quarta-feira, 20 de maio de 2026

Estar presente para o que se sente?



Tenho notado que é muito difícil (tanto para os adultos como para as crianças) estar presente para as suas emoções, sentimentos, ou experiências mais avassaladoras. Como professora, vejo que nem sempre é natural (para os mais novos ou mais jovens) encontrar espaço para acomodar aquilo que sentem. Se estivermos a falar de um sentimento de celebração, alegria e festa é fácil encontrar razões para o partilhar, para falar dele, para o deixar expandir dentro de nós e para o tornar rastilho também para os outros.

Mas se, por outro lado, estivermos a falar de uma súbita vontade de chorar, de uma tristeza que chega sem aviso prévio ou de uma raiva que nos queima por dentro, aí, já o caso muda de figura.

A primeira reação é a de esconder. Disfarçar. Não falar sobre o assunto. Colocar o manto da autocrítica e assumir de imediato que estamos a ser fracos. Ou que precisamos de ser fortes. E esse impulso de varrer para longe aquilo que nos deixa mais vulneráveis vai, simplesmente, agigantar os sentimentos e as sensações que pretendemos “eliminar” ou dissipar.

Enquanto educadores, pais, colegas, amigos, irmãos, filhos, precisamos de aprender a acolher melhor as nossas emoções (especialmente as que são socialmente menos aceites). Precisamos de encontrar espaços internos seguros para dar asas ao choro, à tristeza ou a raiva sem nos sentirmos culpados ou inferiorizados.

E, mais importante ainda, precisamos de ajudar as crianças e jovens que fazem parte das nossas vidas a construir, também, esse espaço interno. É urgente que sejamos exemplos vivos de autorregulação, de amor pelo que é e pelo que se sente, seja isso o que for.

É urgente encontrar nas escolas, nas salas de aula, nos recreios, em casa ou em família espaços para, simplesmente, sermos o que somos. Com tudo o que isso implica. Ouvir, dar atenção, estar presente, aceitar ficar desconfortável, aceitar nem sempre saber lidar com o muito que o outro nos traz. Tudo isto é de uma importância tremenda e, quando lha dermos, acredito que poderemos ser testemunhas de verdadeiras transformações enquanto seres humanos adultos a guiar seres humanos de, e para, o futuro.


Marta Arrais

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