segunda-feira, 9 de março de 2026

Dá-me essa água



“Morrer de sede ao pé da fonte”
Ditado popular

Somos terra seca.

Escolhemos um caminho árido.

Ansiamos viver num deserto.

Sentimos a desilusão e a tristeza…


Deus mima-nos como um Pai!

Tudo coloca ao nosso alcance.

Se acreditarmos que somos capazes, até de um rochedo sem vida brota água.


Mas, não temos a capacidade de acreditar sem medida.

Ser Esperança no mundo, passa por uma condição belíssima:

Não podemos enganar, nem mentir…

São as nossas obras que dão vida à Esperança,

e nem sempre abrimos o nosso coração à voz de Deus.

Então… somos terra seca, ressequida,

sem Esperança, nem Fé, onde morre a semente da caridade.


Uma dúvida que magoa vem ao nosso encontro e rega a semente do ódio:

«Como é que Tu, sendo judeu, me pedes de beber, sendo eu samaritana?»


Iniciamos conflitos e guerras, porque vivemos no local onde o outro não mora…

Será que a geografia é mais importante que o Amor?


Hoje, a Samaritana abandona as questões sem sentido e vem em nosso auxílio.

Traz um balde na mão e está destinada a fazer, de cada um de nós,

peregrinos de Esperança.


Regar o mundo com Paz.

Ser afável com todos, até com quem não merece.

Ser consciente de que gritar só é bom quando anunciamos que temos um Deus que nos salva,

que envia o Seu próprio Filho para ser Água Viva, Fonte inesgotável de Amor.


Dá-me essa água, Senhor.


Liliana Dinis

domingo, 8 de março de 2026

Dia da Mulher




A verdadeira "genialidade feminina" manifestou-se no Sim mais importante da história.

O Dia Internacional da Mulher, sob o olhar da fé católica, convida-nos a contemplar a dignidade feminina através daquela que é o modelo perfeito de humanidade: Maria Santíssima.
Enquanto o mundo foca em conquistas sociais e direitos necessários, a Igreja recorda-nos a "genialidade feminina" (termo de São João Paulo II) manifestada no Fiat de Nossa Senhora. Maria não foi apenas uma figura passiva; ela foi a mulher da coragem e da escuta, que ao dizer "sim", mudou o curso da história humana.
Neste dia, celebrar a mulher é reconhecer:

A Força na Entrega: Tal como Maria aos pés da Cruz, a mulher carrega uma capacidade única de permanecer, de sustentar a esperança onde outros desistem e de transformar o sofrimento em amor fecundo.

A Missão de Gerar Vida: Seja na maternidade biológica ou espiritual, a mulher reflete o acolhimento de Maria, transformando o mundo num lar e lembrando à humanidade a importância da ternura.

A Dignidade Redimida: Em Maria, a mulher é elevada à mais alta honra. Ela mostra que o verdadeiro empoderamento nasce da fidelidade a Deus e do serviço aos irmãos.

Que a exemplo de Maria, todas as mulheres encontrem na sua fé a força para serem luz na família e na sociedade, sendo sempre "mensageiras da paz e da vida".

“Se conhecêsseis o dom de Deus!”

 

https://www.youtube.com/watch?v=EDVDx_ImrZY



Estamos no terceiro domingo da Quaresma. Não é fácil nem isento de obstáculos o caminho que, através do deserto quaresmal, nos leva em direção à vida nova. Conseguiremos superar os obstáculos deste caminho de conversão e de renovação? A Palavra de Deus que escutamos no terceiro domingo da Quaresma deixa-nos uma indicação verdadeiramente reconfortante: Deus acompanhar-nos-á em cada passo e nunca deixará de saciar a nossa sede de vida.

A primeira leitura relembra-nos um dos momentos determinantes da caminhada dos hebreus pelo deserto, após a libertação do Egito: o povo, apoquentado pela sede e afundado em dúvidas, questiona o desígnio de Deus e pergunta-se se Deus pretende salvá-lo ou perdê-lo. A esta bizarra dúvida Deus responde com um gesto extraordinário: faz brotar água de um rochedo e sacia a sede do seu povo. Não se trata de um caso isolado: o Deus salvador e libertador esteve, está e estará sempre empenhado em saciar a sede de vida do seu povo enquanto este atravessa o deserto da história. Quando saíram do Egito e deixaram para trás a escravidão, os hebreus sentiram-se profundamente reconhecidos ao Deus que os salvou. Mas a gratidão que sentiam evaporou-se quando tiveram de enfrentar as dificuldades do caminho: a fome, a sede, o calor, o cansaço, as ciladas dos inimigos, as decisões difíceis, os riscos da liberdade… Então, murmuraram contra Deus, duvidaram da sua bondade e do seu amor, acusaram-n’O até de ter posto em marcha um projeto de morte destinado a fazê-los perecer no deserto. Isto não nos soa familiar? Quando o caminho nos parece demasiado longo e solitário, quando tropeçamos nos obstáculos inevitáveis que a vida nos traz, quando experimentamos os nossos limites e fragilidades, quando nos sentimos cansados, desiludidos e perdidos, quando nos enganamos e optamos por valores errados, quando nos entrincheiramos atrás da nossa autossuficiência e nos damos mal, criticamos Deus, acusamo-l’O de nos abandonar, duvidamos do seu amor… Parecemos crianças mimadas que passam a vida a lamentar-se e a acusar Deus pelos “dói-dóis” que a vida nos faz. Já pensamos que muitas das coisas que nos fazem sofrer resultam das nossas escolhas erradas e não da ação de Deus? Já pensamos que muitas das dificuldades que temos de enfrentar talvez façam parte da pedagogia de Deus para nos fazer crescer, para nos ajudar a descobrir o sentido da vida, para nos renovar e transformar?

No Evangelho Jesus, em diálogo com uma mulher da Samaria, junto do poço de Jacob, propõe-se oferecer-lhe uma “água viva” que matará todas as sedes e que se tornará “uma nascente que jorra para a vida eterna”. A samaritana mostra-se disponível para acolher e beber a água que Jesus tem para lhe oferecer. Estaremos, também nós, dispostos a saciar a nossa sede com a água que Jesus nos quer oferecer? Aquela mulher anónima da Samaria, depois de encontrar o “salvador do mundo” que veio trazer aos homens a água que mata a sede de vida eterna, não guardou para si própria essa experiência inolvidável e não se fechou em casa a gozar a sua descoberta… Correu para a cidade e partilhou com os seus concidadãos a verdade que tinha encontrado e que tinha alterado a sua visão da vida: “Vinde ver um homem que me disse tudo o que eu fiz. Não será Ele o Messias?”. As experiências que mudam a nossa existência e que nos abrem horizontes novos, não são para ficar confinadas nos nossos mundos pessoais. Quando nos encontramos com Jesus e descobrimos, com Ele, novos horizontes e novas possibilidades, partilhamos essa descobertas com aqueles que caminham ao nosso lado pelas estradas da vida?

A segunda leitura não evoca o tema da água, como a primeira leitura e o Evangelho; mas reafirma o empenho de Deus em oferecer vida e salvação ao seu povo. Garante-nos que, sejam quais forem as nossas falhas e infidelidades, Deus “justifica-nos”. A sua misericórdia falará sempre mais alto do que o nosso pecado. Deus oferecer-nos-á sempre, de forma gratuita e incondicional, a sua salvação. Quando Deus fizer a contabilidade final dos nossos dias o que encontrará? As nossas boas obras serão em número suficiente para nos garantir a salvação? No “livro de contas” de Deus a nossa coluna dos débitos será mais extensa do que a coluna dos créditos? Deus atuará como um contabilista rigoroso que, depois de tudo somado, nos apontará, sem contemplações, aquilo que temos em falta? O apóstolo Paulo deixa-nos, na leitura de hoje, uma notícia tranquilizadora: na contabilidade final da nossa vida, a única coisa que contará será o amor de Deus. O nosso Deus é um Deus clemente e compassivo, lento para a ira e rico em misericórdia. Ele “justificar-nos-á” e emitirá sobre nós um veredicto de graça e de misericórdia, mesmo que nós não o mereçamos. A única coisa que Ele exigirá de nós é que acolhamos a sua oferta de salvação. Deus não nos condena; Deus salva-nos sempre. Basta que acolhamos o seu amor e que aceitemos o convite que Ele nos faz para integrar a sua família. Como vemos e sentimos esta “Boa Notícia”?

https://www.dehonianos.org/

sábado, 7 de março de 2026

Sem amor aos pobres, a liturgia é vazia




Sem amor aos pobres, a liturgia é vazia

Podemos ter igrejas cheias.
Cânticos afinados.
Ritos impecáveis.
Incenso a subir bonito no ar.
Mas se não houver amor aos pobres e aos frágeis, tudo isso será apenas cenário.
Rituais belos por fora — vazios por dentro.
Sem o gesto do lava-pés nunca entenderemos a Eucaristia. Sem ajoelhar diante da dor do outro, ajoelhar no altar torna-se formalidade.
Uma Igreja que não visita os presos, que não se aproxima dos doentes, que não se inclina sobre os que falharam, pode ter muitas atividades — mas não será a Igreja de Jesus Cristo.
Não basta dizer “naquele tempo…”.
Não basta citar o Evangelho como memória distante. Não basta acumular documentos, doutrinas, reflexões eruditas.
Se o coração não arde, a fé arrefece.
Se a Palavra não muda a vida, torna-se discurso. Se a Missa não continua na rua, torna-se espetáculo.
Os discípulos não reconheceram Jesus numa teoria. Reconheceram-no à mesa, na partilha, na presença viva.
Mas a questão não é de palavras.
É de espírito.
A Palavra não foi dada para ficar confinada ao sagrado. Foi dada para transformar o profano.
Para entrar no trabalho, na política, na economia, na família. Para gerar justiça, solidariedade, misericórdia.
De que nos serve comungar, se não partilhamos?
De que nos serve rezar, se não perdoamos?
De que nos serve cantar “irmãos”, se mantemos distâncias e divisões?
O externo deve ser expressão do que amadureceu no coração.
Caso contrário, é máscara.
Deus está próximo quando a Palavra anima as ações.
Quando o altar se prolonga na rua.
Quando o culto se transforma em serviço.
Quando a fé se traduz em gestos concretos.
A Igreja de Jesus é peregrina, samaritana, hospitaleira.
É Igreja do perdão.
É Igreja em saída.
É Igreja que caminha com — e não acima de.
Não é a crença que nos define.
São os nossos atos.
Porque no fim, talvez Deus nos pergunte apenas isto:
Onde estavam os teus irmãos quando disseste que Me amavas?


Padre João Torres

sexta-feira, 6 de março de 2026

AS GUERRAS PREVENTIVAS CORREM O RISCO DE INCENDIAR O MUNDO



O cardeal Secretário de Estado do Vaticano, Pietro Parolin, falou à imprensa sobre a guerra no Oriente Médio. Nessa entrevista a Andrea Tornielli, ele fala como “as guerras preventivas correm o risco de incendiar o mundo”. Dado o seu interesse, e com a devida vénia, aqui a reproduzo:
Eminência, como está a viver esses momentos dramáticos?
Com grande pesar, pois os povos do Oriente Médio, incluindo as já frágeis comunidades cristãs, mergulharam novamente no horror da guerra, que brutalmente destrói vidas humanas, produz destruição e arrasta nações inteiras em espirais de violência com resultados incertos. No domingo passado, durante o Ângelus, o Papa falou de uma “tragédia de proporções enormes” e do risco de um “abismo irreparável”. São palavras mais do que eloquentes para descrever o momento que estamos a atravessar.
O que acha do ataque dos EUA e de Israel ao Irão?
Acredito que a paz e a segurança devem ser cultivadas e buscadas por meio das possibilidades oferecidas pela diplomacia, especialmente aquela exercida nos organismos multilaterais, onde os Estados têm a possibilidade de resolver os conflitos de maneira pacífica e mais justa. Após a Segunda Guerra Mundial, que causou aproximadamente 60 milhões de mortes, os pais fundadores, com a criação da Organização das Nações Unidas, quiseram poupar seus filhos dos horrores que eles tinham vivido. Por isso, na Carta da ONU, buscaram fornecer diretrizes precisas sobre a gestão de conflitos. Hoje, esses esforços parecem ter sido em vão. Não só isso, mas, como o Papa lembrou ao Corpo Diplomático no início do ano, "uma diplomacia que promove o diálogo e busca o consenso entre todos está a ser substituída por uma diplomacia da força, de indivíduos ou grupos de aliados", e acredita-se que a paz pode ser buscada "pelas armas".
Quando se fala das causas de uma guerra, é complexo determinar quem está certo e quem está errado. O que é certo, porém, é que ela sempre produzirá vítimas e destruição, bem como efeitos devastadores sobre os civis. Por essa razão, a Santa Sé prefere enfatizar a necessidade de utilizar todos os instrumentos oferecidos pela diplomacia para resolver disputas entre Estados. A história já nos ensinou que somente a política, com o esforço da negociação e a atenção ao equilíbrio de interesses, pode aumentar a confiança entre os povos, promover o desenvolvimento e preservar a paz.
A justificação para o ataque foi impedir a realização
de novos mísseis, em suma, uma "guerra preventiva"...
Como enfatiza a Carta da ONU, o uso da força deve ser considerado apenas como último recurso, após o esgotamento de todos os instrumentos de diálogo político e diplomático, após cuidadosa avaliação dos limites da necessidade e da proporcionalidade, com base em avaliações rigorosas e razões bem fundamentadas, e sempre no âmbito de uma governança multilateral. Se aos Estados fosse reconhecido o direito à “guerra preventiva”, segundo critérios próprios e sem um quadro jurídico supranacional, o mundo inteiro correria o risco de se encontrar em chamas. É realmente preocupante este declínio do direito internacional: a justiça foi substituída pela força, a força do direito foi substituída pelo direito da força, com a convicção de que a paz só pode nascer depois de o inimigo ter sido aniquilado.
Que peso têm as enormes manifestações de rua das
últimas semanas, brutalmente reprimidas no Irão?
Podem ser esquecidas?
Certamente que não; isso também foi motivo de profunda preocupação. As aspirações dos povos devem ser levadas em consideração e garantidas dentro de um quadro jurídico de uma sociedade que assegura a todos a liberdade e a expressão pública de suas ideias, e isso também se aplica ao querido povo iraniano. Ao mesmo tempo, podemos nos perguntar se realmente se acredita que a solução possa vir através do lançamento de mísseis e bombas.
Por que é que o direito internacional e a diplomacia
estão a passar por esse declínio hoje?
A consciência de que o bem comum realmente beneficia a todos — isto é, o bem do outro também é um bem para mim — se dissipou, e a justiça, a prosperidade e a segurança se realizam na medida em que todos podem beneficiar delas. Esse princípio fundamenta a criação do sistema multilateral ou de um projeto ambicioso, como o da União Europeia. Essa consciência se dissipou, alimentando a busca pelo interesse próprio.
Isso tem outra consequência: o sistema da diplomacia multilateral nas relações entre os Estados atravessa uma profunda crise, devido, entre outros fatores, pela desconfiança dos Estados em relação aos vínculos legais que limitam sua ação. Esse comportamento representa a outra face da vontade de poder: o desejo de agir livremente, de impor a própria ordem aos outros, evitando o árduo, porém nobre, trabalho da política, composto de discussões, negociações, de vantagens pessoais e concessões aos outros. Um multipolarismo marcado pela primazia do poder e pela autorreferencialidade está-se a afirmar de forma perigosa. Infelizmente, princípios como a autodeterminação dos povos, a soberania territorial e as normas que regem a própria guerra (jus in bello) estão a ser questionados. Todo o aparato construído pelo direito internacional em áreas como desarmamento, cooperação para o desenvolvimento, respeito aos direitos fundamentais, propriedade intelectual, trocas e trânsitos comerciais está a ser questionado e gradualmente arquivado. E, acima de tudo, parece ter tido uma perda de consciência do que Immanuel Kant escreveu em 1795: "Uma violação do direito que ocorre numa parte da Terra é sentida em todos os lugares". Ainda mais grave, em alguns aspetos, é invocar o direito internacional para atender às próprias conveniências.
A que se refere?
Refiro-me ao fato de haver casos em que a Comunidade internacional se indigna e toma medidas, e casos em que não o faz, ou o faz muito menos, dando a impressão de que há violações do direito que devem ser punidas e outras que devem ser toleradas, vítimas civis que devem ser deploradas e outras que devem ser consideradas "danos colaterais". Não há mortes de primeira e segunda classe, nem há pessoas que tenham um direito maior de viver do que outras simplesmente por terem nascido num continente em vez de outro ou num determinado país. Gostaria de sublinhar a importância do direito internacional humanitário, cujo respeito não pode depender das circunstâncias ou de interesses militares e estratégicos. A Santa Sé reitera com veemência a sua condenação de toda forma de envolvimento de civis e estruturas civis, como residências, escolas, hospitais e locais de culto, em operações militares, e pede para que o princípio da inviolabilidade da dignidade humana e da sacralidade da vida seja sempre protegido.
Quais as perspetivas de curto prazo que o senhor vê para esta nova crise?
Espero e rezo para que o apelo à responsabilidade feito pelo Papa Leão XIV no último domingo seja ouvido e possa tocar os corações de quem está a tomar decisões. Espero que o barulho das armas cesse em breve e que se retorne às negociações. Não se deve esvaziar o sentido das negociações: é essencial conceder o tempo necessário para que se alcancem resultados concretos, trabalhando com paciência e determinação. Além disso, devemos reconhecer que a ordem internacional mudou profundamente em relação àquela concebida oitenta anos atrás, com a criação da ONU. Sem nostalgia do passado, é necessário combater toda a deslegitimação das instituições internacionais e promover a consolidação de normas supranacionais que ajudem os Estados a resolver disputas pacificamente, por meio da diplomacia e da política.
Que esperança há diante de tudo isso?
Os cristãos têm esperança porque confiam no Deus que se fez Homem, que no Getsémani ordenou a Pedro que embainhasse a espada e que na Cruz experimentou em primeira mão o horror da violência cega e insensata. Eles também têm esperança porque, apesar das guerras, das destruições, das incertezas e de um sentimento generalizado de desorientação, de muitas partes do mundo continuam a levantar-se vozes que clamam por paz e justiça. Os nossos povos pedem paz! Esse apelo deveria impactar governos e todos aqueles que trabalham no contexto das relações internacionais, levando-os a multiplicar os esforços pela paz”.
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D, Antonino Dias
Caminha, 06-03-2026.

Quando o coração decide transformar o mundo



Vivemos cansados.
Cansados de más notícias.
Cansados de discussões intermináveis.
Cansados de abrir o telemóvel e sermos invadidos por desgraças, escândalos e banalidades.
Lamenta-se — e com razão — que os grandes meios de comunicação se alimentem quase só da tragédia e do ruído. Mas talvez a verdadeira revolução não esteja em queixar-nos mais.
Talvez esteja em escolher diferente.
Fazer jejum.
Jejum de imagens que nos endurecem.
Jejum de indignação permanente.
Jejum de comentários que não constroem nada.
E, no lugar disso, redescobrir o que é simples e verdadeiro.
Há vida a correr longe do barulho.
Na mãe que acorda cedo e prepara o pequeno-almoço em silêncio.
No pai que regressa cansado, mas ainda encontra forças para brincar com o filho.
Na vizinha que leva sopa ao idoso do terceiro andar.
No voluntário que visita um doente que já quase ninguém visita.
É aí que a vida vale mais.
Precisamos de um tempo de transfiguração.
Da memória — para deixar de viver apenas do que nos feriu.
Do presente — para não o desperdiçar na superficialidade.
Da profecia — para acreditar que o futuro pode ser diferente se começarmos agora.
Só há pessoas a transformar.
Não existem pessoas acabadas.
Não existem histórias fechadas.
Não existem corações definitivamente endurecidos.
O Mestre Eckhart falava de uma mística da transformação.
Não uma espiritualidade de fuga, mas de metamorfose permanente.
De deixar que a vida, com as suas alegrias e feridas, nos vá moldando por dentro.
Transfigurar não é negar a realidade.
É iluminá-la.
É olhar para o que dói e perguntar:
“Como posso tornar isto mais humano?”
Talvez o mundo não precise apenas de opiniões fortes.
Precise de pessoas transformadas.
Gente que escolha a natureza em vez do ruído.
Boa música em vez do grito.
Leitura em vez da distração vazia.
Oração em vez da ansiedade.
Partilha em vez de indiferença.
Não se muda o mundo com discursos inflamados.
Muda-se com pequenas fidelidades diárias.
Com presença.
Com cuidado.
Com gestos discretos que ninguém noticia — mas que sustentam tudo.
Há uma vida que corre silenciosa e fecunda.
É essa que mais vale.
E talvez a verdadeira transfiguração comece quando decidimos ser melhores do que o ambiente à nossa volta. Quando escolhemos transformar, em vez de apenas reagir.
O mundo precisa de pessoas luminosas.
E a luz começa sempre dentro.




Padre João Torres

quinta-feira, 5 de março de 2026

Sobre fé




Correm tempos tão estranhos, tão incertos, tão intermináveis que parecem, até, pôr em causa tudo aquilo em que acreditamos. Mas a dúvida, que tantas vezes nos assola, vem só confirmar que somos humanos e que existem compreensões que vão além de nós mesmos. Dizem que a fé move montanhas e certamente moverá. Tenho fé, mas todos os dias peço para a aumentar. Por vezes sinto-a leve como uma brisa e outras forte como o vento, mas sinto que a tenho aqui e espero que para sempre. Li, algures, uma frase que dizia " enquanto houver 1% de chance, terei 99% de fé" e é mesmo isto que eu desejo para mim e para o mundo.


Lucília Miranda