sábado, 30 de maio de 2026

OBRIGADO, SENHORA ENFERMEIRA, BEM HAJA!...


Há doenças na sociedade que precisam de grandes cuidados profiláticos, mesmo que não estejam debaixo da alçada da OMS, da DGS e do SNS. Se, infelizmente, alguns já não têm cura e outros haja gravemente afetados, bom seria que ninguém mais se viesse a contaminar. Os medicamentos estão à mão de semear, são gratuitos, indolores e tomam-se em casa. No entanto, porque são gratuitos, há quem os rejeite, como se estivessem fora de prazo ou fossem umas mezinhas sem sentido. Preferem sofrer, sob aparências de boa saúde e desafogo. No jornal Público do passado dia 24 de maio, Carmen Garcia, que também se identifica como Enfermeira, num artigo intitulado “Isto está a fugir-nos das mãos”, fala-nos de tal andaço, pois, “tanto faz não é resposta”. Quando os do meu mister e eu falamos disso, cai o Carmo e a Trindade, não sei se os Clérigos e os Jerónimos também. Por isso, com a devida vénia, vou levar a mais alguns leitores o trabalho desta senhora Jornalista e Enfermeira. Denuncia factos empiricamente verificáveis e, acredito eu, sem ver e ouvir os peritos, acredito eu que são cientificamente consensuais entre os pedagogistas como coisas a evitar. Faço-o com gratidão e em jeito de oferta vacinatória, mesmo que vá pelejar com muitos negacionistas e interessses. Escreve ela sob o título: “Isto está a fugir-nos das mãos”:
“Hoje o meu filho Pedro faz a sua Primeira Comunhão. É um dia especial para ele e fico muito feliz por vê-lo tão empenhado e tão contente por ser, como ele diz, “amigo de Jesus”. Além disso, acho que o facto de finalmente poder comungar está a fazê-lo sentir-se crescido – ouço-o falar para o irmão, apenas um ano mais novo, e dizer coisas como “na hora de comungar tu ainda vais ter de ficar no banco com os pequenos”. Então, sim, hoje é um dia importante e espero que a celebração da eucaristia lhe fique na memória - eu ainda me lembro da minha comunhão como se fosse hoje e a verdade é que já lá vão 31 anos. Mas é “só” isso. Notem as aspas na palavra só, por favor. Que fique claro que não estou, de todo, a desvalorizar a importância deste sacramento - estou simplesmente a tentar trazê-lo para o patamar da fé que é aquele de onde nunca devia ter saído. Os espanhóis têm como expressão óptima para aquilo que quero dizer com esta crônica: “Se nos ha ido de las manos”. Que é como quem diz que estamos absolutamente descontrolados. E no que toca a este tipo de celebração confesso-vos que não fazia ideia do nível de alucinação global instalado. É claro que o exagero em que se tornaram as festas de aniversário infantis me devia ter alertado, mas como insisto em ignorar os espaços com decorações caríssimas, as mesas com mais luxo do que comida, os bolos ao preço do ouro e as actividades pensadas ao pormenor, acabei por me distrair. Mas quando esta semana me perguntaram se já tinha vestido para a missa senti que os alarmes me disparavam no cérebro. “Como assim, vestido?” – perguntei. E a pessoa lá me explicou que até há marcas com colecções próprias para mães de meninos que fazem a Primeira Comunhão. E eu fui ver. E depois vi o resto. E fiquei assustada.
A sério, quando é que passámos da missa e de um almoço em família, muitas vezes em casa, para festas que parecem autênticos casamentos? Eu que fiquei toda contente porque o Pedro e os colegas vão todos vestidos com uma alva do colégio e, assim, não tenho de gastar mais dinheiro, afinal agora tenho de ir comprar roupa para mim?
Lamento, mas não vai acontecer. Prefiro arriscar as minhas chances de ser a mais malvestida na Igreja. Tenho a certeza que Jesus não se vai importar e que, para o meu filho, almoçar com os pais, os irmãos e os avós é mais do que o suficiente.
Mas, sim, dei-me ao trabalho, depois da conversa do vestido, de ir espreitar como são agora às primeiras comunhões. E descobrir que há quem faça créditos para pagar estas celebrações, com vestidos e fatos caríssimos e festas onde são servidos almoços de três pratos. Se acho mal? Por acaso acho um bocadinho, mas quem gosta e pode que se sinta livre. Agora não tentem é normalizar este exagero e fingir que sempre foi assim.
Falamos de um sacramento que aproxima as crianças de Jesus e que, de repente, se transformou em mais uma oportunidade de negócio para uns e de encher o Instagram de fotografias bonitas para outros. Ostentação, ostentação e mais ostentação. E gastar, muitas vezes, o dinheiro que não se tem porque isto, já se sabe, o que importa é parecer, fazer inveja às amigas e mostrar que o meu filho teve uma festa mais bonita do que o teu.
Atualmente tudo é uma produção. Uma simples festa de aniversário passou a precisar quase de um diretor artístico. E a Primeira Comunhão, que deve ser um sacramento associado a humildade e espiritualidade, foi transformado num verdadeiro espetáculo de ostentação.
Sei que muita gente vai ler esta crónica e pensar “mas o que é que ela tem que ver com o que os outros fazem com o seu dinheiro?”. E a resposta é que não tenho rigorosamente nada. Mas assusta-me a nossa necessidade de transformar tudo em excesso e as consequências que isso pode ter para os nossos filhos e para uma geração inteira. Será que não percebemos que, cada vez mais, estamos a dizer aos nossos filhos que o amor se mede em espetáculo e que a felicidade precisa de excesso? Estamos a criar uma geração que vai crescer e acreditar que tudo deve ser grandioso e fotografável e que o simples é insuficiente.
Os nossos filhos crescem sem conhecer o tédio e improviso. E a acharem que o mundo os deve celebrar como se fossem uma espécie de pequenos sóis à volta de quem todos devem engravidar. E depois de os enchermos com expectativas irreais ficamos muito preocupados quando percebemos que não sabem lidar com a frustração. Pela forma como os educamos ninguém diria que havia uma forte probabilidade de que isso acontecesse, pois não?
Transformamos o exagero no novo normal de tal forma que quem se recusa a entrar na onda e insiste no mais simples corre o risco de parecer desinteressado ou pouco dedicado aos filhos. Porque hoje o amor parece medir-se no valor dos vestidos, no tamanho dos insufláveis e nas lembranças personalizadas que se distribuem no final das festas.
Essas crianças vão crescer. E quando isso acontecer, a vida vai encarregar-se a lhes demonstrar que no lugar das mesas temáticas e dos fotógrafos profissionais o que existe são trabalhos repetitivos, relações imperfeitas e que a maioria dos momentos vividos é muito pouco Instagramável.
Estamos a criar a volta dos miúdos uma espécie de parque temático emocional permanente: tudo é feito para o entreter, estimular e ser memorável. E enquanto fazemos isto vamos-lhes roubando a capacidade de encontrarem prazer e serem felizes na normalidade. E isto, se pensarmos bem, diz muito sobre nós: inseguros, desesperados por validação e cada vez mais incapazes de aceitar a simplicidade da vida.
Aos poucos fomos deixando de fazer coisas que nos fazem felizes e passámos a fazer coisas que nos fazem ser vistos, admirados e invejados. Falamos de saúde mental e enchemos a boca a dizer que queremos proteger os nossos filhos, mas ao mesmo tempo colocamo-los no centro de uma lógica onde tudo tem de ser extraordinário: a festa simples é insuficiente; o presente modesto sabe a pouco e se não dá para fotografias bonitas é quase como se nem tivesse acontecido.
E atenção: eu percebo perfeitamente porque é que isto acontece. Também tenho momentos em que olho para as redes sociais e penso se não estarei a dar “pouco” aos meus filhos. O problema é que se for atrás da competição vou acabar transformada numa espécie de Sísifo e viver pela eternidade a tentar completar uma tarefa que nunca acaba. Porque nunca nada será suficiente.
Quero acreditar que ainda vamos a tempo de travar isto um bocadinho e de devolver alguma simplicidade à vida. Tenho esperança de que, mais dia menos dia, o nosso bom senso ganhe a corrida. Até lá, o Pedro faz a primeira comunhão e eu não levo um vestido.
Nesta tema escolho fazer parte da resistência”.
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D. Antonino Dias
Caminha, 29-05-2026.

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