sexta-feira, 31 de julho de 2026

DOS PESSIVISTAS AOS PICA-MIOLOS E DOGMÁTICOS



Há dias, entrando numa dessas superfícies onde há milhares de milhentas coisas de que eu não preciso, passei pela secção dos livros, uma secção bem mais aliviada daquele frenesim que por lá se mexe e remexe. Dei volta, olhei, peguei, folheei, reconheci o autor e trouxe ‘O Século dos Imbecis’, de Valter Hugo Mãe. Dentro do valor da obra, da arte na escrita e da valia do autor, gosto de leituras que disponham bem, que tenham humor, que façam rir, que deixem marca e conteúdo, que enriqueçam. O mundo, mesmo que se divirta sob muitas e variadas formas, inclusive sob a desafinada polifonia de políticos a lerem fora da pauta com prejuízo da arte nobre que é a política, o mundo – dizia eu -, anda demasiadamente macambúzio, vive sem grande apreço pela beleza, pela graça, pela jocosidade. Sem se sair de casa, os livros são um excelente tgv para, sem necessidade de gps, nos levarem às lonjuras geográficas e humanas, nem que seja até à Malandrinha, à sua gente e gente de ao redor, sem esquecer os principais protagonistas que animam a sua história, cada um ao seu jeito e propósito. Carreguei o livro como se fosse uma balança digital de referência com fita métrica associada. Sem receio da obesidade ou da magreza, senti vontade de me pesar, medir e ver se estaria dentro dessa plêiade emburrada que enche o século de imbecis, ou se ainda poderia afirmar como José Régio no seu ‘Cântico Negro’: “Sei que não vou por aí”.
Ainda não conclui o empreendimento. Vou indo, como quem aprecia um doce que desejaria não acabasse. Atendendo, porém, à mensagem da parábola do trigo e do joio (Mt 13, 24-30), estou convencido que muita coisa me vai dar pela barba. No mundo, há trigo e joio a crescerem juntos. Cada um de nós também é um mundo: e que mundo! Aí, também há joio e trigo, subidas e descidas, montanhas e vilas, lucidez e confusão, interesses e desinteresses, luz e trevas, noite e dia... e quem disser que não, que atire a primeira pedra! (cf. Jo 8, 7).
O Marquês da Malandrinha é o protagonista principal do livro, mas, para dar título a este texto, deitei mão da Pessivista, achei graça ao termo e à personagem. É uma “ativista pessimista” de se lhe tirar o chapéu. Entre as suas ações e influências, positivas e negativas, ela policia “os costumes para impor limites à euforia e ao deslumbre”, assim diz o autor sobre todos os pessimistas. São gente “cujo feitio inquina as boas intenções e não vê senão a óbvia derrocada das condutas humanas ... são agentes de corrosão que assinalam a derrocada do que ainda só começa a ser construído ... adoram responsabilizar e exigem indemnizações, compensações, reversões, demissões, direitos, muita igualdade”. Onde diabo é que eu já ouvi destas aves agoirentas, logo ampliadas pelos altifalantes dos pica-miolos?!... Sim, os pica-miolos existem, resistem, insistem, persistem, não desistem de martelar no sótão de qualquer bípede humano, por mais justo e expedito que seja. O objetivo é colocar-lhes a paciência a pique, ko, nocaute. Dizem os estudiosos que o pica-pau – não o antropomórfico de walter Lantz, mas o conhecido entre nós por Peto -, dizem que bate o bico 100 vezes por minuto sobre o tronco das árvores para se alimentar de larvas e insetos e fazer o seu ninho. Os pica-miolos, porém, vão muitíssimo mais além! Se o fizessem num só minuto apenas, seria suportável. Mas fazem-no até à exaustão, noite e dia, dia e noite, tarde e manhã, manhã e tarde, em toda a parte e por todos os meios: o zapping é testemunha! Também sabemos que os pica-cebola - os de carne e osso -, muitas vezes não resistem aos sulfuretos e enzimas que as cebolas libertam ao serem descascadas e sacrificadas em prol dos pitéus culinários. Choram e choram, não por comoção e pena da cebola, mas para lavar, limpar e defender os olhos daquele gás ácido com que a cebola tenta defender-se. Os pica-miolos, mesmo que os descascados estrebuchem, esperneiem, barafustem e lhes arremessem o ácido da sua indignação até à sua consciência, não sentem comoção nem pena, não choram, têm prazer em torturar de forma lenta e persistente. Uns baseiam-se no dever de informar, querem chegar primeiro, vender o produto e manifestar trabalho, competência e zelo: repetem, repetem, repetem, repetem, uf... são fãs de Napoleão, o qual teria dito que a melhor figura de retórica é a repetição; outros apoiam-se no direito de ser informados, mesmo que isso venha a manifestar curiosidade mórbida e apenas interesse em abater o alvo: exigem mais explicações, e mais, e mais, e mais, e mais: uma exigência sempre em aberto e nunca satisfeita. Outros ainda reclamam o dever de escrutinar, sem que o escrutínio tenha limites ou linhas vermelhas, logo degenerando em fofoquice: e mais isto que a lei diz e eu interpreto assim, e mais aquilo que vem de fonte fidedigna, e mais tal e tal que eu li nas páginas amarelas, e mais aquilo que me disse um amigo do meu amigo no café da esquina, ih...
É verdade que não é tudo farinha do mesmo saco, sim, é verdade. Há quem procure, honesta e respeitosamente, e informe, denuncie, escrutine e peça as necessárias explicações, mesmo quando alguém possa pensar que o seu estatuto não pode descer a esse nível para dar explicações. Sim, há quem trabalhe e lute, com dignidade, para que o bem comum seja saudável e intelectualmente habitável! Mas perante os que são farinha daquele outro saco, até um santo como Job, de fusíveis NH bem mais reforçados, terá dificuldade em resistir. São como abelhas à volta da cortiço, não para defender a rainha, mas para ver quem a descarta, mais depressa e primeiro. Olham sempre de cima para baixo, julgando-se exemplares. Na vigília do dia 5 de agosto de 2023, em Lisboa, o Papa Francisco dizia que “a única situação em que é legítimo olhar para uma pessoa de cima para baixo é para a ajudar a levantar-se. Quantas vezes vemos as pessoas olharem para nós assim, por cima do ombro, de cima para baixo? É triste.”
Muito para lá do tempo dos afonsinhos, já o rei David dizia que é “melhor cair nas mãos de Deus, pois a sua misericórdia é grande, do que cair nas mãos dos homens” (2Sam 24, 13-14).
Tanta gente difamada pelos fiscais da sociedade em braço dado com os pica-miolos. Há quem se julgue com todos os direitos e deveres nenhuns. Neste mundo e no mundo que cada um de nós também é, há trigo e joio, todos temos disso um pouco. Os dogmáticos, aqueles que acham que são diferentes, que são apenas trigo e defendem as suas opiniões como verdade absoluta e inquestionável, mas deixam dúvidas sobre gato escondido com rabo de fora, logo entram em suspeita de acumulação de joio, tornando-se presa apetitosa para ‘pessivistas’ e pica-miolos, não deixando de preocupar quem deseja estabilidade e melhor bem comum. Como Manuel Carvalho refere no Público de ontem, há quem tenha “um apurado instinto necrófago para aproveitar oportunidades destas”. Só a verdade e a humildade nos libertará, disse-nos Cristo.

D.Antonino Dias
Caminha, 31-07-2026.

Desejamos muito, precisamos de pouco



Desejamos muito, precisamos de pouco


Os nossos desejos são infinitos, mas são poucas as verdadeiras necessidades.

Julgamos que a felicidade está em possuir muito, ou mesmo tudo o que desejamos. No entanto, o caminho de ir satisfazendo os desejos não é bom porque leva sempre a novas e maiores carências de coisas que, na realidade, não são importantes. A satisfação dos desejos só seria boa se soubéssemos o que devíamos desejar.

Muitas pessoas desprezam as suas necessidades, que tomam por caprichos, enquanto consideram essencial aquilo que é, na verdade, uma inutilidade.

Hoje, talvez como nunca, as pessoas anseiam e acabam por se entristecer em virtude dos seus desejos pelas coisas supérfluas. Muitos têm até mais do que precisam para serem felizes, mas é o seu desejo de possuir o que não tem verdadeiro valor que os faz infelizes – talvez com alguma justiça.

O que é mais importante: uma casa ou uma família? E se só pudermos escolher uma delas?

É preciso ouro ou pão para ser feliz?

Imaginamos muitas vezes o que faríamos se ganhássemos uma enorme fortuna num qualquer sorteio. Mas, por exemplo, eu não trocaria nenhuma das minhas filhas pelo maior prémio do Euromilhões. Então, por que razão não me sinto mais feliz por ser pai delas do que me sentiria se esse prémio me tivesse calhado?

Precisamos de viver com todo o coração tudo quanto já somos e temos. Deixemos as lutas pelas coisas materiais para quem acredite que é nelas que está a sua paz e serenidade.

Precisamos de ter a coragem de saber no nosso íntimo o nosso valor, sem que nos importemos com o que o mundo diz. Confiemos na vida e em tudo o que nos chegar. Muitos obstáculos são marcas de bom caminho.

Precisamos de amor e de nos centrarmos nisso mais do que em qualquer desejo superficial que nos pode distrair e… destruir.

Precisamos de menos do que desejamos e de mais do que merecemos.


José Luís Nunes Martins

quinta-feira, 30 de julho de 2026

O lugar onde mora o teu coração



O lugar onde mora o teu coração


Há uma pergunta que atravessa toda a Bíblia e que raramente fazemos a nós próprios: onde mora o meu coração?

Não me refiro ao órgão que pulsa no peito, mas àquele centro invisível onde nascem as decisões, os afetos, os medos, os sonhos e a fé. Na linguagem bíblica, o coração é o lugar da pessoa inteira. É aí que Deus fala, que a consciência desperta e que se decide a santidade ou a ruína.

Por isso, o livro dos Provérbios adverte: «Acima de tudo, guarda o teu coração, porque dele brotam as fontes da vida» (Pr 4,23).

Vivemos, porém, numa época estranhamente preocupada em cuidar de tudo, menos do coração. Protegemos os nossos investimentos, fazemos cópias de segurança dos nossos ficheiros, contratamos seguros para as casas e os automóveis, contamos passos, calorias e horas de sono. Mas quem protege o coração da erosão do orgulho, da inveja, da indiferença ou da desesperança?

A ferrugem da alma não faz ruído.

Instala-se lentamente. Primeiro desaparece a capacidade de admirar. Depois deixa-se de agradecer. Em seguida, perde-se a alegria de servir. Finalmente, deixa-se de acreditar que alguém ainda pode mudar. O coração endurece sem que quase ninguém dê por isso.

Foi esta tragédia que os profetas denunciaram vezes sem conta. Ezequiel anuncia a promessa de Deus: «Dar-vos-ei um coração novo e porei em vós um espírito novo; arrancarei do vosso peito o coração de pedra e dar-vos-ei um coração de carne» (Ez 36,26).

A conversão cristã não consiste, antes de mais, em mudar comportamentos. Consiste em deixar que Deus transforme o coração. Afinal, toda a história da salvação é a história de um Deus que procura o coração do homem para nele fazer a sua morada.

Santo Agostinho compreendeu-o como poucos. Depois de procurar a felicidade em tantos lugares, escreveu a frase que continua a ecoar ao longo dos séculos: «Fizeste-nos para Ti, Senhor, e o nosso coração está inquieto enquanto não repousar em Ti.» Não é uma inquietação psicológica; é uma saudade ontológica. O coração humano foi criado para o infinito e nunca encontrará descanso definitivo nas coisas finitas.

Talvez por isso Jesus fale tantas vezes do coração. Não começa pelas mãos, mas pelo interior. «Onde está o teu tesouro, aí estará também o teu coração» (Mt 6,21). O Evangelho nunca se limita a corrigir gestos; procura converter desejos. Porque uma vida muda verdadeiramente quando muda aquilo que ama.

O mundo moderno convida-nos a seguir o coração. O Evangelho propõe algo mais exigente: educar o coração, purificá-lo e orientá-lo para o Bem. Nem tudo o que sentimos nos aproxima da verdade. Nem todos os desejos conduzem à liberdade. Um coração sem Deus pode confundir paixão com amor, impulso com vocação, sucesso com felicidade. A verdadeira liberdade nasce quando o Espírito Santo molda os nossos afetos à medida do Coração de Cristo.

É por isso que a liturgia permanece sempre nova. Em cada Eucaristia, antes de entrarmos na grande Oração Eucarística, o celebrante lança um convite que atravessa quase dois milénios de tradição cristã: «Corações ao alto!» — Sursum corda. Não é uma simples fórmula ritual. É um programa de vida. Desde os primeiros séculos, a Igreja recorda-nos que o coração não foi criado para rastejar entre as coisas passageiras, mas para se elevar até Deus. Quem responde «O nosso coração está em Deus» compromete-se a viver com o olhar voltado para o Alto, sem fugir às responsabilidades da terra. É a síntese admirável da espiritualidade cristã: pés firmes no mundo, coração inteiramente em Deus.

A Igreja não nos pede que desprezemos a realidade terrestre, mas que não lhe entreguemos o coração. Quem absolutiza o sucesso acaba escravo do fracasso; quem idolatra a riqueza descobre que ela não compra a paz; quem vive apenas para o imediato perde o horizonte da eternidade.

No fundo, a santidade talvez seja isto: conservar o coração suficientemente livre para que Deus continue a habitá-lo.

No Evangelho, Cristo não promete uma vida sem cruz, mas um coração novo capaz de transformar a cruz em caminho de ressurreição. É esse coração que perdoa quando todos condenam, espera quando tudo parece perdido, ama quando o egoísmo se torna regra e permanece fiel quando a cultura da descartabilidade convida a desistir.

Guardemos, pois, o coração. Não por sentimentalismo, mas porque ele é o verdadeiro altar onde Deus deseja ser adorado. Que nunca o deixemos apodrecer entre as pequenas ambições, os ressentimentos ou as ilusões efémeras. Elevemo-lo todos os dias, como a Igreja nos ensina desde os tempos apostólicos: Sursum corda! Corações ao alto. Porque só um coração elevado por Deus é capaz de elevar o mundo.


Sérgio Carvalho

quarta-feira, 29 de julho de 2026

Quando tudo para, o que continua a mover-nos?

 



O corpo não tem raiz.
Ditado popular


Hoje, é tempo de parar o corpo, a mente, o trabalho e a azáfama diária.

O que nunca para é o coração.

A Fé alimenta o coração humano com uma Esperança infinita.


O nosso coração acredita com todas as forças que é possível alcançar a felicidade.

Esta é a razão pela qual o coração palpita.

Faz o coração cumprir a sua missão com um ânimo bombástico.

E dá-lhe a capacidade de escutar a voz de Deus!


Escutar o chamamento do Pai, estar atento aos Seus pequenos sinais diários,

afasta-nos de uma vida morna.

Arrasta-nos para um imenso campo, repleto de tesouros por descobrir.

Predestina-nos uma pérola por cada gesto de amor.

Acolhe-nos como rede que salva e não mata.


Como Salomão, peçamos a Deus a graça de uma inteligência enraizada no coração.

Uma grande inteligência num coração de pedra não dá fruto.

Vamos cuidar do nosso coração?


Receituário:

Eucaristia aos Domingos!

Palavra de Deus meditada aos Sábados!

Oração diária!

Fé nos desígnios do Pai!

Esperança na promessa do Filho!

Caridade sem limites iluminada pelo Santo Espírito!


Liliana Dinis,


terça-feira, 28 de julho de 2026

As nomeações de párocos:

 


As nomeações de párocos: como uma cesariana que deixa cicatrizes
Há dores que não significam que algo correu mal.
Significam apenas que houve amor.
Uma mãe que dá à luz por cesariana leva consigo uma cicatriz. Não é uma ferida que fala de fracasso. É uma marca que recorda que a vida passou por ali. Que foi preciso abrir para que alguém pudesse nascer.
As nomeações de párocos fazem-me pensar nessa imagem. Também elas deixam cicatrizes.
No sacerdote que faz as malas sem levar consigo as pessoas que aprendeu a amar.
Na comunidade que vê partir aquele que batizou os seus filhos, abençoou o seu casamento, acompanhou os seus doentes, sepultou os seus familiares, escutou os seus silêncios e lhes anunciou, domingo após domingo, que Deus nunca abandona os seus filhos.
É natural que doa. Só sofre quem amou. Só custa deixar quem se tornou família. O problema começa quando transformamos uma cicatriz numa ferida que nunca queremos deixar sarar.
É curioso. Aceitamos com naturalidade que um médico seja colocado noutro hospital, que um professor mude de escola, que um juiz seja transferido, que um militar parta para outra missão. Mas quando um sacerdote é enviado para outra comunidade, sentimos quase uma injustiça.
Talvez porque um padre não ocupa apenas um lugar. Ocupa um espaço no coração.
E isso não se substitui. Nem deve ser substituído. Guarda-se. Agradece-se. Mas também se entrega.
Ninguém na bancada da igreja conhece a totalidade das urgências, dores e solidões de uma diocese inteira. Uma nomeação não é feita contra uma comunidade; é feita a pensar no bem de todas.
Na Igreja, os sacerdotes não se escolhem: enviam-se. As comunidades não se possuem: acolhem-se. E a pergunta que nos salva não é "Porque é que ele vai embora?", mas sim: "Que comunidade seremos nós para quem está prestes a chegar?"
Que saibamos guardar a gratidão sem a transformar em prisão, e olhar para a cicatriz não como uma ferida aberta, mas como a marca de um caminho que continua.

Padre João Torres

O amor a falar-nos

 




Aqueles abraços que chegam, de mansinho, e que abrigam tudo em nós.

Aquelas mãos que seguram as nossas como quem nos segura o coração.

Aqueles olhares que se demoram em nós com ternura.

Aqueles sorrisos que tornam o nosso dia mais bonito.

Aquelas palavras que nos confortam a alma.

Aqueles silêncios que nos sentem o coração.

Aquelas mensagens que chegam no momento certo.

Aquelas companhias que, só por estarem, fazem tudo melhorar.

Aqueles gestos que nos fazem sorrir.

Aquelas pessoas que nos recordam que, faça chuva ou faça sol, estão sempre perto de nós.

São formas que o amor vai encontrando, todos os dias, para se pousar em nós.

Na poesia das coisas simples, na bondade que ainda existe.

E para nos recordar que ele – o amor – ainda mora aqui.

 Daniela Barreira


segunda-feira, 27 de julho de 2026

Movidos pela alegria

 


Se Deus nos aparecesse em sonhos e nos dissesse:
“Pede o que quiseres”, o que pediríamos?
Talvez muitos de nós responderíamos:
– Saúde para nós e para aqueles que amamos;
– O Euromilhões para ter uma vida descansada;
– Um emprego seguro;
– Uma casa digna;
– Mais reconhecimento, fama ou poder.
Mas o jovem rei Salomão surpreende-nos. Quando Deus lhe oferece a possibilidade de pedir tudo, ele não pede “longa vida, riqueza ou a morte dos seus inimigos”.
Pede uma sabedoria lúcida, que não lhe roube a alegria de uma vida simples.
Pede uma inteligência fundada no amor, capaz de olhar para além do imediato, para além das aparências, para além daquilo que parece ser importante aos olhos do mundo.
O Evangelho deste domingo recolhe algumas parábolas brilhantes de Jesus, que pretendem comunicar algo, que tantas vezes esquecemos: o encontro com Deus. É a coisa mais bela que nos pode acontecer, é uma surpresa pela qual vale a pena abandonar tudo, uma alegria que nos faz esquecer todo o resto. Mas para que tal aconteça temos que agir com astúcia e urgência.
É mesmo necessário submeter a nossa vida àquela intensa rajada de verbos: «Vai, vende, dá, vem e segue-me!» (Mateus 19,21).
O QUE É DEIXAR TUDO, VENDER TUDO?
Esse “tudo” que é o acumular de coisas e de amarras; de preconceitos e rotinas; de justificações e mágoas, de seguranças e proteções...
Podíamos perguntar: o que é que eu ganho com isso?
GANHO ALEGRIA!
“Nunca é tarde na vida para começar a viver...
A perspetiva com que olhamos as situações marca a diferença: o que fazemos rotineiramente, o ambiente que criamos,
- as relações, o trabalho, as atividades que descobrimos,
- a abertura ao saber, as escolhas, e até a fé e o amor...
TUDO PODE SER MELHOR.
E só não é melhor porque nos acomodamos.
Porque preferimos o muito ao melhor!

Padre João Torres