Desde que mandou os tachos e as panelas, as cebolas e os pepinos, os melões e os alhos do Egito às malvas, Israel sentiu que o preço da liberdade era muito alto e difícil de conseguir! (cf. Nm 11, 5). Chegou mesmo a ter saudades do anteriormente e a pôr em causa a capacidade de liderança de Moisés. Mas nada de estranhar, pois, ainda hoje, entre nós, há quem tenha saudades da antiga e maquilhada senhora e do seu cuidador-mor, se possível, em dose triplicada! Jetro, porém, nessa altura, há cerca de 3.500 anos - mais minuto menos minuto!-, líder por aquelas bandas e não só em sua casa, vendo como o povo era sacrificado à espera de que Moisés descalçasse a bota e desse solução às suas reivindicações, subiu as escadas do seu ministério a convidá-lo para um cafezinho, lá, no deserto, num boteco ao lado da pizzaria da esquina, para lhe gritar umas tantas verdades. Não sei se aconteceu ao som da tuba se da trombeta, mas dos U2 ou do Augusto Canário é que não foi:
- Moisés, meu caro genro, o que é que tu estás a fazer a essa gente? Não vês como cansas e sacrificas este povo e ainda por cima desfeias essa tua cara com olheiras de quem nem sequer tem tempo para dormir? Não vês como o resultado do teu trabalho é diminuto, provocas mal-estar e deixas de fazer aquilo que verdadeiramente só tu podes ou deves fazer? Por que pensas que só tu é que tens essa sabedoria, que só tu é que és justo e sério, que só tu é que és capaz de resolver as questões que o povo te coloca? Ganha juizinho, meu caro, não queiras que o povo sofra assim tanto e a minha filhinha, a Séfora, venha a ficar viúva, pois, como sabes, até já te quiseram matar à pedrada!
Com os salamaleques que as barbas do sogro lhe exigiam, Moisés lá deu a resposta que as pessoas centralizadoras ainda hoje dão: julgou-se insubstituível! Esqueceu-se de que os cemitérios, já nessa altura, estavam cheios de pessoas que se julgavam insubstituíveis. Elas morreram e o mundo lá continuou sem grandes percalços nem vontade de olhar para trás! Jetro, porém, mais impertinente que uma mosca esfomeada e sedenta de briga, puxou do bolso pela cartilha da subsidiariedade e disse-lhe o que ficou escrito: “Não estás a proceder bem”. E deu-lhe este conselho que a maior parte dos responsáveis de hoje, pechinchas únicas só na sua própria cabeça e autorreferencialidade, ainda têm muitíssima dificuldade em pôr em prática: “Escolhe, dentre o povo, homens capazes, que respeitem a Deus, que sejam honestos e não interesseiros. Nomeia esses homens como chefes ... eles administrarão regularmente a justiça ao povo ... os assuntos graves, apresentá-los-ão a ti ... os assuntos simples, eles próprios os resolverão ... assim te aliviarão desta responsabilidade e te ajudarão a cumpri-la... Moisés ouviu o conselho do seu sogro e fez tudo como ele disse...” (cf. Ex 18, 13-27). Ora aí está: “A mente que se abre a uma nova ideia jamais voltará ao seu tamanho natural” (Albert Einstein...?). Moisés percebeu que, de facto, a estrutura que criara era mais problema do que solução, em vez de servir, oprimia o povo.
Quando os Doze Apóstolos (At 6,1-4) se gastavam em tarefas que outros poderiam fazer e, talvez, fazer bem melhor do que eles, eles ficavam sem tempo para o que, de facto, só eles deveriam ou poderiam fazer. Vai daí, vendo-se gregos e acossados pelos sindicalistas que lhes moíam o toutiço em defesa dos que, por causa disso, ficavam esquecidos, o Espírito Santo arregalou-lhes os olhos do coração! Fez com que eles fizessem uma reunião de concertação social e convocassem uma assembleia geral. Ora, se a concertação social foi bem mais fácil de alinhar que a portuguesa, também, na reunião da assembleia geral, não sentiram necessidade daquela gritaria lusa que sempre acontece nas nobres cadeiras da representação nacional, lá pelos passos perdidos de São Bento. Os discípulos de Jesus, serena, mas eficazmente, concluíram, “com agrado de todos”, o que logo puseram em prática: “Não convém deixarmos a Palavra de Deus, para servirmos às mesas. Irmãos, é melhor procurardes entre vós sete homens de boa reputação, cheios do Espírito Santo e de sabedoria; confiar-lhes-emos essa tarefa. Quanto a nós, entregar-nos-emos assiduamente à oração e ao serviço da Palavra”.
Jesus enviou todos os seus discípulos a irem por todo o mundo, sendo ‘sal da terra’, ‘luz do mundo’, ‘fermento’... Como poderão sê-lo se se dispensarem a si próprios desse serviço ou forem dispensados por quem tudo centraliza ou se julga insubstituível? Cada pessoa tem uma missão única e especial na organização e construção do bem comum. Nesta sociedade de consumo, em que até se compra o que logo se conclui que não serve para nada, muita dessa piedosa gente está eivada dessa terrível doença, em parte provocada por centralizadores e insubstituíveis. Pessoas há que se habituaram a consumir, consumir, consumir: pregações, novenas, devoções, procissões, encontros..., mas nunca ousaram sair de si próprias para ajudar a construir, colaborando. Criou-se nelas uma certa cultura consumista montada sobre o burriquito da subserviência. Consomem-se a si próprias no afã de consumir e ainda consomem quem, no seu estilo de centralizador, entende que assim é que deve ser, atarefando-se a encher as prateleiras desse mercado, com oferta discutível mesmo que generosa! Se cada batizado fizesse a sua parte, cuidasse e gerasse empatia, com alegria e verdade, o mundo seria bem melhor.
O princípio de subsidiariedade, apesar de não ser um conceito novo, não cheira a mofo! Mofo ou bafio poderá emanar de quem o não usa! Também não é um mero princípio filosófico para entretenimento de sofistas a defender que a verdade se ajusta ao contexto. Tampouco é uma abstração teórica ou um falar para se não estar calado enquanto se usa a roca e o fuso ou se treinam os pontos do croché ou as técnicas da renda de bilros! A subsidiariedade está enraizada na Sagrada Escritura, é um princípio profundamente teológico, reflete uma visão cristã de todo o ser humano, da sua dignidade, dos seus talentos e capacidade para ajudar a construir o bem comum. Como princípio “imutável” da filosofia social (cf. QA 79-80), não diz respeito apenas à organização da ‘polis’, à organização política, social e económica da sociedade em geral. Também tem profundas implicações na vida eclesial, na vida espiritual dos cristãos, na organização e dinâmica das próprias comunidades cristãs, na ação pastoral. Ninguém de ordem superior, pessoa ou instituição, deve intervir de tal forma que prive as pessoas e uma sociedade de ordem inferior da sua liberdade criativa, das suas iniciativas e competências. Deve sim, apoiá-las e ajudá-las a coordenar a sua ação com a dos demais agentes sociais, com vista ao bem comum (cf. CIgC1883). Tal princípio, posto em prática, encoraja, envolve, gera alegria e esperança, respeita a capacidade das pessoas, valoriza a sua iniciativa, a responsabilidade e a partilha de tarefas, reforça a liberdade que é um dom de Deus, leva a viver a fé de forma mais ativa e comprometida, reconhece tanto a dignidade própria como a dos outros: na família, na profissão, na comunidade, nas associações, nos grupos, na política, no desporto, nas artes e ofícios, em toda a vida social e diversidade dos seus setores de organização e ação, inclusive no cuidado com a criação. Se sempre assim foi, hoje, mais do que nunca, a sociedade não suporta quem tudo centraliza e se julga insubstituível!... A própria sinodalidade exige o respeito pelos outros, reclama de todos o seu contributo de ideias e de ação!
D. Antonino Dias
Caminha, 10-04-2026.
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