segunda-feira, 10 de agosto de 2026

A OUTRA MARGEM

 


A OUTRA MARGEM

Somos seres de travessia e vivemos contínuos deslocamentos, desde o ventre materno. Saímos de lugares estreitos em direção a espaços mais amplos, até à travessia definitiva. Toda travessia tem um “para quê” (um sentido); ela aponta para algo maior, inspirador. O perigo é deixar-nos determinar pelo medo, bloquear nosso espírito aventureiro e nos “acostumarmos” com a margem conhecida.
Às vezes estamos no meio de uma tempestade... levantam-se ondas de obscuridades sem sentido, de medos paralisantes, de dúvidas angustiantes... sopram outros ventos tempestuosos que nos ameaçam, arrastando tantas seguranças que nos sustentaram, quebrando tantos salva-vidas aos quais nos agarrávamos...
Mas, no meio das tempestades, urge não perder a calma, ter a coragem de “permanecer na barca” e não permitir que o ruído dos ventos nos vença, que os relâmpagos nos ceguem, que as ondas nos levem...
Afinal, somos “seres de travessia”. Jesus está connosco e diz-nos: «Coragem!
Sou Eu, não tenhais medo!»
Caminhar para a outra margem é sair do centro, da segurança, da acomodação... e ir em busca das surpresas, das novas descobertas; implica arriscar, ter ousadia, não ter medo de caminhar para os “confins da terra”, para regiões desconhecidas no seu próprio interior...
Somente partindo da realidade de nós mesmos, que é sempre uma realidade rica e original, é que poderemos crescer como “peregrinos” em direção à nossa interioridade e em direção a um maior compromisso.
Só assim podemos chegar ao outro lado.
Coragem!

Padre João Torres

domingo, 9 de agosto de 2026

"Ao largo... para rezar"

 

https://www.youtube.com/watch?v=2RqtZ3I59I8&list=PLAqKRngqwuSfPdOPEvu7KzjdvMvB1w33f&index=154

A liturgia do 19º Domingo do Tempo Comum tem como tema fundamental a revelação de Deus. Fala-nos de um Deus apostado em percorrer, de braço dado com os homens, os caminhos da história.

A primeira leitura convida os crentes a regressarem às origens da sua fé e do seu compromisso, a fazerem uma peregrinação ao encontro do Deus da comunhão e da Aliança; e garante que o crente não encontra esse Deus nas manifestações espectaculares, mas na humildade, na simplicidade, na interioridade.
Hoje como ontem, há outros deuses, outras propostas de felicidade, que nos procuram seduzir e atrair... Há deuses que gritam alto (em todos os canais de televisão?) a sua capacidade de nos oferecer uma felicidade imediata; há deuses que, como um terramoto, fazem tremer as nossas convicções e lançam por terra os valores que consideramos mais sagrados; há deuses que, com a força da tempestade, nos arrastam para atitudes de egoísmo, de prepotência, de injustiça, de comodismo, de ódio... O nosso texto convida-nos a uma peregrinação ao encontro das nossas raízes, dos nossos compromissos baptismais... Temos, permanentemente, de partir ao encontro do Deus que fez connosco uma Aliança e que nos chama todos os dias à comunhão com Ele... Aceito percorrer este caminho de conversão? Encontro tempo para redescobrir o Deus da Aliança com quem me comprometi no dia do meu Baptismo? Quais são os falsos deuses que, às vezes, me afastam da comunhão com o verdadeiro Deus?

O Evangelho apresenta-nos uma reflexão sobre a caminhada histórica dos discípulos, enviados à "outra margem" a propor aos homens o banquete do Reino. Nessa "viagem", a comunidade do Reino não está sozinha, à mercê das forças da morte: em Jesus, o Deus do amor e da comunhão vem ao encontro dos discípulos, estende-lhes a mão, dá-lhes a força para vencer a adversidade, a desilusão, a hostilidade do mundo. Os discípulos são convidados a reconhecê-l'O, a acolhê-l'O e a aceitá-l'O como "o Senhor".
A caminhada histórica dos discípulos e o seu testemunho do banquete do Reino não é um caminho fácil, feito no meio de aclamações das multidões e dos aplausos unânimes dos homens. A comunidade (o "barco") dos discípulos tem de abrir caminho através de um mar de dificuldades, continuamente batido pela hostilidade dos adversários do Reino e pela recusa do mundo em acolher os projectos de Jesus. Todos os dias o mundo nos mostra - com um sorriso irónico - que os valores em que acreditamos e que procuramos testemunhar estão ultrapassados. Todos os dias o mundo insiste em provar-nos - às vezes com agressividade, outras vezes com comiseração - que só seremos competitivos e vencedores quando usarmos as armas da arrogância, do poder, do orgulho, da prepotência, da ganância... Como nos colocamos face a isto? É possível desempenharmos o nosso papel no mundo, com rigor e competência, sem perdermos as nossas referências cristãs e sem trairmos o Reino?

A segunda leitura sugere que esse Deus, apostado em vir ao encontro dos homens e em revelar-lhes o seu rosto de amor e de bondade, tem uma proposta de salvação que oferece a todos. Convida-nos a estarmos atentos às manifestações desse Deus e a não perdermos as oportunidades de salvação que Ele nos oferece.
Este texto propõe-nos também uma reflexão sobre as oportunidades perdidas... Israel, apesar de todas as manifestações da bondade e do amor de Deus que conheceu ao longo da sua caminhada pela história, acabou por se instalar numa auto-suficiência que não lhe permitiu acompanhar o ritmo de Deus, nem descobrir os novos desafios que o projecto da salvação de Deus faz, em cada fase, aos homens. O exemplo de Israel faz-nos pensar no nosso compromisso com Deus... Em primeiro lugar, mostra-nos a importância de não nos instalarmos num esquema de vivência medíocre da fé e sugere que o "sim" a Deus do dia do nosso baptismo precisa de ser renovado em cada dia da nossa vida... Em segundo lugar, sugere que o cristão não pode instalar-se nas suas certezas e auto-suficiências, mas tem de estar atento aos desafios, sempre renovados, de Deus... Em terceiro lugar, sugere que o ter o nome inscrito no livro de registos da nossa paróquia não é um certificado de garantia de salvação (a salvação passa sempre pela adesão sempre renovada aos dons de Deus).

https://www.dehonianos.org/

sábado, 8 de agosto de 2026

Nem todos os lugares são para nós

 



Nem todos os lugares são para nós
Há uma coisa que a vida nos vai ensinando, muitas vezes à custa de algumas feridas: nem sempre devemos insistir.
Quando alguém não responde, talvez já tenha respondido.
Quando não nos procuram, talvez já tenham escolhido outro caminho.
Quando nos sentimos sempre a mais, talvez seja tempo de deixar de pedir um lugar onde nunca nos fizeram sentir em casa.
Durante muito tempo confundimos insistência com amor, disponibilidade com amizade e sacrifício com fidelidade. Mas não é assim.
As relações saudáveis não vivem de perseguições. Vivem de reciprocidade. Não exigem que andemos constantemente a provar o nosso valor. Quem gosta de nós encontra forma de nos fazer sentir importantes, mesmo nos pequenos gestos.
Também dói aceitar isto. Dói perceber que investimos tempo, afeto e coração em pessoas para quem fomos apenas uma passagem. Mas há dores que nos libertam.
Nem todas as portas que se fecham são um castigo. Algumas impedem-nos de continuar onde já não havia espaço para crescer.
Não guardes ressentimento. Também não vivas à espera que alguém mude. A vida é demasiado curta para ser gasta a mendigar atenção, carinho ou presença.
Há pessoas que chegam para ficar. Outras chegam apenas para nos ensinar que o nosso valor nunca pode depender do lugar que ocupamos na vida de alguém.
No fim de contas, a paz começa no dia em que deixamos de correr atrás de quem se afasta e começamos a caminhar ao lado de quem escolhe ficar.

Porque quem quer a tua presença nunca te faz sentir um incómodo. Faz-te sentir um dom.

Padre João Torres

sexta-feira, 7 de agosto de 2026

Deixar para hoje o amanhã

 


Hoje a reflexão é sobre aquele sorriso que deixei de te dar por não estar tão bem disposta, ou sobre aquele bom dia que me passou, enquanto divagava nos meus pensamentos. Pode também ser sobre aquela palavra que me faltou, naquele momento em que era precisa, ou sobre aquele telefonema que não te fiz. Pode ser ainda sobre aquela intenção que me mói há meses e que passo a vida a adiar. Pois é, esta reflexão é para mim e para todos, a quem isto conscientemente ou não acontece. Porque um sorriso meu naquele momento é só mais um, por isso posso sorrir amanhã, mas para ti pode ser "o" sorriso que te suaviza o dia. E que diferença, pequenos gestos de carinho, podem fazer por nós! Estamos desatentos e desligados tantas vezes. Falta ver mais, falta ouvir melhor, falta sentir. E isto sim devemos fazer apressadamente, mas não com pressa, antes que o amanhã nos falhe.


Lucília Miranda

quinta-feira, 6 de agosto de 2026

Ao longe, o mar e o céu tocam-se



O mar e o céu tocam-se no ponto mais distante que alcança o nosso olhar. No entanto, a linha do horizonte não marca o fim do mar; apenas esconde o que existe para lá do que conseguimos alcançar do ponto em que estamos. A linha que parece o fim é, na verdade, o início de tudo quanto ainda não vemos e que é, também ele, quase infinito.
Ao navegar por entre os nossos dias, aprendemos que também na nossa história os horizontes se sucedem e que há sempre um, e é para lá dele que está aquilo que nos chama. Por vezes, preferimos ficar e não arriscar. Outras vezes, fazemo-nos capazes de nos lançar e ir mesmo contra ventos e marés.
A morte não acaba com a vida. Esconde-nos a vida que há para lá dela.
Tal como os azuis do mar e do céu, a vida passa pela morte depurando-se e, sem deixar de ser vida, eleva-se a outra forma de ser, ainda mais bela: de imperfeita a perfeita.
Há quem não acredite na eternidade. Julga que o eu com que pensa e sente é apenas uma ilusão finita. Não é. O que pensa em mim é que sou eu, mais até do que as minhas mãos e a minha cara. Esta voz que é luz não é uma alucinação. Como sabem eles que este eu, que não veem, também deixa de existir com a morte do corpo?
Saibamos que existe um infinito para lá do que conseguimos ver. Mais ainda, o céu nos toca sempre nesse limite que mais não é do que um ponto de encontro a que um dia chegaremos, pelo qual passaremos e, sem deixar de ser quem somos, a partir do qual havemos de ser mais com os pés sempre na lama e com o pensamento para lá das nuvens, também agora, em mim, o mar e o céu se encontram.

José Luís Nunes Martins

quarta-feira, 5 de agosto de 2026

De que nos fala o medo?


O medo fala-nos sempre de futuro. Quando nos falta a capacidade de viver no presente, surge o medo.

O medo fala-nos de possibilidades que podem nunca vir a concretizar-se. Mas enquanto surgem e desfilam na nossa tela mental, retiram-nos do centro. Transportam-nos para um lugar de vulnerabilidade quase infantil e desprotegido.

O que será que nos ensina, então, o medo? Como podemos encontrar estratégias para o fintar e para o sentar num lugar que nos afete um pouco menos?

O medo ensina-nos a sobreviver. Protege-nos. Está ali como um guarda-costas empenhado e comprometido. Observa tudo e todos e envia-nos mensagens premeditadas e antecipadas para nos impedir de sofrer. Tem boas intenções, pelo menos! O problema é que quando o faz em excesso, tornando-se um guarda-costas demasiado focado em nós e no que fazemos, torna-se sufocante. Deixa de ser um protetor e passa a ser quase um agressor. É aqui que precisamos de entrar com medidas mais drásticas.

Quando o medo ocupa todo o nosso espaço interno, precisamos de tentar encontrar gavetas que nos ajudem a respirar. A ideia não será eliminar o medo, de todo. Mas dizer-lhe que, de momento, estamos bem. Estamos seguros e protegidos. Não há perigo. E se houver, nós somos adultos e crescidos e vamos conseguir resolver o que vier. Fica um alívio, não fica?

Colocar a mão no coração, fechar os olhos e dizer ao medo:

Está tudo bem. Eu sei que me queres proteger e guardar de todo o mal. Mas nem tu, nem ninguém o pode fazer. Por muito que gostássemos.

Tenho entendido os (meus) medos como uma prisão. Uma jaula que se ergue à volta de tudo e que deixa pouco espaço para respirar. Mas já compreendi que tudo o que queremos rejeitar em nós ganha força. E o mesmo acontece com o medo se eu lhe disser que não o quero aqui.

Num mundo em que todos parecem tão seguros de si em todos os aspetos, parece absurdo falar de medo e de vulnerabilidade. Mas existem. Dentro de todos os que parecem imparáveis e perfeitos.

Que os nossos medos encontrem um lugar ao sol para nos dar descanso e que o mar nos traga a presença e a motivação para viver apenas um dia de cada vez.


Marta Arrais

terça-feira, 4 de agosto de 2026

Quando o simples se torna impossível

 


Quando o simples se torna impossível
Há dias em que não nos cansam os grandes problemas.
Cansam-nos os pequenos.
Entramos num serviço para resolver uma questão simples e saímos com um papel na mão, três números de telefone, quatro balcões visitados e a sensação de que ninguém decidiu coisa nenhuma.
"Isso não é comigo."
"Tem de falar com outro departamento."
"Eu só faço esta parte."
"Tem de voltar amanhã."
E aquilo que levaria dois minutos transforma-se numa viagem sem fim entre procedimentos, autorizações, plataformas, carimbos e pessoas que parecem ter perdido a liberdade de pensar.
O mais curioso é que, muitas vezes, ninguém fez nada de errado. Cada um cumpriu o regulamento. Cada um seguiu o protocolo. Cada um respeitou a hierarquia.
Só que, no meio de tanta regra, perdeu-se aquilo que nunca devia desaparecer:
o bom senso.
As organizações existem para servir pessoas,
não para obrigar as pessoas a servir a organização.
Quando a burocracia se torna mais importante do que a solução, quando o procedimento vale mais do que a pessoa e quando o medo de decidir pesa mais do que a vontade de ajudar, alguma coisa deixou de funcionar.
Talvez precisemos de menos formulários e mais humanidade.
Menos departamentos e mais responsabilidade.
Menos "isso não é comigo" e mais "deixe-me ver como posso ajudar".
E sim… felizmente, em Portugal isto acontece muito pouco. Afinal, quem nunca resolveu um assunto simples depois de apenas cinco senhas, três repartições e uma assinatura que afinal precisava de outra assinatura?
Uma sociedade não se mede apenas pela quantidade de regras que cria, mas pela capacidade que tem de cuidar das pessoas.

Padre João Torres
No fim, todas as empresas, instituições e serviços têm máquinas, sistemas e procedimentos… mas nenhum deles substitui aquilo que verdadeiramente faz a diferença: um ser humano diante de outro ser humano, com a humildade de dizer: “Eu vou ajudar a resolver.”
Porque, quando ninguém assume a responsabilidade, até colocar sal em pipocas pode parecer uma missão impossível.