O mar e o céu tocam-se no ponto mais distante que alcança o nosso olhar. No entanto, a linha do horizonte não marca o fim do mar; apenas esconde o que existe para lá do que conseguimos alcançar do ponto em que estamos. A linha que parece o fim é, na verdade, o início de tudo quanto ainda não vemos e que é, também ele, quase infinito. Ao navegar por entre os nossos dias, aprendemos que também na nossa história os horizontes se sucedem e que há sempre um, e é para lá dele que está aquilo que nos chama. Por vezes, preferimos ficar e não arriscar. Outras vezes, fazemo-nos capazes de nos lançar e ir mesmo contra ventos e marés. A morte não acaba com a vida. Esconde-nos a vida que há para lá dela. Tal como os azuis do mar e do céu, a vida passa pela morte depurando-se e, sem deixar de ser vida, eleva-se a outra forma de ser, ainda mais bela: de imperfeita a perfeita. Há quem não acredite na eternidade. Julga que o eu com que pensa e sente é apenas uma ilusão finita. Não é. O que pensa em mim é que sou eu, mais até do que as minhas mãos e a minha cara. Esta voz que é luz não é uma alucinação. Como sabem eles que este eu, que não veem, também deixa de existir com a morte do corpo? Saibamos que existe um infinito para lá do que conseguimos ver. Mais ainda, o céu nos toca sempre nesse limite que mais não é do que um ponto de encontro a que um dia chegaremos, pelo qual passaremos e, sem deixar de ser quem somos, a partir do qual havemos de ser mais com os pés sempre na lama e com o pensamento para lá das nuvens, também agora, em mim, o mar e o céu se encontram.
O medo fala-nos sempre de futuro. Quando nos falta a capacidade de viver no presente, surge o medo.
O medo fala-nos de possibilidades que podem nunca vir a concretizar-se. Mas enquanto surgem e desfilam na nossa tela mental, retiram-nos do centro. Transportam-nos para um lugar de vulnerabilidade quase infantil e desprotegido.
O que será que nos ensina, então, o medo? Como podemos encontrar estratégias para o fintar e para o sentar num lugar que nos afete um pouco menos?
O medo ensina-nos a sobreviver. Protege-nos. Está ali como um guarda-costas empenhado e comprometido. Observa tudo e todos e envia-nos mensagens premeditadas e antecipadas para nos impedir de sofrer. Tem boas intenções, pelo menos! O problema é que quando o faz em excesso, tornando-se um guarda-costas demasiado focado em nós e no que fazemos, torna-se sufocante. Deixa de ser um protetor e passa a ser quase um agressor. É aqui que precisamos de entrar com medidas mais drásticas.
Quando o medo ocupa todo o nosso espaço interno, precisamos de tentar encontrar gavetas que nos ajudem a respirar. A ideia não será eliminar o medo, de todo. Mas dizer-lhe que, de momento, estamos bem. Estamos seguros e protegidos. Não há perigo. E se houver, nós somos adultos e crescidos e vamos conseguir resolver o que vier. Fica um alívio, não fica?
Colocar a mão no coração, fechar os olhos e dizer ao medo:
Está tudo bem. Eu sei que me queres proteger e guardar de todo o mal. Mas nem tu, nem ninguém o pode fazer. Por muito que gostássemos.
Tenho entendido os (meus) medos como uma prisão. Uma jaula que se ergue à volta de tudo e que deixa pouco espaço para respirar. Mas já compreendi que tudo o que queremos rejeitar em nós ganha força. E o mesmo acontece com o medo se eu lhe disser que não o quero aqui.
Num mundo em que todos parecem tão seguros de si em todos os aspetos, parece absurdo falar de medo e de vulnerabilidade. Mas existem. Dentro de todos os que parecem imparáveis e perfeitos.
Que os nossos medos encontrem um lugar ao sol para nos dar descanso e que o mar nos traga a presença e a motivação para viver apenas um dia de cada vez.
Há dias em que não nos cansam os grandes problemas.
Cansam-nos os pequenos.
Entramos num serviço para resolver uma questão simples e saímos com um papel na mão, três números de telefone, quatro balcões visitados e a sensação de que ninguém decidiu coisa nenhuma.
"Isso não é comigo."
"Tem de falar com outro departamento."
"Eu só faço esta parte."
"Tem de voltar amanhã."
E aquilo que levaria dois minutos transforma-se numa viagem sem fim entre procedimentos, autorizações, plataformas, carimbos e pessoas que parecem ter perdido a liberdade de pensar.
O mais curioso é que, muitas vezes, ninguém fez nada de errado. Cada um cumpriu o regulamento. Cada um seguiu o protocolo. Cada um respeitou a hierarquia.
Só que, no meio de tanta regra, perdeu-se aquilo que nunca devia desaparecer:
o bom senso.
As organizações existem para servir pessoas,
não para obrigar as pessoas a servir a organização.
Quando a burocracia se torna mais importante do que a solução, quando o procedimento vale mais do que a pessoa e quando o medo de decidir pesa mais do que a vontade de ajudar, alguma coisa deixou de funcionar.
Talvez precisemos de menos formulários e mais humanidade.
Menos departamentos e mais responsabilidade.
Menos "isso não é comigo" e mais "deixe-me ver como posso ajudar".
E sim… felizmente, em Portugal isto acontece muito pouco. Afinal, quem nunca resolveu um assunto simples depois de apenas cinco senhas, três repartições e uma assinatura que afinal precisava de outra assinatura?
Uma sociedade não se mede apenas pela quantidade de regras que cria, mas pela capacidade que tem de cuidar das pessoas.
Padre João Torres
No fim, todas as empresas, instituições e serviços têm máquinas, sistemas e procedimentos… mas nenhum deles substitui aquilo que verdadeiramente faz a diferença: um ser humano diante de outro ser humano, com a humildade de dizer: “Eu vou ajudar a resolver.”
Porque, quando ninguém assume a responsabilidade, até colocar sal em pipocas pode parecer uma missão impossível.
Eucaristia: é um treino para praticarmos a justiça. Jesus estava no LAGO, subiu à MONTANHA, seguia-o muita gente, estava PRÓXIMA A PÁSCOA e de repente Jesus perguntou: “onde podemos comprar pão para dar ao povo?” Jesus muda a sua agenda ao ver aquela multidão e aquele desconforto, ao ver a fome daquela gente... Não vos quero provocar, mas este relato provoca-nos: quando foi a última vez que tu mudaste a tua agenda por causa da fome, do desconforto de alguém? Este relato é um piscar de olho à Eucaristia. Não podemos passar ao lado da mudança da agenda de Jesus e da relação que Jesus estabelece entre a Eucaristia e a justiça. VAMOS À EUCARISTIA FAZER O QUÊ? Vamos para nos sentirmos bem com Deus? Vamos para esquecer a exigência de cada dia da semana? Vamos para uma relação pessoal com Deus? Nós vamos porque não desistimos de ver Deus na comunidade! De ver Deus nos laços. Quer seja por causa, quer seja por consequência a vinda de cada um à eucaristia é um treino para praticarmos a justiça. É um treino para praticarmos a justiça. Não vamos à eucaristia para nos darmos bem com Deus! Nós vamos para nos darmos bem uns com os outros! Nós vamos para arranjar forças para pedir perdão e para perdoar! Nós vamos rever os nossos preconceitos. Nós vamos reconhecer que ainda condenamos gente! Que ainda não nos diz nada o desconforto dos outros, o mesmo desconforto que fez Jesus mudar de agenda. Nós vamos à eucaristia, porque estamos em caminho e em processo e queremos dar forma ao sonho de Jesus. Que façamos da eucaristia um pretexto para mudarmos de agenda! Para sermos gente de mais justiça!
A liturgia do 18º Domingo do Tempo Comum apresenta-nos o convite que Deus nos faz para nos sentarmos à mesa que Ele próprio preparou, e onde nos oferece gratuitamente o alimento que sacia a nossa fome de vida, de felicidade, de eternidade.
Na primeira leitura, Deus convida o seu Povo a deixar a terra da escravidão e a dirigir-se ao encontro da terra da liberdade - a Jerusalém nova da justiça, do amor e da paz. Aí, Deus saciará definitivamente a fome do seu Povo e oferecer-lhe-á gratuitamente a vida em abundância, a felicidade sem fim. Para acolher os dons que Deus oferece, é preciso desinstalar-se, abandonar os esquemas de comodismo e de preguiça que impedem que no coração haja lugar para a novidade de Deus e para os desafios que ele lança. Estou disponível para deixar cair os meus preconceitos, seguranças, esquemas organizados, egoísmos, e para me deixar questionar por Deus e pelas suas propostas? O Evangelho apresenta-nos Jesus, o novo Moisés, cuja missão é realizar a libertação do seu Povo. No contexto de uma refeição, Jesus mostra aos seus discípulos que é preciso acolher o pão que Deus oferece e reparti-lo com todos os homens. É dessa forma que os membros da comunidade do Reino fugirão da escravidão do egoísmo e alcançarão a liberdade do amor. É preciso criarmos a consciência de que os bens criados por Deus pertencem a todos os homens e não a um grupo restrito de privilegiados. O Vaticano II afirma: "Deus destinou a terra com tudo o que ela contém para uso de todos os povos; de modo que os bens criados devem chegar equitativamente às mãos de todos (...). Sejam quais forem as formas de propriedade, conforme as legítimas instituições dos povos e segundo as diferentes e mutáveis circunstâncias, deve-se sempre atender a este destino universal dos bens. Por esta razão, quem usa desses bens temporais, não deve considerar as coisas exteriores que legitimamente possui só como próprias, mas também como comuns, no sentido de que possam beneficiar não só a si, mas também os outros. De resto, todos têm o direito de ter uma parte de bens suficientes para si e suas famílias" (Gaudium et Spes, 69). Como me situo face aos bens? Vejo os bens que Deus me concedeu como "meus, muito meus e só meus", ou como dons que Deus depositou nas minhas mãos para eu administrar e partilhar, mas que pertencem a todos os homens?
A segunda leitura é um hino ao amor de Deus pelos homens. É esse amor - do qual nenhum poder hostil nos pode afastar - que explica porque é que Deus enviou ao mundo o seu próprio Filho, a fim de nos convidar para o banquete da vida eterna. Esse amor veio ao nosso encontro em Jesus Cristo, atingiu a nossa existência e transformou-a, capacitando-nos para caminharmos ao encontro da vida eterna. Ora, antes de mais, é esta descoberta que Paulo nos convida a fazer... Nos momentos de crise, de desilusão, de perseguição, de orfandade, quando parece que o mundo está todo contra nós e que não entende a nossa luta e o nosso compromisso, a Palavra de Deus grita: "não tenhais medo; Deus ama-vos". Descobrir esse amor dá-nos a coragem necessária para enfrentar a vida com serenidade, com tranquilidade e com o coração cheio de paz. O crente é aquele homem ou mulher que não tem medo de nada porque está consciente de que Deus o ama e que lhe oferece, aconteça o que acontecer, a vida em plenitude. Pode, portanto, entregar a sua vida como dom, correr riscos na luta pela paz e pela justiça, enfrentar os poderes da opressão e da morte, porque confia no Deus que o ama e que o salva.
Com certeza já estiveste numa conversa em que simplesmente ”desligaste” e deixaste de estar presente, porquê? O que te fez não querer ouvir?
Mas também tenho a mesma certeza de que já tiveste conversas para as quais desejas-te não terem fim de tão boas que são. Certo?
O que será que as distingue? São as pessoas, os temas, o sítio?
É difícil atribuir responsabilidades mas reconheço que não é fácil teres uma conversa em que te sintas escutada tanto como ouvida. Não me refiro a uma moeda de troca mas da reciprocidade da conversa.
Por vezes, até gostamos muito de um amigo, mas ele não tem a capacidade de desenvolver uma conversa com profundidade e ficamos ali a discutir o mais trivial que existe.
Outros são de tal ordem egoístas que nunca nos perguntas se estamos bem, mas afirmam e constatam que “estamos bem”. Raras são as conversas em que se perguntam o que se pensa, o que se sente sobre um assunto sem que degenere na discórdia ou na desvalorização do que pensas por força de um rótulo qualquer.
Gosto de falar com pessoas que me perguntam sobre as minhas coisas, os meus pensamentos, os meus projetos. Pessoas que se preocupam em sair do óbvio e do supérfluo para esventrar aquilo que às vezes precisa de ser falado e oficializado.
Recentemente tive um jantar com uns amigos que têm esse dom! O dom de nos porem tão à vontade que falamos das nossas coisas sem filtros e ao mesmo tempo sem domínio absoluto. Falamos do que sentimos e sim, sentimento puxa sentimento com mais facilidade do que imaginamos e quando te aperceberes é um pedacinho da alma que curaste.
Podemos todos treinar melhor essa capacidade de falar e de ouvir mas essencialmente de nos conhecermos mais e melhor. Como? Podemos começar por fazer mais perguntas em vez de afirmações.
E tu, amiga com quem são as conversas que curam a tua alma?