domingo, 26 de julho de 2026

Deus habita em nós

 

https://www.youtube.com/watch?v=JcKfjlVOBAg&list=PLAqKRngqwuSfPdOPEvu7KzjdvMvB1w33f&index=156

A liturgia deste domingo convida-nos a reflectir nas nossas prioridades, nos valores sobre os quais fundamentamos a nossa existência. Sugere, especialmente, que o cristão deve construir a sua vida sobre os valores propostos por Jesus.

A primeira leitura apresenta-nos o exemplo de Salomão, rei de Israel. Ele é o protótipo do homem "sábio", que consegue perceber e escolher o que é importante e que não se deixa seduzir e alienar por valores efémeros.
Algumas pessoas e grupos com um peso significativo na opinião pública procuram vender a ideia de que a realização plena do indivíduo está num conjunto de valores que decidem quem pertence à elite dos vencedores, dos que estão na moda, dos que têm êxito... Em muitos casos, esses valores propostos são realidades efémeras, materiais, secundárias, relativas. Quase sempre, por detrás da proposição de certos valores, estão interesses particulares e egoístas, a tentativa de vender determinada ideologia ou a preocupação em tornar o mercado dependente dos produtos comerciais de determinada marca... O "sábio", contudo, é aquele que está consciente destes mecanismos, que sabe ver com olhar crítico os valores que a moda propõe, que sabe discernir o verdadeiro do falso, que distingue o que apenas tem um brilho doirado daquilo que, na essência, é um tesouro que importa conservar. O "sábio" é aquele que consegue perceber o que efectivamente o realiza e lhe permite levar a cabo, dentro da comunidade, a missão que lhe foi confiada. Como é que eu me situo face a isto? O que me seduz e que eu abraço é o imediato, o brilhante, o sedutor, ainda que efémero, ou é o que é exigente e radical mas que me permite conquistar uma felicidade duradoura e concretizar o meu papel no mundo, na empresa, na família ou na minha comunidade cristã?

No Evangelho, recorrendo à linguagem das parábolas, Jesus recomenda aos seus seguidores que façam do Reino de Deus a sua prioridade fundamental. Todos os outros valores e interesses devem passar para segundo plano, face a esse "tesouro" supremo que é o Reino.
Porque é que os cristãos apresentam, tantas vezes, um ar amargurado, sofredor, desolado? Quando a tristeza nos tolda a vista e nos impede de sorrir, quando apresentamos semblantes carrancudos e preocupados, quando deixamos transparecer em gestos e em palavras a agitação e o desassossego, quando olhamos para o mundo com os óculos do pessimismo e do desespero, quando só nos deixamos impressionar pelo mal que acontece à nossa volta, já teremos descoberto esse valor fundamental - o Reino - que é paz, esperança, serenidade, alegria, harmonia?
Mais uma vez o Evangelho convida-nos a admirar (e a absorver) os métodos de Deus, que não tem pressa nenhuma em condenar e destruir, mas dá tempo ao homem - todo o tempo do mundo - para amadurecer as suas opções e fazer as suas opções. Sabemos respeitar, com esta tolerância e liberdade, o ritmo de crescimento e de amadurecimento dos irmãos que nos rodeiam?

A segunda leitura convida-nos a seguir o caminho e a proposta de Jesus. Esse é o valor mais alto, que deve sobrepor-se a todos os outros valores e propostas.
Diante da oferta de Deus, somos livres de fazer as nossas opções - opções que Deus respeita de forma absoluta. No entanto, a vida plena está no acolhimento desse "valor mais alto" que é o seguimento de Jesus e a identificação com Ele. É esse o "valor mais alto", o "tesouro" pelo qual eu optei de forma decidida no dia do meu baptismo? Tenho sido, na caminhada da vida, coerente com essa escolha?

https://www.dehonianos.org/

sábado, 25 de julho de 2026

É tão bom que existas!

 




Talvez todos sejamos mais frágeis do que parecemos. Precisamos uns dos outros, e quando nos ajudamos, as nossas fraquezas e cansaços quase perdem importância.

Todos falhamos. É também por isso que precisamos sempre de muito mais amor do que aquele que merecemos. Nessa medida, só o excesso do amor consegue elevar a nossa pequenez. O perdão é um dos dons mais sublimes do amor, talvez o maior, porque aceita o outro como ele é, apesar de todas as suas imperfeições.

A existência de quem nos ama dá sentido à nossa vida. A verdade é que com o amor podemos levantar o outro do chão e fazê-lo chegar às nuvens, não porque o mereça nem porque dele precise, mas porque decidimos amá-lo.

Há quem julgue que só deve amar quem o ama. Ora, isso nunca é amor, porque o amor é generoso e desinteressado, avesso a qualquer tipo de comércio ou troca. Quando o amor não é gratuito, não é amor.

É certo que todos precisamos de ser amados. Ser humano é ser carente, é como que viver todos os dias uma solidão desconfortável, ansiando por um abraço e um olhar carinhoso.

Nenhuma vida existe para si mesma, por mais que os egoístas estejam convencidos do contrário. A necessidade aumenta quando é escondida ou disfarçada por quem a tem. O egoísmo é muitas vezes uma tentativa de negar essa dependência dos outros, mas não resulta. Não há egoístas felizes. Nem um. Parecem, mas ninguém – nem eles mesmos – acredita que o sejam.

Obrigado por existires, por te dares a mim, mais do que mereço, e assim me ajudares a ser feliz.

Obrigado por existires, por me aceitares assim, apesar de mereceres mais do que aquilo de que sou capaz, e assim me ajudares a ser feliz.

É tão bom que existas!


José Luís Nunes Martins

sexta-feira, 24 de julho de 2026

Entre o nada e o Pai Nosso





O Xico não era homem de rezas,
nem de santos, nem de igrejas.
Mas era um homem de respeito,
daqueles que não julgam,
que olham de frente,
e que escutam em silêncio o que não entendem.

Quando soube que eu estava a preparar um Retiro para os doentes,
em Fátima, terra de fé e de promessas,
veio ter comigo, com o seu jeito directo, e disse-me:
“Também quero ir.”

Olhei-o com surpresa (sim, é verdade),
mas sem desconfiança.
Expliquei-lhe:
“Um Retiro não é um passeio, Xico.
Lá, há silêncio.
Há oração.
Há tempo para mergulhar para dentro.”

Ele não hesitou:
“Eu não rezo,
mas sei estar calado.”

E foi.
Com os outros,
com a alma na rectaguarda
mas com o coração curioso.

Lá, não dobrava os joelhos,
mas detinha-se nos tempos longos de silêncio.
Enquanto outros falavam com Deus,
o Xico apenas… escutava.

Voltou o mesmo (ou talvez não... Não sei).
Continuava sem rezas,
mas trazia nos olhos um respeito mais sereno,
como quem sabe que há mistérios que não se entendem,
mas que merecem ser acolhidos.

O tempo passou,
como sempre passa,
e um dia chegou-lhe o cancro.
Veio sem convite,
bateu forte e ficou.

Estive com ele ao longo dos dias que escureciam.
Falávamos pouco,
mas bastava.
Havia um modo novo de estar ali,
sem fé declarada,
mas com uma confiança muda,
como se me dissesse:
“Continua aí.
Isso basta.”

Depois veio a morte.
Silenciosa, como a oração que nunca fez.

Fui ao funeral.
Sem cruz,
sem salmos,
sem incenso.

Mas na sala mortuária,
a mãe do Xico,
com os olhos marejados e ternos,
entregou-me um envelope.
“É para si,” disse-me.
“Ele deixou comigo,
e disse que só lho entregasse quando partisse.”

Abri-o.
Lá dentro,
uma carta breve.
Apenas uma linha:

“No dia em que eu morrer, quero que o Fernando reze por mim, e comigo, um Pai Nosso.”

E naquele instante,
no meio do silêncio dos que ficam,
as palavras mais antigas ergueram-se devagar.

Pai Nosso, que estais no Céu…

E ali, naquele espaço sem rituais,
o invisível tocou o visível.
A oração não foi de conversão,
foi de comunhão.
Foi de ternura.
Foi de confiança.

O Xico não partiu crente,
mas partiu de mãos dadas
com a Esperança.

Porque há caminhos
que não passam pelas palavras,
mas chegam ao coração de Deus
pelo silêncio de um homem
que apenas quis ser lembrado
com dignidade,
e com um Pai Nosso
dito devagar.

Amém.


 Fernando d'oliveira

quinta-feira, 23 de julho de 2026

Estar presente nas férias!

 



Às vezes é difícil estarmos, realmente, presentes e a experienciar o momento que estamos a viver.

Muitas vezes, vivemos em modo de sobrevivência. Ou em estado de alerta constante, em estado de Hiper vigilância e em modo de permanente antecipação de todos os problemas e cenários caóticos que poderão, um dia, vir a existir. Enquanto assim é, não estamos realmente presentes no momento e no dia que estamos a viver. Vamos navegando numa prisão mental que nos impede, tantas vezes, de ver a realidade tal como ela é.

Como nos habituamos a viver presos ao passado ou em antecipação do futuro, desaprendemos a arte de aproveitar o dia-a-dia. E quando assim é, nem quando vamos de férias conseguimos realmente disfrutar e aproveitar. Podemos estar num cenário idílico e com uma excelente companhia e conseguir, ainda assim, deixar que a nossa mente nos leve para longe do cenário quase perfeito que nos rodeia.

Assim, trazemos um desafio forte para estas próximas férias: vivê-las! Parece simples, não é? Mas a mim parece-me bastante mais complexo do que poderíamos julgar à primeira vista. Senão vejamos: quando estamos de férias, estamos mais relaxados; mas também temos mais tempo para pensar e para divagar, uma vez que a mente está menos ocupada em produzir, chegar a horas ao trabalho, fintar o trânsito, corresponder aos desafios físicos (e de calendário) diários.

Vamos de férias, mas parece que os problemas que a nossa cabeça cria (ou tinha adiado) voltam para nos perturbar.

Fica a proposta para este tempo de maior acalmia que estamos prestes a viver.

Focar a nossa atenção no que podemos controlar. Na forma como queremos reagir e receber o que nos vai acontecendo. Pensar que só podemos, realmente, viver o dia de hoje porque não temos (mesmo) mais nenhum. E isto pode ser complicado, mas há pequenas estratégias que podem resultar: ocupar o tempo com atividades e pessoas de que(m) realmente gostamos. Não nos forçarmos a fazer o que não nos apetece ou a partilhar tempo com pessoas que nos retirem energia.

Prescindir dos ecrãs pelo menos algumas horas por dia e substituir esse tempo estéril pela leitura de um livro (mesmo que o tempo de concentração seja curto e que só consigamos ler duas ou três páginas de cada vez). Sair da zona de conforto em doses homeopáticas: explorar um novo caminho, um novo restaurante, uma praia diferente. E o mais importante: ter tempo de qualidade sozinha. Ou sozinho.

É no silêncio do nosso coração que nascem os projetos mais bonitos e que se apaziguam as maiores tempestades. Dentro do que somos há sempre sol. Mesmo que não o consigamos sempre ver.


Marta Arrais


quarta-feira, 22 de julho de 2026

A pressa em julgar quase nunca vem de Deus



«Não julgues cada dia pela colheita que obténs,
mas pelas sementes que plantas.»
William Arthur Ward



O que levamos deste mundo não é visível, nem palpável.

O que sentimos aqui não tem preço, nem medida.

E… O que precisamos a cada dia para sermos felizes, molda as nossas atitudes.


Como reagimos perante as encruzilhadas da vida…

O que dizemos a cada momento menos bom…

O que defendemos perante as más atitudes…


Somos sementes… Frágeis e fortes… Que dão vida! Que são VIDA!

É urgente conhecer o terreno e o deserto, a terra fértil e árida…

onde fincamos as nossas raízes, os nossos pés,

as nossas ações e os nossos desejos mais remotos!


A Bondade é um fruto do Espírito Santo que devíamos cultivar no coração,

para sentirmos que crescemos tanto, ou ainda mais, que o grão de mostarda.


A Paciência, perante os que erram, também é semente fecunda,

que teimamos em matar sem dar fruto…

Somos muito rápidos a julgar aqueles audazes que espremem ao máximo o arrependimento…


Aos olhos da humanidade aquele que é bom, compassivo e misericordioso é fraco!

Sentimos que somos o trigo dourado e belo.

A paisagem serena da seara, a última bolacha do pacote…

Esquecemos que também somos joio lançado à terra de quem ama e não é amado…

Daqueles que sofrem em silêncio, à espera de um abraço amigo.


Não te sentes mais feliz quando és árvore que abriga os passarinhos?


Tudo isso define quem somos.


E também nos liberta do peso do julgamento.

Julgar ou ser julgado não é missão para os Seres criados por Deus…


Hoje, devemos pedir na nossa oração:

Senhor, faz-me ser aquela pequena porção de fermento,

capaz de levedar a massa,

capaz de fazer o Teu Reino de Misericórdia, de Paz e de Justiça Divina

crescer a cada amanhecer…


 Liliana Dinis


terça-feira, 21 de julho de 2026

As palavras nunca viajam sozinhas




As palavras nunca viajam sozinhas

Há palavras que julgamos nossas.
Saem da boca, da mão que escreve ou da voz que canta, e pensamos que nasceram naquele preciso instante. Mas não.
As palavras que pronunciamos já fizeram outras viagens. Habitaram outras vidas. Consolaram quem chorava, levantaram quem tinha desistido, feriram corações, reconciliaram famílias, ensinaram crianças, inspiraram santos e, infelizmente, também alimentaram guerras.
Cada palavra traz consigo a memória de quem a disse antes de nós.
Quando um pai diz ao filho: "Estou contigo", há nesse abraço o eco de todos os pais que um dia souberam amar.
Quando alguém murmura: "Desculpa", essa palavra transporta séculos de humanidade à procura da paz.
Quando dizemos "Amo-te", não inventamos o amor. Apenas lhe emprestamos a nossa voz.
É por isso que as palavras nunca são inocentes.
Elas carregam histórias. Constroem ou destroem pontes. Deixam marcas que permanecem muito para além do instante em que foram pronunciadas.
Todos nós conhecemos frases que nunca esquecemos. Algumas disseram-nos quem éramos quando ninguém acreditava em nós. Outras fizeram-nos duvidar do nosso próprio valor durante anos.
Uma palavra dura pode durar uma vida inteira.
Uma palavra de esperança pode salvar alguém sem que nunca o saibamos.
Talvez por isso devêssemos falar mais devagar.
Escrever com mais consciência.
Responder com menos impulsividade.
Cantar com mais verdade.
Porque aquilo que sai de nós nunca fica apenas em nós. Viaja. Encontra outros corações. Faz morada em alguém. E, muitas vezes, regressa transformado.
No Evangelho, Deus não escolheu uma espada para mudar o mundo. Escolheu uma Palavra. E continua a confiar nas nossas palavras para levar luz onde há escuridão, esperança onde há desalento e paz onde reina o conflito.
Hoje, antes de falares, pergunta-te:
A pessoa que me vai ouvir ficará mais leve ou mais pesada por causa das minhas palavras?
A resposta a essa pergunta pode mudar o dia de alguém.
E talvez mude também o teu.

segunda-feira, 20 de julho de 2026

O meu é às riscas!

 


“O meu é às riscas!”
Alguém pergunta a um grupo de crianças como seriam os seus corações, se os corações maus fossem escuros e branquinhos os corações bons, respondeu imediatamente uma pequenina: “Ah! O meu é às riscas!”
Temos muita dificuldade em aceitar uma realidade “às riscas”!
Em que o MAL e o BEM coabitam em nós e nos outros...
Jesus utiliza imagens ligadas ao CUIDADO DA TERRA e ao QUOTIDIANO para falar do cuidado entre as pessoas. O trigo e o joio não são dois tipos de pessoas, mas duas formas de conduta, que estão (sempre) presentes em cada um de nós.
O BEM E O MAL CRESCEM JUNTOS NO NOSSO CORAÇÃO.
Às vezes provocamos INJUSTIÇAS, às vezes PREJUDICAMOS alguém. Também o SENTIMOS na nossa vida, que alguém nos prejudicou, que alguém é INJUSTO, que alguém provocou o mal contra nós.
A tentação para qualquer um, é decidir por sua própria conta e risco quem é bom e quem é mau (trigo ou joio), quem deve ser acolhido e quem deve ser expulso.
O que é que Deus nos diz sobre isto? Diz-nos: “Deixai estar”.
Deus dá tempo ao tempo, OFERECE MIL OPORTUNIDADES para o joio morrer em nós e o trigo crescer para a ceifa! Pede-nos o mesmo comportamento a cada um de nós em relação aos outros...
Como todos nós somos seres limitados, o bom e o mau está em todos nós.
É por isso que querer ARRANCAR O MAL EM NÓS é correr o risco de arrancar, ao mesmo tempo, o bem que há em nós...
Se víssemos melhor as riscas que o nosso coração tem
não perderíamos tanta ENERGIA DA NOSSA VIDA em julgar e condenar os outros!

Padre João Torres