Há dias, entrando numa dessas superfícies onde há milhares de milhentas coisas de que eu não preciso, passei pela secção dos livros, uma secção bem mais aliviada daquele frenesim que por lá se mexe e remexe. Dei volta, olhei, peguei, folheei, reconheci o autor e trouxe ‘O Século dos Imbecis’, de Valter Hugo Mãe. Dentro do valor da obra, da arte na escrita e da valia do autor, gosto de leituras que disponham bem, que tenham humor, que façam rir, que deixem marca e conteúdo, que enriqueçam. O mundo, mesmo que se divirta sob muitas e variadas formas, inclusive sob a desafinada polifonia de políticos a lerem fora da pauta com prejuízo da arte nobre que é a política, o mundo – dizia eu -, anda demasiadamente macambúzio, vive sem grande apreço pela beleza, pela graça, pela jocosidade. Sem se sair de casa, os livros são um excelente tgv para, sem necessidade de gps, nos levarem às lonjuras geográficas e humanas, nem que seja até à Malandrinha, à sua gente e gente de ao redor, sem esquecer os principais protagonistas que animam a sua história, cada um ao seu jeito e propósito. Carreguei o livro como se fosse uma balança digital de referência com fita métrica associada. Sem receio da obesidade ou da magreza, senti vontade de me pesar, medir e ver se estaria dentro dessa plêiade emburrada que enche o século de imbecis, ou se ainda poderia afirmar como José Régio no seu ‘Cântico Negro’: “Sei que não vou por aí”.
Ainda não conclui o empreendimento. Vou indo, como quem aprecia um doce que desejaria não acabasse. Atendendo, porém, à mensagem da parábola do trigo e do joio (Mt 13, 24-30), estou convencido que muita coisa me vai dar pela barba. No mundo, há trigo e joio a crescerem juntos. Cada um de nós também é um mundo: e que mundo! Aí, também há joio e trigo, subidas e descidas, montanhas e vilas, lucidez e confusão, interesses e desinteresses, luz e trevas, noite e dia... e quem disser que não, que atire a primeira pedra! (cf. Jo 8, 7).
O Marquês da Malandrinha é o protagonista principal do livro, mas, para dar título a este texto, deitei mão da Pessivista, achei graça ao termo e à personagem. É uma “ativista pessimista” de se lhe tirar o chapéu. Entre as suas ações e influências, positivas e negativas, ela policia “os costumes para impor limites à euforia e ao deslumbre”, assim diz o autor sobre todos os pessimistas. São gente “cujo feitio inquina as boas intenções e não vê senão a óbvia derrocada das condutas humanas ... são agentes de corrosão que assinalam a derrocada do que ainda só começa a ser construído ... adoram responsabilizar e exigem indemnizações, compensações, reversões, demissões, direitos, muita igualdade”. Onde diabo é que eu já ouvi destas aves agoirentas, logo ampliadas pelos altifalantes dos pica-miolos?!... Sim, os pica-miolos existem, resistem, insistem, persistem, não desistem de martelar no sótão de qualquer bípede humano, por mais justo e expedito que seja. O objetivo é colocar-lhes a paciência a pique, ko, nocaute. Dizem os estudiosos que o pica-pau – não o antropomórfico de walter Lantz, mas o conhecido entre nós por Peto -, dizem que bate o bico 100 vezes por minuto sobre o tronco das árvores para se alimentar de larvas e insetos e fazer o seu ninho. Os pica-miolos, porém, vão muitíssimo mais além! Se o fizessem num só minuto apenas, seria suportável. Mas fazem-no até à exaustão, noite e dia, dia e noite, tarde e manhã, manhã e tarde, em toda a parte e por todos os meios: o zapping é testemunha! Também sabemos que os pica-cebola - os de carne e osso -, muitas vezes não resistem aos sulfuretos e enzimas que as cebolas libertam ao serem descascadas e sacrificadas em prol dos pitéus culinários. Choram e choram, não por comoção e pena da cebola, mas para lavar, limpar e defender os olhos daquele gás ácido com que a cebola tenta defender-se. Os pica-miolos, mesmo que os descascados estrebuchem, esperneiem, barafustem e lhes arremessem o ácido da sua indignação até à sua consciência, não sentem comoção nem pena, não choram, têm prazer em torturar de forma lenta e persistente. Uns baseiam-se no dever de informar, querem chegar primeiro, vender o produto e manifestar trabalho, competência e zelo: repetem, repetem, repetem, repetem, uf... são fãs de Napoleão, o qual teria dito que a melhor figura de retórica é a repetição; outros apoiam-se no direito de ser informados, mesmo que isso venha a manifestar curiosidade mórbida e apenas interesse em abater o alvo: exigem mais explicações, e mais, e mais, e mais, e mais: uma exigência sempre em aberto e nunca satisfeita. Outros ainda reclamam o dever de escrutinar, sem que o escrutínio tenha limites ou linhas vermelhas, logo degenerando em fofoquice: e mais isto que a lei diz e eu interpreto assim, e mais aquilo que vem de fonte fidedigna, e mais tal e tal que eu li nas páginas amarelas, e mais aquilo que me disse um amigo do meu amigo no café da esquina, ih...
É verdade que não é tudo farinha do mesmo saco, sim, é verdade. Há quem procure, honesta e respeitosamente, e informe, denuncie, escrutine e peça as necessárias explicações, mesmo quando alguém possa pensar que o seu estatuto não pode descer a esse nível para dar explicações. Sim, há quem trabalhe e lute, com dignidade, para que o bem comum seja saudável e intelectualmente habitável! Mas perante os que são farinha daquele outro saco, até um santo como Job, de fusíveis NH bem mais reforçados, terá dificuldade em resistir. São como abelhas à volta da cortiço, não para defender a rainha, mas para ver quem a descarta, mais depressa e primeiro. Olham sempre de cima para baixo, julgando-se exemplares. Na vigília do dia 5 de agosto de 2023, em Lisboa, o Papa Francisco dizia que “a única situação em que é legítimo olhar para uma pessoa de cima para baixo é para a ajudar a levantar-se. Quantas vezes vemos as pessoas olharem para nós assim, por cima do ombro, de cima para baixo? É triste.”
Muito para lá do tempo dos afonsinhos, já o rei David dizia que é “melhor cair nas mãos de Deus, pois a sua misericórdia é grande, do que cair nas mãos dos homens” (2Sam 24, 13-14).
Tanta gente difamada pelos fiscais da sociedade em braço dado com os pica-miolos. Há quem se julgue com todos os direitos e deveres nenhuns. Neste mundo e no mundo que cada um de nós também é, há trigo e joio, todos temos disso um pouco. Os dogmáticos, aqueles que acham que são diferentes, que são apenas trigo e defendem as suas opiniões como verdade absoluta e inquestionável, mas deixam dúvidas sobre gato escondido com rabo de fora, logo entram em suspeita de acumulação de joio, tornando-se presa apetitosa para ‘pessivistas’ e pica-miolos, não deixando de preocupar quem deseja estabilidade e melhor bem comum. Como Manuel Carvalho refere no Público de ontem, há quem tenha “um apurado instinto necrófago para aproveitar oportunidades destas”. Só a verdade e a humildade nos libertará, disse-nos Cristo.
D.Antonino Dias
Caminha, 31-07-2026.



