Desde o primeiro instante de vida, a criança percebe mais do que imaginamos.
Antes de entender palavras, já entende o tom.
Antes de compreender frases, já sente o clima da casa.
Percebe o peso dos silêncios.
A temperatura das vozes.
A verdade — ou a ausência dela — nos gestos.
A infância não é apenas uma fase bonita para fotografias.
É o tempo em que a alma começa a registar como foi recebida no mundo.
Os pais são os primeiros espelhos.
É neles que o filho procura segurança, referência, sentido.
Se encontra serenidade, aprende que o mundo pode ser habitável.
Se encontra gritos, aprende que o amor pode ferir.
Se encontra indiferença, aprende a recolher-se.
Nenhum comportamento nasce do nada.
A criança observa o que se diz — mas, sobretudo, o que se vive.
Quando cresce num ambiente de tensão constante, o corpo aprende a estar em alerta.
Quando convive com o desespero, interioriza que a vida é ameaça.
Quando falta acolhimento no olhar de quem devia proteger, começa a duvidar do próprio valor.
E assim nascem medos que mais tarde chamamos ansiedade.
Silêncios que mais tarde chamamos dureza.
Carências que mais tarde chamamos frieza.
Muitos ciclos atravessam gerações.
Adultos feridos educam a partir das próprias feridas.
Repetem ausências que sofreram.
Exigem o que nunca receberam.
Educar é muito mais do que corrigir palavras.
É vigiar a própria presença.
Não basta oferecer sustento — é preciso oferecer paz.
Não basta impor limites — é preciso dar segurança.
Não basta amar — é preciso que o amor seja reconhecido como tal.
Talvez uma das maiores lições da maternidade e da paternidade seja esta: enquanto tentam formar um filho, muitos pais estão a ser convidados a reconstruir-se.
Porque a língua que o filho aprende hoje
será a língua com que ele falará ao mundo amanhã — e a língua com que falará a si mesmo para o resto da vida.
Padre João Torres
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