Sentir-se cristão Há quem diga que é cristão porque foi batizado. Há quem o diga porque vai à Missa. Há quem o diga porque reza. Tudo isso é importante. Mas só sabe verdadeiramente o que é ser cristão quem, pelo menos uma vez na vida, decidiu por causa de Cristo. Quem escolheu o perdão quando o coração pedia vingança. Quem calou uma palavra que iria ferir. Quem mudou um comportamento, contrariou um orgulho ou renunciou a uma vontade apenas porque queria viver o Evangelho. Ser cristão não é só saber coisas sobre Jesus. É deixar que Jesus mude alguma coisa em nós. É acordar e perceber que este novo dia não é um direito, mas um dom. É maravilhar-se com o mar, com o silêncio da montanha, com o canto dos pássaros, com o rosto de quem amamos, sabendo que a vida nunca nos foi devida. Tudo é graça. Mas ser cristão é também deixar-se ferir pelas feridas do mundo. É não passar indiferente diante da fome, da guerra, da solidão ou da injustiça. É reconhecer, em cada rosto cansado, um pedaço do rosto de Cristo. Ser cristão é viver de olhos levantados para Deus e de mãos estendidas aos irmãos. É rir com quem se alegra, chorar com quem sofre, construir pontes onde outros levantam muros e acreditar que o amor continua a ser a única força capaz de mudar verdadeiramente o mundo. É perdoar quem não merece. É fazer bem a quem não merece...
Talvez, no fim, ser cristão seja apenas isto: deixar que Cristo viva de tal maneira em nós que quem se cruza connosco consiga acreditar, por um instante, que Deus continua a passar pelas estradas deste mundo.
Hoje (11) celebra-se a festa de Santa Clara de Assis, cofundadora das Clarissas Pobres e primeira abadessa de São Damião. Apresentamos, de seguida, cinco factos sobre a vida desta grande santa.
1. É padroeira da televisão e das telecomunicações
No final da década de 1950, a televisão estava a tornar-se uma das formas mais importantes de comunicação da sociedade moderna.
Por esse motivo, o Papa Pio XII quis conceder a bênção e a proteção da Igreja a esta nova tecnologia. Assim, em 1958, publicou uma Carta Apostólica na qual proclamou Santa Clara padroeira da televisão.
Nesse documento, afirma-se que a Igreja apoia a inovação tecnológica e o progresso, recomendando a utilização da tecnologia moderna para a proclamação do Evangelho. Reconhece-se que a televisão pode ser utilizada tanto para o bem como para o mal, razão pela qual necessita de uma santa padroeira que lhe conceda proteção espiritual.
O Papa escolheu Santa Clara de Assis, que viveu no século XIII, pelo seguinte motivo: conta a história que, num Natal, Santa Clara estava doente e não conseguia sair da cama para assistir à Missa.
No entanto, Deus concedeu-lhe milagrosamente uma visão, em tempo real, da celebração da Eucaristia no seu convento, algo semelhante a uma «televisão espiritual».
2. Foi uma grande amiga de São Francisco de Assis
Na audiência geral de 15 de setembro de 2010, o Papa Bento XVI afirmou que «principalmente no início da sua experiência religiosa, Clara encontrou em Francisco de Assis não apenas um mestre cujos ensinamentos devia seguir, mas também um amigo fraterno».
Quando Clara tinha 18 anos, São Francisco foi à Igreja de São Giorgio, em Assis, para pregar durante a Quaresma. Depois de ouvir esta pregação, Clara sentiu dentro de si uma chama que lhe iluminou o coração e que, pouco depois, a levou a implorar a São Francisco que a ajudasse a viver também «segundo o modo do Santo Evangelho».
São Francisco, que reconheceu em Clara uma das almas escolhidas e destinadas por Deus a grandes feitos, prometeu ajudá-la e tornou-se o seu guia espiritual.
Em 1212, Clara fugiu de casa e dirigiu-se à Porciúncula, em Itália, onde passou a fazer parte da Ordem dos Frades Menores. Clara prometeu obedecer em tudo a São Francisco. Algum tempo depois, ela e as suas seguidoras mudaram-se para o Convento de São Damião, onde a santa permaneceu durante 41 anos, até ao dia da sua morte.
Nesse mesmo ano, Santa Clara e São Francisco de Assis fundaram a Segunda Ordem Franciscana, também conhecida como Ordem das Irmãs Clarissas.
3. Foi a primeira e única mulher a escrever uma regra de vida religiosa para mulheres
Bento XVI indicou que «Clara foi a primeira mulher na história da Igreja que compôs uma Regra escrita, submetida à aprovação do Papa, para que o carisma de Francisco de Assis fosse conservado em todas as comunidades femininas que se iam estabelecendo em grande número já naquela época e que desejavam inspirar-se no exemplo de Francisco e de Clara».
A sua decisão de escrever uma regra representou uma mudança radical em relação às normas religiosas do seu tempo. Só depois da sua insistência é que o Papa Inocêncio IV a aprovou, dois dias antes da morte de Clara, ocorrida a 11 de agosto de 1253.
4. Realizou milagres surpreendentes com pães
Certo dia, as irmãs clarissas tinham apenas um pão para alimentar 50 religiosas. Santa Clara abençoou-o e, enquanto todas rezavam juntas o Pai-Nosso, multiplicou-o e repartiu-o pelas suas irmãs.
Depois, enviou a outra metade aos Frades Menores. Perante isto, afirmou: «Aquele que multiplica o pão na Eucaristia, o grande mistério da fé, não terá também o poder de providenciar pão para as suas esposas pobres?»
Noutra ocasião, durante uma das visitas do Papa Inocêncio III ao convento, Santa Clara preparou as mesas e colocou nelas os pães, para que o Papa os abençoasse.
O Papa pediu à santa que fosse ela a fazê-lo, mas Clara recusou terminantemente.
O Papa pediu-lhe que fizesse o sinal da cruz sobre os pães e que os abençoasse em nome de Deus. Santa Clara, como verdadeira filha da obediência, abençoou aqueles pães com grande devoção, fazendo sobre eles o sinal da cruz. Naquele mesmo instante, o sinal da cruz apareceu marcado em todos os pães.
5. Esteve doente durante muitos anos
Santa Clara esteve doente durante 27 anos no Convento de São Damião, suportando todos os sofrimentos provocados pela doença. No seu leito, bordava, fazia trabalhos de costura e rezava incessantemente.
O Papa visitou-a duas vezes e exclamou: «Gostaria de ter tão pouca necessidade de ser perdoado como esta santa.»
Cardeais e bispos visitavam-na para lhe pedir conselho.
São Francisco já tinha morrido, mas três dos seus discípulos prediletos — Frei Junípero, Frei Ângelo e Frei Leão — leram para Clara a Paixão de Jesus enquanto ela agonizava.
A santa repetia: «Desde que me dediquei a pensar e a meditar sobre a Paixão e a Morte de Nosso Senhor Jesus Cristo, as dores e os sofrimentos não me desanimam, mas confortam-me.»
Somos seres de travessia e vivemos contínuos deslocamentos, desde o ventre materno. Saímos de lugares estreitos em direção a espaços mais amplos, até à travessia definitiva. Toda travessia tem um “para quê” (um sentido); ela aponta para algo maior, inspirador. O perigo é deixar-nos determinar pelo medo, bloquear nosso espírito aventureiro e nos “acostumarmos” com a margem conhecida. Às vezes estamos no meio de uma tempestade... levantam-se ondas de obscuridades sem sentido, de medos paralisantes, de dúvidas angustiantes... sopram outros ventos tempestuosos que nos ameaçam, arrastando tantas seguranças que nos sustentaram, quebrando tantos salva-vidas aos quais nos agarrávamos... Mas, no meio das tempestades, urge não perder a calma, ter a coragem de “permanecer na barca” e não permitir que o ruído dos ventos nos vença, que os relâmpagos nos ceguem, que as ondas nos levem... Afinal, somos “seres de travessia”. Jesus está connosco e diz-nos: «Coragem! Sou Eu, não tenhais medo!» Caminhar para a outra margem é sair do centro, da segurança, da acomodação... e ir em busca das surpresas, das novas descobertas; implica arriscar, ter ousadia, não ter medo de caminhar para os “confins da terra”, para regiões desconhecidas no seu próprio interior... Somente partindo da realidade de nós mesmos, que é sempre uma realidade rica e original, é que poderemos crescer como “peregrinos” em direção à nossa interioridade e em direção a um maior compromisso. Só assim podemos chegar ao outro lado. Coragem!
A liturgia do 19º Domingo do Tempo Comum tem como tema fundamental a revelação de Deus. Fala-nos de um Deus apostado em percorrer, de braço dado com os homens, os caminhos da história.
A primeira leitura convida os crentes a regressarem às origens da sua fé e do seu compromisso, a fazerem uma peregrinação ao encontro do Deus da comunhão e da Aliança; e garante que o crente não encontra esse Deus nas manifestações espectaculares, mas na humildade, na simplicidade, na interioridade. Hoje como ontem, há outros deuses, outras propostas de felicidade, que nos procuram seduzir e atrair... Há deuses que gritam alto (em todos os canais de televisão?) a sua capacidade de nos oferecer uma felicidade imediata; há deuses que, como um terramoto, fazem tremer as nossas convicções e lançam por terra os valores que consideramos mais sagrados; há deuses que, com a força da tempestade, nos arrastam para atitudes de egoísmo, de prepotência, de injustiça, de comodismo, de ódio... O nosso texto convida-nos a uma peregrinação ao encontro das nossas raízes, dos nossos compromissos baptismais... Temos, permanentemente, de partir ao encontro do Deus que fez connosco uma Aliança e que nos chama todos os dias à comunhão com Ele... Aceito percorrer este caminho de conversão? Encontro tempo para redescobrir o Deus da Aliança com quem me comprometi no dia do meu Baptismo? Quais são os falsos deuses que, às vezes, me afastam da comunhão com o verdadeiro Deus?
O Evangelho apresenta-nos uma reflexão sobre a caminhada histórica dos discípulos, enviados à "outra margem" a propor aos homens o banquete do Reino. Nessa "viagem", a comunidade do Reino não está sozinha, à mercê das forças da morte: em Jesus, o Deus do amor e da comunhão vem ao encontro dos discípulos, estende-lhes a mão, dá-lhes a força para vencer a adversidade, a desilusão, a hostilidade do mundo. Os discípulos são convidados a reconhecê-l'O, a acolhê-l'O e a aceitá-l'O como "o Senhor". A caminhada histórica dos discípulos e o seu testemunho do banquete do Reino não é um caminho fácil, feito no meio de aclamações das multidões e dos aplausos unânimes dos homens. A comunidade (o "barco") dos discípulos tem de abrir caminho através de um mar de dificuldades, continuamente batido pela hostilidade dos adversários do Reino e pela recusa do mundo em acolher os projectos de Jesus. Todos os dias o mundo nos mostra - com um sorriso irónico - que os valores em que acreditamos e que procuramos testemunhar estão ultrapassados. Todos os dias o mundo insiste em provar-nos - às vezes com agressividade, outras vezes com comiseração - que só seremos competitivos e vencedores quando usarmos as armas da arrogância, do poder, do orgulho, da prepotência, da ganância... Como nos colocamos face a isto? É possível desempenharmos o nosso papel no mundo, com rigor e competência, sem perdermos as nossas referências cristãs e sem trairmos o Reino?
A segunda leitura sugere que esse Deus, apostado em vir ao encontro dos homens e em revelar-lhes o seu rosto de amor e de bondade, tem uma proposta de salvação que oferece a todos. Convida-nos a estarmos atentos às manifestações desse Deus e a não perdermos as oportunidades de salvação que Ele nos oferece. Este texto propõe-nos também uma reflexão sobre as oportunidades perdidas... Israel, apesar de todas as manifestações da bondade e do amor de Deus que conheceu ao longo da sua caminhada pela história, acabou por se instalar numa auto-suficiência que não lhe permitiu acompanhar o ritmo de Deus, nem descobrir os novos desafios que o projecto da salvação de Deus faz, em cada fase, aos homens. O exemplo de Israel faz-nos pensar no nosso compromisso com Deus... Em primeiro lugar, mostra-nos a importância de não nos instalarmos num esquema de vivência medíocre da fé e sugere que o "sim" a Deus do dia do nosso baptismo precisa de ser renovado em cada dia da nossa vida... Em segundo lugar, sugere que o cristão não pode instalar-se nas suas certezas e auto-suficiências, mas tem de estar atento aos desafios, sempre renovados, de Deus... Em terceiro lugar, sugere que o ter o nome inscrito no livro de registos da nossa paróquia não é um certificado de garantia de salvação (a salvação passa sempre pela adesão sempre renovada aos dons de Deus).
Nem todos os lugares são para nós Há uma coisa que a vida nos vai ensinando, muitas vezes à custa de algumas feridas: nem sempre devemos insistir. Quando alguém não responde, talvez já tenha respondido. Quando não nos procuram, talvez já tenham escolhido outro caminho. Quando nos sentimos sempre a mais, talvez seja tempo de deixar de pedir um lugar onde nunca nos fizeram sentir em casa. Durante muito tempo confundimos insistência com amor, disponibilidade com amizade e sacrifício com fidelidade. Mas não é assim. As relações saudáveis não vivem de perseguições. Vivem de reciprocidade. Não exigem que andemos constantemente a provar o nosso valor. Quem gosta de nós encontra forma de nos fazer sentir importantes, mesmo nos pequenos gestos. Também dói aceitar isto. Dói perceber que investimos tempo, afeto e coração em pessoas para quem fomos apenas uma passagem. Mas há dores que nos libertam. Nem todas as portas que se fecham são um castigo. Algumas impedem-nos de continuar onde já não havia espaço para crescer. Não guardes ressentimento. Também não vivas à espera que alguém mude. A vida é demasiado curta para ser gasta a mendigar atenção, carinho ou presença. Há pessoas que chegam para ficar. Outras chegam apenas para nos ensinar que o nosso valor nunca pode depender do lugar que ocupamos na vida de alguém. No fim de contas, a paz começa no dia em que deixamos de correr atrás de quem se afasta e começamos a caminhar ao lado de quem escolhe ficar.
Porque quem quer a tua presença nunca te faz sentir um incómodo. Faz-te sentir um dom.
Hoje a reflexão é sobre aquele sorriso que deixei de te dar por não estar tão bem disposta, ou sobre aquele bom dia que me passou, enquanto divagava nos meus pensamentos. Pode também ser sobre aquela palavra que me faltou, naquele momento em que era precisa, ou sobre aquele telefonema que não te fiz. Pode ser ainda sobre aquela intenção que me mói há meses e que passo a vida a adiar. Pois é, esta reflexão é para mim e para todos, a quem isto conscientemente ou não acontece. Porque um sorriso meu naquele momento é só mais um, por isso posso sorrir amanhã, mas para ti pode ser "o" sorriso que te suaviza o dia. E que diferença, pequenos gestos de carinho, podem fazer por nós! Estamos desatentos e desligados tantas vezes. Falta ver mais, falta ouvir melhor, falta sentir. E isto sim devemos fazer apressadamente, mas não com pressa, antes que o amanhã nos falhe.