sábado, 16 de maio de 2026

MENSAGEM DO PAPA LEÃO XIV PARA O LX DIA MUNDIAL DAS COMUNICAÇÕES SOCIAIS




   Preservar vozes e rostos humanos



Queridos irmãos e irmãs!

O rosto e a voz são traços únicos e distintivos de cada pessoa; manifestam a sua identidade irrepetível e são elemento constitutivo de cada encontro. Os antigos sabiam-no bem. Para definir o ser humano, os gregos usavam a palavra “rosto” (prósopon), que etimologicamente indica o que está diante do olhar, o lugar da presença e da relação. Por sua vez, o termo latino persona (de per-sonare) inclui o som: não um som qualquer, mas a voz inconfundível de alguém.

Rosto e voz são sagrados. Foram-nos dados por Deus, que nos criou à sua imagem e semelhança, chamando-nos à vida com a Palavra que Ele mesmo nos dirigiu. Uma Palavra que, ao longo dos séculos, ressoou na voz dos profetas e depois, na plenitude dos tempos, fez-se carne. Esta Palavra – esta comunicação que Deus faz de si mesmo – pudemos ainda escutá-la e vê-la diretamente (cf. 1 Jo 1, 1-3), porque se deixou conhecer na voz e no Rosto de Jesus, Filho de Deus.

Desde o momento da criação, Deus quis o ser humano como seu interlocutor e, como disse São Gregório de Nissa, [1] imprimiu no seu rosto um reflexo do amor divino, para que pudesse viver plenamente a sua humanidade através do amor. Preservar os rostos e as vozes humanas significa, portanto, preservar este selo, este reflexo indelével do amor de Deus. Não somos uma espécie feita de algoritmos bioquímicos predefinidos antecipadamente: cada pessoa possui uma vocação insubstituível e irrepetível, que emerge da vida e se manifesta precisamente na comunicação com os outros.

A tecnologia digital, no caso de falharmos nesta preservação, corre o risco de alterar radicalmente alguns dos pilares fundamentais da civilização humana, que por vezes temos como garantidos. Ao simular vozes e rostos humanos, sabedoria e conhecimento, consciência e responsabilidade, empatia e amizade, os sistemas conhecidos como inteligência artificial não só interferem nos ecossistemas informativos, como também invadem o nível mais profundo da comunicação, ou seja, o das relações entre as pessoas.

O desafio, por conseguinte, não é tecnológico, mas antropológico. Preservar os rostos e as vozes significa, em última análise, preservarmo-nos a nós próprios. Aceitar com coragem, determinação e discernimento as oportunidades oferecidas pela tecnologia digital e pela inteligência artificial não é sinónimo de esconder de nós mesmos os pontos críticos, a opacidade e os riscos.



Não renunciar ao próprio pensamento

Há muito tempo que existem múltiplas evidências de que os algoritmos concebidos para maximizar o envolvimento nas redes sociais – rentável para as plataformas – recompensam as emoções rápidas e, ao contrário, penalizam as expressões humanas que requerem mais tempo, como o esforço para compreender e a reflexão. Ao encerrar grupos de pessoas em bolhas de fácil consenso e indignação, estes algoritmos enfraquecem a capacidade de escuta e pensamento crítico, aumentando a polarização social.

Veio somar-se a isto uma confiança ingenuamente acrítica na inteligência artificial como “amiga” omnisciente, dispensadora de todas as informações, arquivo de todas as memórias, “oráculo” de todos os conselhos. Tudo isto pode enfraquecer ulteriormente a nossa capacidade de pensar de forma analítica e criativa, de compreender significados, de distinguir entre sintaxe e semântica.

Embora a IA possa dar apoio e assistência na gestão de tarefas comunicativas, ao abstermo-nos do esforço do próprio pensamento, contentando-nos com uma compilação estatística artificial, corremos o risco de deteriorar, a longo prazo, as nossas capacidades cognitivas, emocionais e comunicativas.

Nos últimos anos, os sistemas de inteligência artificial estão a assumir cada vez mais o controlo da produção de textos, música e vídeos. Grande parte da indústria criativa humana corre o risco de ser destruída e substituída pela etiqueta “Powered by AI”, transformando as pessoas em meros consumidores passivos de pensamentos não pensados, de produtos anónimos, sem autoria nem amor. Ao mesmo tempo, as obras-primas do génio humano no âmbito da música, da arte e da literatura vão sendo reduzidas a um mero campo de treino para as máquinas.

No entanto, a questão que realmente nos interessa não é o que a máquina consegue ou conseguirá fazer, mas o que nós podemos e poderíamos fazer, crescendo em humanidade e conhecimento, com uma inteligente utilização de ferramentas tão poderosas ao nosso serviço. Desde sempre, o ser humano tem sido tentado a apropriar-se do fruto do conhecimento sem o esforço do envolvimento, da pesquisa e da responsabilidade pessoal. Contudo, renunciar ao processo criativo e entregar às máquinas as próprias funções mentais e a própria imaginação significa enterrar os talentos recebidos para crescer como pessoas em relação a Deus e aos outros. Significa esconder o nosso rosto e silenciar a nossa voz.



Ser ou fingir: simulação de relações e da realidade

À medida que navegamos pelos nossos fluxos de informação (feeds), torna-se cada vez mais difícil compreender se estamos a interagir com outros seres humanos ou com “bots” ou influenciadores virtuais. As intervenções não transparentes destes agentes automatizados influenciam os debates públicos e as escolhas das pessoas. Especialmente os chatbots, baseados em grandes modelos linguísticos (LLM), estão a revelar-se surpreendentemente eficazes na persuasão oculta, através de uma contínua otimização da interação personalizada. A estrutura dialógica e adaptativa, mimética, destes modelos linguísticos é capaz de imitar os sentimentos humanos e, assim, simular uma relação. Esta antropomorfização, que pode até ser divertida, é ao mesmo tempo enganadora, especialmente para as pessoas mais vulneráveis. Porque os chatbots tornados excessivamente “afetuosos”, além de estarem sempre presentes e disponíveis, podem tornar-se arquitetos ocultos dos nossos estados emocionais e, desta forma, invadir e ocupar a esfera da intimidade das pessoas.

A tecnologia que explora a nossa necessidade de relacionamento pode não só ter consequências dolorosas para o destino dos indivíduos, mas também prejudicar o tecido social, cultural e político das sociedades. Isso acontece quando substituímos as relações com os outros pelas relações com a IA treinada para catalogar os nossos pensamentos e, portanto, construir à nossa volta um mundo de espelhos, onde tudo é feito “à nossa imagem e semelhança”. Desta forma, deixamo-nos roubar a possibilidade de encontrar o outro, que é sempre diferente de nós e com o qual podemos e devemos aprender a confrontar-nos. Sem aceitar a alteridade, não pode haver nem relação nem amizade.

Outro grande desafio que estes sistemas emergentes colocam é o da distorção (bias, em inglês), que leva a adquirir e transmitir uma perceção alterada da realidade. Os modelos de IA estão moldados pela visão do mundo de quem os constrói e podem, por sua vez, impor modos de pensar, replicando estereótipos e preconceitos presentes nos dados a que acedem. A falta de transparência na construção dos algoritmos, a par da inadequada representação social dos dados tendem a manter-nos presos em redes que manipulam os nossos pensamentos, perpetuando e aprofundando as desigualdades e injustiças sociais existentes.

O risco é grande! O poder da simulação é tal que a IA pode também iludir-nos com a construção de “realidades” paralelas, apropriando-se dos nossos rostos e das nossas vozes. Estamos imersos numa multidimensionalidade, onde se torna cada vez mais difícil distinguir a realidade da ficção.

A isto acrescenta-se o problema da falta de precisão. Os sistemas que apresentam como conhecimento uma probabilidade estatística, na realidade, oferecem-nos, quando muito, aproximações da verdade, que por vezes são verdadeiras “alucinações”. A falta de verificação das fontes, com a crise do jornalismo no terreno, que implica um trabalho contínuo de recolha e verificação de informações nos locais onde os eventos ocorrem, pode favorecer um solo ainda mais fértil para a desinformação, provocando uma crescente sensação de desconfiança, desorientação e insegurança.



Uma possível aliança

Por trás desta enorme força invisível que a todos envolve, está apenas um pequeno grupo de empresas, cujos fundadores foram recentemente apresentados como os criadores da “pessoa do ano de 2025”, ou seja, os arquitetos da inteligência artificial. Isto suscita uma preocupação importante em relação ao controlo oligopolístico dos sistemas algorítmicos e de inteligência artificial capazes de orientar subtilmente os comportamentos e até mesmo de reescrever a história da humanidade – incluindo a história da Igreja –, muitas vezes sem que possamos ter real consciência disso.

O desafio que nos espera não é impedir a inovação digital, mas sim orientá-la, estando conscientes do seu caráter ambivalente. Cabe a cada um de nós levantar a voz em defesa das pessoas, para que estas ferramentas possam realmente ser integradas por nós como aliadas.

Esta aliança é possível, mas tem de se basear em três pilares: responsabilidade, cooperação e educação.

Em primeiro lugar, a responsabilidade. Ela pode ser definida, consoante as funções, como honestidade, transparência, coragem, visão, dever de partilhar conhecimento, direito de ser informado. Porém, em geral, ninguém pode fugir à sua responsabilidade diante do futuro que estamos a construir.

Para quem está no comando das plataformas on-line, isso significa garantir que as próprias estratégias empresariais não sejam norteadas pelo exclusivo critério da maximização do lucro, mas por uma visão clarividente que tenha em conta o bem comum, da mesma forma que cada um deles se preocupa com o bem-estar dos seus filhos.

Aos criadores e desenvolvedores de modelos de IA, é exigida transparência e responsabilidade social em relação aos princípios de criação de projetos e aos sistemas de moderação que estão na base dos seus algoritmos e dos modelos desenvolvidos, de modo a permitir um consentimento esclarecido aos utilizadores.

Igual responsabilidade é pedida aos legisladores nacionais e reguladores supranacionais, que têm a função de zelar pelo respeito da dignidade humana. Uma adequada regulamentação pode proteger as pessoas duma ligação afetiva com os chatbots e conter a disseminação de conteúdos falsos, manipuladores ou deturpados, preservando a integridade da informação face à sua simulação enganosa.

Por sua vez, as empresas dos mass media e da comunicação não podem permitir que algoritmos orientados para vencer a qualquer custo a batalha por alguns segundos de atenção a mais prevaleçam sobre a fidelidade aos seus valores profissionais, voltados para a busca da verdade. A confiança do público conquista-se com a precisão e a transparência, não com a corrida por uma participação qualquer. Os conteúdos gerados ou manipulados pela IA devem ser sinalizados e claramente distinguidos dos conteúdos criados por pessoas. A autoria e a propriedade soberana do trabalho dos jornalistas e outros criadores de conteúdo devem ser protegidas. A informação é um bem público. Um serviço público construtivo e significativo não se baseia na opacidade, mas na transparência das fontes, na inclusão dos sujeitos envolvidos e num elevado padrão de qualidade.

Todos somos chamados a cooperar. Nenhum setor pode enfrentar sozinho o desafio de liderar a inovação digital e governar a IA. Por isso, é necessário criar mecanismos de salvaguarda. Todas as partes interessadas – desde a indústria tecnológica aos legisladores, das empresas de criação ao mundo académico, dos artistas aos jornalistas e educadores – devem estar envolvidas na construção e na efetivação de uma cidadania digital consciente e responsável.

O objetivo da educação é este: aumentar as nossas capacidades pessoais de refletir criticamente, avaliar a credibilidade das fontes e os possíveis interesses por trás da seleção das informações que nos chegam, compreender os mecanismos psicológicos que elas ativam, permitir às nossas famílias, comunidades e associações a elaboração de critérios práticos para uma cultura de comunicação mais saudável e responsável.

Precisamente por isso, cada vez mais, é urgente introduzir também, em todos os níveis dos sistemas educativos, a literacia para os meios de comunicação social, a informação e a IA, que algumas instituições civis já estão a promover. Como católicos, podemos e devemos dar o nosso contributo, para que as pessoas – especialmente os jovens – adquiram a capacidade de pensamento crítico e cresçam na liberdade do espírito. Esta literacia deveria ainda ser integrada em iniciativas mais amplas de educação permanente, alcançando igualmente os idosos e os membros marginalizados da sociedade, que muitas vezes se sentem excluídos e impotentes perante as rápidas mudanças tecnológicas.

A literacia para os meios de comunicação, a informação e a IA ajudará todos a não se adaptarem à tendência de antropomorfização destes sistemas, mas a tratá-los como ferramentas, a recorrer sempre a uma validação externa das fontes – que podem ser imprecisas ou erradas – fornecidas pelos sistemas de IA, a proteger a própria privacidade e os próprios dados, conhecendo os parâmetros de segurança e as opções de reclamação. É importante educar e educar-se para utilizar a IA de forma intencional e, neste contexto, proteger a própria imagem (fotos e áudio), o próprio rosto e a própria voz, para evitar que sejam utilizados na criação de conteúdos e comportamentos prejudiciais, como fraudes digitais, ciberbullying, deepfake, que violam a privacidade e a intimidade das pessoas sem o seu consentimento. Assim como a revolução industrial exigiu uma alfabetização mínima para permitir que as pessoas reagissem às novidades, também a revolução digital exige uma literacia digital (com uma formação humanística e cultural) para compreender como os algoritmos moldam a nossa perceção da realidade, como funcionam os preconceitos da IA, quais são os mecanismos que determinam o aparecimento de determinados conteúdos nos nossos fluxos de informação (feeds), quais são e como podem mudar os pressupostos e modelos económicos da economia da IA.

É necessário que o rosto e a voz voltem a dizer a pessoa. É necessário preservar o dom da comunicação como a mais profunda verdade do ser humano, para a qual também se deve orientar toda a inovação tecnológica.

Ao propor estas reflexões, agradeço a todos aqueles que estão a trabalhar para os objetivos aqui apresentados e, de coração, abençoo quantos trabalham para o bem comum através dos meios de comunicação.



Vaticano, na Memória de São Francisco de Sales, 24 de janeiro de 2026.



LEÃO XIV PP.

Dia Mundial das Comunicações Sociais: Vaticano promove debate sobre impacto da Inteligência Artificial nas relações humanas

Organismos da Santa Sé reúnem especialistas em Roma, com a presença do cardeal português D. José Tolentino Mendonça




Cidade do Vaticano, 15 mai 2026 (Ecclesia) – O Vaticano vai promover uma conferência internacional sobre Inteligência Artificial (IA) no próximo dia 21 de maio, em Roma, para analisar o impacto da tecnologia nas sociedades contemporâneas.

“A tecnologia que explora a nossa necessidade de relacionamento pode não só ter consequências dolorosas para o destino dos indivíduos, mas também prejudicar o tecido social, cultural e político das sociedades”, adverte o Papa Leão XIV na mensagem para a efeméride.

O evento, que decorre na Universidade Pontifícia Urbaniana sob o tema ‘Preservar vozes e rostos humanos’, pretende responder ao apelo do pontífice para que a inovação tecnológica se oriente pela verdade do homem.

“A conferência será aberta pelas intervenções de Paolo Ruffini, prefeito do Dicastério para a Comunicação, e do cardeal José Tolentino de Mendonça, prefeito do Dicastério para a Cultura e a Educação”, adianta o programa do encontro, enviado hoje à Agência ECCLESIA.

A iniciativa é organizada pelo Dicastério para a Comunicação em colaboração com o Dicastério para a Cultura e a Educação e a Fundação São João XXIII, reunindo personalidades do mundo académico e especialistas do setor de alta tecnologia.

Em Portugal, o Secretariado Nacional das Comunicações Sociais assinala a data com um debate sobre “informação especializada em redações generalistas”, agendado para o mesmo dia na sede da Agência Lusa.

“A sessão vai contar com a comunicação de Luísa Meireles, diretora de informação da Agência Lusa, que introduz o tema, depois abordado em torno da temática «religião»”, informa o organismo católico português.

O debate sobre a qualificação do espaço mediático e a responsabilidade algorítmica foi também sublinhado pelo presidente da Comissão Episcopal das Comunicações Sociais, que repudiou o uso de discursos violentos e de manipulação.

“A Igreja se quer ser, e quer, sal da terra e luz do mundo, não pode ser meia-luz, sombra, de alguma maneira, ou ser veneno na conversa”, defendeu D. Alexandre Palma em entrevista à Agência ECCLESIA.

O Dia Mundial das Comunicações Sociais celebra-se no domingo anterior ao Pentecostes, este ano a 17 de maio.

OC

sexta-feira, 15 de maio de 2026

HÁBITO MARROM, TRÊS MITRAS, HUMOR NOTÁVEL ...


Gosto dos santos que se sabem rir de si próprios. Daqueles que, embora sendo sérios, não se levam demasiadamente a sério. Daqueles que até inspiram os artistas a esculpi-los ou a pintá-los a olhar para o mundo, sem ares demasiadamente seráficos ou poses de santidade para além do já muito supérfluo. Um santo triste é um triste santo, diz o povo. O Papa Francisco valorizava o humor, até como sinal de boa saúde. Achava que era uma graça pela qual rezava todos os dias, uma ferramenta de aproximação, um ato de humildade, de inteligência.

Dizem as crónicas que Bernardino de Sena era um pregador carismático, enérgico, cortante, inexorável, cativante e alegre: um fenómeno. De humor contagiante, usava-o para cativar a atenção dos ouvintes, assim como se servia de fina ironia, de piadas acaloradas e de histórias engraçadas para captar a atenção, para criticar a hipocrisia dos vícios e transmitir a mensagem, iluminando a fé, apelando à conversão e à penitência, convidando à construção da paz. Não raro, ria-se de si próprio, dos seus feitos, planos e experiências. Acho que é uma virtude rara, de se admirar, exprime maturidade e humildade, faz reconhecer que nem tudo o que se pensa e faz é bom, ajuda e liberta. Que bom seria se os líderes de todas as áreas, lá nos píncaros do mando, caíssem do seu sério abaixo e soubessem rir-se de si próprios e de tantas coisas que fazem acontecer e não deviam acontecer, e de outras tantas que não deixam que aconteçam e deviam acontecer! A sociedade, em vez de se rir deles, rir-se-ia com eles, desculpá-los-ia muito mais, teria mais esperança no futuro e sentiria muito menos as pressões e as dores do presente!
Como jovem sonhador, Bernardino quis mudar o mundo. Também hoje, como sempre, há quem alimente esses santos propósitos, mas descorando o essencial. Bernardino, porém, quis começar por aí, isto é, quis começar por primeiro se mudar a si próprio. Para tal, fez-se ermitão: ‘para grandes males, grandes remédios’, diz o povo. Dada a dureza de tal experiência eremítica, porém, e com um físico franzino e achacado a doenças, teve de concluir que era demasiada areia para a sua carroça. É ele quem o conta, com beleza. “Quero contar-lhes o primeiro milagre que fiz. Isso aconteceu antes de me tornar frade”. E continua: “Tomei a resolução de querer viver como um Anjo e não como um homem. Pensei em instalar-me numa floresta e comecei a perguntar a mim mesmo: “Que farás na floresta? Que comerás?’” E respondia a si próprio: “Farei como os Santos Padres; comerei erva quando tiver fome e beberei água quando tiver sede”. Se começou animado neste impulso de grande radicalidade, logo nos diz: “depois de invocar o nome bendito de Jesus, pus na boca uma porção de ervas amargas e comecei a mastigar. Mastigo e mastigo, mas não querem descer. Não podendo engolir, pensei: “Bebamos um pouco d’água”. Pois sim, a água descia e a erva continuava na boca. Bebi vários goles d’água com uma só porção de ervas e não consegui engolir”.
Embora apreciasse a solidão, sobretudo para rezar, acaba por concluir que a sua vocação era pregar ao povo onde o povo se encontrava. Sente-se, então, chamado pelos Frades Menores. Entusiasma-se pela sua regra, despoja-se dos bens que possuía, das honras da nobre família a que pertencia e toma o hábito de São Francisco, tinha 22 anos. Havia nascido a 8 de setembro de 1380, em Massa Marítima, na Toscana, Itália. Ficou órfão de mãe aos três anos e de pai aos sete, tendo sido educado por familiares e estudado Filosofia e Direito na universidade de Sena. Pregador itinerante, exímio e fervoroso, teólogo de renome, com a sua eloquência e entusiasmo arrebatava multidões. Fez do púlpito a sua cátedra de apóstolo do Nome de Jesus e de Maria como medianeira de perdão e de graça. Admirado por todos, recusou ser Bispo de Sena, de Ferrara e de Urbino, preferindo a liberdade da pregação. Faleceu a 20 de maio de 1444, com 64 anos, estando sepultado na igreja dos Franciscanos, em Áquila. Foi canonizado por Nicolau V, em 1450.

São João Paulo II falou várias vezes sobre São Bernardino de Sena, sobretudo para realçar a sua figura humana e a sua obra apostólica. Definiu-o como um homem de “mente aberta à fascinação da verdade e do bem, vivamente sensível às sugestões da beleza”. Como religioso, logo foi Superior local e provincial, na Toscana e na Úmbria, chegando a ser o Vigário-Geral da Observância. Cerca de 300 conventos foram por ele renovados, em Itália. Vivendo em tempos conturbados, tanto na sociedade civil como na Igreja, foi sempre coerente. Nunca se retraiu perante a situação: “espírito inteligente e prudente, compreendeu logo que era necessário vencer o mal semeando o bem, e organizou a sua pregação e o seu ministério como luta encarniçada e continua contra o pecado, chamando os cristãos, leigos e sacerdotes, humildes e poderosos, patrões e trabalhadores, à coerência de vida”. Tal como naquela época, também hoje e sempre, se exige de todo o cristão a coerência de vida, “o mundo precisa de testemunhas, convictas e intrépidas”.
A iconografia de São Bernardino é variada e rica em simbolismos. Na igreja deste convento de Santo António, em Caminha, existe a sua imagem. De hábito marrom, franciscano, com três mitras aos pés (a evocar as três dioceses), um livro aberto sobre o antebraço e mão esquerda (símbolo do seu saber e eloquência), e, na direita, segura o que talvez tivesse sido, sem agora lá estar, o monograma IHS (Jesus Salvador dos Homens). São as três primeiras letras do nome de Jesus, em grego: Ιησούς, em maiúsculas: ΙΗΣΟΥΣ, sobrepostas sobre um sol radiante, que Santo Inácio de Loyola e os jesuítas adotaram e divulgaram.
D. Antonino Dias
15-05-2026.

Não vás embora, fazes falta!



Às vezes é só isto que precisamos de ouvir para dar mais um bocadinho, para fazer mais um esforço.


Quantas vezes já dissemos: vou desistir, vou embora? Será que queríamos mesmo desistir e ir embora?

Quando trabalhamos nem sempre nos sentimos valorizados e devidamente recompensados e às vezes é mais fácil sair, ir embora, mesmo que não queiramos e que nos faça sentir derrotados.

Mas se pensarmos bem, às vezes, apenas precisamos que alguém nos diga: ”Não vás embora, fazes falta!”. E não é por ego, mas por reconhecimento que precisamos ouvir e sentir que não somos tão irrelevantes ao ponto de irmos embora e sermos facilmente substituídos. Podem substituir o que fazemos mas não o que somos e como fazemos.

Há alturas em que temos mesmo de ir embora, virar a página e prosseguir caminho noutro trabalho, noutro grupo, noutra missão mas mesmo assim sabe tão bem ouvir: ”não vás…fazes falta!”

Mas nem sempre é assim, às vezes partilhamos esse desânimo e ninguém luta por nós. Ninguém insiste e nos convence a acreditar no nosso valor. É mais fácil aceitar e acenar com a cabeça em tom paternalista como quem compreende e aceita, mas nem sempre é isso que precisamos de ouvir.

Precisamos mais de:

- anda cá, preciso de ti!

- já vais? fica mais um pouco.

- sei que está cansada mas as coisas vão mudar.

- vá lá… não desistas!

Diz lá se não faz toda a diferença. Mesmo no nosso dia a dia, quando nos despedimos dos pais do marido, dos filhos e dos amigos, sabe bem ouvir ”já vais? Fica mais um pouco!”.

Por isso amiga, da próxima vez que alguém disser que quer desistir e ir embora, pergunta-lhe porquê e lembra-a da sua importância, porque, sabes, às vezes, vezes de mais, achamos que não somos importantes e precisamos que alguém não desista de nós e diga: "Não vás embora… fazes falta!”


E tu amiga, onde sentes que fazes falta?


Raquel Rodrigues

quinta-feira, 14 de maio de 2026

PROCISSÃO DAS VELAS

 Dia 12 de Maio, dezenas de fiéis participaram na missa  e procissão das velas em Arronches





Dois pesos e duas medidas!



Hoje falo sobre as exigências que o mundo tem para connosco e a completa desproporção quando se trata de sermos nós a reivindica-las também!

Onde está a palavra de honra, onde está o brio, o profissionalismo, a vontade de fazer melhor?

Tudo nos é cobrado, mas e ao contrário não teremos nós, igualmente, todo o direito de o fazer?

Torna-se cada vez mais difícil confiar e a leviandade com que se rematam certos problemas deixa tanto a desejar!

Por isso a minha reflexão de hoje vai no sentido de exercitamos a capacidade de nos colocarmos por um minutinho que seja no lugar do outro e perguntar: "e se fosse comigo?"

Tenho para mim que este é um dos segredos que tornaria o mundo num lugar melhor.



Lucília Miranda

quarta-feira, 13 de maio de 2026

Estar vivo aleija

É habitual dizermos que a vida é maravilhosa e um dom. No meu caso, talvez por inexperiência, tenho descoberto que só assim é porque estar vivo aleija. As grandes coisas da vida, os seus recantos mais valiosos, só são realmente extraordinários porque implicam algumas maçadas. É o caso da liberdade que nos leva a ter de estar expostos a opiniões diferentes das nossas. Tenho para mim, por isso, que um dos grandes atentados à dignidade humana nos dias que correm é, precisamente, a tentativa de anular este tipo de “complicações”; a tentativa de promover a vida plana, a eliminação das contradições. Pessoalmente acredito que devemos desconfiar das promessas de perfeição. Sempre que se quis edificar o Paraíso, acabou-se a contruir o inferno. A obsessão contemporânea por alcatifar a existência, por arredondar todas as esquinas do dia-a-dia, por garantir que não nos cortamos, tem resultado numa nova forma de apatia e ansiedade. Na física, não há calor sem fricção. No Evangelho, não há dom sem custo. Uma semana da vida servirá, assim, para celebrar essa desproporção. Não para tornar a vida um slogan, como se ela precisasse de marketing. Não para a revestir de cores publicitárias e mercantis. Não para lhe roubar ou omitir o desconforto e a indecisão. Quando era criança – embora não seja certo que não o continue a ser – existiam uns desenhos animados chamados “era uma vez a vida”. No genérico anunciava-se: que a vida “é música, som e harmonia”. Mas hoje tenho a sensação que, para muita gente, isso é capaz de ainda ser um luxo. Num comovedor e essencial livro, recentemente traduzido para português, denominado “Tudo na natureza apenas continua”, Yiyun Li escreve sobre a morte de um filho aquilo que, no fundo, podemos afirmar sobre a vida: “não é uma onda de calor, uma tempestade de neve, nem uma corrida de obstáculos para vencer rapidamente, nem uma doença aguda ou crónica da qual devemos recuperar rapidamente”. Talvez precisemos de concluir como a autora chinesa que, a certo momento, insinua que a vida é “uma simplificação de algo muito maior do que essa palavra”, porque possivelmente a grande pergunta que habita o coração humano não é se esta vida vale a pena ser vivida, mas se “vale a pena sofrer por ela”. Há uma música de Zeca Afonso, em que se diz que “a mulher, na democracia, não é biombo de sala”. Não façamos o mesmo à vida. Não permitamos que ela seja transformada numa “metáfora para a esperança e a resignação”. Não a domestiquemos. Não lhe roubemos o escárnio.

Padre João Bastos