domingo, 31 de maio de 2026

Solenidade da Santíssima Trindade

 

https://www.youtube.com/watch?v=dZV9SHvizKM&list=PL7Zt-5fD4oJhVVxawhFCohF3X97J026TG

A Solenidade que hoje celebramos não é um convite a decifrar o mistério que se esconde por detrás de "um Deus em três pessoas"; mas é um convite a contemplar o Deus que é amor, que é família, que é comunidade e que criou os homens para os fazer comungar nesse mistério de amor.

Na primeira leitura, o Deus da comunhão e da aliança, apostado em estabelecer laços familiares com o homem, auto-apresenta-Se: Ele é clemente e compassivo, lento para a ira e rico de misericórdia.
Deus, da sua parte, faz tudo para viver em comunhão com o homem. No entanto, respeita, de forma absoluta, a liberdade do homem. Eu sou livre de aceitar, ou não, a proposta de "aliança" que Deus me faz. Como é que eu respondo ao Deus da "aliança"? Eu aceito esta vontade que Ele manifesta de viver em relação de comunhão comigo? O que é que eu faço para responder a este desafio?

Na segunda leitura, Paulo expressa - através da fórmula litúrgica "a graça do Senhor Jesus Cristo, o amor do Pai e a comunhão do Espírito Santo estejam convosco" - a realidade de um Deus que é comunhão, que é família e que pretende atrair os homens para essa dinâmica de amor.
A celebração da Solenidade da Trindade não pode ser a tentativa de compreender e decifrar essa estranha charada de "um em três". Mas deve ser, sobretudo, a contemplação de um Deus que é amor e que é, portanto, comunidade. Dizer que há três pessoas em Deus, como há três pessoas numa família - pai, mãe e filho - é afirmar três deuses e é negar a fé; inversamente, dizer que o Pai, o Filho e o Espírito são três formas diferentes de apresentar o mesmo Deus, como três fotografias do mesmo rosto, é negar a distinção das três pessoas e é, também, negar a fé. A natureza divina de um Deus amor, de um Deus família, de um Deus comunidade, expressa-se na nossa linguagem imperfeita das três pessoas. O Deus família torna-se trindade de pessoas distintas, porém unidas. Chegados aqui, temos de parar, porque a nossa linguagem finita e humana não consegue "dizer" o indizível, não consegue definir o mistério de Deus.

No Evangelho, João convida-nos a contemplar um Deus cujo amor pelos homens é tão grande, a ponto de enviar ao mundo o seu Filho único; e Jesus, o Filho, cumprindo o plano do Pai, fez da sua vida um dom total, até à morte na cruz, a fim de oferecer aos homens a vida definitiva. Nesta fantástica história de amor (que vai até ao dom da vida do Filho único e amado), plasma-se a grandeza do coração de Deus.
O amor de Deus traduz-se na oferta ao homem de vida plena e definitiva. É uma oferta gratuita, incondicional, absoluta, válida para sempre; mas Deus respeita absolutamente a nossa liberdade e aceita que recusemos a sua oferta de vida. No entanto, rejeitar a oferta de Deus e preferir o egoísmo, o orgulho, a auto-suficiência, é um caminho de infelicidade, que gera sofrimento, morte, "inferno". Quais são as manifestações desta recusa da vida plena que eu observo, na vida das pessoas, nos acontecimentos do mundo, e até na vida da Igreja?
Nós, crentes, devíamos ser as testemunhas desse Deus que é amor; e as nossas comunidades cristãs ou religiosas deviam ser a expressão viva do amor trinitário. É isso que acontece? Que contributo posso eu dar para que a minha comunidade - cristã ou religiosa - seja sinal vivo do amor de Deus no meio dos homens?

https://www.dehonianos.org/

sábado, 30 de maio de 2026

OBRIGADO, SENHORA ENFERMEIRA, BEM HAJA!...


Há doenças na sociedade que precisam de grandes cuidados profiláticos, mesmo que não estejam debaixo da alçada da OMS, da DGS e do SNS. Se, infelizmente, alguns já não têm cura e outros haja gravemente afetados, bom seria que ninguém mais se viesse a contaminar. Os medicamentos estão à mão de semear, são gratuitos, indolores e tomam-se em casa. No entanto, porque são gratuitos, há quem os rejeite, como se estivessem fora de prazo ou fossem umas mezinhas sem sentido. Preferem sofrer, sob aparências de boa saúde e desafogo. No jornal Público do passado dia 24 de maio, Carmen Garcia, que também se identifica como Enfermeira, num artigo intitulado “Isto está a fugir-nos das mãos”, fala-nos de tal andaço, pois, “tanto faz não é resposta”. Quando os do meu mister e eu falamos disso, cai o Carmo e a Trindade, não sei se os Clérigos e os Jerónimos também. Por isso, com a devida vénia, vou levar a mais alguns leitores o trabalho desta senhora Jornalista e Enfermeira. Denuncia factos empiricamente verificáveis e, acredito eu, sem ver e ouvir os peritos, acredito eu que são cientificamente consensuais entre os pedagogistas como coisas a evitar. Faço-o com gratidão e em jeito de oferta vacinatória, mesmo que vá pelejar com muitos negacionistas e interessses. Escreve ela sob o título: “Isto está a fugir-nos das mãos”:
“Hoje o meu filho Pedro faz a sua Primeira Comunhão. É um dia especial para ele e fico muito feliz por vê-lo tão empenhado e tão contente por ser, como ele diz, “amigo de Jesus”. Além disso, acho que o facto de finalmente poder comungar está a fazê-lo sentir-se crescido – ouço-o falar para o irmão, apenas um ano mais novo, e dizer coisas como “na hora de comungar tu ainda vais ter de ficar no banco com os pequenos”. Então, sim, hoje é um dia importante e espero que a celebração da eucaristia lhe fique na memória - eu ainda me lembro da minha comunhão como se fosse hoje e a verdade é que já lá vão 31 anos. Mas é “só” isso. Notem as aspas na palavra só, por favor. Que fique claro que não estou, de todo, a desvalorizar a importância deste sacramento - estou simplesmente a tentar trazê-lo para o patamar da fé que é aquele de onde nunca devia ter saído. Os espanhóis têm como expressão óptima para aquilo que quero dizer com esta crônica: “Se nos ha ido de las manos”. Que é como quem diz que estamos absolutamente descontrolados. E no que toca a este tipo de celebração confesso-vos que não fazia ideia do nível de alucinação global instalado. É claro que o exagero em que se tornaram as festas de aniversário infantis me devia ter alertado, mas como insisto em ignorar os espaços com decorações caríssimas, as mesas com mais luxo do que comida, os bolos ao preço do ouro e as actividades pensadas ao pormenor, acabei por me distrair. Mas quando esta semana me perguntaram se já tinha vestido para a missa senti que os alarmes me disparavam no cérebro. “Como assim, vestido?” – perguntei. E a pessoa lá me explicou que até há marcas com colecções próprias para mães de meninos que fazem a Primeira Comunhão. E eu fui ver. E depois vi o resto. E fiquei assustada.
A sério, quando é que passámos da missa e de um almoço em família, muitas vezes em casa, para festas que parecem autênticos casamentos? Eu que fiquei toda contente porque o Pedro e os colegas vão todos vestidos com uma alva do colégio e, assim, não tenho de gastar mais dinheiro, afinal agora tenho de ir comprar roupa para mim?
Lamento, mas não vai acontecer. Prefiro arriscar as minhas chances de ser a mais malvestida na Igreja. Tenho a certeza que Jesus não se vai importar e que, para o meu filho, almoçar com os pais, os irmãos e os avós é mais do que o suficiente.
Mas, sim, dei-me ao trabalho, depois da conversa do vestido, de ir espreitar como são agora às primeiras comunhões. E descobrir que há quem faça créditos para pagar estas celebrações, com vestidos e fatos caríssimos e festas onde são servidos almoços de três pratos. Se acho mal? Por acaso acho um bocadinho, mas quem gosta e pode que se sinta livre. Agora não tentem é normalizar este exagero e fingir que sempre foi assim.
Falamos de um sacramento que aproxima as crianças de Jesus e que, de repente, se transformou em mais uma oportunidade de negócio para uns e de encher o Instagram de fotografias bonitas para outros. Ostentação, ostentação e mais ostentação. E gastar, muitas vezes, o dinheiro que não se tem porque isto, já se sabe, o que importa é parecer, fazer inveja às amigas e mostrar que o meu filho teve uma festa mais bonita do que o teu.
Atualmente tudo é uma produção. Uma simples festa de aniversário passou a precisar quase de um diretor artístico. E a Primeira Comunhão, que deve ser um sacramento associado a humildade e espiritualidade, foi transformado num verdadeiro espetáculo de ostentação.
Sei que muita gente vai ler esta crónica e pensar “mas o que é que ela tem que ver com o que os outros fazem com o seu dinheiro?”. E a resposta é que não tenho rigorosamente nada. Mas assusta-me a nossa necessidade de transformar tudo em excesso e as consequências que isso pode ter para os nossos filhos e para uma geração inteira. Será que não percebemos que, cada vez mais, estamos a dizer aos nossos filhos que o amor se mede em espetáculo e que a felicidade precisa de excesso? Estamos a criar uma geração que vai crescer e acreditar que tudo deve ser grandioso e fotografável e que o simples é insuficiente.
Os nossos filhos crescem sem conhecer o tédio e improviso. E a acharem que o mundo os deve celebrar como se fossem uma espécie de pequenos sóis à volta de quem todos devem engravidar. E depois de os enchermos com expectativas irreais ficamos muito preocupados quando percebemos que não sabem lidar com a frustração. Pela forma como os educamos ninguém diria que havia uma forte probabilidade de que isso acontecesse, pois não?
Transformamos o exagero no novo normal de tal forma que quem se recusa a entrar na onda e insiste no mais simples corre o risco de parecer desinteressado ou pouco dedicado aos filhos. Porque hoje o amor parece medir-se no valor dos vestidos, no tamanho dos insufláveis e nas lembranças personalizadas que se distribuem no final das festas.
Essas crianças vão crescer. E quando isso acontecer, a vida vai encarregar-se a lhes demonstrar que no lugar das mesas temáticas e dos fotógrafos profissionais o que existe são trabalhos repetitivos, relações imperfeitas e que a maioria dos momentos vividos é muito pouco Instagramável.
Estamos a criar a volta dos miúdos uma espécie de parque temático emocional permanente: tudo é feito para o entreter, estimular e ser memorável. E enquanto fazemos isto vamos-lhes roubando a capacidade de encontrarem prazer e serem felizes na normalidade. E isto, se pensarmos bem, diz muito sobre nós: inseguros, desesperados por validação e cada vez mais incapazes de aceitar a simplicidade da vida.
Aos poucos fomos deixando de fazer coisas que nos fazem felizes e passámos a fazer coisas que nos fazem ser vistos, admirados e invejados. Falamos de saúde mental e enchemos a boca a dizer que queremos proteger os nossos filhos, mas ao mesmo tempo colocamo-los no centro de uma lógica onde tudo tem de ser extraordinário: a festa simples é insuficiente; o presente modesto sabe a pouco e se não dá para fotografias bonitas é quase como se nem tivesse acontecido.
E atenção: eu percebo perfeitamente porque é que isto acontece. Também tenho momentos em que olho para as redes sociais e penso se não estarei a dar “pouco” aos meus filhos. O problema é que se for atrás da competição vou acabar transformada numa espécie de Sísifo e viver pela eternidade a tentar completar uma tarefa que nunca acaba. Porque nunca nada será suficiente.
Quero acreditar que ainda vamos a tempo de travar isto um bocadinho e de devolver alguma simplicidade à vida. Tenho esperança de que, mais dia menos dia, o nosso bom senso ganhe a corrida. Até lá, o Pedro faz a primeira comunhão e eu não levo um vestido.
Nesta tema escolho fazer parte da resistência”.
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D. Antonino Dias
Caminha, 29-05-2026.

Os quatro silêncios essenciais

 





O silêncio é muito mais do que a ausência de som. É essencial à criação de um espaço interior de escuta, verdade e encontro connosco mesmos, com os outros e com Deus.
Vale a pena refletir sobre quatro silêncios fundamentais da vida.

Em primeiro lugar, o silêncio das palavras excessivas. Falamos demais; falamos antes de olhar, antes de pensar, antes de saber. Muitas vezes, tornamos pequenas as maiores e mais belas obras, apenas porque nos julgamos mais do que somos. Nem sempre dizemos a verdade, e muitas vezes nem sequer há necessidade do que dizemos. Há, talvez, apenas uma ansiedade de preencher o vazio e de evitar o desconforto do olhar dos outros. Mas, para ir ao encontro de alguém, é preciso escutá-lo. E só o escutamos se nos calarmos.

Em segundo lugar, o silêncio dos pensamentos dispersos. O pensamento salta sem cessar de preocupação em preocupação, entre memórias, receios, desejos e distrações. Vivemos pouco, de tanto que nos passa pela cabeça a cada momento. Quem é capaz de parar está mais presente e inteiro, menos fragmentado e menos confuso. Quando aquilo que paira dentro de nós assenta, surge uma clareza que traz consigo paz e beleza.

Em terceiro lugar, o silêncio de Deus. Pedimos e esperamos respostas sem grande paciência. Julgamos que, se Deus é Deus e nos ama, então tem de nos responder de imediato. Custa-nos aceitar que Ele, de forma muito simples, possa confiar em nós, permanecendo presente na nossa vida, quaisquer que sejam as nossas escolhas. Sentimos a sua ausência porque não O escutamos. Ora, a presença basta, porque todas as grandes obras se fazem em silêncio. Amar é dar-se, sem qualquer necessidade de ruído ou exibição.

Por fim, o silêncio do egoísmo, do orgulho e da necessidade de colocar o próprio “eu” no centro de tudo. Há pessoas que não são capazes de se livrar da necessidade constante de afirmação, validação e reconhecimento. Desejam ser vistas e elogiadas a todo o momento. De tanto se admirarem e se defenderem — até mesmo de quem procura o seu bem — nunca saem de si mesmas. E, por isso, nunca chegam a conhecer a beleza imensa do mundo, nem a verdade e o amor que nos chegam através dos outros. O silêncio do egoísmo não significa negar a identidade, mas sim deixar de precisar de provar o nosso valor. É um caminho de humildade e liberdade interior, no qual a pessoa já não vive para ocupar o centro da vida dos outros, mas para encontrar alegria na verdade do dom de ser quem é.

A presença, quando é amor, basta.


José Luís Nunes Martins

sexta-feira, 29 de maio de 2026

Pessoas luz

 


A todas as pessoas que carregam luz no peito e a distribuem gratuitamente - a minha profunda gratidão!

São elas que iluminam os caminhos deste mundo, tantas vezes mergulhado em escuridão.

São elas que trazem alento aos dias cinzentos e analgesiam dores, quem sabe dilacerantes.

São elas que ainda acreditam que amanhã pode ser melhor e que vale a pena persistir.

São elas um pedacinho do céu aqui na terra!

A todas as pessoas luz e em particular às que fazem parte da minha vida desejo que essa luz nunca se apague, que brilhe sempre mais e que a recebem para si também!



Lucília Miranda

quinta-feira, 28 de maio de 2026

INFORMAÇÃO PAROQUIAL


Peregrinação Diocesana ao Santuário de Nossa Senhora de Fátima - 31 de maio de 2026


No último dia deste mês de maio, a nossa Diocese de Portalegre - Castelo Branco, ruma em peregrinação ao Santuário de Fátima. Um dia em que celebramos juntos a diversidade da Diocese, unida em oração aos pés da Nossa Mãe.
Somos todos convidados a ir, e, como movimento da Igreja Diocesana, desafiamos todos os Convivas a levar vestida a t-shirt do Movimento dos Convívios Fraternos da Diocese de Portalegre - Castelo Branco. Vamos pintar o Santuário com o nosso azul bonito e mostrar que o movimento está vivo!
Se não tens como ir fala com o teu pároco, de certeza que ainda há lugares no autocarro
Entregaremos as orações de todos junto da Mãe, e rezaremos também para que este movimento continue a levar os jovens até Deus, para Ele lhes transformar a vida
Até lá!

INFORMAÇÃO PAROQUIAL

Domingo,31 de Maio, a nossa Diocese de Portalegre - Castelo Branco, ruma em peregrinação ao Santuário de Fátima, por esse motivo NÃO HAVERÁ CELEBRAÇÕES EUCARÍSTICAS NAS PARÓQUIAS.
NO SÁBADO, 30, CELEBRA - SE MISSA VESPERTINA NA IGREJA DE NOSSA SENHORA DA LUZ PELAS 18H00, COM ORAÇÃO DO TERÇO PELAS 17H30.

SALVOS… DE QUÊ?

 



Encontrei o Guilherme e a Inês no fim da Missa de Páscoa.
A igreja estava a esvaziar-se devagar. Havia ainda cânticos soltos no ar, mas ecoavam já misturados com o barulho das conversas.
Eles vinham na minha direção.
Já não os via há muito tempo.
Tinham feito voluntariado no meu hospital, no tempo em que eu assumia funções no campo da Pastoral Juvenil.
Lembro-me deles nesse tempo:
jovens disponíveis,
próximos,
às vezes sem saber muito bem o que fazer,
mas com uma presença que fazia bem.
Havia sempre ali qualquer coisa de verdadeiro.

— “Foi a Inês que me trouxe…”
— disse o Guilherme, com um sorriso meio irónico.

Ela não desmentiu.

(Conheceram-se no hospital e acho que agora são namorados).

Acresce dizer que não são de Missa ao domingo.

Mas neste domingo vieram.

Fosse por tradição.

Fosse por insistência.

Fosse, talvez, por razões que não sabem bem explicar, mas que não os deixou ficar em casa.

Ficámos a conversar com a naturalidade de quem retoma uma história interrompida. Sem formalidades. Como se o tempo, afinal, não tivesse sido assim tanto.

Fomos até ao bar. Um café, alguns rostos conhecidos, memórias que voltavam sem esforço.
E, a certa altura, a Inês foi direta:

“Posso fazer uma pergunta?”

Assenti.

— “Os cristãos dizem que Jesus morreu para nos salvar… até o padre disse isso há pouco na Missa. Mas… salvar do quê? E como é que morrer salva alguém?”

O Guilherme ficou em silêncio, mas percebeu-se que a pergunta também era dele.

E naquele instante pensei em muita coisa ao mesmo tempo.

Na catequese que ambos tinham feito.

No Crisma que tinham recebido.

Na boa vontade de tantos catequistas.

E, ao mesmo tempo, na dificuldade real de dizer isto de forma que não fique só na cabeça, mas que toque a vida.

Olhei para eles.

Não achei que me estivessem a provocar. Achei, antes, que estavam a tentar perceber.

“Vou tentar dizer isto de forma simples… mas completa, ok?”

Assentiram.

“Primeiro: salvar de quê?”

Parei um pouco.

— “Salvar-nos daquilo que nos prende por dentro. Do medo que manda nas nossas escolhas. Da culpa que nos faz acreditar que já não valemos muito. Da forma como, com o tempo, nos vamos fechando… e deixamos de confiar, de amar, de viver com verdade.”

O Guilherme acenou:

— “Isso… acontece.”

— “Pois. E isso é sério. Porque podemos estar vivos por fora… mas meio desligados por dentro.”

A Julieta ouviu em silêncio.

— “Agora, segunda parte: salvar como?”

Respirei fundo. E depois continuei.

“Nós gostaríamos que Deus resolvesse isto de fora. Tipo: tirava o sofrimento, corrigia tudo, punha a vida no lugar...”

Olhei para eles.

— “Mas Jesus não faz isso. Ele faz o contrário: entra na nossa vida tal como ela é.”

“Mesmo no pior?” — perguntou a Julieta.

— “Mesmo no pior. Até ao sofrimento injusto. Até ao abandono. Até à morte.”

Silêncio.

“Na cruz, Jesus não está ali só a sofrer. Está a fazer uma coisa muito concreta: está a amar até ao fim.”

O Guilherme franziu a testa:

“Mas… isso resolve o quê?”

“Resolve mais do que parece.

Esforcei-me um pouco mais.

“Imagina isto: quando alguém nos falha, ou nos magoa… o mais normal é fecharmo-nos, ou respondermos na mesma moeda.”

Eles assentiram.

“Jesus faz o contrário. Mesmo a ser rejeitado, continua a amar. Não entra na lógica da violência, nem do ‘cada um por si’.

Pausa.

“E isso é novo. Porque quebra o ciclo.”

A Julieta perguntou:

“Que ciclo?”

— “O ciclo do mal que gera mais mal. Da dor que gera mais dor. Da desconfiança que se multiplica.”

Silêncio.

— “Na cruz, Jesus mostra que esse ciclo pode ser interrompido. Não com força… mas com amor que não recua e é levado até ao fim.”

O Guilherme ficou a pensar.

“Então… Ele não vence evitando a morte?

“Não. Ele vence atravessando-a.

Olhei para os dois.

— “A ressurreição não é um truque para apagar a cruz. É a prova de que a cruz, o sofrimento, o fracasso, a morte… não têm a última palavra.”


A Inês respirou fundo.

“Então salvar é… dar-nos uma saída?”

“Sim. Mas não uma saída fácil. Uma saída por dentro.”

Expliquei melhor:

— “Salvar é abrir um caminho dentro da própria vida real, com tudo o que ela tem, onde não ficamos presos ao medo, à culpa, ao passado, à dor.”

Pausa.

— “É cair… e não ficar no chão. É falhar… e não desistir. É sofrer… sem deixar de amar.”

O Guilherme olhou para mim:

— “Mas isso não é automático, pois não?”


“Não. Deus não faz isso à força.”

Olhei para ele com calma:

— “Ele abre o caminho. Mas não nos arrasta para ele. Nós temos de o querer percorrer.”

A Inês perguntou:

— “E como é que isso começa?”


“Começa em coisas simples. Muito simples. Pelo concreto. Sempre.”

Pausa.

“Quando escolhes não te fechar, mesmo depois de teres sido magoada.

Quando decides confiar um pouco mais, mesmo com medo.

Quando não deixas que o erro, teu ou dos outros, seja a última palavra.”

Silêncio.

“É aí que a salvação começa a acontecer"


O Guilherme ficou quieto.

“Então… não é só uma coisa para depois da morte?”

“Não. Começa agora. Aqui. Na forma como vives.”

Pausa.

“A vida eterna não é só uma vida que vem depois. É uma vida nova que começa já, quando deixas de estar preso ao que te fecha.”

Ficámos em silêncio uns segundos.

O Guilherme acrescentou:

— “É estranho… mas ao mesmo tempo parece… real.”

Sorri.

“Se não for real, não serve.”

O barulho à volta continuava, mas já não nos chegava da mesma maneira.

Antes de novas perguntas a Inês disse:

“Nunca tinha pensado na cruz assim…”

O Guilherme acrescentou:

“Nem eu. Sempre me pareceu… meio sem sentido.”

Olhei para eles.

Se a cruz fizer sempre sentido… talvez ainda não a tenhamos levado a sério.

Fiquei com a frase no ar.

O Guilherme mexia na chávena vazia, como quem precisa de fazer alguma coisa com as mãos enquanto pensa.

A Inês estava mais quieta. Não parecia convencida. Mas também não parecia distante.

“Mas há uma coisa…” — disse ela, devagar. — “Isso tudo que disseste… é bonito. Mas depois a vida real não é assim tão limpa.”

O que ela me dizia não era uma objeção teórica. Era uma espécie de teste.

“Pois não.” — respondi.

“E ainda bem que disseste isso, Inês. Porque se isto só funcionasse em teoria, não servia para nada.”

Pausa.

“A questão é outra: quando não fazemos isto… a vida fica melhor?”

O Guilherme levantou os olhos.

“Não.”

“Pois. Fica mais dura. Mais fechada. Mais cansada.”

Encostei-me ligeiramente para trás.

— “A proposta cristã não é: ‘faz isto e vais sentir-te sempre bem’.

É, antes: ‘se não fizeres isto, vais acabar fechado num sítio onde já ninguém entra. Nem tu’.”

Silêncio.

Aquilo bateu mais do que qualquer explicação anterior.

A Inês não respondeu logo. Mas deixou de estar na defensiva.

— “Então… a cruz não resolve tudo…”

“Não.”

“Mas impede que tudo se estrague por dentro.”

Ficaram os dois calados.

E, pela primeira vez desde que a conversa começou, não estavam à procura de mais explicações.

Estavam a medir aquilo na própria vida.

Ao longe, alguém chamou por eles. Um dos doentes reconheceu-os.

Eles levantaram-se.

O Guilherme estendeu-me a mão, mas depois mudou de ideias e deu-me um abraço rápido, meio desajeitado.

“Obrigado… isto ficou aqui a trabalhar.”

A Inês sorriu.

“Acho que vou precisar de pensar nisto mais tempo.”

“Ainda bem.” — disse eu. — “Se ficasse resolvido hoje… era mau sinal.”

Começaram a afastar-se para ir ao encontro dos doentes e depois seguirem para casa.

Em boa verdade, não iam com aquele entusiasmo típico de quem “percebeu tudo”.

Nem com aquele ar de quem ouviu uma coisa bonita e vai esquecer daqui a meia hora.

Iam mais lentos.

Mais atentos.

Como quem já não consegue fingir que não ouviu.

Fiquei a vê-los.

E pensei que, no fundo, é isto.

A salvação não começa quando tudo faz sentido.

Começa quando já não conseguimos continuar a viver da mesma maneira,

e ainda assim… não sabemos bem o que fazer com isso.


Fernando d'Oliveira



quarta-feira, 27 de maio de 2026

Que o Espírito do Ressuscitado nos salve do mal da guerra, vencida não por uma superpotência, mas pela omnipotência do amor» – Leão XIV

Papa presidiu à Missa da solenidade de Pentecostes, encerrando tempo litúrgico da Páscoa

                                                                            Foto: Lusa/EPA


Cidade do Vaticano, 24 mai 2026 (Ecclesia) – O Papa apelou hoje no Vaticano ao fim dos conflitos armados internacionais, invocando a força do Espírito Santo para travar a violência bélica através da unidade e da oração.

“Rezemos hoje para que o Espírito do Ressuscitado nos salve do mal da guerra, que é vencida não por uma superpotência, mas pela omnipotência do amor”, pediu Leão XIV, na homilia da Missa de Pentecostes a que presidiu na Basílica de São Pedro.

“Rezemos para que Ele liberte a humanidade da miséria, que é redimida não por uma riqueza incalculável, mas por um dom inesgotável. Rezemos para que nos cure da ferida do pecado, pela redenção anunciada a todos os povos em nome de Jesus”, acrescentou, perante milhares de participantes.

A intervenção papal advertiu para mudanças que “não renovam o mundo, mas que o envelhecem entre erros e violências”.

“O Senhor derrama o Espírito da paz de um extremo ao outro da história, porque aquele que redimiu todos da morte não exclui ninguém”, observou.

A reflexão assinalou que a “reconciliação universal” constitui a única via para estabelecer o “código da paz” entre a humanidade.

“Esta paz provém do perdão e leva-nos ao perdão: começa com o perdão dado pelo próprio Jesus, que foi por nós traído, condenado e crucificado”, indicou Leão XIV.











O Papa instou as comunidades e os responsáveis religiosos a rejeitarem atitudes divisionistas, pedindo unidade para a Igreja, face ao perigo “das fações, das hipocrisias, das modas que obscurecem a luz do Evangelho”.

“O Espírito, que falou por meio dos profetas, promove sempre a unidade na verdade, porque suscita em nós compreensão, concórdia e coerência de vida”, disse.

A homilia falou ainda do “Espírito da missão”, que impele os cristãos a ir ao encontro dos outros, “transformando a confusão do mundo em comunhão”.

“Esta fé vive e expressa-se em cada boa ação, em cada ato de misericórdia e de virtude”, precisou Leão XIV.

A solenidade litúrgica do Pentecostes assinala-se 50 dias depois da Páscoa e evoca a efusão do Espírito Santo sobre os primeiros apóstolos, momento que os católicos assumem como o nascimento público da Igreja.

Leão XIV recitou posteriormente a oração do ‘Regina Caeli’ ao meio-dia de Roma, desde a janela do apartamento pontifício, reforçando a sua mensagem em favor da paz.

“Precisamos de redescobrir Deus como Pai que nos ama, de edificar uma Igreja onde todos se sintam em casa e de fazer crescer um mundo fraterno, onde reine a paz entre todos os povos”, apelou o pontífice.

A reflexão destacou a importância da comunhão e da fraternidade, inspiradas pela fé cristã.

“O Espírito Santo abre as portas dos nossos corações, ajudando-nos a vencer as resistências, os egoísmos, as desconfianças e os preconceitos, e tornando-nos capazes de viver como filhos de Deus e irmãos uns com os outros”, explicou o Papa.

Leão XIV deixou uma mensagem especial às comunidades católicas, pedindo que a Igreja seja “acolhedora e hospitaleira em relação a todos, mesmo aqueles que fecharam as portas a Deus, aos outros, à esperança e à alegria de viver”.

“Irmãos e irmãs, também nos nossos dias, especialmente neste dia de Pentecostes, devemos invocar o Espírito Santo, para que Ele abra as portas que permanecem fechadas. Precisamos de redescobrir Deus como Pai que nos ama, de edificar uma Igreja onde todos se sintam em casa e de fazer crescer um mundo fraterno, onde reine a paz entre todos os povos”, concluiu.

OC

https://agencia.ecclesia.pt/

terça-feira, 26 de maio de 2026

A TRUCULÊNCIA DOS LÍDERES ANGUSTIA O POVO


Acho que isto, e muito mais, deve estar nos livros! Se, porém, não estiver, paciência! Entendo que, num líder, tudo lhe sai tão normalmente que o povo confia nele. Regra geral, um líder surge de dentro para fora, não imerge de fora para dentro. Não se estica para ser reconhecido como tal, não se impõe, não é devoto do ‘são nunca à tarde’, não atira para as calendas gregas o que deve ser feito agora e já, desculpando-se com a Eva, com a cobra ou com terceiros. Um líder manifesta-se, no seu dia-a-dia, pelo seu modo de ser, de estar, de se relacionar, pelo que pensa, pelo que diz, pelo que faz, pelo que gera de esperança. É por isso que é seguido. Mas um líder, se é verdadeiramente líder, não é um sabe tudo, um nunca se engana, um infalível que não quer ouvir ninguém, um não volta atrás, um teimoso no erro, um ‘picareta falante’ que pensa que tem razão só porque grita mais alto, um surdo à opinião dos outros, um cego que não quer ver a realidade e reconhecer a verdade. O êxito de qualquer líder está no objetivo que o move: se tem consciência da sua missão junto de quem lidera e trabalha pelo bem comum ou se está apenas apostado em salvar a sua pele e os interesses pessoais ou do seu grupo.
Até nisso a Sagrada Escritura nos rasga autoestradas seguras para chegarmos à meta da conversão, sem estorvos de tal espécie. Toda a gente sabe que o cargo não torna ninguém infalível, nem sábio, nem impecável, nem solitário na liderança, nem autossuficiente. O líder que é líder deve cultivar, cada vez mais, isso sim, aquelas virtudes que nele não se podem dispensar, como, por exemplo, a competência, a honestidade, a honradez, a humildade, a proximidade, a capacidade de dialogar, de ouvir e escutar, de se corrigir quando erra, de querer aprender com aqueles que lidera, de ter confiança neles, de manter a esperança de que será com eles que chegará a bom porto...
Já lá para trás, por exemplo, muito antes que anteontem, o rei Roboão, filho de Salomão, ouviu o que, seu irmão Jeroboão e toda a assembleia de Israel, lhe disseram: “O teu pai impôs-nos um fardo pesado. Se nos aliviares da dura escravidão e do fardo pesado que ele nos impôs, nós servir-te-emos”.
Roboão, que já devia estar com ela fisgada, disse que ia pensar e mandou-os regressar dali a três dias. Entretanto, representando grande preocupação, foi pedir conselho aos anciãos que tinham servido seu pai, o rei Salomão, e perguntou-lhes: “O que é que me aconselhais a responder a este povo?”. Eles disseram-lhe: “Se hoje te colocares ao serviço deste povo, se o servires e lhe responderes com boas palavras, então eles colocar-se-ão para sempre ao teu serviço”.
Roboão, porém, desprezou o conselho do povo e dos anciãos experimentados. Preferiu seguir os que tinham crescido com ele e o serviam, à boa prática do clientelismo político, do ‘cronyism’, do amiguismo e compadrio. Foi aconselhar-se com os seus “jobs for the boys”. E perguntou-lhes: “O que é que me aconselhais a responder a este povo que me disse: “Aliviai-nos do jugo que o teu pai nos impôs”? Os jovens que tinham crescido com ele e o serviam, disseram-lhe: “A esse povo que disse: “Teu pai tornou pesado o nosso fardo; alivia este fardo que pesa sobre nós”, responderás: “O meu dedo mínimo é mais grosso do que a cintura de meu pai. O meu pai colocou sobre vós um fardo pesado. Pois bem! Eu aumentarei sobre vós esse fardo. Meu pai castigou-vos com chicotes, eu castigar-vos-ei com ferrões”. (1Re 1-19)
Passados os três dias, Roboão respondeu isto mesmo ao povo que voltou ao seu encontro, como ficara combinado. Sem ponderar e bem discernir, desprezando o conselho do povo e dos anciãos cheios de experiência política e popular, o jovem rei, rico de si, quis esquecer que a sua função de autoridade justa era servir o povo e ouvir o seu clamor. Assim, até que as coisas se alinhassem, e nunca como se desejaria, abriu-se a guerra, começaram as turras entre o seu irmão e o povo sempre sofredor.
Passados cerca de três mil anos, mais minuto menos segundo, nada se aprendeu, embora nos tivessem dito qual é o Caminho, a Verdade e a Vida. E todos nós sabemos que as armas de hoje são muito mais mortíferas que as fisgas, as fundas e o mais que à mão de semear estivesse naquele tempo.
Em 17 de outubro de 2015, nos 50 anos da instituição do Sínodo dos Bispos, o Papa Francisco falava da "pirâmide invertida" para defender e sublinhar que a verdadeira autoridade é o serviço e não o poder. Na Evangelii Gaudium falou da autoridade como poliedro, o qual une e integra a diversidade, reflete a confluência de todas as partes, evitando lógicas autoritárias ou piramidais (cf. EG236). Na Carta Encíclica Fratelli Tutti, voltou ao tema, para afirmar que o poliedro, tanto na comunidade eclesial como na civil, representa uma sociedade onde as diferenças convivem, integram-se, enriquecem-se e iluminam-se reciprocamente, havendo aspetos da realidade que uns topam mas não se descobrem nos centros de poder onde se tomam decisões determinantes (cf. FT215).
Na Igreja, a sinodalidade está a fazer caminho e tem muito caminho para trilhar. Quando as dinâmicas políticas, em vez de empecilharem uns com os outros, descobrirem este filão, oh oh, ups, o mundo vai ter muita mais beleza, o povo muito mais proveito e alegria! Haja esperança!

D. Antonino Dias
Caminha, 23-05-2026

segunda-feira, 25 de maio de 2026

UMA IA AO SERVIÇO DA HUMANIDADE


Acaba de ser publicada, esta manhã, 25 de maio, em Roma, a primeira encíclica social de Leão XIV – Magnifica humanitas -, da qual, para aguçar o apetite do leitor para a procurar e ler, faço um resumo do resumo apresentado. É “sobre a salvaguarda da pessoa humana na era da inteligência artificial”. Está dividida em cinco capítulos e parte do pressuposto de que a tecnologia não é uma “força antagónica em relação à pessoa”, nem “um mal em si mesma”. No entanto, “não é neutra, pois assume o rosto daqueles que a concebem, a financiam, a regulam e a utilizam”. Daí, o apelo do Pontífice para “construir o bem” e “permanecer humanos”, seguindo a lógica da corresponsabilidade corajosa e da comunhão. A encíclica repercorre a Doutrina Social da Igreja, destacando “o seu carácter dinâmico” como “teologia da comunhão na história” a orientar a leitura dos acontecimentos à luz do Evangelho. Enumera os Fundamentos e princípios da Doutrina Social da Igreja (DSI) e aponta cinco desses princípios. O primeiro é o bem comum: “A promoção do bem comum nunca pode ser separada do respeito ao direito dos povos de existir, de preservar sua identidade e de contribuir com sua originalidade para a família das nações”. Consequentemente, “qualquer tentativa ou projeto de eliminar ou subjugar uma nação é gravemente imoral e, portanto, inaceitável”. O segundo, diz respeito à destinação universal dos bens. Insiste na necessidade de que as tecnologias não se concentrem nas mãos de poucos, alimentando a disparidade entre os incluídos e os excluídos da revolução digital. O terceiro e quarto princípios são: a subsidiariedade, que exige a superação do paternalismo e do assistencialismo em favor da corresponsabilidade, e a solidariedade, “princípio e virtude” que se opõe à indiferença. O quinto é a justiça social: na era digital, ela deve garantir a todos um acesso equitativo às oportunidades, proteger os mais vulneráveis, combater o ódio e a desinformação e submeter o uso das tecnologias ao controle público. O Papa realça que é preciso abordar a IA com cautela, mantendo clareza sobre as responsabilidades em todas as suas etapas e apostando em políticas e marcos jurídicos adequados, vigilância independente e educação dos usuários. Acima de tudo, é necessário um código ético submetido a critérios de justiça social compartilhada, pois “não serve uma IA mais moral se essa moral for decidida por poucos”. Pede que não se deixe de lado o impacto ambiental das novas tecnologias, que exigem grande quantidade de energia e água, afetando a Criação e fala sobre a necessidade de “desarmar a IA”, para a subtrair à lógica da competição militar, económica e cognitiva, para romper a equivalência entre poder técnico e direito de governar, para a subtrair aos monopólios e impedir que ela domine o humano. Critica o transumanismo e o pós-humanismo, que interpretam o progresso como a superação dos limites do humano. O limite não é um defeito a ser eliminado, mas uma dimensão constitutiva da pessoa, pois é na fragilidade e na finitude que amadurecem a relação e a abertura a Deus e ao outro. Fazer a tecnologia crescer, eliminando os limites do humano, significa fazer o coração regredir. Magnífica e ferida, a humanidade “não deve ser substituída nem superada”. A tecnologia pode aliviar os seus sofrimentos e abrir-lhe novas possibilidades, mas não deve negá-la naquilo que lhe é próprio: “a capacidade de relação e de amor”. Diante da IA, a verdadeira alternativa não está entre o entusiasmo e o medo, mas entre duas formas de construir o progresso: a serviço da pessoa e dos povos ou das lógicas do poder. O Papa efende uma “ecologia da comunicação” baseada na verdade, e pede transparência nos critérios de seleção de conteúdos, proteção dos dados pessoais, um jornalismo sério fundamentado na argumentação e na verificação, uma nova consciência no uso “correto e crítico” da IA e a integração dos conhecimentos. É fundamental também o apelo a uma aliança educativa renovada, para que nos jovens não se apague “o desejo de fazer perguntas” por causa de máquinas perfeitas que fazem parecer inútil o pensamento humano. Defende a importância da escola como lugar onde se aprende a “buscar e amar a verdade”, realça a importância de proteger a dignidade do trabalho, projetando sistemas centrados na pessoa e não apenas no desempenho. A tecnologia pode certamente aliviar o homem de tarefas pesadas ou repetitivas, mas não deve levar ao desemprego em nome da redução de custos e do aumento do lucro, esperando-se também uma renovação das organizações sindicais. Destaca a necessidade de superar o PIB como parâmetro do grau de desenvolvimento de um país, apostando na dignidade do trabalho, na prosperidade compartilhada, na redução das desigualdades e na preservação do meio ambiente. Afirma que a finança pela finança é diferente da finança para o desenvolvimento, e destaca a interdependência entre paz e desenvolvimento, almejando uma cooperação internacional capaz de definir estratégias comuns, sobretudo em favor dos países e dos grupos mais vulneráveis, pois a prosperidade contribui para a paz “somente se for difundida, inclusiva e sustentável”. Faz referência à família, fundada na união estável entre um homem e uma mulher, como “bem social primário”, “célula fundamental e insubstituível de toda organização comunitária”, que deve ser apoiada também por meio de políticas do trabalho em favor da estabilidade e de ritmos humanos, para assim proteger a capacidade social de “construir o futuro”. Por fim, numa época em que as plataformas digitais são projetadas para capturar o tempo dos usuários e explorar as suas fragilidades, é preciso fortalecer a liberdade interior de cada um, enfrentando também o risco do controle social decorrente da coleta massiva de dados e do uso de sistemas algorítmicos. Perfilar, prever e orientar comportamentos, de facto, é “um novo poder” que corre o risco de discriminar os mais fracos. O Papa deplora, em particular, a “arquitetura da visibilidade” que amplifica apenas o que é visível, moldando as opiniões. Afirma que a IA também gera novas formas de escravidão, como a dos “corpos marcados, mutilados, consumidos” daqueles que trabalham na extração das “terras raras” necessárias à tecnologia. A luta contra as novas formas de escravidão é outro “teste decisivo para o discernimento ético” da transformação digital. Ressalta que “a Igreja renova a sua firme condenação contra toda forma de escravidão, tráfico e mercantilização de pessoas” e pede “sinceramente perdão” pelo atraso com que a Igreja, no passado, condenou “o flagelo da escravidão”. A encíclica também faz referência às “novas terras raras do poder”, ou seja, as informações vitais utilizadas para orientar estratégias económicas: trata-se de uma face inédita do colonialismo que transforma vidas pessoais em informações exploráveis, tornando o ambiente digital um “espaço de predação”. No último capítulo, Leão XIV volta seu olhar para a guerra: “A revolução digital está a modificar a gramática dos conflitos” e afirma que o recurso à força não pode ser considerado como uma “opção imediata e viável”. Na base de tudo está uma “cultura do poder” que normaliza a guerra e a reabilita como “instrumento de política internacional”, favorecendo o rearmamento. Hoje, a paz não é mais entendida como uma tarefa a ser assumida, mas como um intervalo entre os conflitos. Sem prejuízo do direito à legítima defesa no sentido mais estrito, é preciso superar a teoria da “guerra justa”, promovendo, em vez disso, o diálogo, a diplomacia e o perdão. Deplora o crescimento da indústria bélica, a corrida aos armamentos nucleares e o surgimento de novos atores armados que visam perpetuar os conflitos como fonte de poder e de renda. Adverte que “não existe algoritmo que possa tornar a guerra moralmente aceitável”... “toda tecnologia que facilita atacar sem ver o rosto do outro abaixa o limiar moral do conflito”.
Aos cristãos, o Papa aponta cinco “caminhos de responsabilidade” para a construção da “civilização do amor”: desarmar as palavras dizendo a verdade; construir a paz na justiça; assumir o olhar das vítimas tomando posição, pois há conflitos em que “não é justo permanecer neutro”; cultivar “um saudável realismo” que busque caminhos de paz viáveis com os factos, não apenas com palavras. Por fim, relançar o diálogo, passando de uma cultura do poder para uma cultura da negociação. “Quem usa o nome de Deus para legitimar o terrorismo, a violência ou a guerra trai o seu rosto”.
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D. Antonino Dias
Caminha, 25-05-2026

Pentecostes




“A Sociedade do Cansaço
e a tola ilusão de que todos estão fazendo algo importante o tempo todo…”
Byung-Chul Han



Quando falamos em cansaço,

só penso Naquela Pessoa que,

há milhares e milhares de anos,

paira sobre as águas!

É ar insuflado nas nossas narinas!

Sopra como brisa suave e rajada de vento forte!

Voa como pomba que anuncia a bonança e banha a humanidade com Esperança!!


Arde como fogo que não consome a sarça e ilumina com línguas que são silêncio!

É Dele que irradia a Sabedoria para discernir a Palavra de Deus…

o Entendimento para aceitarmos os desígnios do Pai…

a Ciência que nos faz ver a mão do Criador em tudo que nos rodeia…

a Fortaleza nos momentos de dúvida e angústia que nos revoltam…

o Conselho calmo e lento que vem ao nosso encontro e nos resgata do mal…

a Piedade doce e pura pelos que não creem, não adoram, não esperam e não amam Jesus…

O Temor de Deus quando a ânsia de não sentir a Sua presença nos sufoca…


Espírito Santo, Deus do Amor profundo,

vem e habita no meu Ser!


Faz de mim Teu instrumento.


Que eu saiba servir e amar,

sem cansaços sem sentido,

nem desculpas que me fazem perder o rumo certo,

que Tu, Espírito Santo, semeias no meu coração, na minha Alma!



Liliana Dinis

domingo, 24 de maio de 2026

Oração de Santo Agostinho

 


Solenidade do Pentecostes

 

https://www.youtube.com/watch?v=J54atK7be9Y&list=PLAqKRngqwuSfPdOPEvu7KzjdvMvB1w33f&index=163



O tema deste domingo é, evidentemente, o Espírito Santo. Dom de Deus a todos os crentes, o Espírito dá vida, renova, transforma, constrói comunidade e faz nascer o Homem Novo.

O Evangelho apresenta-nos a comunidade cristã, reunida à volta de Jesus ressuscitado. Para João, esta comunidade passa a ser uma comunidade viva, recriada, nova, a partir do dom do Espírito. É o Espírito que permite aos crentes superar o medo e as limitações e dar testemunho no mundo desse amor que Jesus viveu até às últimas consequências.
Identificar-se como cristão significa dar testemunho diante do mundo dos "sinais" que definem Jesus: a vida dada, o amor partilhado. É esse o testemunho que damos? Os homens do nosso tempo, olhando para cada cristão ou para cada comunidade cristã, podem dizer que encontram e reconhecem os "sinais" do amor de Jesus?

Na primeira leitura, Lucas sugere que o Espírito é a lei nova que orienta a caminhada dos crentes. É Ele que cria a nova comunidade do Povo de Deus, que faz com que os homens sejam capazes de ultrapassar as suas diferenças e comunicar, que une numa mesma comunidade de amor, povos de todas as raças e culturas.
Nunca será demais realçar o papel do Espírito na tomada de consciência da identidade e da missão da Igreja... Antes do Pentecostes, tínhamos apenas um grupo fechado dentro de quatro paredes, incapaz de superar o medo e de arriscar, sem a iniciativa nem a coragem do testemunho; depois do Pentecostes, temos uma comunidade unida, que ultrapassa as suas limitações humanas e se assume como comunidade de amor e de liberdade. Temos consciência de que é o Espírito que nos renova, que nos orienta e que nos anima? Damos suficiente espaço à acção do Espírito, em nós e nas nossas comunidades?

Na segunda leitura, Paulo avisa que o Espírito é a fonte de onde brota a vida da comunidade cristã. É Ele que concede os dons que enriquecem a comunidade e que fomenta a unidade de todos os membros; por isso, esses dons não podem ser usados para benefício pessoal, mas devem ser postos ao serviço de todos.
 É preciso ter consciência da presença do Espírito: é Ele que alimenta, que dá vida, que anima, que distribui os dons conforme as necessidades; é Ele que conduz as comunidades na sua marcha pela história. Ele foi distribuído a todos os crentes e reside na totalidade da comunidade. Temos consciência da presença do Espírito e procuramos ouvir a sua voz e perceber as suas indicações? Temos consciência de que, pelo facto de desempenharmos esta ou aquela função, não somos as únicas vozes autorizadas a falar em nome do Espírito?

https://www.dehonianos.org/

sábado, 23 de maio de 2026

Vem Espírito Santo

 

 

Vem, Espírito Santo


Tentemos deixar fluir,
ao menos uma vez na vida,
o sopro do Espírito Santo
no meio e dentro de nós.
Torna-te lume novo… e tu ardes!
Quem não arde, não vive.
O Grande Espírito move-se pela nossa cozinha interior,
entre púcaros, vasilhas e panelas.
E ali Ele dá-nos sabor…
O Infinito vem ao sangue,
mistura-se para que a graça seja graça…
Comida pronta que nos torna humanos.
Ele é a mola da nossa história
onde penduramos, tantas vezes, a vida
cansada, sem espanto, sem calor!
Deixa-te secar por Ele.
Não perderás tantas fibras,
encolhes menos e duras mais.
Ele vem e faz-se caminho nas nossas entranhas!
Damo-nos connosco a descobrir a Luz
e a sermos silêncio.
Onde Ele para para nos encontrar.
Deixa que os seus pingos de chuva
entrem na tua terra árida!
Sente esse cheiro intenso que te torna respirável.
Aperta a sua frescura
e sente a sua música entre os teus dedos…
Sem o Espírito Santo podes construir a vida toda
e chegar ao fim sem teres abrigo.
Sem Ele serás simplesmente barro,
terra com a terra, pó com pó.


Padre João Torres

sexta-feira, 22 de maio de 2026

O remédio para as feridas do coração

              


Se a felicidade fosse uma questão de inteligência, então haveria muito mais gente feliz do que existe.

O amor não é lógico. À primeira vista, o egoísmo parece muito mais prudente do que a entrega gratuita sem garantia de reciprocidade.

Os nossos sentimentos e a voz da nossa alma também nos dão indicações em relação aos destinos e caminhos que devemos escolher. Por mais que a razão tente impor-se, a verdade é que ela, por si só, não nos faz felizes.

Se o sentido da vida é a busca da felicidade, então a inteligência é apenas mais uma das ferramentas. Muitas vezes é o coração que tem de abrir as portas da prisão em que os pensamentos nos aprisionaram a alma.

Um sofrimento para o qual não se encontra sentido não deixa de doer; muitas vezes, dói ainda mais. A inteligência nem sempre é a melhor conselheira da paz interior.

O sonho é ilógico e, no entanto, pode preencher muitos vazios interiores. Há quem decida procurar no céu o que não tem na terra. Acreditar é uma das forças essenciais para criar grandes obras.

Talvez os sonhos sejam a forma de o coração pensar.

Importa lembrar que, por mais que reflitamos, há verdades que só se revelam quando entregamos a questão a um silêncio profundo e paciente.

Os sonhos permitem-nos estabelecer metas, imaginar soluções, descobrir forças e ir mais longe do que alguma vez imaginámos.

O amor é o caminho e a força necessária para seguir em frente. A grandeza do amor mede-se pelo que alguém é capaz de sacrificar por ele.

O amor é o remédio para as feridas do coração — feridas que só tem quem não desiste de sonhar.


José Luís Nunes Martins


quinta-feira, 21 de maio de 2026

Desculpa… eu disso não percebo nada!




Creio que ninguém gosta de pedir.

Há um incómodo em termos de pedir um favor, um jeitinho ou uma ajuda pois revela uma fragilidade que nem sempre gostamos de assumir. Eu confesso, não gosto! É mais fácil pedir para alguém do que para nós, não achas?

Mas, volta e meia, tentamos a nossa sorte porque precisamos ou, simplesmente para ter algum facilitismo.

Quantos de nós já não pediram para dar um jeitinho numa lista de espera, um jeitinho numa informação que pelos meios normais teima em chegar, um jeitinho para uma oportunidade de emprego ou outra situação…quem nunca!?

Custa tanto pedir! Se calhar porque achamos que não é correto pois não gostamos de incomodar ou aborrecer alguém com a nossa situação. Nem sempre “pedi, e ser-vos-á dado” funciona com Deus, quanto mais com os homens.

Muitos de nós já tiveram o poder na mão de dar jeitinhos capazes de mudar a vida de alguém sem prejudicar a dos outros, mas outros, quando o podem fazer escusam-se.

Estão no direito de recusar ajudar e até podem alegar que não lhes é possível, mas até nisso é preciso sensibilidade. Acho que quase todos nós, já nos recusamos a ajudar, seja a dar esmola ou a participar em algo…quem nunca!?

Não estou a julgar nem criticar, apenas refletir sobre a nossa atitude perante as duas situações: teres de pedir, e alguém ter de te pedir a ti!

Há uns bons anos, pedi uma informação sobre um concurso a alguém que estava na área e para a qual eu nunca me tinha recusado a ajudar nas inúmeras vezes que fui solicitada. Expus o meu pedido e recebi secamente: “Desculpa eu disso, não percebo nada”. Sem mais! Nem um indicação de quem me poderia ajudar, sem qualquer empatia ou gentileza. Já lá vão muitos anos e nunca apaguei esse email. Acho que o guardo para me lembrar de não fazer o mesmo. Não o guardo com rancor nem à espera de vingança, foi o que foi, nunca mais vi essa pessoa e desejo-lhe o melhor.

Peço para que de cada vez que alguém tiver pedir, não escute nem silêncio, nem ofensa, nem desdém.

Que sirva de oração :
    -Peço para que o meu coração não se endureça perante os pedidos que me chegam como resultado das ausências de respostas em relação aos meus.

    - Peço a empatia para aceitar que apesar de “ não perceber nada disso”, posso procurar quem saiba.

   - Peço a sabedoria para acolher cada pedido sem arrogância.


E peço que nunca tenha de pedir em desespero e que do outro lado encontre sempre alguém que me acolha e me conforme.

E tu amiga, quantas vezes usaste uma desculpa para não ajudar?


Raquel Rodrigues


quarta-feira, 20 de maio de 2026

Estar presente para o que se sente?



Tenho notado que é muito difícil (tanto para os adultos como para as crianças) estar presente para as suas emoções, sentimentos, ou experiências mais avassaladoras. Como professora, vejo que nem sempre é natural (para os mais novos ou mais jovens) encontrar espaço para acomodar aquilo que sentem. Se estivermos a falar de um sentimento de celebração, alegria e festa é fácil encontrar razões para o partilhar, para falar dele, para o deixar expandir dentro de nós e para o tornar rastilho também para os outros.

Mas se, por outro lado, estivermos a falar de uma súbita vontade de chorar, de uma tristeza que chega sem aviso prévio ou de uma raiva que nos queima por dentro, aí, já o caso muda de figura.

A primeira reação é a de esconder. Disfarçar. Não falar sobre o assunto. Colocar o manto da autocrítica e assumir de imediato que estamos a ser fracos. Ou que precisamos de ser fortes. E esse impulso de varrer para longe aquilo que nos deixa mais vulneráveis vai, simplesmente, agigantar os sentimentos e as sensações que pretendemos “eliminar” ou dissipar.

Enquanto educadores, pais, colegas, amigos, irmãos, filhos, precisamos de aprender a acolher melhor as nossas emoções (especialmente as que são socialmente menos aceites). Precisamos de encontrar espaços internos seguros para dar asas ao choro, à tristeza ou a raiva sem nos sentirmos culpados ou inferiorizados.

E, mais importante ainda, precisamos de ajudar as crianças e jovens que fazem parte das nossas vidas a construir, também, esse espaço interno. É urgente que sejamos exemplos vivos de autorregulação, de amor pelo que é e pelo que se sente, seja isso o que for.

É urgente encontrar nas escolas, nas salas de aula, nos recreios, em casa ou em família espaços para, simplesmente, sermos o que somos. Com tudo o que isso implica. Ouvir, dar atenção, estar presente, aceitar ficar desconfortável, aceitar nem sempre saber lidar com o muito que o outro nos traz. Tudo isto é de uma importância tremenda e, quando lha dermos, acredito que poderemos ser testemunhas de verdadeiras transformações enquanto seres humanos adultos a guiar seres humanos de, e para, o futuro.


Marta Arrais

Há coisas que só o tempo explica



Há coisas que só o tempo explica
Passamos a vida a tentar segurar o que nunca foi verdadeiramente nosso: o controlo absoluto dos dias, das pessoas, dos acontecimentos, do futuro.
Queremos que tudo aconteça à nossa maneira.
Planeamos caminhos perfeitos, antecipamos respostas, imaginamos finais felizes e acreditamos que, se fizermos tudo certo, a vida obedecerá aos nossos planos.
Mas a vida não é um mapa desenhado por nós.
Há portas que se fecham sem aviso.
Há encontros inesperados que mudam tudo.
Há despedidas que chegam cedo demais.
Há sonhos que não acontecem.
E há caminhos que só aparecem depois de perdermos o rumo.
E talvez viver seja exactamente isto:
aprender, devagar, a largar o controlo que julgávamos ter.
Porque há coisas que não dependem da nossa força, da nossa vontade ou da nossa pressa.
E lutar constantemente contra aquilo que não podemos mudar só nos rouba paz.
A verdade é que nem sempre compreendemos o que Deus está a fazer na nossa vida. Às vezes, o coração revolta-se porque não era “assim” que tínhamos imaginado. Mas o tempo tem uma estranha maneira de revelar sentidos escondidos.
Quantas vezes aquilo que parecia um fim acabou por salvar a nossa vida? Quantas vezes uma perda nos conduziu a um lugar mais verdadeiro? Quantas dores nos tornaram mais humanos, mais conscientes, mais capazes de amar?
Há respostas que chegam tarde… mas chegam.
Por isso, quando algo fugir ao teu plano, respira fundo. Nem tudo o que desaparece é castigo. Nem tudo o que termina é derrota. Nem tudo o que dói veio para destruir.
Às vezes, Deus afasta-nos daquilo que queríamos porque conhece o lugar onde realmente podemos florescer.
Um dia, talvez olhes para trás e percebas que aquilo que hoje te custa aceitar foi precisamente o que te ensinou a viver de outra maneira.
Até lá, segue mais leve.
Agradece o que tens.
Cuida de quem caminha contigo.
Não desperdices os dias preso ao medo do amanhã.
E aprende a confiar um pouco mais.
Porque há caminhos que só fazem sentido depois de serem atravessados.

Padre João Torres

terça-feira, 19 de maio de 2026

ASCENSÃO




                                                    O visível orienta. O Invisível move!”
     Henrique Santana



A frase: “Estou mesmo a precisar de descansar!” não sai das nossas bocas.

Andamos errantes e demasiado ocupados com o fazer tudo, que o tudo não nos satisfaz…

Então… perdemos o rumo certo!

Ficamos parados a olhar para o céu, sem entender que o cansaço físico da correria diária,

não nos traz alegria, não nos faz viver mais e não nos satisfaz.

Mas,

preciso parar um bocadinho ao pé de Ti, Jesus,

porque estás aí, em cima, a olhar para mim

e vês todas as opções que tomei sem pensar em Ti.



Faz-me falta ver que estás ao pé de mim.

Fazes-me falta, porque és luz e conforto.

Fazes-me falta.


Por vezes, até me lembro que o meu Batismo

dá-me a capacidade de ir ao encontro de todos,

apenas para abrir os braços e partilhar um abraço;

apenas para esboçar um sorriso e soltar uma gargalhada;

apenas para ficar em silêncio e escutar!


E tudo isto é anunciar o Teu Reino,

em nome do Pai, do Teu nome e do nome do Teu Santo Espírito.


Enquanto estou aqui, a olhar para o infinito, deixa-me sentir um bocadinho a Tua presença.

Vou fechar os olhos… respirar fundo e carregar naquele botão que abre os olhos do coração.

Sei que depende de mim, apenas de mim e só de mim!


Quero ver-Te… Quero sentir-Te… Quero escutar-Te.

Hoje! pois a Tua Ascensão faz-Te ainda mais perto de mim.

Põe-me inquieta! Com uma ânsia e um cansaço feliz, porque Te quero anunciar.



Liliana Dinis

segunda-feira, 18 de maio de 2026

Ascensão do Senhor

 



É preciso tê-Lo no coração
A Ascensão não é um adeus.
É uma mudança de presença.
Mais alta. Mais profunda.
Os discípulos estavam confusos, frágeis, cheios de dúvidas. Não eram os melhores, os mais sábios ou os mais preparados. Tinham medo. Fugiram. Negaram. Traíram.
Mas havia uma coisa que os distinguia: amavam Jesus.
Amavam-n’O porque primeiro se sentiram amados por Ele. E isso bastou.
Jesus não lhes pediu para conquistar o mundo pelo poder, pelo controlo ou pelas grandes estruturas. Apenas disse:
“Vai e anuncia.”
Evangelizar é isto:
ter Jesus no coração e levá-Lo ao coração dos irmãos.
Porque só permanece dentro de nós aquilo que verdadeiramente amamos. E Jesus só habita o coração quando existe uma relação viva, feita de encontro, de intimidade, de amor e de confiança.
Não basta conhecer Jesus da cabeça.
Não basta falar sobre Ele.
É preciso senti-Lo vivo dentro de nós.
Ninguém dá aquilo que não tem.
Só quem se deixa evangelizar consegue evangelizar.
Só quem experimentou amor consegue levar amor.
Na Ascensão, Jesus elevou-se ao Céu…
mas deixou de estar apenas ao nosso lado para passar a habitar dentro de nós.


Padre João Torres

domingo, 17 de maio de 2026

SOLENIDADE DA ASCENSÃO DO SENHOR

 

https://www.youtube.com/watch?v=lI4FoNviE_8&list=PL7Zt-5fD4oJiakwx-2pcM9HJGGR-RoCZI

A Festa da Ascensão de Jesus, que hoje celebramos, sugere que, no final do caminho percorrido no amor e na doação, está a vida definitiva, a comunhão com Deus. Sugere também que Jesus nos deixou o testemunho e que somos nós, seus seguidores, que devemos continuar a realizar o projecto libertador de Deus para os homens e para o mundo.

O Evangelho apresenta o encontro final de Jesus ressuscitado com os seus discípulos, num monte da Galileia. A comunidade dos discípulos, reunida à volta de Jesus ressuscitado, reconhece-O como o seu Senhor, adora-O e recebe d'Ele a missão de continuar no mundo o testemunho do "Reino".
ornar-se discípulo é, em primeiro lugar, aprender os ensinamentos de Jesus - a partir das suas palavras, dos seus gestos, da sua vida oferecida por amor. É claro que o mundo do século XXI apresenta, todos os dias, desafios novos; mas os discípulos, formados na escola de Jesus, são convidados a ler os desafios que hoje o mundo coloca, à luz dos ensinamentos de Jesus. Preocupo-me em conhecer bem os ensinamentos de Jesus e em aplicá-los à vida de todos os dias?
No dia em que fui baptizado, comprometi-me com Jesus e vinculei-me com a comunidade do Pai, do Filho e do Espírito Santo. A minha vida tem sido coerente com esse compromisso?

Na primeira leitura, repete-se a mensagem essencial desta festa: Jesus, depois de ter apresentado ao mundo o projecto do Pai, entrou na vida definitiva da comunhão com Deus - a mesma vida que espera todos os que percorrem o mesmo "caminho" que Jesus percorreu. Quanto aos discípulos: eles não podem ficar a olhar para o céu, numa passividade alienante; mas têm de ir para o meio dos homens, continuar o projecto de Jesus.
É relativamente frequente ouvirmos dizer que os seguidores de Jesus gostam mais de olhar para o céu do que comprometerem-se na transformação da terra. Estamos, efectivamente, atentos aos problemas e às angústias dos homens, ou vivemos de olhos postos no céu, num espiritualismo alienado? Sentimo-nos questionados pelas inquietações, pelas misérias, pelos sofrimentos, pelos sonhos, pelas esperanças que enchem o coração dos que nos rodeiam? Sentimo-nos solidários com todos os homens, particularmente com aqueles que sofrem?

A segunda leitura convida os discípulos a terem consciência da esperança a que foram chamados (a vida plena de comunhão com Deus). Devem caminhar ao encontro dessa "esperança" de mãos dadas com os irmãos - membros do mesmo "corpo" - e em comunhão com Cristo, a "cabeça" desse "corpo". Cristo reside no seu "corpo" que é a Igreja; e é nela que Se torna, hoje, presente no meio dos homens.
Dizer que fazemos parte do "corpo de Cristo" significa que devemos viver numa comunhão total com Ele e que nessa comunhão recebemos, a cada instante, a vida que nos alimenta. Significa, também, viver em comunhão, em solidariedade total com todos os nossos irmãos, membros do mesmo "corpo", alimentados pela mesma vida. Estas duas coordenadas estão presentes na nossa existência?

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sábado, 16 de maio de 2026

MENSAGEM DO PAPA LEÃO XIV PARA O LX DIA MUNDIAL DAS COMUNICAÇÕES SOCIAIS




   Preservar vozes e rostos humanos



Queridos irmãos e irmãs!

O rosto e a voz são traços únicos e distintivos de cada pessoa; manifestam a sua identidade irrepetível e são elemento constitutivo de cada encontro. Os antigos sabiam-no bem. Para definir o ser humano, os gregos usavam a palavra “rosto” (prósopon), que etimologicamente indica o que está diante do olhar, o lugar da presença e da relação. Por sua vez, o termo latino persona (de per-sonare) inclui o som: não um som qualquer, mas a voz inconfundível de alguém.

Rosto e voz são sagrados. Foram-nos dados por Deus, que nos criou à sua imagem e semelhança, chamando-nos à vida com a Palavra que Ele mesmo nos dirigiu. Uma Palavra que, ao longo dos séculos, ressoou na voz dos profetas e depois, na plenitude dos tempos, fez-se carne. Esta Palavra – esta comunicação que Deus faz de si mesmo – pudemos ainda escutá-la e vê-la diretamente (cf. 1 Jo 1, 1-3), porque se deixou conhecer na voz e no Rosto de Jesus, Filho de Deus.

Desde o momento da criação, Deus quis o ser humano como seu interlocutor e, como disse São Gregório de Nissa, [1] imprimiu no seu rosto um reflexo do amor divino, para que pudesse viver plenamente a sua humanidade através do amor. Preservar os rostos e as vozes humanas significa, portanto, preservar este selo, este reflexo indelével do amor de Deus. Não somos uma espécie feita de algoritmos bioquímicos predefinidos antecipadamente: cada pessoa possui uma vocação insubstituível e irrepetível, que emerge da vida e se manifesta precisamente na comunicação com os outros.

A tecnologia digital, no caso de falharmos nesta preservação, corre o risco de alterar radicalmente alguns dos pilares fundamentais da civilização humana, que por vezes temos como garantidos. Ao simular vozes e rostos humanos, sabedoria e conhecimento, consciência e responsabilidade, empatia e amizade, os sistemas conhecidos como inteligência artificial não só interferem nos ecossistemas informativos, como também invadem o nível mais profundo da comunicação, ou seja, o das relações entre as pessoas.

O desafio, por conseguinte, não é tecnológico, mas antropológico. Preservar os rostos e as vozes significa, em última análise, preservarmo-nos a nós próprios. Aceitar com coragem, determinação e discernimento as oportunidades oferecidas pela tecnologia digital e pela inteligência artificial não é sinónimo de esconder de nós mesmos os pontos críticos, a opacidade e os riscos.



Não renunciar ao próprio pensamento

Há muito tempo que existem múltiplas evidências de que os algoritmos concebidos para maximizar o envolvimento nas redes sociais – rentável para as plataformas – recompensam as emoções rápidas e, ao contrário, penalizam as expressões humanas que requerem mais tempo, como o esforço para compreender e a reflexão. Ao encerrar grupos de pessoas em bolhas de fácil consenso e indignação, estes algoritmos enfraquecem a capacidade de escuta e pensamento crítico, aumentando a polarização social.

Veio somar-se a isto uma confiança ingenuamente acrítica na inteligência artificial como “amiga” omnisciente, dispensadora de todas as informações, arquivo de todas as memórias, “oráculo” de todos os conselhos. Tudo isto pode enfraquecer ulteriormente a nossa capacidade de pensar de forma analítica e criativa, de compreender significados, de distinguir entre sintaxe e semântica.

Embora a IA possa dar apoio e assistência na gestão de tarefas comunicativas, ao abstermo-nos do esforço do próprio pensamento, contentando-nos com uma compilação estatística artificial, corremos o risco de deteriorar, a longo prazo, as nossas capacidades cognitivas, emocionais e comunicativas.

Nos últimos anos, os sistemas de inteligência artificial estão a assumir cada vez mais o controlo da produção de textos, música e vídeos. Grande parte da indústria criativa humana corre o risco de ser destruída e substituída pela etiqueta “Powered by AI”, transformando as pessoas em meros consumidores passivos de pensamentos não pensados, de produtos anónimos, sem autoria nem amor. Ao mesmo tempo, as obras-primas do génio humano no âmbito da música, da arte e da literatura vão sendo reduzidas a um mero campo de treino para as máquinas.

No entanto, a questão que realmente nos interessa não é o que a máquina consegue ou conseguirá fazer, mas o que nós podemos e poderíamos fazer, crescendo em humanidade e conhecimento, com uma inteligente utilização de ferramentas tão poderosas ao nosso serviço. Desde sempre, o ser humano tem sido tentado a apropriar-se do fruto do conhecimento sem o esforço do envolvimento, da pesquisa e da responsabilidade pessoal. Contudo, renunciar ao processo criativo e entregar às máquinas as próprias funções mentais e a própria imaginação significa enterrar os talentos recebidos para crescer como pessoas em relação a Deus e aos outros. Significa esconder o nosso rosto e silenciar a nossa voz.



Ser ou fingir: simulação de relações e da realidade

À medida que navegamos pelos nossos fluxos de informação (feeds), torna-se cada vez mais difícil compreender se estamos a interagir com outros seres humanos ou com “bots” ou influenciadores virtuais. As intervenções não transparentes destes agentes automatizados influenciam os debates públicos e as escolhas das pessoas. Especialmente os chatbots, baseados em grandes modelos linguísticos (LLM), estão a revelar-se surpreendentemente eficazes na persuasão oculta, através de uma contínua otimização da interação personalizada. A estrutura dialógica e adaptativa, mimética, destes modelos linguísticos é capaz de imitar os sentimentos humanos e, assim, simular uma relação. Esta antropomorfização, que pode até ser divertida, é ao mesmo tempo enganadora, especialmente para as pessoas mais vulneráveis. Porque os chatbots tornados excessivamente “afetuosos”, além de estarem sempre presentes e disponíveis, podem tornar-se arquitetos ocultos dos nossos estados emocionais e, desta forma, invadir e ocupar a esfera da intimidade das pessoas.

A tecnologia que explora a nossa necessidade de relacionamento pode não só ter consequências dolorosas para o destino dos indivíduos, mas também prejudicar o tecido social, cultural e político das sociedades. Isso acontece quando substituímos as relações com os outros pelas relações com a IA treinada para catalogar os nossos pensamentos e, portanto, construir à nossa volta um mundo de espelhos, onde tudo é feito “à nossa imagem e semelhança”. Desta forma, deixamo-nos roubar a possibilidade de encontrar o outro, que é sempre diferente de nós e com o qual podemos e devemos aprender a confrontar-nos. Sem aceitar a alteridade, não pode haver nem relação nem amizade.

Outro grande desafio que estes sistemas emergentes colocam é o da distorção (bias, em inglês), que leva a adquirir e transmitir uma perceção alterada da realidade. Os modelos de IA estão moldados pela visão do mundo de quem os constrói e podem, por sua vez, impor modos de pensar, replicando estereótipos e preconceitos presentes nos dados a que acedem. A falta de transparência na construção dos algoritmos, a par da inadequada representação social dos dados tendem a manter-nos presos em redes que manipulam os nossos pensamentos, perpetuando e aprofundando as desigualdades e injustiças sociais existentes.

O risco é grande! O poder da simulação é tal que a IA pode também iludir-nos com a construção de “realidades” paralelas, apropriando-se dos nossos rostos e das nossas vozes. Estamos imersos numa multidimensionalidade, onde se torna cada vez mais difícil distinguir a realidade da ficção.

A isto acrescenta-se o problema da falta de precisão. Os sistemas que apresentam como conhecimento uma probabilidade estatística, na realidade, oferecem-nos, quando muito, aproximações da verdade, que por vezes são verdadeiras “alucinações”. A falta de verificação das fontes, com a crise do jornalismo no terreno, que implica um trabalho contínuo de recolha e verificação de informações nos locais onde os eventos ocorrem, pode favorecer um solo ainda mais fértil para a desinformação, provocando uma crescente sensação de desconfiança, desorientação e insegurança.



Uma possível aliança

Por trás desta enorme força invisível que a todos envolve, está apenas um pequeno grupo de empresas, cujos fundadores foram recentemente apresentados como os criadores da “pessoa do ano de 2025”, ou seja, os arquitetos da inteligência artificial. Isto suscita uma preocupação importante em relação ao controlo oligopolístico dos sistemas algorítmicos e de inteligência artificial capazes de orientar subtilmente os comportamentos e até mesmo de reescrever a história da humanidade – incluindo a história da Igreja –, muitas vezes sem que possamos ter real consciência disso.

O desafio que nos espera não é impedir a inovação digital, mas sim orientá-la, estando conscientes do seu caráter ambivalente. Cabe a cada um de nós levantar a voz em defesa das pessoas, para que estas ferramentas possam realmente ser integradas por nós como aliadas.

Esta aliança é possível, mas tem de se basear em três pilares: responsabilidade, cooperação e educação.

Em primeiro lugar, a responsabilidade. Ela pode ser definida, consoante as funções, como honestidade, transparência, coragem, visão, dever de partilhar conhecimento, direito de ser informado. Porém, em geral, ninguém pode fugir à sua responsabilidade diante do futuro que estamos a construir.

Para quem está no comando das plataformas on-line, isso significa garantir que as próprias estratégias empresariais não sejam norteadas pelo exclusivo critério da maximização do lucro, mas por uma visão clarividente que tenha em conta o bem comum, da mesma forma que cada um deles se preocupa com o bem-estar dos seus filhos.

Aos criadores e desenvolvedores de modelos de IA, é exigida transparência e responsabilidade social em relação aos princípios de criação de projetos e aos sistemas de moderação que estão na base dos seus algoritmos e dos modelos desenvolvidos, de modo a permitir um consentimento esclarecido aos utilizadores.

Igual responsabilidade é pedida aos legisladores nacionais e reguladores supranacionais, que têm a função de zelar pelo respeito da dignidade humana. Uma adequada regulamentação pode proteger as pessoas duma ligação afetiva com os chatbots e conter a disseminação de conteúdos falsos, manipuladores ou deturpados, preservando a integridade da informação face à sua simulação enganosa.

Por sua vez, as empresas dos mass media e da comunicação não podem permitir que algoritmos orientados para vencer a qualquer custo a batalha por alguns segundos de atenção a mais prevaleçam sobre a fidelidade aos seus valores profissionais, voltados para a busca da verdade. A confiança do público conquista-se com a precisão e a transparência, não com a corrida por uma participação qualquer. Os conteúdos gerados ou manipulados pela IA devem ser sinalizados e claramente distinguidos dos conteúdos criados por pessoas. A autoria e a propriedade soberana do trabalho dos jornalistas e outros criadores de conteúdo devem ser protegidas. A informação é um bem público. Um serviço público construtivo e significativo não se baseia na opacidade, mas na transparência das fontes, na inclusão dos sujeitos envolvidos e num elevado padrão de qualidade.

Todos somos chamados a cooperar. Nenhum setor pode enfrentar sozinho o desafio de liderar a inovação digital e governar a IA. Por isso, é necessário criar mecanismos de salvaguarda. Todas as partes interessadas – desde a indústria tecnológica aos legisladores, das empresas de criação ao mundo académico, dos artistas aos jornalistas e educadores – devem estar envolvidas na construção e na efetivação de uma cidadania digital consciente e responsável.

O objetivo da educação é este: aumentar as nossas capacidades pessoais de refletir criticamente, avaliar a credibilidade das fontes e os possíveis interesses por trás da seleção das informações que nos chegam, compreender os mecanismos psicológicos que elas ativam, permitir às nossas famílias, comunidades e associações a elaboração de critérios práticos para uma cultura de comunicação mais saudável e responsável.

Precisamente por isso, cada vez mais, é urgente introduzir também, em todos os níveis dos sistemas educativos, a literacia para os meios de comunicação social, a informação e a IA, que algumas instituições civis já estão a promover. Como católicos, podemos e devemos dar o nosso contributo, para que as pessoas – especialmente os jovens – adquiram a capacidade de pensamento crítico e cresçam na liberdade do espírito. Esta literacia deveria ainda ser integrada em iniciativas mais amplas de educação permanente, alcançando igualmente os idosos e os membros marginalizados da sociedade, que muitas vezes se sentem excluídos e impotentes perante as rápidas mudanças tecnológicas.

A literacia para os meios de comunicação, a informação e a IA ajudará todos a não se adaptarem à tendência de antropomorfização destes sistemas, mas a tratá-los como ferramentas, a recorrer sempre a uma validação externa das fontes – que podem ser imprecisas ou erradas – fornecidas pelos sistemas de IA, a proteger a própria privacidade e os próprios dados, conhecendo os parâmetros de segurança e as opções de reclamação. É importante educar e educar-se para utilizar a IA de forma intencional e, neste contexto, proteger a própria imagem (fotos e áudio), o próprio rosto e a própria voz, para evitar que sejam utilizados na criação de conteúdos e comportamentos prejudiciais, como fraudes digitais, ciberbullying, deepfake, que violam a privacidade e a intimidade das pessoas sem o seu consentimento. Assim como a revolução industrial exigiu uma alfabetização mínima para permitir que as pessoas reagissem às novidades, também a revolução digital exige uma literacia digital (com uma formação humanística e cultural) para compreender como os algoritmos moldam a nossa perceção da realidade, como funcionam os preconceitos da IA, quais são os mecanismos que determinam o aparecimento de determinados conteúdos nos nossos fluxos de informação (feeds), quais são e como podem mudar os pressupostos e modelos económicos da economia da IA.

É necessário que o rosto e a voz voltem a dizer a pessoa. É necessário preservar o dom da comunicação como a mais profunda verdade do ser humano, para a qual também se deve orientar toda a inovação tecnológica.

Ao propor estas reflexões, agradeço a todos aqueles que estão a trabalhar para os objetivos aqui apresentados e, de coração, abençoo quantos trabalham para o bem comum através dos meios de comunicação.



Vaticano, na Memória de São Francisco de Sales, 24 de janeiro de 2026.



LEÃO XIV PP.