Os chefes das Igrejas Orientais, os presidentes de todas as Conferências Episcopais, alguns casais e diversos especialistas foram convocados pelo Papa Leão XIV para, de 7 a 10 de outubro, celebrarem o décimo aniversário da Exortação Apostólica Amoris Laetitia.
No quarto dia desse encontro, debruçaram-se, sobretudo, sobre a necessidade de “escutar atentamente a experiência dos jovens casais: como contam aquilo que estão a aprender juntos ou aquilo que os impede de aprender e crescer; os recursos que descobrem no sacramento do matrimónio; o que esperam das comunidades cristãs e como compreendem a própria responsabilidade missionária.” Acentuou-se a importância da pastoral da continuidade para que o sacramento não seja apenas celebrado mas também vivido e cultivado ao longo da vida. Casar-se significa doar-se reciprocamente, construir um projeto comum, aprender a amar-se no concreto da vida, com suas alegrias e dificuldades. Mais do que uma preparação concentrada sobretudo na celebração das núpcias, importa uma pastoral que ajude os esposos, antes, durante e depois do matrimónio. Os primeiros anos, o nascimento dos filhos, as responsabilidades profissionais, as dificuldades económicas, a doença e as mudanças pessoais exigem capacidade de diálogo, paciência, perdão e uma renovada vontade de permanecer unidos. O casal precisa de “oferecer a si mesmo um tempo de qualidade para conversar, revisitar a própria história, reconhecer pontos fortes e fragilidades, rezar e discernir”.
Construir um “nós”, sem anular a identidade do “eu” e do “tu”, não nasce automaticamente “do facto de duas pessoas se amarem, nem é a soma de dois indivíduos, nem uma fusão, mas o encontro de duas culturas familiares que dão origem a uma terceira, nova e irrepetível”. Isso exige tempo de qualidade, escuta recíproca, partilha da fé e capacidade de enfrentar os conflitos sem permitir que enfraqueçam o vínculo, mas transformem a sua união num testemunho concreto de fidelidade, perdão e esperança. O matrimónio cristão “não é apenas uma história de duas pessoas; é também uma vocação eclesial, chamada a crescer e a desenvolver-se dentro de uma comunidade”. São “duas liberdades que, sustentadas pela fidelidade de Jesus Cristo, fazem do acolhimento recíproco o sinal visível de um Amor maior”. Como sabemos, “a unidade não exige a supressão da diferença; pertencer não significa possuir; cuidar não significa dominar; e a fidelidade permite atravessar as transformações sem abandonar a aliança.”
O matrimónio entre batizados não é apenas um contrato entre um homem e uma mulher. É uma realidade que não pertence, apenas, ao plano natural, mas adquire uma nova dimensão, a dimensão da graça, a ser assumida pelo homem novo à imagem de Jesus Cristo. É uma aliança sagrada, é um sacramento, onde Jesus Cristo é o centro, a base e o elo de ligação do casal. É ele que lhe dá sentido e concede a graça indispensável para serem vividos em conformidade com a sua vontade. Isto significa que é um sinal visível e eficaz da graça invisível de Deus. Cristo não é uma mera testemunha do casamento. Ele passa a habitar na união do casal. O casal não conta apenas com o amor humano, mas com a graça divina para superar os desafios, perdoar e manter-se fiel. A Sagrada Escritura compara a união entre marido e mulher à união entre Cristo e a Igreja. O amor do casal deve espelhar o amor de Jesus: um amor que é total, fiel, indissolúvel e fecundo, um amor disposto a dar a vida um pelo outro. Cristo torna-se o modelo de entrega e paciência para o marido e para a esposa. Essa realidade tripla não rebenta facilmente, pois a união do casal não confia apenas na força humana de ambos. Com Cristo, a união ganha uma força divina, tornando o matrimónio muito mais resistente às crises e ao desgaste do tempo. Ajuda-os a caminhar como discípulos de Cristo, avançando sempre mais na própria perfeição e na mútua santificação.
Como é agradável ver os casais envolvidos nas comunidades e a participarem, juntos, e com os filhos, na liturgia, sobretudo na santa Missa. Reunir em comunidade, ouvir a Palavra, participar e trocar entre si aquele ósculo da paz que a liturgia convida a fazer, quão benéfico é para lembrar o amor de Cristo pela sua Igreja, aprendendo a ir em frente com alegria e esperança, testemunhando um ao outro e aos filhos a fé que os anima, aperfeiçoando-se, dando firmeza à sua unidade indissolúvel, perdoando, desculpando, ultrapassando obstáculos, acolhendo e integrando as diferenças que sempre enriquecem.
‘Uma corda tripla não rebenta facilmente’! Esta certeza deve ser a dos esposos. Mesmo que a sua formação teime em dizer-lhes que sim, os esposos nunca estão sozinhos no combate contra momentos adversos ou contra a tentação de seguranças ilusórias. Se esticarem os olhos e olharem bem, com eles está e atua Jesus como outrora nas bodas de Caná, proporcionando-lhes que a festa das bodas continue na alegria e entusiasmo da primeira hora.
D. Antonino Dias
Caminha, 16-10-2026




