quinta-feira, 30 de abril de 2026
O poder revela quem o possui
Se queremos saber quem alguém é, importa esperar até que venha a ter algum tipo de poder. O que estava oculto revela-se.
É possível encontrar sábios com poder, mas isso é muito raro. O mais comum é que os poderosos não sejam tão prudentes e sensatos quanto seria de esperar. Aquilo a que muitos poderosos chamam coragem é, na verdade, uma audácia precipitada e excessiva, que se expõe a perigos desnecessários e graves.
E, talvez mais perigoso ainda, o poder vicia. Cria a ilusão de que somos o que podemos… e não somos! E, para fugir a essa crua verdade, procuramos cada vez mais poder.
Um ato de bondade é um gesto poderoso, porque, mais do que fazer muito ou muitas vezes, o verdadeiro poder está em fazer bem — acertar em cheio.
A quem deve servir o poder que se tem? A si próprio ou a todos os que lhe estão sujeitos?
Como uso eu o poder que tenho sobre mim – sobre a minha vida?
Se posso ser feliz e não o sou, então não estou a usar bem o poder que tenho — nem sequer para meu próprio benefício!
José Luís Nunes Martins
quarta-feira, 29 de abril de 2026
Ser amor
Que saibamos sempre ser abraço. Que chega de mansinho e que abriga tudo. Como refúgio que envolve em noites de tempestade.
Que saibamos sempre ser presença. Que fica e que diz “estou aqui”, sem precisar de dizer. Como mão que acompanha e colo que ampara.
Que saibamos sempre olhar mais longe. Olhar que olha fundo na alma, que escuta o silêncio do coração. Como luz que atravessa a escuridão.
Que saibamos sempre ser palavra de ternura. Que conforta e que traz esperança no momento certo. Como abraço que vem para cuidar.
Que saibamos sempre ser amor. Na delicadeza dos pequenos gestos, na bondade do nosso coração. Como sopro que passa só para abraçar.
Talvez melhoremos o dia de alguém. Talvez toquemos a vida de alguém. Talvez façamos sorrir o coração de alguém.
E talvez isso cure. Talvez salve. Talvez seja tudo.
Para alguém.
E, quase sem percebermos, para nós também.
Daniela Barreira
terça-feira, 28 de abril de 2026
Conhecidos pelo nome
Não um dono. Não um chefe.
Mas Aquele que conhece.
Que chama pelo nome.
Que dá a vida. E fica. Mesmo quando todos se vão.
Num mundo que nos deixa cansados, dispersos, sozinhos...
Ele conhece o que escondemos:
o medo, a ferida, o cansaço por trás do sorriso.
E mesmo assim — chama-nos.
Não com gritos.
Mas com um sussurro.
Deus não impõe. Espera. E fala ao coração.
Para escutar essa voz, é preciso parar.
E isso assusta. Porque essa voz pede mais.
Pede verdade.
Pede entrega.
Pede caminho.
A fé não é costume.
É encontro.
É deixar-se conduzir por um Amor que nunca desiste.
Ele continua a chamar.
E o mundo tem fome.
Fome de sentido. Fome de paz. Fome de um Amor que não passa.
Talvez a vocação comece aqui:
no silêncio onde descobrimos que viver…
é dar a vida.
segunda-feira, 27 de abril de 2026
Homilia do Papa Leão na missa de ordenação de dez sacerdotes
“Hoje, mais do que nunca, especialmente onde os números parecem indicar um distanciamento entre as pessoas e a Igreja, mantenham a porta aberta! Deixem entrar e estejam sempre prontos para sair. Este é outro segredo para a sua vida: vocês são um canal, não um filtro.
Muitos acreditam já saber o que há além daquele limiar. Trazem consigo memórias, talvez de um passado distante; com frequência, há algo vivo que não se extinguiu e que atrai; por vezes, porém, há qualquer outra coisa, que ainda sangra e afasta. O Senhor sabe e espera. Sejam reflexo da sua paciência e da sua ternura. Vocês são de todos e para todos! Que este seja o traço fundamental da sua missão: manter livre essa soleira e indicá-la, sem necessidade de muitas palavras.”
domingo, 26 de abril de 2026
O BOM PASTOR
https://www.youtube.com/watch?v=UQ66Q2MdxfU&list=PL7Zt-5fD4oJj3JMhvkLAxHxO47r0rTeet&index=3
No Evangelho Jesus recorre a duas imagens para descrever a missão que o Pai lhe confiou: Ele é o “Pastor Bom” e “a porta” que dá acesso às ovelhas. Como “Pastor Bom”, Ele cuida das ovelhas de Deus com dedicação e amor, liberta-as do domínio da escravidão e leva-as ao encontro das pastagens verdejantes onde há vida em plenitude. Como “porta”, Ele tem uma dupla função: impede que os “ladrões e salteadores” tenham acesso às “ovelhas” e torna-se a referência para as “ovelhas” que entram e que saem. A vida daqueles que fazem parte do “rebanho” de Deus constrói-se e entende-se a partir de Jesus.
No “rebanho” de Jesus, não se entra por convite especial, nem há um número restrito de vagas. A proposta de salvação que Jesus faz destina-se a todos os homens e mulheres, sem exceção. O que é decisivo para fazer parte do rebanho de Deus é “escutar a voz” de Jesus, aceitar as suas indicações, tornar-se seu discípulo… Isso significa, concretamente, ir atrás de Jesus, aderir ao projeto de salvação que Ele veio propor, viver ao seu estilo, percorrer o mesmo caminho que Ele percorreu, numa entrega total aos projetos de Deus e numa doação total aos irmãos. Atrevemo-nos a seguir o nosso “Pastor” (Jesus) no caminho exigente do dom da vida, ou estamos convencidos que esse caminho é apenas um caminho de derrota e de fracasso, que não leva aonde nós pretendemos ir?
A primeira leitura define o percurso que Jesus, “o Bom Pastor”, desafia as suas “ovelhas” a fazer: é preciso abandonar o egoísmo e a escravidão (converter-se), aderir a Jesus e segui-l’O (ser batizado), acolher a vida nova de Deus e deixar-se recriar, vivificar e transformar por ela (receber o Espírito Santo).
Aos interessados em acolher a salvação de Deus, Pedro propõe um caminho de conversão. Converter-se é abandonar os velhos caminhos de egoísmo, de prepotência, de orgulho, de autossuficiência que nos levam para longe de Deus e voltar para trás, para que possamos escutar novamente Deus, aceitar outra vez os seus desafios, viver de acordo com as suas indicações, numa entrega obediente nas mãos de Deus; é abraçar a proposta de vida nova que Jesus nos veio oferecer, seguir atrás de Jesus, viver ao seu estilo, abraçar o seu Evangelho, comprometer-se com o Reino de Deus. Estamos disponíveis para encarar a nossa vida sob o signo da conversão? O que é que, na nossa vida, mais necessita de ser transformado, em termos de ideias, valores, comportamentos? O que temos de corrigir para viver de forma coerente com o nosso batismo e com a nossa opção por Jesus?
Na segunda leitura um “mestre” cristão do final do séc. I convida os batizados a olharem para o exemplo de Cristo: “insultado, não pagava com injúrias; maltratado, não respondia com ameaças; mas entregava-se àquele que julga com justiça”. Jesus, o “Pastor Bom”, aponta-nos o caminho que leva à vida. Se seguirmos as suas orientações, não seremos “ovelhas desgarradas”.
O autor da primeira Carta de Pedro refere-se a Jesus como “o Pastor” que reúne as suas ovelhas, as guarda e as conduz para as pastagens eternas onde há vida em abundância. Seguir esse “Pastor” é tornar-se seu discípulo e ir atrás d’Ele pelos caminhos que Ele indica, imitar os seus gestos, fazer o bem a todos, perdoar sem condições, testemunhar a todos a misericórdia de Deus, responder à injustiça e à violência com o amor. Cristo é, de facto, o nosso “Pastor”, a nossa referência fundamental, o modelo de vida que temos sempre diante dos olhos, aquele que seguimos sem hesitar? Como Cristo, estamos disponíveis para dar testemunho no mundo – mesmo que “contra a corrente” – da ternura, da misericórdia e da bondade de Deus?
sábado, 25 de abril de 2026
Guiné Equatorial: Papa visita prisão e defende justiça focada na reabilitação
Leão XIV sublinha necessidade de «reconstruir a vida quer das vítimas, quer dos culpados, quer das comunidades feridas»

Bata, Guiné Equatorial, 22 abr 2026 (Ecclesia) – O Papa defendeu hoje que o sistema de justiça deve investir na dignidade e nas potencialidades da pessoa, falando durante uma visita à Prisão de Bata, na Guiné Equatorial.
“A verdadeira justiça procura não tanto punir, mas sobretudo ajudar a reconstruir a vida quer das vítimas, quer dos culpados, quer das comunidades feridas pelo mal”, afirmou Leão XIV, perante a comunidade prisional.
“Não há justiça sem reconciliação”, acrescentou, durante um encontro que decorreu no pátio interior da prisão.
O Papa pediu que as instituições prisionais ofereçam oportunidades concretas de reintegração, desejando que se faça todo o possível para garantir acesso ao estudo e ao trabalho digno durante o cumprimento das penas.
“A vida não é determinada apenas pelos erros cometidos, que geralmente são resultado de circunstâncias duras e complexas: existe sempre a oportunidade de se reerguer, de aprender e de se tornar uma pessoa nova”, sublinhou.
O Papa realçou que “ninguém é excluído do amor de Deus”.
A visita à prisão, num país governado há 47 anos pelo presidente Teodoro Obiang Nguema Mbasogo, ganha maior simbolismo perante denuncias de organizações internacionais que documentam um histórico de abusos e métodos de tortura no sistema penal do país africano.
“Deus nunca vos abandonará e a Igreja estará ao vosso lado”, disse Leão XIV, a centenas de reclusos presentes no encontro.
“A administração da justiça tem por objetivo proteger a sociedade, mas, para ser eficaz, deve sempre investir na dignidade e nas potencialidades de cada pessoa”, acrescentou.
Antes do seu discurso, Leão XIV referiu-se à forte chuva que se fez sentir e disse que é uma “bênção de Deus”.
A intervenção do Papa foi precedida pelo testemunho do capelão prisional e de um recluso, que reconheceu os erros cometidos.
“Embora as nossas mãos tenham feito coisas más no passado, o nosso coração ainda sonha em fazer o bem”, referiu o recluso, agradecendo ao Papa por os procurar num lugar onde muitos pensavam que ninguém iria.
O administrador da prisão também discursou, reforçando o compromisso da instituição em aliar a segurança a processos de “reabilitação”.
A visita ficou ainda marcada pela oferta de uma cruz de madeira, feita pelos próprios reclusos, ao pontífice.
À chegada à prisão, o Papa tinha sido recebido pelo ministro da Justiça do país, Reginaldo Biyogo Mba Ndong Anguesomo.

No trajeto desde o aeroporto, Leão XIV fez uma breve paragem na Catedral de São Tiago e de Nossa Senhora do Pilar, para um momento de oração.
A passagem pela cidade costeira de Bata prossegue com uma homenagem junto ao monumento comemorativo das vítimas das explosões de 7 de março de 2021.
A tragédia no quartel militar de Nkoantoma causou 107 mortos e mais de 600 feridos devido à detonação negligente de explosivos.
A primeira viagem apostólica de Leão XIV a África, que se iniciou a 13 de abril e incluiu passagens pela Argélia, Camarões e Angola, termina esta quinta-feira com uma Missa no Estádio de Malabo, antes do voo de regresso a Roma.
OC
sexta-feira, 24 de abril de 2026
DAS CRUZES DE BARCELOS ÀS CRUZES DO MUNDO ...
As festas assinalam o ritmo da vida dos povos, das sociedades, das comunidades, das instituições, das associações, dos clubes, das famílias, das pessoas... São momentos de rutura com o quotidiano, marcam a diferença, fomentam a consciência de pertença, solidificam a unidade, assinalam momentos fortes, refrescam e renovam a vida e a esperança no futuro.
Tal como se costuma falar da época dos saldos, das férias, das colheitas, dois incêndios, das praias, das vindimas..., também podemos dizer que está a chegar a época das festas, sobretudo das festas populares, com origem e sabor religioso, com afirmação da fé e grande expressão festiva. A festa faz parte da natureza humana. Porque a Festa das Cruzes, em Barcelos, é considerada a primeira grande romaria do Minho, e joga-se por estes dias, entre o fim deste mês e o princípio do outro, falemos, sobretudo, do seu cariz religioso, cujo centro é o templo do Bom Jesus da Cruz.
Como sabemos, o nosso Deus é o Deus da Alegria e da Festa. A sua alegria é a nossa força. Ele próprio participava nas festas do seu tempo, iniciou a sua vida pública numa festa. Quis que a sua alegria estivesse em nós e a nossa alegria fosse completa. E tudo fez para que, em comunhão com Ele, já, neste mundo, vivendo as festas da vida, fizéssemos da vida uma festa. E não partiu sem nos convidar e oferecer um ‘lugar’, comprado por ele por um alto preço (1Cor 6,20), para nos sentarmos à mesa da grande Banquete do seu Reino, à mesa das Bodas do Cordeiro (cf. Lc 14, 15-24; Mt 22, 1-14).
Ora, a Festa que dá origem a todas as festas, isto é, a Festa das festas, a Festa por excelência, é a Festa da Páscoa da Ressurreição, a Festa da vitória da vida sobre a morte, a Festa da vitória da Luz sobre as trevas, a Festa da vitória da alegria sobre a tristeza, a Festa do dom da vida em plenitude como destino final do ser humano. Nas festas, sobretudo cristãs, é isso que conta, é isso que verdadeiramente se celebra e deve ser realçado, é isso que não se deveria esquecer com a preocupação de lhes associar muitas outras coisas para que a festa seja maior. Tudo quanto nelas se associa e se promove, deveria ser para centralizar no essencial e não para descentralizar. Ir à festa e não ir ao epicentro da mesma é capaz de ser mais sem sentido do que ir a Roma e não ver o Papa, é andar na festa sem saber bem porquê. Talvez ande por lá por ver andar os outros, embora se possa divertir como convém e é dado que aconteça...
Na Festa das Cruzes, afirma-se, professa-se que Deus falou e continua a falar por meio da Cruz, por meio do mistério de seu Filho, morto e ressuscitado, expressão máxima do amor de Deus para com a Humanidade. A Cruz de Cristo está enraizada no coração da Humanidade e da sua História. Nela, Jesus revela ao mundo o rosto visível de Deus invisível. Nela, manifesta-se a face humana e frágil da infinita misericórdia de Deus: “Pai, perdoai-lhes porque não sabem o que fazem” (Lc 23, 34). Pela Cruz, sempre o Povo de Deus manteve e mantém o olhar fixo em Jesus Cristo, o ‘autor e consumador da fé’ (Heb 12,2). Olhar Jesus na Cruz, faz descobrir “a alegria do amor, a resposta ao drama da tribulação e do sofrimento, a força do perdão face à ofensa recebida e a vitória da vida sobre o vazio da morte, tudo isto encontra plena realização no mistério da sua Encarnação, do seu fazer-Se homem, do partilhar connosco a fragilidade humana para a transformar com a força da sua ressurreição” (Bento XVI, P. Fidei, 13).
Se, na Procissão da Festa, a presença das Cruzes processionais das 89 paróquias do Arciprestado, é que lhe dá o nome de Festa das Cruzes (no plural), na mente e no coração de todos está o Senhor Jesus da Cruz. Da Cruz que não exalta o mistério da dor sem sentido, mas que exalta o mistério do amor de Deus que dá sentido à dor de todas as cruzes da humanidade. Ali, na sabedoria da Cruz, revela-se o amor e a glória de Deus. É uma parábola impressionante e dolorosa, é ‘um livro’, como dizia o Papa Francisco, um livro que não basta comprá-lo, tê-lo e expô-lo na parede ou trazê-lo ao pescoço ou no bolso. É preciso abri-lo, lê-lo e compreendê-lo, aceitando-o como ele é e quanto ele significa e revela. Símbolo de vida e de esperança, símbolo da fé cristã, a Cruz é o emblema de Jesus, morto e ressuscitado, escândalo para uns, loucura para outros, mas fonte de vida e de salvação para as pessoas de todos os tempos e lugares. É um sinal verdadeiramente grande e precioso, como afirmava Santo André de Creta, no século VII: “Grande, porque é a origem de bens inumeráveis, tanto mais excelentes quanto maior é o mérito que lhes advém dos milagres e dos sofrimentos de Cristo. Precioso, porque a Cruz é simultaneamente o patíbulo e o trofeu de Deus: o patíbulo, porque nela sofreu a morte voluntariamente; e o trofeu, porque nela foi mortalmente ferido o demónio, e com ele foi vencida a morte”.
A Cruz do Senhor Jesus estende-se, de forma solidária, a todos os crucificados e oprimidos da história, a todos os que sofrem por causa de guerras, catástrofes climáticas, falta de oportunidades, preconceitos, discriminação, racismo, xenofobia, sistemas políticos e económicos perversos, descarte, fracasso, doença, pobreza nas suas várias dimensões, cansaço, dor, desprezo, solidão, droga, violação, tráfico humano, violência doméstica, incompreensão, ganância e ódio de terceiros… Na Cruz de Cristo, fonte de vida e de luz, de esperança e de salvação, estão significadas todas as cruzes do mundo e da humanidade, toda a dor e sofrimento.
Dela, da Cruz do Senhor Jesus da Cruz, ecoa o convite sempre atual e atuante de quem tanto nos amou: “Vinde a mim, todos vós que andais cansados e oprimidos, que eu vos aliviarei... aprendei de mim que sou manso e humilde de coração ...e encontrareis descanso para as vossas vidas, pois o meu jugo é suave e o meu fardo é leve” (Mt11,28-29). Ir ao encontro de Jesus e caminhar com Jesus implica negar-se a si mesmo e assumir a cruz de cada dia, com alegria e esperança (cf. Mc 8, 34). Desde a fundação de Portugal, também a Cruz de Cristo é um dos símbolos mais caraterísticos da nossa identidade nacional. Ela reflete-se em espaços geográficos, nas instituições, na cultura, nas artes, na liturgia, na vida dos crentes e das famílias... até no brasão de armas de Portugal se refletem as feridas da Paixão.
“In hoc signo vinces”!
D. Antonino Dias
Caminha, 24-04-2026.
quinta-feira, 23 de abril de 2026
Que eu veja, Senhor!
Dá-me um olhar puro, uma sabedoria capaz de ver o que os meus olhos não alcançam e compreender o que a minha mente não aceita.
Peço-te Senhor, a capacidade de ver o melhor que o meu irmão tem, sem achar que tenho de ter algo a dizer que não seja a seu favor.
Peço-te Senhor, a capacidade de reconhecer que nem sempre tenho de ter opinião sobre tudo o que vejo, pois nem sempre tenho o olhar limpo de preconceito.
Permite-me ver o que me faz falta e não tanto o que me querem vender.
Acima de tudo, faz com que eu veja o que preciso para ser uma pessoa melhor.
Sabes Senhor, não é fácil ver o bom das coisas quando vemos tanta injustiça. Nem reconhecer o outro quando não nos sentimos reconhecidos.
Não é fácil ver o belo sem parecermos ignorantes ou insensatos.
Não é fácil ver e reconhecer quando é tempo de falar ou tempo de calar.
Não é fácil Senhor, mas disso Tu também sabes!
Não deve ter sido fácil convencer os teus apóstolos a remar contra a corrente de uma religião tão presa a preceitos que descurava o essencial. Também não deve ter sido fácil perdoar as traições, injúrias e ofensas que te levaram à Cruz.
Confias-te até ao fim e sei que queres que eu confie.
Não preciso de ver para acreditar, nada disso, mas preciso de sentir que nada é em vão.
Que o empenho e a oração, a dádiva e a solidariedade não são minados por comportamentos menos próprios, pelo desdém ou a mera indiferença.
Vemos muita coisa Senhor, mas parece que somos cegos para a beleza que nos rodeia e que nos lembra, dia a após dia que temos de confiar pois, uma semente pra brotar, passou meses a preparar-se para isso e tu e eu nem demos por isso.
Que eu Te veja!
E tu amiga, o que sentes que não estás a conseguir ver?
Raquel Rodrigues
quarta-feira, 22 de abril de 2026
Fica connosco, Senhor, porque anoitece
“A vida é um mistério a ser vivido,
não um problema a ser resolvido.”
Há dois homens atordoados, desiludidos, traumatizados,
sem saber o que fazer das suas vidas,
fazem uma viagem de Jerusalém para Emaús
fugindo para longe de todas as tribulações.
Quem não experimenta a solidão, que torna pesado o coração?
Quem não sente, no percurso da sua vida, o fardo pesado da incerteza
e da precariedade destes tempos, o medo do futuro?
Que faz Jesus àqueles homens perdidos de Emaús?
Não se apresenta,
Não os julga! Caminha com eles.
E, em vez de erguer um muro, abre uma nova brecha.
Faz-lhes perguntas, como é próprio de quem ama
para lhes corrigir as respostas
e que ajuda a “deitar para fora” o desânimo e a tristeza que os habitava...
Lentamente, eles foram fazendo a “travessia”
de uma memória pesada, triste, doentia...
a uma memória saudável, curativa e aberta ao futuro.
Por meio da bênção e do ato de partir e compartilhar o pão,
os discípulos fazem a ligação com o passado.
Chega o momento do reconhecimento, e eles transformam-se.
Cheios de estímulo e esperança,
voltam para Jerusalém a fim de partilhar a nova descoberta.
Se eu te amo, quero que haja luz nos teus olhos
e quero estar junto de ti como contágio de luz...
Aquele Homem Deus Cheio de Luz
Pouco a pouco, transforma o desânimo numa brecha de Luz
INFLAMA o coração e ABRE os olhos,
E um convite nasce naquela noite válido para todas as noites da vida
Fica connosco porque anoitece
terça-feira, 21 de abril de 2026
Viver em verdade
Viver em verdade é um desafio permanente.
Parece que a cada momento somos chamados a fazer desvios da essência que nos habita. É como se o que fosse mais válido e mais aceite socialmente fosse, precisamente, aquilo que não somos.
Para sobreviver, somos muitas vezes chamados a mostrar uma versão da nossa vida que pode parecer mais atraente para os outros, mas menos real para nós. E o perigo de mostrarmos algo que não corresponde ao que somos é o de deixarmos de saber, ao certo, que linhas cosem a nossa raiz.
Para singrar e para ser aceite há quem consiga mentir, contar meias-verdades, fazer alguém acreditar numa história que só existe na sua cabeça. E é assim que o coração e alma adoecem automaticamente. Só que é muito fácil (e tentador) convencermo-nos desta versão idealizada. Construída para agradar os outros. Erguida para nos proteger daquilo que, por vezes, nos custa ver.
Nalguns momentos, custa-nos ver que a vida que temos ou construímos não é exatamente aquilo que gostaríamos. Custa-nos ter a consciência da possibilidade de podermos ter decidido diferente ou de ter feito melhor. É mais simples ficar à espera que tudo se resolva, que as coisas aconteçam por si só.
Viver em verdade parece algo óbvio. Inevitável. Mas talvez não seja assim tanto. Talvez cada um de nós esconda (ou guarde?) para si partes que não quer ver reveladas ou escrutinadas pelo olhar alheio. Parece-nos um pouco difícil imaginar que o outro nos compreenderia e aceitaria como somos. Sem mais nem menos.
Talvez essas resistências a viver uma vida em verdade e em coerência existam apenas dentro de nós. Talvez esse julgamento externo só exista como projeção do nosso próprio “tirano” interno.
A maior honestidade que podemos viver é quando decidimos sê-lo connosco. A verdade é profundamente mais simples do que o esforço de construir uma ilusão ou uma mentira para quem nos olha.
Quem sabe se os outros não estão também distraídos com as suas próprias especificidades e não estão, sequer, interessados em analisar-nos ou avaliar-nos.
Afinal, talvez uma vida em verdade deva ser vivida de dentro para dentro. E não de dentro para fora.
Marta Arrais
segunda-feira, 20 de abril de 2026
Não basta ajudar — é preciso caminhar juntos
A missão profética da Igreja de Jesus não se mede pelas esmolas que distribui, nem pelas estruturas que sustenta, nem pelos discursos que proclama. Mede-se pelo lugar onde decide estar. E a verdade, quando levada a sério, incomoda: somos chamados a ser uma Igreja pobre com os pobres — não uma pobre Igreja rica que, à distância confortável, socorre os pobres sem nunca partilhar verdadeiramente a sua vida.
Porque há uma diferença que desinstala: ajudar mantém a distância; caminhar juntos derruba-a.
No concreto do dia-a-dia, isto ganha rosto e nome. Está na mesa onde falta comida, mas não falta partilha. Está no trabalhador que vive no limite, mas não abdica da sua dignidade. Está na mulher que, em silêncio, sustenta uma casa inteira com coragem invisível. E está também em nós — nas nossas escolhas, nas nossas prioridades, na forma como olhamos (ou evitamos olhar).
Quantas vezes ajudamos sem escutar? Quantas vezes damos sem nos deixarmos tocar? Quantas vezes mantemos o controlo, a segurança, a posição… e chamamos a isso caridade?
Uma Igreja que apenas “dá” corre o risco de nunca aprender. De nunca se converter. De nunca reconhecer que também é pobre — pobre de tempo, de escuta, de proximidade, de verdade. E talvez seja por isso que o Evangelho continua a ser tão exigente: não nos pede gestos ocasionais, pede-nos vida partilhada. Não nos pede que sejamos benfeitores, pede-nos que sejamos irmãos.
Irmãos não resolvem à distância. Comprometem-se. Misturam-se. Deixam-se transformar.
Os pobres não são um problema a resolver, nem um número a reduzir, nem um projeto a apresentar. São presença viva que questiona, que ensina, que desmonta as nossas ilusões de suficiência. São lugar de encontro com Deus — não um “campo de ação”, mas um caminho de conversão.
E talvez o mais desconcertante seja isto: quando nos aproximamos verdadeiramente, percebemos que não somos nós que levamos Deus até eles — são eles que nos revelam um Deus que ainda não conhecíamos.
Por isso, a pergunta permanece, firme, inevitável:
queremos continuar a ajudar de longe… ou temos coragem de viver perto, com menos certezas e mais verdade?
domingo, 19 de abril de 2026
Angola: Papa defende fim da «lógica extrativista» e superação de conflitos
Primeiro discurso de Leão XIV denuncia «cadeia de interesses» que potencia violência e exclusão social

Luanda, 18 abr 2026 (Ecclesia) – O Papa defendeu hoje em Luanda a superação urgente da conflitualidade e o fim da “lógica extrativista” em África, num encontro com as autoridades angolanas.
“Quanto sofrimento, quantas mortes, quantas catástrofes sociais e ambientais acarreta esta lógica extrativista! Em todas as partes do mundo, vemos como ela, no fundo, alimenta um modelo de desenvolvimento que discrimina e exclui, mas que ainda pretende impor-se como o único possível”, disse Leão XIV, perante responsáveis políticos, representantes religiosos e da sociedade civil, além de membros do corpo diplomático.
O pontífice aterrou esta tarde no Aeroporto Internacional de Luanda, onde foi recebido pelo presidente João Lourenço e por duas crianças que lhe ofereceram flores, sendo acompanhado por milhares de pessoas ao longo do percurso pelas estadas da capital do país lusófono.
Após a cerimónia de boas-vindas, o pontífice deslocou-se ao Palácio Presidencial para um encontro privado com o chefe de Estado angolano, antes do discurso inaugural.
Leão XIV centrou o seu primeiro discurso na necessidade de proteger a dignidade humana e os recursos do continente contra a exploração.
“É necessário quebrar esta cadeia de interesses que reduz a realidade e a própria vida a uma mera mercadoria”, apelou, lendo em português.
O Papa alertou para o sofrimento e as catástrofes ambientais provocadas por modelos de desenvolvimento excludentes.
A África tem uma necessidade urgente de superar situações e fenómenos de conflitualidade e inimizade, que dilaceram o tecido social e político de tantos países, fomentando a pobreza e a exclusão”.

“Os déspotas e os tiranos do corpo e do espírito pretendem tornar as almas passivas e os ânimos tristes, propensos à inércia, dóceis e subjugados ao poder”, observou.
Leão XIV incentivou os detentores de autoridade em Angola a valorizarem a diversidade e a gerirem os conflitos como caminhos de renovação.
“Colocai o bem comum acima do das partes, não confundindo nunca a vossa parte com o todo”, insistiu.
A intervenção destacou a vitalidade da juventude africana, classificando a sua alegria e esperança como virtudes políticas fundamentais.
“A África é, para o mundo inteiro, uma reserva de alegria e esperança, que eu não hesitaria em definir como virtudes ‘políticas’, porque os seus jovens e os seus pobres ainda sonham, ainda esperam, não se contentam com o que já existe, desejam reerguer-se, preparar-se para grandes responsabilidades, empenhar-se em primeira pessoa”, sustentou.
O Papa reiterou o compromisso da Igreja Católica em promover a justiça e a convivência fraterna na sociedade.
“A Igreja Católica, cuja obra de serviço ao país sei o quanto estimais, deseja ser fermento na massa e promover o crescimento de um modelo justo de convivência, livre das escravidões impostas por elites com muito dinheiro e falsas alegrias”, indicou o pontífice.
Leão XIV seguiu para a Nunciatura Apostólica, onde pernoita durante a sua estadia em Luanda, tendo vindo à janela para saudar a multidão que se reuniu diante da embaixada da Santa Sé.
A agenda do dia encerra-se pelas 19h00, num encontro privado entre o pontífice e os bispos de Angola.
Este domingo o Papa visita o maior lugar de peregrinação religiosa no país, o Santuário da Muxima (palavra que significa “coração” na língua quimbundo).
O programa de domingo começa celebração da Missa campa em Kilamba (10h00), a 30 quilómetros de Luanda, e a recitação do terço no Santuário mariano da Muxima, um dos centros da devoção católica em Angola, pelas 16h30.
A 20 de abril, Leão XIV viaja até Saurimo, no leste do país, ara visitar uma casa de acolhimento de idosos (09h45) e presidir à Eucaristia (11h15), regressando a Luanda ao final da tarde para um encontro com os bispos e os agentes pastorais, na Paróquia de Nossa Senhora de Fátima (17h30).
A última etapa da viagem apostólica começa a 21 de abril, com a partida de Luanda para a Guiné Equatorial, às 09h15.
Leão XIV é o terceiro Papa a visitar Angola, depois de São Paulo II ter realizado uma visita apostólica ao país, que incluiu uma passagem por São Tomé e Príncipe, entre os dias 4 e 10 de junho de 1992, e depois Bento XVI, de 20 a 23 de março de 2009.
O Missal da Viagem Apostólica do Papa Leão XIV a África, divulgado pelo Vaticano, coloca a oração pela reconciliação nacional no centro das cerimónias dos próximos dias, num país em que os católicos são cerca de 58% da população.
OC ( Agencia Eclesia)
JESUS CAMINHA CONTIGO
https://www.youtube.com/watch?v=EDVDx_ImrZY&list=PLAqKRngqwuSfPdOPEvu7KzjdvMvB1w33f&index=1
No Evangelho o “catequista” Lucas convida-nos a acompanhar dois discípulos que, abalados pela aparente falência do projeto de Jesus, desistem da comunidade cristã e põem-se a caminho de uma outra vida. No entanto Jesus, sem se identificar, acompanha-os no caminho, ajuda-os a encontrar respostas, devolve-lhes a esperança. Eles só reconhecem Jesus quando, à mesa, Ele parte e reparte o pão. O relato – com um evidente “sabor” eucarístico – é uma maravilhosa parábola sobre os nossos desencontros e encontros com Jesus ressuscitado: Ele nunca deixará de nos acompanhar no caminho, de nos explicar o sentido da vida e de nos alimentar com a sua Palavra e o seu Pão.
Os relatos pascais referem amiudamente a alegria irreprimível que enche o coração dos discípulos que se encontram com Jesus ressuscitado. A narração da aparição de Jesus aos discípulos de Emaús, sem falar concretamente de alegria, alude ao entusiasmo que aqueles dois discípulos sentiram pela presença e pela companhia de Jesus ressuscitado. É o entusiasmo que resulta de uma Presença que enche de paz, que dissipa o temor, que multiplica a coragem, que oferece esperança, que aumenta o amor, que dá sentido ao caminho… Conseguimos ver, hoje, essa alegria e esse entusiasmo no rosto dos discípulos de Jesus? Conseguimos perceber essa alegria na vida, na partilha, no testemunho, na celebração da fé nas nossas comunidades cristãs?
A primeira leitura é um extrato do discurso de Pedro na manhã de Pentecostes. Anuncia aos habitantes de Jerusalém e ao mundo que, aquele Jesus assassinado pelas autoridades judaicas, derrotou a maldade, a injustiça, a violência e a própria morte. Pedro, com ousadia profética, garante: “disso todos nós somos testemunhas”. É esta Boa Notícia que os discípulos de Jesus de todas as épocas continuam a anunciar ao mundo.
. A Igreja – a comunidade dos discípulos de Jesus – é hoje, no mundo, a testemunha de Jesus, da sua ressurreição, da verdade da sua proposta, da viabilidade do seu projeto. Sentimo-nos investidos dessa missão? Os homens desiludidos e desorientados que todos os dias se cruzam connosco nos caminhos do mundo encontram em nós – testemunhas de Cristo ressuscitado – uma proposta de vida definitiva e de realização plena? Somos nós que contaminamos o mundo com a Boa Notícia de Jesus e lhe oferecemos uma alternativa à desilusão e ao desespero, ou é o mundo que nos domestica e nos convence a abandonar os valores propostos por Jesus?
Na segunda leitura, um autor cristão do séc. I lembra aos batizados a vocação fundamental a que são chamados: a santidade. Para dar mais força ao seu apelo a uma vida santa, recorda-lhes que foram resgatados por um preço bem alto: pelo sangue precioso de Cristo. Ao ressuscitar e glorificar o seu Filho Jesus, Deus caucionou a proposta de vida que Ele nos veio oferecer.
Não podemos ficar indiferentes diante da ação de Deus em nosso favor. Um amor tão grande como aquele que Deus nos mostrou ao entregar-nos a vida do seu Filho Jesus, exige uma resposta clara e inequívoca da nossa parte. Qual? De acordo com o autor da Primeira Carta de Pedro, a nossa resposta deve traduzir-se numa conduta nova, numa atitude de acolhimento de Deus, de obediência total a Deus, de entrega incondicional nas mãos de Deus, de adesão completa aos planos, valores e projetos de Deus. O amor de Deus inspira-nos e motiva-nos para vivermos uma vida santa, uma vida “segundo Deus”?
sábado, 18 de abril de 2026
Argélia: Papa alerta para «espiral negativa» de violência no mundo
Annaba, Argélia, 14 abr 2026 (Ecclesia) – O Papa alertou hoje para a “espiral negativa” de violência do mundo, numa mensagem de despedida aos católicos da Argélia.
“Reconheçamos que a situação atual do mundo, como uma espiral negativa, tem origem, no fundo, no nosso orgulho. Precisamos de Deus, da sua misericórdia. Só Nele o coração humano encontra a paz”, disse Leão XIV, no final da Missa a que presidiu na Basílica de Santo Agostinho, em Annaba, a antiga cidade de Hipona, no Império Romano.
Perante cerca de 1500 pessoas, que participaram na primeira Missa pública presidida por um Papa na Argélia, o pontífice pediu que todos se voltem para Deus com “humildade”.
“Só com Ele poderemos todos juntos, reconhecendo-nos como irmãos, trilhar os caminhos da justiça, do desenvolvimento integral e da comunhão”, acrescentou.
Leão XIV agradeceu pelo acolhimento da comunidade católica e pela “hospitalidade atenciosa” as autoridades civis, ao longo destes dois dias de visita.
O primeiro Papa da Ordem de Santo Agostinho falou desta viagem como “um dom especial da providência de Deus”, em referência à passagem pela cidade onde o doutor da Igreja foi bispo, no século V.
“É um dom que o Senhor quis fazer a toda a Igreja por intermédio de um Papa agostiniano. E parece-me poder resumi-lo assim: Deus é amor, é o Pai de todos os homens e de todas as mulheres”, afirmou.
Na manhã desta quarta-feira, Leão XIV ruma aos Camarões, com chegada prevista à capita, Iaundé.
A agenda no território camaronês integra uma deslocação a Bamenda, na quinta-feira, para um encontro pela paz com a comunidade local e a celebração da Missa.
O dia 17 de abril é marcado por uma passagem por Douala, com uma missa em estádio e a visita a um hospital católico, antes do regresso a Iaundé para um encontro com o mundo universitário.
O núncio apostólico em Iaundé, D. José Avelino Bettencourt, destacou à Agência ECCLESIA o simbolismo da presença do Papa em contextos de elevada fragilidade social e militar, como acontece em Bamenda, no território anglófono, “uma zona de guerra”.
O Papa despede-se dos Camarões a 18 de abril, dia em que a comitiva papal viaja para Angola.
A viagem termina a 23 de abril, após passagem pela Guiné-Equatorial.
OC
SEM PERDER A POESIA, QUE LEITURAS NAS ESCOLAS?
Embora seja importante, não sei escrever sobre que livros se devam ler nas escolas. Apesar de concordar que “não há maior fragata que um livro para nos levar a terras distantes”, como afirmava Emily Dickinson, não me sinto à altura de o fazer. Acredito, no entanto, que seja uma grande e justa preocupação em quem tem essa responsabilidade. Além disso, também não estou dentro da verdadeira causa da iniciativa e dos parâmetros estabelecidos para analisar tal questão, quer se trate de saber se há alguma toxicidade nas leituras que estão em uso, quer se trate de mera rotina a confirmar a sua potabilidade, quer se trate de escolher fontes mais empáticas, capazes de provocar uma maior procura dessas águas em prol da saúde pública dos estudantes e do seu desenvolvimento integral. Presumo, no entanto, que, criar o gosto pela leitura, incutir a estima e a gratidão por quem tem o dom e a arte de escrever, apreciar o estilo do autor e levar a interpretar e a saber triar o conteúdo daquilo que se lê, com verdadeiro sentido crítico, é bem mais importante do que temperar o que se deve ler com o sal da obrigatoriedade ou o piripiri de qualquer ideologia.
A minha intenção está em reiterar o apelo do Papa Francisco na sua última Carta Encíclica: é preciso regressar ao coração. Se a preocupação dos pais, dos formadores e professores, isto é, se a preocupação de quem educa, ensina e forma, também incluir a necessidade de formar o coração dos seus educandos, o mundo terá muita mais beleza e encanto! Até evitaremos os tiranos, os egocêntricos e gananciosos, o individualismo doentio!
Hoje aposta-se muito na formação da inteligência, no conhecimento, na defesa dos valores da liberdade, da vontade... e bem, são valores evangélicos. No entanto, se as leituras que se procuram, além do interesse cultural ajudarem a que as ações das pessoas “sejam colocadas sob o ‘controle político’ do coração, que a agressividade e os desejos obsessivos sejam acalmados no bem maior que o coração lhes oferece e na força que ele tem contra os males; que a inteligência e a vontade sejam também postas ao seu serviço, sentindo e saboreando as verdades em vez de as querer dominar, como algumas ciências tendem a fazer; que a vontade deseje o bem maior que o coração conhece, e que a imaginação e os sentimentos se deixem também moderar pelo bater do coração”, então, todos lucraremos, pois cada um será o seu coração, será o coração que o distingue, o molda, o põe em comunhão com os outros, o torna possível de qualquer vínculo autêntico, o faz ultrapassar a fragmentação do individualismo. A desvalorização deste centro íntimo do homem, porém, vem de longe, diz o Papa. Ele “teve pouco espaço na antropologia e é uma noção estranha ao grande pensamento filosófico. Preferiram-se outros conceitos, como a razão, a vontade ou a liberdade. O seu significado permanece impreciso e não lhe foi atribuído um lugar específico na vida humana”. No entanto, ao não se dar o devido valor ao coração, dizia Francisco, quando não “se consideram as especificidades do coração, perdemos as respostas que a inteligência por si só não pode dar, perdemos o encontro com os outros, perdemos a poesia. E perdemos a história e as nossas histórias, porque a verdadeira aventura pessoal é aquela que se constrói a partir do coração. No fim da vida, só isto contará”.
Levar o coração a sério, reformá-lo com “os olhos postos no mundo inteiro e naquelas tarefas que podemos realizar juntos para o progresso da humanidade” terá verdadeiras consequências sociais, a sociedade mundial recuperará o seu coração, pois os “desequilíbrios de que sofre o mundo atual estão ligados com aquele desequilíbrio fundamental que se radica no coração do homem”. Neste mundo líquido, “é necessário voltar a falar do coração; indicar onde cada pessoa, de qualquer classe e condição, faz a própria síntese; onde os seres concretos encontram a fonte e a raiz de todas as suas outras potências, convicções, paixões e escolhas. Movemo-nos, porém, em sociedades de consumidores em série, preocupados só com o agora e dominados pelos ritmos e ruídos da tecnologia, sem muita paciência para os processos que a interioridade exige. Na sociedade atual, o ser humano corre o perigo de se desorientar do centro de si mesmo. O homem contemporâneo encontra-se com frequência transtornado, dividido, quase privado de um princípio interior que crie unidade e harmonia no seu ser e no seu agir. Modelos de comportamento infelizmente bastante difundidos, exaltam a sua dimensão racional-tecnológica ou, ao contrário, a instintiva. Falta o coração”.
É, pois, “necessário recuperar a importância do coração quando nos assalta a tentação da superficialidade, de viver apressadamente sem saber bem para quê, de nos tornarmos consumistas insaciáveis e escravos na engrenagem de um mercado que não se interessa pelo sentido da nossa existência”. O coração é o “centro unificador que dá a tudo o que a pessoa experimenta um substrato de sentido e orientação”. É “o lugar da sinceridade, onde não se pode enganar ou dissimular”. Ele costuma “indicar as verdadeiras intenções, o que se pensa, se acredita e se quer realmente”. É no coração “que se decide tudo: ali não conta o que mostramos exteriormente ou o que ocultamos, ali conta o que somos. E esta é a base de qualquer projeto sólido para a nossa vida, porque nada que valha a pena pode ser construído sem o coração. As aparências e as mentiras só trazem vazio”.
Antonino Dias
Caminha, 17-04-2026.
sexta-feira, 17 de abril de 2026
D. Pedro Fernandes denuncia «discursos de ódio, com dados errados, sobre a população imigrante»
Na Assembleia Plenária da CEP que terminou hoje em Fátima foram eleitos os novos responsáveis para liderar os vários setores da pastoral, no triénio 2026-2029.
Pastoral Social: D. Roberto Mariz assume a comissão com o compromisso claro de "remar contra a discriminação" e apoiar os mais frágeis.
https://agencia.ecclesia.pt/.../pastoral-social-novo.../Mobilidade Humana: D. Pedro Fernandes deixa um alerta forte, denunciando os discursos de ódio baseados em dados errados sobre a população imigrante.
https://agencia.ecclesia.pt/.../mobilidade-humana-novo.../Comunicações Sociais: D. Alexandre Palma sublinha o papel da comunicação, defendendo que a Igreja deve ser uma "qualificadora do debate público".
https://agencia.ecclesia.pt/.../comunicacoes-sociais.../Missão e Nova Evangelização: D. Rui Valério aponta caminhos para o futuro, sublinhando que é necessário "saber evangelizar numa sociedade reconfigurada pela imigração".
https://agencia.ecclesia.pt/.../pastoral-social-e.../Bispos e Vida Consagrada: A liderar a Comissão Mista, D. Nélio Pita valoriza o trabalho em conjunto: “Ganhamos todos com esta articulação e com este diálogo”.
https://agencia.ecclesia.pt/.../bispos-vida-consagrada.../Igreja tem «papel importante» integração» de comunidades imigrantes, afirma novo presidente da comissão episcopal

Fátima, 16 abr 2026 (Ecclesia) – D. Pedro Fernandes saudou a criação da Comissão Episcopal da Mobilidade Humana (CEMH), na Assembleia Plenária que hoje terminou, e lembrou o “importante papel” da Igreja “na criação de paz e integração” nas comunidades.
“Numa sociedade ocidental, em geral, e também em Portugal, onde têm crescido discursos de ódio, discursos distorcidos, com dados errados, seja sobre a população imigrante, seja sobre a própria realidade das diversidades culturais dentro do nosso tecido social, parece-me que é muito importante ajudar as nossas comunidades humanas e também a comunidade cristã a crescer neste sentido da fraternidade e da verdade nas relações”, afirmou à Agência ECCLESIA.
A Assembleia Plenária da Conferência Episcopal portuguesa elegeu o bispo de Portalegre-Castelo Branco, padre espiritano, para presidir à Comissão Episcopal da Mobilidade Humana num mandato até 2029.
A CEMH nasce da divisão da Comissão Episcopal de Pastoral Social e Mobilidade Humana, que fica agora de forma autónoma na organização da Conferência Episcopal Portuguesa.
“A Igreja tem um papel importante a criar condições de mais paz social, de mais coesão, de mais comunhão e de mais integração das diversidades na unidade nacional, que é feita dessas diversidades”, sublinhou.
O responsável reconhece que as migrações são um tema “cada vez mais importante” na sociedade contemporânea, que “toca algo de essencial na vida cristã, na vida da Igreja e da sociedade”, desafiando as “relações humanas” a viver em “fraternidade, com convicções fundamentais de igualdade e de comunhão”.
“Argumentações de caráter mais funcionalista, mais economicista, que pretendam de alguma maneira desvalorizar a imigração ou os imigrantes, ou relegá-los para o segundo plano, ou até promover discursos de discriminação, de ódio, de racismo, isto penso que tem que ser desmontado. E há uma exigência, penso, de liberdade social e de verdade cristã”, sublinhou.
O novo presidente acredita que na sociedade portuguesa “prevalece o bom senso” uma vez que encontra entre a população “moderação e equilíbrio”.
“Sou otimista e acredito que essa fragmentação poderá não acontecer, e não deverá acontecer na nossa sociedade, como vemos acontecer noutros sítios. Mas parece-me que é preciso que haja muita concertação das diferentes sensibilidades e forças sociais e culturais, que se orientem no mesmo sentido, que resistam aos populismos, que resistam a discursos que pretendem dividir para reinar, que pretendem aproveitar-se do medo e das situações de instabilidade, de insegurança e de insatisfação das pessoas, para prevalecerem no poder ou para conquistarem o poder”, adverte.
D. Pedro Fernandes pede que “este tipo de tendências” sejam “contrariados em nome da verdade e do bem comum”.
PR/LS
quinta-feira, 16 de abril de 2026
Tens três amigos?
Há pessoas que têm três amigos — daqueles que permanecem com elas quando tudo corre mal. São mesmo bem-aventuradas! Há também quem saiba ser amigo e permanecer ao lado de alguém nas adversidades.
Na desgraça de alguém, todos são chamados a revelar-se. Uns desiludem por completo, sempre com desculpas. Outros tornam-se presentes e disponíveis para partilhar a dor ou, pelo menos, para que não nos sintamos abandonados. Estes são poucos. És um deles? Para quem? E quantos são capazes de ficar contigo? Três?
Também em relação aos amigos é melhor ser do que ter.
Uma amizade verdadeira é uma das mais belas formas do amor. Um verdadeiro amigo é um tesouro. Ser amigo é ser um dom – o dom de ser dom – porque se torna capaz de amar o imperfeito – sabendo que é imperfeito – e aceitando essas imperfeições.
Há uma alegria perigosa naqueles que julgam ter muitos amigos apenas porque nunca os puseram à prova. Num momento mais duro, descobrem-se, de súbito, abandonados numa solidão que se assemelha a um deserto – rodeados de gente indiferente à dor alheia.
Não procuremos ter três amigos, mas antes ser um… de dois ou três!
Que sejamos capazes de nos dar, mesmo sem que nos peçam, quando isso puder aquietar, ainda que só um pouco, o sofrimento de alguém. E que, pelo menos, saibamos reconhecer quando alguém faz o mesmo por nós.
José Luís Nunes Martins
quarta-feira, 15 de abril de 2026
Homo sapiens, será?
Ora partindo do pressuposto que o homem de hoje é resultado da sua evolução, não posso deixar de questionar se será realmente assim?
É que parece que evoluímos tanto mas ainda assim, estamos a anos luz da verdadeira evolução, aquela que assenta em algo que realmente nos acrescente, nos faça bem, nos facilite a vida, nas acima de tudo nos transforme em seres melhores.
Um lamiré à nossa volta e deparamo-nos com um mundo onde o dinheiro e o poder são senhores, onde impera o materialismo e o culto da imagem, onde se descartam valores essenciais e aqui penso não seremos hoje mais homens das cavernas do que nunca?
Onde está a sapiência que pelos vistos alcançamos?
Mas não está tudo perdido, como diz Pedro Abrunhosa numa das suas canções "ainda há frutos sem veneno", e eu sigo a acreditar que ainda há esperança na humanidade!
Lucília Miranda
terça-feira, 14 de abril de 2026
Deus não vive no céu
Deus não vive no céu
És Tu Deus Cigano, que eu adoro,
Sei que não vives no céu…
Porque vives em mim
e não te posso procurar para além do meu jardim.
Fazes do vento, do pó, da estrada,
do meu olhar e do outro a Tua morada.
Vais montando a Tua tenda
cheia de tudo e cheia de nada
nas misérias e recantos de qualquer casa…
És Tu, no nosso meio, com rosto de gente
levando paz e amor ao íntimo do descontente.
Vais em Liberdade, sem preconceitos, nem religião
habitar na disponibilidade de qualquer coração.
Vais simplesmente, porque é a Tua forma cigana de ser.
Sem fórmulas, doutrinas, teorias que acham que te podem ter.
És Tu, à procura de formar família na Babilónia da Humanidade,
a trazer o céu à terra no meio da nossa comodidade
e confundindo quem acha que descobriu toda a verdade….
És sempre a vir, a chegar e a estar...
És Tu, que outrora eras solteiro, no princípio do Livro Sagrado
e agora com a história e com a criação, És casado.
És Tu Deus Cigano
Um Deus sempre a descobrir….
Em cada coração
No meu e no rosto do meu irmão…
Todo o resto, é puro engano…
Padre João Torres
segunda-feira, 13 de abril de 2026
O Bispo da Diocese de Portalegre–Castelo Branco, D. Pedro Fernandes, visitou, pela primeira vez, a Paróquia de Arronches
Neste domingo, com a Igreja Matriz repleta, D. Pedro foi recebido com carinho e entusiasmo, pelos fiéis.
domingo, 12 de abril de 2026
Domingo da Divina Misericórdia
https://www.youtube.com/watch?v=Fg04YgJ04dA&list=PL7Zt-5fD4oJjynXOISrMBf6VpyurGZzsz
Foi o Papa João Paulo II que, no ano 2000, consagrou o segundo domingo do tempo pascal como o domingo da Divina Misericórdia. A liturgia deste domingo convida-nos a contemplar a comunidade de homens novos que nasce da cruz e da ressurreição de Jesus – a Igreja. Jesus ressuscitado, no próprio dia da ressurreição, confia à sua comunidade a missão de dar testemunho no mundo do amor e da misericórdia de Deus.
O Evangelho apresenta a comunidade da Nova Aliança, nascida da atividade criadora e vivificadora de Jesus. É uma comunidade que se reúne à volta de Jesus ressuscitado, que recebe d’Ele Vida, que é animada pelo Seu Espírito e que dá testemunho no mundo da Vida nova de Deus. Quem quiser “ver” e “tocar” Jesus ressuscitado, deve procurá-l’O no meio dessa comunidade que d’Ele nasceu e que d’Ele vive.
O Espírito Santo é o grande dom que Jesus ressuscitado faz à comunidade dos discípulos. É Ele que nos transforma, que nos anima, que faz de nós pessoas novas, que nos capacita para sermos testemunhas e sinais da Vida de Deus; é Ele que nos dá a coragem e a generosidade para continuarmos no mundo a obra de Jesus. No entanto, o Espírito só atua em nós se estivermos disponíveis para o acolher. Ele não se impõe nem desrespeita a nossa liberdade. Estamos disponíveis para acolher o Espírito? O nosso coração está aberto aos desafios que o Espírito constantemente nos lança?
A primeira leitura é uma “fotografia retocada” da primitiva comunidade cristã de Jerusalém. Lucas, o autor dos Atos dos Apóstolos, imprime nela os traços da comunidade ideal: é uma comunidade unida e fraterna, onde os bens são partilhados e onde cada um está atento às necessidades dos outros irmãos; é, também, uma comunidade empenhada em escutar a Boa Notícia de Jesus, em reunir-se para a “fração do pão” e para a oração comunitária. O estilo de vida desta “família” é contagiante e faz com que muitos outros homens e mulheres sintam vontade de integrar a Igreja de Jesus.
O autor dos Atos dos Apóstolos refere-se à comunidade cristã de Jerusalém como uma comunidade unida e fraterna, uma família de irmãos e de irmãs “tocada” por Jesus, onde há lugar para todos, onde se cuida dos mais frágeis e necessitados, onde se partilham os bens, onde todos vivem “como se tivessem uma só alma”. Parece demasiado belo para ser verdade, não é? Talvez achemos que Lucas, o autor dos Atos dos Apóstolos, está a exagerar um pouco ao propor-nos um ideal tão elevado… Mas uma comunidade nascida de Jesus, que se reúne à volta de Jesus, que escuta Jesus, que segue Jesus, que conhece o estilo de Jesus, não deveria viver assim? Ora, isto representa um desafio para as nossas comunidades cristãs… Como são e como vivem as comunidades onde a que pertencemos e onde fazemos a nossa experiência de fé? São comunidades onde se sente e respira o amor que Jesus ensinou? São comunidades onde se cuidam das necessidades dos mais pobres e dos mais frágeis? São comunidades onde todos – mesmo aqueles que falharam ou que passaram por experiências traumatizantes – podem fazer uma experiência de misericórdia, de perdão e de acolhimento?
Na segunda leitura um “catequista” dos finais do séc. I lembra a todos os batizados em Cristo a sua condição de homens novos, felizes beneficiários da misericórdia de Deus. Cristo, o vencedor da morte, salvou-os e abriu-lhes as portas da vida definitiva. Certos da vida nova que os espera, os cristãos devem encarar a sua caminhada pela terra com uma “esperança viva”, com uma “alegria inefável e gloriosa”, com um otimismo contagiante.
O autor da primeira Carta de Pedro coloca a ressurreição de Cristo no centro do projeto salvador de Deus e no centro do nosso caminho de fé. Lembra-nos, a nós que fomos batizados em Cristo, que com Ele renascemos para uma vida nova e eterna. O egoísmo, a maldade, a violência, a injustiça, a morte, já não determinam o sentido último da nossa vida. Cristo, pela sua ressurreição, derrotou tudo isso. Identificados com Cristo, caminhamos na esperança, ao encontro de Deus. A nossa fragilidade, as nossas limitações, as nossas opções duvidosas não põem um ponto final no caminho da nossa plena realização. Deus espera-nos de braços abertos para nos oferecer a vida plena e eterna. É uma mensagem sublime, que encaixa perfeitamente neste longo “dia de Páscoa” que continuamos a celebrar. Estamos conscientes das implicações e do alcance de tudo isto? A certeza da vida gloriosa que nos espera alimenta a nossa caminhada pela terra com uma “esperança viva”, com uma “alegria inefável e gloriosa”, com um otimismo contagiante? Procuramos viver de forma coerente com os compromissos que assumimos no dia do nosso batismo, o dia em que morremos para o pecado e nascemos para a vida nova?
Do mais incrédulo e obstinado dos discípulos de Jesus saiu um dos primeiros, senão o primeiro, ato de fé explícita na divindade de Cristo: “Meu Senhor e meu Deus!” e “Porque me viste, tu crês!” “Felizes aqueles que não viram e creram!”
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sábado, 11 de abril de 2026
COM MOISÉS NUM BOTECO DO DESERTO...
Desde que mandou os tachos e as panelas, as cebolas e os pepinos, os melões e os alhos do Egito às malvas, Israel sentiu que o preço da liberdade era muito alto e difícil de conseguir! (cf. Nm 11, 5). Chegou mesmo a ter saudades do anteriormente e a pôr em causa a capacidade de liderança de Moisés. Mas nada de estranhar, pois, ainda hoje, entre nós, há quem tenha saudades da antiga e maquilhada senhora e do seu cuidador-mor, se possível, em dose triplicada! Jetro, porém, nessa altura, há cerca de 3.500 anos - mais minuto menos minuto!-, líder por aquelas bandas e não só em sua casa, vendo como o povo era sacrificado à espera de que Moisés descalçasse a bota e desse solução às suas reivindicações, subiu as escadas do seu ministério a convidá-lo para um cafezinho, lá, no deserto, num boteco ao lado da pizzaria da esquina, para lhe gritar umas tantas verdades. Não sei se aconteceu ao som da tuba se da trombeta, mas dos U2 ou do Augusto Canário é que não foi:
- Moisés, meu caro genro, o que é que tu estás a fazer a essa gente? Não vês como cansas e sacrificas este povo e ainda por cima desfeias essa tua cara com olheiras de quem nem sequer tem tempo para dormir? Não vês como o resultado do teu trabalho é diminuto, provocas mal-estar e deixas de fazer aquilo que verdadeiramente só tu podes ou deves fazer? Por que pensas que só tu é que tens essa sabedoria, que só tu é que és justo e sério, que só tu é que és capaz de resolver as questões que o povo te coloca? Ganha juizinho, meu caro, não queiras que o povo sofra assim tanto e a minha filhinha, a Séfora, venha a ficar viúva, pois, como sabes, até já te quiseram matar à pedrada!
Com os salamaleques que as barbas do sogro lhe exigiam, Moisés lá deu a resposta que as pessoas centralizadoras ainda hoje dão: julgou-se insubstituível! Esqueceu-se de que os cemitérios, já nessa altura, estavam cheios de pessoas que se julgavam insubstituíveis. Elas morreram e o mundo lá continuou sem grandes percalços nem vontade de olhar para trás! Jetro, porém, mais impertinente que uma mosca esfomeada e sedenta de briga, puxou do bolso pela cartilha da subsidiariedade e disse-lhe o que ficou escrito: “Não estás a proceder bem”. E deu-lhe este conselho que a maior parte dos responsáveis de hoje, pechinchas únicas só na sua própria cabeça e autorreferencialidade, ainda têm muitíssima dificuldade em pôr em prática: “Escolhe, dentre o povo, homens capazes, que respeitem a Deus, que sejam honestos e não interesseiros. Nomeia esses homens como chefes ... eles administrarão regularmente a justiça ao povo ... os assuntos graves, apresentá-los-ão a ti ... os assuntos simples, eles próprios os resolverão ... assim te aliviarão desta responsabilidade e te ajudarão a cumpri-la... Moisés ouviu o conselho do seu sogro e fez tudo como ele disse...” (cf. Ex 18, 13-27). Ora aí está: “A mente que se abre a uma nova ideia jamais voltará ao seu tamanho natural” (Albert Einstein...?). Moisés percebeu que, de facto, a estrutura que criara era mais problema do que solução, em vez de servir, oprimia o povo.
Quando os Doze Apóstolos (At 6,1-4) se gastavam em tarefas que outros poderiam fazer e, talvez, fazer bem melhor do que eles, eles ficavam sem tempo para o que, de facto, só eles deveriam ou poderiam fazer. Vai daí, vendo-se gregos e acossados pelos sindicalistas que lhes moíam o toutiço em defesa dos que, por causa disso, ficavam esquecidos, o Espírito Santo arregalou-lhes os olhos do coração! Fez com que eles fizessem uma reunião de concertação social e convocassem uma assembleia geral. Ora, se a concertação social foi bem mais fácil de alinhar que a portuguesa, também, na reunião da assembleia geral, não sentiram necessidade daquela gritaria lusa que sempre acontece nas nobres cadeiras da representação nacional, lá pelos passos perdidos de São Bento. Os discípulos de Jesus, serena, mas eficazmente, concluíram, “com agrado de todos”, o que logo puseram em prática: “Não convém deixarmos a Palavra de Deus, para servirmos às mesas. Irmãos, é melhor procurardes entre vós sete homens de boa reputação, cheios do Espírito Santo e de sabedoria; confiar-lhes-emos essa tarefa. Quanto a nós, entregar-nos-emos assiduamente à oração e ao serviço da Palavra”.
Jesus enviou todos os seus discípulos a irem por todo o mundo, sendo ‘sal da terra’, ‘luz do mundo’, ‘fermento’... Como poderão sê-lo se se dispensarem a si próprios desse serviço ou forem dispensados por quem tudo centraliza ou se julga insubstituível? Cada pessoa tem uma missão única e especial na organização e construção do bem comum. Nesta sociedade de consumo, em que até se compra o que logo se conclui que não serve para nada, muita dessa piedosa gente está eivada dessa terrível doença, em parte provocada por centralizadores e insubstituíveis. Pessoas há que se habituaram a consumir, consumir, consumir: pregações, novenas, devoções, procissões, encontros..., mas nunca ousaram sair de si próprias para ajudar a construir, colaborando. Criou-se nelas uma certa cultura consumista montada sobre o burriquito da subserviência. Consomem-se a si próprias no afã de consumir e ainda consomem quem, no seu estilo de centralizador, entende que assim é que deve ser, atarefando-se a encher as prateleiras desse mercado, com oferta discutível mesmo que generosa! Se cada batizado fizesse a sua parte, cuidasse e gerasse empatia, com alegria e verdade, o mundo seria bem melhor.
O princípio de subsidiariedade, apesar de não ser um conceito novo, não cheira a mofo! Mofo ou bafio poderá emanar de quem o não usa! Também não é um mero princípio filosófico para entretenimento de sofistas a defender que a verdade se ajusta ao contexto. Tampouco é uma abstração teórica ou um falar para se não estar calado enquanto se usa a roca e o fuso ou se treinam os pontos do croché ou as técnicas da renda de bilros! A subsidiariedade está enraizada na Sagrada Escritura, é um princípio profundamente teológico, reflete uma visão cristã de todo o ser humano, da sua dignidade, dos seus talentos e capacidade para ajudar a construir o bem comum. Como princípio “imutável” da filosofia social (cf. QA 79-80), não diz respeito apenas à organização da ‘polis’, à organização política, social e económica da sociedade em geral. Também tem profundas implicações na vida eclesial, na vida espiritual dos cristãos, na organização e dinâmica das próprias comunidades cristãs, na ação pastoral. Ninguém de ordem superior, pessoa ou instituição, deve intervir de tal forma que prive as pessoas e uma sociedade de ordem inferior da sua liberdade criativa, das suas iniciativas e competências. Deve sim, apoiá-las e ajudá-las a coordenar a sua ação com a dos demais agentes sociais, com vista ao bem comum (cf. CIgC1883). Tal princípio, posto em prática, encoraja, envolve, gera alegria e esperança, respeita a capacidade das pessoas, valoriza a sua iniciativa, a responsabilidade e a partilha de tarefas, reforça a liberdade que é um dom de Deus, leva a viver a fé de forma mais ativa e comprometida, reconhece tanto a dignidade própria como a dos outros: na família, na profissão, na comunidade, nas associações, nos grupos, na política, no desporto, nas artes e ofícios, em toda a vida social e diversidade dos seus setores de organização e ação, inclusive no cuidado com a criação. Se sempre assim foi, hoje, mais do que nunca, a sociedade não suporta quem tudo centraliza e se julga insubstituível!... A própria sinodalidade exige o respeito pelos outros, reclama de todos o seu contributo de ideias e de ação!
D. Antonino Dias
Caminha, 10-04-2026.








