domingo, 31 de maio de 2026

Solenidade da Santíssima Trindade

 

https://www.youtube.com/watch?v=dZV9SHvizKM&list=PL7Zt-5fD4oJhVVxawhFCohF3X97J026TG

A Solenidade que hoje celebramos não é um convite a decifrar o mistério que se esconde por detrás de "um Deus em três pessoas"; mas é um convite a contemplar o Deus que é amor, que é família, que é comunidade e que criou os homens para os fazer comungar nesse mistério de amor.

Na primeira leitura, o Deus da comunhão e da aliança, apostado em estabelecer laços familiares com o homem, auto-apresenta-Se: Ele é clemente e compassivo, lento para a ira e rico de misericórdia.
Deus, da sua parte, faz tudo para viver em comunhão com o homem. No entanto, respeita, de forma absoluta, a liberdade do homem. Eu sou livre de aceitar, ou não, a proposta de "aliança" que Deus me faz. Como é que eu respondo ao Deus da "aliança"? Eu aceito esta vontade que Ele manifesta de viver em relação de comunhão comigo? O que é que eu faço para responder a este desafio?

Na segunda leitura, Paulo expressa - através da fórmula litúrgica "a graça do Senhor Jesus Cristo, o amor do Pai e a comunhão do Espírito Santo estejam convosco" - a realidade de um Deus que é comunhão, que é família e que pretende atrair os homens para essa dinâmica de amor.
A celebração da Solenidade da Trindade não pode ser a tentativa de compreender e decifrar essa estranha charada de "um em três". Mas deve ser, sobretudo, a contemplação de um Deus que é amor e que é, portanto, comunidade. Dizer que há três pessoas em Deus, como há três pessoas numa família - pai, mãe e filho - é afirmar três deuses e é negar a fé; inversamente, dizer que o Pai, o Filho e o Espírito são três formas diferentes de apresentar o mesmo Deus, como três fotografias do mesmo rosto, é negar a distinção das três pessoas e é, também, negar a fé. A natureza divina de um Deus amor, de um Deus família, de um Deus comunidade, expressa-se na nossa linguagem imperfeita das três pessoas. O Deus família torna-se trindade de pessoas distintas, porém unidas. Chegados aqui, temos de parar, porque a nossa linguagem finita e humana não consegue "dizer" o indizível, não consegue definir o mistério de Deus.

No Evangelho, João convida-nos a contemplar um Deus cujo amor pelos homens é tão grande, a ponto de enviar ao mundo o seu Filho único; e Jesus, o Filho, cumprindo o plano do Pai, fez da sua vida um dom total, até à morte na cruz, a fim de oferecer aos homens a vida definitiva. Nesta fantástica história de amor (que vai até ao dom da vida do Filho único e amado), plasma-se a grandeza do coração de Deus.
O amor de Deus traduz-se na oferta ao homem de vida plena e definitiva. É uma oferta gratuita, incondicional, absoluta, válida para sempre; mas Deus respeita absolutamente a nossa liberdade e aceita que recusemos a sua oferta de vida. No entanto, rejeitar a oferta de Deus e preferir o egoísmo, o orgulho, a auto-suficiência, é um caminho de infelicidade, que gera sofrimento, morte, "inferno". Quais são as manifestações desta recusa da vida plena que eu observo, na vida das pessoas, nos acontecimentos do mundo, e até na vida da Igreja?
Nós, crentes, devíamos ser as testemunhas desse Deus que é amor; e as nossas comunidades cristãs ou religiosas deviam ser a expressão viva do amor trinitário. É isso que acontece? Que contributo posso eu dar para que a minha comunidade - cristã ou religiosa - seja sinal vivo do amor de Deus no meio dos homens?

https://www.dehonianos.org/

sábado, 30 de maio de 2026

OBRIGADO, SENHORA ENFERMEIRA, BEM HAJA!...


Há doenças na sociedade que precisam de grandes cuidados profiláticos, mesmo que não estejam debaixo da alçada da OMS, da DGS e do SNS. Se, infelizmente, alguns já não têm cura e outros haja gravemente afetados, bom seria que ninguém mais se viesse a contaminar. Os medicamentos estão à mão de semear, são gratuitos, indolores e tomam-se em casa. No entanto, porque são gratuitos, há quem os rejeite, como se estivessem fora de prazo ou fossem umas mezinhas sem sentido. Preferem sofrer, sob aparências de boa saúde e desafogo. No jornal Público do passado dia 24 de maio, Carmen Garcia, que também se identifica como Enfermeira, num artigo intitulado “Isto está a fugir-nos das mãos”, fala-nos de tal andaço, pois, “tanto faz não é resposta”. Quando os do meu mister e eu falamos disso, cai o Carmo e a Trindade, não sei se os Clérigos e os Jerónimos também. Por isso, com a devida vénia, vou levar a mais alguns leitores o trabalho desta senhora Jornalista e Enfermeira. Denuncia factos empiricamente verificáveis e, acredito eu, sem ver e ouvir os peritos, acredito eu que são cientificamente consensuais entre os pedagogistas como coisas a evitar. Faço-o com gratidão e em jeito de oferta vacinatória, mesmo que vá pelejar com muitos negacionistas e interessses. Escreve ela sob o título: “Isto está a fugir-nos das mãos”:
“Hoje o meu filho Pedro faz a sua Primeira Comunhão. É um dia especial para ele e fico muito feliz por vê-lo tão empenhado e tão contente por ser, como ele diz, “amigo de Jesus”. Além disso, acho que o facto de finalmente poder comungar está a fazê-lo sentir-se crescido – ouço-o falar para o irmão, apenas um ano mais novo, e dizer coisas como “na hora de comungar tu ainda vais ter de ficar no banco com os pequenos”. Então, sim, hoje é um dia importante e espero que a celebração da eucaristia lhe fique na memória - eu ainda me lembro da minha comunhão como se fosse hoje e a verdade é que já lá vão 31 anos. Mas é “só” isso. Notem as aspas na palavra só, por favor. Que fique claro que não estou, de todo, a desvalorizar a importância deste sacramento - estou simplesmente a tentar trazê-lo para o patamar da fé que é aquele de onde nunca devia ter saído. Os espanhóis têm como expressão óptima para aquilo que quero dizer com esta crônica: “Se nos ha ido de las manos”. Que é como quem diz que estamos absolutamente descontrolados. E no que toca a este tipo de celebração confesso-vos que não fazia ideia do nível de alucinação global instalado. É claro que o exagero em que se tornaram as festas de aniversário infantis me devia ter alertado, mas como insisto em ignorar os espaços com decorações caríssimas, as mesas com mais luxo do que comida, os bolos ao preço do ouro e as actividades pensadas ao pormenor, acabei por me distrair. Mas quando esta semana me perguntaram se já tinha vestido para a missa senti que os alarmes me disparavam no cérebro. “Como assim, vestido?” – perguntei. E a pessoa lá me explicou que até há marcas com colecções próprias para mães de meninos que fazem a Primeira Comunhão. E eu fui ver. E depois vi o resto. E fiquei assustada.
A sério, quando é que passámos da missa e de um almoço em família, muitas vezes em casa, para festas que parecem autênticos casamentos? Eu que fiquei toda contente porque o Pedro e os colegas vão todos vestidos com uma alva do colégio e, assim, não tenho de gastar mais dinheiro, afinal agora tenho de ir comprar roupa para mim?
Lamento, mas não vai acontecer. Prefiro arriscar as minhas chances de ser a mais malvestida na Igreja. Tenho a certeza que Jesus não se vai importar e que, para o meu filho, almoçar com os pais, os irmãos e os avós é mais do que o suficiente.
Mas, sim, dei-me ao trabalho, depois da conversa do vestido, de ir espreitar como são agora às primeiras comunhões. E descobrir que há quem faça créditos para pagar estas celebrações, com vestidos e fatos caríssimos e festas onde são servidos almoços de três pratos. Se acho mal? Por acaso acho um bocadinho, mas quem gosta e pode que se sinta livre. Agora não tentem é normalizar este exagero e fingir que sempre foi assim.
Falamos de um sacramento que aproxima as crianças de Jesus e que, de repente, se transformou em mais uma oportunidade de negócio para uns e de encher o Instagram de fotografias bonitas para outros. Ostentação, ostentação e mais ostentação. E gastar, muitas vezes, o dinheiro que não se tem porque isto, já se sabe, o que importa é parecer, fazer inveja às amigas e mostrar que o meu filho teve uma festa mais bonita do que o teu.
Atualmente tudo é uma produção. Uma simples festa de aniversário passou a precisar quase de um diretor artístico. E a Primeira Comunhão, que deve ser um sacramento associado a humildade e espiritualidade, foi transformado num verdadeiro espetáculo de ostentação.
Sei que muita gente vai ler esta crónica e pensar “mas o que é que ela tem que ver com o que os outros fazem com o seu dinheiro?”. E a resposta é que não tenho rigorosamente nada. Mas assusta-me a nossa necessidade de transformar tudo em excesso e as consequências que isso pode ter para os nossos filhos e para uma geração inteira. Será que não percebemos que, cada vez mais, estamos a dizer aos nossos filhos que o amor se mede em espetáculo e que a felicidade precisa de excesso? Estamos a criar uma geração que vai crescer e acreditar que tudo deve ser grandioso e fotografável e que o simples é insuficiente.
Os nossos filhos crescem sem conhecer o tédio e improviso. E a acharem que o mundo os deve celebrar como se fossem uma espécie de pequenos sóis à volta de quem todos devem engravidar. E depois de os enchermos com expectativas irreais ficamos muito preocupados quando percebemos que não sabem lidar com a frustração. Pela forma como os educamos ninguém diria que havia uma forte probabilidade de que isso acontecesse, pois não?
Transformamos o exagero no novo normal de tal forma que quem se recusa a entrar na onda e insiste no mais simples corre o risco de parecer desinteressado ou pouco dedicado aos filhos. Porque hoje o amor parece medir-se no valor dos vestidos, no tamanho dos insufláveis e nas lembranças personalizadas que se distribuem no final das festas.
Essas crianças vão crescer. E quando isso acontecer, a vida vai encarregar-se a lhes demonstrar que no lugar das mesas temáticas e dos fotógrafos profissionais o que existe são trabalhos repetitivos, relações imperfeitas e que a maioria dos momentos vividos é muito pouco Instagramável.
Estamos a criar a volta dos miúdos uma espécie de parque temático emocional permanente: tudo é feito para o entreter, estimular e ser memorável. E enquanto fazemos isto vamos-lhes roubando a capacidade de encontrarem prazer e serem felizes na normalidade. E isto, se pensarmos bem, diz muito sobre nós: inseguros, desesperados por validação e cada vez mais incapazes de aceitar a simplicidade da vida.
Aos poucos fomos deixando de fazer coisas que nos fazem felizes e passámos a fazer coisas que nos fazem ser vistos, admirados e invejados. Falamos de saúde mental e enchemos a boca a dizer que queremos proteger os nossos filhos, mas ao mesmo tempo colocamo-los no centro de uma lógica onde tudo tem de ser extraordinário: a festa simples é insuficiente; o presente modesto sabe a pouco e se não dá para fotografias bonitas é quase como se nem tivesse acontecido.
E atenção: eu percebo perfeitamente porque é que isto acontece. Também tenho momentos em que olho para as redes sociais e penso se não estarei a dar “pouco” aos meus filhos. O problema é que se for atrás da competição vou acabar transformada numa espécie de Sísifo e viver pela eternidade a tentar completar uma tarefa que nunca acaba. Porque nunca nada será suficiente.
Quero acreditar que ainda vamos a tempo de travar isto um bocadinho e de devolver alguma simplicidade à vida. Tenho esperança de que, mais dia menos dia, o nosso bom senso ganhe a corrida. Até lá, o Pedro faz a primeira comunhão e eu não levo um vestido.
Nesta tema escolho fazer parte da resistência”.
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D. Antonino Dias
Caminha, 29-05-2026.

Os quatro silêncios essenciais

 





O silêncio é muito mais do que a ausência de som. É essencial à criação de um espaço interior de escuta, verdade e encontro connosco mesmos, com os outros e com Deus.
Vale a pena refletir sobre quatro silêncios fundamentais da vida.

Em primeiro lugar, o silêncio das palavras excessivas. Falamos demais; falamos antes de olhar, antes de pensar, antes de saber. Muitas vezes, tornamos pequenas as maiores e mais belas obras, apenas porque nos julgamos mais do que somos. Nem sempre dizemos a verdade, e muitas vezes nem sequer há necessidade do que dizemos. Há, talvez, apenas uma ansiedade de preencher o vazio e de evitar o desconforto do olhar dos outros. Mas, para ir ao encontro de alguém, é preciso escutá-lo. E só o escutamos se nos calarmos.

Em segundo lugar, o silêncio dos pensamentos dispersos. O pensamento salta sem cessar de preocupação em preocupação, entre memórias, receios, desejos e distrações. Vivemos pouco, de tanto que nos passa pela cabeça a cada momento. Quem é capaz de parar está mais presente e inteiro, menos fragmentado e menos confuso. Quando aquilo que paira dentro de nós assenta, surge uma clareza que traz consigo paz e beleza.

Em terceiro lugar, o silêncio de Deus. Pedimos e esperamos respostas sem grande paciência. Julgamos que, se Deus é Deus e nos ama, então tem de nos responder de imediato. Custa-nos aceitar que Ele, de forma muito simples, possa confiar em nós, permanecendo presente na nossa vida, quaisquer que sejam as nossas escolhas. Sentimos a sua ausência porque não O escutamos. Ora, a presença basta, porque todas as grandes obras se fazem em silêncio. Amar é dar-se, sem qualquer necessidade de ruído ou exibição.

Por fim, o silêncio do egoísmo, do orgulho e da necessidade de colocar o próprio “eu” no centro de tudo. Há pessoas que não são capazes de se livrar da necessidade constante de afirmação, validação e reconhecimento. Desejam ser vistas e elogiadas a todo o momento. De tanto se admirarem e se defenderem — até mesmo de quem procura o seu bem — nunca saem de si mesmas. E, por isso, nunca chegam a conhecer a beleza imensa do mundo, nem a verdade e o amor que nos chegam através dos outros. O silêncio do egoísmo não significa negar a identidade, mas sim deixar de precisar de provar o nosso valor. É um caminho de humildade e liberdade interior, no qual a pessoa já não vive para ocupar o centro da vida dos outros, mas para encontrar alegria na verdade do dom de ser quem é.

A presença, quando é amor, basta.


José Luís Nunes Martins

sexta-feira, 29 de maio de 2026

Pessoas luz

 


A todas as pessoas que carregam luz no peito e a distribuem gratuitamente - a minha profunda gratidão!

São elas que iluminam os caminhos deste mundo, tantas vezes mergulhado em escuridão.

São elas que trazem alento aos dias cinzentos e analgesiam dores, quem sabe dilacerantes.

São elas que ainda acreditam que amanhã pode ser melhor e que vale a pena persistir.

São elas um pedacinho do céu aqui na terra!

A todas as pessoas luz e em particular às que fazem parte da minha vida desejo que essa luz nunca se apague, que brilhe sempre mais e que a recebem para si também!



Lucília Miranda

quinta-feira, 28 de maio de 2026

INFORMAÇÃO PAROQUIAL


Peregrinação Diocesana ao Santuário de Nossa Senhora de Fátima - 31 de maio de 2026


No último dia deste mês de maio, a nossa Diocese de Portalegre - Castelo Branco, ruma em peregrinação ao Santuário de Fátima. Um dia em que celebramos juntos a diversidade da Diocese, unida em oração aos pés da Nossa Mãe.
Somos todos convidados a ir, e, como movimento da Igreja Diocesana, desafiamos todos os Convivas a levar vestida a t-shirt do Movimento dos Convívios Fraternos da Diocese de Portalegre - Castelo Branco. Vamos pintar o Santuário com o nosso azul bonito e mostrar que o movimento está vivo!
Se não tens como ir fala com o teu pároco, de certeza que ainda há lugares no autocarro
Entregaremos as orações de todos junto da Mãe, e rezaremos também para que este movimento continue a levar os jovens até Deus, para Ele lhes transformar a vida
Até lá!

INFORMAÇÃO PAROQUIAL

Domingo,31 de Maio, a nossa Diocese de Portalegre - Castelo Branco, ruma em peregrinação ao Santuário de Fátima, por esse motivo NÃO HAVERÁ CELEBRAÇÕES EUCARÍSTICAS NAS PARÓQUIAS.
NO SÁBADO, 30, CELEBRA - SE MISSA VESPERTINA NA IGREJA DE NOSSA SENHORA DA LUZ PELAS 18H00, COM ORAÇÃO DO TERÇO PELAS 17H30.

SALVOS… DE QUÊ?

 



Encontrei o Guilherme e a Inês no fim da Missa de Páscoa.
A igreja estava a esvaziar-se devagar. Havia ainda cânticos soltos no ar, mas ecoavam já misturados com o barulho das conversas.
Eles vinham na minha direção.
Já não os via há muito tempo.
Tinham feito voluntariado no meu hospital, no tempo em que eu assumia funções no campo da Pastoral Juvenil.
Lembro-me deles nesse tempo:
jovens disponíveis,
próximos,
às vezes sem saber muito bem o que fazer,
mas com uma presença que fazia bem.
Havia sempre ali qualquer coisa de verdadeiro.

— “Foi a Inês que me trouxe…”
— disse o Guilherme, com um sorriso meio irónico.

Ela não desmentiu.

(Conheceram-se no hospital e acho que agora são namorados).

Acresce dizer que não são de Missa ao domingo.

Mas neste domingo vieram.

Fosse por tradição.

Fosse por insistência.

Fosse, talvez, por razões que não sabem bem explicar, mas que não os deixou ficar em casa.

Ficámos a conversar com a naturalidade de quem retoma uma história interrompida. Sem formalidades. Como se o tempo, afinal, não tivesse sido assim tanto.

Fomos até ao bar. Um café, alguns rostos conhecidos, memórias que voltavam sem esforço.
E, a certa altura, a Inês foi direta:

“Posso fazer uma pergunta?”

Assenti.

— “Os cristãos dizem que Jesus morreu para nos salvar… até o padre disse isso há pouco na Missa. Mas… salvar do quê? E como é que morrer salva alguém?”

O Guilherme ficou em silêncio, mas percebeu-se que a pergunta também era dele.

E naquele instante pensei em muita coisa ao mesmo tempo.

Na catequese que ambos tinham feito.

No Crisma que tinham recebido.

Na boa vontade de tantos catequistas.

E, ao mesmo tempo, na dificuldade real de dizer isto de forma que não fique só na cabeça, mas que toque a vida.

Olhei para eles.

Não achei que me estivessem a provocar. Achei, antes, que estavam a tentar perceber.

“Vou tentar dizer isto de forma simples… mas completa, ok?”

Assentiram.

“Primeiro: salvar de quê?”

Parei um pouco.

— “Salvar-nos daquilo que nos prende por dentro. Do medo que manda nas nossas escolhas. Da culpa que nos faz acreditar que já não valemos muito. Da forma como, com o tempo, nos vamos fechando… e deixamos de confiar, de amar, de viver com verdade.”

O Guilherme acenou:

— “Isso… acontece.”

— “Pois. E isso é sério. Porque podemos estar vivos por fora… mas meio desligados por dentro.”

A Julieta ouviu em silêncio.

— “Agora, segunda parte: salvar como?”

Respirei fundo. E depois continuei.

“Nós gostaríamos que Deus resolvesse isto de fora. Tipo: tirava o sofrimento, corrigia tudo, punha a vida no lugar...”

Olhei para eles.

— “Mas Jesus não faz isso. Ele faz o contrário: entra na nossa vida tal como ela é.”

“Mesmo no pior?” — perguntou a Julieta.

— “Mesmo no pior. Até ao sofrimento injusto. Até ao abandono. Até à morte.”

Silêncio.

“Na cruz, Jesus não está ali só a sofrer. Está a fazer uma coisa muito concreta: está a amar até ao fim.”

O Guilherme franziu a testa:

“Mas… isso resolve o quê?”

“Resolve mais do que parece.

Esforcei-me um pouco mais.

“Imagina isto: quando alguém nos falha, ou nos magoa… o mais normal é fecharmo-nos, ou respondermos na mesma moeda.”

Eles assentiram.

“Jesus faz o contrário. Mesmo a ser rejeitado, continua a amar. Não entra na lógica da violência, nem do ‘cada um por si’.

Pausa.

“E isso é novo. Porque quebra o ciclo.”

A Julieta perguntou:

“Que ciclo?”

— “O ciclo do mal que gera mais mal. Da dor que gera mais dor. Da desconfiança que se multiplica.”

Silêncio.

— “Na cruz, Jesus mostra que esse ciclo pode ser interrompido. Não com força… mas com amor que não recua e é levado até ao fim.”

O Guilherme ficou a pensar.

“Então… Ele não vence evitando a morte?

“Não. Ele vence atravessando-a.

Olhei para os dois.

— “A ressurreição não é um truque para apagar a cruz. É a prova de que a cruz, o sofrimento, o fracasso, a morte… não têm a última palavra.”


A Inês respirou fundo.

“Então salvar é… dar-nos uma saída?”

“Sim. Mas não uma saída fácil. Uma saída por dentro.”

Expliquei melhor:

— “Salvar é abrir um caminho dentro da própria vida real, com tudo o que ela tem, onde não ficamos presos ao medo, à culpa, ao passado, à dor.”

Pausa.

— “É cair… e não ficar no chão. É falhar… e não desistir. É sofrer… sem deixar de amar.”

O Guilherme olhou para mim:

— “Mas isso não é automático, pois não?”


“Não. Deus não faz isso à força.”

Olhei para ele com calma:

— “Ele abre o caminho. Mas não nos arrasta para ele. Nós temos de o querer percorrer.”

A Inês perguntou:

— “E como é que isso começa?”


“Começa em coisas simples. Muito simples. Pelo concreto. Sempre.”

Pausa.

“Quando escolhes não te fechar, mesmo depois de teres sido magoada.

Quando decides confiar um pouco mais, mesmo com medo.

Quando não deixas que o erro, teu ou dos outros, seja a última palavra.”

Silêncio.

“É aí que a salvação começa a acontecer"


O Guilherme ficou quieto.

“Então… não é só uma coisa para depois da morte?”

“Não. Começa agora. Aqui. Na forma como vives.”

Pausa.

“A vida eterna não é só uma vida que vem depois. É uma vida nova que começa já, quando deixas de estar preso ao que te fecha.”

Ficámos em silêncio uns segundos.

O Guilherme acrescentou:

— “É estranho… mas ao mesmo tempo parece… real.”

Sorri.

“Se não for real, não serve.”

O barulho à volta continuava, mas já não nos chegava da mesma maneira.

Antes de novas perguntas a Inês disse:

“Nunca tinha pensado na cruz assim…”

O Guilherme acrescentou:

“Nem eu. Sempre me pareceu… meio sem sentido.”

Olhei para eles.

Se a cruz fizer sempre sentido… talvez ainda não a tenhamos levado a sério.

Fiquei com a frase no ar.

O Guilherme mexia na chávena vazia, como quem precisa de fazer alguma coisa com as mãos enquanto pensa.

A Inês estava mais quieta. Não parecia convencida. Mas também não parecia distante.

“Mas há uma coisa…” — disse ela, devagar. — “Isso tudo que disseste… é bonito. Mas depois a vida real não é assim tão limpa.”

O que ela me dizia não era uma objeção teórica. Era uma espécie de teste.

“Pois não.” — respondi.

“E ainda bem que disseste isso, Inês. Porque se isto só funcionasse em teoria, não servia para nada.”

Pausa.

“A questão é outra: quando não fazemos isto… a vida fica melhor?”

O Guilherme levantou os olhos.

“Não.”

“Pois. Fica mais dura. Mais fechada. Mais cansada.”

Encostei-me ligeiramente para trás.

— “A proposta cristã não é: ‘faz isto e vais sentir-te sempre bem’.

É, antes: ‘se não fizeres isto, vais acabar fechado num sítio onde já ninguém entra. Nem tu’.”

Silêncio.

Aquilo bateu mais do que qualquer explicação anterior.

A Inês não respondeu logo. Mas deixou de estar na defensiva.

— “Então… a cruz não resolve tudo…”

“Não.”

“Mas impede que tudo se estrague por dentro.”

Ficaram os dois calados.

E, pela primeira vez desde que a conversa começou, não estavam à procura de mais explicações.

Estavam a medir aquilo na própria vida.

Ao longe, alguém chamou por eles. Um dos doentes reconheceu-os.

Eles levantaram-se.

O Guilherme estendeu-me a mão, mas depois mudou de ideias e deu-me um abraço rápido, meio desajeitado.

“Obrigado… isto ficou aqui a trabalhar.”

A Inês sorriu.

“Acho que vou precisar de pensar nisto mais tempo.”

“Ainda bem.” — disse eu. — “Se ficasse resolvido hoje… era mau sinal.”

Começaram a afastar-se para ir ao encontro dos doentes e depois seguirem para casa.

Em boa verdade, não iam com aquele entusiasmo típico de quem “percebeu tudo”.

Nem com aquele ar de quem ouviu uma coisa bonita e vai esquecer daqui a meia hora.

Iam mais lentos.

Mais atentos.

Como quem já não consegue fingir que não ouviu.

Fiquei a vê-los.

E pensei que, no fundo, é isto.

A salvação não começa quando tudo faz sentido.

Começa quando já não conseguimos continuar a viver da mesma maneira,

e ainda assim… não sabemos bem o que fazer com isso.


Fernando d'Oliveira



quarta-feira, 27 de maio de 2026

Que o Espírito do Ressuscitado nos salve do mal da guerra, vencida não por uma superpotência, mas pela omnipotência do amor» – Leão XIV

Papa presidiu à Missa da solenidade de Pentecostes, encerrando tempo litúrgico da Páscoa

                                                                            Foto: Lusa/EPA


Cidade do Vaticano, 24 mai 2026 (Ecclesia) – O Papa apelou hoje no Vaticano ao fim dos conflitos armados internacionais, invocando a força do Espírito Santo para travar a violência bélica através da unidade e da oração.

“Rezemos hoje para que o Espírito do Ressuscitado nos salve do mal da guerra, que é vencida não por uma superpotência, mas pela omnipotência do amor”, pediu Leão XIV, na homilia da Missa de Pentecostes a que presidiu na Basílica de São Pedro.

“Rezemos para que Ele liberte a humanidade da miséria, que é redimida não por uma riqueza incalculável, mas por um dom inesgotável. Rezemos para que nos cure da ferida do pecado, pela redenção anunciada a todos os povos em nome de Jesus”, acrescentou, perante milhares de participantes.

A intervenção papal advertiu para mudanças que “não renovam o mundo, mas que o envelhecem entre erros e violências”.

“O Senhor derrama o Espírito da paz de um extremo ao outro da história, porque aquele que redimiu todos da morte não exclui ninguém”, observou.

A reflexão assinalou que a “reconciliação universal” constitui a única via para estabelecer o “código da paz” entre a humanidade.

“Esta paz provém do perdão e leva-nos ao perdão: começa com o perdão dado pelo próprio Jesus, que foi por nós traído, condenado e crucificado”, indicou Leão XIV.











O Papa instou as comunidades e os responsáveis religiosos a rejeitarem atitudes divisionistas, pedindo unidade para a Igreja, face ao perigo “das fações, das hipocrisias, das modas que obscurecem a luz do Evangelho”.

“O Espírito, que falou por meio dos profetas, promove sempre a unidade na verdade, porque suscita em nós compreensão, concórdia e coerência de vida”, disse.

A homilia falou ainda do “Espírito da missão”, que impele os cristãos a ir ao encontro dos outros, “transformando a confusão do mundo em comunhão”.

“Esta fé vive e expressa-se em cada boa ação, em cada ato de misericórdia e de virtude”, precisou Leão XIV.

A solenidade litúrgica do Pentecostes assinala-se 50 dias depois da Páscoa e evoca a efusão do Espírito Santo sobre os primeiros apóstolos, momento que os católicos assumem como o nascimento público da Igreja.

Leão XIV recitou posteriormente a oração do ‘Regina Caeli’ ao meio-dia de Roma, desde a janela do apartamento pontifício, reforçando a sua mensagem em favor da paz.

“Precisamos de redescobrir Deus como Pai que nos ama, de edificar uma Igreja onde todos se sintam em casa e de fazer crescer um mundo fraterno, onde reine a paz entre todos os povos”, apelou o pontífice.

A reflexão destacou a importância da comunhão e da fraternidade, inspiradas pela fé cristã.

“O Espírito Santo abre as portas dos nossos corações, ajudando-nos a vencer as resistências, os egoísmos, as desconfianças e os preconceitos, e tornando-nos capazes de viver como filhos de Deus e irmãos uns com os outros”, explicou o Papa.

Leão XIV deixou uma mensagem especial às comunidades católicas, pedindo que a Igreja seja “acolhedora e hospitaleira em relação a todos, mesmo aqueles que fecharam as portas a Deus, aos outros, à esperança e à alegria de viver”.

“Irmãos e irmãs, também nos nossos dias, especialmente neste dia de Pentecostes, devemos invocar o Espírito Santo, para que Ele abra as portas que permanecem fechadas. Precisamos de redescobrir Deus como Pai que nos ama, de edificar uma Igreja onde todos se sintam em casa e de fazer crescer um mundo fraterno, onde reine a paz entre todos os povos”, concluiu.

OC

https://agencia.ecclesia.pt/