratio. Fé e razão apoiam-se e dialogam entre si, respeitosamente. A fé apoia-se na autoridade divina e na revelação. A razão baseia-se na lógica, na evidência, na capacidade crítica da mente humana. Ciência e fé respondem a perguntas diferentes e utilizam métodos distintos para compreender a realidade do universo. A ciência investiga o “como” do universo e das suas maravilhas, através de evidências empíricas, de testes e do método científico, quer saber como as coisas funcionam e se formaram. A fé procura responder ao ‘porquê’ do universo, centrando-se no sentido da existência, na origem última e nos valores espirituais que estão fora do alcance observável de qualquer laboratório. A razão protege a fé do fanatismo, da superstição, da credulidade cega, das bruxarias, adivinhos, videntes e quejandos. A fé protege a razão da perda de sentido, do ceticismo absoluto, de possíveis endeusamentos e arrogâncias de autossuficiência.
Como escreve José Ayllón, “os ateus acham que Deus não existe. Os agnósticos dizem que Deus não fala. Os crentes creem que Deus nunca se cala. Por vezes, porém, aqueles que o negam ou o ignoram começam a ouvi-lo na imensa linguagem das galáxias, no elegantíssimo idioma da genética, nos números incríveis da física atómica, na linguagem inefável do amor e ainda no desconcertante significado do sofrimento”.
D, Antonino Dias
Caminha, 11-09-2026.

«Senhor, quantas vezes devo perdoar?

 

https://www.youtube.com/watch?v=6tl9fJyfHTM&list=PLAqKRngqwuSfPdOPEvu7KzjdvMvB1w33f&index=149

A Palavra de Deus que a liturgia do 24º Domingo do Tempo Comum nos propõe fala do perdão. Apresenta-nos um Deus que ama sem cálculos, sem limites e sem medida; e convida-nos a assumir uma atitude semelhante para com os irmãos que, dia a dia, caminham ao nosso lado.

O Evangelho fala-nos de um Deus cheio de bondade e de misericórdia que derrama sobre os seus filhos - de forma total, ilimitada e absoluta - o seu perdão. Os crentes são convidados a descobrir a lógica de Deus e a deixarem que a mesma lógica de perdão e de misericórdia sem limites e sem medida marque a sua relação com os irmãos.
O que significa, realmente, perdoar? Significa ceder sempre diante daqueles que nos magoam e nos ofendem? Significa encolher os ombros e seguir adiante quando nos confrontamos com uma situação que causa morte e sofrimento a nós ou a outros nossos irmãos? Significa "deixar correr" enquanto forem coisas que não nos afectem directamente? Significa pactuar com a injustiça e a opressão? Significa tolerar tudo num silêncio feito de cobardia e de conformismo? Não. O perdão não pode ser confundido com passividade, com alienação, com conformismo, com cobardia, com indiferença... O cristão, diante da injustiça e da maldade, não esconde a cabeça na areia, fingindo que não viu nada... O cristão não aceita o pecado e não se cala diante do que está errado; mas não guarda rancor para com o irmão que falhou, nem permite que as falhas derrubem as possibilidades de encontro, de comunhão, de diálogo, de partilha... Perdoar não significa isolar-se num silêncio ofendido, ou demitir-se das responsabilidades na construção de um mundo novo e melhor; mas significa estar sempre disposto a ir ao encontro, a estender a mão, a recomeçar o diálogo, a dar outra oportunidade.

A primeira leitura deixa claro que a ira e o rancor são sentimentos maus, que não convêm à felicidade e à realização do homem. Mostra como é ilógico esperar o perdão de Deus e recusar-se a perdoar ao irmão; e avisa que a nossa vida nesta terra não pode ser estragada com sentimentos, que só geram infelicidade e sofrimento.
Todos os dias vemos, nas notícias que nos chegam de todos os cantos do mundo, onde nos leva a lógica do "responder na mesma moeda". Para vingar ofensas reais ou imaginárias, desencadeiam-se mecanismos de vingança que são responsáveis pela morte de inocentes, por sofrimentos e dramas sem fim e por uma espiral de violência sem limites e sem prazos. É este o mundo que queremos? A única forma de fazermos respeitar os nossos direitos e a nossa dignidade passará por deixarmos à solta os nossos instintos de vingança, de rancor e de ódio?

Na segunda leitura Paulo sugere aos cristãos de Roma que a comunidade cristã tem de ser o lugar do amor, do respeito pelo outro, da aceitação das diferenças, do perdão. Ninguém deve desprezar, julgar ou condenar os irmãos que têm perspectivas diferentes. Os seguidores de Jesus devem ter presente que há algo de fundamental que os une a todos: Jesus Cristo, o Senhor. Tudo o resto não tem grande importância.
Paulo está consciente de que há vários caminhos válidos para chegar a Cristo e à sua proposta de salvação. Esses caminhos não só não se excluem mas, na sua diversidade, constituem um factor de enriquecimento da nossa experiência comunitária. A comunidade tem de estar consciente de que a diversidade não exclui, necessariamente, a unidade. Por isso, a comunidade cristã não é o lugar da intolerância, da incompreensão, do desrespeito pela diversidade de opiniões, da uniformidade imposta em nome da fé; mas é o lugar do amor, do respeito pelo outro, da aceitação das diferenças, da partilha, do perdão. A este respeito, como classifico a minha comunidade cristã ou religiosa?


https://www.dehonianos.org/

sábado, 12 de setembro de 2026

Sem medo de ter saudades

 



Em cada tempo de recomeço, importa olhar o passado para tentar compreender o caminho, mas também olhar para o futuro, porque não se vive sem olhar em frente.

Os sonhos integram todas as saudades, levando-as connosco e cada vez mais longe.

Há quem prefira não sofrer com perdas e, por isso, a nada se apega. Ora, se é verdade que quem não ama não sofre, também será verdade que só não sofre porque não vive. Amar é a única forma de alguém se realizar.

Há quem julgue que, confiando apenas em si mesmo, chegará mais longe. Na verdade, até pode chegar, mas sem ninguém… e que tristeza é a solidão de quem descobre que, afinal, por mais que tenha alcançado, sozinho, ninguém chega a ser feliz.

Sonhemos sem medo de nunca alcançar o que sonhamos ou de perder o que conquistámos. Sonhemos sem medo de nos tornarmos alguém com ainda mais saudades.

Aquilo que temos, amanhã, já terá passado, mas o que somos será a base do que seremos. A perda edifica-nos, constrói-nos, revela-nos o quanto amamos.

A saudade contém dor, porque nasce de uma ausência, mas também gratidão, porque é a prova de que algo magnífico existiu. A saudade dói, mas é um tesouro que se enriquece a cada dia.

Talvez seja bom sermos capazes de valorizar o dia de hoje, porque muito em breve tudo isto fará parte do passado. Cada instante é irrepetível, e quanto melhor vivermos, maior será a saudade.

E que tristeza será a de quem não sente saudades, mas apenas arrependimentos…

José Luís Nunes Martins

sexta-feira, 11 de setembro de 2026

Papa reforça alertas sobre desenvolvimento da IA e pede bispos de «coração aberto a todos»


Leão XIV encontrou-se com responsáveis dos cinco continentes

Leão XIV falava com 147 bispos dos cinco continentes, incluindo o português D. Pedro Fernandes (bispo de Portalegre-Castelo Branco), nomeados no último ano, que participam num curso de formação promovido por vários organismos do Vaticano.
Foto: Vatican Media
Cidade do Vaticano, 10 set 2026 (Ecclesia) – O Papa assinalou hoje, no Vaticano, os desafios colocados pelo desenvolvimento tecnológico, recordando que as inovações se mostram incapazes de travar as consequências das crises globais.

“Os desenvolvimentos das tecnologias da comunicação e da inteligência artificial abriram possibilidades que, até há poucos anos, nem sequer teríamos imaginado, mas, certamente, não podem libertar a humanidade do pecado e das suas consequências: demonstram-no tragicamente as crises que ela atravessa”, referiu Leão XIV, numa intervenção divulgada pela sala de imprensa da Santa Sé.

O Papa falava com 147 bispos dos cinco continentes, incluindo o português D. Pedro Fernandes (bispo de Portalegre-Castelo Branco), nomeados no último ano, que participam num curso de formação promovido por vários organismos do Vaticano.

“Nenhum bispo caminha sozinho”, destacou aos participantes.

A intervenção apontou a encíclica ‘Magnifica Humanitas’ como ” uma visão e um método para enfrentar o grande desafio da salvaguarda do humano na era da inteligência artificial”.

“Encorajo-vos a promover nas vossas dioceses percursos de reflexão e de diálogo, a fim de formar e apoiar quantos se desejam empenhar ao serviço da civilização do amor”, instou o Papa.

Leão XIV exortou os presentes a exercerem a sua autoridade como “um serviço de amor”, dando prioridade à proximidade pastoral e ao cuidado com os sacerdotes das respetivas dioceses.

“Amai as pessoas que o Senhor vos confiou. Aprendei os seus nomes, escutai as suas histórias, entrai, sempre que puderdes, nas suas casas, rezai com elas. Especialmente nas jovens Igrejas, muitas vezes a presença do bispo diz muitíssimo, antes mesmo das suas palavras”, recomendou.

Tende uma atenção particular para com os mais idosos e os doentes. Fazei-os sentir que são preciosos, que a Igreja lhes está grata e que o bispo não os esquece. Por vezes, basta um telefonema, uma visita, uma palavra afetuosa da vossa parte.”Foto: Vatican Media

O Papa evocou o pensamento de Santo Agostinho sobre o compromisso profundo com a comunidade diocesana, citando a frase “para vós sou bispo, convosco sou cristão”.

Leão XIV dedicou particular atenção aos responsáveis das “Igrejas jovens”, desafiando-os a cultivarem um coração missionário que vá para além do limite dos membros habituais na vida das comunidades.

“O bispo missionário tem um coração aberto a todos: não apenas àqueles que frequentam as nossas paróquias, mas também aos cristãos de outras confissões, aos crentes de outras religiões, às pessoas que não professam uma fé, a todos os homens e mulheres de boa vontade”, sustentou.

A audiência no Vaticano encerrou os trabalhos do curso de formação ‘Bispos, servidores da comunhão na Igreja e no mundo de hoje’, promovido por três Dicastérios da Santa Sé.

Em declarações à Agência ECCLESIA e Renascença, D. Pedro Fernandes falou de “um encontro muito interessante, de muita proximidade”, com oportunidade para os bispos “colocarem perguntas ou partilharem reações, preocupações” ao Papa.

“O balanço final é muito positivo, claro”, acrescentou.

OC

O grito do silêncio




Dirigia-me para o meu gabinete quando vi, à distância, um homem a caminhar lentamente, como se arrastasse os pés num chão que já não reconhece.

Trazia o rosto sulcado em lágrimas, e o corpo curvado como se carregasse o peso de um mundo inteiro.

Reconheci-o de imediato. Era o pai de um jovem que acabara de ser internado no hospital, o único filho do casal.

Conversara comigo dias antes, de forma absolutamente casual, quando o viera trazer à consulta de psiquiatria.

Agora era diferente. Trazia-o para ficar.

A mãe, vencida pela dor de imaginar o filho dentro das paredes de um hospital, não tivera forças para vir agora trazê-lo ao internamento. Restava ali o pai, sozinho, entregue a uma dor que lhe atravessava o coração.

Assim que me viu ergueu os olhos vermelhos e, num misto de raiva e tristeza, disse-me:

- Isto é uma injustiça. É o meu único filho… O único que Deus nos deu… e agora está ali dentro, fechado, por uma doença que nem eu consigo compreender. Eu queria gritar, queria rasgar este silêncio. Mas não tenho onde… E perdi a fé. Sinto-me enganado por Deus.


Não tentei responder. As suas palavras eram como pedras atiradas ao céu. Senti nelas o eco de muitos outros pais e de muitas outras mães que, diante da dor, viam a fé vacilar.

Coloquei a mão no seu ombro e disse-lhe:

- Venha comigo.

Conduzi-o até à capela do hospital. O espaço estava vazio, envolto numa penumbra serena. As velas ardiam diante do sacrário, e o silêncio era tão profundo que parecia conter todas as lágrimas do mundo.

Parámos no meio da nave. Voltei-me para ele e disse-lhe:

- Aqui pode gritar à vontade. Grite toda a sua dor, a sua revolta, o seu silêncio pesado. Aqui não precisa de calar nada. Se quiser insultar a vida, pode fazê-lo. Se quiser exigir contas a Deus, exija-as. Ele aguenta os nossos gritos. O próprio Cristo, na cruz, também gritou: “Meu Deus, meu Deus, porque me abandonaste?”

O homem ficou parado, hesitante. Depois, começou a chorar mais forte. Primeiro em murmúrio, depois em soluços, até que a voz se transformou num grito que ecoou pelas paredes da capela.

- PORQUÊ? PORQUÊ, SENHOR? - gritou em voz bem alta, erguendo os braços. – É O MEU FILHO! ERA O ÚNICO! NÃO ME TIRES A ESPERANÇA!

A voz dele misturava-se com o choro, e parecia que toda a sua vida se derramava naquele instante. Não havia medida nem contenção. Era o grito cru de um pai despojado de tudo.

Permaneci em silêncio, pretendendo respeitar aquele desabafo.

Naquele clamor, não havia blasfémia, mas oração. Era o lamento de um coração humano ferido que, mesmo dizendo ter perdido a fé, ainda tinha a ousadia de se dirigir a Deus.

Quando finalmente se calou, exausto, caiu de joelhos. O silêncio voltou a encher a capela, mas agora era diferente: já não era o silêncio pesado da revolta, era o silêncio fecundo de quem, tendo despejado tudo, podia finalmente descansar.

Aproximei-me, ajoelhei-me ao lado dele e Disse-lhe:

- A fé não se perde quando gritamos contra Deus. A fé perde-se quando deixamos de falar com Ele. E, ainda agora, falou com Deus. Não tenha vergonha do que acabou de fazer. Não creio que Deus se ofenda com o grito de um pai que sofre pelo filho. Às vezes, gritar também é uma maneira de rezar.

O homem olhou-me, com os olhos ainda marejados. Não respondeu. Apenas ficou ali, ajoelhado, como se o peso tivesse diminuído um pouco. Acendeu uma vela, com as mãos a tremer, e colocou-a diante do altar. Depois, levantou-se lentamente e saiu comigo.

Não acrescentei mais nada. Ele seguiu o seu caminho, e eu fiquei a vê-lo desaparecer, carregando ainda o peso da vida... mas, se calhar, também uma chama ténue, frágil, que nem ele sabia se queria ou não guardar.

O hospital voltou ao seu silêncio. O resto ficou por dizer.



Fernando d'Oliveira

quinta-feira, 10 de setembro de 2026

Recomeços

 


Setembro é, para muitos de nós, um mês de recomeços. O descanso, o sossego e as férias dão lugar ao retorno à rotina. Parece que o filme da nossa vida do dia-a-dia tinha sido deixado em suspenso e, agora, volta tudo ao que era antes.

Será assim?

Por um lado, pode ser que seja. Retomamos as rotinas, o percurso diário de casa para o trabalho, o tempo contado para tudo, a ansiedade e a confusão de mãos dadas com a pressa e com o ter-de-fazer.

Por outro, também podemos optar por entender este momento como um convite e uma oportunidade para fazer diferente. Um recomeço não implica necessariamente que se faça tudo igual. E, mais ainda, um recomeço não tem de chegar em setembro, em janeiro ou em datas específicas de um calendário.

O convite ao(s) recomeço(s) está sempre feito pela própria vida. Nós é que vamos assumindo demasiadas zonas de conforto e teimamos em descartá-lo como se não tivéssemos alternativas. Temos sempre.

Temos sempre a possibilidade de fazer diferente.

De olhar para as coisas como se fosse a primeira vez.

De trazer amor às rotinas aborrecidas.

De percorrer outros caminhos.

De olhar mais vezes para o céu e menos vezes para o chão.

De tentar ter mais paciência ou empatia com aquela pessoa que nos enerva ou desconcerta, por muito que seja difícil.

De olhar para nós com mais apreço e alegria.

De não tomar tudo como garantido.

Enquanto houver vida, haverá sempre a possibilidade de recomeçar.

Enquanto houver vida, há caminho. Que nos sobre coragem para o descobrir uma e outra vez.


 Marta Arrais,