FÉ VERDADEIRA OU SIMPLES TRADIÇÃO?
“Se conferir a Crisma é uma das maiores alegrias do bispo, há outra coisa que é motivo de tristeza. É que, às vezes, quando o bispo confere a Crisma, o dom do Espírito Santo, nunca mais vê os adolescentes! Desaparecem da paróquia. E, a esse respeito, quero pedir: dediquem uma atenção especial a um dos dons do Espírito Santo chamado perseverança. Não esqueçam o que viveram neste tempo, para que a alegria também chegue a Roma, para celebrarmos juntos, rezarmos juntos, para essa alegria viva em seus corações e para que continuem sendo discípulos fiéis de Jesus Cristo. Sejam perseverantes na fé, para que voltem à paróquia — há muitas atividades, muitas oportunidades —, mas sobretudo na vida de fé, porque Jesus Cristo quer caminhar com vocês, com cada um de vocês e com todos vocês em comunidade - o que é tão importante. Não vivemos a fé sozinhos, vivemos juntos. E formar essas relações de amizade, de comunidade, é uma maneira de viver a perseverança como discípulos de Jesus.” (Papa Leão XIV, 16.5.2026)
As palavras do papa são ao mesmo tempo um apelo e um diagnóstico doloroso da realidade. Fala da alegria do Crisma, mas também da tristeza de ver tantos jovens desaparecerem da vida da comunidade logo depois de receberem o sacramento. E a pergunta impõe-se: terá razão? Infelizmente, basta olhar para a realidade das nossas paróquias para perceber que sim.
Muitos jovens fazem a catequese, recebem os sacramentos, participam nas celebrações do Crisma e, pouco tempo depois, afastam-se completamente da Igreja. Durante anos prepararam-se para um compromisso de fé que, na prática, rapidamente abandonam. E isto obriga-nos a questionar: estaremos a formar verdadeiros discípulos de Cristo ou apenas a cumprir etapas sociais e culturais?
O Papa insiste na perseverança como dom do Espírito Santo. Mas a perseverança exige decisão, convicção e verdade. A fé não pode ser apenas um momento bonito, uma celebração, uma tradição de família ou um acontecimento para fotografias. Ser cristão implica assumir um caminho, uma pertença, uma comunidade, uma responsabilidade. E talvez a realidade que vivemos seja exactamente o contrário disso: uma fé ocasional, emocional e superficial, sem continuidade nem compromisso.
Também é legítimo perguntar: afinal, o que mais querem os jovens? A Igreja oferece espaços de encontro, atividades, grupos, peregrinações, voluntariado, momentos de oração e convivência. Mas, apesar disso, muitos continuam indiferentes. Talvez porque o problema não esteja apenas na falta de propostas, mas numa cultura onde tudo é provisório, descartável e sem compromisso duradouro, inclusive a fé.
Por isso, as palavras do Papa são incómodas porque tocam numa verdade que muitas vezes evitamos enfrentar. E perante aquilo que se verifica, talvez fosse mais honesto assumir claramente: ou se quer viver a fé seriamente, ou então reconhecer que nunca houve verdadeira adesão a Cristo. Porque pior do que afastar-se é viver de aparência, fazer de conta que se acredita, fazer de conta que se pertence à Igreja, quando no fundo nunca se quis realmente seguir Jesus Cristo.
A fé autêntica não é perfeita, mas é sincera. Pode ter dúvidas, fragilidades e quedas, mas procura permanecer. O problema não é quem luta para acreditar; o problema é transformar os sacramentos em simples cerimónias vazias, sem consequência para a vida. E talvez seja precisamente esse o desafio lançado pelo Papa: deixar de viver um cristianismo de ocasião e recuperar uma fé consciente, madura e perseverante.
(P. António Magalhães Sousa)

