https://www.youtube.com/watch?v=EDVDx_ImrZY
Estamos no terceiro domingo da Quaresma. Não é fácil nem isento de obstáculos o caminho que, através do deserto quaresmal, nos leva em direção à vida nova. Conseguiremos superar os obstáculos deste caminho de conversão e de renovação? A Palavra de Deus que escutamos no terceiro domingo da Quaresma deixa-nos uma indicação verdadeiramente reconfortante: Deus acompanhar-nos-á em cada passo e nunca deixará de saciar a nossa sede de vida.
A primeira leitura relembra-nos um dos momentos determinantes da caminhada dos hebreus pelo deserto, após a libertação do Egito: o povo, apoquentado pela sede e afundado em dúvidas, questiona o desígnio de Deus e pergunta-se se Deus pretende salvá-lo ou perdê-lo. A esta bizarra dúvida Deus responde com um gesto extraordinário: faz brotar água de um rochedo e sacia a sede do seu povo. Não se trata de um caso isolado: o Deus salvador e libertador esteve, está e estará sempre empenhado em saciar a sede de vida do seu povo enquanto este atravessa o deserto da história. Quando saíram do Egito e deixaram para trás a escravidão, os hebreus sentiram-se profundamente reconhecidos ao Deus que os salvou. Mas a gratidão que sentiam evaporou-se quando tiveram de enfrentar as dificuldades do caminho: a fome, a sede, o calor, o cansaço, as ciladas dos inimigos, as decisões difíceis, os riscos da liberdade… Então, murmuraram contra Deus, duvidaram da sua bondade e do seu amor, acusaram-n’O até de ter posto em marcha um projeto de morte destinado a fazê-los perecer no deserto. Isto não nos soa familiar? Quando o caminho nos parece demasiado longo e solitário, quando tropeçamos nos obstáculos inevitáveis que a vida nos traz, quando experimentamos os nossos limites e fragilidades, quando nos sentimos cansados, desiludidos e perdidos, quando nos enganamos e optamos por valores errados, quando nos entrincheiramos atrás da nossa autossuficiência e nos damos mal, criticamos Deus, acusamo-l’O de nos abandonar, duvidamos do seu amor… Parecemos crianças mimadas que passam a vida a lamentar-se e a acusar Deus pelos “dói-dóis” que a vida nos faz. Já pensamos que muitas das coisas que nos fazem sofrer resultam das nossas escolhas erradas e não da ação de Deus? Já pensamos que muitas das dificuldades que temos de enfrentar talvez façam parte da pedagogia de Deus para nos fazer crescer, para nos ajudar a descobrir o sentido da vida, para nos renovar e transformar?
No Evangelho Jesus, em diálogo com uma mulher da Samaria, junto do poço de Jacob, propõe-se oferecer-lhe uma “água viva” que matará todas as sedes e que se tornará “uma nascente que jorra para a vida eterna”. A samaritana mostra-se disponível para acolher e beber a água que Jesus tem para lhe oferecer. Estaremos, também nós, dispostos a saciar a nossa sede com a água que Jesus nos quer oferecer? Aquela mulher anónima da Samaria, depois de encontrar o “salvador do mundo” que veio trazer aos homens a água que mata a sede de vida eterna, não guardou para si própria essa experiência inolvidável e não se fechou em casa a gozar a sua descoberta… Correu para a cidade e partilhou com os seus concidadãos a verdade que tinha encontrado e que tinha alterado a sua visão da vida: “Vinde ver um homem que me disse tudo o que eu fiz. Não será Ele o Messias?”. As experiências que mudam a nossa existência e que nos abrem horizontes novos, não são para ficar confinadas nos nossos mundos pessoais. Quando nos encontramos com Jesus e descobrimos, com Ele, novos horizontes e novas possibilidades, partilhamos essa descobertas com aqueles que caminham ao nosso lado pelas estradas da vida?
A segunda leitura não evoca o tema da água, como a primeira leitura e o Evangelho; mas reafirma o empenho de Deus em oferecer vida e salvação ao seu povo. Garante-nos que, sejam quais forem as nossas falhas e infidelidades, Deus “justifica-nos”. A sua misericórdia falará sempre mais alto do que o nosso pecado. Deus oferecer-nos-á sempre, de forma gratuita e incondicional, a sua salvação. Quando Deus fizer a contabilidade final dos nossos dias o que encontrará? As nossas boas obras serão em número suficiente para nos garantir a salvação? No “livro de contas” de Deus a nossa coluna dos débitos será mais extensa do que a coluna dos créditos? Deus atuará como um contabilista rigoroso que, depois de tudo somado, nos apontará, sem contemplações, aquilo que temos em falta? O apóstolo Paulo deixa-nos, na leitura de hoje, uma notícia tranquilizadora: na contabilidade final da nossa vida, a única coisa que contará será o amor de Deus. O nosso Deus é um Deus clemente e compassivo, lento para a ira e rico em misericórdia. Ele “justificar-nos-á” e emitirá sobre nós um veredicto de graça e de misericórdia, mesmo que nós não o mereçamos. A única coisa que Ele exigirá de nós é que acolhamos a sua oferta de salvação. Deus não nos condena; Deus salva-nos sempre. Basta que acolhamos o seu amor e que aceitemos o convite que Ele nos faz para integrar a sua família. Como vemos e sentimos esta “Boa Notícia”?
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