sexta-feira, 31 de julho de 2026

DOS PESSIVISTAS AOS PICA-MIOLOS E DOGMÁTICOS



Há dias, entrando numa dessas superfícies onde há milhares de milhentas coisas de que eu não preciso, passei pela secção dos livros, uma secção bem mais aliviada daquele frenesim que por lá se mexe e remexe. Dei volta, olhei, peguei, folheei, reconheci o autor e trouxe ‘O Século dos Imbecis’, de Valter Hugo Mãe. Dentro do valor da obra, da arte na escrita e da valia do autor, gosto de leituras que disponham bem, que tenham humor, que façam rir, que deixem marca e conteúdo, que enriqueçam. O mundo, mesmo que se divirta sob muitas e variadas formas, inclusive sob a desafinada polifonia de políticos a lerem fora da pauta com prejuízo da arte nobre que é a política, o mundo – dizia eu -, anda demasiadamente macambúzio, vive sem grande apreço pela beleza, pela graça, pela jocosidade. Sem se sair de casa, os livros são um excelente tgv para, sem necessidade de gps, nos levarem às lonjuras geográficas e humanas, nem que seja até à Malandrinha, à sua gente e gente de ao redor, sem esquecer os principais protagonistas que animam a sua história, cada um ao seu jeito e propósito. Carreguei o livro como se fosse uma balança digital de referência com fita métrica associada. Sem receio da obesidade ou da magreza, senti vontade de me pesar, medir e ver se estaria dentro dessa plêiade emburrada que enche o século de imbecis, ou se ainda poderia afirmar como José Régio no seu ‘Cântico Negro’: “Sei que não vou por aí”.
Ainda não conclui o empreendimento. Vou indo, como quem aprecia um doce que desejaria não acabasse. Atendendo, porém, à mensagem da parábola do trigo e do joio (Mt 13, 24-30), estou convencido que muita coisa me vai dar pela barba. No mundo, há trigo e joio a crescerem juntos. Cada um de nós também é um mundo: e que mundo! Aí, também há joio e trigo, subidas e descidas, montanhas e vilas, lucidez e confusão, interesses e desinteresses, luz e trevas, noite e dia... e quem disser que não, que atire a primeira pedra! (cf. Jo 8, 7).
O Marquês da Malandrinha é o protagonista principal do livro, mas, para dar título a este texto, deitei mão da Pessivista, achei graça ao termo e à personagem. É uma “ativista pessimista” de se lhe tirar o chapéu. Entre as suas ações e influências, positivas e negativas, ela policia “os costumes para impor limites à euforia e ao deslumbre”, assim diz o autor sobre todos os pessimistas. São gente “cujo feitio inquina as boas intenções e não vê senão a óbvia derrocada das condutas humanas ... são agentes de corrosão que assinalam a derrocada do que ainda só começa a ser construído ... adoram responsabilizar e exigem indemnizações, compensações, reversões, demissões, direitos, muita igualdade”. Onde diabo é que eu já ouvi destas aves agoirentas, logo ampliadas pelos altifalantes dos pica-miolos?!... Sim, os pica-miolos existem, resistem, insistem, persistem, não desistem de martelar no sótão de qualquer bípede humano, por mais justo e expedito que seja. O objetivo é colocar-lhes a paciência a pique, ko, nocaute. Dizem os estudiosos que o pica-pau – não o antropomórfico de walter Lantz, mas o conhecido entre nós por Peto -, dizem que bate o bico 100 vezes por minuto sobre o tronco das árvores para se alimentar de larvas e insetos e fazer o seu ninho. Os pica-miolos, porém, vão muitíssimo mais além! Se o fizessem num só minuto apenas, seria suportável. Mas fazem-no até à exaustão, noite e dia, dia e noite, tarde e manhã, manhã e tarde, em toda a parte e por todos os meios: o zapping é testemunha! Também sabemos que os pica-cebola - os de carne e osso -, muitas vezes não resistem aos sulfuretos e enzimas que as cebolas libertam ao serem descascadas e sacrificadas em prol dos pitéus culinários. Choram e choram, não por comoção e pena da cebola, mas para lavar, limpar e defender os olhos daquele gás ácido com que a cebola tenta defender-se. Os pica-miolos, mesmo que os descascados estrebuchem, esperneiem, barafustem e lhes arremessem o ácido da sua indignação até à sua consciência, não sentem comoção nem pena, não choram, têm prazer em torturar de forma lenta e persistente. Uns baseiam-se no dever de informar, querem chegar primeiro, vender o produto e manifestar trabalho, competência e zelo: repetem, repetem, repetem, repetem, uf... são fãs de Napoleão, o qual teria dito que a melhor figura de retórica é a repetição; outros apoiam-se no direito de ser informados, mesmo que isso venha a manifestar curiosidade mórbida e apenas interesse em abater o alvo: exigem mais explicações, e mais, e mais, e mais, e mais: uma exigência sempre em aberto e nunca satisfeita. Outros ainda reclamam o dever de escrutinar, sem que o escrutínio tenha limites ou linhas vermelhas, logo degenerando em fofoquice: e mais isto que a lei diz e eu interpreto assim, e mais aquilo que vem de fonte fidedigna, e mais tal e tal que eu li nas páginas amarelas, e mais aquilo que me disse um amigo do meu amigo no café da esquina, ih...
É verdade que não é tudo farinha do mesmo saco, sim, é verdade. Há quem procure, honesta e respeitosamente, e informe, denuncie, escrutine e peça as necessárias explicações, mesmo quando alguém possa pensar que o seu estatuto não pode descer a esse nível para dar explicações. Sim, há quem trabalhe e lute, com dignidade, para que o bem comum seja saudável e intelectualmente habitável! Mas perante os que são farinha daquele outro saco, até um santo como Job, de fusíveis NH bem mais reforçados, terá dificuldade em resistir. São como abelhas à volta da cortiço, não para defender a rainha, mas para ver quem a descarta, mais depressa e primeiro. Olham sempre de cima para baixo, julgando-se exemplares. Na vigília do dia 5 de agosto de 2023, em Lisboa, o Papa Francisco dizia que “a única situação em que é legítimo olhar para uma pessoa de cima para baixo é para a ajudar a levantar-se. Quantas vezes vemos as pessoas olharem para nós assim, por cima do ombro, de cima para baixo? É triste.”
Muito para lá do tempo dos afonsinhos, já o rei David dizia que é “melhor cair nas mãos de Deus, pois a sua misericórdia é grande, do que cair nas mãos dos homens” (2Sam 24, 13-14).
Tanta gente difamada pelos fiscais da sociedade em braço dado com os pica-miolos. Há quem se julgue com todos os direitos e deveres nenhuns. Neste mundo e no mundo que cada um de nós também é, há trigo e joio, todos temos disso um pouco. Os dogmáticos, aqueles que acham que são diferentes, que são apenas trigo e defendem as suas opiniões como verdade absoluta e inquestionável, mas deixam dúvidas sobre gato escondido com rabo de fora, logo entram em suspeita de acumulação de joio, tornando-se presa apetitosa para ‘pessivistas’ e pica-miolos, não deixando de preocupar quem deseja estabilidade e melhor bem comum. Como Manuel Carvalho refere no Público de ontem, há quem tenha “um apurado instinto necrófago para aproveitar oportunidades destas”. Só a verdade e a humildade nos libertará, disse-nos Cristo.

D.Antonino Dias
Caminha, 31-07-2026.

Desejamos muito, precisamos de pouco



Desejamos muito, precisamos de pouco


Os nossos desejos são infinitos, mas são poucas as verdadeiras necessidades.

Julgamos que a felicidade está em possuir muito, ou mesmo tudo o que desejamos. No entanto, o caminho de ir satisfazendo os desejos não é bom porque leva sempre a novas e maiores carências de coisas que, na realidade, não são importantes. A satisfação dos desejos só seria boa se soubéssemos o que devíamos desejar.

Muitas pessoas desprezam as suas necessidades, que tomam por caprichos, enquanto consideram essencial aquilo que é, na verdade, uma inutilidade.

Hoje, talvez como nunca, as pessoas anseiam e acabam por se entristecer em virtude dos seus desejos pelas coisas supérfluas. Muitos têm até mais do que precisam para serem felizes, mas é o seu desejo de possuir o que não tem verdadeiro valor que os faz infelizes – talvez com alguma justiça.

O que é mais importante: uma casa ou uma família? E se só pudermos escolher uma delas?

É preciso ouro ou pão para ser feliz?

Imaginamos muitas vezes o que faríamos se ganhássemos uma enorme fortuna num qualquer sorteio. Mas, por exemplo, eu não trocaria nenhuma das minhas filhas pelo maior prémio do Euromilhões. Então, por que razão não me sinto mais feliz por ser pai delas do que me sentiria se esse prémio me tivesse calhado?

Precisamos de viver com todo o coração tudo quanto já somos e temos. Deixemos as lutas pelas coisas materiais para quem acredite que é nelas que está a sua paz e serenidade.

Precisamos de ter a coragem de saber no nosso íntimo o nosso valor, sem que nos importemos com o que o mundo diz. Confiemos na vida e em tudo o que nos chegar. Muitos obstáculos são marcas de bom caminho.

Precisamos de amor e de nos centrarmos nisso mais do que em qualquer desejo superficial que nos pode distrair e… destruir.

Precisamos de menos do que desejamos e de mais do que merecemos.


José Luís Nunes Martins

quinta-feira, 30 de julho de 2026

O lugar onde mora o teu coração



O lugar onde mora o teu coração


Há uma pergunta que atravessa toda a Bíblia e que raramente fazemos a nós próprios: onde mora o meu coração?

Não me refiro ao órgão que pulsa no peito, mas àquele centro invisível onde nascem as decisões, os afetos, os medos, os sonhos e a fé. Na linguagem bíblica, o coração é o lugar da pessoa inteira. É aí que Deus fala, que a consciência desperta e que se decide a santidade ou a ruína.

Por isso, o livro dos Provérbios adverte: «Acima de tudo, guarda o teu coração, porque dele brotam as fontes da vida» (Pr 4,23).

Vivemos, porém, numa época estranhamente preocupada em cuidar de tudo, menos do coração. Protegemos os nossos investimentos, fazemos cópias de segurança dos nossos ficheiros, contratamos seguros para as casas e os automóveis, contamos passos, calorias e horas de sono. Mas quem protege o coração da erosão do orgulho, da inveja, da indiferença ou da desesperança?

A ferrugem da alma não faz ruído.

Instala-se lentamente. Primeiro desaparece a capacidade de admirar. Depois deixa-se de agradecer. Em seguida, perde-se a alegria de servir. Finalmente, deixa-se de acreditar que alguém ainda pode mudar. O coração endurece sem que quase ninguém dê por isso.

Foi esta tragédia que os profetas denunciaram vezes sem conta. Ezequiel anuncia a promessa de Deus: «Dar-vos-ei um coração novo e porei em vós um espírito novo; arrancarei do vosso peito o coração de pedra e dar-vos-ei um coração de carne» (Ez 36,26).

A conversão cristã não consiste, antes de mais, em mudar comportamentos. Consiste em deixar que Deus transforme o coração. Afinal, toda a história da salvação é a história de um Deus que procura o coração do homem para nele fazer a sua morada.

Santo Agostinho compreendeu-o como poucos. Depois de procurar a felicidade em tantos lugares, escreveu a frase que continua a ecoar ao longo dos séculos: «Fizeste-nos para Ti, Senhor, e o nosso coração está inquieto enquanto não repousar em Ti.» Não é uma inquietação psicológica; é uma saudade ontológica. O coração humano foi criado para o infinito e nunca encontrará descanso definitivo nas coisas finitas.

Talvez por isso Jesus fale tantas vezes do coração. Não começa pelas mãos, mas pelo interior. «Onde está o teu tesouro, aí estará também o teu coração» (Mt 6,21). O Evangelho nunca se limita a corrigir gestos; procura converter desejos. Porque uma vida muda verdadeiramente quando muda aquilo que ama.

O mundo moderno convida-nos a seguir o coração. O Evangelho propõe algo mais exigente: educar o coração, purificá-lo e orientá-lo para o Bem. Nem tudo o que sentimos nos aproxima da verdade. Nem todos os desejos conduzem à liberdade. Um coração sem Deus pode confundir paixão com amor, impulso com vocação, sucesso com felicidade. A verdadeira liberdade nasce quando o Espírito Santo molda os nossos afetos à medida do Coração de Cristo.

É por isso que a liturgia permanece sempre nova. Em cada Eucaristia, antes de entrarmos na grande Oração Eucarística, o celebrante lança um convite que atravessa quase dois milénios de tradição cristã: «Corações ao alto!» — Sursum corda. Não é uma simples fórmula ritual. É um programa de vida. Desde os primeiros séculos, a Igreja recorda-nos que o coração não foi criado para rastejar entre as coisas passageiras, mas para se elevar até Deus. Quem responde «O nosso coração está em Deus» compromete-se a viver com o olhar voltado para o Alto, sem fugir às responsabilidades da terra. É a síntese admirável da espiritualidade cristã: pés firmes no mundo, coração inteiramente em Deus.

A Igreja não nos pede que desprezemos a realidade terrestre, mas que não lhe entreguemos o coração. Quem absolutiza o sucesso acaba escravo do fracasso; quem idolatra a riqueza descobre que ela não compra a paz; quem vive apenas para o imediato perde o horizonte da eternidade.

No fundo, a santidade talvez seja isto: conservar o coração suficientemente livre para que Deus continue a habitá-lo.

No Evangelho, Cristo não promete uma vida sem cruz, mas um coração novo capaz de transformar a cruz em caminho de ressurreição. É esse coração que perdoa quando todos condenam, espera quando tudo parece perdido, ama quando o egoísmo se torna regra e permanece fiel quando a cultura da descartabilidade convida a desistir.

Guardemos, pois, o coração. Não por sentimentalismo, mas porque ele é o verdadeiro altar onde Deus deseja ser adorado. Que nunca o deixemos apodrecer entre as pequenas ambições, os ressentimentos ou as ilusões efémeras. Elevemo-lo todos os dias, como a Igreja nos ensina desde os tempos apostólicos: Sursum corda! Corações ao alto. Porque só um coração elevado por Deus é capaz de elevar o mundo.


Sérgio Carvalho

quarta-feira, 29 de julho de 2026

Quando tudo para, o que continua a mover-nos?

 



O corpo não tem raiz.
Ditado popular


Hoje, é tempo de parar o corpo, a mente, o trabalho e a azáfama diária.

O que nunca para é o coração.

A Fé alimenta o coração humano com uma Esperança infinita.


O nosso coração acredita com todas as forças que é possível alcançar a felicidade.

Esta é a razão pela qual o coração palpita.

Faz o coração cumprir a sua missão com um ânimo bombástico.

E dá-lhe a capacidade de escutar a voz de Deus!


Escutar o chamamento do Pai, estar atento aos Seus pequenos sinais diários,

afasta-nos de uma vida morna.

Arrasta-nos para um imenso campo, repleto de tesouros por descobrir.

Predestina-nos uma pérola por cada gesto de amor.

Acolhe-nos como rede que salva e não mata.


Como Salomão, peçamos a Deus a graça de uma inteligência enraizada no coração.

Uma grande inteligência num coração de pedra não dá fruto.

Vamos cuidar do nosso coração?


Receituário:

Eucaristia aos Domingos!

Palavra de Deus meditada aos Sábados!

Oração diária!

Fé nos desígnios do Pai!

Esperança na promessa do Filho!

Caridade sem limites iluminada pelo Santo Espírito!


Liliana Dinis,


terça-feira, 28 de julho de 2026

As nomeações de párocos:

 


As nomeações de párocos: como uma cesariana que deixa cicatrizes
Há dores que não significam que algo correu mal.
Significam apenas que houve amor.
Uma mãe que dá à luz por cesariana leva consigo uma cicatriz. Não é uma ferida que fala de fracasso. É uma marca que recorda que a vida passou por ali. Que foi preciso abrir para que alguém pudesse nascer.
As nomeações de párocos fazem-me pensar nessa imagem. Também elas deixam cicatrizes.
No sacerdote que faz as malas sem levar consigo as pessoas que aprendeu a amar.
Na comunidade que vê partir aquele que batizou os seus filhos, abençoou o seu casamento, acompanhou os seus doentes, sepultou os seus familiares, escutou os seus silêncios e lhes anunciou, domingo após domingo, que Deus nunca abandona os seus filhos.
É natural que doa. Só sofre quem amou. Só custa deixar quem se tornou família. O problema começa quando transformamos uma cicatriz numa ferida que nunca queremos deixar sarar.
É curioso. Aceitamos com naturalidade que um médico seja colocado noutro hospital, que um professor mude de escola, que um juiz seja transferido, que um militar parta para outra missão. Mas quando um sacerdote é enviado para outra comunidade, sentimos quase uma injustiça.
Talvez porque um padre não ocupa apenas um lugar. Ocupa um espaço no coração.
E isso não se substitui. Nem deve ser substituído. Guarda-se. Agradece-se. Mas também se entrega.
Ninguém na bancada da igreja conhece a totalidade das urgências, dores e solidões de uma diocese inteira. Uma nomeação não é feita contra uma comunidade; é feita a pensar no bem de todas.
Na Igreja, os sacerdotes não se escolhem: enviam-se. As comunidades não se possuem: acolhem-se. E a pergunta que nos salva não é "Porque é que ele vai embora?", mas sim: "Que comunidade seremos nós para quem está prestes a chegar?"
Que saibamos guardar a gratidão sem a transformar em prisão, e olhar para a cicatriz não como uma ferida aberta, mas como a marca de um caminho que continua.

Padre João Torres

O amor a falar-nos

 




Aqueles abraços que chegam, de mansinho, e que abrigam tudo em nós.

Aquelas mãos que seguram as nossas como quem nos segura o coração.

Aqueles olhares que se demoram em nós com ternura.

Aqueles sorrisos que tornam o nosso dia mais bonito.

Aquelas palavras que nos confortam a alma.

Aqueles silêncios que nos sentem o coração.

Aquelas mensagens que chegam no momento certo.

Aquelas companhias que, só por estarem, fazem tudo melhorar.

Aqueles gestos que nos fazem sorrir.

Aquelas pessoas que nos recordam que, faça chuva ou faça sol, estão sempre perto de nós.

São formas que o amor vai encontrando, todos os dias, para se pousar em nós.

Na poesia das coisas simples, na bondade que ainda existe.

E para nos recordar que ele – o amor – ainda mora aqui.

 Daniela Barreira


segunda-feira, 27 de julho de 2026

Movidos pela alegria

 


Se Deus nos aparecesse em sonhos e nos dissesse:
“Pede o que quiseres”, o que pediríamos?
Talvez muitos de nós responderíamos:
– Saúde para nós e para aqueles que amamos;
– O Euromilhões para ter uma vida descansada;
– Um emprego seguro;
– Uma casa digna;
– Mais reconhecimento, fama ou poder.
Mas o jovem rei Salomão surpreende-nos. Quando Deus lhe oferece a possibilidade de pedir tudo, ele não pede “longa vida, riqueza ou a morte dos seus inimigos”.
Pede uma sabedoria lúcida, que não lhe roube a alegria de uma vida simples.
Pede uma inteligência fundada no amor, capaz de olhar para além do imediato, para além das aparências, para além daquilo que parece ser importante aos olhos do mundo.
O Evangelho deste domingo recolhe algumas parábolas brilhantes de Jesus, que pretendem comunicar algo, que tantas vezes esquecemos: o encontro com Deus. É a coisa mais bela que nos pode acontecer, é uma surpresa pela qual vale a pena abandonar tudo, uma alegria que nos faz esquecer todo o resto. Mas para que tal aconteça temos que agir com astúcia e urgência.
É mesmo necessário submeter a nossa vida àquela intensa rajada de verbos: «Vai, vende, dá, vem e segue-me!» (Mateus 19,21).
O QUE É DEIXAR TUDO, VENDER TUDO?
Esse “tudo” que é o acumular de coisas e de amarras; de preconceitos e rotinas; de justificações e mágoas, de seguranças e proteções...
Podíamos perguntar: o que é que eu ganho com isso?
GANHO ALEGRIA!
“Nunca é tarde na vida para começar a viver...
A perspetiva com que olhamos as situações marca a diferença: o que fazemos rotineiramente, o ambiente que criamos,
- as relações, o trabalho, as atividades que descobrimos,
- a abertura ao saber, as escolhas, e até a fé e o amor...
TUDO PODE SER MELHOR.
E só não é melhor porque nos acomodamos.
Porque preferimos o muito ao melhor!

Padre João Torres

domingo, 26 de julho de 2026

Deus habita em nós

 

https://www.youtube.com/watch?v=JcKfjlVOBAg&list=PLAqKRngqwuSfPdOPEvu7KzjdvMvB1w33f&index=156

A liturgia deste domingo convida-nos a reflectir nas nossas prioridades, nos valores sobre os quais fundamentamos a nossa existência. Sugere, especialmente, que o cristão deve construir a sua vida sobre os valores propostos por Jesus.

A primeira leitura apresenta-nos o exemplo de Salomão, rei de Israel. Ele é o protótipo do homem "sábio", que consegue perceber e escolher o que é importante e que não se deixa seduzir e alienar por valores efémeros.
Algumas pessoas e grupos com um peso significativo na opinião pública procuram vender a ideia de que a realização plena do indivíduo está num conjunto de valores que decidem quem pertence à elite dos vencedores, dos que estão na moda, dos que têm êxito... Em muitos casos, esses valores propostos são realidades efémeras, materiais, secundárias, relativas. Quase sempre, por detrás da proposição de certos valores, estão interesses particulares e egoístas, a tentativa de vender determinada ideologia ou a preocupação em tornar o mercado dependente dos produtos comerciais de determinada marca... O "sábio", contudo, é aquele que está consciente destes mecanismos, que sabe ver com olhar crítico os valores que a moda propõe, que sabe discernir o verdadeiro do falso, que distingue o que apenas tem um brilho doirado daquilo que, na essência, é um tesouro que importa conservar. O "sábio" é aquele que consegue perceber o que efectivamente o realiza e lhe permite levar a cabo, dentro da comunidade, a missão que lhe foi confiada. Como é que eu me situo face a isto? O que me seduz e que eu abraço é o imediato, o brilhante, o sedutor, ainda que efémero, ou é o que é exigente e radical mas que me permite conquistar uma felicidade duradoura e concretizar o meu papel no mundo, na empresa, na família ou na minha comunidade cristã?

No Evangelho, recorrendo à linguagem das parábolas, Jesus recomenda aos seus seguidores que façam do Reino de Deus a sua prioridade fundamental. Todos os outros valores e interesses devem passar para segundo plano, face a esse "tesouro" supremo que é o Reino.
Porque é que os cristãos apresentam, tantas vezes, um ar amargurado, sofredor, desolado? Quando a tristeza nos tolda a vista e nos impede de sorrir, quando apresentamos semblantes carrancudos e preocupados, quando deixamos transparecer em gestos e em palavras a agitação e o desassossego, quando olhamos para o mundo com os óculos do pessimismo e do desespero, quando só nos deixamos impressionar pelo mal que acontece à nossa volta, já teremos descoberto esse valor fundamental - o Reino - que é paz, esperança, serenidade, alegria, harmonia?
Mais uma vez o Evangelho convida-nos a admirar (e a absorver) os métodos de Deus, que não tem pressa nenhuma em condenar e destruir, mas dá tempo ao homem - todo o tempo do mundo - para amadurecer as suas opções e fazer as suas opções. Sabemos respeitar, com esta tolerância e liberdade, o ritmo de crescimento e de amadurecimento dos irmãos que nos rodeiam?

A segunda leitura convida-nos a seguir o caminho e a proposta de Jesus. Esse é o valor mais alto, que deve sobrepor-se a todos os outros valores e propostas.
Diante da oferta de Deus, somos livres de fazer as nossas opções - opções que Deus respeita de forma absoluta. No entanto, a vida plena está no acolhimento desse "valor mais alto" que é o seguimento de Jesus e a identificação com Ele. É esse o "valor mais alto", o "tesouro" pelo qual eu optei de forma decidida no dia do meu baptismo? Tenho sido, na caminhada da vida, coerente com essa escolha?

https://www.dehonianos.org/

sábado, 25 de julho de 2026

É tão bom que existas!

 




Talvez todos sejamos mais frágeis do que parecemos. Precisamos uns dos outros, e quando nos ajudamos, as nossas fraquezas e cansaços quase perdem importância.

Todos falhamos. É também por isso que precisamos sempre de muito mais amor do que aquele que merecemos. Nessa medida, só o excesso do amor consegue elevar a nossa pequenez. O perdão é um dos dons mais sublimes do amor, talvez o maior, porque aceita o outro como ele é, apesar de todas as suas imperfeições.

A existência de quem nos ama dá sentido à nossa vida. A verdade é que com o amor podemos levantar o outro do chão e fazê-lo chegar às nuvens, não porque o mereça nem porque dele precise, mas porque decidimos amá-lo.

Há quem julgue que só deve amar quem o ama. Ora, isso nunca é amor, porque o amor é generoso e desinteressado, avesso a qualquer tipo de comércio ou troca. Quando o amor não é gratuito, não é amor.

É certo que todos precisamos de ser amados. Ser humano é ser carente, é como que viver todos os dias uma solidão desconfortável, ansiando por um abraço e um olhar carinhoso.

Nenhuma vida existe para si mesma, por mais que os egoístas estejam convencidos do contrário. A necessidade aumenta quando é escondida ou disfarçada por quem a tem. O egoísmo é muitas vezes uma tentativa de negar essa dependência dos outros, mas não resulta. Não há egoístas felizes. Nem um. Parecem, mas ninguém – nem eles mesmos – acredita que o sejam.

Obrigado por existires, por te dares a mim, mais do que mereço, e assim me ajudares a ser feliz.

Obrigado por existires, por me aceitares assim, apesar de mereceres mais do que aquilo de que sou capaz, e assim me ajudares a ser feliz.

É tão bom que existas!


José Luís Nunes Martins

sexta-feira, 24 de julho de 2026

Entre o nada e o Pai Nosso





O Xico não era homem de rezas,
nem de santos, nem de igrejas.
Mas era um homem de respeito,
daqueles que não julgam,
que olham de frente,
e que escutam em silêncio o que não entendem.

Quando soube que eu estava a preparar um Retiro para os doentes,
em Fátima, terra de fé e de promessas,
veio ter comigo, com o seu jeito directo, e disse-me:
“Também quero ir.”

Olhei-o com surpresa (sim, é verdade),
mas sem desconfiança.
Expliquei-lhe:
“Um Retiro não é um passeio, Xico.
Lá, há silêncio.
Há oração.
Há tempo para mergulhar para dentro.”

Ele não hesitou:
“Eu não rezo,
mas sei estar calado.”

E foi.
Com os outros,
com a alma na rectaguarda
mas com o coração curioso.

Lá, não dobrava os joelhos,
mas detinha-se nos tempos longos de silêncio.
Enquanto outros falavam com Deus,
o Xico apenas… escutava.

Voltou o mesmo (ou talvez não... Não sei).
Continuava sem rezas,
mas trazia nos olhos um respeito mais sereno,
como quem sabe que há mistérios que não se entendem,
mas que merecem ser acolhidos.

O tempo passou,
como sempre passa,
e um dia chegou-lhe o cancro.
Veio sem convite,
bateu forte e ficou.

Estive com ele ao longo dos dias que escureciam.
Falávamos pouco,
mas bastava.
Havia um modo novo de estar ali,
sem fé declarada,
mas com uma confiança muda,
como se me dissesse:
“Continua aí.
Isso basta.”

Depois veio a morte.
Silenciosa, como a oração que nunca fez.

Fui ao funeral.
Sem cruz,
sem salmos,
sem incenso.

Mas na sala mortuária,
a mãe do Xico,
com os olhos marejados e ternos,
entregou-me um envelope.
“É para si,” disse-me.
“Ele deixou comigo,
e disse que só lho entregasse quando partisse.”

Abri-o.
Lá dentro,
uma carta breve.
Apenas uma linha:

“No dia em que eu morrer, quero que o Fernando reze por mim, e comigo, um Pai Nosso.”

E naquele instante,
no meio do silêncio dos que ficam,
as palavras mais antigas ergueram-se devagar.

Pai Nosso, que estais no Céu…

E ali, naquele espaço sem rituais,
o invisível tocou o visível.
A oração não foi de conversão,
foi de comunhão.
Foi de ternura.
Foi de confiança.

O Xico não partiu crente,
mas partiu de mãos dadas
com a Esperança.

Porque há caminhos
que não passam pelas palavras,
mas chegam ao coração de Deus
pelo silêncio de um homem
que apenas quis ser lembrado
com dignidade,
e com um Pai Nosso
dito devagar.

Amém.


 Fernando d'oliveira

quinta-feira, 23 de julho de 2026

Estar presente nas férias!

 



Às vezes é difícil estarmos, realmente, presentes e a experienciar o momento que estamos a viver.

Muitas vezes, vivemos em modo de sobrevivência. Ou em estado de alerta constante, em estado de Hiper vigilância e em modo de permanente antecipação de todos os problemas e cenários caóticos que poderão, um dia, vir a existir. Enquanto assim é, não estamos realmente presentes no momento e no dia que estamos a viver. Vamos navegando numa prisão mental que nos impede, tantas vezes, de ver a realidade tal como ela é.

Como nos habituamos a viver presos ao passado ou em antecipação do futuro, desaprendemos a arte de aproveitar o dia-a-dia. E quando assim é, nem quando vamos de férias conseguimos realmente disfrutar e aproveitar. Podemos estar num cenário idílico e com uma excelente companhia e conseguir, ainda assim, deixar que a nossa mente nos leve para longe do cenário quase perfeito que nos rodeia.

Assim, trazemos um desafio forte para estas próximas férias: vivê-las! Parece simples, não é? Mas a mim parece-me bastante mais complexo do que poderíamos julgar à primeira vista. Senão vejamos: quando estamos de férias, estamos mais relaxados; mas também temos mais tempo para pensar e para divagar, uma vez que a mente está menos ocupada em produzir, chegar a horas ao trabalho, fintar o trânsito, corresponder aos desafios físicos (e de calendário) diários.

Vamos de férias, mas parece que os problemas que a nossa cabeça cria (ou tinha adiado) voltam para nos perturbar.

Fica a proposta para este tempo de maior acalmia que estamos prestes a viver.

Focar a nossa atenção no que podemos controlar. Na forma como queremos reagir e receber o que nos vai acontecendo. Pensar que só podemos, realmente, viver o dia de hoje porque não temos (mesmo) mais nenhum. E isto pode ser complicado, mas há pequenas estratégias que podem resultar: ocupar o tempo com atividades e pessoas de que(m) realmente gostamos. Não nos forçarmos a fazer o que não nos apetece ou a partilhar tempo com pessoas que nos retirem energia.

Prescindir dos ecrãs pelo menos algumas horas por dia e substituir esse tempo estéril pela leitura de um livro (mesmo que o tempo de concentração seja curto e que só consigamos ler duas ou três páginas de cada vez). Sair da zona de conforto em doses homeopáticas: explorar um novo caminho, um novo restaurante, uma praia diferente. E o mais importante: ter tempo de qualidade sozinha. Ou sozinho.

É no silêncio do nosso coração que nascem os projetos mais bonitos e que se apaziguam as maiores tempestades. Dentro do que somos há sempre sol. Mesmo que não o consigamos sempre ver.


Marta Arrais


quarta-feira, 22 de julho de 2026

A pressa em julgar quase nunca vem de Deus



«Não julgues cada dia pela colheita que obténs,
mas pelas sementes que plantas.»
William Arthur Ward



O que levamos deste mundo não é visível, nem palpável.

O que sentimos aqui não tem preço, nem medida.

E… O que precisamos a cada dia para sermos felizes, molda as nossas atitudes.


Como reagimos perante as encruzilhadas da vida…

O que dizemos a cada momento menos bom…

O que defendemos perante as más atitudes…


Somos sementes… Frágeis e fortes… Que dão vida! Que são VIDA!

É urgente conhecer o terreno e o deserto, a terra fértil e árida…

onde fincamos as nossas raízes, os nossos pés,

as nossas ações e os nossos desejos mais remotos!


A Bondade é um fruto do Espírito Santo que devíamos cultivar no coração,

para sentirmos que crescemos tanto, ou ainda mais, que o grão de mostarda.


A Paciência, perante os que erram, também é semente fecunda,

que teimamos em matar sem dar fruto…

Somos muito rápidos a julgar aqueles audazes que espremem ao máximo o arrependimento…


Aos olhos da humanidade aquele que é bom, compassivo e misericordioso é fraco!

Sentimos que somos o trigo dourado e belo.

A paisagem serena da seara, a última bolacha do pacote…

Esquecemos que também somos joio lançado à terra de quem ama e não é amado…

Daqueles que sofrem em silêncio, à espera de um abraço amigo.


Não te sentes mais feliz quando és árvore que abriga os passarinhos?


Tudo isso define quem somos.


E também nos liberta do peso do julgamento.

Julgar ou ser julgado não é missão para os Seres criados por Deus…


Hoje, devemos pedir na nossa oração:

Senhor, faz-me ser aquela pequena porção de fermento,

capaz de levedar a massa,

capaz de fazer o Teu Reino de Misericórdia, de Paz e de Justiça Divina

crescer a cada amanhecer…


 Liliana Dinis


terça-feira, 21 de julho de 2026

As palavras nunca viajam sozinhas




As palavras nunca viajam sozinhas

Há palavras que julgamos nossas.
Saem da boca, da mão que escreve ou da voz que canta, e pensamos que nasceram naquele preciso instante. Mas não.
As palavras que pronunciamos já fizeram outras viagens. Habitaram outras vidas. Consolaram quem chorava, levantaram quem tinha desistido, feriram corações, reconciliaram famílias, ensinaram crianças, inspiraram santos e, infelizmente, também alimentaram guerras.
Cada palavra traz consigo a memória de quem a disse antes de nós.
Quando um pai diz ao filho: "Estou contigo", há nesse abraço o eco de todos os pais que um dia souberam amar.
Quando alguém murmura: "Desculpa", essa palavra transporta séculos de humanidade à procura da paz.
Quando dizemos "Amo-te", não inventamos o amor. Apenas lhe emprestamos a nossa voz.
É por isso que as palavras nunca são inocentes.
Elas carregam histórias. Constroem ou destroem pontes. Deixam marcas que permanecem muito para além do instante em que foram pronunciadas.
Todos nós conhecemos frases que nunca esquecemos. Algumas disseram-nos quem éramos quando ninguém acreditava em nós. Outras fizeram-nos duvidar do nosso próprio valor durante anos.
Uma palavra dura pode durar uma vida inteira.
Uma palavra de esperança pode salvar alguém sem que nunca o saibamos.
Talvez por isso devêssemos falar mais devagar.
Escrever com mais consciência.
Responder com menos impulsividade.
Cantar com mais verdade.
Porque aquilo que sai de nós nunca fica apenas em nós. Viaja. Encontra outros corações. Faz morada em alguém. E, muitas vezes, regressa transformado.
No Evangelho, Deus não escolheu uma espada para mudar o mundo. Escolheu uma Palavra. E continua a confiar nas nossas palavras para levar luz onde há escuridão, esperança onde há desalento e paz onde reina o conflito.
Hoje, antes de falares, pergunta-te:
A pessoa que me vai ouvir ficará mais leve ou mais pesada por causa das minhas palavras?
A resposta a essa pergunta pode mudar o dia de alguém.
E talvez mude também o teu.

segunda-feira, 20 de julho de 2026

O meu é às riscas!

 


“O meu é às riscas!”
Alguém pergunta a um grupo de crianças como seriam os seus corações, se os corações maus fossem escuros e branquinhos os corações bons, respondeu imediatamente uma pequenina: “Ah! O meu é às riscas!”
Temos muita dificuldade em aceitar uma realidade “às riscas”!
Em que o MAL e o BEM coabitam em nós e nos outros...
Jesus utiliza imagens ligadas ao CUIDADO DA TERRA e ao QUOTIDIANO para falar do cuidado entre as pessoas. O trigo e o joio não são dois tipos de pessoas, mas duas formas de conduta, que estão (sempre) presentes em cada um de nós.
O BEM E O MAL CRESCEM JUNTOS NO NOSSO CORAÇÃO.
Às vezes provocamos INJUSTIÇAS, às vezes PREJUDICAMOS alguém. Também o SENTIMOS na nossa vida, que alguém nos prejudicou, que alguém é INJUSTO, que alguém provocou o mal contra nós.
A tentação para qualquer um, é decidir por sua própria conta e risco quem é bom e quem é mau (trigo ou joio), quem deve ser acolhido e quem deve ser expulso.
O que é que Deus nos diz sobre isto? Diz-nos: “Deixai estar”.
Deus dá tempo ao tempo, OFERECE MIL OPORTUNIDADES para o joio morrer em nós e o trigo crescer para a ceifa! Pede-nos o mesmo comportamento a cada um de nós em relação aos outros...
Como todos nós somos seres limitados, o bom e o mau está em todos nós.
É por isso que querer ARRANCAR O MAL EM NÓS é correr o risco de arrancar, ao mesmo tempo, o bem que há em nós...
Se víssemos melhor as riscas que o nosso coração tem
não perderíamos tanta ENERGIA DA NOSSA VIDA em julgar e condenar os outros!

Padre João Torres

domingo, 19 de julho de 2026

Um Deus clemente e compassivo

 

https://www.youtube.com/watch?v=wB-UC71kQgQ&list=PLAqKRngqwuSfPdOPEvu7KzjdvMvB1w33f&index=157

A liturgia do 16º Domingo do Tempo Comum convida-nos a descobrir o Deus paciente e cheio de misericórdia, a quem não interessa a marginalização do pecador, mas a sua integração na comunidade do "Reino"; e convida-nos, sobretudo, a interiorizar essa "lógica" de Deus, deixando que ela marque o olhar que lançamos sobre o mundo e sobre os homens.

A primeira leitura fala-nos de um Deus que, apesar da sua força e omnipotência, é indulgente e misericordioso para com os homens - mesmo quando eles praticam o mal. Agindo dessa forma, Deus convida os seus filhos a serem "humanos", isto é, a terem um coração tão misericordioso e tão indulgente como o coração de Deus.
O nosso texto apresenta-nos um Deus tolerante e justo, em quem a bondade e a misericórdia se sobrepõem à vontade de castigar. Ele não quer a destruição do pecador, mas a sua conversão; Ele ama todos os homens que criou, mesmo aqueles que praticam acções erradas. Ora, todos nós conhecemos bem este quadro de Deus, pois ele aparece-nos a par e passo na Palavra revelada... Mas já o interiorizámos suficientemente?
Muitas vezes, percebemos certos males que nos incomodam como "castigos" de Deus pelo nosso mau proceder. No entanto, este texto deixa claro que Deus não está interessado em castigar os pecadores... Quando muito, procura fazer-nos perceber, com a pedagogia de um pai cheio de amor, o sem sentido de certas opções e o mal que nos fazem certos caminhos que escolhemos.

O Evangelho garante a presença irreversível no mundo do "Reino de Deus". Esse "Reino" não é um clube exclusivo de "bons" e de "santos": nele todos os homens - bons e maus - encontram a possibilidade de crescer, de amadurecer as suas escolhas, de serem tocados pela graça, até ao momento final da opção definitiva.
Neste Evangelho temos também uma lição muito sugestiva sobre a atitude de Deus face ao mal e aos que fazem o mal. Na parábola do trigo e do joio, Jesus garante-nos que os esquemas de Deus não prevêem a destruição do pecador, a segregação dos maus, a exclusão dos culpados. O Deus de Jesus Cristo é um Deus de amor e de misericórdia, sem pressa para castigar, que dá ao homem "todo o tempo do mundo" para crescer, para descobrir o dom de Deus e para fazer as suas escolhas. Não percamos nunca de vista a "paciência" de Deus para com os pecadores: talvez evitemos ter de carregar sentimentos de culpa que oprimem e amarguram a nossa breve caminhada nesta terra.

A segunda leitura sublinha, doutra forma, a bondade e a misericórdia de Deus. Afirma que o Espírito Santo - dom de Deus - vem em auxílio da nossa fragilidade, guiando-nos no caminho para a vida plena.
O ritmo da vida moderna é estonteante... As exigências profissionais, os problemas familiares, o inferno do trânsito, a necessidade de ganhar a vida atiram-nos de corrida em corrida, sempre ocupados, sempre cansados, sempre carregados de stress, prisioneiros de uma máquina que nos desumaniza e que não nos deixa centrar a nossa atenção no essencial, reequacionar os nossos valores e prioridades. É preciso, no entanto, encontrar tempo e espaço para reflectir, para redefinir o sentido da nossa existência, para perceber se estamos a conduzir a nossa vida "segundo a carne" ou "segundo o Espírito".
O verdadeiro crente é o que vive em comunhão com Deus. Não prescinde desses momentos de diálogo, de partilha, de escuta, de louvor a que chamamos oração. É nesse diálogo intenso, verdadeiro, diário que o crente, através do Espírito, intui a lógica de Deus, a sua verdade, o projecto que Ele tem para cada homem e para o mundo. Esforço-me por encontrar espaço para o diálogo com Deus e para fortalecer a minha intimidade com Ele?
Sem alternativa! O bom grão semeado no nosso campo era promessa de uma boa ceifa. Mas eis que o joio veio poluir a seara. Que tipo de compromissos aceitamos na nossa vida? Deus é paciente! Mas se temos ouvidos, é urgente escutar o seu apelo à conversão. É urgente escolher o nosso campo: o do Senhor ou o do Maligno. Não há alternativa!

https://www.dehonianos.org

sábado, 18 de julho de 2026

Os filhos não são uma propriedade




Os filhos não são uma propriedade. São uma missão.

Há uma tentação silenciosa que habita o coração de muitos pais: pensar que amar um filho é moldá-lo à sua própria imagem. Desejam protegê-lo de todas as quedas, evitar-lhe todas as lágrimas, escolher os caminhos que julgam melhores. Fazem-no por amor. Mas, por vezes, sem se aperceberem, confundem amor com posse.
Os filhos não são um projeto para realizar os sonhos que ficaram por cumprir. Não vieram ao mundo para repetir a história dos pais, corrigir os seus erros ou confirmar as suas escolhas.
Vieram para escrever a sua própria história.
Deus confia os filhos aos pais, mas não lhes entrega um destino já traçado. Confia-lhes uma vida única e irrepetível, com uma vocação que só cada filho poderá descobrir.
Educar é, por isso, um dos maiores atos de humildade.
É ensinar sem prender. Corrigir sem humilhar. Orientar sem controlar. Estar presente sem ocupar todo o espaço. É aprender, todos os dias, a dar um passo atrás para que os filhos possam dar um passo em frente.
Ser pai ou ser mãe é aceitar que chegará o dia em que os filhos deixarão de pedir a mão dos pais para começarem a caminhar pelos seus próprios pés. E esse dia não será o fracasso da educação; será, talvez, o seu maior sucesso.
Os filhos precisam de raízes, mas também de asas.
As raízes dão-lhes identidade, valores, fé e sentido de pertença. As asas dão-lhes liberdade para sonhar, decidir, amar, errar, recomeçar e encontrar o lugar que Deus preparou para eles.
Os pais são chamados a lançar os filhos para a vida com confiança, sabendo que o amor verdadeiro não prende; acompanha. Não domina; inspira. Não vive no medo de perder, mas na alegria de ver crescer.
Educar é amar tanto, que se aprende a deixar partir.

Padre João Torres

sexta-feira, 17 de julho de 2026

O que mancha a tua alegria?



O que mancha a tua alegria?


O medo?

A vergonha?

Por vezes queremos festejar algo que de bom nos aconteceu, mas parece que nos sentimos tensos e até com medo de celebrar, não vá nada agoirar.

Quando uma família recebe a notícia que vai ter um filho, ficam felizes, mas logo começam os receios e o medo.

Quando, finalmente, consegues um emprego, celebras mas logo és acometida por medo e dúvidas sobre se és capaz.

E por aí fora…

Sempre que tens um motivo para festejar, parece que o rastilho é curto porque és assaltada por outras tantas preocupações, medos e até vergonha de mostrar que estás contente.

Ora, pensa lá, quando foi a última vez que celebras-te uma boa notícia, mas celebrar a sério, com pinchos, saltinhos, e risos de alegria.

Quando tiveste esse momento, o que fizeste? Partilhaste essa alegria com quem? Como reagiram?

Ou será que escondeste isso para ti, relativizando e até sentindo vergonha como se fosse algo injusto e que não mereceste?

É que a nossa alegria cresce quando é partilhada, mas às vezes…essa partilha mata a alegria de qualquer um. Quantas vezes contaste a alguém uma boa notícia e o outro respondeu: Ah que bom, mas…! Isso mata qualquer festejo.

Outras vezes até somos nós a matar o entusiasmo dos que nos rodeiam, umas vezes por medo outras por uma pontada de inveja.

Não é fácil sentir a alegria pura de uma criança quando abre um brinquedo no Natal, ou que reencontra o abraço do pai depois de tanto o procurar. Uma alegria despreocupada e totalmente confiante no que sente no agora, sem mancha de medos ou invejas.

Ora pensa lá! Se calhar temos de treinar mais essa aptidão para a felicidade e a sua celebração.

E tu, amiga, o que achas que mancha a tua alegria?


Raquel Rodrigues


quinta-feira, 16 de julho de 2026

Ser padrinho ou madrinha

 



Ser padrinho ou madrinha:

quando o coração assina mais do que um papel
Há pedidos que chegam ao cartório paroquial com um sorriso e uma frase quase pronta: "Preciso de um atestado de idoneidade para ser padrinho."
Como se bastasse um papel.
Como se a fé pudesse ser impressa numa folha A4.
Como se o Crisma fosse um bilhete vitalício que se guarda na gaveta, ao lado do certificado da escola e da garantia do frigorífico.
Mas não é assim.
A Igreja não pede aos párocos um certificado de sacramentos. Pede-lhe um atestado de vida. Não pergunta apenas: "Foi crismado?" Pergunta: "É alguém que vive a fé? Participa na comunidade? Pode uma criança olhar para esta pessoa e descobrir, nela, um caminho até Cristo?"
Ser padrinho ou madrinha nunca foi um prémio de amizade. Nem um lugar reservado na fotografia do Batismo. É muito mais bonito. E muito mais exigente.
É aceitar que, um dia, um pequeno coração poderá aprender a rezar porque viu o padrinho ou a madrinha a rezar. Poderá descobrir o valor do perdão porque os viu a perdoar. Poderá acreditar em Deus porque encontrou neles fé... não apenas aos domingos especiais, mas nas segundas-feiras difíceis.
Um padrinho não substitui os pais. Caminha ao lado. Está presente. Recorda, anima, levanta, escuta. E quando o afilhado se afasta da fé, não desiste dele. Continua a mostrar-lhe o caminho.
A Igreja precisa de inspiradores de vida. Porque a fé não se herda por decreto. Nem se transmite por WhatsApp.
Transmite-se à mesa de casa. No banco da igreja. Numa visita a quem sofre. Num sinal da cruz feito sem vergonha. Numa vida que, com todas as suas fragilidades, continua a dizer: vale a pena seguir Jesus.
Se alguém deseja ser padrinho ou madrinha, a pergunta mais importante talvez não seja: "Tenho os documentos?"
Mas esta:
"Se o meu afilhado imitasse a minha maneira de viver a fé, eu ficaria feliz?"
Ser padrinho ou madrinha é assinar um compromisso... primeiro com o coração e só depois com a caneta.
Porque os papéis envelhecem.
As fotografias ficam amareladas.
Mas uma vida que aponta para Deus... essa permanece para sempre.

Padre João Torres

quarta-feira, 15 de julho de 2026

A vida é uma enorme incerteza



Por mais seguros que nos sintamos em relação a alguma questão da nossa vida, isso será sempre mais sinal de emoção do que de razão. Ninguém pode sentir-se seguro aqui.

A fé é um dom que muitas vezes confundimos com uma espécie de negação da realidade. Cada um de nós é chamado a fazer mais do que esperar, colocando os seus talentos e as suas forças ao serviço do bem.

A realidade ultrapassa-nos, mas nunca seremos meros espectadores. Somos chamados a ser autores e atores nas muitas peças que compõem os nossos dias.

Com um palco cheio de pessoas, cada um a decidir por si só o que faz, muitos são os encontros e desencontros, os atropelos e os desentendimentos. Como se isso não bastasse, a existência é, em si mesma, imprevisível; o palco, as luzes e tudo o que não é humano parecem também ter vontade própria.

A existência é uma enorme viagem por um mar que tão depressa nos oferece a maior paz como logo a seguir nos revela que afinal nem a nossa vida conseguimos agarrar com força suficiente.

A esperança, tal como o desespero, faz sentido. No entanto, cabe-nos escolher o que esperar. É tão certo que os males de agora passarão como que outros, hoje desconhecidos, virão. Assim também é certo que os bens de que usufruímos hoje se perderão, mas que outros, que hoje nem conseguimos imaginar, estão a caminho da nossa vida!

Os sonhos fazem sempre sentido, mais ainda se nos dispusermos a trabalhar e a lutar para que se concretizem!


José Luís Nunes Martins


terça-feira, 14 de julho de 2026

O Preço de estar Vivo

 


O Preço de estar Vivo

Viver não é apenas ver os dias passar no ecrã do telemóvel, contar as faturas pagas ao fim do mês ou cumprir horários numa rotina anestesiada. Timothy Radcliffe recorda-nos uma verdade crua, daquelas que se cravam na pele da nossa existência: "Se amas, serás crucificado; se não amas, já estás morto."
Amar de verdade dá trabalho. Dói. Significa abrir a porta de casa e do peito, sabendo perfeitamente que o vento pode entrar e desarrumar tudo. Amar é expor a nossa vulnerabilidade, na mesa do jantar onde as palavras às vezes falham, ou no silêncio pesado depois de uma discussão estúpida por causa da loiça por lavar. Quando escolhemos cuidar, quando decidimos importar-nos e dar a mão a quem caminha connosco, estamos a desarmar-nos. Ficamos expostos. E o mundo, tantas vezes apressado, egoísta e cínico, julga, aponta o dedo, magoa. Amar é aceitar essa cruz quotidiana; é o preço de quem se recusa a ser indiferente.
Mas qual é a alternativa real? Fechar os estores da alma? Blindar o coração numa redoma de betão para que nada nos atinja?
Quem não arrisca o afeto, quem se esconde do amor para evitar a dor, não está a proteger-se — está apenas a vegetar. Anda pelas ruas como uma sombra que consome oxigénio, mas cujo peito já não vibra por nada nem por ninguém. É um corpo com os batimentos cardíacos em dia, mas com a alma já enterrada no vazio.
Prefiro mil vezes a ferida aberta e sangrenta de quem ama, com todas as suas quedas e incompreensões, à segurança estéril e cinzenta de uma vida sem entrega. Prefiro o peso de uma cruz que me liga aos outros e me cola à realidade, ao caixão invisível do desamor. Que tenhamos a coragem de amar, mesmo sabendo o preço. Porque só quem se atreve a ser quebrado sabe o que é, verdadeiramente, estar vivo.

Padre João Torres

segunda-feira, 13 de julho de 2026

Fátima: D. Pedro Fernandes condena discursos populistas na sociedade

Bispo de Portalegre-Castelo Branco deixa alertas na peregrinação do 13 de julho



Fátima, 13 jul 2026 (Ecclesia) – O bispo de Portalegre-Castelo Branco condenou hoje em Fátima o crescimento de discursos populistas na sociedade e a “arrogância espiritual” que gera divisões no seio da Igreja.

“É perigosa a investida violenta de indivíduos ou povos poderosos que se aproveitam do medo das pessoas e dos sentimentos de insegurança para venderem fórmulas fáceis e uma estabilidade que não se funda na reconciliação e na justiça, mas em discursos populistas e estratégias perversas que põem povos contra povos e pessoas contra pessoas”, alertou D. Pedro Fernandes, na homilia da Missa conclusiva da peregrinação internacional do 13 de julho.

O presidente da celebração rejeitou a manipulação das populações através da “tenebrosa estratégia populista de dividir para reinar”, opondo-lhe o direito e a justiça como únicos garantes da paz.

“Todos deploramos a guerra e a violência que assolam o Médio Oriente, a Ucrânia e tantos outros povos martirizados e violentados, obrigados a fugir dos seus países para procurar refúgio, trabalho, vida digna, liberdade e segurança em lugares onde nem sempre encontram o acolhimento de fraternidade e justiça a que têm direito”, observou.

A construção da vida coletiva, no âmbito público ou privado, não pode fundar-se em legislações ou práticas políticas, económicas ou culturais que promovam a exclusão ou a desvalorização das pessoas ou de algumas pessoas. Isso deve encontrar em nós, se somos cristãos, uma inequívoca oposição ao mal.”

A reflexão evocou a encíclica ‘Magnifica Humanitas’ do Papa Leão XIV para advertir que a tecnologia e a inteligência artificial podem criar as condições ideais para “um perigoso jogo em que verdade e falsidade se confundem”.

O presidente da celebração olhou ainda para a vida interna da Igreja Católica, apontando “o recente acontecimento de uma comunidade sectária [Fraternidade Sacerdotal de São Pio X, ndr] decidir colocar-se numa situação de excomunhão” como o exemplo de fratura institucional.

“Mesmo sem chegar aos extremos, claramente contrários à vontade de Deus, de romper com a comunhão eclesial, também podemos ir entretendo sentimentos, atitudes e posições que, em nome da defesa da verdade, tal como nós a percecionamos, são de facto a expressão de arrogância espiritual”, indicou D. Pedro Fernandes.

O bispo de Portalegre-Castelo Branco pediu que a resposta cristã às lógicas de exclusão e violência se concretize “pela voz crítica e desassombrada e pela ação solidária, inclusiva e pacificadora”.

A celebração decorreu no altar do Recinto de Oração na sequência da tradicional procissão matinal a partir da Capelinha das Aparições, antes da bênção dos doentes e da procissão do adeus.

A peregrinação de julho evoca a terceira aparição da Virgem Maria aos videntes, registada a 13 de julho de 1917 na Cova da Iria.

OC

domingo, 12 de julho de 2026

Fátima: D. Pedro Fernandes preside à Peregrinação Internacional Aniversária de julho

 



Fátima, 12 jul 2026 (Ecclesia) – O bispo de Portalegre-Castelo Branco, D. Pedro Fernandes, vai presidir à Peregrinação Internacional Aniversária de julho, que se inicia hoje no Santuário de Fátima.

Neste seu primeiro ano no episcopado, D. Pedro Fernandes encara esta peregrinação como uma oportunidade para entregar a Nossa Senhora de Fátima o seu ministério na diocese de Portalegre-Castelo Branco.

Em declarações ao Gabinete de Comunicação do Santuário de Fátima, o presidente da Peregrinação de julho reforça que os “desafios da missão e da evangelização da igreja em Portugal” são intenções que estão sempre muito presentes ao visitar o santuário.

“Fátima tornou-se um dos corações fortes da Igreja em Portugal, onde também sentimos uma especial ligação ao mundo”, disse o bispo de Portalegre-Castelo Branco.

D. Pedro Fernandes nasceu a 22 de junho de 1969, em Lisboa.

Religioso da Congregação do Espírito Santo (Espiritanos), fez a sua formação em Lisboa e em Paris, e foi ordenado sacerdote em 1996; foi missionário na Guiné-Bissau e serviu vários anos em Moçambique.

De regresso a Portugal, foi Superior Provincial dos Espiritanos da Província Portuguesa entre 2018 e 2024.

Foi nomeado bispo de Portalegre-Castelo Branco pelo Papa Leão XIV a 7 de outubro de 2025, tendo sido ordenado bispo a 16 de novembro do mesmo ano, na Sé de Portalegre, sucedendo a D. Antonino Dias.

O programa da Peregrinação inicia na noite do dia 12, domingo, com a recitação do Terço, às 21h30. Segue-se a Procissão das Velas até ao Altar do Recinto de Oração, onde D. Pedro Fernandes presidirá à Celebração da Palavra.

No dia 13, após a recitação do Terço, às 09h00, na Capelinha das Aparições, a Imagem de Nossa Senhora do Rosário de Fátima será conduzida em procissão até ao Altar do Recinto de Oração, onde se celebra a Missa Internacional Aniversária, com Bênção aos Doentes e a Procissão do Adeus.

A Peregrinação Internacional Aniversária de julho evoca a terceira aparição de Nossa Senhora aos Pastorinhos, na Cova da Iria, a 13 de julho de 1917.

Foi nesta terceira aparição que a Virgem do Rosário mostrou o inferno às três crianças videntes, lhes anunciou que Deus queria estabelecer no mundo a devoção ao Imaculado Coração de Maria, e lhes mostrou uma visão profética sobre o sofrimento da Igreja, num mundo secularizado.

LFS

"Como se faz uma Terra Boa?"

 


"Como se faz uma Terra Boa?"

Telefonei a um mais velho para lhe perguntar como é que ele fazia para manter uma terra boa, lá nos campos. Deu-me três segredos:
1. disse-me que quando uma terra não é muito boa “para receber a semente”, a primeira coisa a fazer é revolvê-la toda com o arado, o mais fundo possível, “para trazer a terra do fundo para cima, e deixá-la respirar” durante uns dias. “A terra do fundo é sempre melhor”, disse ele. E ele nem sequer imaginava que eu estava a ouvir tudo o que me dizia como símbolo do nosso Coração… “A terra do fundo é sempre melhor…” Sim, é verdade! Mas nós muitas vezes queremos semear à superfície, na casca da Vida, no lado de fora da existência…
2. depois, há que não deixar a terra habituar-se à sementeira: “se um ano é batatas, no outro ano semeia-se trigo! Um ano batatas, outro ano trigo!” Porque quando uma terra se habitua à semente, normalmente “começa a dar menos, porque se cansa”. E eu voltei a sorrir… Aquele mais velho falou-me do perigo da habituação, que conduz sempre ao cansaço e à desilusão…
3. finalmente, disse-me que é sempre bom, mais ou menos de sete em sete anos, “deixar a terra descansar um ano”. “Para que a terra ganhe força”, explicou-me. E eu percebi de novo. A importância de pararmos… Pararmos para nos darmos descanso e silêncio, para ficarmos mais fortes, para nos enriquecermos de nutrientes… aqueles do Coração, claro!
Depois, disse “Obrigado” àquele mais velho. E ele ainda agora não imagina as coisas bonitas que me disse! Sabes, aquele mais velho não conhece uma única letra do alfabeto, mas Deus também nos fala assim…

Texto adaptado do Pe. Rui Santiago
Padre João Torres

A semente é a palavra de Deus

 

https://www.youtube.com/watch?v=84JTX1rbkdo&list=PL7Zt-5fD4oJhPpMPYGpfws_kYf8rQHiXA&index=11

A liturgia do 15º Domingo do Tempo Comum convida-nos a tomar consciência da importância da Palavra de Deus e da centralidade que ela deve assumir na vida dos crentes.

A primeira leitura garante-nos que a Palavra de Deus é verdadeiramente fecunda e criadora de vida. Ela dá-nos esperança, indica-nos os caminhos que devemos percorrer e dá-nos o ânimo para intervirmos no mundo. É sempre eficaz e produz sempre efeito, embora não actue sempre de acordo com os nossos interesses e critérios.
Quando escutamos a Palavra de Deus, sentimo-nos confiantes, optimistas, com o coração a transbordar de esperança; sentimos que o caminho que Deus nos indica é, efectivamente, um caminho de felicidade e de vida plena... "Que bom é estarmos aqui" - dizemos... Depois, voltamos à nossa vida do dia a dia e reencontramos a monotonia, os problemas, o desencanto; constatamos que os maus, os corruptos, os violentos, parecem triunfar sempre e nunca são castigados pelo seu egoísmo e prepotência, enquanto que os bons, os justos, os humildes, os pacíficos são continuamente vencidos, magoados, humilhados... Então perguntamos: podemos confiar nas promessas de Deus? Não estaremos a ser enganados? A Palavra de Deus que hoje nos é proposta responde a estas dúvidas. Ela garante-nos: a Palavra de Deus não falha; ela indica sempre caminhos de vida plena, de vida verdadeira, de liberdade, de felicidade, de paz sem fim.

O Evangelho propõe-nos, em primeiro lugar, uma reflexão sobre a forma como acolhemos a Palavra e exorta-nos a ser uma "boa terra", disponível para escutar as propostas de Jesus, para as acolher e para deixar que elas dêem abundantes frutos na nossa vida de cada dia. Garante-nos também que o "Reino" proposto por Jesus será uma realidade imparável, onde se manifestará em todo o seu esplendor e fecundidade a vida de Deus.
No seu "estado actual", a parábola do semeador e da semente é, sobretudo, um convite a reflectir sobre a importância e o significado da Palavra de Jesus. É verdade que, nas nossas comunidades cristãs, a Palavra de Jesus é a referência fundamental, à volta do qual se constrói a vida da comunidade e dos crentes? Temos consciência de que é a Palavra anunciada, proclamada, meditada, partilhada, celebrada, que cria a comunidade e que a alimenta no dia a dia?

A segunda leitura apresenta uma temática (a solidariedade entre o homem e o resto da criação) que, à primeira vista, não está relacionada com o tema deste domingo - a Palavra de Deus. Podemos, no entanto, dizer que a Palavra de Deus é que fornece os critérios para que o homem possa viver "segundo o Espírito" e para que ele possa construir o "novo céu e a nova terra" com que sonhamos.
No nosso tempo manifesta-se, cada vez mais, uma preocupação séria com a forma como usamos o mundo que Deus nos ofereceu. O homem de hoje já descobriu que a criação não é para ser explorada, violentada, usada de acordo com critérios de egoísmo e de exploração. Aquilo que nos deve mover, no entanto, não é a simples preocupação com o esgotamento dos recursos, ou com a destruição das condições de habitabilidade do nosso planeta; mas o que nos deve mover é a ideia da fraternidade que deve unir o homem e as outras coisas criadas por Deus. Só quando se instalar essa consciência de fraternidade, podemos libertar toda a criação do egoísmo e da exploração em que o homem a encerrou e fazer aparecer o "novo céu e a nova terra".

 PALAVRA PARA O CAMINHO.

Que género de terra somos nós? Que género de terra somos nós para esta Palavra semeada em nós com abundância? Se a possibilidade nos é oferecida, tomemos um momento ao longo da semana, directamente na natureza, para rezar esta página do Evangelho. E deixemo-la enraizar-se em nós para lhe permitir produzir fruto em abundância.

https://www.dehonianos.org/liturgia/?mc_id=5789 (...)

sábado, 11 de julho de 2026

A Espera que Nos Salva




A Espera que Nos Salva
Há dias em que a vida nos obriga a parar.
Não porque queremos, mas porque já não conseguimos continuar a correr.
Conheci uma senhora que, sentada numa sala de espera de hospital, me disse uma frase que nunca esqueci:
— "Padre, passei a vida inteira à espera de dias melhores e, sem dar conta, fui deixando passar os dias que tinha."
Fiquei a pensar nisso.
Quantas vezes adiamos a felicidade para amanhã?
Quando resolvermos os problemas.
Quando tivermos mais dinheiro.
Quando os filhos crescerem.
Quando a vida for como sonhámos.
Mas a vida raramente acontece como a imaginamos.
Talvez repousar seja precisamente isto: deixar de exigir que tudo aconteça ao nosso ritmo.
Aprender a sentar-se diante da vida e dizer, no silêncio do coração:
"Estou aqui, à espera de nada."
Não por desistência.
Mas por confiança.
Confiança de que nem tudo depende de nós.
Confiança de que Deus continua a trabalhar mesmo quando não vemos.
Confiança de que a paz não nasce de ter tudo resolvido, mas de saber que estamos nas mãos certas.
Porque, muitas vezes, o maior milagre não é chegar mais longe.
É conseguir parar.
Respirar.
E agradecer o dom deste dia.


Padre João Torres

sexta-feira, 10 de julho de 2026

Onde há amor, há oração



A oração é a expressão máxima do amor. O amor exige presença, silêncio e tempo, muito tempo, ao ponto de quem ama se esquecer de si. A oração é igual.

A oração é uma manifestação de carinho e de fragilidade. O amor é uma vontade de entregar toda a riqueza e, ao mesmo tempo, uma pobreza que estende a mão.

Amar eleva a nossa alma, rezar também.

Somos chamados, se quisermos ser felizes, a amar e a pedir pelos que não nos amam e pelos que não amamos.

É, pois, no silêncio do nosso quarto e no interior do nosso coração que devemos falar com Deus sobre os que amamos e dos que não amamos, procurando amar mais uns e outros.

A oração tem sempre algo de tão belo quanto de clandestino. Não é uma troca nem uma resposta concreta que se deseja; é uma confiança que se deposita em quem se ama e se quer amar. Uma palavra sussurrada pode valer muito mais do que um discurso a uma multidão.

O amor com que se reza é mais importante do que qualquer palavra que se use.

Os que julgam que se bastam a si mesmos, que não precisam nem dependem de ninguém, vivem numa ilusão perigosa que se pode desmoronar a qualquer instante. A vida tende a dar lições muito duras a quem não aprende o que é evidente.

A oração muda quem a faz. Aperfeiçoa os sentimentos e aproxima o pensamento da verdade. O amor também.

Quem ama abre, estende e entrega o seu coração ao Céu e ao outro. Quem reza também.


José Luís Nunes Martins

A ferrugem da alma não faz ruído



Há uma pergunta que atravessa toda a Bíblia e que raramente fazemos a nós próprios: onde mora o meu coração?

Não me refiro ao órgão que pulsa no peito, mas àquele centro invisível onde nascem as decisões, os afetos, os medos, os sonhos e a fé. Na linguagem bíblica, o coração é o lugar da pessoa inteira. É aí que Deus fala, que a consciência desperta e que se decide a santidade ou a ruína.

Por isso, o livro dos Provérbios adverte: «Acima de tudo, guarda o teu coração, porque dele brotam as fontes da vida» (Pr 4,23).

Vivemos, porém, numa época estranhamente preocupada em cuidar de tudo, menos do coração. Protegemos os nossos investimentos, fazemos cópias de segurança dos nossos ficheiros, contratamos seguros para as casas e os automóveis, contamos passos, calorias e horas de sono. Mas quem protege o coração da erosão do orgulho, da inveja, da indiferença ou da desesperança?

A ferrugem da alma não faz ruído.

Instala-se lentamente. Primeiro desaparece a capacidade de admirar. Depois deixa-se de agradecer. Em seguida, perde-se a alegria de servir. Finalmente, deixa-se de acreditar que alguém ainda pode mudar. O coração endurece sem que quase ninguém dê por isso.

Foi esta tragédia que os profetas denunciaram vezes sem conta. Ezequiel anuncia a promessa de Deus: «Dar-vos-ei um coração novo e porei em vós um espírito novo; arrancarei do vosso peito o coração de pedra e dar-vos-ei um coração de carne» (Ez 36,26).

A conversão cristã não consiste, antes de mais, em mudar comportamentos. Consiste em deixar que Deus transforme o coração. Afinal, toda a história da salvação é a história de um Deus que procura o coração do homem para nele fazer a sua morada.

Santo Agostinho compreendeu-o como poucos. Depois de procurar a felicidade em tantos lugares, escreveu a frase que continua a ecoar ao longo dos séculos: «Fizeste-nos para Ti, Senhor, e o nosso coração está inquieto enquanto não repousar em Ti.» Não é uma inquietação psicológica; é uma saudade ontológica. O coração humano foi criado para o infinito e nunca encontrará descanso definitivo nas coisas finitas.

Talvez por isso Jesus fale tantas vezes do coração. Não começa pelas mãos, mas pelo interior. «Onde está o teu tesouro, aí estará também o teu coração» (Mt 6,21). O Evangelho nunca se limita a corrigir gestos; procura converter desejos. Porque uma vida muda verdadeiramente quando muda aquilo que ama.

O mundo moderno convida-nos a seguir o coração. O Evangelho propõe algo mais exigente: educar o coração, purificá-lo e orientá-lo para o Bem. Nem tudo o que sentimos nos aproxima da verdade. Nem todos os desejos conduzem à liberdade. Um coração sem Deus pode confundir paixão com amor, impulso com vocação, sucesso com felicidade. A verdadeira liberdade nasce quando o Espírito Santo molda os nossos afetos à medida do Coração de Cristo.

É por isso que a liturgia permanece sempre nova. Em cada Eucaristia, antes de entrarmos na grande Oração Eucarística, o celebrante lança um convite que atravessa quase dois milénios de tradição cristã: «Corações ao alto!» — Sursum corda. Não é uma simples fórmula ritual. É um programa de vida. Desde os primeiros séculos, a Igreja recorda-nos que o coração não foi criado para rastejar entre as coisas passageiras, mas para se elevar até Deus. Quem responde «O nosso coração está em Deus» compromete-se a viver com o olhar voltado para o Alto, sem fugir às responsabilidades da terra. É a síntese admirável da espiritualidade cristã: pés firmes no mundo, coração inteiramente em Deus.

A Igreja não nos pede que desprezemos a realidade terrestre, mas que não lhe entreguemos o coração. Quem absolutiza o sucesso acaba escravo do fracasso; quem idolatra a riqueza descobre que ela não compra a paz; quem vive apenas para o imediato perde o horizonte da eternidade.

No fundo, a santidade talvez seja isto: conservar o coração suficientemente livre para que Deus continue a habitá-lo.

No Evangelho, Cristo não promete uma vida sem cruz, mas um coração novo capaz de transformar a cruz em caminho de ressurreição. É esse coração que perdoa quando todos condenam, espera quando tudo parece perdido, ama quando o egoísmo se torna regra e permanece fiel quando a cultura da descartabilidade convida a desistir.

Guardemos, pois, o coração. Não por sentimentalismo, mas porque ele é o verdadeiro altar onde Deus deseja ser adorado. Que nunca o deixemos apodrecer entre as pequenas ambições, os ressentimentos ou as ilusões efémeras. Elevemo-lo todos os dias, como a Igreja nos ensina desde os tempos apostólicos: Sursum corda! Corações ao alto. Porque só um coração elevado por Deus é capaz de elevar o mundo.


Sérgio Carvalho

quinta-feira, 9 de julho de 2026

Tempo

 


Quando somos crianças não existe, sequer, a noção de tempo. À medida que vamos crescendo, vamos percebendo que ele corre veloz. Ainda ontem eu...

Que distância vai do bebé ao velhinho? É que, para quem não sabe, o velhinho já foi bebé (estou a falar a sério).

Assim sendo, e porque não o podemos agarrar, acho que não precisamos de correr atrás dele. Acho até que ele gosta que disfrutemos dele com calma. Tempo para ter tempo. E acho também que ele gosta de ser vivido hoje, em cada hora do dia. E acredito, ainda, que o que ele gosta mais é que o dêmos aos outros (aqueles a quem dizemos tantas vezes: _ desculpa, não tenho tempo).

Durante uns anos, tive exposta no meu quarto esta frase de um autor que desconheço:

"Não é decerto razoável afirmar,

Que tens a vida toda para viver,

O tempo é todo feito no presente,

Amanhã podes querer e já não ter."

Li. Reli. Decorei. Falta viver.

Nota: p'ra começar ontem!


Lucília Miranda

quarta-feira, 8 de julho de 2026

O amor de alguém



Há um erro em que caímos muitas vezes, empurrados pela pressa.

O de acreditar que, por detrás da porta de um hospital, mora apenas um doente.

Mas não. Não mora. Definitivamente, não mora!

Ali nunca está apenas um doente.

Ali está o universo inteiro de uma vida.


Está uma criança que um dia adormeceu ao colo da mãe. Está um pai que carregou o filho aos ombros. Está uma mulher que esperou anos pelo homem que amava. Está um amigo que conhecia o caminho para fazer sorrir quem chorava. Está alguém que foi indispensável na vida de outra pessoa…


Porque ninguém é apenas aquilo que a doença deixou à vista.

A doença pode rasgar o corpo, e pode até desfragmentar a mente, mas não apaga a história.

Silencia a voz, mas não cala o amor.

Enfraquece a memória, mas não consegue apagar as pegadas deixadas no coração daqueles que um dia disseram: “Amo-te”

Há sempre alguém que, ao olhar para aquele rosto marcado pelo sofrimento, continua a ver beleza.

Alguém que não vê sondas, não vê cicatrizes nem vê limitações.

Vê o primeiro beijo.

Vê as mãos que embalaram um filho.

Vê os serões à volta da mesa.

Vê as discussões que terminaram em perdão.

Vê uma vida inteira.


É por isso que nenhum doente cabe numa cama.

Porque há demasiadas vidas a habitarem dentro dele.

E essa é uma das grandes tragédias do nosso tempo: aprendemos a medir as pessoas pelo que conseguem fazer, quando Deus nunca deixou de as medir pela infinita capacidade que têm de amar e de serem amadas.

O Evangelho nunca nos apresenta um Cristo fascinado pelos fortes, ou apenas por aqueles que podiam pagar os cuidados.

Jesus detém-Se sempre onde os outros passam depressa.

Ajoelha-Se diante da fragilidade.

Toca a carne que todos evitam.

Demora-Se junto de quem já ninguém considera importante.

Porque Deus conhece um segredo que nós esquecemos demasiadas vezes:

o valor de uma vida nunca diminui quando as suas forças diminuem.


Há uma santidade escondida na vulnerabilidade.

Há uma espécie de sacramento em cada corpo ferido.

Como se Deus continuasse a escolher a carne mais frágil para recordar ao mundo que o amor nunca depende da perfeição.

Foi esse segredo que São João de Deus compreendeu como poucos.

Quando todos viam pobres, loucos, abandonados e moribundos, ele via irmãos.

Não se aproximava para tratar apenas uma doença, mas para honrar uma dignidade.

Sabia que cada pessoa transportava uma história que merecia ser escutada, um nome que merecia ser pronunciado com respeito e um coração que continuava a ser infinitamente precioso aos olhos de Deus.


A hospitalidade nasceu desse olhar.

Não do desejo de curar apenas o corpo, mas da coragem de amar a pessoa inteira.

Quando te aproximares de um doente, esquece, por um instante, a doença.

Imagina a mãe que ainda reza por ele. Por aquele filho tão amado.

A filha que todos os dias pergunta ao pai como passou a noite.

O pai que carregou às cavalitas os filhos e os netos em animadas brincadeiras

O marido que continua a acariciar o cabelo da esposa, mesmo quando ela já não sabe o seu nome.

O neto que guarda uma fotografia antiga do avô onde aquele rosto ainda ria.

Depois, levanta ainda mais o olhar.

Contempla Deus.

Não o Deus distante das ideias, mas o Deus que conhece aquele nome desde antes da criação do mundo. O Deus que recolheu cada lágrima, que esteve presente em cada alegria, que nunca retirou os olhos daquele filho, nem quando o mundo deixou de o ver.

É esse o olhar que São João de Deus nos deixou como herança.

Olhar até que a doença deixe de ser o centro.

Olhar até que a pessoa volte a aparecer.

Olhar até descobrir, por detrás de cada fragilidade, alguém que continua a ser amado sem medida.

E nesse instante o olhar transforma-se.

Já não estás diante de um desconhecido.

Já não estás diante de um peso.

Já não estás diante de "mais um".

Estás diante do amor de uma família.

Estás diante do amor de Deus.

Cuidar de um doente não é apenas aliviar uma dor. É entrar, descalço, no lugar mais sagrado da existência humana.

Porque um doente nunca é apenas um doente.

É sempre o amor de alguém.

E é sempre, para Deus, um filho infinitamente amado.


Fernando d'Oliveira

terça-feira, 7 de julho de 2026

Controlar o temperamento

 


Controlar o temperamento

Uma das coisas que mais salta à vista, neste tempo pós-pandemia, é que as pessoas se tornaram mais agressivas na linguagem, com du(r)as pedras na mão; mais brutas no trato e com uma pedra no sapato.
Sentimos as pessoas mais tensas, mais agitadas e impacientes, mais arrogantes e violentas. Talvez pelo excesso de trabalho e de produção, pelo esgotamento, pela pressão constante em darmos mais, tornamo-nos hoje pessoas zangadas, aborrecidas, quezilentas, mal-humoradas. Mas se vivermos assim, acabaremos ainda mais cansados e exaustos.
Jesus está a atravessar um período de insucessos e problemas: João Batista é preso, Ele é contestado abertamente por representantes do templo, as povoações, após a primeira onda de entusiasmo e de milagres, afastaram-se.
E diante daquele ambiente de derrota, Jesus não se torna agressivo; pelo contrário, admira-se com a novidade; enche-se de alegria, sente-se feliz: «Pai, bendigo-Te, dou-Te graças, agradeço-Te, porque Te revelaste aos pequenos.»
O lugar vazio dos grandes preenchem-no os pequenos: sim, os pequeninos, os que nada podem fazer sozinhos, mas que sabem confiar, sabem que podem confiar e sabem em Quem confiar.
Jesus dirige-lhes, e a cada um de nós, um convite surpreendente:
«Vinde a Mim», «Tomai sobre vós o meu jugo» e «Aprendei de Mim».
Com Jesus aprendemos a controlar o nosso temperamento.
O controlo do nosso temperamento pode tornar-se um dos maiores desafios da nossa vida.


Padre João Torres