domingo, 1 de março de 2026

Revitalizar a FÉ

 

https://www.youtube.com/watch?v=yaPkMywv2n8&list=PLAqKRngqwuSfPdOPEvu7KzjdvMvB1w33f


Na segunda etapa do caminho quaresmal, a Palavra de Deus convida-nos a revitalizar a nossa fé, a escutar a voz de Deus, a pormo-nos a caminho, sem reticências nem prevenções, na direção que Ele nos indicar. Pode ser que, à luz da lógica humana, os caminhos que Deus nos aponta pareçam estranhos e ilógicos; mas eles conduzem, indubitavelmente, à vida verdadeira e eterna.

A primeira leitura coloca diante dos nossos olhos aquele que a catequese de Israel considera o “modelo” do crente: Abraão. Depois de ouvir Deus dizer-lhe “põe-te a caminho”, Abraão deixa tudo, corta todas as amarras e avança rumo ao desconhecido, disposto a abraçar todos os desafios que Deus entender apresentar-lhe. A sua obediência é total, a sua confiança é inabalável. A forma como Abraão se entrega nas mãos de Deus interpela e desafia os crentes de todas as épocas. O “encontro” de Deus com Abraão não foi obra do acaso, mas sim fruto de uma clara decisão de Deus. A iniciativa de Deus mostra o seu interesse em relacionar-se com a humanidade, em estabelecer com os homens laços de comunhão e de familiaridade. Por detrás desse “interesse” de Deus está o seu projeto de salvação: Deus quer – quer muito – oferecer aos homens e mulheres que criou a possibilidade de se realizarem, de terem acesso à vida eterna. Talvez nós, seres humanos, encerrados em horizontes limitados e ocupados a viver “a prazo” nem sempre consigamos vislumbrar o alcance do projeto de salvação que Deus tem em marcha; talvez nós, seres humanos, seduzidos pela ambição, pelo comodismo e pela autossuficiência, prefiramos apostar no imediato, no facilitismo, no brilho ilusório das coisas efémeras… Os homens e mulheres do nosso tempo – do séc. XXI – têm consciência de que Deus tem um plano de salvação – de vida eterna, de realização plena – para lhes propor? Sentimo-nos testemunhas e arautos desse projeto no meio dos homens e mulheres que percorrem connosco o caminho da vida?

No Evangelho Jesus pede aos discípulos que confiem n’Ele e que ousem segui-l’O no caminho de Jerusalém. Esse caminho, embora passe pela cruz, conduz à ressurreição, à vida nova e eterna. Aos discípulos, relutantes e assustados, Deus confirma a verdade da proposta de Jesus: “Este é o meu Filho muito amado, no qual pus toda a minha complacência. Escutai-O”. Ousaremos também nós seguir Jesus no caminho de Jerusalém? O tempo de Quaresma é um tempo favorável de conversão, de transformação, de renovação. Traz-nos um convite a questionarmos a nossa forma de encarar a vida, os valores que priorizamos, as opções que vamos fazendo, as nossas certezas e apostas, os nossos interesses e projetos… O que é que precisamos de mudar, na nossa forma de pensar e de agir, a fim de nos tornarmos discípulos coerentes e comprometidos, que seguem Jesus no caminho do amor levado até às últimas consequências, até ao dom total de nós próprio?

Na segunda leitura, o autor da Carta a Timóteo recorda-nos que Deus conta connosco para sermos, no mundo, arautos da Boa Notícia da sua salvação. Talvez isso signifique correr riscos, enfrentar medos, suscitar oposições, viver em sobressalto; mas a proposta de Deus não pode ser riscada dos caminhos que a humanidade percorre: tem de ser proclamada de cima dos telhados e chegar ao coração de todos os homens.Ser colaborador de Deus na obra da salvação, dar testemunho corajoso das propostas de Deus, ser “sinal” de Deus no mundo será uma vocação sublime; mas, em geral, não é uma vocação demasiado apreciada nos tempos que correm. O homem do séc. XXI tem dificuldade em “correr atrás da eternidade”, em sacrificar-se para colher os valores eternos, em caminhar sob o olhar de Deus; prefere “agarrar o instante”, apostar no efémero, dar primazia à banalidade, viver para as coisas materiais, instalar-se na mediocridade, estabelecer-se naquilo que assegura comodismo e bem-estar imediato… A “salvação” em que o homem do séc. XXI aposta é uma “salvação” que não sacia a sede de vida e de felicidade que todo o homem sente. Como resultado dessa falta de horizontes, vivemos mergulhados na frustração, na depressão, na ansiedade, na tristeza, no desespero; caminhamos de mãos vazias, sentindo-nos desorientados e à deriva; temos medo que a nossa vida termine de repente num beco sem saída. Como poderemos nós, os que nos dispomos a colaborar com Deus no projeto de salvação que Ele tem para o mundo, colocar a transcendência e a vida eterna no horizonte dos homens? O que podemos fazer para que os nossos contemporâneos redescubram e abracem a salvação que Deus quer oferecer a todos os seus filhos? O que podemos fazer para que esta pobre humanidade que trilha os caminhos do mundo encontre a água viva que dá vida eterna?


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sábado, 28 de fevereiro de 2026

Converter-se não significa privar-se, mas libertar-se!




O tempo voa, e muitas vezes sentimo-nos sem fôlego quando chegamos aos nossos compromissos agendados. Este ano não é exceção, e foi assim que entramos na Quaresma.

A Quaresma é um tempo poderoso de conversão do coração, da mente e de toda a pessoa, de desprendimento das nossas paixões. Um tempo para viver com calma, mais consciente e mais altruísta.

Por isso o Jejum. O jejum, obrigatório na Quarta-feira de Cinzas e na Sexta-feira Santa, não é uma prática ascética com o objetivo de obter qualquer coisa ou favor de Deus. Pelo contrário, os cristãos jejuam porque Deus já nos deu tudo.

Retirar a comida da mesa serve, sobretudo, para nos examinarmos e percebermos que somos habitados por outras fomes e necessidades que muitas vezes sufocamos com o consumo material e com a nossa pressa habitual.

E nada tem a ver com a obtenção de um corpo escultural. O jejum quaresmal visa o fortalecimento do espírito, enquanto a dieta visa o emagrecimento do corpo. Existem duas perspetivas, uma interna e outra externa. Uma diz respeito à nossa relação com Deus, a outra à imagem que desejamos deixar nos outros.

A Quaresma não exige necessariamente um aumento da quantidade de orações, mas sim uma melhoria da sua qualidade.

A oração deve ser um trabalho interior sério que dá mais vida à existência, e não uma fuga à realidade. Este dinamismo interior encontra a sua realização natural na caridade concreta.

«Se o jejum nos liberta dos nossos apetites e a oração nos expõe à voz de Deus, o resultado é um coração mais generoso, impelido a partilhar quem somos e o que temos com os outros.» (Frei Roberto Pasolini, pregador da Casa Pontifícia.)

Jejuar é afirmar que podemos viver do essencial, que o homem não vive apenas de pão e de bens materiais, por mais necessários que sejam, mas tem a liberdade de não equiparar a felicidade à posse de tudo.

Renunciar a alimentos desnecessários e à acumulação de bens não é um fim em si mesmo, nem é prova de domínio pessoal, como poderia ser para um atleta. É, antes, um caminho para regressar ao Senhor, para viver em amor por Ele e pelos irmãos.

«Converter-se durante a Quaresma não significa privar-se, mas libertar-se». (Cardeal Matteo Maria Zuppi


Paulo Victória


sexta-feira, 27 de fevereiro de 2026

E que tal um empurrãozinho?



Já sentiste que gostavas que te empurrassem em vez de seres tu a empurrar?

Não te cansas? Não te cansas de bater às portas, de procurar, de perguntar e parecer que as coisas não acontecem?

Eu sim!

Parece que é tudo arrancado a ferros e que as conquistas que temos, aparentam ser naturais, mas são fruto de muito trabalho e luta. Gostava que certas coisas fossem mais fáceis de conseguir.

Queres um emprego melhor e até tens muitos amigos mas…parece que não estão na hora certa nem no lugar exato.
Queres uma oportunidade de mostrar o que sabes, mas parece que só tu é que vês e tens de lutar para ter “voz, ter vez, lugar”.
Queres marcar um encontro, mas as pessoas não têm tempo, vontade ou o que quiserem e tens de insistir e quase pedir para teres um pouco de atenção.

Parece que tudo é difícil ao ponto de querer gritar de frustração, ou, por outro lado baixar os braços de desânimo.

De vez em quando sabe bem quando algumas coisas nos aparecem como numa bandeja. Que nos surjam oportunidades dignas, que nos façam propostas justas, que nos reconheçam pelo valor que temos e não só pelo valor que lhes poderemos dar.

Andamos tão distraídos com o nosso umbigo que também nos esquecemos de dar aquele “empurrãozinho” a alguém. Uma palavra de ânimo, uma mensagem, uma recomendação ou uma sugestão que sabe a empurrão e sabe tão bem!

Mas hoje, hoje estou, cansada de empurrar… amanhã… amanhã volto!

E tu, amiga, que empurrão sentes que precisas de ter?


Raquel Rodrigues

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2026

No meio de mim, estás tu





Dentro do meu coração, estás tu. Acredito que, dentro do teu coração, esteja eu. Em cada um de nós está também Deus, porque nos ama. E, do mesmo modo, nós estamos no coração de Deus.

O pedaço de Deus que está em mim também vai quando me dou a alguém. Dou o que sou, o que tenho e o que há de mais profundo em mim.

Se sou amado por alguém, essa pessoa dá-se a mim, e eu fico com um pedaço do seu coração no meu. Depois, quando amo alguém, entrego-lhe um pedaço do meu coração, com tudo o que nele habita.

O meu pai amou-me, deu-se muito a mim, tanto que eu também sou ele, muito. Quando amo alguém, é também o meu pai que ama, porque, apesar de já não estar neste mundo, vive, bem vivo, dentro de mim e vai também quando entrego o meu coração.

Morrer é levar um pouco de todos os que nos amaram, mas também é continuar a viver naqueles que guardam em si o que lhes demos de nós.

Importa amar e abrir o nosso coração ao amor do outro. O preço é alto: temos de sofrer, porque nem sempre seremos bem recebidos e nem todos aqueles a quem abrimos o coração nos querem fazer bem.

A verdade é que também nós, muitas vezes, por razões e emoções confusas, não aceitamos o amor de todos, nem a todos queremos dar o melhor de nós.

Só com amor se perdoa. Perdoar é uma das formas mais sublimes de amar. No mais profundo de mim estão os perdões. Os teus e os de quem, como tu, me amou a esse ponto!


José Luís Nunes Martins


quarta-feira, 25 de fevereiro de 2026

Gestos que salvam




Há gestos que não pesam, que não fazem barulho ou fogo-de-artifício, mas que ficam. Tatuam-se em nós. E têm o dom de nos salvar.

Como se fossem o pulsar secreto que mantém o nosso mundo em pé.

Um abraço que chega como refúgio e que demora o tempo certo para o nosso coração serenar.

Uma mão que se dá como quem dá o coração: com a certeza de que, aconteça o que acontecer, vai estar sempre perto de nós.

Um olhar que nos encontra e que vê tudo o que somos, mesmo quando nós nos perdemos.

Um sorriso tão breve e tão capaz de nos arrebatar para sempre.

Uma palavra que nos conforta e um silêncio que abraça (e que escuta) o nosso coração.

Um “como estás?” que se importa e que quer escutar, de verdade, a nossa resposta.

Uma mensagem só para nos mostrar que se lembra de nós, só para nos fazer sorrir.

Uma companhia que parece que nos segura a alma, que faz tudo melhorar, só porque está ali.

Alguém que nos quer bem e que nos faz sempre sentir isso, mesmo sem ser preciso dizer.

Um pequeno gesto de bondade que ilumina o nosso dia inteiro e que nos inunda o coração de esperança.

É aí. É aí que se escondem as coisas mais bonitas, é aí que acontecem os maiores milagres. É aí que o nosso coração é tocado para sempre. Nesses pequenos gestos que são só o amor a abraçar-nos. E que têm sempre o dom de nos salvar.

Como se fossem o pulsar secreto que mantém o nosso mundo em pé.

É isso, o amor.

Esse sopro invisível que passa e que nos envolve como o abraço que precisamos, o colo que nos falta, o refúgio que procuramos. E que tem sempre o dom de nos salvar.

Como se fosse o pulsar secreto que mantém o nosso mundo em pé.

E é.


Daniela Barreira


terça-feira, 24 de fevereiro de 2026

Escolhe a Vida. Escolhe Amar Mais.





“O que é bom… ou é pecado ou engorda.”
Muita gente pensa o mesmo da fé. Que ser cristão é viver limitado.
Que Deus proíbe o que dá prazer. Que a religião é uma lista de “nãos”.
Mas deixa-me dizer-te uma coisa: isso não é cristianismo.
Deus não impõe. Deus propõe.
“Se quiseres, guardarás os mandamentos.” Se quiseres.
Diante de ti estão a vida e a morte. E Deus respeita-te tanto
que te deixa escolher.
Os mandamentos não são uma prisão.
São proteção. São mapa. São caminho para uma vida maior.
Jesus vai mais fundo. Ele não quer o mínimo.
Ele quer o máximo do amor. “Não matarás.”
E tu pensas: “Eu nunca matei ninguém.”
Mas já feriste alguém com palavras? Já destruíste alguém com desprezo?
Já espalhaste um boato? Já insultaste no silêncio do coração?
Pode-se matar sem tocar. Pode-se matar com a língua.
Com a indiferença. Com a humilhação.
Depois, Jesus fala do adultério. E vai à raiz: ao olhar. À intenção.
Ao coração. O outro não é objeto. Não é consumo. Não é posse.
É pessoa. É mistério. É dom.
Se não cuidas do teu olhar, o teu coração adoece.
E o que entra no coração acaba por moldar a tua vida.
E depois: “Sim, sim. Não, não.” Sem “nim”.
Sem duplicidade. Sem meias-verdades. Num mundo cheio de aparências,
Jesus chama-te à autenticidade. Não à perfeição. Mas à verdade.
Escolhe o que te faz crescer. Escolhe o que constrói. Escolhe o que dá vida.
E vais descobrir uma coisa surpreendente: O que é verdadeiramente bom
não é pecado nem engorda — dá vida.

Padre João Torres

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2026

Quando largo, descubro quem sou!



Não sou os nomes que me deram,
os cargos que ocupo,
as histórias que aprendi a contar sobre mim...
Sou um silêncio vivo.
Uma presença suave.
Algo que respira antes das palavras.

Não sou as opiniões.
Não sou as crenças herdadas, nem os medos aprendidos.

Sou o espaço onde tudo acontece.
Sou o olhar por trás dos olhos.
Sou o sentir antes do pensamento.
Sou o intervalo entre uma respiração e outra.

Quando deixo cair as máscaras,
descubro que não preciso provar nada.Não preciso chegar a lugar algum. Já estou.

Há em mim uma quietude antiga,
uma inteligência silenciosa,
que sabe que o coração bate sem pedir permissão à mente.

A minha alma não grita.
Ela sussurra.
Ela vive nos momentos simples e sei que volto para mim, não quando adiciono, mas quando retiro.

Retiro camadas.
Retiro expectativas.
Retiro identidades.
Até restar apenas presença.

E nessa presença,
descubro que nunca estive perdida;
apenas distraída do essencial.

A vida insiste em mostrar-me a beleza de toda a aprendizagem. Descubro uma presença maior que me acompanha: entrego, confio e deixo que o divino permaneça em mim.

Boa semana!


Carla Correia