Não sou os nomes que me deram, os cargos que ocupo, as histórias que aprendi a contar sobre mim... Sou um silêncio vivo. Uma presença suave. Algo que respira antes das palavras.
Não sou as opiniões. Não sou as crenças herdadas, nem os medos aprendidos.
Sou o espaço onde tudo acontece. Sou o olhar por trás dos olhos. Sou o sentir antes do pensamento. Sou o intervalo entre uma respiração e outra.
Quando deixo cair as máscaras, descubro que não preciso provar nada.Não preciso chegar a lugar algum. Já estou.
Há em mim uma quietude antiga, uma inteligência silenciosa, que sabe que o coração bate sem pedir permissão à mente.
A minha alma não grita. Ela sussurra. Ela vive nos momentos simples e sei que volto para mim, não quando adiciono, mas quando retiro.
Retiro camadas. Retiro expectativas. Retiro identidades. Até restar apenas presença.
E nessa presença, descubro que nunca estive perdida; apenas distraída do essencial.
A vida insiste em mostrar-me a beleza de toda a aprendizagem. Descubro uma presença maior que me acompanha: entrego, confio e deixo que o divino permaneça em mim.
No início do caminho quaresmal, a liturgia convida-nos a repensar as nossas certezas, as nossas opções, os nossos valores. Tempo de conversão e de renovação, a Quaresma é o momento favorável para nos reaproximarmos de Deus. É em Deus – e não noutras propostas, por mais encantadoras que sejam – que está a fonte da vida verdadeira.
Na primeira leitura a catequese de Israel esboça, em grandes linhas, o projeto de Deus para o mundo e para os homens. Deus criou-nos para a felicidade e mostrou-nos como viver para alcançar a vida verdadeira. Contudo, enquanto seres livres, temos de ser nós a fazer a nossa opção fundamental. Se decidirmos abraçar as indicações de Deus, conheceremos uma felicidade sem limites e uma plena realização; mas, se optarmos por dar ouvidos à tentação do egoísmo, da autossuficiência, da prepotência, da ganância, viveremos rodeados de coisas efémeras, vazias, que nunca saciarão plenamente a nossa sede de felicidade.De onde vimos? Para onde vamos? Porque é que estamos aqui? Qual o sentido da nossa vida? São perguntas eternas, que os homens e mulheres de todos os tempos constantemente colocam. A Palavra de Deus que hoje nos é oferecida responde: é Deus a nossa origem e o nosso destino último. Não somos um minúsculo e insignificante grão de areia à deriva numa galáxia qualquer; mas somos seres cuja existência Deus planeou, que Ele modelou com amor, a quem Ele animou com o seu próprio “sopro” de vida, a quem Ele ofereceu um destino de eternidade. O fim último da nossa existência não é o fracasso, o mergulho na absoluta escuridão, a dissolução no nada; mas é a vida definitiva, a felicidade sem fim, o encontro com Deus. É esse horizonte de vida eterna e de comunhão plena com Deus que temos diante dos olhos enquanto peregrinamos na terra? Que marca é que isso deixa na forma como vivemos o nosso dia a dia? Na segunda leitura, o apóstolo Paulo coloca diante de nós dois exemplos, dois modelos de vida, dois homens: Adão e Jesus. Adão representa o homem que optou por ignorar as propostas de Deus e decidir, por ele próprio os caminhos que deveria percorrer para se realizar plenamente; Jesus é o homem que decidiu escutar as indicações de Deus, obedecer aos projetos de Deus, percorrer o caminho que Deus Lhe indicava, mesmo se esse caminho tivesse de passar pela cruz. A desobediência de Adão trouxe ao mundo egoísmo, sofrimento e morte; a obediência de Jesus tornou-se, para o mundo e para todos os homens, uma fonte inesgotável e amor, de graça e de vida.Deus respeita a nossa liberdade. Aceita que construamos as nossas vidas sem atendermos às suas indicações, suporta até as nossas escolhas erradas. No entanto, nunca desiste de nós. Decidido a dar-nos todas as oportunidades, insiste uma e outra e outra vez… na esperança de que reconsideremos as nossas opções e escolhamos caminhos que conduzem à vida verdadeira. Numa decisão que mostra bem a profundidade do amor que nos tem, enviou-nos o seu Filho, Jesus. Jesus obedeceu ao Pai e veio ao nosso encontro, fez-se um de nós, partilhou a estrada em que andamos, lutou contra tudo o que nos faz mal, aceitou morrer para nos mostrar o caminho que conduz à vida. Considerando tudo isto, seremos capazes de continuar a preferir caminhos de orgulho e de autossuficiência, à margem de Deus? Que valor assumem, na construção da nossa vida, as propostas que Jesus nos veio trazer?
No Evangelho, o Evangelista Mateus propõe-nos uma catequese sobre as opções de Jesus. Ele recusou sempre as propostas e os valores que punham em causa o projeto de Deus para o mundo e para os homens. Para Jesus, os valores de Deus tiveram sempre primazia sobre os bens materiais, a embriaguez oferecida pelo êxito fácil, a sede de poder. Aos seus discípulos Jesus pede que sigam um caminho semelhante. Começamos, nestes dias, a percorrer um caminho, o caminho quaresmal. É o caminho que nos conduz à Páscoa, à ressurreição, à vida nova. Ao longo desse caminho seremos convidados a analisar, com lucidez e sentido de responsabilidade, as nossas opções, as nossas prioridades, os nossos valores, o sentido da nossa vida… Este tempo poderá ser um tempo de conversão, de realinhamento, de renovação, de mudança; poderá ser a oportunidade para nos reaproximarmos de Deus e das propostas que Ele nos faz. A Palavra de Deus que escutaremos cada domingo ajudar-nos-á a perceber o sem sentido de algumas das nossas escolhas e a detetar alguns dos equívocos em que navegamos. Aceitamos o desafio de percorrer este caminho? O Evangelho deste domingo refere algumas das “tentações” que Jesus teve de enfrentar e vencer. Estamos dispostos, da nossa parte, a identificar as “tentações” que nos escravizam e nos impedem de viver uma vida mais digna, mais humana, mais repleta de sentido e de esperança? Quais são as “tentações” que, com mais frequência, nos afastam do estilo de vida e do projeto de Jesus?
A palavra central destes tempos é a Esperança como atitude que qualquer cristão deve cultivar, a par da virtude da fé e da caridade. Mas o que é isto de ter Esperança????
Esta esperança cristã “que não nos engana” põe-nos à prova muitas vezes quebrando a nossa confiança e levando-nos, algumas vezes, muito perto do desespero.
Vou ser muito franca, é muito difícil dar razões para a Esperança quando tu estás numa situação difícil. Quando tens um problema que não consegues resolver, uma doença, instabilidade económica ou qualquer outra coisa que te perdura no tempo e que demora a resolver, diz-me: como mantemos acesa a luz da Esperança?
Quando rezamos, pedimos, falamos e tentamos manter a dignidade de sermos a nossa melhor versão de nós mesmos e mesmo assim sentimos que nunca é a nossa vez de termos o sucesso e a tranquilidade que tanto gostaríamos, diz-me: como mantemos a luz da Esperança?
Não falo em situações esporádicas, nem de fácil resolução, mas de processos que duram mais tempo do que o que gostaríamos e nos testa a virtude da esperança. Rezamos, confiamos e esperamos que algo mude e se transforme, mas parece difícil! Começa a surgir a nuvem do desânimo e perguntamos: Senhor, então e eu?
É que a Esperança deve implicar a concretização. Quando Esperas, sabes o que esperas, desejas o que esperas e sabes que a Espera acaba com o cumprimento do propósito que te fez esperar. Certo? Mesmo que o resultado final não seja o esperado, precisamos de fechar esse ciclo e criar novos projetos, começar outra Espera.
Precisamos de sentir entusiasmo e alegria, mas às vezes a nossa Esperança esvai-se pois cansamo-nos de acreditar no bom senso, nos amigos que parecem desistir de nós e até em nós mesmos. A linha torna-se muito ténue e sentes-te defraudada…mas sabes amiga, a tua espera pode nem ter valido a pena, mas a Esperança Cristã, essa vale! No entanto, acredito que a Esperança tem de se materializar em atos de amor concretos sob pena de ser apenas mais uma palavra “que leva o vento” e de parecermos vendedores a algo em que não acreditamos. Haja sinais concretos de Esperança.
E tu, amiga, como vais materializar a Esperança nos outros?
Este mundo admirável tem mesmo razões para estar agoniado! Corrupção de snobs, príncipes, líderes e ‘meninos’ bem, ambições imperialistas, promoção do caos, desrespeito do Direito assumido, sabotagens provocadoras, ciberataques, apagões, desinformação, desprezo, ódios, intrigas, libertinagem, escândalos, racismo, instabilidade, discursos gritados, insonsos e crispados, autorreferencialidade, violência familiar e social, banalização do respeito mútuo, guerras intermináveis e outras a espreitar, mortes sem fim... Que bom seria se o avanço das ciências e das artes, da educação e do bom senso, das sensibilidades e dos gostos contribuíssem, sim, para fazer surgir uma natural e comum urbanidade e uma nova ordem política, social e económica, que servisse cada vez mais e melhor, que permitisse afirmar e desenvolver a dignidade própria de cada pessoa, de cada grupo, de toda a comunidade humana, privilegiando a cultura da paz e da justiça, da solidariedade e da fraternidade, da diversidade na coesão! Quando o homem se enche de nove horas pelo que tem, produz e desenvolve, julgando ter o seu deus na barriga; quando, deslumbrado, deixa trepar aos pirolitos que o importante é ter poder e em quem mandar, nem que seja numa cabra; quando, seja lá pelos meios que for, alcança esse tal poder, facilmente se esquece de onde vem e para onde vai. Logo descarrila para becos sombrios e insalubres, optando por uma vida sem rumo nem limites para desgraça de si próprio e de muitos. Mui rapidinho, logo se confirma a monumental sabedoria do povo: “se queres ver o vilão, mete-lhe a vara na mão! Será muito pior que um macaco numa loja recheada de louça! Muito pior que uma raposa faminta num galinheiro abastecido, sempre com mais olhos que barriga, pois até mata mais do que come! A História da humanidade, se é rica em tais exemplos, não o é menos em amnésias sobre essas realidades. Logo esquece o mal estar e os sacrifícios que passou, teimando em voltar ao mesmo sítio ou situação, apanhando ainda mais e com mais força. A sua memória é muito mais que curta, é curtíssima, é memória de peixe dourado! No entanto, mesmo que o homem desconfie dos outros homens, queira dominá-los e os faça sofrer, mesmo que até desconfie do próprio Deus, Deus, porém, na sua paciência infinita, não lhe tira o tapete de debaixo dos pés nem o despede, continua a acreditar nele e na sua liberdade. Deseja que cada um seja feliz e a cada um veio dizer que ele, o homem, do que mais precisa é de Salvação. Foi por causa da Salvação do homem que Jesus, num gesto de amor de Deus Pai para connosco, veio até nós e por nós se ofereceu. Amou-nos até ao fim, na cruz! Salvou-nos e quer que todos nos salvemos e sejamos, desde já, cidadãos do seu Reino de Justiça, de amor e de paz, onde tem preparado para aqueles que o amam o que nem sequer conseguimos imaginar (cf. 1Cor 2,9). Roberto Pasolini, pregador da Casa Pontifícia, no passado Advento afirmava que, para isso, não podemos ser “andarilhos sem rumo”, mas “sentinelas que, na noite do mundo, mantêm humildemente a sua fé”. A humanidade não deveria esquecer "a necessidade da Salvação”. Não deveria preocupar-se tanto em cuidar as aparências da sua imagem. Não deveria diminuir a radicalidade do Evangelho nem ignorar “a direção para a qual o Reino de Deus continua a mover-se dentro da história”. Não deveria desprezar a importância desse “dom da Salvação universal que a Igreja humildemente celebra e oferece”. A Humanidade não quer mesmo entender! E ninguém está isento ou acima deste jeito contumaz da humanidade. É por isso que a Quaresma é tempo de avaliação e discernimento. É contraproducente reduzir a fé a uma mera ética, esvaziando-a da sua dimensão transcendental, do seu encontro com Cristo, do viver em graça, permanecendo no pecado. É desaconselhado reduzir a liturgia em que se participa a uma simples cerimónia, despida de ato de culto e de santificação própria, sendo apenas apreciada e aplaudida como um mero show, à qual se assiste sem se participar, ou contra ela se vocifera porque foi uma seca quando a seca pode estar dentro de quem assim reclama. É contraindicado reduzir a vida cristã a moralismos, a um conjunto de regras, proibições e comportamentos alicerçados mais no fazer do que no ser, mais no cumprimento farisaico do que na transformação interior pela graça, pensando que os outros, os não cumpridores, é que têm de bater com a mão no peito. É inútil haver admiradores de quem pratica a caridade, se, também por esse testemunho, tais admiradores não são capazes de levar as mãos aos próprios bolsos para também partilharem com os pobres ou causas nobres. A caminhada quaresmal, a conversão, pede a renovação constante da própria vida. Esta renovação quaresmal passa: --- Pela escuta da Palavra de Deus, pois há “um vínculo entre o dom da Palavra de Deus, a hospitalidade que lhe oferecemos e a transformação que ela realiza”. --- Pela oração, alicerce da conversão, da intimidade com Deus, da resistência ao pecado, da preparação para a Páscoa. --- Pelo jejum, abstinência e outras formas de privação, as quais constituem “uma prática concreta que nos predispõe a acolher a Palavra” e a pô-la em prática, inclusive, evitando o desperdício de energia, água e alimentos, e cultivando a delicadeza na linguagem: “na família, entre amigos, nos locais de trabalho, nas redes sociais, nos debates políticos, nos meios de comunicação social, nas comunidades cristãs”. --- Pela esmola, fruto da generosidade, do jejum, da abstinência e doutras privações que se fazem para partilhar com os pobres ou com outras causas nobres, sem esquecer que a melhor esmola é dar-se.
Quem de entre nós se reconhece como carente, como mendigo da atenção e do amor do outro?
É muito mais comum encontrar pessoas que julgam bastar-se a si mesmas, que dizem amar os outros e amar-se a si próprias, sem assumirem a falta de serem amadas.
A miséria de precisar do amor do outro é algo que faz parte da nossa natureza e é como uma força que nos aponta o caminho da felicidade. Se não me sentir amado, jamais serei feliz. Por muito que ame.
Claro que ninguém se ama a si mesmo. Isso é uma contradição, um egoísmo com um nome agradável ao ouvido. Quem se dá a si mesmo não se dá a mais ninguém, até porque nunca se dará por satisfeito: é como beber água salgada para matar a sede. Amar é ser um meio para a felicidade de um outro, diferente de mim, construindo, em comunhão, algo que nenhum de nós alcançará sozinho.
Posso e devo cuidar de mim antes de me entregar a alguém, não por amor a mim, mas por amor ao outro.
Para ser amado preciso de ser humilde, para me abrir a esse bem que me chega de fora. Os orgulhosos não são felizes, também porque não se deixam amar, talvez por se julgarem acima dessa necessidade.
O que os egoístas e os orgulhosos não sabem é que, sem amar e ser amado, nunca ninguém foi feliz.
É essencial que cada um de nós estenda as mãos do seu coração e, com humildade, reconheça o amor de quantos nos amam. Alguns bem diante de nós, outros a partir de onde não podemos ver… mas podemos sentir.
Esta pergunta é em primeiro lugar para mim própria porque, se calhar, não procuro uma resposta tantas vezes quanto deveria!
É que tantas vezes nos limitamos à nossa pequenina existência, ao nosso mundinho que preenche um dia a seguir a outro, com as nossas questões e inquietudes, com a nossa rotina, com o nosso núcleo; que acabamos por não expandir a consciência para a verdadeira dimensão do que nos rodeia.
E entretanto o tempo passa e corre veloz...e quando damos por isso é impactante!
Há uma frase dita, por um sábio certamente, que ressoa na minha mente muitas vezes:
"Não é só sobre ser luz e sim sobre iluminar caminhos" e que tiro daqui é que bons corações precisam-se, cada vez mais, particularmente num mundo de tanta maldade e escuridão mas têm de se materializar em acções.
Sairmos do nosso ninho para o mundo, olhar, refletir, orar e fazer, torna-nos mais humanos e provavelmente mais felizes. Um pequenino passo, faz a diferença, mesmo que nos pareça que não. Termino com algo tão bonito dito por Baden Powell, fundador do escutismo:
"Procurai deixar o mundo um pouco melhor do que o encontraste..."