Padre João Bastos
Paróquia de Arronches
quarta-feira, 13 de maio de 2026
Estar vivo aleija
É habitual dizermos que a vida é maravilhosa e um dom. No meu caso, talvez por inexperiência, tenho descoberto que só assim é porque estar vivo aleija. As grandes coisas da vida, os seus recantos mais valiosos, só são realmente extraordinários porque implicam algumas maçadas. É o caso da liberdade que nos leva a ter de estar expostos a opiniões diferentes das nossas. Tenho para mim, por isso, que um dos grandes atentados à dignidade humana nos dias que correm é, precisamente, a tentativa de anular este tipo de “complicações”; a tentativa de promover a vida plana, a eliminação das contradições. Pessoalmente acredito que devemos desconfiar das promessas de perfeição. Sempre que se quis edificar o Paraíso, acabou-se a contruir o inferno. A obsessão contemporânea por alcatifar a existência, por arredondar todas as esquinas do dia-a-dia, por garantir que não nos cortamos, tem resultado numa nova forma de apatia e ansiedade. Na física, não há calor sem fricção. No Evangelho, não há dom sem custo. Uma semana da vida servirá, assim, para celebrar essa desproporção. Não para tornar a vida um slogan, como se ela precisasse de marketing. Não para a revestir de cores publicitárias e mercantis. Não para lhe roubar ou omitir o desconforto e a indecisão. Quando era criança – embora não seja certo que não o continue a ser – existiam uns desenhos animados chamados “era uma vez a vida”. No genérico anunciava-se: que a vida “é música, som e harmonia”. Mas hoje tenho a sensação que, para muita gente, isso é capaz de ainda ser um luxo. Num comovedor e essencial livro, recentemente traduzido para português, denominado “Tudo na natureza apenas continua”, Yiyun Li escreve sobre a morte de um filho aquilo que, no fundo, podemos afirmar sobre a vida: “não é uma onda de calor, uma tempestade de neve, nem uma corrida de obstáculos para vencer rapidamente, nem uma doença aguda ou crónica da qual devemos recuperar rapidamente”. Talvez precisemos de concluir como a autora chinesa que, a certo momento, insinua que a vida é “uma simplificação de algo muito maior do que essa palavra”, porque possivelmente a grande pergunta que habita o coração humano não é se esta vida vale a pena ser vivida, mas se “vale a pena sofrer por ela”. Há uma música de Zeca Afonso, em que se diz que “a mulher, na democracia, não é biombo de sala”. Não façamos o mesmo à vida. Não permitamos que ela seja transformada numa “metáfora para a esperança e a resignação”. Não a domestiquemos. Não lhe roubemos o escárnio.
terça-feira, 12 de maio de 2026
Eu vivo em vós vivereis
«Devemos sempre confiar no poder e no amor de Deus,mesmo na hora mais escura do nosso sofrimento.»
John Piper
Quando as encruzilhadas da vida nos apanham…
Quando o sofrimento nos faz desesperar…
Quando a indecisão avassala o tempo que não passa…
Quando o tear fia e desfia a dor de viver na solidão…
Quando nos perdemos no caminho e apagamos a luz dos outros…
Quando vivemos fora do verdadeiro sentido Cristão…
Quando as gotas de suor são de sangue e invisíveis a olhos nus…
Quando as nossas escolhas nos pregam rasteiras de morte…
Quando quem amamos não está feliz…
Quando afastamos o nosso coração do Amor mais puro…
Jesus vem e resgata-nos.
Atravessa as encruzilhadas e sorri.
Sara as nossa feridas com o bálsamo da Paz.
Decide que a brisa é mais forte do que o tempo em que nos afastamos de Deus.
Fia e desfia a Esperança da comunhão e da fraternidade.
Acende a luz e abraça-nos.
Arrasta-nos para o convívio intenso e maravilhoso da Sua Igreja.
Seca-nos o rosto e fita o Seu olhar misericordioso no nosso.
Levanta-nos do chão com um grito de Ressurreição.
Rasga o Seu coração e faz-nos amar o irmão.
Ama-nos! Como somos!
Liliana Dinis,
segunda-feira, 11 de maio de 2026
Se me amas
Tudo começa com um punhado de palavras
carregadas de delicadeza e de estima.
“Se me amas. Guardarás os meus mandamentos”.
Um ponto de partida TÃO LIVRE,
tão FRÁGIL, tão HUMILDE, tão CONFIANTE e tão PACIENTE...
Jesus não impõe.
Não se trata de uma ORDEM, mas de uma busca
de um procurar, de um caminhar...
Jesus procura espaços, espaços no coração, espaços de transformação: se me amardes, tornar-vos-eis como Eu. Eu posso tornar-me como Ele, adquirir nos meus dias um sabor de Céu e de história boa; sabor de liberdade, de mansidão, de paz, de força, de inimigos perdoados, e depois de mesas cheias, de relações boas e fecundas que são a beleza do viver...
Amar transforma; uma pessoa transforma-se naquilo que ama;
transforma-se naquilo que o habita.
«Quem me ama, será amado por meu Pai e eu amá-lo-ei» (Jo.14,21).
A promessa de Jesus só se realiza naqueles que se
DEMORAM e se ESPECIALIZAM na arte de amar,
Pôr Deus em primeiro lugar, dando-lhe tempo e coração...
Amar, a começar pelos de casa;
Respeitar o bem dos outros;
Ter palavras e gestos belos:
Não querer tudo e mais alguma coisa... Criar silêncio...
Para o cristão, amar como Jesus nos amou não é uma cantiga,
não é um dado adquirido, de uma vez por todas.
É algo ARTESANAL que se constrói todos os dias....
Padre João Torres
domingo, 10 de maio de 2026
Semana da Vida | 10 a 17 de maio de 2026
A Semana da Vida de 2026 convida-nos à reflexão sobre a proteção da Vida, enquanto forma concreta de pacificação: cuidar, acolher, defender, promover e acompanhar. Entre os dias 10 e 17 de maio, somos convidados a rezar com o tema “Bem-aventurados os que Protegem a Vida”.
ORAÇÃO PELA VIDA
Senhor da Vida e da Paz,
Dá-nos um coração capaz de proteger cada vida,
especialmente as mais frágeis e esquecidas.
Ensina-nos a ser construtores de paz
num mundo ferido pela guerra e pela indiferença.
Que o teu Espírito nos torne guardiões da dignidade humana
e testemunhas da esperança que não morre. Amém
Espírito da Verdade
https://www.youtube.com/watch?v=KFNZx6iyw68
O Evangelho apresenta-nos parte do "testamento" de Jesus, na ceia de despedida, em Quinta-feira Santa. Aos discípulos, inquietos e assustados, Jesus promete o "Paráclito": Ele conduzirá a comunidade cristã em direcção à verdade; e levá-la-á a uma comunhão cada vez mais íntima com Jesus e com o Pai. Dessa forma, a comunidade será a "morada de Deus" no mundo e dará testemunho da salvação que Deus quer oferecer aos homens.
Jesus garantiu aos seus discípulos o envio de um "defensor", de um "consolador", que havia de animar a comunidade cristã e conduzi-la ao longo da sua marcha pela história. Nós acreditámos, portanto, que o Espírito está presente, animando-nos, conduzindo-nos, criando vida nova, dando esperança aos crentes em caminhada. Quais são as manifestações do Espírito que eu vejo na vida das pessoas, nos acontecimentos da história, na vida da Igreja?
A primeira leitura mostra exactamente a comunidade cristã a dar testemunho da Boa Nova de Jesus e a ser uma presença libertadora e salvadora na vida dos homens. Avisa, no entanto, que o Espírito só se manifestará e só actuará quando a comunidade aceitar viver a sua fé integrada numa família universal de irmãos, reunidos à volta do Pai e de Jesus.
Uma comunidade cristã é uma comunidade onde se manifesta a comunhão com Jesus e a comunhão com todos os outros irmãos que partilham a mesma fé. É na comunhão com os irmãos, é no amor partilhado, é na consciência de que fazemos parte de uma imensa família que caminha animada pela mesma fé, que se manifesta a vida do Espírito. Cada crente precisa de desenvolver a consciência de que não é um caso isolado, independente, autónomo: afirmações como "eu cá tenho a minha fé" não fazem sentido, se traduzem a vontade de percorrer um caminho à margem da comunidade, sem aceitar confrontar-se com os irmãos... Cada comunidade precisa de desenvolver a consciência de que não é um grupo autónomo e sem ligações, mas uma parcela de uma Igreja universal, chamada a viver na comunhão, na partilha, na solidariedade com todos irmãos que, em qualquer canto do mundo, partilham a mesma fé.
A segunda leitura exorta os crentes - confrontados com a hostilidade do mundo - a terem confiança, a darem um testemunho sereno da sua fé, a mostrarem o seu amor a todos os homens, mesmo aos perseguidores. Cristo, que fez da sua vida um dom de amor a todos, deve ser o modelo que os cristãos têm sempre diante dos olhos.
Diante das dificuldades, das propostas contrárias aos valores cristãos, é em Cristo - o Senhor da vida, do mundo e da história - que colocamos a nossa confiança e a nossa esperança? Ou é noutros esquemas mais materiais, mais imediatos, mais lógicos, do ponto de vista humano?
sábado, 9 de maio de 2026
SONHAR É UMA FORMA DE RESISTÊNCIA INTERIOR
Mesmo quando a esperança se esconde atrás de pequenas desilusões que ninguém vê.
Sonhar, às vezes, não é fugir da realidade.
É exatamente o contrário: é não deixar que a realidade nos roube por dentro.
Há livros que não se leem apenas com os olhos, mas com a alma. O diário de Etty Hillesum é um desses lugares onde a vida se torna mais nua, mais verdadeira, mais exigente.
E nela encontro uma voz que não se resigna, mesmo no meio da dor. Uma voz que fala de Deus não como distância, mas como presença a ser cuidada dentro de nós.
Ela escreve algo que inquieta e, ao mesmo tempo, ilumina:
não é Deus que nos deve servir como resposta imediata a tudo…
mas somos nós que, de algum modo, somos chamados a não deixar que essa presença desapareça da forma como vivemos.
Há aqui uma inversão profunda do olhar.
Não é um Deus distante que resolve tudo por nós…
mas uma responsabilidade interior de não deixar morrer o que é mais humano em nós.
“Salvar um pedaço de Deus em nós.”
Que frase estranha e bela.
Como se o sagrado não estivesse fora, à espera de ser encontrado…
mas dentro, à espera de não ser esquecido.
Não te peço nenhuma justificação para a vida.
Peço apenas que não deixes morrer o lugar onde ainda é possível recomeçar.
Porque talvez viver seja isto:
não deixar que o mundo apague aquilo que, em nós, ainda acredita.
E enquanto houver essa chama…
ainda é possível sonhar.
Padre João Torres
Madona de Porto Lligat, 1950, Salvador Dalí
Encontro de reflexão do MCC – Núcleo Centro
Encontro de reflexão do MCC – Núcleo Centro
Um grupo de Cursistas do núcleo centro do MCC, reuniu-se no dia 2 de maio na pitoresca vila de Nisa (Diocese de Portalegre- Castelo Branco), para uma jornada de reflexão sobre a realidade atual do Movimento dos Cursilhos de Cristandade.
A reflexão girou em torno de três temas principais:
• A realidade do MCC
• A espiritualidade do MCC
• O perfil e missão do Reitor/Reitora
E de uma pergunta para reflexão:
“Como dirigente deste movimento, neste momento da história, neste momento da vida da Igreja, neste momento da vida do MCC, …, continuaremos a dizer que Cristo conta connosco.
Numa viagem pela realidade do movimento, na companhia de textos incontornáveis, como as “Ideias Fundamentais”, a “Evangelii Gaudium” e olhando sempre para o contraste entre o Ideal do movimento e a situação real, João Mota, Presidente em exercício do Secretariado nacional, conduziu-nos por um caminho de confronto entre as aspirações dos fundadores do movimento expressas pelo Ideal, a visão da igreja para a missão dos cristãos no mundo e o “afinal onde estamos? “ …
Se a história é a raiz profunda que ancora o MCC, é nos frutos da árvore viva que pretendemos ser, que os outros vêm o que este movimento pode fazer pela Igreja. E fica a esperança de que cada um dos mais de 4000 cursilhistas que nos últimos 5 anos descobriram a alegria de ser cristão, sejam frutos que desenvolvam todo o seu aroma e sabor ligados à árvore mãe e não frutos secos caídos no chão.
Mas muito tem de mudar, a linguagem dos anos 40 tem de ceder o lugar ao léxico do século XXI, usado por uma geração que já não sabe quem foi Rita Hayworth e a tecnologia tem de ser, se não a essência da mensagem, pelo menos a ferramenta ao serviço da sua eficácia.
Mas é pegando na sua HISTÓRIA, vivendo o seu CARISMA, assumindo a sua MENTALIDADE, em ordem à FINALIDADE, obedecendo a uma ESTRATÉGIA clara e a um MÉTODO bem definido, que os momentos de PRÉ_CURSILHO, CURSILHO e PÓS-CURSILHO, serão de facto a chave para revigorar e rejuvenescer o Movimento dos Cursilhos de Cristandade.
Mas onde procurar a energia que parece faltar-nos neste momento? O guia para a resposta reside na Espiritualidade e foi para ela que o Pde Ricardo Lameira orientou a nossa canoa. Ao leme colocou o sonho de um simples “Aprendiz de cristão”, guiado por uma estrela de luz que brilha para todos os povos “Lumen Gentium”.
Na canoa vai a mensagem que no momento próprio tocará cada novo aprendiz de cristão, seja esse momento no recolhimento, na solidão e no silêncio, numa palavra de corredor que nos desperta, na conversa íntima com aquele Jesus que habita o Sacrário ou no calor humano que nos conforta o coração num “abraço de Paz”. A isto chamou o Pde Ricardo a “singularidade” de cada um dos frutos da árvore do MCC.
Mas o MCC é sobretudo “movimento”, que se inicia no momento em que, inspirado por Deus, um irmão nos conduz a uma vivência especial que no final não deve mudar a nossa geografia, a física e a humana, mas a nossa capacidade de apreciar a primeira e modificar a segunda.
A nossa missão como leigos cristãos é assim secular, viver no mundo, mas resistindo à tentação de ser mundano.
Então onde está a verdadeira “espiritualidade do MCC?”. A resposta é simples: na PESSOA, a palavra mais repetida (120 vezes) na coluna vertebral do nosso movimento que é o livro “Ideias Fundamentais”.
Mas afinal qual de nós é o mais importante no movimento? A resposta é simples: Aquele que tiver mais talento para servir os outros. E foi desse, do seu perfil, que nos falou o irmão Francisco Sousa da diocese do Porto.
Mas afinal quem é esse desconhecido que dá pelo nome de Reitor/Reitora. O “ideias Fundamentais” no seu nº209 começa a desvendar o mistério:
“209. O reitor ou coordenador. É o principal responsável pela equipa. … deve conhecer perfeitamente os objetivos e a técnica metodológica …. Será o primeiro e principal servidor da caridade e da harmonia na equipa e em todo o cursilho”. Então como deve ele comportar-se? “ao jeito de Jesus”.
Mas há mais? Sim deve ser:
• Transparente e coerente em tudo o que vive e faz. A cada dia procura ser melhor.
• Fascinado por Jesus, pela sua forma de ser e estar no mundo dos homens.
• Ser fermento vivo no seu ambiente.
• Ter espírito de serviço e fidelidade total ao carisma.
Saber que muitos são os rollos do cursilho, mas cada um é uma parte do todo e que ele ou ela, o reitor ou a reitora, deve sempre ter presente (concatenação dos rollos).
Saber que a sua missão principal será sempre: ”Fazer amigos, fazer-se amigo e fazê-los amigos de Cristo”
E depois? Terminado o cursilho volta a ser um entre nós, na companhia e na humildade dos muitos que servem, mas sempre preparado para dizer: “Cristo, conta comigo”
JOÃO MARTINS
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