sábado, 12 de setembro de 2026

Sem medo de ter saudades

 



Em cada tempo de recomeço, importa olhar o passado para tentar compreender o caminho, mas também olhar para o futuro, porque não se vive sem olhar em frente.

Os sonhos integram todas as saudades, levando-as connosco e cada vez mais longe.

Há quem prefira não sofrer com perdas e, por isso, a nada se apega. Ora, se é verdade que quem não ama não sofre, também será verdade que só não sofre porque não vive. Amar é a única forma de alguém se realizar.

Há quem julgue que, confiando apenas em si mesmo, chegará mais longe. Na verdade, até pode chegar, mas sem ninguém… e que tristeza é a solidão de quem descobre que, afinal, por mais que tenha alcançado, sozinho, ninguém chega a ser feliz.

Sonhemos sem medo de nunca alcançar o que sonhamos ou de perder o que conquistámos. Sonhemos sem medo de nos tornarmos alguém com ainda mais saudades.

Aquilo que temos, amanhã, já terá passado, mas o que somos será a base do que seremos. A perda edifica-nos, constrói-nos, revela-nos o quanto amamos.

A saudade contém dor, porque nasce de uma ausência, mas também gratidão, porque é a prova de que algo magnífico existiu. A saudade dói, mas é um tesouro que se enriquece a cada dia.

Talvez seja bom sermos capazes de valorizar o dia de hoje, porque muito em breve tudo isto fará parte do passado. Cada instante é irrepetível, e quanto melhor vivermos, maior será a saudade.

E que tristeza será a de quem não sente saudades, mas apenas arrependimentos…

José Luís Nunes Martins

sexta-feira, 11 de setembro de 2026

Papa reforça alertas sobre desenvolvimento da IA e pede bispos de «coração aberto a todos»


Leão XIV encontrou-se com responsáveis dos cinco continentes

Leão XIV falava com 147 bispos dos cinco continentes, incluindo o português D. Pedro Fernandes (bispo de Portalegre-Castelo Branco), nomeados no último ano, que participam num curso de formação promovido por vários organismos do Vaticano.
Foto: Vatican Media
Cidade do Vaticano, 10 set 2026 (Ecclesia) – O Papa assinalou hoje, no Vaticano, os desafios colocados pelo desenvolvimento tecnológico, recordando que as inovações se mostram incapazes de travar as consequências das crises globais.

“Os desenvolvimentos das tecnologias da comunicação e da inteligência artificial abriram possibilidades que, até há poucos anos, nem sequer teríamos imaginado, mas, certamente, não podem libertar a humanidade do pecado e das suas consequências: demonstram-no tragicamente as crises que ela atravessa”, referiu Leão XIV, numa intervenção divulgada pela sala de imprensa da Santa Sé.

O Papa falava com 147 bispos dos cinco continentes, incluindo o português D. Pedro Fernandes (bispo de Portalegre-Castelo Branco), nomeados no último ano, que participam num curso de formação promovido por vários organismos do Vaticano.

“Nenhum bispo caminha sozinho”, destacou aos participantes.

A intervenção apontou a encíclica ‘Magnifica Humanitas’ como ” uma visão e um método para enfrentar o grande desafio da salvaguarda do humano na era da inteligência artificial”.

“Encorajo-vos a promover nas vossas dioceses percursos de reflexão e de diálogo, a fim de formar e apoiar quantos se desejam empenhar ao serviço da civilização do amor”, instou o Papa.

Leão XIV exortou os presentes a exercerem a sua autoridade como “um serviço de amor”, dando prioridade à proximidade pastoral e ao cuidado com os sacerdotes das respetivas dioceses.

“Amai as pessoas que o Senhor vos confiou. Aprendei os seus nomes, escutai as suas histórias, entrai, sempre que puderdes, nas suas casas, rezai com elas. Especialmente nas jovens Igrejas, muitas vezes a presença do bispo diz muitíssimo, antes mesmo das suas palavras”, recomendou.

Tende uma atenção particular para com os mais idosos e os doentes. Fazei-os sentir que são preciosos, que a Igreja lhes está grata e que o bispo não os esquece. Por vezes, basta um telefonema, uma visita, uma palavra afetuosa da vossa parte.”Foto: Vatican Media

O Papa evocou o pensamento de Santo Agostinho sobre o compromisso profundo com a comunidade diocesana, citando a frase “para vós sou bispo, convosco sou cristão”.

Leão XIV dedicou particular atenção aos responsáveis das “Igrejas jovens”, desafiando-os a cultivarem um coração missionário que vá para além do limite dos membros habituais na vida das comunidades.

“O bispo missionário tem um coração aberto a todos: não apenas àqueles que frequentam as nossas paróquias, mas também aos cristãos de outras confissões, aos crentes de outras religiões, às pessoas que não professam uma fé, a todos os homens e mulheres de boa vontade”, sustentou.

A audiência no Vaticano encerrou os trabalhos do curso de formação ‘Bispos, servidores da comunhão na Igreja e no mundo de hoje’, promovido por três Dicastérios da Santa Sé.

Em declarações à Agência ECCLESIA e Renascença, D. Pedro Fernandes falou de “um encontro muito interessante, de muita proximidade”, com oportunidade para os bispos “colocarem perguntas ou partilharem reações, preocupações” ao Papa.

“O balanço final é muito positivo, claro”, acrescentou.

OC

O grito do silêncio




Dirigia-me para o meu gabinete quando vi, à distância, um homem a caminhar lentamente, como se arrastasse os pés num chão que já não reconhece.

Trazia o rosto sulcado em lágrimas, e o corpo curvado como se carregasse o peso de um mundo inteiro.

Reconheci-o de imediato. Era o pai de um jovem que acabara de ser internado no hospital, o único filho do casal.

Conversara comigo dias antes, de forma absolutamente casual, quando o viera trazer à consulta de psiquiatria.

Agora era diferente. Trazia-o para ficar.

A mãe, vencida pela dor de imaginar o filho dentro das paredes de um hospital, não tivera forças para vir agora trazê-lo ao internamento. Restava ali o pai, sozinho, entregue a uma dor que lhe atravessava o coração.

Assim que me viu ergueu os olhos vermelhos e, num misto de raiva e tristeza, disse-me:

- Isto é uma injustiça. É o meu único filho… O único que Deus nos deu… e agora está ali dentro, fechado, por uma doença que nem eu consigo compreender. Eu queria gritar, queria rasgar este silêncio. Mas não tenho onde… E perdi a fé. Sinto-me enganado por Deus.


Não tentei responder. As suas palavras eram como pedras atiradas ao céu. Senti nelas o eco de muitos outros pais e de muitas outras mães que, diante da dor, viam a fé vacilar.

Coloquei a mão no seu ombro e disse-lhe:

- Venha comigo.

Conduzi-o até à capela do hospital. O espaço estava vazio, envolto numa penumbra serena. As velas ardiam diante do sacrário, e o silêncio era tão profundo que parecia conter todas as lágrimas do mundo.

Parámos no meio da nave. Voltei-me para ele e disse-lhe:

- Aqui pode gritar à vontade. Grite toda a sua dor, a sua revolta, o seu silêncio pesado. Aqui não precisa de calar nada. Se quiser insultar a vida, pode fazê-lo. Se quiser exigir contas a Deus, exija-as. Ele aguenta os nossos gritos. O próprio Cristo, na cruz, também gritou: “Meu Deus, meu Deus, porque me abandonaste?”

O homem ficou parado, hesitante. Depois, começou a chorar mais forte. Primeiro em murmúrio, depois em soluços, até que a voz se transformou num grito que ecoou pelas paredes da capela.

- PORQUÊ? PORQUÊ, SENHOR? - gritou em voz bem alta, erguendo os braços. – É O MEU FILHO! ERA O ÚNICO! NÃO ME TIRES A ESPERANÇA!

A voz dele misturava-se com o choro, e parecia que toda a sua vida se derramava naquele instante. Não havia medida nem contenção. Era o grito cru de um pai despojado de tudo.

Permaneci em silêncio, pretendendo respeitar aquele desabafo.

Naquele clamor, não havia blasfémia, mas oração. Era o lamento de um coração humano ferido que, mesmo dizendo ter perdido a fé, ainda tinha a ousadia de se dirigir a Deus.

Quando finalmente se calou, exausto, caiu de joelhos. O silêncio voltou a encher a capela, mas agora era diferente: já não era o silêncio pesado da revolta, era o silêncio fecundo de quem, tendo despejado tudo, podia finalmente descansar.

Aproximei-me, ajoelhei-me ao lado dele e Disse-lhe:

- A fé não se perde quando gritamos contra Deus. A fé perde-se quando deixamos de falar com Ele. E, ainda agora, falou com Deus. Não tenha vergonha do que acabou de fazer. Não creio que Deus se ofenda com o grito de um pai que sofre pelo filho. Às vezes, gritar também é uma maneira de rezar.

O homem olhou-me, com os olhos ainda marejados. Não respondeu. Apenas ficou ali, ajoelhado, como se o peso tivesse diminuído um pouco. Acendeu uma vela, com as mãos a tremer, e colocou-a diante do altar. Depois, levantou-se lentamente e saiu comigo.

Não acrescentei mais nada. Ele seguiu o seu caminho, e eu fiquei a vê-lo desaparecer, carregando ainda o peso da vida... mas, se calhar, também uma chama ténue, frágil, que nem ele sabia se queria ou não guardar.

O hospital voltou ao seu silêncio. O resto ficou por dizer.



Fernando d'Oliveira

quinta-feira, 10 de setembro de 2026

Recomeços

 


Setembro é, para muitos de nós, um mês de recomeços. O descanso, o sossego e as férias dão lugar ao retorno à rotina. Parece que o filme da nossa vida do dia-a-dia tinha sido deixado em suspenso e, agora, volta tudo ao que era antes.

Será assim?

Por um lado, pode ser que seja. Retomamos as rotinas, o percurso diário de casa para o trabalho, o tempo contado para tudo, a ansiedade e a confusão de mãos dadas com a pressa e com o ter-de-fazer.

Por outro, também podemos optar por entender este momento como um convite e uma oportunidade para fazer diferente. Um recomeço não implica necessariamente que se faça tudo igual. E, mais ainda, um recomeço não tem de chegar em setembro, em janeiro ou em datas específicas de um calendário.

O convite ao(s) recomeço(s) está sempre feito pela própria vida. Nós é que vamos assumindo demasiadas zonas de conforto e teimamos em descartá-lo como se não tivéssemos alternativas. Temos sempre.

Temos sempre a possibilidade de fazer diferente.

De olhar para as coisas como se fosse a primeira vez.

De trazer amor às rotinas aborrecidas.

De percorrer outros caminhos.

De olhar mais vezes para o céu e menos vezes para o chão.

De tentar ter mais paciência ou empatia com aquela pessoa que nos enerva ou desconcerta, por muito que seja difícil.

De olhar para nós com mais apreço e alegria.

De não tomar tudo como garantido.

Enquanto houver vida, haverá sempre a possibilidade de recomeçar.

Enquanto houver vida, há caminho. Que nos sobre coragem para o descobrir uma e outra vez.


 Marta Arrais,

quarta-feira, 9 de setembro de 2026

O NÃO SABER LEVA À INCRUDELIDADE

O NÃO SABER LEVA À INCRUDELIDADE

É uma verdade de La Palice, o qual, se não tivesse morrido, ainda hoje era vivo. Conta-se que, Luís IX, Rei de França, falecido a 25 de agosto de 1270, certo dia recebeu um Embaixador, estrangeiro, que junto dele fora tratar de negócios de Estado. No fim da audiência, o Embaixador recebeu um documento assinado pelo Rei, assim: “Luís, Rei dos Franceses”, e despediu-se com estas palavras lisonjeiras: “Vossa Majestade deve sentir-se feliz ao assinar: “Luís, Rei dos Franceses”. O Rei concentrou-se uns momentos e, depois, com os olhos fitos no Embaixador, respondeu: “A minha maior glória é poder assinar as minhas cartas particulares com: “Luís de Poissy”. Perante a incompreensão do Embaixador, o Rei explicou: “Poissy é uma pequena terra de França, uma terra quase desconhecida, mas foi nessa terra que eu recebi o Batismo e com o Batismo, a fé. E ser crente é a minha maior glória”. Ele sabia apreciar a fé. Sabia que a fé é um tesouro, um dom gratuito de Deus, um dom inestimável e necessário para a salvação. Sabia que crer é um ato humano, consciente e livre, que está de acordo com a dignidade da natureza humana, é um ato eclesial.
Porque será que muitos cristãos não apreciam devidamente este dom de Deus? Porque será que muitos vivem praticamente como que se não acreditassem? Esta é uma realidade que causa mossa. Ainda há muitos povos que desconhecem o Deus verdadeiro, o Filho de Deus que veio ao mundo, a obra da redenção, a Igreja, a vida cristã, é certo. Mas serão apenas esses aqueles a quem a luz do Evangelho ainda não chegou? Infelizmente, não. Acho que dentro da Igreja há muitos incrédulos batizados, incrédulos confirmados, incrédulos que receberam o sacramento do matrimónio, incrédulos que, porventura, até se confessam e comungam.
“Cala-te, que estás a exagerar”, estar-me-ão a repreender alguns dos leitores. Aceito o reparo, mas acho que este é um dos grandes males com que a Igreja se enfrenta. Um dos caminhos que conduzem a este estado de coisas é a falta de conhecimento dos fundamentos da fé e a pouca ou nenhuma apetência para os querer saber. E, talvez também, a falta de jeito ou de competência para fazer passar a mensagem que se impõe dar a conhecer. O que é certo é que a ignorância leva à incredulidade. Naquele encontro noturno entre Jesus e Nicodemos – aquele chefe judeu que parece ter vergonha de o procurar de dia – Jesus explica-lhe que ninguém pode entrar no Reino de Deus senão nascer da água e do Espírito Santo, isto é, se não receber o Batismo de Jesus e não acreditar n’Ele (cf. Jo 3,1...). O fariseu não entendeu bem e perguntou: “Como pode um homem nascer, sendo velho?”. Jesus respondeu-lhe, assim um pouco em tom de censura: - “Tu és mestre em Israel e ignoras estas coisas?”. Sem querer apontar o dedo a quem quer que seja, esta mesma realidade podemos nós encontrá-la em muitos dos cristãos que se têm como mestres em Israel, mas ignoram as verdades mais rudimentares da fé. Apesar disso, uma das maiores tendências que as pessoas têm é discutir sobre questões religiosas. Quando não se sabe, em princípio não se discute sobre medicina, física, biologia, astronomia, sobre tudo aquilo do qual não se tem conhecimento. Questões de religião, porém, quase toda a gente se julga mestre em Israel: na praça, no clube, na associação, no café, na taberna, onde quer que for... Apesar de se discutir sobre aquilo que apenas se intui, se supõe ou se inventa, mesmo assim, eu olho isso pelo lado positivo. Acho que, bem lá no fundo de cada pessoa, há um grito de eternidade que incomoda, que não se cala e faz reagir de alguma forma! É que “Deus invisível, na riqueza do seu amor, fala aos homens como amigos e convive com eles, para os convidar e admitir à comunhão com Ele”. A resposta adequada a este convite é a fé. E a fé é um ato pessoal, uma resposta livre do homem à proposta de Deus que se revela. Mas não é um ato isolado. Ninguém pode acreditar sozinho, tal como ninguém pode viver só. Ninguém se deu a fé a si mesmo, como ninguém a si mesmo deu a vida. Foi de outrem que o crente recebeu a fé; a outrem a deve transmitir” (CIC166). Ninguém ama o que não conhece!
Que honra e brio poderá ter um doutor, um médico, um advogado, um professor, um agricultor, um governante se não sabe porque linhas se cose nas próprias áreas em que atua? Que honra e brio poderá sentir um cristão, mesmo que seja pai, doutor, advogado, professor, agricultor, médico, político, governante, se inerente à sua fé não está o desejo de conhecer melhor Aquele em quem acredita e de compreender melhor o que Ele revelou e para quê?
Pode haver, com certeza, muita boa gente batizada, com cursos académicos, com muita cultura, dedicados de alma e coração às ciências, às artes, à liderança dos povos e ao bem comum, que nunca se esforçou por gastar – não digo perder, digo gastar – que nunca se esforçou por gastar algum tempo com Aquele que lhe dá todo o tempo e o sopro da própria vida. Que alguém não tenha interesse por esta ou aquela dimensão do saber, entende-se. Mas que um cristão ignore ou até sinta orgulho em não saber os rudimentos da fé, não é muito curial. E isso tem consequências imediatas: a incredulidade. E do abandono ao desprezo da fé vai um passo, por vezes orgulhosamente assumido. Ora, Jesus Cristo esteve durante três horas na cruz para nos resgatar, mas durante três anos percorreu todas as terras da Judeia para nos instruir. Ensinou os pobres, os ricos, os doutores, os doentes, os sacerdotes, os governantes, todos sem exceção. Correu cidades e aldeias, ensinou por toda a parte, sem descanso! E para quê? Para que todos os seus discípulos e pessoas de boa vontade não ignorassem as verdades indispensáveis para a salvação. E antes de partir para o Pai, disse aos seus discípulos: “Foi-me dado todo o poder no Céu e na Terra. Ide, pois, fazei discípulos de todos os povos, batizando-os em nome do Pai, do filho e do Espírito Santo, ensinando-os a cumprir tudo quanto vos tenho mandado. E sabei que Eu estarei sempre convosco até ao fim dos tempos” (Mt 28, 18-20).

D. Antonino Dias
Caminha, 05-09-2026.

terça-feira, 8 de setembro de 2026

Corrigir sem humilhar: a coragem de falar com o outro

 




Quando alguém nos magoa ou erra, há uma tentação muito humana: escolher uma terceira pessoa antes da primeira. Contamos o que aconteceu, procuramos confirmação, repetimos a história. Às vezes chamamos-lhe desabafo; outras vezes, preocupação. Mas a pessoa de quem falamos continua fora da conversa.

No Evangelho segundo São Mateus, Jesus propõe outro caminho: começar pelo encontro. «vai ter com ele e repreende-o a sós.» (cf. Mt 18,15). No Angelus deste domingo, 6 de setembro, o Papa Leão XIV voltou a apresentar a correção fraterna como uma «arte delicada» que exige franqueza e gradualidade. Primeiro, a sós; depois, se for necessário, com a ajuda de outros; só então com a comunidade. O objetivo não é aumentar a exposição, mas criar possibilidades de verdade e reconciliação.

A coragem de dizer e a delicadeza de preservar

Falar diretamente parece simples até chegar a nossa vez. Há o medo de ferir, de perder a relação, de sermos mal interpretados. E há também uma razão menos nobre: falar sobre alguém pode ser mais confortável do que assumir a vulnerabilidade de falar com essa pessoa.

O saudoso Papa Francisco, a 10 de setembro de 2023, apontava precisamente o perigo da coscuvilhice: o erro torna-se conhecido por todos, menos por quem precisaria de ser confrontado com ele. A correção fraterna segue a direção contrária. Procura a lealdade do encontro e uma coragem que não precisa de humilhar para dizer a verdade.

Enzo Bianchi acrescenta um critério importante: quem corrige deve fazê-lo com humildade, clareza e no momento oportuno, protegendo a vergonha do outro em vez de a expor. Isto muda profundamente a lógica da correção. Já não se trata de provar que temos razão, de descarregar irritação ou de marcar uma fronteira entre os certos e os errados. Trata-se de assumir responsabilidade por uma relação ferida.

Uma dívida que nunca fica liquidada

Leão XIV começa a sua reflexão por uma expressão de São Paulo: «Não fiqueis a dever nada a ninguém, a não ser isto: amar-vos uns aos outros» (Rm 13,8). A imagem desloca a correção fraterna para um lugar exigente. Corrigir pode ser uma forma de amor quando nasce do desejo de bem do outro e da comunidade; pode deixar de o ser quando serve a superioridade, a vingança ou a exposição.

Por isso, nem toda a crítica é correção fraterna. A pergunta cristã não é apenas se aquilo que dizemos é verdade. Importa também por que o dizemos, como o dizemos e o que esperamos que aconteça depois. A verdade pode ser usada como arma. O Evangelho pede que ela seja colocada ao serviço da comunhão.

Isto não significa fingir que nada aconteceu, evitar conflitos ou confundir misericórdia com permissividade. As três leituras insistem num caminho concreto e gradual. Há erros que precisam de ser nomeados; há situações em que é necessária a intervenção de outras pessoas ou da própria comunidade. Mas mesmo aí o horizonte não é o pelourinho. É procurar, tanto quanto for possível, que quem errou reconheça o mal, possa mudar e não seja reduzido para sempre ao seu erro.

Talvez por isso a correção fraterna seja tão difícil: obriga-nos a permanecer próximos quando seria mais fácil afastar, comentar ou condenar. E recorda-nos que ninguém ocupa definitivamente o lugar de quem corrige. Hoje podemos ajudar alguém a ver melhor; amanhã seremos nós a precisar de uma palavra dita com verdade e misericórdia.

Uma comunidade cristã não se mede pela ausência de conflitos. Mede-se também pelo modo como os atravessa: se transforma o erro em espetáculo ou em ocasião de conversão; se acumula versões sobre uma pessoa ou encontra coragem para ir ao seu encontro; se usa a verdade para vencer ou para reconstruir.

Falar com o outro, antes de falar sobre o outro, pode ser um dos gestos mais discretos — e mais exigentes — da caridade.


Razões para Acreditar

segunda-feira, 7 de setembro de 2026

GANHAR O IRMÃO!

 


GANHAR O IRMÃO!

Vejo em mim e ao meu redor muita paz, beleza, amor e paixão. Mas também muita raiva e violência, vitimização e desânimo. Vejo pessoas agressivas, descontentes, mexeriqueiras, sempre prontas para acusar, julgar, denegrir, justificar-se.
E é normal que assim seja. É instintivo. Viemos da lama. E pensamos que, afinal, não existem outras formas de ser, de viver, de se relacionar.
Jesus, como sempre, faz novas todas as coisas. Começa por nos dizer: “Se o teu irmão te ofender vai ter com ele”.
Habitualmente, as coisas não funcionam assim. Se alguém te OFENDE, tu ficas à ESPERA de que essa pessoa que te OFENDEU, que se chateou contigo, que VENHA TER CONTIGO e te peça desculpa pelo gesto, pelo ato que fez.
Repara que Jesus troca realmente os papéis e diz uma outra coisa que é: “Tu, que foste o ofendido, vai ter com aquele que te ofendeu”.
Vai com delicadeza, prudência, humildade, de um pecador a outro pecador. Tu a tu. Olhos nos olhos. Coração a coração. Não nos apeguemos ao nosso orgulho ferido.
Tenhamos a coragem de conversar, esclarecer, perguntar... encontrar um ponto de encontro. Sem ataques, sem julgamentos...
“Se te escutar, terás ganho o teu irmão” (Mt 18,15).
O importante é ganhar o irmão e não provar-lhe que eu é que tenho razão.
Se ele não te escutar... não desistas!
Convida outros para te ajudar... fala com a tua comunidade.
Se mesmo assim não ganhaste o irmão resta a ESPERANÇA: “nunca dês por perdido o teu irmão”.
Por isso, este é, talvez, o passo mais difícil, o mais radical: não abandonar ninguém à sua sorte, não desistir de ninguém, mas amar ainda mais essa pessoa, rezar por ela, e procurá-la sem desistir, até a encontrar, movidos sempre por aquele amor que tudo espera (1 Cor 13,7).

Padre João Torres
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