Nem tudo na vida se impõe. Nem tudo precisa de ser explicado, defendido ou insistido. Há momentos em que damos tudo: tempo, atenção, cuidado, presença… e, ainda assim, parece não ser suficiente. E isso cansa. Desgasta por dentro. Faz-nos duvidar do nosso valor. Mas há uma sabedoria simples — e exigente: nem sempre é preciso dar mais… às vezes é preciso saber parar. Existe um ditado japonês que o diz com clareza: “Se tudo o que ofereces não for suficiente, oferece a tua ausência.” Não como fuga. Não como castigo. Mas como verdade. Porque há presenças que só são reconhecidas quando deixam de estar. Como o sal: não aparece no menu, não chama a atenção, não faz barulho… mas quando falta, tudo perde sabor. Na vida do dia-a-dia é assim: há pessoas discretas que sustentam muito, há gestos pequenos que fazem toda a diferença, há silêncios que cuidam mais do que mil palavras. E quando isso não é visto, quando não é acolhido, quando não é valorizado… talvez seja tempo de dar espaço. Não para desistir, mas para deixar que o outro veja, sinta, perceba. Às vezes, a ausência não afasta — revela. Revela o valor do que estava, a falta do que sustentava, o lugar que alguém ocupava. E, no meio disso, também nos ensina a nós: a não mendigar atenção, a não forçar o que não cresce, a cuidar da nossa dignidade. Porque quem é presença verdadeira não precisa de se impor — precisa apenas de ser reconhecido.
Há palavras que ficam presas na garganta. Não porque não sejam verdadeiras, mas porque temos medo. Medo de parecer frágeis. Medo de não sermos correspondidos. Medo de dizer demais… num mundo que nos ensinou a sentir de menos. E assim vamos adiando. Guardando o que é essencial como se o tempo fosse infinito. Mas não é. A vida passa nos dias simples, nos encontros que achamos garantidos, nas pessoas que pensamos que estarão sempre ali. E, de repente, já não estão. Ou já não somos os mesmos. Ou já é tarde demais. Há um peso silencioso que muita gente carrega: o peso de não ter dito. De não ter dito “gosto de ti”, quando o coração pedia. De não ter dito “amo-te”, quando isso podia ter mudado tudo. Porque, no fim, não são as palavras ditas que nos inquietam… são as que ficaram por dizer. Dizer não nos diminui. Não nos torna fracos. Torna-nos verdadeiros. Amar não é um risco — é uma necessidade. Por isso, hoje, não adies. Não compliques. Não esperes pelo momento perfeito. Se sentes, diz. Se amas, mostra. Talvez não mudes o mundo… mas mudas o mundo de alguém. E o teu também. Diz enquanto é tempo.
Como Tomé, também nós dizemos, neste tempo estranho, que já não sabemos para onde ir, nem a quem ouvir… que já não sabemos em quem confiar, nem no que acreditar. E, no meio desta incerteza, Jesus não aparece como uma resposta fácil — aparece como uma pergunta que nos desinstala. Não nos dá soluções prontas. Aponta-nos caminhos. E diz, com uma serenidade que atravessa o ruído: “Não se perturbe o vosso coração.” Fala de Si com três palavras que não se esgotam: caminho, verdade e vida. Sou o caminho. Não um trilho de terra ou uma estrada de alcatrão, mas uma forma de viver com entranhas e coração. Diante de Mim não há muros fechados, mas horizontes abertos que te põem em movimento. Eu sou a verdade. Não uma verdade que se possui, mas uma atitude que se aprende. Não está fechada numa doutrina ou numa lei — vive-se. Eu sou a vida. Sou Aquele que faz viver. Quanto mais Evangelho entra em ti, mais vivo te tornas: no coração, na mente, no corpo. E ganhas força para libertar os medos e tudo aquilo que te prende por dentro. E então surge a pergunta: “Jesus vai tirar-me todos os problemas?” Não. Os problemas continuam. As dificuldades também. Mas quando estás ligado a Ele, há uma força que nasce em ti — uma força que não sabias que tinhas. E isso muda tudo. Porque, às vezes, não é a vida que muda primeiro… somos nós. E Jesus, discretamente, surpreende.
A melodia da maternidade é todo um alfabeto musical, é uma história de Amor em tom maior, de coragem, de responsabilidade e de perseverança, que insiste em manter o coração alinhado e afinado, não obstante os sobressaltos e notas soltas.
Ser mãe é muito mais do que dar à luz. É amar de forma infinita para além da razão e da compreensão, é abdicar de tantos sonhos, é ensinar a voar e ficar a assistir, de sorriso rasgado e coração cheio, às conquistas dos filhos. É correr e socorrer quando caem, é dar beijos nas feridas, é suavizar todos os hematomas que se vão somando ao logo da vida. Ser mãe é ser, acima de tudo, afinadora de corações! Como precisamos, hoje, deste urgente trabalho de afinação dos corações pela paz, pela reconciliação e pela fraternidade.
Ser mãe não significa somente colocar um filho no mundo, mas é também uma escolha de vida. O que escolhe uma mãe, qual é a escolha de vida de uma mãe? A escolha de vida de uma mãe é a escolha de dar a vida.
Cada vez temos mais consciência de que o exemplo e o abraço de uma mãe são o único antídoto para o mundo de hoje de solidão e de violência. Uma sociedade sem mães seria uma sociedade desumana, porque as mães sabem testemunhar sempre, mesmo nos piores momentos, a ternura, a dedicação, a força moral. Nos tempos sombrios de guerras em que vivemos, precisamos de aprender com as mães que o heroísmo pode ser mostrado em doação, a força na compaixão e a sabedoria na serenidade.
Contemplamos Maria, mãe da esperança! Ela que viveu com a palavra de Simeão: “Uma espada de dor trespassará a tua alma” (Lc 2, 35). Essa alma, por ser toda amor, era infinitamente vulnerável. Quando Maria, durante três dias, andou à procura do seu Filho adolescente, tendo Ele ficado em Jerusalém; quando o seguiu durante a sua vida pública, vendo-o confrontar-se com as incompreensões ou hostilidade de muitos; e – sobretudo – quando o acompanhou no caminho do Calvário, onde sofreu mais do que qualquer outra mãe. Contudo, no âmago do seu sofrimento, ela guardou uma confiança inquebrantável. Para lá do seu sofrimento, ela tinha a certeza de que era amada por Deus, mantendo a confiança nele. Maria, que conhece e compreende melhor do que ninguém, os sofrimentos das mães, ensina, mães e filhos, a viver em paz.
É bom que, neste Dia da Mãe, as nossas mães sejam cantadas e acarinhadas com belas palavras e gestos de ternura. Mas as nossas mães têm de ser muito mais escutadas e muito mais reconhecidas no seu papel central na sociedade. Só assim construiremos um mundo de paz e de reconciliação.
São as mães que mais odeiam a guerra, que mata os seus filhos. Pensemos naquelas mães quando recebem a carta: “Digo-lhe que o seu filho morreu em defesa da pátria…”. Pobres mulheres! Como uma mãe sofre e apesar de tudo sabe testemunhar a beleza da vida.
O arcebispo Óscar Romero dizia que as mães vivem um “martírio materno”: “Dar a vida não significa somente ser morto; dar a vida, ter espírito de martírio, é dar no dever, no silêncio, na oração, no cumprimento honesto do dever; naquele silêncio da vida quotidiana; dar a vida pouco a pouco? Sim, como a dá uma mãe que, sem temor, com a simplicidade do martírio materno, concebe no seu seio um filho, dá-o à luz, amamenta-o, fá-lo crescer e cuida dele com carinho. É dar a vida. É martírio”.
Neste tempo de incerteza e de tantas guerras violentas, confiamos as mães a Maria, que é a mãe de todas as mães. Recordamos e rezamos pelas mães que que perderam filhos e estão de luto, mas também pelas mães que lutam pela saúde da sua família, mães cuidadoras de idosos e de pessoas com deficiência.
Que as mães não esqueçam que os seus filhos também são filhos de Maria. Com elas, Maria partilha a sua responsabilidade materna, carrega os sofrimentos e as dificuldades dos seus filhos. Com as mães – e ainda mais do que elas – ela deseja a sua felicidade.
Ser mãe é ser feliz somente por ser mãe. Ser mãe é ser amor e amor que ninguém esquece, mas que sempre se agradece.
Que a celebração de mais um Dia da Mãe junte, em coro, as nossas vozes para manifestarmos todo o amor e gratidão para com as nossas mães!
Como a discípulos missionários seus, Jesus nos questiona:
Para onde queres ir? Eu sou o Caminho! O que queres seguir? Eu sou a Verdade! Onde queres permanecer? Eu sou a Vida!
A liturgia do quinto domingo do tempo pascal convida-nos a olhar para a comunidade nascida da cruz e da ressurreição, a comunidade da Nova Aliança. É uma comunidade que vive de olhos postos em Jesus ressuscitado, que percorre o caminho que Ele apontou e que, enquanto caminha, testemunha diante do mundo a vida e a salvação de Deus.
A primeira leitura apresenta-nos alguns traços que definem a Igreja de Jesus: é uma comunidade santa, embora formada por homens pecadores; é uma comunidade estruturada hierarquicamente, mas onde o serviço da autoridade é exercido no diálogo e na partilha; é uma comunidade de servidores, que recebem dons de Deus e que põem esses dons ao serviço dos irmãos; e é uma comunidade animada pelo Espírito, que vive do Espírito e que recebe do Espírito a força de ser testemunha de Jesus na história. A segunda leitura apresenta a nova comunidade nascida de Jesus como um “templo espiritual”, do qual Cristo é a “pedra angular” e os cristãos as “pedras vivas”. Os que integram essa comunidade constituem um “povo sacerdotal”, cuja missão é oferecer a Deus o verdadeiro culto: uma vida vivida na obediência aos planos do Pai e no amor incondicional aos irmãos. As “pedras vivas” do Templo do Senhor formam um Povo de sacerdotes, cuja missão é “oferecer sacrifícios espirituais agradáveis a Deus por Jesus Cristo”. Podemos dizer isto de uma forma mais simples: aqueles que aceitam integrar a comunidade da salvação são chamados a viver de forma coerente com os compromissos que assumiram no dia em que foram batizados; compete-lhes cumprir o projeto de Deus e testemunhar no meio dos seus irmãos a bondade, a misericórdia, o amor de Deus. Quais são os “sacrifícios espirituais” que oferecemos a Deus? Limitamo-nos a entregar-lhe uma “ração diária” de orações mil vezes repetidas e de rituais religiosos que a tradição impõe? Ou oferecemos a Deus, a cada momento do nosso dia, uma vida digna, verdadeira, coerente, comprometida, cheia de gestos de amor, de bondade e de misericórdia?
No Evangelho Jesus garante aos seus discípulos que nunca os abandonará e define o “caminho” que eles devem percorrer para chegarem à “casa do Pai”: é o mesmo “caminho” que Ele seguiu, o “caminho” da obediência a Deus e da doação total ao serviço dos irmãos. Os que acolhem esta proposta encontram a vida em plenitude e são acolhidos na família de Deus – a família do Pai, do Filho e do Espírito Santo. Todos nós ansiamos pela vida em plenitude; todos nós corremos atrás da felicidade verdadeira; todos nós andamos a tentar construir uma vida que faça sentido… Como chegar lá? Que caminho devemos percorrer para chegar à plena realização? Haverá um “mapa” que nos diga por onde ir e evite que andemos às voltas, a malbaratar a vida por atalhos que não levam a lado nenhum? Jesus, no momento em que se despede dos discípulos e lhes deixa o seu “testamento”, oferece-lhes uma indicação clara: “Eu sou o caminho, a verdade e a vida. Ninguém vai ao Pai senão por Mim”. É evidente que Ele não está a falar de um “caminho” físico, feito de terra, de pedras ou de alcatrão, mas está a falar de uma maneira de viver, de valores sobre os quais assentar a existência, de verdades que não são destruídas pela passagem do tempo ou pela ditadura das modas. Segundo Jesus, é por esse “caminho” que chegaremos à comunhão com Deus, que encontraremos a “casa do Pai”, que alcançaremos a vida verdadeira e eterna. Estamos disponíveis para seguir o “caminho” que Jesus nos mostra com as suas palavras, com os seus gestos, com o seu amor? Dispomo-nos a sonhar os sonhos que Ele sonhou, a abraçar os projetos que Ele abraçou, a defender as causas que Ele defendeu?
Leão XIV denuncia desperdício alimentar, em intenção de oração para mês de maio
Cidade do Vaticano, 30 abr 2026 (Ecclesia) – O Papa alertou hoje para o drama da fome, que afeta milhões de pessoas em todo o mundo, denunciando o desperdício alimentar e apelando a uma nova cultura de consumo.
“Hoje reconhecemos com dor que milhões de irmãos e irmãs continuam a passar fome, enquanto tanto alimento é desperdiçado nas nossas mesas”, lê-se na oração escrita por Leão XIV, no vídeo que divulga a sua intenção para o mês de maio.
A iniciativa, promovida pela Rede Mundial de Oração do Papa, apresenta como tema ‘Por uma alimentação para todos’.
O Papa evoca a urgência de passar “da lógica do consumo egoísta para uma cultura de solidariedade, apelando ao compromisso das comunidades católicas.
"Pai bondoso, torna-nos capazes de transformar a lógica do consumo egoísta em cultura de solidariedade. Que as nossas comunidades promovam gestos concretos: campanhas de sensibilização, bancos alimentares, e um estilo de vida sóbrio e responsável.”
Leão XVI defende uma “nova consciência”, com gratidão pelos alimentos, que leve a “consumir com simplicidade, a partilhar com alegria, e a cuidar dos frutos da terra como um dom teu, destinado a todos, não apenas a alguns.”
A mensagem do Papa é enquadrada pelos números divulgados pelas agências das Nações Unidas.
O relatório ‘WFP 2026 Global Outlook’, do Programa Alimentar Mundial, perspetiva que 318 milhões de pessoas enfrentem níveis de crise de fome ou situações mais graves em 2026, alertando que o conflito no Médio Oriente pode atirar mais 45 milhões de pessoas para a “fome aguda” nos próximos meses.
Os documentos alertam que, no ano transato, foram mesmo confirmadas duas situações de fome generalizada simultâneas em partes de Gaza e do Sudão.
O diretor internacional da Rede Mundial de Oração do Papa, padre Cristóbal Fones, assinala que esta é uma preocupação pessoal de Leão XIV, que convoca a comunidade cristã “a não ficar indiferente, mas a agir com determinação, a partir da oração e de gestos concretos de solidariedade”.