segunda-feira, 20 de julho de 2026

O meu é às riscas!

 


“O meu é às riscas!”
Alguém pergunta a um grupo de crianças como seriam os seus corações, se os corações maus fossem escuros e branquinhos os corações bons, respondeu imediatamente uma pequenina: “Ah! O meu é às riscas!”
Temos muita dificuldade em aceitar uma realidade “às riscas”!
Em que o MAL e o BEM coabitam em nós e nos outros...
Jesus utiliza imagens ligadas ao CUIDADO DA TERRA e ao QUOTIDIANO para falar do cuidado entre as pessoas. O trigo e o joio não são dois tipos de pessoas, mas duas formas de conduta, que estão (sempre) presentes em cada um de nós.
O BEM E O MAL CRESCEM JUNTOS NO NOSSO CORAÇÃO.
Às vezes provocamos INJUSTIÇAS, às vezes PREJUDICAMOS alguém. Também o SENTIMOS na nossa vida, que alguém nos prejudicou, que alguém é INJUSTO, que alguém provocou o mal contra nós.
A tentação para qualquer um, é decidir por sua própria conta e risco quem é bom e quem é mau (trigo ou joio), quem deve ser acolhido e quem deve ser expulso.
O que é que Deus nos diz sobre isto? Diz-nos: “Deixai estar”.
Deus dá tempo ao tempo, OFERECE MIL OPORTUNIDADES para o joio morrer em nós e o trigo crescer para a ceifa! Pede-nos o mesmo comportamento a cada um de nós em relação aos outros...
Como todos nós somos seres limitados, o bom e o mau está em todos nós.
É por isso que querer ARRANCAR O MAL EM NÓS é correr o risco de arrancar, ao mesmo tempo, o bem que há em nós...
Se víssemos melhor as riscas que o nosso coração tem
não perderíamos tanta ENERGIA DA NOSSA VIDA em julgar e condenar os outros!

Padre João Torres

domingo, 19 de julho de 2026

Um Deus clemente e compassivo

 

https://www.youtube.com/watch?v=wB-UC71kQgQ&list=PLAqKRngqwuSfPdOPEvu7KzjdvMvB1w33f&index=157

A liturgia do 16º Domingo do Tempo Comum convida-nos a descobrir o Deus paciente e cheio de misericórdia, a quem não interessa a marginalização do pecador, mas a sua integração na comunidade do "Reino"; e convida-nos, sobretudo, a interiorizar essa "lógica" de Deus, deixando que ela marque o olhar que lançamos sobre o mundo e sobre os homens.

A primeira leitura fala-nos de um Deus que, apesar da sua força e omnipotência, é indulgente e misericordioso para com os homens - mesmo quando eles praticam o mal. Agindo dessa forma, Deus convida os seus filhos a serem "humanos", isto é, a terem um coração tão misericordioso e tão indulgente como o coração de Deus.
O nosso texto apresenta-nos um Deus tolerante e justo, em quem a bondade e a misericórdia se sobrepõem à vontade de castigar. Ele não quer a destruição do pecador, mas a sua conversão; Ele ama todos os homens que criou, mesmo aqueles que praticam acções erradas. Ora, todos nós conhecemos bem este quadro de Deus, pois ele aparece-nos a par e passo na Palavra revelada... Mas já o interiorizámos suficientemente?
Muitas vezes, percebemos certos males que nos incomodam como "castigos" de Deus pelo nosso mau proceder. No entanto, este texto deixa claro que Deus não está interessado em castigar os pecadores... Quando muito, procura fazer-nos perceber, com a pedagogia de um pai cheio de amor, o sem sentido de certas opções e o mal que nos fazem certos caminhos que escolhemos.

O Evangelho garante a presença irreversível no mundo do "Reino de Deus". Esse "Reino" não é um clube exclusivo de "bons" e de "santos": nele todos os homens - bons e maus - encontram a possibilidade de crescer, de amadurecer as suas escolhas, de serem tocados pela graça, até ao momento final da opção definitiva.
Neste Evangelho temos também uma lição muito sugestiva sobre a atitude de Deus face ao mal e aos que fazem o mal. Na parábola do trigo e do joio, Jesus garante-nos que os esquemas de Deus não prevêem a destruição do pecador, a segregação dos maus, a exclusão dos culpados. O Deus de Jesus Cristo é um Deus de amor e de misericórdia, sem pressa para castigar, que dá ao homem "todo o tempo do mundo" para crescer, para descobrir o dom de Deus e para fazer as suas escolhas. Não percamos nunca de vista a "paciência" de Deus para com os pecadores: talvez evitemos ter de carregar sentimentos de culpa que oprimem e amarguram a nossa breve caminhada nesta terra.

A segunda leitura sublinha, doutra forma, a bondade e a misericórdia de Deus. Afirma que o Espírito Santo - dom de Deus - vem em auxílio da nossa fragilidade, guiando-nos no caminho para a vida plena.
O ritmo da vida moderna é estonteante... As exigências profissionais, os problemas familiares, o inferno do trânsito, a necessidade de ganhar a vida atiram-nos de corrida em corrida, sempre ocupados, sempre cansados, sempre carregados de stress, prisioneiros de uma máquina que nos desumaniza e que não nos deixa centrar a nossa atenção no essencial, reequacionar os nossos valores e prioridades. É preciso, no entanto, encontrar tempo e espaço para reflectir, para redefinir o sentido da nossa existência, para perceber se estamos a conduzir a nossa vida "segundo a carne" ou "segundo o Espírito".
O verdadeiro crente é o que vive em comunhão com Deus. Não prescinde desses momentos de diálogo, de partilha, de escuta, de louvor a que chamamos oração. É nesse diálogo intenso, verdadeiro, diário que o crente, através do Espírito, intui a lógica de Deus, a sua verdade, o projecto que Ele tem para cada homem e para o mundo. Esforço-me por encontrar espaço para o diálogo com Deus e para fortalecer a minha intimidade com Ele?
Sem alternativa! O bom grão semeado no nosso campo era promessa de uma boa ceifa. Mas eis que o joio veio poluir a seara. Que tipo de compromissos aceitamos na nossa vida? Deus é paciente! Mas se temos ouvidos, é urgente escutar o seu apelo à conversão. É urgente escolher o nosso campo: o do Senhor ou o do Maligno. Não há alternativa!

https://www.dehonianos.org

sábado, 18 de julho de 2026

Os filhos não são uma propriedade




Os filhos não são uma propriedade. São uma missão.

Há uma tentação silenciosa que habita o coração de muitos pais: pensar que amar um filho é moldá-lo à sua própria imagem. Desejam protegê-lo de todas as quedas, evitar-lhe todas as lágrimas, escolher os caminhos que julgam melhores. Fazem-no por amor. Mas, por vezes, sem se aperceberem, confundem amor com posse.
Os filhos não são um projeto para realizar os sonhos que ficaram por cumprir. Não vieram ao mundo para repetir a história dos pais, corrigir os seus erros ou confirmar as suas escolhas.
Vieram para escrever a sua própria história.
Deus confia os filhos aos pais, mas não lhes entrega um destino já traçado. Confia-lhes uma vida única e irrepetível, com uma vocação que só cada filho poderá descobrir.
Educar é, por isso, um dos maiores atos de humildade.
É ensinar sem prender. Corrigir sem humilhar. Orientar sem controlar. Estar presente sem ocupar todo o espaço. É aprender, todos os dias, a dar um passo atrás para que os filhos possam dar um passo em frente.
Ser pai ou ser mãe é aceitar que chegará o dia em que os filhos deixarão de pedir a mão dos pais para começarem a caminhar pelos seus próprios pés. E esse dia não será o fracasso da educação; será, talvez, o seu maior sucesso.
Os filhos precisam de raízes, mas também de asas.
As raízes dão-lhes identidade, valores, fé e sentido de pertença. As asas dão-lhes liberdade para sonhar, decidir, amar, errar, recomeçar e encontrar o lugar que Deus preparou para eles.
Os pais são chamados a lançar os filhos para a vida com confiança, sabendo que o amor verdadeiro não prende; acompanha. Não domina; inspira. Não vive no medo de perder, mas na alegria de ver crescer.
Educar é amar tanto, que se aprende a deixar partir.

Padre João Torres

sexta-feira, 17 de julho de 2026

O que mancha a tua alegria?



O que mancha a tua alegria?


O medo?

A vergonha?

Por vezes queremos festejar algo que de bom nos aconteceu, mas parece que nos sentimos tensos e até com medo de celebrar, não vá nada agoirar.

Quando uma família recebe a notícia que vai ter um filho, ficam felizes, mas logo começam os receios e o medo.

Quando, finalmente, consegues um emprego, celebras mas logo és acometida por medo e dúvidas sobre se és capaz.

E por aí fora…

Sempre que tens um motivo para festejar, parece que o rastilho é curto porque és assaltada por outras tantas preocupações, medos e até vergonha de mostrar que estás contente.

Ora, pensa lá, quando foi a última vez que celebras-te uma boa notícia, mas celebrar a sério, com pinchos, saltinhos, e risos de alegria.

Quando tiveste esse momento, o que fizeste? Partilhaste essa alegria com quem? Como reagiram?

Ou será que escondeste isso para ti, relativizando e até sentindo vergonha como se fosse algo injusto e que não mereceste?

É que a nossa alegria cresce quando é partilhada, mas às vezes…essa partilha mata a alegria de qualquer um. Quantas vezes contaste a alguém uma boa notícia e o outro respondeu: Ah que bom, mas…! Isso mata qualquer festejo.

Outras vezes até somos nós a matar o entusiasmo dos que nos rodeiam, umas vezes por medo outras por uma pontada de inveja.

Não é fácil sentir a alegria pura de uma criança quando abre um brinquedo no Natal, ou que reencontra o abraço do pai depois de tanto o procurar. Uma alegria despreocupada e totalmente confiante no que sente no agora, sem mancha de medos ou invejas.

Ora pensa lá! Se calhar temos de treinar mais essa aptidão para a felicidade e a sua celebração.

E tu, amiga, o que achas que mancha a tua alegria?


Raquel Rodrigues


quinta-feira, 16 de julho de 2026

Ser padrinho ou madrinha

 



Ser padrinho ou madrinha:

quando o coração assina mais do que um papel
Há pedidos que chegam ao cartório paroquial com um sorriso e uma frase quase pronta: "Preciso de um atestado de idoneidade para ser padrinho."
Como se bastasse um papel.
Como se a fé pudesse ser impressa numa folha A4.
Como se o Crisma fosse um bilhete vitalício que se guarda na gaveta, ao lado do certificado da escola e da garantia do frigorífico.
Mas não é assim.
A Igreja não pede aos párocos um certificado de sacramentos. Pede-lhe um atestado de vida. Não pergunta apenas: "Foi crismado?" Pergunta: "É alguém que vive a fé? Participa na comunidade? Pode uma criança olhar para esta pessoa e descobrir, nela, um caminho até Cristo?"
Ser padrinho ou madrinha nunca foi um prémio de amizade. Nem um lugar reservado na fotografia do Batismo. É muito mais bonito. E muito mais exigente.
É aceitar que, um dia, um pequeno coração poderá aprender a rezar porque viu o padrinho ou a madrinha a rezar. Poderá descobrir o valor do perdão porque os viu a perdoar. Poderá acreditar em Deus porque encontrou neles fé... não apenas aos domingos especiais, mas nas segundas-feiras difíceis.
Um padrinho não substitui os pais. Caminha ao lado. Está presente. Recorda, anima, levanta, escuta. E quando o afilhado se afasta da fé, não desiste dele. Continua a mostrar-lhe o caminho.
A Igreja precisa de inspiradores de vida. Porque a fé não se herda por decreto. Nem se transmite por WhatsApp.
Transmite-se à mesa de casa. No banco da igreja. Numa visita a quem sofre. Num sinal da cruz feito sem vergonha. Numa vida que, com todas as suas fragilidades, continua a dizer: vale a pena seguir Jesus.
Se alguém deseja ser padrinho ou madrinha, a pergunta mais importante talvez não seja: "Tenho os documentos?"
Mas esta:
"Se o meu afilhado imitasse a minha maneira de viver a fé, eu ficaria feliz?"
Ser padrinho ou madrinha é assinar um compromisso... primeiro com o coração e só depois com a caneta.
Porque os papéis envelhecem.
As fotografias ficam amareladas.
Mas uma vida que aponta para Deus... essa permanece para sempre.

Padre João Torres

quarta-feira, 15 de julho de 2026

A vida é uma enorme incerteza



Por mais seguros que nos sintamos em relação a alguma questão da nossa vida, isso será sempre mais sinal de emoção do que de razão. Ninguém pode sentir-se seguro aqui.

A fé é um dom que muitas vezes confundimos com uma espécie de negação da realidade. Cada um de nós é chamado a fazer mais do que esperar, colocando os seus talentos e as suas forças ao serviço do bem.

A realidade ultrapassa-nos, mas nunca seremos meros espectadores. Somos chamados a ser autores e atores nas muitas peças que compõem os nossos dias.

Com um palco cheio de pessoas, cada um a decidir por si só o que faz, muitos são os encontros e desencontros, os atropelos e os desentendimentos. Como se isso não bastasse, a existência é, em si mesma, imprevisível; o palco, as luzes e tudo o que não é humano parecem também ter vontade própria.

A existência é uma enorme viagem por um mar que tão depressa nos oferece a maior paz como logo a seguir nos revela que afinal nem a nossa vida conseguimos agarrar com força suficiente.

A esperança, tal como o desespero, faz sentido. No entanto, cabe-nos escolher o que esperar. É tão certo que os males de agora passarão como que outros, hoje desconhecidos, virão. Assim também é certo que os bens de que usufruímos hoje se perderão, mas que outros, que hoje nem conseguimos imaginar, estão a caminho da nossa vida!

Os sonhos fazem sempre sentido, mais ainda se nos dispusermos a trabalhar e a lutar para que se concretizem!


José Luís Nunes Martins


terça-feira, 14 de julho de 2026

O Preço de estar Vivo

 


O Preço de estar Vivo

Viver não é apenas ver os dias passar no ecrã do telemóvel, contar as faturas pagas ao fim do mês ou cumprir horários numa rotina anestesiada. Timothy Radcliffe recorda-nos uma verdade crua, daquelas que se cravam na pele da nossa existência: "Se amas, serás crucificado; se não amas, já estás morto."
Amar de verdade dá trabalho. Dói. Significa abrir a porta de casa e do peito, sabendo perfeitamente que o vento pode entrar e desarrumar tudo. Amar é expor a nossa vulnerabilidade, na mesa do jantar onde as palavras às vezes falham, ou no silêncio pesado depois de uma discussão estúpida por causa da loiça por lavar. Quando escolhemos cuidar, quando decidimos importar-nos e dar a mão a quem caminha connosco, estamos a desarmar-nos. Ficamos expostos. E o mundo, tantas vezes apressado, egoísta e cínico, julga, aponta o dedo, magoa. Amar é aceitar essa cruz quotidiana; é o preço de quem se recusa a ser indiferente.
Mas qual é a alternativa real? Fechar os estores da alma? Blindar o coração numa redoma de betão para que nada nos atinja?
Quem não arrisca o afeto, quem se esconde do amor para evitar a dor, não está a proteger-se — está apenas a vegetar. Anda pelas ruas como uma sombra que consome oxigénio, mas cujo peito já não vibra por nada nem por ninguém. É um corpo com os batimentos cardíacos em dia, mas com a alma já enterrada no vazio.
Prefiro mil vezes a ferida aberta e sangrenta de quem ama, com todas as suas quedas e incompreensões, à segurança estéril e cinzenta de uma vida sem entrega. Prefiro o peso de uma cruz que me liga aos outros e me cola à realidade, ao caixão invisível do desamor. Que tenhamos a coragem de amar, mesmo sabendo o preço. Porque só quem se atreve a ser quebrado sabe o que é, verdadeiramente, estar vivo.

Padre João Torres