sexta-feira, 13 de março de 2026

A REALIDADE DA POBREZA E A ILUSÃO DOS NÚMEROS



A Presidente da Cáritas Portuguesa, falando sobre a pobreza em Portugal, afirmou que “Nem sempre as percentagens que os números oficiais nos apresentam correspondem à realidade”. As estatísticas oficiais são “um retrato incompleto” de tais situações. Têm por base inquéritos que “não incluem as pessoas em situação de sem-abrigo, os reclusos nas prisões, os nacionais e estrangeiros que vivem em alojamentos temporários ou as comunidades nómadas”. Outras pessoas muito vulneráveis são as de baixos níveis de escolaridade, de menor participação no mercado de trabalho, de famílias monoparentais, de pessoas com deficiência e famílias imigrantes. Há ainda aqueles pobres que permanecem invisíveis. Dada a sua proximidade às pessoas, através das dioceses, paróquias, associações de fiéis e movimentos eclesiais de ação social, a Cáritas Nacional é credível nas suas afirmações. A terceira edição do seu Relatório anual, sobre a Pobreza e a Exclusão Social, sinaliza mais de um milhão de pessoas em privação material e social, dois quais cerca de 460 mil em privação severa. Cerca de dois milhões em risco de pobreza ou exclusão social! O número dos sem-abrigo mais que duplicou desde 2019. É de prever ainda, que, às pobrezas que se procuram combater, outras vão surgindo, talvez mais subtis e perigosa.
O Governo tem um Plano de Ação Estratégia Nacional de Combate à Pobreza, 2021-2030, para mitigar tais desigualdades e reduzir o número de pessoas em situação de pobreza ou exclusão social. Este combate à pobreza, porém, é um desafio para toda a sociedade.
Na sua Exortação Apostólica ‘Dilexi Te’, sobre o cuidado da Igreja pelos pobres e com os pobres, Leão XIV escreve: “A condição dos pobres representa um grito que, na história da humanidade, interpela constantemente a nossa vida, as nossas sociedades, os sistemas políticos e económicos e, sobretudo, a Igreja. No rosto ferido dos pobres encontramos impresso o sofrimento dos inocentes e, portanto, o próprio sofrimento de Cristo. Ao mesmo tempo, deveríamos falar, e talvez de modo mais acertado, dos inúmeros rostos dos pobres e da pobreza, uma vez que se trata de um fenómeno multifacetado; na verdade, existem muitas formas de pobreza: a daqueles que não têm meios de subsistência material, a pobreza de quem é marginalizado socialmente e não possui instrumentos para dar voz à sua dignidade e capacidades, a pobreza moral e espiritual, a pobreza cultural, aquela de quem se encontra em condições de fraqueza ou fragilidade seja pessoal seja social, a pobreza de quem não tem direitos, nem lugar, nem liberdade” (DT 9).
A pobreza que mata, denunciava Francisco, “é a miséria, filha da injustiça, da exploração, da violência e da iníqua distribuição dos recursos. É a pobreza desesperada, sem futuro, porque é imposta pela cultura do descarte que não oferece perspetivas nem vias de saída. É a miséria que, enquanto constringe à condição de extrema indigência, afeta também a dimensão espiritual, que, apesar de muitas vezes ser transcurada, não é por isso que deixa de existir ou de contar. Quando a única lei passa a ser o cálculo do lucro no fim do dia, então deixa de haver qualquer freio na adoção da lógica da exploração das pessoas: os outros não passam de meios. Deixa de haver salário justo, horário justo de trabalho e criam-se novas formas de escravidão, suportada por pessoas que, sem alternativa, devem aceitar este veneno de injustiça a fim de ganhar o mínimo para comer”
No seguimento da Boa Nova de Jesus, muitas são as pessoas cuja vida permanece como estimulo e apelo às gerações futuras. Teresa de Calcutá, por exemplo, dizia: “Queremos proclamar a boa nova aos pobres, de que Deus os ama, de que nós os amamos, de que eles são alguém para nós, de que eles foram criados pela mesma mão amorosa de Deus, para amar e ser amados. Os nossos pobres são ótimas pessoas, pessoas muito amáveis, eles não necessitam da nossa pena ou compaixão, eles precisam do nosso amor compreensivo. Eles precisam do nosso respeito; eles precisam que os tratemos com dignidade”. E dela disse São João Paulo II: “Onde foi que Madre Teresa encontrou a força para se dedicar completamente ao serviço do próximo? Encontrou-a na oração e na contemplação silenciosa de Jesus Cristo, do seu Santo Rosto, do seu Sagrado Coração . Ela mesma o disse: “O fruto do silêncio é a oração; o fruto da oração é a fé; o fruto da fé é o amor; o fruto do amor é o serviço, o fruto do serviço é a paz”.

D. Antonino Dias
Caminha, 13-03-2026.

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