segunda-feira, 25 de maio de 2026

UMA IA AO SERVIÇO DA HUMANIDADE


Acaba de ser publicada, esta manhã, 25 de maio, em Roma, a primeira encíclica social de Leão XIV – Magnifica humanitas -, da qual, para aguçar o apetite do leitor para a procurar e ler, faço um resumo do resumo apresentado. É “sobre a salvaguarda da pessoa humana na era da inteligência artificial”. Está dividida em cinco capítulos e parte do pressuposto de que a tecnologia não é uma “força antagónica em relação à pessoa”, nem “um mal em si mesma”. No entanto, “não é neutra, pois assume o rosto daqueles que a concebem, a financiam, a regulam e a utilizam”. Daí, o apelo do Pontífice para “construir o bem” e “permanecer humanos”, seguindo a lógica da corresponsabilidade corajosa e da comunhão. A encíclica repercorre a Doutrina Social da Igreja, destacando “o seu carácter dinâmico” como “teologia da comunhão na história” a orientar a leitura dos acontecimentos à luz do Evangelho. Enumera os Fundamentos e princípios da Doutrina Social da Igreja (DSI) e aponta cinco desses princípios. O primeiro é o bem comum: “A promoção do bem comum nunca pode ser separada do respeito ao direito dos povos de existir, de preservar sua identidade e de contribuir com sua originalidade para a família das nações”. Consequentemente, “qualquer tentativa ou projeto de eliminar ou subjugar uma nação é gravemente imoral e, portanto, inaceitável”. O segundo, diz respeito à destinação universal dos bens. Insiste na necessidade de que as tecnologias não se concentrem nas mãos de poucos, alimentando a disparidade entre os incluídos e os excluídos da revolução digital. O terceiro e quarto princípios são: a subsidiariedade, que exige a superação do paternalismo e do assistencialismo em favor da corresponsabilidade, e a solidariedade, “princípio e virtude” que se opõe à indiferença. O quinto é a justiça social: na era digital, ela deve garantir a todos um acesso equitativo às oportunidades, proteger os mais vulneráveis, combater o ódio e a desinformação e submeter o uso das tecnologias ao controle público. O Papa realça que é preciso abordar a IA com cautela, mantendo clareza sobre as responsabilidades em todas as suas etapas e apostando em políticas e marcos jurídicos adequados, vigilância independente e educação dos usuários. Acima de tudo, é necessário um código ético submetido a critérios de justiça social compartilhada, pois “não serve uma IA mais moral se essa moral for decidida por poucos”. Pede que não se deixe de lado o impacto ambiental das novas tecnologias, que exigem grande quantidade de energia e água, afetando a Criação e fala sobre a necessidade de “desarmar a IA”, para a subtrair à lógica da competição militar, económica e cognitiva, para romper a equivalência entre poder técnico e direito de governar, para a subtrair aos monopólios e impedir que ela domine o humano. Critica o transumanismo e o pós-humanismo, que interpretam o progresso como a superação dos limites do humano. O limite não é um defeito a ser eliminado, mas uma dimensão constitutiva da pessoa, pois é na fragilidade e na finitude que amadurecem a relação e a abertura a Deus e ao outro. Fazer a tecnologia crescer, eliminando os limites do humano, significa fazer o coração regredir. Magnífica e ferida, a humanidade “não deve ser substituída nem superada”. A tecnologia pode aliviar os seus sofrimentos e abrir-lhe novas possibilidades, mas não deve negá-la naquilo que lhe é próprio: “a capacidade de relação e de amor”. Diante da IA, a verdadeira alternativa não está entre o entusiasmo e o medo, mas entre duas formas de construir o progresso: a serviço da pessoa e dos povos ou das lógicas do poder. O Papa efende uma “ecologia da comunicação” baseada na verdade, e pede transparência nos critérios de seleção de conteúdos, proteção dos dados pessoais, um jornalismo sério fundamentado na argumentação e na verificação, uma nova consciência no uso “correto e crítico” da IA e a integração dos conhecimentos. É fundamental também o apelo a uma aliança educativa renovada, para que nos jovens não se apague “o desejo de fazer perguntas” por causa de máquinas perfeitas que fazem parecer inútil o pensamento humano. Defende a importância da escola como lugar onde se aprende a “buscar e amar a verdade”, realça a importância de proteger a dignidade do trabalho, projetando sistemas centrados na pessoa e não apenas no desempenho. A tecnologia pode certamente aliviar o homem de tarefas pesadas ou repetitivas, mas não deve levar ao desemprego em nome da redução de custos e do aumento do lucro, esperando-se também uma renovação das organizações sindicais. Destaca a necessidade de superar o PIB como parâmetro do grau de desenvolvimento de um país, apostando na dignidade do trabalho, na prosperidade compartilhada, na redução das desigualdades e na preservação do meio ambiente. Afirma que a finança pela finança é diferente da finança para o desenvolvimento, e destaca a interdependência entre paz e desenvolvimento, almejando uma cooperação internacional capaz de definir estratégias comuns, sobretudo em favor dos países e dos grupos mais vulneráveis, pois a prosperidade contribui para a paz “somente se for difundida, inclusiva e sustentável”. Faz referência à família, fundada na união estável entre um homem e uma mulher, como “bem social primário”, “célula fundamental e insubstituível de toda organização comunitária”, que deve ser apoiada também por meio de políticas do trabalho em favor da estabilidade e de ritmos humanos, para assim proteger a capacidade social de “construir o futuro”. Por fim, numa época em que as plataformas digitais são projetadas para capturar o tempo dos usuários e explorar as suas fragilidades, é preciso fortalecer a liberdade interior de cada um, enfrentando também o risco do controle social decorrente da coleta massiva de dados e do uso de sistemas algorítmicos. Perfilar, prever e orientar comportamentos, de facto, é “um novo poder” que corre o risco de discriminar os mais fracos. O Papa deplora, em particular, a “arquitetura da visibilidade” que amplifica apenas o que é visível, moldando as opiniões. Afirma que a IA também gera novas formas de escravidão, como a dos “corpos marcados, mutilados, consumidos” daqueles que trabalham na extração das “terras raras” necessárias à tecnologia. A luta contra as novas formas de escravidão é outro “teste decisivo para o discernimento ético” da transformação digital. Ressalta que “a Igreja renova a sua firme condenação contra toda forma de escravidão, tráfico e mercantilização de pessoas” e pede “sinceramente perdão” pelo atraso com que a Igreja, no passado, condenou “o flagelo da escravidão”. A encíclica também faz referência às “novas terras raras do poder”, ou seja, as informações vitais utilizadas para orientar estratégias económicas: trata-se de uma face inédita do colonialismo que transforma vidas pessoais em informações exploráveis, tornando o ambiente digital um “espaço de predação”. No último capítulo, Leão XIV volta seu olhar para a guerra: “A revolução digital está a modificar a gramática dos conflitos” e afirma que o recurso à força não pode ser considerado como uma “opção imediata e viável”. Na base de tudo está uma “cultura do poder” que normaliza a guerra e a reabilita como “instrumento de política internacional”, favorecendo o rearmamento. Hoje, a paz não é mais entendida como uma tarefa a ser assumida, mas como um intervalo entre os conflitos. Sem prejuízo do direito à legítima defesa no sentido mais estrito, é preciso superar a teoria da “guerra justa”, promovendo, em vez disso, o diálogo, a diplomacia e o perdão. Deplora o crescimento da indústria bélica, a corrida aos armamentos nucleares e o surgimento de novos atores armados que visam perpetuar os conflitos como fonte de poder e de renda. Adverte que “não existe algoritmo que possa tornar a guerra moralmente aceitável”... “toda tecnologia que facilita atacar sem ver o rosto do outro abaixa o limiar moral do conflito”.
Aos cristãos, o Papa aponta cinco “caminhos de responsabilidade” para a construção da “civilização do amor”: desarmar as palavras dizendo a verdade; construir a paz na justiça; assumir o olhar das vítimas tomando posição, pois há conflitos em que “não é justo permanecer neutro”; cultivar “um saudável realismo” que busque caminhos de paz viáveis com os factos, não apenas com palavras. Por fim, relançar o diálogo, passando de uma cultura do poder para uma cultura da negociação. “Quem usa o nome de Deus para legitimar o terrorismo, a violência ou a guerra trai o seu rosto”.
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D. Antonino Dias
Caminha, 25-05-2026

Pentecostes




“A Sociedade do Cansaço
e a tola ilusão de que todos estão fazendo algo importante o tempo todo…”
Byung-Chul Han



Quando falamos em cansaço,

só penso Naquela Pessoa que,

há milhares e milhares de anos,

paira sobre as águas!

É ar insuflado nas nossas narinas!

Sopra como brisa suave e rajada de vento forte!

Voa como pomba que anuncia a bonança e banha a humanidade com Esperança!!


Arde como fogo que não consome a sarça e ilumina com línguas que são silêncio!

É Dele que irradia a Sabedoria para discernir a Palavra de Deus…

o Entendimento para aceitarmos os desígnios do Pai…

a Ciência que nos faz ver a mão do Criador em tudo que nos rodeia…

a Fortaleza nos momentos de dúvida e angústia que nos revoltam…

o Conselho calmo e lento que vem ao nosso encontro e nos resgata do mal…

a Piedade doce e pura pelos que não creem, não adoram, não esperam e não amam Jesus…

O Temor de Deus quando a ânsia de não sentir a Sua presença nos sufoca…


Espírito Santo, Deus do Amor profundo,

vem e habita no meu Ser!


Faz de mim Teu instrumento.


Que eu saiba servir e amar,

sem cansaços sem sentido,

nem desculpas que me fazem perder o rumo certo,

que Tu, Espírito Santo, semeias no meu coração, na minha Alma!



Liliana Dinis

domingo, 24 de maio de 2026

Oração de Santo Agostinho

 


Solenidade do Pentecostes

 

https://www.youtube.com/watch?v=J54atK7be9Y&list=PLAqKRngqwuSfPdOPEvu7KzjdvMvB1w33f&index=163



O tema deste domingo é, evidentemente, o Espírito Santo. Dom de Deus a todos os crentes, o Espírito dá vida, renova, transforma, constrói comunidade e faz nascer o Homem Novo.

O Evangelho apresenta-nos a comunidade cristã, reunida à volta de Jesus ressuscitado. Para João, esta comunidade passa a ser uma comunidade viva, recriada, nova, a partir do dom do Espírito. É o Espírito que permite aos crentes superar o medo e as limitações e dar testemunho no mundo desse amor que Jesus viveu até às últimas consequências.
Identificar-se como cristão significa dar testemunho diante do mundo dos "sinais" que definem Jesus: a vida dada, o amor partilhado. É esse o testemunho que damos? Os homens do nosso tempo, olhando para cada cristão ou para cada comunidade cristã, podem dizer que encontram e reconhecem os "sinais" do amor de Jesus?

Na primeira leitura, Lucas sugere que o Espírito é a lei nova que orienta a caminhada dos crentes. É Ele que cria a nova comunidade do Povo de Deus, que faz com que os homens sejam capazes de ultrapassar as suas diferenças e comunicar, que une numa mesma comunidade de amor, povos de todas as raças e culturas.
Nunca será demais realçar o papel do Espírito na tomada de consciência da identidade e da missão da Igreja... Antes do Pentecostes, tínhamos apenas um grupo fechado dentro de quatro paredes, incapaz de superar o medo e de arriscar, sem a iniciativa nem a coragem do testemunho; depois do Pentecostes, temos uma comunidade unida, que ultrapassa as suas limitações humanas e se assume como comunidade de amor e de liberdade. Temos consciência de que é o Espírito que nos renova, que nos orienta e que nos anima? Damos suficiente espaço à acção do Espírito, em nós e nas nossas comunidades?

Na segunda leitura, Paulo avisa que o Espírito é a fonte de onde brota a vida da comunidade cristã. É Ele que concede os dons que enriquecem a comunidade e que fomenta a unidade de todos os membros; por isso, esses dons não podem ser usados para benefício pessoal, mas devem ser postos ao serviço de todos.
 É preciso ter consciência da presença do Espírito: é Ele que alimenta, que dá vida, que anima, que distribui os dons conforme as necessidades; é Ele que conduz as comunidades na sua marcha pela história. Ele foi distribuído a todos os crentes e reside na totalidade da comunidade. Temos consciência da presença do Espírito e procuramos ouvir a sua voz e perceber as suas indicações? Temos consciência de que, pelo facto de desempenharmos esta ou aquela função, não somos as únicas vozes autorizadas a falar em nome do Espírito?

https://www.dehonianos.org/

sábado, 23 de maio de 2026

Vem Espírito Santo

 

 

Vem, Espírito Santo


Tentemos deixar fluir,
ao menos uma vez na vida,
o sopro do Espírito Santo
no meio e dentro de nós.
Torna-te lume novo… e tu ardes!
Quem não arde, não vive.
O Grande Espírito move-se pela nossa cozinha interior,
entre púcaros, vasilhas e panelas.
E ali Ele dá-nos sabor…
O Infinito vem ao sangue,
mistura-se para que a graça seja graça…
Comida pronta que nos torna humanos.
Ele é a mola da nossa história
onde penduramos, tantas vezes, a vida
cansada, sem espanto, sem calor!
Deixa-te secar por Ele.
Não perderás tantas fibras,
encolhes menos e duras mais.
Ele vem e faz-se caminho nas nossas entranhas!
Damo-nos connosco a descobrir a Luz
e a sermos silêncio.
Onde Ele para para nos encontrar.
Deixa que os seus pingos de chuva
entrem na tua terra árida!
Sente esse cheiro intenso que te torna respirável.
Aperta a sua frescura
e sente a sua música entre os teus dedos…
Sem o Espírito Santo podes construir a vida toda
e chegar ao fim sem teres abrigo.
Sem Ele serás simplesmente barro,
terra com a terra, pó com pó.


Padre João Torres

sexta-feira, 22 de maio de 2026

O remédio para as feridas do coração

              


Se a felicidade fosse uma questão de inteligência, então haveria muito mais gente feliz do que existe.

O amor não é lógico. À primeira vista, o egoísmo parece muito mais prudente do que a entrega gratuita sem garantia de reciprocidade.

Os nossos sentimentos e a voz da nossa alma também nos dão indicações em relação aos destinos e caminhos que devemos escolher. Por mais que a razão tente impor-se, a verdade é que ela, por si só, não nos faz felizes.

Se o sentido da vida é a busca da felicidade, então a inteligência é apenas mais uma das ferramentas. Muitas vezes é o coração que tem de abrir as portas da prisão em que os pensamentos nos aprisionaram a alma.

Um sofrimento para o qual não se encontra sentido não deixa de doer; muitas vezes, dói ainda mais. A inteligência nem sempre é a melhor conselheira da paz interior.

O sonho é ilógico e, no entanto, pode preencher muitos vazios interiores. Há quem decida procurar no céu o que não tem na terra. Acreditar é uma das forças essenciais para criar grandes obras.

Talvez os sonhos sejam a forma de o coração pensar.

Importa lembrar que, por mais que reflitamos, há verdades que só se revelam quando entregamos a questão a um silêncio profundo e paciente.

Os sonhos permitem-nos estabelecer metas, imaginar soluções, descobrir forças e ir mais longe do que alguma vez imaginámos.

O amor é o caminho e a força necessária para seguir em frente. A grandeza do amor mede-se pelo que alguém é capaz de sacrificar por ele.

O amor é o remédio para as feridas do coração — feridas que só tem quem não desiste de sonhar.


José Luís Nunes Martins


quinta-feira, 21 de maio de 2026

Desculpa… eu disso não percebo nada!




Creio que ninguém gosta de pedir.

Há um incómodo em termos de pedir um favor, um jeitinho ou uma ajuda pois revela uma fragilidade que nem sempre gostamos de assumir. Eu confesso, não gosto! É mais fácil pedir para alguém do que para nós, não achas?

Mas, volta e meia, tentamos a nossa sorte porque precisamos ou, simplesmente para ter algum facilitismo.

Quantos de nós já não pediram para dar um jeitinho numa lista de espera, um jeitinho numa informação que pelos meios normais teima em chegar, um jeitinho para uma oportunidade de emprego ou outra situação…quem nunca!?

Custa tanto pedir! Se calhar porque achamos que não é correto pois não gostamos de incomodar ou aborrecer alguém com a nossa situação. Nem sempre “pedi, e ser-vos-á dado” funciona com Deus, quanto mais com os homens.

Muitos de nós já tiveram o poder na mão de dar jeitinhos capazes de mudar a vida de alguém sem prejudicar a dos outros, mas outros, quando o podem fazer escusam-se.

Estão no direito de recusar ajudar e até podem alegar que não lhes é possível, mas até nisso é preciso sensibilidade. Acho que quase todos nós, já nos recusamos a ajudar, seja a dar esmola ou a participar em algo…quem nunca!?

Não estou a julgar nem criticar, apenas refletir sobre a nossa atitude perante as duas situações: teres de pedir, e alguém ter de te pedir a ti!

Há uns bons anos, pedi uma informação sobre um concurso a alguém que estava na área e para a qual eu nunca me tinha recusado a ajudar nas inúmeras vezes que fui solicitada. Expus o meu pedido e recebi secamente: “Desculpa eu disso, não percebo nada”. Sem mais! Nem um indicação de quem me poderia ajudar, sem qualquer empatia ou gentileza. Já lá vão muitos anos e nunca apaguei esse email. Acho que o guardo para me lembrar de não fazer o mesmo. Não o guardo com rancor nem à espera de vingança, foi o que foi, nunca mais vi essa pessoa e desejo-lhe o melhor.

Peço para que de cada vez que alguém tiver pedir, não escute nem silêncio, nem ofensa, nem desdém.

Que sirva de oração :
    -Peço para que o meu coração não se endureça perante os pedidos que me chegam como resultado das ausências de respostas em relação aos meus.

    - Peço a empatia para aceitar que apesar de “ não perceber nada disso”, posso procurar quem saiba.

   - Peço a sabedoria para acolher cada pedido sem arrogância.


E peço que nunca tenha de pedir em desespero e que do outro lado encontre sempre alguém que me acolha e me conforme.

E tu amiga, quantas vezes usaste uma desculpa para não ajudar?


Raquel Rodrigues