Gosto dos santos que se sabem rir de si próprios. Daqueles que, embora sendo sérios, não se levam demasiadamente a sério. Daqueles que até inspiram os artistas a esculpi-los ou a pintá-los a olhar para o mundo, sem ares demasiadamente seráficos ou poses de santidade para além do já muito supérfluo. Um santo triste é um triste santo, diz o povo. O Papa Francisco valorizava o humor, até como sinal de boa saúde. Achava que era uma graça pela qual rezava todos os dias, uma ferramenta de aproximação, um ato de humildade, de inteligência.
Dizem as crónicas que Bernardino de Sena era um pregador carismático, enérgico, cortante, inexorável, cativante e alegre: um fenómeno. De humor contagiante, usava-o para cativar a atenção dos ouvintes, assim como se servia de fina ironia, de piadas acaloradas e de histórias engraçadas para captar a atenção, para criticar a hipocrisia dos vícios e transmitir a mensagem, iluminando a fé, apelando à conversão e à penitência, convidando à construção da paz. Não raro, ria-se de si próprio, dos seus feitos, planos e experiências. Acho que é uma virtude rara, de se admirar, exprime maturidade e humildade, faz reconhecer que nem tudo o que se pensa e faz é bom, ajuda e liberta. Que bom seria se os líderes de todas as áreas, lá nos píncaros do mando, caíssem do seu sério abaixo e soubessem rir-se de si próprios e de tantas coisas que fazem acontecer e não deviam acontecer, e de outras tantas que não deixam que aconteçam e deviam acontecer! A sociedade, em vez de se rir deles, rir-se-ia com eles, desculpá-los-ia muito mais, teria mais esperança no futuro e sentiria muito menos as pressões e as dores do presente!
Como jovem sonhador, Bernardino quis mudar o mundo. Também hoje, como sempre, há quem alimente esses santos propósitos, mas descorando o essencial. Bernardino, porém, quis começar por aí, isto é, quis começar por primeiro se mudar a si próprio. Para tal, fez-se ermitão: ‘para grandes males, grandes remédios’, diz o povo. Dada a dureza de tal experiência eremítica, porém, e com um físico franzino e achacado a doenças, teve de concluir que era demasiada areia para a sua carroça. É ele quem o conta, com beleza. “Quero contar-lhes o primeiro milagre que fiz. Isso aconteceu antes de me tornar frade”. E continua: “Tomei a resolução de querer viver como um Anjo e não como um homem. Pensei em instalar-me numa floresta e comecei a perguntar a mim mesmo: “Que farás na floresta? Que comerás?’” E respondia a si próprio: “Farei como os Santos Padres; comerei erva quando tiver fome e beberei água quando tiver sede”. Se começou animado neste impulso de grande radicalidade, logo nos diz: “depois de invocar o nome bendito de Jesus, pus na boca uma porção de ervas amargas e comecei a mastigar. Mastigo e mastigo, mas não querem descer. Não podendo engolir, pensei: “Bebamos um pouco d’água”. Pois sim, a água descia e a erva continuava na boca. Bebi vários goles d’água com uma só porção de ervas e não consegui engolir”.
Embora apreciasse a solidão, sobretudo para rezar, acaba por concluir que a sua vocação era pregar ao povo onde o povo se encontrava. Sente-se, então, chamado pelos Frades Menores. Entusiasma-se pela sua regra, despoja-se dos bens que possuía, das honras da nobre família a que pertencia e toma o hábito de São Francisco, tinha 22 anos. Havia nascido a 8 de setembro de 1380, em Massa Marítima, na Toscana, Itália. Ficou órfão de mãe aos três anos e de pai aos sete, tendo sido educado por familiares e estudado Filosofia e Direito na universidade de Sena. Pregador itinerante, exímio e fervoroso, teólogo de renome, com a sua eloquência e entusiasmo arrebatava multidões. Fez do púlpito a sua cátedra de apóstolo do Nome de Jesus e de Maria como medianeira de perdão e de graça. Admirado por todos, recusou ser Bispo de Sena, de Ferrara e de Urbino, preferindo a liberdade da pregação. Faleceu a 20 de maio de 1444, com 64 anos, estando sepultado na igreja dos Franciscanos, em Áquila. Foi canonizado por Nicolau V, em 1450.
São João Paulo II falou várias vezes sobre São Bernardino de Sena, sobretudo para realçar a sua figura humana e a sua obra apostólica. Definiu-o como um homem de “mente aberta à fascinação da verdade e do bem, vivamente sensível às sugestões da beleza”. Como religioso, logo foi Superior local e provincial, na Toscana e na Úmbria, chegando a ser o Vigário-Geral da Observância. Cerca de 300 conventos foram por ele renovados, em Itália. Vivendo em tempos conturbados, tanto na sociedade civil como na Igreja, foi sempre coerente. Nunca se retraiu perante a situação: “espírito inteligente e prudente, compreendeu logo que era necessário vencer o mal semeando o bem, e organizou a sua pregação e o seu ministério como luta encarniçada e continua contra o pecado, chamando os cristãos, leigos e sacerdotes, humildes e poderosos, patrões e trabalhadores, à coerência de vida”. Tal como naquela época, também hoje e sempre, se exige de todo o cristão a coerência de vida, “o mundo precisa de testemunhas, convictas e intrépidas”.
A iconografia de São Bernardino é variada e rica em simbolismos. Na igreja deste convento de Santo António, em Caminha, existe a sua imagem. De hábito marrom, franciscano, com três mitras aos pés (a evocar as três dioceses), um livro aberto sobre o antebraço e mão esquerda (símbolo do seu saber e eloquência), e, na direita, segura o que talvez tivesse sido, sem agora lá estar, o monograma IHS (Jesus Salvador dos Homens). São as três primeiras letras do nome de Jesus, em grego: Ιησούς, em maiúsculas: ΙΗΣΟΥΣ, sobrepostas sobre um sol radiante, que Santo Inácio de Loyola e os jesuítas adotaram e divulgaram.
D. Antonino Dias
15-05-2026.




