
Há dias em que o céu se fecha em tons de chumbo, carregado de promessas de tempestade.
E, ainda assim, a alma decide rir.
No meio da imensidão líquida, onde o horizonte se perde, o corpo não luta contra a água — celebra-a. Flutua. Entrega-se. Confia.
É aqui que o ser se revela mais verdadeiro:
quando a alegria não espera pelo sol para existir.
Porque nem sempre as nossas maiores prisões são visíveis.
Um escravo pode ser alguém acorrentado pela falta de educação, ou alguém que passa a vida num trabalho que não o realiza.
Um escravo pode ser quem serve os próprios medos, quem se rende aos vícios,
quem sacrifica a saúde para ganhar dinheiro
e depois descobre que não teve tempo
para dar amor a quem mais precisava.
Todos nós carregamos áreas de escravidão dentro de nós. O mais grave é que nos habituamos a essas correntes
e deixamos de as sentir.
Talvez por isso a liberdade assuste.
Porque, muitas vezes, ela é mais desconfortável do que as prisões que já conhecemos. Mas liberdade não é fazer tudo o que apetece. Liberdade é poder escolher aquilo que nos torna melhores pessoas.
Entre o sal e a espuma,
a criança que ainda vive em nós recorda-nos uma verdade simples:
só somos verdadeiramente livres para amar mais, para cuidar melhor,
para tornar o mundo um pouco mais humano.
A liberdade começa no instante em que deixamos de sobreviver
e passamos a viver com sentido.
Quando já não somos guiados pelo medo,
mas pela verdade que nos habita.
Ser livre é tornar-se espaço de esperança,
é fazer da própria vida um lugar onde outros respiram melhor. É caminhar leve, mesmo carregando cicatrizes, porque a alma sabe para onde vai.
E no fim, talvez a liberdade seja isto:
um mergulho confiante no que somos chamados a ser,
sem algemas por dentro,
sem medo do fundo,
sabendo que quem vive enraizado no essencial
nunca se afoga.
Padre João Torres
Foto: Hugo Delgado, in Moçambique