sexta-feira, 20 de março de 2026

UM JOVEM CRIMINOSO A CAMINHO DOS ALTARES?!...


Sim, é verdade! A sua Quaresma fê-lo entender, desejar e viver a vida nova do Mistério Pascal! Se a sua conversão comoveu multidões, não deixou de ser escândalo para uns, loucura para outros e indignação para puritanos, desconfiados, maldizentes e ciumentos sem pecado. O que interessa, porém, é que foi uma sublime e feliz surpresa de Deus para todos quantos acreditam que não há pecado, por mais grave que seja, que retraia Deus Pai, rico em Misericórdia, de vir ao encontro de qualquer filho pródigo para lhe reiterar, com um abraço e lágrimas de alegria e festa, a sua proposta de amor, de vida e liberdade, de regresso a casa, de salvação! Recordemos então Jacques Fesch, nascido de família abastada a 6 de abril de 1930, em Saint-Germain-en-Laye, França, sendo decapitado aos 27 anos de idade, depois de três anos na prisão de Santé, Paris. Está em curso o seu processo de beatificação.
Sem gosto pelos estudos, na Alemanha combateu pelo exército francês. Após o serviço militar, arranjaram-lhe emprego com alto salário, sendo demitido após três meses. Com vida mundana e fama de playboy, casou aos 21 anos, com Pierrette, filha duma vizinha, da qual nasceu a filha Verónica. Os seus pais, porém, não aceitaram bem a nora por ser filha de pai judeu, eram antissemitas. Sem que o casamento lhe alterasse os modos de vida, nasceu-lhe Gerardo, um filho bastardo que foi entregue aos cuidados de um orfanato. Desnorteado, inquieto, divorciado, pensou aliviar-se, navegando à vota do mundo. Seus pais, tendo-o como sonhador e mais o quê, não aceitaram o seu pedido de ajuda para comprar um barco e iniciar a viagem. Porque estava com ela ferrada, não desiste da ideia e tenta resolver a situação junto de um cambista famoso. Dirige-se à casa de câmbio, aponta um revolver e exige o dinheiro guardado na registadora. O cambista reage e é atingido com duas coronhadas na cabeça. Fugindo com a quantia roubada por rua movimentada, depara-se com um policia que havia sido alertado e lhe ordena que se entregue. Em vez disso, dispara sobre o polícia e mata-o. A multidão persegue furiosa o assassino, que, continuando a disparar, ainda atinge uma jovem no pescoço, mas logo se rende e é preso. Os ecos do crime soaram ao longe. O homicida não era um qualquer fulano, era o filho do diretor de um banco belga instalado em França. Sem manifestar arrependimento, limita-se a dizer, sarcasticamente, que só se arrepende “de não ter usado uma metralhadora”. Já na prisão, à espera de julgamento, disse ao Capelão: “Não tenho fé. Não se preocupe comigo”. Se o Capelão não deixou de se preocupar com ele, também o seu advogado, que era católico convicto, decide batalhar não só para lhe salvar a vida, mas, sobretudo, para lhe salvar a alma. Dizem as crónicas que, Jacques, com o passar do tempo começou a sentir uma angústia profunda. Não só pela vergonha a que sujeitou a sua família, mas também pela pena a que iria ser condenado. Pirrónico e descrente, chegou a ponderar dar cabo da própria vida. No entanto, Deus tem os seus caminhos e o caminho faz-se caminhando, mesmo que difícil e lentamente. Enquanto o seu crime corria pelas salas dos tribunais à procura de justiça, o jovem criminoso, na solidão da sua cela, lia o que lhe chegava às mãos. Embora sem formação cristã - seu pai era ateu e de vida pouco recomendável -, também o Capelão e o seu Advogado lhe facilitavam leituras espirituais. Tocado pelo que lia, ficou profundamente sensibilizado pelas pessoas de Francisco de Assis, Teresinha do Menino Jesus e Teresa de Ávila. Na noite de 28 de fevereiro de 1955, passou por uma experiência mística que o abalou seriamente. É ele que escreve: “Estava deitado, olhos abertos, realmente a sofrer pela primeira vez na vida. Repentinamente, um grito saiu de meu peito, uma súplica por ajuda – Meu Deus – e, como um vento impetuoso que passa sem que soubesse de onde vem, o Espírito do Senhor me agarrou pela garganta. Tive a impressão de um infinito poder e de uma infinita bondade que, daquele momento me fez crer com convicção que nunca estive abandonado”.
Em tempo, a um amigo seu confiou: “agora tenho verdadeiramente a certeza de começar a viver pela primeira vez. Estou em paz e dei um sentido à minha vida, enquanto antes não era mais que um morto vivo”. Isolado na sua pequena cela, comunica a sua fé em cartas que se tornaram objeto de leitura e reflexão para muitos jovens. Depois da conversão, levou uma vida ascética, afirmando que existem duas formas de viver na cadeia: a de se revoltar contra a sua própria situação, ou a de adotar um estilo de vida conventual. Após quase três anos de espera, Jacques foi levado ao julgamento definitivo onde mostrou sincero arrependimento. Não obstante a eloquência do advogado e as suas lágrimas de contrição, houve unanimidade em o condenar à morte. Agendada a data da decapitação, procurou aguardar a execução em paz e oração, tendo-a como uma forma de santificação. E se a sua última esperança fosse a absolvição, aceitou a sentença como ocasião de graça, sem odiar aqueles que o haviam condenado a tal destino. A sua conversão comoveu a sociedade. Nas vésperas da execução, escreveu: “Último dia de luta; amanhã, a esta hora, estarei no Céu! O meu advogado acaba de me dizer que a execução se realizará amanhã, lá pelas quatro horas da manhã. Que se faça a vontade do Senhor em todas as coisas! Tenho confiança no amor de Jesus (...). Devo fortalecer a vontade e, para isso, penso na procissão dos decapitados que honram a Igreja. Serei eu mais fraco do que eles? Deus me livre disso!”
Às 5H30 do dia 1 de outubro de 1957, festa de Santa Teresinha, os guardas foram buscá-lo para a morte e encontraram-no de joelhos, em oração, ao lado da cama: “Senhor, não me abandones, eu confio em Ti” – foram as suas últimas palavras. Apesar de uma vida condenável, Jacques viveu a sua Quaresma. Soube ouvir a voz de Deus e, de forma exemplar, inverter a marcha.
D. Antonino Dias
Caminha, 20-03-2026.

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