Vivemos cansados.
Cansados de más notícias.
Cansados de discussões intermináveis.
Cansados de abrir o telemóvel e sermos invadidos por desgraças, escândalos e banalidades.
Lamenta-se — e com razão — que os grandes meios de comunicação se alimentem quase só da tragédia e do ruído. Mas talvez a verdadeira revolução não esteja em queixar-nos mais.
Talvez esteja em escolher diferente.
Fazer jejum.
Jejum de imagens que nos endurecem.
Jejum de indignação permanente.
Jejum de comentários que não constroem nada.
E, no lugar disso, redescobrir o que é simples e verdadeiro.
Há vida a correr longe do barulho.
Na mãe que acorda cedo e prepara o pequeno-almoço em silêncio.
No pai que regressa cansado, mas ainda encontra forças para brincar com o filho.
Na vizinha que leva sopa ao idoso do terceiro andar.
No voluntário que visita um doente que já quase ninguém visita.
É aí que a vida vale mais.
Precisamos de um tempo de transfiguração.
Da memória — para deixar de viver apenas do que nos feriu.
Do presente — para não o desperdiçar na superficialidade.
Da profecia — para acreditar que o futuro pode ser diferente se começarmos agora.
Só há pessoas a transformar.
Não existem pessoas acabadas.
Não existem histórias fechadas.
Não existem corações definitivamente endurecidos.
O Mestre Eckhart falava de uma mística da transformação.
Não uma espiritualidade de fuga, mas de metamorfose permanente.
De deixar que a vida, com as suas alegrias e feridas, nos vá moldando por dentro.
Transfigurar não é negar a realidade.
É iluminá-la.
É olhar para o que dói e perguntar:
“Como posso tornar isto mais humano?”
Talvez o mundo não precise apenas de opiniões fortes.
Precise de pessoas transformadas.
Gente que escolha a natureza em vez do ruído.
Boa música em vez do grito.
Leitura em vez da distração vazia.
Oração em vez da ansiedade.
Partilha em vez de indiferença.
Não se muda o mundo com discursos inflamados.
Muda-se com pequenas fidelidades diárias.
Com presença.
Com cuidado.
Com gestos discretos que ninguém noticia — mas que sustentam tudo.
Há uma vida que corre silenciosa e fecunda.
É essa que mais vale.
E talvez a verdadeira transfiguração comece quando decidimos ser melhores do que o ambiente à nossa volta. Quando escolhemos transformar, em vez de apenas reagir.
O mundo precisa de pessoas luminosas.
E a luz começa sempre dentro.
Padre João Torres

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