sexta-feira, 6 de novembro de 2026

Como regressamos?

 


Acho que a fé se torna mais inteira quando passa para a vida.


E eu vejo a vida como uma peregrinação. Talvez por isso me faça tanto sentido pôr-me a caminho. Caminhar, mesmo com os pés cansados, mas com o coração aberto.


Ao início, damos mais atenção à mochila, aos sapatos, à distância que vamos percorrer. Depois, com o passar do tempo, começamos a reparar noutras coisas. Especialmente no silêncio que, aos poucos, deixamos de precisar de preencher.


Mas, é fácil falar de abertura quando estamos confortáveis. Mais difícil é mantê-la quando o caminho nos pede alguma coisa que não tínhamos previsto dar.


E talvez seja aí que a fé ganha morada. Quando aceito ajuda sem precisar de provar que consigo tudo sozinha. Quando abrando para acompanhar alguém, apesar da vontade de seguir ao meu ritmo. Quando consigo olhar para quem caminha ao meu lado com curiosidade, sem achar que já sei a sua história.


Penso muitas vezes que podemos fazer muitos quilómetros e continuar fechados. O que permitimos que nos toque, verdadeiramente, pelo caminho?


Não espero que cada peregrinação mude a minha vida. Há coisas em mim que precisam de tempo, de repetição, de muitas partidas.


Depois há o regresso à rotina.
Os compromissos, as mesmas pessoas e os mesmos assuntos por resolver.


Quero uma fé que possa viver aí. Que me ajude a estar presente na vida que tenho, com as suas exigências e imperfeições. Uma fé que me faça continuar a aprender a amar, sobretudo quando isso custa.


Por isso, quando penso na vida como uma peregrinação, a pergunta que mais me acompanha é como regresso. E o que faço, depois, com aquilo que o caminho me deu.

Boa semana!



Carla Correia

quinta-feira, 5 de novembro de 2026

Lembro-me de ti...

 


Lembro-me de ti...

Hoje a saudade aperta-me
e o teu rosto toma conta de mim.
Sinto tanto a tua falta!
Falta de tudo o que há de mais belo em ti!
Às vezes dou comigo a chamar por ti
como se não tivesses ido embora...
Amavas genuinamente a vida,
protegias-me acima de tudo e de todos.
O teu abraço era tão bom
era o meu porto seguro...
e o teu olhar dizia-me que estarias sempre ao lado
mesmo quando te procuro e não te vejo...
Às vezes dou comigo a rir-me do teu riso,
a lembrar-me das tuas histórias
a sentar-me no teu lugar
a comer o teu prato favorito
a cheirar a tua roupa...
faz-me tanto bem!
Lembrar-me de ti aproxima-me do paraíso
onde acredito que estás...
A morte foi a porta através da qual regressaste
a casa que sempre foi a tua...
Por vontade de Deus Somos imensamente mais do que aparentamos,
mais do que pensamos que somos.
Somos loucamente eternos.
Por isso, acredito que te voltarei a ver!
Hoje digo-te «até amanhã», ou «até já»,
ou melhor «Adeus»!
Sim, «a-Deus», porque é no seio de Deus,
que havemos de ser e nos havemos de encontrar!

Padre João Torres

quarta-feira, 4 de novembro de 2026

Choram os olhos de quem sonha

 


Uma fé que não age não é fé. A esperança que não é firme não é esperança. O amor que não exige sacrifício não é amor.

A fé exige que não acreditemos nas aparências nem nas superficialidades e isso é muito difícil, até porque o mundo parece valorizar essas realidades mais do que todas as outras.

A esperança exige que superemos muitos fracassos e desilusões, alimentando sempre a convicção de que chegará o tempo de realizar aquilo com que sonhamos.

O amor exige que deixemos o egoísmo de lado, embora a própria natureza pareça inclinar-nos mais para a satisfação dos nossos desejos do que para o cuidado dos outros.

Que quem somos se revele nas nossas ações, inspiradas pela fé, sustentadas pela esperança e expressas na entrega desprendida a quem amamos.

Choremos, mas sem deixar que os nossos olhos se fechem ao que está para além do que vemos hoje, sem que desistamos de cumprir o que temos de fazer hoje e sem nunca deixarmos de amar… mesmo quando isso nos faz doer, muito.

As lágrimas não nascem nos olhos, mas na alma.

O amor desarma-nos e expõe-nos ao supremo risco de nos perdermos… Apesar de tudo, nunca ninguém foi feliz longe do amor.

Há quem não chore, finja sorrisos e, com isso, mascare a sua infelicidade, afastando os outros de si.

Talvez só os felizes chorem.

Muitos dos que choram ainda não são felizes, mas, com fé, esperança e amor, também chegará o seu tempo. Depois, continuarão a chorar, mas nunca mais deixarão de ser felizes.


José Luís Nunes Martins

terça-feira, 3 de novembro de 2026

Que santidade é esta?



Que coisa é esta de que se fala de cima do altar, mas que se vive nas nossas casas?

Não é fácil, mas confesso que desde pequena fui fascinada pela santidade que considero ser o mais próximo da perfeição. Mas hoje, parece que nos afastamos tanto da santidade. Que raio!

O discurso do ódio parece normalizado. O insulto como algo banal.

Parece que nos fascinamos por discursos em que se ofende desde "burros, estúpidos, ladrões"...e um sei lá de impropérios que envergonham qualquer santo.

As pessoas aplaudem como se estivessem a ver um espetáculo de comédia.

As pessoas assistem como se fosse um circo romano em que a palavra é como Leão que mata.

E sabem o que mais me incomoda?

Não é quem as vocifera, mas quem se acomoda, quem se cala ou pior, quem adora. Pessoas com responsabilidade política, e não só, insultam sem qualquer pudor. E quando são confrontados, viram o prego e acusam os outros de lhes tirar" liberdade de expressão ".

Não acham estranho como as regras mudam dependendo do lado em que estamos. E sabem, lamento profundamente ouvir isto de quem se sente dono de religião, crente, e com Deus do seu lado. Lamento ouvir o nome de Deus como fundamento a qualquer ato de ódio. Sim, ódio porque se alimenta da agressividade para justificar a maldade.

Vejo gente com enorme responsabilidade, palco e tempo de antena a semear o mal, mas a sentirem se os únicos donos e defensores do bem.

Hoje, podíamos todos parar um pouco, longe de ideologias, crenças e valores políticos e pensar o que é realmente ser Santo. O Papa Francisco é exímio nas palavras sobre esse tema, mas nós somos os responsáveis por colocá- las em prática.

Sejamos Santos, ou pelo menos morremos a tentar.

E tu amiga, como fazes o teu caminho para a santidade?


Raquel Rodrigues

segunda-feira, 2 de novembro de 2026

Solenidade de Todos os Santos


«A única coisa que temos de pedir a Deus na oração
é a vontade de ser Santos.»
S. Carlo Acutis

Que vontade é esta, Senhor, que me afasta de Ti?

Que faço perdida nesta multidão de milhares que não Te querem ver?

Que cansaço é este que me arrebata sem fim?

Que tristeza profunda é esta que toma conta do meu coração?


O mundo eleva-me e eu, iludida por uma alegria momentânea, sorrio!

Na sola dos meus sapatos a conversão que o meu coração anseia esconde-se… e eu sorrio!

A estrada é uma rotunda que me faz entrar numa autoestrada sem saída… e eu sorrio!

Os diálogos são monólogos de queixas e queixumes de ambas as partes… e eu sorrio!


Sem a Pobreza no meu Espírito sinto-me superior ao que vive na margem,

e perco o Pão Vivo que me dá o Reino dos Céus.


Ser humilde é aborrecido como terra seca, ressequida,

e afogo o meu Batismo com exigências prematuras e inconsequentes.


Choro como criança mimada e sem respeito pela liberdade alheia,

e aguardo o consolo do Pai que tudo escuta.


Com uma fome e uma sede insaciável de justiça, lanço palavras de ordem sem sentido,

e mato a Esperança de um mundo mais fraterno.


Sem um peito rasgado pela misericórdia alimento o ódio e a vingança,

e perco a oportunidade de perdoar, como Tu, Senhor.


Fecho os olhos do meu Coração à pureza,

e não vejo no sem-abrigo o Teu Rosto ferido de tanto esperar.


Não quero promover a Paz,

e torno-me num triste órfão, que não anuncia a Boa Nova do Senhor Jesus.


Sofrer perseguição está fora de qualquer plano para a minha vida,

e caio no desalento de não saber por onde caminhar.


Hoje, que no meu ser nasça a certeza que a Alegria vem de Ti, por Ti e é para Ti.

Que ao morrer para o mundo,

eu leve Jesus a todos e todos a Jesus,

num caminho pleno de Graça, Oração, Amor e Santidade…

Petição:
Dá-me, Senhor, a vontade de ser Santo!


 Liliana Dinis

Comemoração de Todos os fiéis Defuntos

 

https://www.youtube.com/watch?v=h6gBWzWlMq8&list=PLAqKRngqwuSfPdOPEvu7KzjdvMvB1w33f&index=298

A Igreja, acolhendo uma tradição monástica que vem do século XI, dedica o dia 2 de Novembro à memória dos fiéis defuntos. Depois de ter celebrado a glória e a felicidade dos Santos, no dia 1 de Novembro, a Igreja dedica o dia 2 à oração de sufrágio pelos "irmãos que adormeceram na esperança da ressurreição". Assim fica perfeita a comunhão de todos os crentes em Cristo.


O silêncio é a melhor atitude perante a morte. Introduzindo-nos no diálogo da eternidade e revelando-nos a linguagem do amor, põe-nos em comunhão profunda com esse mistério imperscrutável. Há um laço muito forte entre os que deixaram de viver no espaço e no tempo e aqueles que ainda vivem neles. É verdade que o desaparecimento físico dos nossos entes queridos nos causa grande sofrimento, devido à intransponível distância que se estabelece entre eles e nós. Mas, pela fé e pela oração, podemos experimentar uma íntima comunhão com eles. Quando parece que nos deixam, é o momento em que se instalam mais solidamente na nossa vida, permanecem presentes, fazem parte da nossa interioridade. Encontramo-los na pátria que já levamos no coração, lá onde habita a Santíssima Trindade. Escreveu o Pe. Dehon: "Vivo muito com os meus mortos: os meus pais, amigos, antigos diretores, antigos alunos. Uma centena dos meus religiosos já partiu para junto do Bom Deus, entre eles, homens que muito trabalharam e rezaram... Saúdo-os todas as manhãs e todas as noites, com os meus padroeiros celestes" (NQT XLIV, 139).
Paulo encoraja-nos a vivermos positivamente o mistério da morte, confrontando-nos com ela todos os dias, aceitando-a como lei de natureza e de graça, para sermos progressivamente despojados do que deve perecer até nos vermos milagrosamente transformados no que devemos ser. Deste modo, a "morte quotidiana" revela-se um nascimento: o lento declínio e o pôr-do-sol tornam-se aurora luminosa. Todos os sofrimentos, canseiras e tribulações da vida fazem parte desta "morte quotidiana" que nos levará à vida imortal. Havemos de viver fixando os olhos na bem-aventurada esperança, confiando na fidelidade do Senhor, que nos prometeu a eternidade. Vivendo assim, quando chegar ao termo desta vida, não veremos descer as trevas da noite, mas veremos erguer-se a aurora da eternidade, onde teremos a alegria de nos sentir uma só coisa com o Senhor. Depois de muitas tribulações, seremos completamente seus, e essa pertença será plena bem-aventurança na visão do seu rosto.
Para o cristão, o sofrimento é um tempo de "disponibilidade pura", de "pura oblação" e, ao mesmo tempo, uma forma eminente de apostolado, em união a Cristo vítima, na comunhão dos santos, para salvação do mundo. Vivendo assim, prepara-se, assim, para o supremo ato de oblação, para o último apostolado, o da morte: configurados "a Cristo na morte" (Fil 3, 10) (Cf. Cst n. 69).Se a morte de Cristo na Cruz é o ato de apostolado mais eficaz, que remiu o mundo, o mesmo se pode dizer da morte do cristão em união com a morte de Cristo. Não se quer com isto dizer que, sob o ponto de vista humano, a morte do cristão deva ser uma "morte bonita", tal como não foi bonita, com certeza, a morte de Cristo aos olhos dos homens. Foi, pelo contrário, uma "liturgia esquálida", de abandono e de desolação. O importante é que seja uma morte "para Cristo e em Cristo" (S. Inácio de Antioquia, SC 10, 132). Imolados com Ele, com Ele ressuscitaremos.
Se, na humildade do dia a dia, vivemos a nossa oblação-imolação com Cristo, oblato e imolado pela salvação do mundo, estamos preparados para o último apostolado da nossa vida: a oblação-imolação da nossa morte, o extremo sacrifício, consumado pelo fogo do Espírito, como aconteceu na morte de Cristo na cruz: "Por um Espírito eterno ofereceu a Si mesmo sem mancha, a Deus" (Heb 9, 14). A morte é, então, a nossa última oferta, o momento da suprema, pura oblação: "Se morrermos com Ele, com Ele viveremos" (2 Tm 2, 11).


Oração

Senhor, quero hoje rezar-te por aqueles que desapareceram no mistério da morte. Dá o descanso àqueles que expiam, luz aos que esperam, paz aos que anseiam pelo teu infinito amor. Descansem em paz: na paz do porto seguro, na paz da meta alcançada, na tua paz, Senhor. Vivam no teu amor aqueles que amaste, aqueles que me amaram. Não esqueças o bem que me fizeram, o bem que fizeram a outros. Esquece tudo o mal que praticaram, risca-o do teu livro. Aos que passaram pela dor, àqueles que parecem ter sido imolados por um iníquo destino, revela, com o teu rosto, os segredos da tua justiça, os mistérios do teu amor. Concede-me aquela vida interior que permite comunicar com o mundo invisível em que se encontram os nossos defuntos: esse mundo fora do tempo e do espaço, esse mundo que não é lugar, mas estado, e mundo que não está longe de mim, mas à minha volta, esse mundo que não é de mortos, mas de vivos. Ámen.

https://www.dehonianos.org/

domingo, 1 de novembro de 2026

Vivemos tempos estranhos.

 


As crianças que não vão a funerais, mas celebram o Halloween

Vivemos tempos estranhos.
Pais que afastam os filhos dos funerais, “para não traumatizar”,
mas vestem-nos de mortos-vivos e fantasmas no Halloween.
Dizem que o luto é pesado demais para uma criança.
Mas o que é mais pesado?
Ver alguém partir com amor e verdade,
ou crescer sem nunca aprender a lidar com a perda?
A morte não é um espetáculo, é um mistério.
E escondê-la não protege, confunde.
Quando a criança não é ensinada a despedir-se,
ela aprende a fugir da dor.
E quem foge da dor, um dia, não saberá o que fazer com ela.
Depois, na mesma casa onde se esconde o caixão,
penduram-se abóboras e esqueletos para “brincar com o medo”.
E o medo entra disfarçado de festa.
O Halloween banaliza o feio, o assustador, o sombrio,
transforma o medo em entretenimento.
Mas o medo não educa. Desensibiliza.
E uma criança que brinca com o macabro,
sem entender o sagrado da vida e da morte,
cresce sem bússola emocional, sem reverência, sem profundidade.
Não se trata de proibir festas.
Trata-se de ensinar o que tem valor.
De mostrar que a beleza é mais forte que o grotesco,
que o amor vence a escuridão,
que a fé dá sentido ao fim.
Leva os teus filhos a um funeral.
Deixa-os ver o amor que chora, a lágrima que despede,
a mão que acaricia pela última vez.
Ensina-lhes que morrer faz parte de viver.
Porque uma criança que aprende a enfrentar a morte
saberá amar sem medo,
sofrer sem se perder,
e acreditar na vida que continua.

Não é o Halloween que assusta.
É a indiferença.
É criar filhos que sabem brincar com o escuro,
mas não sabem acender a luz.


Padre João Torres