Acho que isto, e muito mais, deve estar nos livros! Se, porém, não estiver, paciência! Entendo que, num líder, tudo lhe sai tão normalmente que o povo confia nele. Regra geral, um líder surge de dentro para fora, não imerge de fora para dentro. Não se estica para ser reconhecido como tal, não se impõe, não é devoto do ‘são nunca à tarde’, não atira para as calendas gregas o que deve ser feito agora e já, desculpando-se com a Eva, com a cobra ou com terceiros. Um líder manifesta-se, no seu dia-a-dia, pelo seu modo de ser, de estar, de se relacionar, pelo que pensa, pelo que diz, pelo que faz, pelo que gera de esperança. É por isso que é seguido. Mas um líder, se é verdadeiramente líder, não é um sabe tudo, um nunca se engana, um infalível que não quer ouvir ninguém, um não volta atrás, um teimoso no erro, um ‘picareta falante’ que pensa que tem razão só porque grita mais alto, um surdo à opinião dos outros, um cego que não quer ver a realidade e reconhecer a verdade. O êxito de qualquer líder está no objetivo que o move: se tem consciência da sua missão junto de quem lidera e trabalha pelo bem comum ou se está apenas apostado em salvar a sua pele e os interesses pessoais ou do seu grupo.
Até nisso a Sagrada Escritura nos rasga autoestradas seguras para chegarmos à meta da conversão, sem estorvos de tal espécie. Toda a gente sabe que o cargo não torna ninguém infalível, nem sábio, nem impecável, nem solitário na liderança, nem autossuficiente. O líder que é líder deve cultivar, cada vez mais, isso sim, aquelas virtudes que nele não se podem dispensar, como, por exemplo, a competência, a honestidade, a honradez, a humildade, a proximidade, a capacidade de dialogar, de ouvir e escutar, de se corrigir quando erra, de querer aprender com aqueles que lidera, de ter confiança neles, de manter a esperança de que será com eles que chegará a bom porto...
Já lá para trás, por exemplo, muito antes que anteontem, o rei Roboão, filho de Salomão, ouviu o que, seu irmão Jeroboão e toda a assembleia de Israel, lhe disseram: “O teu pai impôs-nos um fardo pesado. Se nos aliviares da dura escravidão e do fardo pesado que ele nos impôs, nós servir-te-emos”.
Roboão, que já devia estar com ela fisgada, disse que ia pensar e mandou-os regressar dali a três dias. Entretanto, representando grande preocupação, foi pedir conselho aos anciãos que tinham servido seu pai, o rei Salomão, e perguntou-lhes: “O que é que me aconselhais a responder a este povo?”. Eles disseram-lhe: “Se hoje te colocares ao serviço deste povo, se o servires e lhe responderes com boas palavras, então eles colocar-se-ão para sempre ao teu serviço”.
Roboão, porém, desprezou o conselho do povo e dos anciãos experimentados. Preferiu seguir os que tinham crescido com ele e o serviam, à boa prática do clientelismo político, do ‘cronyism’, do amiguismo e compadrio. Foi aconselhar-se com os seus “jobs for the boys”. E perguntou-lhes: “O que é que me aconselhais a responder a este povo que me disse: “Aliviai-nos do jugo que o teu pai nos impôs”? Os jovens que tinham crescido com ele e o serviam, disseram-lhe: “A esse povo que disse: “Teu pai tornou pesado o nosso fardo; alivia este fardo que pesa sobre nós”, responderás: “O meu dedo mínimo é mais grosso do que a cintura de meu pai. O meu pai colocou sobre vós um fardo pesado. Pois bem! Eu aumentarei sobre vós esse fardo. Meu pai castigou-vos com chicotes, eu castigar-vos-ei com ferrões”. (1Re 1-19)
Passados os três dias, Roboão respondeu isto mesmo ao povo que voltou ao seu encontro, como ficara combinado. Sem ponderar e bem discernir, desprezando o conselho do povo e dos anciãos cheios de experiência política e popular, o jovem rei, rico de si, quis esquecer que a sua função de autoridade justa era servir o povo e ouvir o seu clamor. Assim, até que as coisas se alinhassem, e nunca como se desejaria, abriu-se a guerra, começaram as turras entre o seu irmão e o povo sempre sofredor.
Passados cerca de três mil anos, mais minuto menos segundo, nada se aprendeu, embora nos tivessem dito qual é o Caminho, a Verdade e a Vida. E todos nós sabemos que as armas de hoje são muito mais mortíferas que as fisgas, as fundas e o mais que à mão de semear estivesse naquele tempo.
Em 17 de outubro de 2015, nos 50 anos da instituição do Sínodo dos Bispos, o Papa Francisco falava da "pirâmide invertida" para defender e sublinhar que a verdadeira autoridade é o serviço e não o poder. Na Evangelii Gaudium falou da autoridade como poliedro, o qual une e integra a diversidade, reflete a confluência de todas as partes, evitando lógicas autoritárias ou piramidais (cf. EG236). Na Carta Encíclica Fratelli Tutti, voltou ao tema, para afirmar que o poliedro, tanto na comunidade eclesial como na civil, representa uma sociedade onde as diferenças convivem, integram-se, enriquecem-se e iluminam-se reciprocamente, havendo aspetos da realidade que uns topam mas não se descobrem nos centros de poder onde se tomam decisões determinantes (cf. FT215).
Na Igreja, a sinodalidade está a fazer caminho e tem muito caminho para trilhar. Quando as dinâmicas políticas, em vez de empecilharem uns com os outros, descobrirem este filão, oh oh, ups, o mundo vai ter muita mais beleza, o povo muito mais proveito e alegria! Haja esperança!
D. Antonino Dias
Caminha, 23-05-2026

