Paróquia de Arronches
quarta-feira, 10 de junho de 2026
Homília ; Santuário de Fátima, D, Pedro Fernandes
Nesta quarta-feira partilhamos as palavras de D. Pedro Fernandes, Bispo de Portalegre-Castelo Branco, proferidas na homilia celebrada no dia 31 de maio de 2026, no Recinto de Oração do Santuário de Fátima.
“O nome de Deus é compaixão, é amor, é comunhão. Verdadeiramente um, indivisível e eterno, e verdadeiramente três, Pai, Filho e Espírito Santo, eternamente distintos e eternamente unidos.
Assim, o que Deus nos diz de si mesmo é que ele é uno e diverso e que unidade e diversidade não se opõem, antes implicam-se. A imagem que temos de Deus muda tudo no modo como estamos diante dele e como nos vemos uns aos outros.
(...) Quando acolhemos a boa nova de que Deus é amor, uno e trino, então percebemos que somos amados, acolhidos por este Deus que a todos nos une e, de tantos e tão diferentes, nos faz ser um só corpo.
Não porque anula as diferenças, isso seria uma violência impossível ao Deus de misericórdia, mas porque coloca as diferenças em relação positiva e construtiva. O rosto trinitário de Deus e a nossa fé no Pai, no Filho e no Espírito Santo contrastam com os modelos polarizados e violentos que parecem prevalecer hoje neste nosso mundo contemporâneo. Neste, as diversidades entre pessoas, grupos e povos são usadas tantas vezes como pretexto para levantar muros, inventar preconceitos e avolumar violência, em vez de serem acolhidas como material de construção de um mundo em que as diversidades concorrem para a complementaridade e para a unidade no diálogo.
(...) Como dizia o Papa Francisco, somos missão. O nosso compromisso na Igreja não é propriamente apenas o de sermos colaboradores dos ministros ordenados, dos diáconos, dos padres, dos bispos, mas de sermos todos seguidores do único missionário, que é Cristo. Todos protagonistas da missão, cada um segundo o dom do Espírito que recebeu.
(...) Quando os frágeis e os mais pobres são descartados ou ignorados por uma economia que mata, porque apenas se alimenta da lógica capitalista que desvaloriza as pessoas, os cristãos põem no centro o Deus de Jesus Cristo, que se identificou com todos, especialmente com os mais frágeis. O nosso centro é a periferia, aí onde Deus mora.
(...) Não me canso de dizer que na Igreja não há filhos e enteados, como não há irmãos de primeira e irmãos de segunda. Na Igreja, à imagem da trindade, fazemos festa com a diferença e acolhemo-la como o lugar próprio da nossa unidade. É isso que queremos para o mundo, porque a nossa missão na terra dos humanos identifica-se com a missão de Deus, que nos enviou o seu Filho. Com Cristo na cruz, com Cristo ressuscitado, queremos vencer a violência com a mansidão, o descarte com a hospitalidade, o preconceito com a valorização de todos.”
Movimento da Mensagem de Fátima
Mudar para crescer
A nossa vida é feita de escolhas e decisões,
é assim que aprendemos,
é assim que crescemos,
é assim que mudamos....
Muitas vezes, queremos mudar, mas optamos por não o fazer, com medo, por falta de coragem ou confiança, preferimos ficar parados, sem nada fazer, sem nada mexer, sem nada arriscar.
Por isso, se queremos mudanças, elas têm que partir de nós,
temos de agir em vez de aguardar,
temos de fazer para acontecer.
Ficar parado, também é uma escolha nossa,
também tem resultados e consequências.
A nossa relação com Deus exige, da nossa parte, mudança de coração.
Não podemos criar uma amizade com Ele somente quando nos dá jeito.
Bastando fazer uns sacrifícios, para obter d’Ele o que queremos...
Ele prefere a misericórdia ao sacrifício... ou seja, que mudemos os nossos comportamentos, as nossas relações, em vez de nos preocuparmos com ritos sem sentido.
Jesus chama-nos para a mudança, como fez com Mateus,
um homem mal visto, cobrador de impostos...
E Mateus aceitou tal mudança...
porque acreditou que a sua vida podia ser diferente.
É esta a mudança que Jesus continua a querer que nós façamos:
que cada um de nós mude para crescer.
Será tempo perdido, ficarmos à espera
que as mudanças se façam por si mesmas, aí, só vamos encontrar desilusão.
terça-feira, 9 de junho de 2026
Afinal, quais são as tuas prioridades?

Temos tantas solicitações e programas que há dificuldade em escolher aquilo que realmente vale a pena. Até porque muitas das vezes o conforto da casa fala mais alto e acabamos por adiar projetos, visitas, caminhadas e encontros.
Mas a verdade é que quando queremos arranjamos sempre tempo. Há de tudo:
Aqueles que nunca têm tempo para nada mas que andam metidos em tudo;
Aqueles que não estão metidos em nada, nem querem estar;
E depois há a queles que até nem queriam estar, mas para desenrascar algo acabam por ficar permanentes.
E claro ouvimos “são sempre os mesmos” pois são, e às vezes ainda bem. Ainda bem que temos gente de compromisso que diz ”presente” quando se pergunta qualquer coisa.
Esses são os corajosos. Depois temos aqueles que estão sempre á espera da ultima hora para confirmar se estão ou não presentes nos compromissos.
Isso é válido para quase tudo. Sejam reuniões, ou jantares há sempre alguns que se tem de perguntar diretamente pois têm dificuldade em dizer “sim ou não” gostam de ficar em cima do muro a ver o que acontece.
E pronto!
Temos cada vez mais dificuldade em assumir compromissos e definir prioridades. Estamos muito sujeitos à nossa disposição, ao “quem vai la estar” ou “se vale a pena” e poucas vezes assumimos perante quem nos congrega que fazemos questão de estar.
E imprevistos? Irra, esses é escolher! Há sempre algo que acontece que impede de estar até que descobrimos que na verdade esse imprevisto até era previsível.
Por isso define bem as tuas prioridades, aquilo pelo qual te comprometes.
Que a tua prioridade seja seres feliz…mas não te esqueças da felicidade dos outros.
E tu amiga, quais são as tuas prioridades?
Raquel Rodrigues
segunda-feira, 8 de junho de 2026
Leão XIV: testemunhem a alegria do Evangelho na unidade de suas diferenças
No encontro com a comunidade diocesana de Madri, Leão XIV convidou a fazer "da escuta e do diálogo o terreno comum no qual fazer crescer a justiça e a fraternidade". "Nas grandes cidades, mais do que em outros lugares, às vezes nos parece que já não possuímos os mapas para nos mover com segurança", disse o Papa, convidando a "oferecer o testemunho evangélico que desperta as melhores forças de uma humanidade bombardeada por imagens e palavras, mas faminta de justiça e sedenta de verdade".
Mariangela Jaguraba – Vatican NewsDiversidade na unidade
“Imagino que, para um jogador de futebol, marcar um gol neste estádio seja algo que marca a sua vida. Mas, dom José, hoje a Igreja de Madri marcou um golaço para sempre!Assim, Leão XIV iniciou o seu discurso, dizendo que este encontro "é um grande hino de fé", e manifestou satisfação de estar ali e unir sua voz à da comunidade diocesana de Madri, "para louvar a Deus e fortalecer os laços desta bela família eclesial que está aprendendo a arte da polifonia, ou seja, da diversidade na unidade".![]()
“Cantar é uma necessidade que permeia a convivência e interpela a cultura, estimulando-a a permanecer aberta e em constante evolução. Vocês são a Igreja diocesana no meio de um povo que ama a música, a dança e o convívio, mas que também conhece conflitos, resignação e, por vezes, o desespero, situações nas quais o Evangelho pode abrir um caminho para a esperança.”
Cultivar o desejo de encontrar o Ressuscitado
"A alegria de vocês será contagiante se, deixando de ser uma emoção passageira, se tornar um modo estável de ser, um sentimento profundo que renova as pessoas, os grupos e a comunidade diocesana", disse ainda o Papa, recordando que "o Batismo muda verdadeiramente a vida".
“Nossas sensibilidades, origens e prioridades encontram-se em Cristo e recebem da sua vida a seiva, como os ramos ligados à videira. Concretamente, isso significa que muito daquilo que já existia em nós é transformado, porque passa a ser orientado para o serviço, deixa de ser um dom privado e passa a servir ao bem comum.”
Recordando um trecho de sua Encíclica Magnifica humanitas, o Papa sublinhou que é preciso transformar "a diversidade em um recurso" e fazer "da escuta e do diálogo o terreno comum no qual fazer crescer a justiça e a fraternidade".De acordo com Leão XIV, "existe uma relação especial entre a Igreja e a cidade, que adquire ainda maior importância na mudança de época que estamos vivendo: uma relação que, naturalmente, se concretiza entre pessoas de carne e osso, nas relações de trabalho e de proximidade, mas também nas diversas comunidades, associações e entidades de bairro".
"Torna-se cada vez mais evidente a especificidade da missão cristã no interior das grandes realidades urbanas, onde “pulsa e se elabora uma cultura inédita”. "A clareza sobre esse ponto amadureceu muito ao longo do caminho sinodal, permitindo-nos conhecer-nos e escutar-nos com maior profundidade nos contextos em que a comunidade diocesana vive e se configura", disse ainda o Papa, convidando a "cultivar o desejo de encontrar o Ressuscitado, que sempre vai à nossa frente, nos precede e talvez já esteja presente onde ainda não O procuramos".
Reaprender a arte espiritual da cordialidade
De acordo com o Papa, buscar o Senhor "e segui-Lo é a condição para indicá-Lo aos outros; caso contrário, não há evangelização. Hoje, podemos compreender isso melhor do que no passado"."Juntos, como Igreja diocesana, vocês podem oferecer o testemunho evangélico que desperta as melhores forças de uma humanidade bombardeada por imagens e palavras, mas faminta de justiça e sedenta de verdade", disse ainda o Papa.
O papel dos conselhos paroquiais e diocesanos
A propósito do papel dos conselhos paroquiais e diocesanos, o Papa sublinhou que eles têm o objetivo de "transformar a sensibilidade de cada pessoa por meio de uma escuta mais profunda daquilo que o Espírito diz à Igreja". "Eles são espaços de escuta recíproca para o exercício do discernimento, sem o qual não apenas cada um segue o seu próprio caminho, mas corremos o risco de não compreender onde o Senhor nos quer, o que espera de nós e a quais conversões nos chama", destacou. "Quando cuidamos desses espaços, então o culto se transforma em vida e, entre as pessoas, surgem laços de fraternidade e projetos de solidariedade", disse ainda o Papa Leão.Jesus olha-te com misericórdia
Jesus chama. Diz o teu e o meu nome.
Não hesita! Não avalia curriculum vitae. Não solicita grandes teses.
Não quer saber o que já fizeste, nem o que deixaste de fazer.
Durante toda a tua vida,
os momentos de desassossego, ânsias e turbulências virão ao teu encontro.
Se conhecesses o Senhor Teu Deus,
saberias que qualquer sacrifício será recompensado,
pela forma como amaste o teu irmão e a tua irmã.
Nada há temer, porque Deus é Misericórdia Divina.
O Cristo olha para ti, despe-te com um único olhar…
Tu ficas rendido e um pouco confuso… e a resposta só pode ser: “SSIIIMMM!”
Após o teu: “Sim!”, pleno e forte, lembra-te de tomar a medicação diária:
Chamaste-me Senhor a seguir-Te.
O caminho da fé implica dizer à humanidade que Tu és a verdade e a vida…
MAS não tenho a coragem de Mateus e abandono a minha fé!
Chamaste-me Cristo a seguir-Te.
O jardim da esperança tem rosas perfumadas que me dão o alento,
mas quando toco nos espinhos das minhas dúvidas e anseios, estremeço…
perco a força de Abraão e não parto para Te anunciar…
Chamaste-me Senhor a partilhar o Teu Pão e a ser sacrário vivo, a ser amor verdadeiro!
Mas, afasto-me da Eucaristia e não aceito conhecer-Te mais e mais a cada dia…
Reza-lhe baixinho e em segredo.
Pede-Lhe perdão e no dia seguinte volta a dar o mesmo “SIM!”
Bem sabes que Jesus todos os dias chama o teu nome…
Não desiste! Tu és Dele e Ele quer-Te.
Segue-O
Liliana Dinis,
domingo, 7 de junho de 2026
Segue me
https://www.youtube.com/watch?v=X1WsLLiamm0
A Palavra de Deus deste 10º Domingo do Tempo Comum repete, com alguma insistência, que Deus prefere a misericórdia ao sacrifício. A expressão deve ser entendida no sentido de que, para Deus, o essencial não são os actos externos de culto ou as declarações de boas intenções, mas sim uma atitude de adesão verdadeira e coerente ao seu chamamento, à sua proposta de salvação. É esse o tema da liturgia deste dia.
Na segunda leitura, Paulo apresenta aos cristãos (quer aos que vêm do judaísmo e estão preocupados com o estrito cumprimento da Lei de Moisés, quer aos que vêm do paganismo) a única coisa essencial: a fé. A figura de Abraão é exemplar: aquilo que o tornou um modelo para todos não foram as obras que fez, mas a sua adesão total, incondicional e plena a Deus e aos seus projectos.
O Evangelho apresenta-nos uma catequese sobre a resposta que devemos dar ao Deus que chama todos os homens, sem excepção. O exemplo de Mateus sugere que o decisivo, do ponto de vista de Deus, é a resposta pronta ao seu convite para integrar a comunidade do “Reino”.
https://www.dehonianos.org/
sábado, 6 de junho de 2026
QUO VADIS, HUMANITAS?
Leão XIV, na Carta Encíclica ‘Magnifica Humanitas’, também agrupa algumas correntes do pensamento atual sob os nomes de transumanismo e pós-humanismo. É certo que não são realidades novas e muitos vão queimando as pestanas a aprofundar tais assuntos. Para a maior parte das pessoas, porém, esses termos não lhe são muito familiares, bem como o que eles significam e ensinam. Se já Aldous Huxley, em 1932, no seu “Admirável Mundo Novo” de ficção científica, apontava para a desumanização dos seres humanos, escravizados pela ditadura proveniente das suas próprias invenções e vontade, foi o seu irmão, o eugenista Julian Huxley, quem, em 1951, usou o termo transumanismo. A fundação e organização deste movimento deu-se na década de 1990. E lá foi e vai fazendo a sua história.
O pós-humanismo começou a ganhar força nas décadas de 70-80, mas já nas décadas de 40 a 60, as reflexões sobre a fusão entre o homem e a máquina começaram a desafiar a ideia clássica do que entendemos por humano, porfiando a desconstrução dessa ideia tradicional. Em 1985, a feminista Donna Haraway, publica o “Manifesto Ciborgue” e utiliza a figura do ciborgue – uma mistura de homem e máquina – para ir destruindo as barreiras entre o natural e o artificial. Pelos anos 90, esta corrente, o pós-humanismo, constituiu-se em movimento organizado e cultural, contestando a centralidade do ser humano. Ambas, como correntes filosóficas, culturais, sociais e até políticas, questionam os limites da espécie humana. Embora aqui e ali se cruzem, elas seguem caminhos diferentes. O transumanismo pretende melhorar as capacidades físicas, intelectuais e psicológicas do ser humano através da ciência e da tecnologia, superando as limitações biológicas, como as doenças, o envelhecimento e a própria morte. Para isso, serve-se da biotecnologia, da robótica, da IA, da engenharia e melhoramento genético, da nanotecnologia e dos implantes cibernéticos, unindo partes artificiais com o corpo humano, fazendo com que, paulatinamente, controlando e acelerando as tendências evolutivas, sejam superadas as fundacionais caraterísticas humanas. Se o transumanismo quer descentralizar o humano, repensando a sua relação com o mundo e com as máquinas, o pós-humanismo rejeita que o ser humano seja o centro do universo e a medida de todas as coisas. Procura desconstruir a visão tradicional sobre o humano e repensar a forma como interagimos com animais, plantas e tecnologias. Afirma que as fronteiras entre o que é humano, máquina e natureza já são uma miscelânea retrógrada, ultrapassada. Rejeita a ideia de que existe uma "natureza humana" fixa ou essencial. Procura desconstruir as categorias tradicionais, como homem/mulher, natureza/cultura, humano/animal. Vê o próprio conceito de género como uma construção social flexível que pode ser questionada e reconfigurada. Defensores, pois, da ideologia de género, defendem que a identidade sexual é um produto cultural, social, psicológico. E não falta também quem proponha a extinção humana voluntária, não por meios violentos, mas de forma voluntária, renunciando a ter filhos. Assim se eliminariam os problemas da espécie humana. Ela própria, como praga ou vírus, seria extinta, deixaria de existir, o planeta deixaria de ter os problemas que os humanos lhe causam, os ciclos naturais voltariam a funcionar... O ‘homo sapiens’, após a fase do transumanismo, será superado pelo pós-humano, dizem. Não haverá mais necessidade do ser humano, é coisa mais que antiquada. Os poderosos lóbis industriais e científicos muito ajudarão a conseguir tal objetivo. Surgirá uma era radicalmente nova, o pós-humano.
E nós cá estaremos para ver, nem que seja do lado de lá, nos ‘novos céus e na nova terra’! (Ap 21,1). Se Otzi, o homem do gelo de há 5.300 anos, imaginasse que isto iria acontecer, se não tivesse morrido assassinado e congelado lá pelos Alpes, teria morrido de desgosto só em saber que haveria de morrer antes de ver acontecer este admirável mundo novo!
Leão XIV afirma que transumanismo e pós-humanismo “constituem o pano de fundo ideológico que está presente nalguns centros do poder tecnológico e coloniza o imaginário coletivo de forma simplificada, especialmente nos meios de comunicação e nas redes sociais, acendendo o entusiasmo pelas novas tecnologias com uma visão futurista do “homem aperfeiçoado” ou do “homem hibridado” com a máquina”. Diz que o “transumanismo e o pós-humanismo incluem em si uma pluralidade de correntes e sensibilidades, sendo difícil dar deles uma descrição unívoca. Podem ser comparados a um arquipélago de ilhas conceituais diferentes, mas ligadas pelo mesmo mar de pressupostos: a centralidade da tecnologia e o sonho de ultrapassar os limites da condição humana. O transumanismo, em linhas gerais, imagina um aperfeiçoamento do ser humano através das tecnologias (biomedicina, engenharia corporal, dispositivos, algoritmos), aspirando a aumentar o seu desempenho e capacidades. O pós-humanismo, sobretudo nas suas versões radicais, vai além: critica o antropocentrismo e propõe uma forma de hibridação entre o ser humano, a máquina e o ambiente, chegando a imaginar uma transição em que a humanidade se superará a si própria, entrando num novo estádio de evolução. Mesmo se estas hipóteses permanecem em grande parte especulativas, elas adquirem relevância, porque modificam o imaginário coletivo e consequentemente, orientam as escolhas sociais, económicas e políticas. O ponto crítico, à luz da Doutrina Social da Igreja, não é o uso da tecnologia em si, mas a visão que lhe está subjacente: se o ser humano for tratado como matéria a aperfeiçoar ou a ultrapassar, é então mais fácil aceitar que alguns sejam considerados menos úteis, desejáveis e dignos. Em nome do progresso, pode chegar-se a imaginar “sacrifícios necessários” e a fazer com que os mais frágeis paguem o preço de uma suposta otimização da espécie. A já mencionada advertência de São Paulo VI mantém-se, portanto, de grande clarividência: as conquistas científicas e técnicas, desvinculadas do progresso moral e social, acabam realmente por se voltar contra o homem. Por isso, é necessário distinguir com clareza: uma coisa é integrar as tecnologias numa visão humana e relacional, outra é deixar-se guiar por um imaginário que desvaloriza os limites e promete uma “salvação” puramente técnica” (MH15-18).
D. Antonino Dias
Caminha, 05-06-2026.
