sábado, 11 de julho de 2026

A Espera que Nos Salva




A Espera que Nos Salva
Há dias em que a vida nos obriga a parar.
Não porque queremos, mas porque já não conseguimos continuar a correr.
Conheci uma senhora que, sentada numa sala de espera de hospital, me disse uma frase que nunca esqueci:
— "Padre, passei a vida inteira à espera de dias melhores e, sem dar conta, fui deixando passar os dias que tinha."
Fiquei a pensar nisso.
Quantas vezes adiamos a felicidade para amanhã?
Quando resolvermos os problemas.
Quando tivermos mais dinheiro.
Quando os filhos crescerem.
Quando a vida for como sonhámos.
Mas a vida raramente acontece como a imaginamos.
Talvez repousar seja precisamente isto: deixar de exigir que tudo aconteça ao nosso ritmo.
Aprender a sentar-se diante da vida e dizer, no silêncio do coração:
"Estou aqui, à espera de nada."
Não por desistência.
Mas por confiança.
Confiança de que nem tudo depende de nós.
Confiança de que Deus continua a trabalhar mesmo quando não vemos.
Confiança de que a paz não nasce de ter tudo resolvido, mas de saber que estamos nas mãos certas.
Porque, muitas vezes, o maior milagre não é chegar mais longe.
É conseguir parar.
Respirar.
E agradecer o dom deste dia.


Padre João Torres

sexta-feira, 10 de julho de 2026

Onde há amor, há oração



A oração é a expressão máxima do amor. O amor exige presença, silêncio e tempo, muito tempo, ao ponto de quem ama se esquecer de si. A oração é igual.

A oração é uma manifestação de carinho e de fragilidade. O amor é uma vontade de entregar toda a riqueza e, ao mesmo tempo, uma pobreza que estende a mão.

Amar eleva a nossa alma, rezar também.

Somos chamados, se quisermos ser felizes, a amar e a pedir pelos que não nos amam e pelos que não amamos.

É, pois, no silêncio do nosso quarto e no interior do nosso coração que devemos falar com Deus sobre os que amamos e dos que não amamos, procurando amar mais uns e outros.

A oração tem sempre algo de tão belo quanto de clandestino. Não é uma troca nem uma resposta concreta que se deseja; é uma confiança que se deposita em quem se ama e se quer amar. Uma palavra sussurrada pode valer muito mais do que um discurso a uma multidão.

O amor com que se reza é mais importante do que qualquer palavra que se use.

Os que julgam que se bastam a si mesmos, que não precisam nem dependem de ninguém, vivem numa ilusão perigosa que se pode desmoronar a qualquer instante. A vida tende a dar lições muito duras a quem não aprende o que é evidente.

A oração muda quem a faz. Aperfeiçoa os sentimentos e aproxima o pensamento da verdade. O amor também.

Quem ama abre, estende e entrega o seu coração ao Céu e ao outro. Quem reza também.


José Luís Nunes Martins

quinta-feira, 9 de julho de 2026

Tempo

 


Quando somos crianças não existe, sequer, a noção de tempo. À medida que vamos crescendo, vamos percebendo que ele corre veloz. Ainda ontem eu...

Que distância vai do bebé ao velhinho? É que, para quem não sabe, o velhinho já foi bebé (estou a falar a sério).

Assim sendo, e porque não o podemos agarrar, acho que não precisamos de correr atrás dele. Acho até que ele gosta que disfrutemos dele com calma. Tempo para ter tempo. E acho também que ele gosta de ser vivido hoje, em cada hora do dia. E acredito, ainda, que o que ele gosta mais é que o dêmos aos outros (aqueles a quem dizemos tantas vezes: _ desculpa, não tenho tempo).

Durante uns anos, tive exposta no meu quarto esta frase de um autor que desconheço:

"Não é decerto razoável afirmar,

Que tens a vida toda para viver,

O tempo é todo feito no presente,

Amanhã podes querer e já não ter."

Li. Reli. Decorei. Falta viver.

Nota: p'ra começar ontem!


Lucília Miranda

quarta-feira, 8 de julho de 2026

O amor de alguém



Há um erro em que caímos muitas vezes, empurrados pela pressa.

O de acreditar que, por detrás da porta de um hospital, mora apenas um doente.

Mas não. Não mora. Definitivamente, não mora!

Ali nunca está apenas um doente.

Ali está o universo inteiro de uma vida.


Está uma criança que um dia adormeceu ao colo da mãe. Está um pai que carregou o filho aos ombros. Está uma mulher que esperou anos pelo homem que amava. Está um amigo que conhecia o caminho para fazer sorrir quem chorava. Está alguém que foi indispensável na vida de outra pessoa…


Porque ninguém é apenas aquilo que a doença deixou à vista.

A doença pode rasgar o corpo, e pode até desfragmentar a mente, mas não apaga a história.

Silencia a voz, mas não cala o amor.

Enfraquece a memória, mas não consegue apagar as pegadas deixadas no coração daqueles que um dia disseram: “Amo-te”

Há sempre alguém que, ao olhar para aquele rosto marcado pelo sofrimento, continua a ver beleza.

Alguém que não vê sondas, não vê cicatrizes nem vê limitações.

Vê o primeiro beijo.

Vê as mãos que embalaram um filho.

Vê os serões à volta da mesa.

Vê as discussões que terminaram em perdão.

Vê uma vida inteira.


É por isso que nenhum doente cabe numa cama.

Porque há demasiadas vidas a habitarem dentro dele.

E essa é uma das grandes tragédias do nosso tempo: aprendemos a medir as pessoas pelo que conseguem fazer, quando Deus nunca deixou de as medir pela infinita capacidade que têm de amar e de serem amadas.

O Evangelho nunca nos apresenta um Cristo fascinado pelos fortes, ou apenas por aqueles que podiam pagar os cuidados.

Jesus detém-Se sempre onde os outros passam depressa.

Ajoelha-Se diante da fragilidade.

Toca a carne que todos evitam.

Demora-Se junto de quem já ninguém considera importante.

Porque Deus conhece um segredo que nós esquecemos demasiadas vezes:

o valor de uma vida nunca diminui quando as suas forças diminuem.


Há uma santidade escondida na vulnerabilidade.

Há uma espécie de sacramento em cada corpo ferido.

Como se Deus continuasse a escolher a carne mais frágil para recordar ao mundo que o amor nunca depende da perfeição.

Foi esse segredo que São João de Deus compreendeu como poucos.

Quando todos viam pobres, loucos, abandonados e moribundos, ele via irmãos.

Não se aproximava para tratar apenas uma doença, mas para honrar uma dignidade.

Sabia que cada pessoa transportava uma história que merecia ser escutada, um nome que merecia ser pronunciado com respeito e um coração que continuava a ser infinitamente precioso aos olhos de Deus.


A hospitalidade nasceu desse olhar.

Não do desejo de curar apenas o corpo, mas da coragem de amar a pessoa inteira.

Quando te aproximares de um doente, esquece, por um instante, a doença.

Imagina a mãe que ainda reza por ele. Por aquele filho tão amado.

A filha que todos os dias pergunta ao pai como passou a noite.

O pai que carregou às cavalitas os filhos e os netos em animadas brincadeiras

O marido que continua a acariciar o cabelo da esposa, mesmo quando ela já não sabe o seu nome.

O neto que guarda uma fotografia antiga do avô onde aquele rosto ainda ria.

Depois, levanta ainda mais o olhar.

Contempla Deus.

Não o Deus distante das ideias, mas o Deus que conhece aquele nome desde antes da criação do mundo. O Deus que recolheu cada lágrima, que esteve presente em cada alegria, que nunca retirou os olhos daquele filho, nem quando o mundo deixou de o ver.

É esse o olhar que São João de Deus nos deixou como herança.

Olhar até que a doença deixe de ser o centro.

Olhar até que a pessoa volte a aparecer.

Olhar até descobrir, por detrás de cada fragilidade, alguém que continua a ser amado sem medida.

E nesse instante o olhar transforma-se.

Já não estás diante de um desconhecido.

Já não estás diante de um peso.

Já não estás diante de "mais um".

Estás diante do amor de uma família.

Estás diante do amor de Deus.

Cuidar de um doente não é apenas aliviar uma dor. É entrar, descalço, no lugar mais sagrado da existência humana.

Porque um doente nunca é apenas um doente.

É sempre o amor de alguém.

E é sempre, para Deus, um filho infinitamente amado.


Fernando d'Oliveira

terça-feira, 7 de julho de 2026

Controlar o temperamento

 


Controlar o temperamento

Uma das coisas que mais salta à vista, neste tempo pós-pandemia, é que as pessoas se tornaram mais agressivas na linguagem, com du(r)as pedras na mão; mais brutas no trato e com uma pedra no sapato.
Sentimos as pessoas mais tensas, mais agitadas e impacientes, mais arrogantes e violentas. Talvez pelo excesso de trabalho e de produção, pelo esgotamento, pela pressão constante em darmos mais, tornamo-nos hoje pessoas zangadas, aborrecidas, quezilentas, mal-humoradas. Mas se vivermos assim, acabaremos ainda mais cansados e exaustos.
Jesus está a atravessar um período de insucessos e problemas: João Batista é preso, Ele é contestado abertamente por representantes do templo, as povoações, após a primeira onda de entusiasmo e de milagres, afastaram-se.
E diante daquele ambiente de derrota, Jesus não se torna agressivo; pelo contrário, admira-se com a novidade; enche-se de alegria, sente-se feliz: «Pai, bendigo-Te, dou-Te graças, agradeço-Te, porque Te revelaste aos pequenos.»
O lugar vazio dos grandes preenchem-no os pequenos: sim, os pequeninos, os que nada podem fazer sozinhos, mas que sabem confiar, sabem que podem confiar e sabem em Quem confiar.
Jesus dirige-lhes, e a cada um de nós, um convite surpreendente:
«Vinde a Mim», «Tomai sobre vós o meu jugo» e «Aprendei de Mim».
Com Jesus aprendemos a controlar o nosso temperamento.
O controlo do nosso temperamento pode tornar-se um dos maiores desafios da nossa vida.


Padre João Torres

O poder de dizer NÃO!



Nem sempre sentimos que temos permissão para dizer que não. Que não nos apetece. Que não aceitamos. Que hoje não contam connosco. Que vamos preferir o nosso descanso e a nossa verdade ao invés de agradar e dizer um sim mentiroso.

Acreditamos que, para ser amados, temos de ficar bem vistos. De viver para agradar. Se o outro me valida, eu fico melhor. E mais feliz. Mas será mesmo assim? Será que quando digo que sim aos outros (e mesmo que isso implique dizer que não ao que eu própria quero) vou necessariamente a receber amor? E que amor é este que eu quero receber a todo o custo, e de qualquer um?

A verdade é que quando aceitamos tudo de todos e quando dizemos “sim” em esforço, e em detrimento de uma renúncia pessoal ou emocional, estamos a dizer que não à pessoa de quem melhor devemos cuidar. Se eu quero cuidar dos que estão comigo e dos que amo, mas não sei cuidar de mim e das minhas necessidades emocionais mais básicas, que mensagem vou passar aos meus filhos, aos meus netos, aos meus descendentes, ou aos que se cruzam comigo?

Que para ser aceite e amado, eu tenho de dizer sempre que sim aos outros, mesmo que isso implique uma negação profunda daquilo que eu próprio necessito (e quero!).

Parece-me urgente que saibamos aprender a dizer que não sem sentir culpa. Sem premeditar o que o outro pode ficar a julgar de mim ou do que fiz. Sem sentir que me devia colocar em último lugar, porque é isso que é esperado de mim. E de nós.

O que é esperado de nós, e o que beneficia tudo (e todos), é que eu viva de acordo com a minha verdade. Que eu rime as minhas atitudes e decisões com a minha própria voz. Com a minha vontade. Isso não significa que eu possa, sempre, fazer só o que bem me apetece. Mas tão pouco significa que eu só possa fazer o que quero quando suprir as necessidades de todos os outros. Isso não é bondade, altruísmo ou gentileza. É negligência de mim para mim.

Que saibamos valorizar quando as pessoas colocam os seus limites. Quando os clarificam. Quando dizem que não. Quando tomam decisões com base no que é benéfico para si.

E tu, já aprendeste a dizer que não?


Marta Arrais

segunda-feira, 6 de julho de 2026

A humildade é a verdade


«A humildade não é uma virtude, não é sequer uma qualidade.
A humildade é a verdade.»
José Luís Nunes

A humanidade feliz anseia viver na humildade.

O humilde respira a alegria.

O que se humilha não teme a mão de Deus,

sabe que o próprio Jesus veio montado num simples jumentinho.


Humildemente…

Com o Seu coração manso, O Cristo oferece-nos o Seu maior legado: O Santo Espírito.

É Aquele que fica connosco, que nos habita

e faz a carne, que apodrece e morre, ter ação…

O Espírito anima-nos e vamos ao encontro de quem tem uma grandeza passageira,

para levarmos Jesus a todos e todos a Jesus.


A nossa maior riqueza é conhecermos o Nosso Deus,

que usa um jugo suave, que nos alivia, nos ampara quando vacilamos

e nos levanta quando nos sentimos oprimidos.


É tempo de descanso…

Tempo de reencontro com os amigos e parar.

Jesus é quem nos convida a ir até Ele.

A parar de verdade e na verdade!

A bendizermos o Pai e a alegrarmo-nos com as coisas mais simples,

que na realidade são as mais belas e as mais puras.


Sejamos pequeninos e humildes…

Como as margaridas dos campos que nos abastecem o coração com Fé!

Como a areia que é banhada pelo mar e nos alimenta a Esperança!

Como as folhas do carvalho que nos providenciam a sombra fresca de uma Caridade fecunda.


 Liliana Dinis,