sexta-feira, 15 de maio de 2026

HÁBITO MARROM, TRÊS MITRAS, HUMOR NOTÁVEL ...


Gosto dos santos que se sabem rir de si próprios. Daqueles que, embora sendo sérios, não se levam demasiadamente a sério. Daqueles que até inspiram os artistas a esculpi-los ou a pintá-los a olhar para o mundo, sem ares demasiadamente seráficos ou poses de santidade para além do já muito supérfluo. Um santo triste é um triste santo, diz o povo. O Papa Francisco valorizava o humor, até como sinal de boa saúde. Achava que era uma graça pela qual rezava todos os dias, uma ferramenta de aproximação, um ato de humildade, de inteligência.

Dizem as crónicas que Bernardino de Sena era um pregador carismático, enérgico, cortante, inexorável, cativante e alegre: um fenómeno. De humor contagiante, usava-o para cativar a atenção dos ouvintes, assim como se servia de fina ironia, de piadas acaloradas e de histórias engraçadas para captar a atenção, para criticar a hipocrisia dos vícios e transmitir a mensagem, iluminando a fé, apelando à conversão e à penitência, convidando à construção da paz. Não raro, ria-se de si próprio, dos seus feitos, planos e experiências. Acho que é uma virtude rara, de se admirar, exprime maturidade e humildade, faz reconhecer que nem tudo o que se pensa e faz é bom, ajuda e liberta. Que bom seria se os líderes de todas as áreas, lá nos píncaros do mando, caíssem do seu sério abaixo e soubessem rir-se de si próprios e de tantas coisas que fazem acontecer e não deviam acontecer, e de outras tantas que não deixam que aconteçam e deviam acontecer! A sociedade, em vez de se rir deles, rir-se-ia com eles, desculpá-los-ia muito mais, teria mais esperança no futuro e sentiria muito menos as pressões e as dores do presente!
Como jovem sonhador, Bernardino quis mudar o mundo. Também hoje, como sempre, há quem alimente esses santos propósitos, mas descorando o essencial. Bernardino, porém, quis começar por aí, isto é, quis começar por primeiro se mudar a si próprio. Para tal, fez-se ermitão: ‘para grandes males, grandes remédios’, diz o povo. Dada a dureza de tal experiência eremítica, porém, e com um físico franzino e achacado a doenças, teve de concluir que era demasiada areia para a sua carroça. É ele quem o conta, com beleza. “Quero contar-lhes o primeiro milagre que fiz. Isso aconteceu antes de me tornar frade”. E continua: “Tomei a resolução de querer viver como um Anjo e não como um homem. Pensei em instalar-me numa floresta e comecei a perguntar a mim mesmo: “Que farás na floresta? Que comerás?’” E respondia a si próprio: “Farei como os Santos Padres; comerei erva quando tiver fome e beberei água quando tiver sede”. Se começou animado neste impulso de grande radicalidade, logo nos diz: “depois de invocar o nome bendito de Jesus, pus na boca uma porção de ervas amargas e comecei a mastigar. Mastigo e mastigo, mas não querem descer. Não podendo engolir, pensei: “Bebamos um pouco d’água”. Pois sim, a água descia e a erva continuava na boca. Bebi vários goles d’água com uma só porção de ervas e não consegui engolir”.
Embora apreciasse a solidão, sobretudo para rezar, acaba por concluir que a sua vocação era pregar ao povo onde o povo se encontrava. Sente-se, então, chamado pelos Frades Menores. Entusiasma-se pela sua regra, despoja-se dos bens que possuía, das honras da nobre família a que pertencia e toma o hábito de São Francisco, tinha 22 anos. Havia nascido a 8 de setembro de 1380, em Massa Marítima, na Toscana, Itália. Ficou órfão de mãe aos três anos e de pai aos sete, tendo sido educado por familiares e estudado Filosofia e Direito na universidade de Sena. Pregador itinerante, exímio e fervoroso, teólogo de renome, com a sua eloquência e entusiasmo arrebatava multidões. Fez do púlpito a sua cátedra de apóstolo do Nome de Jesus e de Maria como medianeira de perdão e de graça. Admirado por todos, recusou ser Bispo de Sena, de Ferrara e de Urbino, preferindo a liberdade da pregação. Faleceu a 20 de maio de 1444, com 64 anos, estando sepultado na igreja dos Franciscanos, em Áquila. Foi canonizado por Nicolau V, em 1450.

São João Paulo II falou várias vezes sobre São Bernardino de Sena, sobretudo para realçar a sua figura humana e a sua obra apostólica. Definiu-o como um homem de “mente aberta à fascinação da verdade e do bem, vivamente sensível às sugestões da beleza”. Como religioso, logo foi Superior local e provincial, na Toscana e na Úmbria, chegando a ser o Vigário-Geral da Observância. Cerca de 300 conventos foram por ele renovados, em Itália. Vivendo em tempos conturbados, tanto na sociedade civil como na Igreja, foi sempre coerente. Nunca se retraiu perante a situação: “espírito inteligente e prudente, compreendeu logo que era necessário vencer o mal semeando o bem, e organizou a sua pregação e o seu ministério como luta encarniçada e continua contra o pecado, chamando os cristãos, leigos e sacerdotes, humildes e poderosos, patrões e trabalhadores, à coerência de vida”. Tal como naquela época, também hoje e sempre, se exige de todo o cristão a coerência de vida, “o mundo precisa de testemunhas, convictas e intrépidas”.
A iconografia de São Bernardino é variada e rica em simbolismos. Na igreja deste convento de Santo António, em Caminha, existe a sua imagem. De hábito marrom, franciscano, com três mitras aos pés (a evocar as três dioceses), um livro aberto sobre o antebraço e mão esquerda (símbolo do seu saber e eloquência), e, na direita, segura o que talvez tivesse sido, sem agora lá estar, o monograma IHS (Jesus Salvador dos Homens). São as três primeiras letras do nome de Jesus, em grego: Ιησούς, em maiúsculas: ΙΗΣΟΥΣ, sobrepostas sobre um sol radiante, que Santo Inácio de Loyola e os jesuítas adotaram e divulgaram.
D. Antonino Dias
15-05-2026.

Não vás embora, fazes falta!



Às vezes é só isto que precisamos de ouvir para dar mais um bocadinho, para fazer mais um esforço.


Quantas vezes já dissemos: vou desistir, vou embora? Será que queríamos mesmo desistir e ir embora?

Quando trabalhamos nem sempre nos sentimos valorizados e devidamente recompensados e às vezes é mais fácil sair, ir embora, mesmo que não queiramos e que nos faça sentir derrotados.

Mas se pensarmos bem, às vezes, apenas precisamos que alguém nos diga: ”Não vás embora, fazes falta!”. E não é por ego, mas por reconhecimento que precisamos ouvir e sentir que não somos tão irrelevantes ao ponto de irmos embora e sermos facilmente substituídos. Podem substituir o que fazemos mas não o que somos e como fazemos.

Há alturas em que temos mesmo de ir embora, virar a página e prosseguir caminho noutro trabalho, noutro grupo, noutra missão mas mesmo assim sabe tão bem ouvir: ”não vás…fazes falta!”

Mas nem sempre é assim, às vezes partilhamos esse desânimo e ninguém luta por nós. Ninguém insiste e nos convence a acreditar no nosso valor. É mais fácil aceitar e acenar com a cabeça em tom paternalista como quem compreende e aceita, mas nem sempre é isso que precisamos de ouvir.

Precisamos mais de:

- anda cá, preciso de ti!

- já vais? fica mais um pouco.

- sei que está cansada mas as coisas vão mudar.

- vá lá… não desistas!

Diz lá se não faz toda a diferença. Mesmo no nosso dia a dia, quando nos despedimos dos pais do marido, dos filhos e dos amigos, sabe bem ouvir ”já vais? Fica mais um pouco!”.

Por isso amiga, da próxima vez que alguém disser que quer desistir e ir embora, pergunta-lhe porquê e lembra-a da sua importância, porque, sabes, às vezes, vezes de mais, achamos que não somos importantes e precisamos que alguém não desista de nós e diga: "Não vás embora… fazes falta!”


E tu amiga, onde sentes que fazes falta?


Raquel Rodrigues

quinta-feira, 14 de maio de 2026

PROCISSÃO DAS VELAS

 Dia 12 de Maio, dezenas de fiéis participaram na missa  e procissão das velas em Arronches





Dois pesos e duas medidas!



Hoje falo sobre as exigências que o mundo tem para connosco e a completa desproporção quando se trata de sermos nós a reivindica-las também!

Onde está a palavra de honra, onde está o brio, o profissionalismo, a vontade de fazer melhor?

Tudo nos é cobrado, mas e ao contrário não teremos nós, igualmente, todo o direito de o fazer?

Torna-se cada vez mais difícil confiar e a leviandade com que se rematam certos problemas deixa tanto a desejar!

Por isso a minha reflexão de hoje vai no sentido de exercitamos a capacidade de nos colocarmos por um minutinho que seja no lugar do outro e perguntar: "e se fosse comigo?"

Tenho para mim que este é um dos segredos que tornaria o mundo num lugar melhor.



Lucília Miranda

quarta-feira, 13 de maio de 2026

Estar vivo aleija

É habitual dizermos que a vida é maravilhosa e um dom. No meu caso, talvez por inexperiência, tenho descoberto que só assim é porque estar vivo aleija. As grandes coisas da vida, os seus recantos mais valiosos, só são realmente extraordinários porque implicam algumas maçadas. É o caso da liberdade que nos leva a ter de estar expostos a opiniões diferentes das nossas. Tenho para mim, por isso, que um dos grandes atentados à dignidade humana nos dias que correm é, precisamente, a tentativa de anular este tipo de “complicações”; a tentativa de promover a vida plana, a eliminação das contradições. Pessoalmente acredito que devemos desconfiar das promessas de perfeição. Sempre que se quis edificar o Paraíso, acabou-se a contruir o inferno. A obsessão contemporânea por alcatifar a existência, por arredondar todas as esquinas do dia-a-dia, por garantir que não nos cortamos, tem resultado numa nova forma de apatia e ansiedade. Na física, não há calor sem fricção. No Evangelho, não há dom sem custo. Uma semana da vida servirá, assim, para celebrar essa desproporção. Não para tornar a vida um slogan, como se ela precisasse de marketing. Não para a revestir de cores publicitárias e mercantis. Não para lhe roubar ou omitir o desconforto e a indecisão. Quando era criança – embora não seja certo que não o continue a ser – existiam uns desenhos animados chamados “era uma vez a vida”. No genérico anunciava-se: que a vida “é música, som e harmonia”. Mas hoje tenho a sensação que, para muita gente, isso é capaz de ainda ser um luxo. Num comovedor e essencial livro, recentemente traduzido para português, denominado “Tudo na natureza apenas continua”, Yiyun Li escreve sobre a morte de um filho aquilo que, no fundo, podemos afirmar sobre a vida: “não é uma onda de calor, uma tempestade de neve, nem uma corrida de obstáculos para vencer rapidamente, nem uma doença aguda ou crónica da qual devemos recuperar rapidamente”. Talvez precisemos de concluir como a autora chinesa que, a certo momento, insinua que a vida é “uma simplificação de algo muito maior do que essa palavra”, porque possivelmente a grande pergunta que habita o coração humano não é se esta vida vale a pena ser vivida, mas se “vale a pena sofrer por ela”. Há uma música de Zeca Afonso, em que se diz que “a mulher, na democracia, não é biombo de sala”. Não façamos o mesmo à vida. Não permitamos que ela seja transformada numa “metáfora para a esperança e a resignação”. Não a domestiquemos. Não lhe roubemos o escárnio.

Padre João Bastos


terça-feira, 12 de maio de 2026

Eu vivo em vós vivereis




                           «Devemos sempre confiar no poder e no amor de Deus,
                                           mesmo na hora mais escura do nosso sofrimento.»

                                                                                                         John Piper

Quando as encruzilhadas da vida nos apanham…

Quando o sofrimento nos faz desesperar…

Quando a indecisão avassala o tempo que não passa…

Quando o tear fia e desfia a dor de viver na solidão…

Quando nos perdemos no caminho e apagamos a luz dos outros…

Quando vivemos fora do verdadeiro sentido Cristão…

Quando as gotas de suor são de sangue e invisíveis a olhos nus…

Quando as nossas escolhas nos pregam rasteiras de morte…

Quando quem amamos não está feliz…

Quando afastamos o nosso coração do Amor mais puro…


Jesus vem e resgata-nos.


Atravessa as encruzilhadas e sorri.

Sara as nossa feridas com o bálsamo da Paz.

Decide que a brisa é mais forte do que o tempo em que nos afastamos de Deus.

Fia e desfia a Esperança da comunhão e da fraternidade.

Acende a luz e abraça-nos.

Arrasta-nos para o convívio intenso e maravilhoso da Sua Igreja.

Seca-nos o rosto e fita o Seu olhar misericordioso no nosso.

Levanta-nos do chão com um grito de Ressurreição.

Rasga o Seu coração e faz-nos amar o irmão.

Ama-nos! Como somos!



 Liliana Dinis, 

segunda-feira, 11 de maio de 2026

Se me amas

 


Se me amas...
Tudo começa com um punhado de palavras
carregadas de delicadeza e de estima.
“Se me amas. Guardarás os meus mandamentos”.
Um ponto de partida TÃO LIVRE,
tão FRÁGIL, tão HUMILDE, tão CONFIANTE e tão PACIENTE...
Jesus não impõe.
Não se trata de uma ORDEM, mas de uma busca
de um procurar, de um caminhar...
Jesus procura espaços, espaços no coração, espaços de transformação: se me amardes, tornar-vos-eis como Eu. Eu posso tornar-me como Ele, adquirir nos meus dias um sabor de Céu e de história boa; sabor de liberdade, de mansidão, de paz, de força, de inimigos perdoados, e depois de mesas cheias, de relações boas e fecundas que são a beleza do viver...
Amar transforma; uma pessoa transforma-se naquilo que ama;
transforma-se naquilo que o habita.
«Quem me ama, será amado por meu Pai e eu amá-lo-ei» (Jo.14,21).
A promessa de Jesus só se realiza naqueles que se
DEMORAM e se ESPECIALIZAM na arte de amar,
Pôr Deus em primeiro lugar, dando-lhe tempo e coração...
Amar, a começar pelos de casa;
Respeitar o bem dos outros;
Ter palavras e gestos belos:
Não querer tudo e mais alguma coisa... Criar silêncio...
Para o cristão, amar como Jesus nos amou não é uma cantiga,
não é um dado adquirido, de uma vez por todas.
É algo ARTESANAL que se constrói todos os dias....


Padre João Torres