Paróquia de Arronches
sexta-feira, 8 de maio de 2026
Precisamos todos de um apagão
Precisamos de ficar sem nada, frágeis e desprotegidos
Precisamos nos desligar do que tomamos como certo e garantido.
Precisamos de ficar às escuras para se nos abrirem os olhos para o essencial.
Precisamos de nos sentir sós para valorizar as pessoas que temos.
Precisamos? Será que precisamos mesmo, de deixar de ter, para dar valor?
Se sim, parece-me que algo está errado à nascença.
A nossa sociedade tem vivido alguns apagões que nos dão um choque momentâneo de “vai tudo ficar bem” ou “ agora vamos ser melhores”, mas não me parece que essas promessas sejam cumpridas. Parece-me que rapidamente passa essa vontade de ser melhor, mais atento, preocupado e diligente para dar lugar a um argumento egoísta de: “já passei tanto, agora vou aproveitar!”
Quem o era, antes do apagão, continua a ser.
Quem o era, antes da perda, pode ter de se isolar, mas rapidamente volta ao que era.
Agora, quem não foi, quem não é, pode ainda vir a ser mas, nem sempre se pode esperar por acontecimentos trágicos para começar essa mudança.
Todos precisamos de um apagão, mas não podemos esperar que ele nos salve ou que nos abra os olhos. Precisamos de começar mais cedo a perceber e a agir de acordo com o que vemos, ou melhor de Quem vemos.
Podemos aguardar a vida toda para mudar algo que sabemos que queremos mudar.
Podemos querer valorizar mais o que temos, mas estamos agarrados ao passado.
Podemos agradecer mais, mas estamos acomodados.
Podemos ser mais gentis, mas esperamos que primeiro sejam gentis connosco.
E esperamos, esperamos e esperamos. Um dia acontece um apagão e não estávamos à espera. Ficamos maravilhados, assustados e comprometidos, mas será que alguma coisa verdadeiramente muda?
E tu amiga, de que apagão estás à espera?
Raquel Rodrigues
quinta-feira, 7 de maio de 2026
“Só se desilude quem estava iludido”!
Quando uma professora me disse esta frase, não compreendi de imediato. Achei que a desilusão que sentíamos perante os outros tinha, única e exclusivamente, que ver com o que esse “outro” nos fazia.
Na verdade, eu associava a desilusão apenas à pessoa que tinha tido uma atitude que eu não tinha gostado ou que me tinha magoado. Era mais fácil assim, realmente. Quando eu me desiludia não tinha qualquer responsabilidade no acontecimento, no evento, na situação.
Mas no dia em que a minha professora me (e nos) disse esta frase algo mudou em mim. Começou a nascer e instalou-se uma nova perspetiva. Nesta face do caleidoscópio também aparecia a minha responsabilidade. Também entrava aquilo que eu era.
Comecei a compreender que a ilusão era um cenário colocado por mim. Um véu que eu deixava cair em cima da pessoa do outro e que estava de acordo com aquilo que eu queria que ele fosse e fizesse. Como se eu decidisse amar de uma versão de alguém que só existia no meu entendimento e na minha cabeça.
E era assim que quando aquela pessoa, aquele amigo, aquele familiar fazia algo que me deixava “desiludida” eu me permitia colocar-me no lugar de vítima. O outro passava a ser o “mau” e eu a “boazinha”. Rapidamente concluí que também eu tinha um papel importante no sentir-me desapontada. Desiludida. Quem sabe até se a “culpa” não era mais minha do que do outro.
Como assim?
Se eu coloco no outro o peso de ser como eu quero e espero deixo de o ver e de o observar como é. Deixo de encontrar espaço para a sua pessoa, para o seu ser individual, para as atitudes que tem de acordo com a sua própria raiz. Se eu quero o outro à minha maneira e à minha imagem, sou eu quem não está a agir bem em primeiro lugar. O que o outro me vai devolver é apenas uma continuação óbvia da minha atitude e postura iniciais.
Se eu quero realmente amar e compreender alguém, tenho de encontrar espaço em mim para uma consciência mais ampla. Para considerar a história do outro como parte sua. Para esperar dele apenas o que ele é e não aquilo que eu gostava que fosse.
Marta Arrais
quarta-feira, 6 de maio de 2026
Quando a ausência fala
Quando a ausência fala
Nem tudo na vida se impõe.
Nem tudo precisa de ser explicado, defendido ou insistido.
Há momentos em que damos tudo:
tempo, atenção, cuidado, presença…
e, ainda assim, parece não ser suficiente.
E isso cansa.
Desgasta por dentro.
Faz-nos duvidar do nosso valor.
Mas há uma sabedoria simples — e exigente:
nem sempre é preciso dar mais… às vezes é preciso saber parar.
Existe um ditado japonês que o diz com clareza:
“Se tudo o que ofereces não for suficiente, oferece a tua ausência.”
Não como fuga.
Não como castigo.
Mas como verdade.
Porque há presenças que só são reconhecidas quando deixam de estar.
Como o sal:
não aparece no menu,
não chama a atenção,
não faz barulho…
mas quando falta, tudo perde sabor.
Na vida do dia-a-dia é assim:
há pessoas discretas que sustentam muito,
há gestos pequenos que fazem toda a diferença,
há silêncios que cuidam mais do que mil palavras.
E quando isso não é visto,
quando não é acolhido,
quando não é valorizado…
talvez seja tempo de dar espaço.
Não para desistir,
mas para deixar que o outro veja, sinta, perceba.
Às vezes, a ausência não afasta —
revela.
Revela o valor do que estava,
a falta do que sustentava,
o lugar que alguém ocupava.
E, no meio disso,
também nos ensina a nós:
a não mendigar atenção,
a não forçar o que não cresce,
a cuidar da nossa dignidade.
Porque quem é presença verdadeira
não precisa de se impor —
precisa apenas de ser reconhecido.
terça-feira, 5 de maio de 2026
Diz antes que seja tarde
Diz antes que seja tarde
Há palavras que ficam presas na garganta.
Não porque não sejam verdadeiras,
mas porque temos medo.
Medo de parecer frágeis.
Medo de não sermos correspondidos.
Medo de dizer demais…
num mundo que nos ensinou a sentir de menos.
E assim vamos adiando.
Guardando o que é essencial
como se o tempo fosse infinito.
Mas não é.
A vida passa nos dias simples,
nos encontros que achamos garantidos,
nas pessoas que pensamos que estarão sempre ali.
E, de repente, já não estão.
Ou já não somos os mesmos.
Ou já é tarde demais.
Há um peso silencioso
que muita gente carrega:
o peso de não ter dito.
De não ter dito “gosto de ti”,
quando o coração pedia.
De não ter dito “amo-te”,
quando isso podia ter mudado tudo.
Porque, no fim,
não são as palavras ditas que nos inquietam…
são as que ficaram por dizer.
Dizer não nos diminui.
Não nos torna fracos.
Torna-nos verdadeiros.
Amar não é um risco —
é uma necessidade.
Por isso, hoje,
não adies.
Não compliques.
Não esperes pelo momento perfeito.
Se sentes, diz.
Se amas, mostra.
Talvez não mudes o mundo…
mas mudas o mundo de alguém.
E o teu também.
Diz enquanto é tempo.
Padre João Torres
segunda-feira, 4 de maio de 2026
CAMINHO | VERDADE | VIDA
CAMINHO | VERDADE | VIDA
Como Tomé, também nós dizemos, neste tempo estranho,
que já não sabemos para onde ir, nem a quem ouvir…
que já não sabemos em quem confiar, nem no que acreditar.
E, no meio desta incerteza, Jesus não aparece como uma resposta fácil —
aparece como uma pergunta que nos desinstala.
Não nos dá soluções prontas.
Aponta-nos caminhos.
E diz, com uma serenidade que atravessa o ruído:
“Não se perturbe o vosso coração.”
Fala de Si com três palavras que não se esgotam:
caminho, verdade e vida.
Sou o caminho.
Não um trilho de terra ou uma estrada de alcatrão,
mas uma forma de viver com entranhas e coração.
Diante de Mim não há muros fechados,
mas horizontes abertos que te põem em movimento.
Eu sou a verdade.
Não uma verdade que se possui,
mas uma atitude que se aprende.
Não está fechada numa doutrina ou numa lei —
vive-se.
Eu sou a vida.
Sou Aquele que faz viver.
Quanto mais Evangelho entra em ti, mais vivo te tornas:
no coração, na mente, no corpo.
E ganhas força para libertar os medos
e tudo aquilo que te prende por dentro.
E então surge a pergunta:
“Jesus vai tirar-me todos os problemas?”
Não.
Os problemas continuam.
As dificuldades também.
Mas quando estás ligado a Ele,
há uma força que nasce em ti —
uma força que não sabias que tinhas.
E isso muda tudo.
Porque, às vezes, não é a vida que muda primeiro…
somos nós.
E Jesus, discretamente, surpreende.
que já não sabemos para onde ir, nem a quem ouvir…
que já não sabemos em quem confiar, nem no que acreditar.
E, no meio desta incerteza, Jesus não aparece como uma resposta fácil —
aparece como uma pergunta que nos desinstala.
Não nos dá soluções prontas.
Aponta-nos caminhos.
E diz, com uma serenidade que atravessa o ruído:
“Não se perturbe o vosso coração.”
Fala de Si com três palavras que não se esgotam:
caminho, verdade e vida.
Sou o caminho.
Não um trilho de terra ou uma estrada de alcatrão,
mas uma forma de viver com entranhas e coração.
Diante de Mim não há muros fechados,
mas horizontes abertos que te põem em movimento.
Eu sou a verdade.
Não uma verdade que se possui,
mas uma atitude que se aprende.
Não está fechada numa doutrina ou numa lei —
vive-se.
Eu sou a vida.
Sou Aquele que faz viver.
Quanto mais Evangelho entra em ti, mais vivo te tornas:
no coração, na mente, no corpo.
E ganhas força para libertar os medos
e tudo aquilo que te prende por dentro.
E então surge a pergunta:
“Jesus vai tirar-me todos os problemas?”
Não.
Os problemas continuam.
As dificuldades também.
Mas quando estás ligado a Ele,
há uma força que nasce em ti —
uma força que não sabias que tinhas.
E isso muda tudo.
Porque, às vezes, não é a vida que muda primeiro…
somos nós.
E Jesus, discretamente, surpreende.
Padre João Torres
domingo, 3 de maio de 2026
Mensagem para o Dia da Mãe da Comissão Episcopal do Laicado, Família e Vida
3 de maio de 2026
AFINADORA DE CORAÇÕES
A melodia da maternidade é todo um alfabeto musical, é uma história de Amor em tom maior, de coragem, de responsabilidade e de perseverança, que insiste em manter o coração alinhado e afinado, não obstante os sobressaltos e notas soltas.
Ser mãe é muito mais do que dar à luz. É amar de forma infinita para além da razão e da compreensão, é abdicar de tantos sonhos, é ensinar a voar e ficar a assistir, de sorriso rasgado e coração cheio, às conquistas dos filhos. É correr e socorrer quando caem, é dar beijos nas feridas, é suavizar todos os hematomas que se vão somando ao logo da vida. Ser mãe é ser, acima de tudo, afinadora de corações! Como precisamos, hoje, deste urgente trabalho de afinação dos corações pela paz, pela reconciliação e pela fraternidade.
Ser mãe não significa somente colocar um filho no mundo, mas é também uma escolha de vida. O que escolhe uma mãe, qual é a escolha de vida de uma mãe? A escolha de vida de uma mãe é a escolha de dar a vida.
Cada vez temos mais consciência de que o exemplo e o abraço de uma mãe são o único antídoto para o mundo de hoje de solidão e de violência. Uma sociedade sem mães seria uma sociedade desumana, porque as mães sabem testemunhar sempre, mesmo nos piores momentos, a ternura, a dedicação, a força moral. Nos tempos sombrios de guerras em que vivemos, precisamos de aprender com as mães que o heroísmo pode ser mostrado em doação, a força na compaixão e a sabedoria na serenidade.
Contemplamos Maria, mãe da esperança! Ela que viveu com a palavra de Simeão: “Uma espada de dor trespassará a tua alma” (Lc 2, 35). Essa alma, por ser toda amor, era infinitamente vulnerável. Quando Maria, durante três dias, andou à procura do seu Filho adolescente, tendo Ele ficado em Jerusalém; quando o seguiu durante a sua vida pública, vendo-o confrontar-se com as incompreensões ou hostilidade de muitos; e – sobretudo – quando o acompanhou no caminho do Calvário, onde sofreu mais do que qualquer outra mãe. Contudo, no âmago do seu sofrimento, ela guardou uma confiança inquebrantável. Para lá do seu sofrimento, ela tinha a certeza de que era amada por Deus, mantendo a confiança nele. Maria, que conhece e compreende melhor do que ninguém, os sofrimentos das mães, ensina, mães e filhos, a viver em paz.
É bom que, neste Dia da Mãe, as nossas mães sejam cantadas e acarinhadas com belas palavras e gestos de ternura. Mas as nossas mães têm de ser muito mais escutadas e muito mais reconhecidas no seu papel central na sociedade. Só assim construiremos um mundo de paz e de reconciliação.
São as mães que mais odeiam a guerra, que mata os seus filhos. Pensemos naquelas mães quando recebem a carta: “Digo-lhe que o seu filho morreu em defesa da pátria…”. Pobres mulheres! Como uma mãe sofre e apesar de tudo sabe testemunhar a beleza da vida.
O arcebispo Óscar Romero dizia que as mães vivem um “martírio materno”: “Dar a vida não significa somente ser morto; dar a vida, ter espírito de martírio, é dar no dever, no silêncio, na oração, no cumprimento honesto do dever; naquele silêncio da vida quotidiana; dar a vida pouco a pouco? Sim, como a dá uma mãe que, sem temor, com a simplicidade do martírio materno, concebe no seu seio um filho, dá-o à luz, amamenta-o, fá-lo crescer e cuida dele com carinho. É dar a vida. É martírio”.
Neste tempo de incerteza e de tantas guerras violentas, confiamos as mães a Maria, que é a mãe de todas as mães. Recordamos e rezamos pelas mães que que perderam filhos e estão de luto, mas também pelas mães que lutam pela saúde da sua família, mães cuidadoras de idosos e de pessoas com deficiência.
Que as mães não esqueçam que os seus filhos também são filhos de Maria. Com elas, Maria partilha a sua responsabilidade materna, carrega os sofrimentos e as dificuldades dos seus filhos. Com as mães – e ainda mais do que elas – ela deseja a sua felicidade.
Ser mãe é ser feliz somente por ser mãe. Ser mãe é ser amor e amor que ninguém esquece, mas que sempre se agradece.
Que a celebração de mais um Dia da Mãe junte, em coro, as nossas vozes para manifestarmos todo o amor e gratidão para com as nossas mães!
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