quinta-feira, 26 de fevereiro de 2026

No meio de mim, estás tu





Dentro do meu coração, estás tu. Acredito que, dentro do teu coração, esteja eu. Em cada um de nós está também Deus, porque nos ama. E, do mesmo modo, nós estamos no coração de Deus.

O pedaço de Deus que está em mim também vai quando me dou a alguém. Dou o que sou, o que tenho e o que há de mais profundo em mim.

Se sou amado por alguém, essa pessoa dá-se a mim, e eu fico com um pedaço do seu coração no meu. Depois, quando amo alguém, entrego-lhe um pedaço do meu coração, com tudo o que nele habita.

O meu pai amou-me, deu-se muito a mim, tanto que eu também sou ele, muito. Quando amo alguém, é também o meu pai que ama, porque, apesar de já não estar neste mundo, vive, bem vivo, dentro de mim e vai também quando entrego o meu coração.

Morrer é levar um pouco de todos os que nos amaram, mas também é continuar a viver naqueles que guardam em si o que lhes demos de nós.

Importa amar e abrir o nosso coração ao amor do outro. O preço é alto: temos de sofrer, porque nem sempre seremos bem recebidos e nem todos aqueles a quem abrimos o coração nos querem fazer bem.

A verdade é que também nós, muitas vezes, por razões e emoções confusas, não aceitamos o amor de todos, nem a todos queremos dar o melhor de nós.

Só com amor se perdoa. Perdoar é uma das formas mais sublimes de amar. No mais profundo de mim estão os perdões. Os teus e os de quem, como tu, me amou a esse ponto!


José Luís Nunes Martins


quarta-feira, 25 de fevereiro de 2026

Gestos que salvam




Há gestos que não pesam, que não fazem barulho ou fogo-de-artifício, mas que ficam. Tatuam-se em nós. E têm o dom de nos salvar.

Como se fossem o pulsar secreto que mantém o nosso mundo em pé.

Um abraço que chega como refúgio e que demora o tempo certo para o nosso coração serenar.

Uma mão que se dá como quem dá o coração: com a certeza de que, aconteça o que acontecer, vai estar sempre perto de nós.

Um olhar que nos encontra e que vê tudo o que somos, mesmo quando nós nos perdemos.

Um sorriso tão breve e tão capaz de nos arrebatar para sempre.

Uma palavra que nos conforta e um silêncio que abraça (e que escuta) o nosso coração.

Um “como estás?” que se importa e que quer escutar, de verdade, a nossa resposta.

Uma mensagem só para nos mostrar que se lembra de nós, só para nos fazer sorrir.

Uma companhia que parece que nos segura a alma, que faz tudo melhorar, só porque está ali.

Alguém que nos quer bem e que nos faz sempre sentir isso, mesmo sem ser preciso dizer.

Um pequeno gesto de bondade que ilumina o nosso dia inteiro e que nos inunda o coração de esperança.

É aí. É aí que se escondem as coisas mais bonitas, é aí que acontecem os maiores milagres. É aí que o nosso coração é tocado para sempre. Nesses pequenos gestos que são só o amor a abraçar-nos. E que têm sempre o dom de nos salvar.

Como se fossem o pulsar secreto que mantém o nosso mundo em pé.

É isso, o amor.

Esse sopro invisível que passa e que nos envolve como o abraço que precisamos, o colo que nos falta, o refúgio que procuramos. E que tem sempre o dom de nos salvar.

Como se fosse o pulsar secreto que mantém o nosso mundo em pé.

E é.


Daniela Barreira


terça-feira, 24 de fevereiro de 2026

Escolhe a Vida. Escolhe Amar Mais.





“O que é bom… ou é pecado ou engorda.”
Muita gente pensa o mesmo da fé. Que ser cristão é viver limitado.
Que Deus proíbe o que dá prazer. Que a religião é uma lista de “nãos”.
Mas deixa-me dizer-te uma coisa: isso não é cristianismo.
Deus não impõe. Deus propõe.
“Se quiseres, guardarás os mandamentos.” Se quiseres.
Diante de ti estão a vida e a morte. E Deus respeita-te tanto
que te deixa escolher.
Os mandamentos não são uma prisão.
São proteção. São mapa. São caminho para uma vida maior.
Jesus vai mais fundo. Ele não quer o mínimo.
Ele quer o máximo do amor. “Não matarás.”
E tu pensas: “Eu nunca matei ninguém.”
Mas já feriste alguém com palavras? Já destruíste alguém com desprezo?
Já espalhaste um boato? Já insultaste no silêncio do coração?
Pode-se matar sem tocar. Pode-se matar com a língua.
Com a indiferença. Com a humilhação.
Depois, Jesus fala do adultério. E vai à raiz: ao olhar. À intenção.
Ao coração. O outro não é objeto. Não é consumo. Não é posse.
É pessoa. É mistério. É dom.
Se não cuidas do teu olhar, o teu coração adoece.
E o que entra no coração acaba por moldar a tua vida.
E depois: “Sim, sim. Não, não.” Sem “nim”.
Sem duplicidade. Sem meias-verdades. Num mundo cheio de aparências,
Jesus chama-te à autenticidade. Não à perfeição. Mas à verdade.
Escolhe o que te faz crescer. Escolhe o que constrói. Escolhe o que dá vida.
E vais descobrir uma coisa surpreendente: O que é verdadeiramente bom
não é pecado nem engorda — dá vida.

Padre João Torres

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2026

Quando largo, descubro quem sou!



Não sou os nomes que me deram,
os cargos que ocupo,
as histórias que aprendi a contar sobre mim...
Sou um silêncio vivo.
Uma presença suave.
Algo que respira antes das palavras.

Não sou as opiniões.
Não sou as crenças herdadas, nem os medos aprendidos.

Sou o espaço onde tudo acontece.
Sou o olhar por trás dos olhos.
Sou o sentir antes do pensamento.
Sou o intervalo entre uma respiração e outra.

Quando deixo cair as máscaras,
descubro que não preciso provar nada.Não preciso chegar a lugar algum. Já estou.

Há em mim uma quietude antiga,
uma inteligência silenciosa,
que sabe que o coração bate sem pedir permissão à mente.

A minha alma não grita.
Ela sussurra.
Ela vive nos momentos simples e sei que volto para mim, não quando adiciono, mas quando retiro.

Retiro camadas.
Retiro expectativas.
Retiro identidades.
Até restar apenas presença.

E nessa presença,
descubro que nunca estive perdida;
apenas distraída do essencial.

A vida insiste em mostrar-me a beleza de toda a aprendizagem. Descubro uma presença maior que me acompanha: entrego, confio e deixo que o divino permaneça em mim.

Boa semana!


Carla Correia

domingo, 22 de fevereiro de 2026

QUARESMA: Tempo de conversão e de renovação

 

https://www.youtube.com/watch?v=QOjhyHXGVS4



No início do caminho quaresmal, a liturgia convida-nos a repensar as nossas certezas, as nossas opções, os nossos valores. Tempo de conversão e de renovação, a Quaresma é o momento favorável para nos reaproximarmos de Deus. É em Deus – e não noutras propostas, por mais encantadoras que sejam – que está a fonte da vida verdadeira.

Na primeira leitura a catequese de Israel esboça, em grandes linhas, o projeto de Deus para o mundo e para os homens. Deus criou-nos para a felicidade e mostrou-nos como viver para alcançar a vida verdadeira. Contudo, enquanto seres livres, temos de ser nós a fazer a nossa opção fundamental. Se decidirmos abraçar as indicações de Deus, conheceremos uma felicidade sem limites e uma plena realização; mas, se optarmos por dar ouvidos à tentação do egoísmo, da autossuficiência, da prepotência, da ganância, viveremos rodeados de coisas efémeras, vazias, que nunca saciarão plenamente a nossa sede de felicidade.De onde vimos? Para onde vamos? Porque é que estamos aqui? Qual o sentido da nossa vida? São perguntas eternas, que os homens e mulheres de todos os tempos constantemente colocam. A Palavra de Deus que hoje nos é oferecida responde: é Deus a nossa origem e o nosso destino último. Não somos um minúsculo e insignificante grão de areia à deriva numa galáxia qualquer; mas somos seres cuja existência Deus planeou, que Ele modelou com amor, a quem Ele animou com o seu próprio “sopro” de vida, a quem Ele ofereceu um destino de eternidade. O fim último da nossa existência não é o fracasso, o mergulho na absoluta escuridão, a dissolução no nada; mas é a vida definitiva, a felicidade sem fim, o encontro com Deus. É esse horizonte de vida eterna e de comunhão plena com Deus que temos diante dos olhos enquanto peregrinamos na terra? Que marca é que isso deixa na forma como vivemos o nosso dia a dia?

Na segunda leitura
, o apóstolo Paulo coloca diante de nós dois exemplos, dois modelos de vida, dois homens: Adão e Jesus. Adão representa o homem que optou por ignorar as propostas de Deus e decidir, por ele próprio os caminhos que deveria percorrer para se realizar plenamente; Jesus é o homem que decidiu escutar as indicações de Deus, obedecer aos projetos de Deus, percorrer o caminho que Deus Lhe indicava, mesmo se esse caminho tivesse de passar pela cruz. A desobediência de Adão trouxe ao mundo egoísmo, sofrimento e morte; a obediência de Jesus tornou-se, para o mundo e para todos os homens, uma fonte inesgotável e amor, de graça e de vida.Deus respeita a nossa liberdade. Aceita que construamos as nossas vidas sem atendermos às suas indicações, suporta até as nossas escolhas erradas. No entanto, nunca desiste de nós. Decidido a dar-nos todas as oportunidades, insiste uma e outra e outra vez… na esperança de que reconsideremos as nossas opções e escolhamos caminhos que conduzem à vida verdadeira. Numa decisão que mostra bem a profundidade do amor que nos tem, enviou-nos o seu Filho, Jesus. Jesus obedeceu ao Pai e veio ao nosso encontro, fez-se um de nós, partilhou a estrada em que andamos, lutou contra tudo o que nos faz mal, aceitou morrer para nos mostrar o caminho que conduz à vida. Considerando tudo isto, seremos capazes de continuar a preferir caminhos de orgulho e de autossuficiência, à margem de Deus? Que valor assumem, na construção da nossa vida, as propostas que Jesus nos veio trazer?

No Evangelho, o Evangelista Mateus propõe-nos uma catequese sobre as opções de Jesus. Ele recusou sempre as propostas e os valores que punham em causa o projeto de Deus para o mundo e para os homens. Para Jesus, os valores de Deus tiveram sempre primazia sobre os bens materiais, a embriaguez oferecida pelo êxito fácil, a sede de poder. Aos seus discípulos Jesus pede que sigam um caminho semelhante. Começamos, nestes dias, a percorrer um caminho, o caminho quaresmal. É o caminho que nos conduz à Páscoa, à ressurreição, à vida nova. Ao longo desse caminho seremos convidados a analisar, com lucidez e sentido de responsabilidade, as nossas opções, as nossas prioridades, os nossos valores, o sentido da nossa vida… Este tempo poderá ser um tempo de conversão, de realinhamento, de renovação, de mudança; poderá ser a oportunidade para nos reaproximarmos de Deus e das propostas que Ele nos faz. A Palavra de Deus que escutaremos cada domingo ajudar-nos-á a perceber o sem sentido de algumas das nossas escolhas e a detetar alguns dos equívocos em que navegamos. Aceitamos o desafio de percorrer este caminho? O Evangelho deste domingo refere algumas das “tentações” que Jesus teve de enfrentar e vencer. Estamos dispostos, da nossa parte, a identificar as “tentações” que nos escravizam e nos impedem de viver uma vida mais digna, mais humana, mais repleta de sentido e de esperança? Quais são as “tentações” que, com mais frequência, nos afastam do estilo de vida e do projeto de Jesus?


https://www.dehonianos.org/

sábado, 21 de fevereiro de 2026

Festival Terras sem Sombra- Arronches


 

Entre a esperança e o desespero.



A palavra central destes tempos é a Esperança como atitude que qualquer cristão deve cultivar, a par da virtude da fé e da caridade. Mas o que é isto de ter Esperança????

Esta esperança cristã “que não nos engana” põe-nos à prova muitas vezes quebrando a nossa confiança e levando-nos, algumas vezes, muito perto do desespero.

Vou ser muito franca, é muito difícil dar razões para a Esperança quando tu estás numa situação difícil. Quando tens um problema que não consegues resolver, uma doença, instabilidade económica ou qualquer outra coisa que te perdura no tempo e que demora a resolver, diz-me: como mantemos acesa a luz da Esperança?

Quando rezamos, pedimos, falamos e tentamos manter a dignidade de sermos a nossa melhor versão de nós mesmos e mesmo assim sentimos que nunca é a nossa vez de termos o sucesso e a tranquilidade que tanto gostaríamos, diz-me: como mantemos a luz da Esperança?

Não falo em situações esporádicas, nem de fácil resolução, mas de processos que duram mais tempo do que o que gostaríamos e nos testa a virtude da esperança. Rezamos, confiamos e esperamos que algo mude e se transforme, mas parece difícil! Começa a surgir a nuvem do desânimo e perguntamos: Senhor, então e eu?

É que a Esperança deve implicar a concretização. Quando Esperas, sabes o que esperas, desejas o que esperas e sabes que a Espera acaba com o cumprimento do propósito que te fez esperar. Certo? Mesmo que o resultado final não seja o esperado, precisamos de fechar esse ciclo e criar novos projetos, começar outra Espera.

Precisamos de sentir entusiasmo e alegria, mas às vezes a nossa Esperança esvai-se pois cansamo-nos de acreditar no bom senso, nos amigos que parecem desistir de nós e até em nós mesmos. A linha torna-se muito ténue e sentes-te defraudada…mas sabes amiga, a tua espera pode nem ter valido a pena, mas a Esperança Cristã, essa vale! No entanto, acredito que a Esperança tem de se materializar em atos de amor concretos sob pena de ser apenas mais uma palavra “que leva o vento” e de parecermos vendedores a algo em que não acreditamos. Haja sinais concretos de Esperança.


E tu, amiga, como vais materializar a Esperança nos outros?


Raquel Rodrigues