quinta-feira, 23 de julho de 2026

Estar presente nas férias!

 



Às vezes é difícil estarmos, realmente, presentes e a experienciar o momento que estamos a viver.

Muitas vezes, vivemos em modo de sobrevivência. Ou em estado de alerta constante, em estado de Hiper vigilância e em modo de permanente antecipação de todos os problemas e cenários caóticos que poderão, um dia, vir a existir. Enquanto assim é, não estamos realmente presentes no momento e no dia que estamos a viver. Vamos navegando numa prisão mental que nos impede, tantas vezes, de ver a realidade tal como ela é.

Como nos habituamos a viver presos ao passado ou em antecipação do futuro, desaprendemos a arte de aproveitar o dia-a-dia. E quando assim é, nem quando vamos de férias conseguimos realmente disfrutar e aproveitar. Podemos estar num cenário idílico e com uma excelente companhia e conseguir, ainda assim, deixar que a nossa mente nos leve para longe do cenário quase perfeito que nos rodeia.

Assim, trazemos um desafio forte para estas próximas férias: vivê-las! Parece simples, não é? Mas a mim parece-me bastante mais complexo do que poderíamos julgar à primeira vista. Senão vejamos: quando estamos de férias, estamos mais relaxados; mas também temos mais tempo para pensar e para divagar, uma vez que a mente está menos ocupada em produzir, chegar a horas ao trabalho, fintar o trânsito, corresponder aos desafios físicos (e de calendário) diários.

Vamos de férias, mas parece que os problemas que a nossa cabeça cria (ou tinha adiado) voltam para nos perturbar.

Fica a proposta para este tempo de maior acalmia que estamos prestes a viver.

Focar a nossa atenção no que podemos controlar. Na forma como queremos reagir e receber o que nos vai acontecendo. Pensar que só podemos, realmente, viver o dia de hoje porque não temos (mesmo) mais nenhum. E isto pode ser complicado, mas há pequenas estratégias que podem resultar: ocupar o tempo com atividades e pessoas de que(m) realmente gostamos. Não nos forçarmos a fazer o que não nos apetece ou a partilhar tempo com pessoas que nos retirem energia.

Prescindir dos ecrãs pelo menos algumas horas por dia e substituir esse tempo estéril pela leitura de um livro (mesmo que o tempo de concentração seja curto e que só consigamos ler duas ou três páginas de cada vez). Sair da zona de conforto em doses homeopáticas: explorar um novo caminho, um novo restaurante, uma praia diferente. E o mais importante: ter tempo de qualidade sozinha. Ou sozinho.

É no silêncio do nosso coração que nascem os projetos mais bonitos e que se apaziguam as maiores tempestades. Dentro do que somos há sempre sol. Mesmo que não o consigamos sempre ver.


Marta Arrais


quarta-feira, 22 de julho de 2026

A pressa em julgar quase nunca vem de Deus



«Não julgues cada dia pela colheita que obténs,
mas pelas sementes que plantas.»
William Arthur Ward



O que levamos deste mundo não é visível, nem palpável.

O que sentimos aqui não tem preço, nem medida.

E… O que precisamos a cada dia para sermos felizes, molda as nossas atitudes.


Como reagimos perante as encruzilhadas da vida…

O que dizemos a cada momento menos bom…

O que defendemos perante as más atitudes…


Somos sementes… Frágeis e fortes… Que dão vida! Que são VIDA!

É urgente conhecer o terreno e o deserto, a terra fértil e árida…

onde fincamos as nossas raízes, os nossos pés,

as nossas ações e os nossos desejos mais remotos!


A Bondade é um fruto do Espírito Santo que devíamos cultivar no coração,

para sentirmos que crescemos tanto, ou ainda mais, que o grão de mostarda.


A Paciência, perante os que erram, também é semente fecunda,

que teimamos em matar sem dar fruto…

Somos muito rápidos a julgar aqueles audazes que espremem ao máximo o arrependimento…


Aos olhos da humanidade aquele que é bom, compassivo e misericordioso é fraco!

Sentimos que somos o trigo dourado e belo.

A paisagem serena da seara, a última bolacha do pacote…

Esquecemos que também somos joio lançado à terra de quem ama e não é amado…

Daqueles que sofrem em silêncio, à espera de um abraço amigo.


Não te sentes mais feliz quando és árvore que abriga os passarinhos?


Tudo isso define quem somos.


E também nos liberta do peso do julgamento.

Julgar ou ser julgado não é missão para os Seres criados por Deus…


Hoje, devemos pedir na nossa oração:

Senhor, faz-me ser aquela pequena porção de fermento,

capaz de levedar a massa,

capaz de fazer o Teu Reino de Misericórdia, de Paz e de Justiça Divina

crescer a cada amanhecer…


 Liliana Dinis


terça-feira, 21 de julho de 2026

As palavras nunca viajam sozinhas




As palavras nunca viajam sozinhas

Há palavras que julgamos nossas.
Saem da boca, da mão que escreve ou da voz que canta, e pensamos que nasceram naquele preciso instante. Mas não.
As palavras que pronunciamos já fizeram outras viagens. Habitaram outras vidas. Consolaram quem chorava, levantaram quem tinha desistido, feriram corações, reconciliaram famílias, ensinaram crianças, inspiraram santos e, infelizmente, também alimentaram guerras.
Cada palavra traz consigo a memória de quem a disse antes de nós.
Quando um pai diz ao filho: "Estou contigo", há nesse abraço o eco de todos os pais que um dia souberam amar.
Quando alguém murmura: "Desculpa", essa palavra transporta séculos de humanidade à procura da paz.
Quando dizemos "Amo-te", não inventamos o amor. Apenas lhe emprestamos a nossa voz.
É por isso que as palavras nunca são inocentes.
Elas carregam histórias. Constroem ou destroem pontes. Deixam marcas que permanecem muito para além do instante em que foram pronunciadas.
Todos nós conhecemos frases que nunca esquecemos. Algumas disseram-nos quem éramos quando ninguém acreditava em nós. Outras fizeram-nos duvidar do nosso próprio valor durante anos.
Uma palavra dura pode durar uma vida inteira.
Uma palavra de esperança pode salvar alguém sem que nunca o saibamos.
Talvez por isso devêssemos falar mais devagar.
Escrever com mais consciência.
Responder com menos impulsividade.
Cantar com mais verdade.
Porque aquilo que sai de nós nunca fica apenas em nós. Viaja. Encontra outros corações. Faz morada em alguém. E, muitas vezes, regressa transformado.
No Evangelho, Deus não escolheu uma espada para mudar o mundo. Escolheu uma Palavra. E continua a confiar nas nossas palavras para levar luz onde há escuridão, esperança onde há desalento e paz onde reina o conflito.
Hoje, antes de falares, pergunta-te:
A pessoa que me vai ouvir ficará mais leve ou mais pesada por causa das minhas palavras?
A resposta a essa pergunta pode mudar o dia de alguém.
E talvez mude também o teu.

segunda-feira, 20 de julho de 2026

O meu é às riscas!

 


“O meu é às riscas!”
Alguém pergunta a um grupo de crianças como seriam os seus corações, se os corações maus fossem escuros e branquinhos os corações bons, respondeu imediatamente uma pequenina: “Ah! O meu é às riscas!”
Temos muita dificuldade em aceitar uma realidade “às riscas”!
Em que o MAL e o BEM coabitam em nós e nos outros...
Jesus utiliza imagens ligadas ao CUIDADO DA TERRA e ao QUOTIDIANO para falar do cuidado entre as pessoas. O trigo e o joio não são dois tipos de pessoas, mas duas formas de conduta, que estão (sempre) presentes em cada um de nós.
O BEM E O MAL CRESCEM JUNTOS NO NOSSO CORAÇÃO.
Às vezes provocamos INJUSTIÇAS, às vezes PREJUDICAMOS alguém. Também o SENTIMOS na nossa vida, que alguém nos prejudicou, que alguém é INJUSTO, que alguém provocou o mal contra nós.
A tentação para qualquer um, é decidir por sua própria conta e risco quem é bom e quem é mau (trigo ou joio), quem deve ser acolhido e quem deve ser expulso.
O que é que Deus nos diz sobre isto? Diz-nos: “Deixai estar”.
Deus dá tempo ao tempo, OFERECE MIL OPORTUNIDADES para o joio morrer em nós e o trigo crescer para a ceifa! Pede-nos o mesmo comportamento a cada um de nós em relação aos outros...
Como todos nós somos seres limitados, o bom e o mau está em todos nós.
É por isso que querer ARRANCAR O MAL EM NÓS é correr o risco de arrancar, ao mesmo tempo, o bem que há em nós...
Se víssemos melhor as riscas que o nosso coração tem
não perderíamos tanta ENERGIA DA NOSSA VIDA em julgar e condenar os outros!

Padre João Torres

domingo, 19 de julho de 2026

Um Deus clemente e compassivo

 

https://www.youtube.com/watch?v=wB-UC71kQgQ&list=PLAqKRngqwuSfPdOPEvu7KzjdvMvB1w33f&index=157

A liturgia do 16º Domingo do Tempo Comum convida-nos a descobrir o Deus paciente e cheio de misericórdia, a quem não interessa a marginalização do pecador, mas a sua integração na comunidade do "Reino"; e convida-nos, sobretudo, a interiorizar essa "lógica" de Deus, deixando que ela marque o olhar que lançamos sobre o mundo e sobre os homens.

A primeira leitura fala-nos de um Deus que, apesar da sua força e omnipotência, é indulgente e misericordioso para com os homens - mesmo quando eles praticam o mal. Agindo dessa forma, Deus convida os seus filhos a serem "humanos", isto é, a terem um coração tão misericordioso e tão indulgente como o coração de Deus.
O nosso texto apresenta-nos um Deus tolerante e justo, em quem a bondade e a misericórdia se sobrepõem à vontade de castigar. Ele não quer a destruição do pecador, mas a sua conversão; Ele ama todos os homens que criou, mesmo aqueles que praticam acções erradas. Ora, todos nós conhecemos bem este quadro de Deus, pois ele aparece-nos a par e passo na Palavra revelada... Mas já o interiorizámos suficientemente?
Muitas vezes, percebemos certos males que nos incomodam como "castigos" de Deus pelo nosso mau proceder. No entanto, este texto deixa claro que Deus não está interessado em castigar os pecadores... Quando muito, procura fazer-nos perceber, com a pedagogia de um pai cheio de amor, o sem sentido de certas opções e o mal que nos fazem certos caminhos que escolhemos.

O Evangelho garante a presença irreversível no mundo do "Reino de Deus". Esse "Reino" não é um clube exclusivo de "bons" e de "santos": nele todos os homens - bons e maus - encontram a possibilidade de crescer, de amadurecer as suas escolhas, de serem tocados pela graça, até ao momento final da opção definitiva.
Neste Evangelho temos também uma lição muito sugestiva sobre a atitude de Deus face ao mal e aos que fazem o mal. Na parábola do trigo e do joio, Jesus garante-nos que os esquemas de Deus não prevêem a destruição do pecador, a segregação dos maus, a exclusão dos culpados. O Deus de Jesus Cristo é um Deus de amor e de misericórdia, sem pressa para castigar, que dá ao homem "todo o tempo do mundo" para crescer, para descobrir o dom de Deus e para fazer as suas escolhas. Não percamos nunca de vista a "paciência" de Deus para com os pecadores: talvez evitemos ter de carregar sentimentos de culpa que oprimem e amarguram a nossa breve caminhada nesta terra.

A segunda leitura sublinha, doutra forma, a bondade e a misericórdia de Deus. Afirma que o Espírito Santo - dom de Deus - vem em auxílio da nossa fragilidade, guiando-nos no caminho para a vida plena.
O ritmo da vida moderna é estonteante... As exigências profissionais, os problemas familiares, o inferno do trânsito, a necessidade de ganhar a vida atiram-nos de corrida em corrida, sempre ocupados, sempre cansados, sempre carregados de stress, prisioneiros de uma máquina que nos desumaniza e que não nos deixa centrar a nossa atenção no essencial, reequacionar os nossos valores e prioridades. É preciso, no entanto, encontrar tempo e espaço para reflectir, para redefinir o sentido da nossa existência, para perceber se estamos a conduzir a nossa vida "segundo a carne" ou "segundo o Espírito".
O verdadeiro crente é o que vive em comunhão com Deus. Não prescinde desses momentos de diálogo, de partilha, de escuta, de louvor a que chamamos oração. É nesse diálogo intenso, verdadeiro, diário que o crente, através do Espírito, intui a lógica de Deus, a sua verdade, o projecto que Ele tem para cada homem e para o mundo. Esforço-me por encontrar espaço para o diálogo com Deus e para fortalecer a minha intimidade com Ele?
Sem alternativa! O bom grão semeado no nosso campo era promessa de uma boa ceifa. Mas eis que o joio veio poluir a seara. Que tipo de compromissos aceitamos na nossa vida? Deus é paciente! Mas se temos ouvidos, é urgente escutar o seu apelo à conversão. É urgente escolher o nosso campo: o do Senhor ou o do Maligno. Não há alternativa!

https://www.dehonianos.org

sábado, 18 de julho de 2026

Os filhos não são uma propriedade




Os filhos não são uma propriedade. São uma missão.

Há uma tentação silenciosa que habita o coração de muitos pais: pensar que amar um filho é moldá-lo à sua própria imagem. Desejam protegê-lo de todas as quedas, evitar-lhe todas as lágrimas, escolher os caminhos que julgam melhores. Fazem-no por amor. Mas, por vezes, sem se aperceberem, confundem amor com posse.
Os filhos não são um projeto para realizar os sonhos que ficaram por cumprir. Não vieram ao mundo para repetir a história dos pais, corrigir os seus erros ou confirmar as suas escolhas.
Vieram para escrever a sua própria história.
Deus confia os filhos aos pais, mas não lhes entrega um destino já traçado. Confia-lhes uma vida única e irrepetível, com uma vocação que só cada filho poderá descobrir.
Educar é, por isso, um dos maiores atos de humildade.
É ensinar sem prender. Corrigir sem humilhar. Orientar sem controlar. Estar presente sem ocupar todo o espaço. É aprender, todos os dias, a dar um passo atrás para que os filhos possam dar um passo em frente.
Ser pai ou ser mãe é aceitar que chegará o dia em que os filhos deixarão de pedir a mão dos pais para começarem a caminhar pelos seus próprios pés. E esse dia não será o fracasso da educação; será, talvez, o seu maior sucesso.
Os filhos precisam de raízes, mas também de asas.
As raízes dão-lhes identidade, valores, fé e sentido de pertença. As asas dão-lhes liberdade para sonhar, decidir, amar, errar, recomeçar e encontrar o lugar que Deus preparou para eles.
Os pais são chamados a lançar os filhos para a vida com confiança, sabendo que o amor verdadeiro não prende; acompanha. Não domina; inspira. Não vive no medo de perder, mas na alegria de ver crescer.
Educar é amar tanto, que se aprende a deixar partir.

Padre João Torres

sexta-feira, 17 de julho de 2026

O que mancha a tua alegria?



O que mancha a tua alegria?


O medo?

A vergonha?

Por vezes queremos festejar algo que de bom nos aconteceu, mas parece que nos sentimos tensos e até com medo de celebrar, não vá nada agoirar.

Quando uma família recebe a notícia que vai ter um filho, ficam felizes, mas logo começam os receios e o medo.

Quando, finalmente, consegues um emprego, celebras mas logo és acometida por medo e dúvidas sobre se és capaz.

E por aí fora…

Sempre que tens um motivo para festejar, parece que o rastilho é curto porque és assaltada por outras tantas preocupações, medos e até vergonha de mostrar que estás contente.

Ora, pensa lá, quando foi a última vez que celebras-te uma boa notícia, mas celebrar a sério, com pinchos, saltinhos, e risos de alegria.

Quando tiveste esse momento, o que fizeste? Partilhaste essa alegria com quem? Como reagiram?

Ou será que escondeste isso para ti, relativizando e até sentindo vergonha como se fosse algo injusto e que não mereceste?

É que a nossa alegria cresce quando é partilhada, mas às vezes…essa partilha mata a alegria de qualquer um. Quantas vezes contaste a alguém uma boa notícia e o outro respondeu: Ah que bom, mas…! Isso mata qualquer festejo.

Outras vezes até somos nós a matar o entusiasmo dos que nos rodeiam, umas vezes por medo outras por uma pontada de inveja.

Não é fácil sentir a alegria pura de uma criança quando abre um brinquedo no Natal, ou que reencontra o abraço do pai depois de tanto o procurar. Uma alegria despreocupada e totalmente confiante no que sente no agora, sem mancha de medos ou invejas.

Ora pensa lá! Se calhar temos de treinar mais essa aptidão para a felicidade e a sua celebração.

E tu, amiga, o que achas que mancha a tua alegria?


Raquel Rodrigues


quinta-feira, 16 de julho de 2026

Ser padrinho ou madrinha

 



Ser padrinho ou madrinha:

quando o coração assina mais do que um papel
Há pedidos que chegam ao cartório paroquial com um sorriso e uma frase quase pronta: "Preciso de um atestado de idoneidade para ser padrinho."
Como se bastasse um papel.
Como se a fé pudesse ser impressa numa folha A4.
Como se o Crisma fosse um bilhete vitalício que se guarda na gaveta, ao lado do certificado da escola e da garantia do frigorífico.
Mas não é assim.
A Igreja não pede aos párocos um certificado de sacramentos. Pede-lhe um atestado de vida. Não pergunta apenas: "Foi crismado?" Pergunta: "É alguém que vive a fé? Participa na comunidade? Pode uma criança olhar para esta pessoa e descobrir, nela, um caminho até Cristo?"
Ser padrinho ou madrinha nunca foi um prémio de amizade. Nem um lugar reservado na fotografia do Batismo. É muito mais bonito. E muito mais exigente.
É aceitar que, um dia, um pequeno coração poderá aprender a rezar porque viu o padrinho ou a madrinha a rezar. Poderá descobrir o valor do perdão porque os viu a perdoar. Poderá acreditar em Deus porque encontrou neles fé... não apenas aos domingos especiais, mas nas segundas-feiras difíceis.
Um padrinho não substitui os pais. Caminha ao lado. Está presente. Recorda, anima, levanta, escuta. E quando o afilhado se afasta da fé, não desiste dele. Continua a mostrar-lhe o caminho.
A Igreja precisa de inspiradores de vida. Porque a fé não se herda por decreto. Nem se transmite por WhatsApp.
Transmite-se à mesa de casa. No banco da igreja. Numa visita a quem sofre. Num sinal da cruz feito sem vergonha. Numa vida que, com todas as suas fragilidades, continua a dizer: vale a pena seguir Jesus.
Se alguém deseja ser padrinho ou madrinha, a pergunta mais importante talvez não seja: "Tenho os documentos?"
Mas esta:
"Se o meu afilhado imitasse a minha maneira de viver a fé, eu ficaria feliz?"
Ser padrinho ou madrinha é assinar um compromisso... primeiro com o coração e só depois com a caneta.
Porque os papéis envelhecem.
As fotografias ficam amareladas.
Mas uma vida que aponta para Deus... essa permanece para sempre.

Padre João Torres

quarta-feira, 15 de julho de 2026

A vida é uma enorme incerteza



Por mais seguros que nos sintamos em relação a alguma questão da nossa vida, isso será sempre mais sinal de emoção do que de razão. Ninguém pode sentir-se seguro aqui.

A fé é um dom que muitas vezes confundimos com uma espécie de negação da realidade. Cada um de nós é chamado a fazer mais do que esperar, colocando os seus talentos e as suas forças ao serviço do bem.

A realidade ultrapassa-nos, mas nunca seremos meros espectadores. Somos chamados a ser autores e atores nas muitas peças que compõem os nossos dias.

Com um palco cheio de pessoas, cada um a decidir por si só o que faz, muitos são os encontros e desencontros, os atropelos e os desentendimentos. Como se isso não bastasse, a existência é, em si mesma, imprevisível; o palco, as luzes e tudo o que não é humano parecem também ter vontade própria.

A existência é uma enorme viagem por um mar que tão depressa nos oferece a maior paz como logo a seguir nos revela que afinal nem a nossa vida conseguimos agarrar com força suficiente.

A esperança, tal como o desespero, faz sentido. No entanto, cabe-nos escolher o que esperar. É tão certo que os males de agora passarão como que outros, hoje desconhecidos, virão. Assim também é certo que os bens de que usufruímos hoje se perderão, mas que outros, que hoje nem conseguimos imaginar, estão a caminho da nossa vida!

Os sonhos fazem sempre sentido, mais ainda se nos dispusermos a trabalhar e a lutar para que se concretizem!


José Luís Nunes Martins


terça-feira, 14 de julho de 2026

O Preço de estar Vivo

 


O Preço de estar Vivo

Viver não é apenas ver os dias passar no ecrã do telemóvel, contar as faturas pagas ao fim do mês ou cumprir horários numa rotina anestesiada. Timothy Radcliffe recorda-nos uma verdade crua, daquelas que se cravam na pele da nossa existência: "Se amas, serás crucificado; se não amas, já estás morto."
Amar de verdade dá trabalho. Dói. Significa abrir a porta de casa e do peito, sabendo perfeitamente que o vento pode entrar e desarrumar tudo. Amar é expor a nossa vulnerabilidade, na mesa do jantar onde as palavras às vezes falham, ou no silêncio pesado depois de uma discussão estúpida por causa da loiça por lavar. Quando escolhemos cuidar, quando decidimos importar-nos e dar a mão a quem caminha connosco, estamos a desarmar-nos. Ficamos expostos. E o mundo, tantas vezes apressado, egoísta e cínico, julga, aponta o dedo, magoa. Amar é aceitar essa cruz quotidiana; é o preço de quem se recusa a ser indiferente.
Mas qual é a alternativa real? Fechar os estores da alma? Blindar o coração numa redoma de betão para que nada nos atinja?
Quem não arrisca o afeto, quem se esconde do amor para evitar a dor, não está a proteger-se — está apenas a vegetar. Anda pelas ruas como uma sombra que consome oxigénio, mas cujo peito já não vibra por nada nem por ninguém. É um corpo com os batimentos cardíacos em dia, mas com a alma já enterrada no vazio.
Prefiro mil vezes a ferida aberta e sangrenta de quem ama, com todas as suas quedas e incompreensões, à segurança estéril e cinzenta de uma vida sem entrega. Prefiro o peso de uma cruz que me liga aos outros e me cola à realidade, ao caixão invisível do desamor. Que tenhamos a coragem de amar, mesmo sabendo o preço. Porque só quem se atreve a ser quebrado sabe o que é, verdadeiramente, estar vivo.

Padre João Torres

segunda-feira, 13 de julho de 2026

Fátima: D. Pedro Fernandes condena discursos populistas na sociedade

Bispo de Portalegre-Castelo Branco deixa alertas na peregrinação do 13 de julho



Fátima, 13 jul 2026 (Ecclesia) – O bispo de Portalegre-Castelo Branco condenou hoje em Fátima o crescimento de discursos populistas na sociedade e a “arrogância espiritual” que gera divisões no seio da Igreja.

“É perigosa a investida violenta de indivíduos ou povos poderosos que se aproveitam do medo das pessoas e dos sentimentos de insegurança para venderem fórmulas fáceis e uma estabilidade que não se funda na reconciliação e na justiça, mas em discursos populistas e estratégias perversas que põem povos contra povos e pessoas contra pessoas”, alertou D. Pedro Fernandes, na homilia da Missa conclusiva da peregrinação internacional do 13 de julho.

O presidente da celebração rejeitou a manipulação das populações através da “tenebrosa estratégia populista de dividir para reinar”, opondo-lhe o direito e a justiça como únicos garantes da paz.

“Todos deploramos a guerra e a violência que assolam o Médio Oriente, a Ucrânia e tantos outros povos martirizados e violentados, obrigados a fugir dos seus países para procurar refúgio, trabalho, vida digna, liberdade e segurança em lugares onde nem sempre encontram o acolhimento de fraternidade e justiça a que têm direito”, observou.

A construção da vida coletiva, no âmbito público ou privado, não pode fundar-se em legislações ou práticas políticas, económicas ou culturais que promovam a exclusão ou a desvalorização das pessoas ou de algumas pessoas. Isso deve encontrar em nós, se somos cristãos, uma inequívoca oposição ao mal.”

A reflexão evocou a encíclica ‘Magnifica Humanitas’ do Papa Leão XIV para advertir que a tecnologia e a inteligência artificial podem criar as condições ideais para “um perigoso jogo em que verdade e falsidade se confundem”.

O presidente da celebração olhou ainda para a vida interna da Igreja Católica, apontando “o recente acontecimento de uma comunidade sectária [Fraternidade Sacerdotal de São Pio X, ndr] decidir colocar-se numa situação de excomunhão” como o exemplo de fratura institucional.

“Mesmo sem chegar aos extremos, claramente contrários à vontade de Deus, de romper com a comunhão eclesial, também podemos ir entretendo sentimentos, atitudes e posições que, em nome da defesa da verdade, tal como nós a percecionamos, são de facto a expressão de arrogância espiritual”, indicou D. Pedro Fernandes.

O bispo de Portalegre-Castelo Branco pediu que a resposta cristã às lógicas de exclusão e violência se concretize “pela voz crítica e desassombrada e pela ação solidária, inclusiva e pacificadora”.

A celebração decorreu no altar do Recinto de Oração na sequência da tradicional procissão matinal a partir da Capelinha das Aparições, antes da bênção dos doentes e da procissão do adeus.

A peregrinação de julho evoca a terceira aparição da Virgem Maria aos videntes, registada a 13 de julho de 1917 na Cova da Iria.

OC

domingo, 12 de julho de 2026

Fátima: D. Pedro Fernandes preside à Peregrinação Internacional Aniversária de julho

 



Fátima, 12 jul 2026 (Ecclesia) – O bispo de Portalegre-Castelo Branco, D. Pedro Fernandes, vai presidir à Peregrinação Internacional Aniversária de julho, que se inicia hoje no Santuário de Fátima.

Neste seu primeiro ano no episcopado, D. Pedro Fernandes encara esta peregrinação como uma oportunidade para entregar a Nossa Senhora de Fátima o seu ministério na diocese de Portalegre-Castelo Branco.

Em declarações ao Gabinete de Comunicação do Santuário de Fátima, o presidente da Peregrinação de julho reforça que os “desafios da missão e da evangelização da igreja em Portugal” são intenções que estão sempre muito presentes ao visitar o santuário.

“Fátima tornou-se um dos corações fortes da Igreja em Portugal, onde também sentimos uma especial ligação ao mundo”, disse o bispo de Portalegre-Castelo Branco.

D. Pedro Fernandes nasceu a 22 de junho de 1969, em Lisboa.

Religioso da Congregação do Espírito Santo (Espiritanos), fez a sua formação em Lisboa e em Paris, e foi ordenado sacerdote em 1996; foi missionário na Guiné-Bissau e serviu vários anos em Moçambique.

De regresso a Portugal, foi Superior Provincial dos Espiritanos da Província Portuguesa entre 2018 e 2024.

Foi nomeado bispo de Portalegre-Castelo Branco pelo Papa Leão XIV a 7 de outubro de 2025, tendo sido ordenado bispo a 16 de novembro do mesmo ano, na Sé de Portalegre, sucedendo a D. Antonino Dias.

O programa da Peregrinação inicia na noite do dia 12, domingo, com a recitação do Terço, às 21h30. Segue-se a Procissão das Velas até ao Altar do Recinto de Oração, onde D. Pedro Fernandes presidirá à Celebração da Palavra.

No dia 13, após a recitação do Terço, às 09h00, na Capelinha das Aparições, a Imagem de Nossa Senhora do Rosário de Fátima será conduzida em procissão até ao Altar do Recinto de Oração, onde se celebra a Missa Internacional Aniversária, com Bênção aos Doentes e a Procissão do Adeus.

A Peregrinação Internacional Aniversária de julho evoca a terceira aparição de Nossa Senhora aos Pastorinhos, na Cova da Iria, a 13 de julho de 1917.

Foi nesta terceira aparição que a Virgem do Rosário mostrou o inferno às três crianças videntes, lhes anunciou que Deus queria estabelecer no mundo a devoção ao Imaculado Coração de Maria, e lhes mostrou uma visão profética sobre o sofrimento da Igreja, num mundo secularizado.

LFS

"Como se faz uma Terra Boa?"

 


"Como se faz uma Terra Boa?"

Telefonei a um mais velho para lhe perguntar como é que ele fazia para manter uma terra boa, lá nos campos. Deu-me três segredos:
1. disse-me que quando uma terra não é muito boa “para receber a semente”, a primeira coisa a fazer é revolvê-la toda com o arado, o mais fundo possível, “para trazer a terra do fundo para cima, e deixá-la respirar” durante uns dias. “A terra do fundo é sempre melhor”, disse ele. E ele nem sequer imaginava que eu estava a ouvir tudo o que me dizia como símbolo do nosso Coração… “A terra do fundo é sempre melhor…” Sim, é verdade! Mas nós muitas vezes queremos semear à superfície, na casca da Vida, no lado de fora da existência…
2. depois, há que não deixar a terra habituar-se à sementeira: “se um ano é batatas, no outro ano semeia-se trigo! Um ano batatas, outro ano trigo!” Porque quando uma terra se habitua à semente, normalmente “começa a dar menos, porque se cansa”. E eu voltei a sorrir… Aquele mais velho falou-me do perigo da habituação, que conduz sempre ao cansaço e à desilusão…
3. finalmente, disse-me que é sempre bom, mais ou menos de sete em sete anos, “deixar a terra descansar um ano”. “Para que a terra ganhe força”, explicou-me. E eu percebi de novo. A importância de pararmos… Pararmos para nos darmos descanso e silêncio, para ficarmos mais fortes, para nos enriquecermos de nutrientes… aqueles do Coração, claro!
Depois, disse “Obrigado” àquele mais velho. E ele ainda agora não imagina as coisas bonitas que me disse! Sabes, aquele mais velho não conhece uma única letra do alfabeto, mas Deus também nos fala assim…

Texto adaptado do Pe. Rui Santiago
Padre João Torres

A semente é a palavra de Deus

 

https://www.youtube.com/watch?v=84JTX1rbkdo&list=PL7Zt-5fD4oJhPpMPYGpfws_kYf8rQHiXA&index=11

A liturgia do 15º Domingo do Tempo Comum convida-nos a tomar consciência da importância da Palavra de Deus e da centralidade que ela deve assumir na vida dos crentes.

A primeira leitura garante-nos que a Palavra de Deus é verdadeiramente fecunda e criadora de vida. Ela dá-nos esperança, indica-nos os caminhos que devemos percorrer e dá-nos o ânimo para intervirmos no mundo. É sempre eficaz e produz sempre efeito, embora não actue sempre de acordo com os nossos interesses e critérios.
Quando escutamos a Palavra de Deus, sentimo-nos confiantes, optimistas, com o coração a transbordar de esperança; sentimos que o caminho que Deus nos indica é, efectivamente, um caminho de felicidade e de vida plena... "Que bom é estarmos aqui" - dizemos... Depois, voltamos à nossa vida do dia a dia e reencontramos a monotonia, os problemas, o desencanto; constatamos que os maus, os corruptos, os violentos, parecem triunfar sempre e nunca são castigados pelo seu egoísmo e prepotência, enquanto que os bons, os justos, os humildes, os pacíficos são continuamente vencidos, magoados, humilhados... Então perguntamos: podemos confiar nas promessas de Deus? Não estaremos a ser enganados? A Palavra de Deus que hoje nos é proposta responde a estas dúvidas. Ela garante-nos: a Palavra de Deus não falha; ela indica sempre caminhos de vida plena, de vida verdadeira, de liberdade, de felicidade, de paz sem fim.

O Evangelho propõe-nos, em primeiro lugar, uma reflexão sobre a forma como acolhemos a Palavra e exorta-nos a ser uma "boa terra", disponível para escutar as propostas de Jesus, para as acolher e para deixar que elas dêem abundantes frutos na nossa vida de cada dia. Garante-nos também que o "Reino" proposto por Jesus será uma realidade imparável, onde se manifestará em todo o seu esplendor e fecundidade a vida de Deus.
No seu "estado actual", a parábola do semeador e da semente é, sobretudo, um convite a reflectir sobre a importância e o significado da Palavra de Jesus. É verdade que, nas nossas comunidades cristãs, a Palavra de Jesus é a referência fundamental, à volta do qual se constrói a vida da comunidade e dos crentes? Temos consciência de que é a Palavra anunciada, proclamada, meditada, partilhada, celebrada, que cria a comunidade e que a alimenta no dia a dia?

A segunda leitura apresenta uma temática (a solidariedade entre o homem e o resto da criação) que, à primeira vista, não está relacionada com o tema deste domingo - a Palavra de Deus. Podemos, no entanto, dizer que a Palavra de Deus é que fornece os critérios para que o homem possa viver "segundo o Espírito" e para que ele possa construir o "novo céu e a nova terra" com que sonhamos.
No nosso tempo manifesta-se, cada vez mais, uma preocupação séria com a forma como usamos o mundo que Deus nos ofereceu. O homem de hoje já descobriu que a criação não é para ser explorada, violentada, usada de acordo com critérios de egoísmo e de exploração. Aquilo que nos deve mover, no entanto, não é a simples preocupação com o esgotamento dos recursos, ou com a destruição das condições de habitabilidade do nosso planeta; mas o que nos deve mover é a ideia da fraternidade que deve unir o homem e as outras coisas criadas por Deus. Só quando se instalar essa consciência de fraternidade, podemos libertar toda a criação do egoísmo e da exploração em que o homem a encerrou e fazer aparecer o "novo céu e a nova terra".

 PALAVRA PARA O CAMINHO.

Que género de terra somos nós? Que género de terra somos nós para esta Palavra semeada em nós com abundância? Se a possibilidade nos é oferecida, tomemos um momento ao longo da semana, directamente na natureza, para rezar esta página do Evangelho. E deixemo-la enraizar-se em nós para lhe permitir produzir fruto em abundância.

https://www.dehonianos.org/liturgia/?mc_id=5789 (...)

sábado, 11 de julho de 2026

A Espera que Nos Salva




A Espera que Nos Salva
Há dias em que a vida nos obriga a parar.
Não porque queremos, mas porque já não conseguimos continuar a correr.
Conheci uma senhora que, sentada numa sala de espera de hospital, me disse uma frase que nunca esqueci:
— "Padre, passei a vida inteira à espera de dias melhores e, sem dar conta, fui deixando passar os dias que tinha."
Fiquei a pensar nisso.
Quantas vezes adiamos a felicidade para amanhã?
Quando resolvermos os problemas.
Quando tivermos mais dinheiro.
Quando os filhos crescerem.
Quando a vida for como sonhámos.
Mas a vida raramente acontece como a imaginamos.
Talvez repousar seja precisamente isto: deixar de exigir que tudo aconteça ao nosso ritmo.
Aprender a sentar-se diante da vida e dizer, no silêncio do coração:
"Estou aqui, à espera de nada."
Não por desistência.
Mas por confiança.
Confiança de que nem tudo depende de nós.
Confiança de que Deus continua a trabalhar mesmo quando não vemos.
Confiança de que a paz não nasce de ter tudo resolvido, mas de saber que estamos nas mãos certas.
Porque, muitas vezes, o maior milagre não é chegar mais longe.
É conseguir parar.
Respirar.
E agradecer o dom deste dia.


Padre João Torres

sexta-feira, 10 de julho de 2026

Onde há amor, há oração



A oração é a expressão máxima do amor. O amor exige presença, silêncio e tempo, muito tempo, ao ponto de quem ama se esquecer de si. A oração é igual.

A oração é uma manifestação de carinho e de fragilidade. O amor é uma vontade de entregar toda a riqueza e, ao mesmo tempo, uma pobreza que estende a mão.

Amar eleva a nossa alma, rezar também.

Somos chamados, se quisermos ser felizes, a amar e a pedir pelos que não nos amam e pelos que não amamos.

É, pois, no silêncio do nosso quarto e no interior do nosso coração que devemos falar com Deus sobre os que amamos e dos que não amamos, procurando amar mais uns e outros.

A oração tem sempre algo de tão belo quanto de clandestino. Não é uma troca nem uma resposta concreta que se deseja; é uma confiança que se deposita em quem se ama e se quer amar. Uma palavra sussurrada pode valer muito mais do que um discurso a uma multidão.

O amor com que se reza é mais importante do que qualquer palavra que se use.

Os que julgam que se bastam a si mesmos, que não precisam nem dependem de ninguém, vivem numa ilusão perigosa que se pode desmoronar a qualquer instante. A vida tende a dar lições muito duras a quem não aprende o que é evidente.

A oração muda quem a faz. Aperfeiçoa os sentimentos e aproxima o pensamento da verdade. O amor também.

Quem ama abre, estende e entrega o seu coração ao Céu e ao outro. Quem reza também.


José Luís Nunes Martins

quinta-feira, 9 de julho de 2026

Tempo

 


Quando somos crianças não existe, sequer, a noção de tempo. À medida que vamos crescendo, vamos percebendo que ele corre veloz. Ainda ontem eu...

Que distância vai do bebé ao velhinho? É que, para quem não sabe, o velhinho já foi bebé (estou a falar a sério).

Assim sendo, e porque não o podemos agarrar, acho que não precisamos de correr atrás dele. Acho até que ele gosta que disfrutemos dele com calma. Tempo para ter tempo. E acho também que ele gosta de ser vivido hoje, em cada hora do dia. E acredito, ainda, que o que ele gosta mais é que o dêmos aos outros (aqueles a quem dizemos tantas vezes: _ desculpa, não tenho tempo).

Durante uns anos, tive exposta no meu quarto esta frase de um autor que desconheço:

"Não é decerto razoável afirmar,

Que tens a vida toda para viver,

O tempo é todo feito no presente,

Amanhã podes querer e já não ter."

Li. Reli. Decorei. Falta viver.

Nota: p'ra começar ontem!


Lucília Miranda

quarta-feira, 8 de julho de 2026

O amor de alguém



Há um erro em que caímos muitas vezes, empurrados pela pressa.

O de acreditar que, por detrás da porta de um hospital, mora apenas um doente.

Mas não. Não mora. Definitivamente, não mora!

Ali nunca está apenas um doente.

Ali está o universo inteiro de uma vida.


Está uma criança que um dia adormeceu ao colo da mãe. Está um pai que carregou o filho aos ombros. Está uma mulher que esperou anos pelo homem que amava. Está um amigo que conhecia o caminho para fazer sorrir quem chorava. Está alguém que foi indispensável na vida de outra pessoa…


Porque ninguém é apenas aquilo que a doença deixou à vista.

A doença pode rasgar o corpo, e pode até desfragmentar a mente, mas não apaga a história.

Silencia a voz, mas não cala o amor.

Enfraquece a memória, mas não consegue apagar as pegadas deixadas no coração daqueles que um dia disseram: “Amo-te”

Há sempre alguém que, ao olhar para aquele rosto marcado pelo sofrimento, continua a ver beleza.

Alguém que não vê sondas, não vê cicatrizes nem vê limitações.

Vê o primeiro beijo.

Vê as mãos que embalaram um filho.

Vê os serões à volta da mesa.

Vê as discussões que terminaram em perdão.

Vê uma vida inteira.


É por isso que nenhum doente cabe numa cama.

Porque há demasiadas vidas a habitarem dentro dele.

E essa é uma das grandes tragédias do nosso tempo: aprendemos a medir as pessoas pelo que conseguem fazer, quando Deus nunca deixou de as medir pela infinita capacidade que têm de amar e de serem amadas.

O Evangelho nunca nos apresenta um Cristo fascinado pelos fortes, ou apenas por aqueles que podiam pagar os cuidados.

Jesus detém-Se sempre onde os outros passam depressa.

Ajoelha-Se diante da fragilidade.

Toca a carne que todos evitam.

Demora-Se junto de quem já ninguém considera importante.

Porque Deus conhece um segredo que nós esquecemos demasiadas vezes:

o valor de uma vida nunca diminui quando as suas forças diminuem.


Há uma santidade escondida na vulnerabilidade.

Há uma espécie de sacramento em cada corpo ferido.

Como se Deus continuasse a escolher a carne mais frágil para recordar ao mundo que o amor nunca depende da perfeição.

Foi esse segredo que São João de Deus compreendeu como poucos.

Quando todos viam pobres, loucos, abandonados e moribundos, ele via irmãos.

Não se aproximava para tratar apenas uma doença, mas para honrar uma dignidade.

Sabia que cada pessoa transportava uma história que merecia ser escutada, um nome que merecia ser pronunciado com respeito e um coração que continuava a ser infinitamente precioso aos olhos de Deus.


A hospitalidade nasceu desse olhar.

Não do desejo de curar apenas o corpo, mas da coragem de amar a pessoa inteira.

Quando te aproximares de um doente, esquece, por um instante, a doença.

Imagina a mãe que ainda reza por ele. Por aquele filho tão amado.

A filha que todos os dias pergunta ao pai como passou a noite.

O pai que carregou às cavalitas os filhos e os netos em animadas brincadeiras

O marido que continua a acariciar o cabelo da esposa, mesmo quando ela já não sabe o seu nome.

O neto que guarda uma fotografia antiga do avô onde aquele rosto ainda ria.

Depois, levanta ainda mais o olhar.

Contempla Deus.

Não o Deus distante das ideias, mas o Deus que conhece aquele nome desde antes da criação do mundo. O Deus que recolheu cada lágrima, que esteve presente em cada alegria, que nunca retirou os olhos daquele filho, nem quando o mundo deixou de o ver.

É esse o olhar que São João de Deus nos deixou como herança.

Olhar até que a doença deixe de ser o centro.

Olhar até que a pessoa volte a aparecer.

Olhar até descobrir, por detrás de cada fragilidade, alguém que continua a ser amado sem medida.

E nesse instante o olhar transforma-se.

Já não estás diante de um desconhecido.

Já não estás diante de um peso.

Já não estás diante de "mais um".

Estás diante do amor de uma família.

Estás diante do amor de Deus.

Cuidar de um doente não é apenas aliviar uma dor. É entrar, descalço, no lugar mais sagrado da existência humana.

Porque um doente nunca é apenas um doente.

É sempre o amor de alguém.

E é sempre, para Deus, um filho infinitamente amado.


Fernando d'Oliveira

terça-feira, 7 de julho de 2026

Controlar o temperamento

 


Controlar o temperamento

Uma das coisas que mais salta à vista, neste tempo pós-pandemia, é que as pessoas se tornaram mais agressivas na linguagem, com du(r)as pedras na mão; mais brutas no trato e com uma pedra no sapato.
Sentimos as pessoas mais tensas, mais agitadas e impacientes, mais arrogantes e violentas. Talvez pelo excesso de trabalho e de produção, pelo esgotamento, pela pressão constante em darmos mais, tornamo-nos hoje pessoas zangadas, aborrecidas, quezilentas, mal-humoradas. Mas se vivermos assim, acabaremos ainda mais cansados e exaustos.
Jesus está a atravessar um período de insucessos e problemas: João Batista é preso, Ele é contestado abertamente por representantes do templo, as povoações, após a primeira onda de entusiasmo e de milagres, afastaram-se.
E diante daquele ambiente de derrota, Jesus não se torna agressivo; pelo contrário, admira-se com a novidade; enche-se de alegria, sente-se feliz: «Pai, bendigo-Te, dou-Te graças, agradeço-Te, porque Te revelaste aos pequenos.»
O lugar vazio dos grandes preenchem-no os pequenos: sim, os pequeninos, os que nada podem fazer sozinhos, mas que sabem confiar, sabem que podem confiar e sabem em Quem confiar.
Jesus dirige-lhes, e a cada um de nós, um convite surpreendente:
«Vinde a Mim», «Tomai sobre vós o meu jugo» e «Aprendei de Mim».
Com Jesus aprendemos a controlar o nosso temperamento.
O controlo do nosso temperamento pode tornar-se um dos maiores desafios da nossa vida.


Padre João Torres

O poder de dizer NÃO!



Nem sempre sentimos que temos permissão para dizer que não. Que não nos apetece. Que não aceitamos. Que hoje não contam connosco. Que vamos preferir o nosso descanso e a nossa verdade ao invés de agradar e dizer um sim mentiroso.

Acreditamos que, para ser amados, temos de ficar bem vistos. De viver para agradar. Se o outro me valida, eu fico melhor. E mais feliz. Mas será mesmo assim? Será que quando digo que sim aos outros (e mesmo que isso implique dizer que não ao que eu própria quero) vou necessariamente a receber amor? E que amor é este que eu quero receber a todo o custo, e de qualquer um?

A verdade é que quando aceitamos tudo de todos e quando dizemos “sim” em esforço, e em detrimento de uma renúncia pessoal ou emocional, estamos a dizer que não à pessoa de quem melhor devemos cuidar. Se eu quero cuidar dos que estão comigo e dos que amo, mas não sei cuidar de mim e das minhas necessidades emocionais mais básicas, que mensagem vou passar aos meus filhos, aos meus netos, aos meus descendentes, ou aos que se cruzam comigo?

Que para ser aceite e amado, eu tenho de dizer sempre que sim aos outros, mesmo que isso implique uma negação profunda daquilo que eu próprio necessito (e quero!).

Parece-me urgente que saibamos aprender a dizer que não sem sentir culpa. Sem premeditar o que o outro pode ficar a julgar de mim ou do que fiz. Sem sentir que me devia colocar em último lugar, porque é isso que é esperado de mim. E de nós.

O que é esperado de nós, e o que beneficia tudo (e todos), é que eu viva de acordo com a minha verdade. Que eu rime as minhas atitudes e decisões com a minha própria voz. Com a minha vontade. Isso não significa que eu possa, sempre, fazer só o que bem me apetece. Mas tão pouco significa que eu só possa fazer o que quero quando suprir as necessidades de todos os outros. Isso não é bondade, altruísmo ou gentileza. É negligência de mim para mim.

Que saibamos valorizar quando as pessoas colocam os seus limites. Quando os clarificam. Quando dizem que não. Quando tomam decisões com base no que é benéfico para si.

E tu, já aprendeste a dizer que não?


Marta Arrais

segunda-feira, 6 de julho de 2026

A humildade é a verdade


«A humildade não é uma virtude, não é sequer uma qualidade.
A humildade é a verdade.»
José Luís Nunes

A humanidade feliz anseia viver na humildade.

O humilde respira a alegria.

O que se humilha não teme a mão de Deus,

sabe que o próprio Jesus veio montado num simples jumentinho.


Humildemente…

Com o Seu coração manso, O Cristo oferece-nos o Seu maior legado: O Santo Espírito.

É Aquele que fica connosco, que nos habita

e faz a carne, que apodrece e morre, ter ação…

O Espírito anima-nos e vamos ao encontro de quem tem uma grandeza passageira,

para levarmos Jesus a todos e todos a Jesus.


A nossa maior riqueza é conhecermos o Nosso Deus,

que usa um jugo suave, que nos alivia, nos ampara quando vacilamos

e nos levanta quando nos sentimos oprimidos.


É tempo de descanso…

Tempo de reencontro com os amigos e parar.

Jesus é quem nos convida a ir até Ele.

A parar de verdade e na verdade!

A bendizermos o Pai e a alegrarmo-nos com as coisas mais simples,

que na realidade são as mais belas e as mais puras.


Sejamos pequeninos e humildes…

Como as margaridas dos campos que nos abastecem o coração com Fé!

Como a areia que é banhada pelo mar e nos alimenta a Esperança!

Como as folhas do carvalho que nos providenciam a sombra fresca de uma Caridade fecunda.


 Liliana Dinis,

domingo, 5 de julho de 2026

Deus é amor

 

https://www.youtube.com/watch?v=4dX1rZFuJvA&list=PLAqKRngqwuSfPdOPEvu7KzjdvMvB1w33f&index=158

A liturgia deste domingo ensina-nos onde encontrar Deus. Garante-nos que Deus não Se revela na arrogância, no orgulho, na prepotência, mas sim na simplicidade, na humildade, na pobreza, na pequenez.

A primeira leitura apresenta-nos um enviado de Deus que vem ao encontro dos homens na pobreza, na humildade, na simplicidade; e é dessa forma que elimina os instrumentos de guerra e de morte e instaura a paz definitiva.
A história da salvação mostrou, muitas vezes, que é através dos pequenos, dos humildes, dos pobres, dos insignificantes que Deus actua no mundo e o transforma. Deus está mais na viúva que lança no tesouro do Templo umas pobres moedas do que no capitalista que preenche um cheque chorudo para pagar os vitrais da nova igreja da paróquia; Deus está mais no gesto simples do pacifista que oferece uma flor a um soldado do que na violência daqueles que lutam de armas na mão contra os "maus"; Deus está mais no olhar límpido de uma criança do que na palavra poderosa de um pregador inflamado que "sabe tudo" sobre Deus... Já aprendi a descobrir esse Deus que se manifesta na humildade, na pobreza, na simplicidade?

No Evangelho, Jesus louva o Pai porque a proposta de salvação que Deus faz aos homens (e que foi rejeitada pelos "sábios e inteligentes") encontrou acolhimento no coração dos "pequeninos". Os "grandes", instalados no seu orgulho e auto-suficiência, não têm tempo nem disponibilidade para os desafios de Deus; mas os "pequenos", na sua pobreza e simplicidade, estão sempre disponíveis para acolher a novidade libertadora de Deus.
Como nos situamos face a Deus e à proposta que Ele nos apresenta em Jesus? Ficamos fechados no nosso comodismo e instalação, no nosso orgulho e auto-suficiência, sem vontade de arriscar e de pôr em causa as nossas seguranças, ou estamos abertos e atentos à novidade de Deus, a fim de perceber as suas propostas e seguir os seus caminhos?

Na segunda leitura, Paulo convida os crentes - comprometidos com Jesus desde o dia do Baptismo - a viverem "segundo o Espírito" e não "segundo a carne". A vida "segundo a carne" é a vida daqueles que se instalam no egoísmo, orgulho e auto-suficiência; a vida "segundo o Espírito" é a vida daqueles que aceitam acolher as propostas de Deus.
Paulo ensina que a vida "segundo a carne" gera morte; e que a vida "segundo o Espírito" gera vida. O que é viver "segundo a carne"? Olhando para o mundo e para a vida da Igreja, quais são os sintomas que eu noto da vida "segundo a carne"? O que é viver "segundo o Espírito"? Olhando para o mundo e para a vida da Igreja, quais são os sintomas que eu noto da vida "segundo o Espírito"? O cristão tem de viver "segundo o Espírito". É desse jeito que eu vivo? Estou aberto à acção renovadora e libertadora do Espírito que recebi no dia do meu Baptismo?



https://www.dehonianos.org

sábado, 4 de julho de 2026

A SOLIDÃO





Se reparares bem, boa parte dos nossos maiores erros que cometemos na vida não nascem da falta de caráter, mas do pavor da solidão. Aceitamos migalhas emocionais, relações falidas, toleramos faltas de respeito ou preenchemos a agenda com encontros vazios. Parece que desenvolvemos uma fobia que se está a tornar crónica: a fobia do silêncio, da solidão. Parece que ficar sozinho tornou-se sinónimo de abandono, quando na verdade deveria ser sinónimo de paz. Sabes, quem não suporta a própria companhia, geralmente foge do que está escondido dentro da própria mente… o medo de enfrentar os próprios vazios, traumas e as verdades que a correria do dia a dia consegue abafar. Procurar estar só, por vezes, é um acto de poder e maturidade emocional, porque o encontro connosco mesmos é tão vital como respirar. Quando a tua mente está em paz, sabes, ganhas uma liberdade de escolha fora de série. Deixas de te relacionar por necessidade, por carência ou para tapar buracos, e passas a relacionar-te por desejo e admiração real… no fundo abandonas a prostituiçao dos teus vazios. Quem se basta não aceita qualquer relacionamento. Se tu fores a tua melhor companhia, só vais querer do teu lado quem soma, quem acrescenta… não quem te diminui. Sabes, a solidão só assusta quem ainda não aprendeu a habitar consigo próprio.

Padre Ricardo Esteves

sexta-feira, 3 de julho de 2026

EU SEI PARA ONDE VOU

 


A vida desdobra-se num amálgama constante,
entre a certeza que se confirma
e a surpresa que desabrocha a cada amanhecer.
Ao contrário de tantos que caminham sem bússola,
trago em mim a clareza límpida do que quero e do que recuso.
Sei bem de onde venho,
reconheço o meu destino
e abraço o caminho que escolhi trilhar.
Há quem passe pelos meus dias sem acrescentar valor,
servindo apenas como um espelho daquilo que nunca quero ser.
Cruzar-me com a mentira, a hipocrisia, a falsidade e o oportunismo
obriga-me a olhar para dentro e a escolher a diferença.
A vaidade, o egocentrismo e o narcisismo de alguns
provocam-me um aperto profundo no peito,
mas a maior e mais triste ironia
é constatar que estas sombras habitam, tantas vezes,
no topo dos altares, entre os afamados pastores da Igreja.
Em contrapartida, é no povo mais simples
que a vida se torna sagrada, desarmante e profunda.
Eles ensinam-me, no silêncio e na verdade dos seus gestos,
o significado puro da bondade, da generosidade,
da proximidade e da humildade.
Revelam-me o altruísmo, a comunhão
e os sinais mais bonitos de uma fé viva.
Sinto-me tão pequeno diante da imensidão desta gente humilde
que, generosamente, faz o favor de me acolher nos seus dias.
Por tudo isto, o meu coração eleva-se em gratidão a Deus.
Porque se a maldade existe e corrói,
encastelada nas elites eclesiásticas que deviam dar o exemplo,
a luz dos simples é infinitamente mais forte.
São eles que, na beleza pura do quotidiano,
me continuam a mostrar o rosto de Cristo todos os dias.

Padre António Magalhães


quinta-feira, 2 de julho de 2026

Papa encerra encontro consistório extraordinário com apelo contra a violência

 «A guerra nasce dentro de nós, quando a suspeita toma o lugar da confiança» – Leão XIV





Cidade do Vaticano, 27 jun 2026 (Ecclesia) – O Papa encerrou hoje o segundo consistório extraordinário do seu pontificado com um alerta sobre a violência e um apelo ao desenvolvimento da reflexão teológica sobre a legitimidade da guerra em resposta a agressões.

“Antes de se manifestar na história, a guerra nasce dentro de nós, quando a suspeita toma o lugar da confiança, o medo substitui a esperança e o outro é percebido como uma ameaça”, disse o Papa, perante cardeais dos cinco continentes, reunidos no Vaticano.

Leão XIV sustentou que a beligerância global ultrapassa o mero confronto armado, nascendo de uma “cultura do poder” que contamina o pensamento político, económico e tecnológico da sociedade.

“Se esta é a raiz da crise, a resposta exige reconstruir uma cultura da cooperação e do diálogo, capaz de dar novo vigor ao multilateralismo”, advertiu o pontífice.

O Papa defendeu a urgência de uma atitude pacífica para travar a escalada de agressões internacionais, garantindo que esta é uma postura “profundamente evangélica”.

A resposta não-violenta, precisou, “não consiste na renúncia ao conflito nem numa atitude passiva, mas na escolha de o enfrentar sem reproduzir a sua lógica”.

“Deus deseja a paz para cada nação e para cada povo. Por isso não nos podemos resignar à violência”, declarou,

A intervenção sublinhou que o perdão continua a ter espaço na história, exortando os líderes a terem “coragem” para percorrer novos caminhos de reconciliação e ajudar o mundo a reconhecê-los.

Leão XIV convidou os cardeais a desenvolver a reflexão sobre a “legítima defesa”, exigindo o necessário “rigor teológico e pastoral” face às transformações da guerra moderna.

A intervenção confessou particular inquietação com as novas gerações, sublinhando o sofrimento agudo que conduz a juventude “ao desespero, e por vezes ao desespero extremo de tirar a própria vida”.

O Papa pediu que as comunidades católicas transformem a Doutrina Social num critério ordinário de formação, promovendo espaços seguros de escuta onde seja possível “redescobrir juntos” o bem comum.

A reunião de cardeais decorreu desde sexta-feira, procurando respostas pastorais às divisões globais.

A agenda de trabalhos incluiu a discussão sobre a superação da teoria da “guerra justa”.

A metodologia do encontro dividiu os participantes em pequenos grupos para uma “escuta partilhada”, com intervenções individuais limitadas a três minutos e sem declarações à imprensa.

O programa oficial encerra-se na segunda-feira, com a Missa da solenidade de São Pedro e São Paulo.

Leão XIV decidiu convocar os cardeais, pela primeira vez, em janeiro deste ano, num encontro destinado a estabelecer prioridades para a Igreja Católica.

O Colégio Cardinalício tem 241 cardeais oriundos de 92 países dos cinco continentes, incluindo Portugal, entre os quais 117 eleitores.

OC

quarta-feira, 1 de julho de 2026

Diocese de Portalegre-Castelo Branco anuncia mudanças nas paróquias


A Diocese de Portalegre-Castelo Branco anunciou um conjunto de nomeações e dispensas pastorais que entrarão em vigor com a tomada de posse dos respectivos responsáveis, prevista para o início de Setembro. As alterações, assinadas pelo bispo diocesano, D. Pedro Fernandes, visam responder às actuais necessidades pastorais da diocese e reforçar a presença da Igreja nas diferentes comunidades.

Entre as principais mudanças no distrito de Portalegre, o Pe. Rui Rodrigues foi nomeado pároco das paróquias de Alegrete e Reguengo, em acumulação com as restantes funções que já desempenha. Já o Pe. Pontien Luboya Ilunga assume a responsabilidade pastoral das paróquias de Arronches, Esperança, Degolados e Mosteiros. O Pe. Fernando Farinha foi dispensado de todas as paróquias para que estava nomeado.

Em simultâneo, o Pe. Pontien Luboya Ilunga deixa de exercer funções como vigário paroquial das paróquias de Fortios e da Sé de Portalegre, cessando igualmente a colaboração pastoral com o Mons. Paulo Dias nas comunidades que este acompanha.

Por sua vez, o Pe. Rui Lourenço passa a desempenhar funções de vigário paroquial nas paróquias da Sé e de São Lourenço, em Portalegre, bem como em Fortios, Reguengo e Alegrete.

Outra das novidades é a colaboração pastoral do diácono Diogo Fernandes, actualmente em formação em Direito Canónico na Universidade Católica Portuguesa. O diácono ficará a residir em Alter e colaborará nas paróquias de Aldeia da Mata, Alter, Cabeço de Vide, Chancelaria, Crato-Mártires, Cunheira, Flor da Rosa, Monte da Pedra, Seda e Vale do Peso.

Na Vigararia de Abrantes registam-se igualmente alterações na organização pastoral. O Pe. Gonçalo Rafael Duarte Gomes foi nomeado pároco in solidum das paróquias de São Vicente, São João e Rio de Moinhos.

Por outro lado, o Pe.Joaquim Lumingo foi dispensado das funções de pároco in solidum das paróquias de Alferrarede, Sardoal, Valhascos, Rio de Moinhos, São Vicente e São João (Abrantes). O Pe. António Castanheira deixa as paróquias de Alferrarede, Sardoal e Valhascos, mantendo-se como pároco in solidum, na qualidade de moderador, das restantes comunidades que lhe estão confiadas. Já o Cón. Emanuel Silva é dispensado das paróquias de São Vicente, São João (Abrantes) e Rio de Moinhos, permanecendo nas restantes paróquias de que é pároco.

Foi ainda anunciada a instalação de uma comunidade da Congregação da Missão (Padres Vicentinos) na Diocese de Portalegre-Castelo Branco. A comunidade ficará sediada na Paróquia de Nossa Senhora de Fátima, em Castelo Branco, assumindo igualmente a responsabilidade pastoral das paróquias de Santo André das Tojeiras e Sarzedas. A equipa será constituída pelos padres Suresh Praban Siluvayya, António Manuel Bernardo Martins e pelo diácono Vilarino Calisto.

No documento divulgado, D. Pedro Fernandes agradece o trabalho desenvolvido pelos sacerdotes que agora cessam funções nas respetivas comunidades e deseja «os melhores êxitos» aos que assumem as novas responsabilidades pastorais.

Vamos lá!




Arrebita!


Anima-te!

Força! Vá lá, não desanimes. São chavões muito comuns que por vezes têm o condão de nos deixar ainda mais desanimados. E repetimos esses trejeitos sem pensar muito.

A verdade é que, às vezes, precisamos que alguém nos empurre nos puxe para cima e nos relembre que o facto de nos sentirmos miseráveis não nos traz qualquer vantagem. Sim, porque por vezes, sentimo-nos de tal ordem desanimados que o que nos resta é “deixar estar assim”, quieto e sossegado à espera que passe. Por experiência, sei que passa, mas vai deixando mazelas.

Para que a expressão “Vamos lá” não pareça paternalista deve vir acompanhada de lufadas de ar fresco, sugestões, ideias, e não apenas palavras inspiradoras que nos soam a oco.

O “vamos lá”, deve implicar ir mesmo, tomar as dores e procurar soluções.

O “vamos lá” pode ser poderoso quando tu vais lá e ajudas a ver opções.

E sim, vale a pena estimular os outros a sair do seu lugar seguro porque já procuraram tanto, já tentaram tanto e nem sempre as portas se abrem até que um dia alguém se lembrou e te deu a mão.

Nem sempre são os mais próximos que nos conseguem ajudar a sair do sítio, às vezes a ajuda vem de fora, de onde nunca esperarias. Vem sobre forma de mensagens, palavras ou convites inusitados e são esses que nos dão vontade de “ir outra vez à luta”.

Seja por um emprego, uma relação melhor, uma casa ou algo que tanto ambicionamos mas que nos parece tão difícil, seja por o que for, eu sei que tanto posso precisar de um” vamos lá” como posso ser eu a responsável por alguns irem por onde nunca pensaram ir.

E tu, amiga, anima-te, “vamos lá”?


Raquel Rodrigues

terça-feira, 30 de junho de 2026

Quanto mais fundo, mais alto

 


As dores engrandecem-nos e enobrecem-nos. Podem fazer de qualquer um de nós um herói ou um fugitivo. Uma simples mudança brusca na vida pode criar uma revolução interior. Aquilo que se alterou no exterior obriga-nos a transformar o interior, e isso dói sempre — mesmo quando é para melhor.

A dor revela-nos até a nós próprios, porque onde nos dói a dor é também onde reside aquilo que nos salva – que só desperta quando levamos ao limite as nossas forças – aquelas que julgávamos ser todas quanto tínhamos, mas que… afinal tínhamos mais. E bem fortes.

O sofrimento é, apesar de tudo, uma fonte de significado, autenticidade e sabedoria. A vida é uma enorme sequência de decadência e de crescimento, de decomposição e de renascimento, de podridão e de regeneração, de perdas e de ganhos. Só o amor permanece e resiste a tudo. Se o amor não subsiste ou se perde, será outra coisa que até se pode confundir com amor na superfície, mas que, na verdade, não é.

Quem ama torna-se capaz de florescer no meio do sofrimento. As mais belas flores surgem nos contextos mais adversos, como se a dor se fizesse a sua raiz.

Cuidado, há muitos olhos que sorriem e que, assim, escondem grandes dores. Por vezes, essa é uma forma de acrescentar o sofrimento da solidão ao sofrimento já existente. Outras vezes, porém, o sorriso pode ser o princípio do triunfo. De facto, é difícil para a maioria de nós acreditar na dor de quem a partilha com um sorriso.

As grandes dores chegam a impor uma espécie de lei do silêncio. Nem lágrimas nem sorrisos. Mas é muitas vezes quem sofre que mais depressa e melhor socorre a dor dos outros.

As dores que na nossa vida se sucedem são como uma escadaria para o céu: edificam-nos, elevam-nos e divinizam-nos.

 José Luís Nunes Martins


segunda-feira, 29 de junho de 2026

Seguir Jesus


“A cruz é sinal positivo na matemática.
Ao seguires Jesus, a tua Cruz irá somar alegrias sem fim à tua vida.…”
Catequese 8º Ano

Como é bom ter algo.

Ter roupa para vestir.

Ter pão para comer.

Ter uma casa para descansar.

Ter um carro para chegar onde quero.

Ter um amigo para partilhar as alegrias.

Ter uma Religião para viver em comunidade.

Ter um Batismo que faz de mim Filha.

Nada me falta.

“Tenho borboletas na barriga!”

E…

…sou Feliz!

Porque ambiciono para a minha vida o Ser!


Ser aconchego para alguém quando está frio.

Ser alimento para quem tem fome de Fé.

Ser albergue para os que caminham sem Esperança.

Ser mãe que transporta os filhos com a oração diária.

Ser amiga que carrega as dores e as angústias.

Ser a religião que desamarra o coração dos preconceitos banais e sem sentido.

Ser perdão e misericórdia para os que vivem sem Deus e sem Amor…


Hoje, quero a Cruz de Cristo em mim.

Sou Dele…

e sei que Jesus me ama muito mais do que eu me amo…

porque por mim e por ti O Cristo dá, a cada dia, a Sua própria Vida!


Liliana Dinis

Celebramos hoje São Pedro.




As chaves de Pedro não servem para fechar

Celebramos hoje São Pedro.
Talvez o imaginemos de chaves na mão, firme, seguro, quase perfeito. Mas o Evangelho apresenta-nos um homem bem diferente.
Pedro era impulsivo. Falava antes de pensar. Tinha o coração maior do que a prudência. Prometia mais do que era capaz de cumprir.
Quando ouviu dizer que queriam prender Jesus, fez voz grossa:
— "Ainda que todos Te abandonem, eu nunca Te abandonarei."
Não estava a fingir.
Acreditava sinceramente naquilo que dizia. Estava convencido de que seria capaz de morrer pelo Mestre.
Mas chegou a noite.
Chegou o medo.
Chegou a solidão.
E bastaram as perguntas de uma criada para fazer cair todas as certezas.
Três vezes negou conhecer Jesus.
Três vezes.
Não sabemos exatamente o que se passou dentro dele. Sabemos apenas que Pedro descobriu, da forma mais dura, que uma coisa é a imagem que fazemos de nós próprios; outra, bem diferente, é a verdade do nosso coração quando a vida nos coloca à prova.
Talvez por isso Jesus lhe tenha dito:
"Tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha Igreja."
Não porque Pedro fosse uma rocha.
Mas porque decidiu apoiar a sua vida na verdadeira Rocha, que é Cristo.
A Igreja não nasceu da perfeição dos homens.
Nasceu da fidelidade de Deus.
Pedro caiu, mas deixou-se levantar.
Errou, mas não desistiu.
Chorou, mas não fugiu da misericórdia.
Foi precisamente um pecador perdoado que Jesus escolheu para confirmar os irmãos na fé.
Talvez seja esta a grande lição para os nossos dias.
Vivemos com demasiada facilidade a apontar o dedo aos erros dos outros. Há sempre alguém de quem falar, alguém para julgar, alguém que, na nossa opinião, já não merece uma segunda oportunidade.
Por vezes, até dentro da Igreja, surgem os "santaneiros" de ocasião: rápidos a condenar, lentos a compreender; prontos para fechar portas, mas pouco disponíveis para abrir o coração.
Conta-se que certa vez uma mulher, conhecida pela sua vida desregrada, entrou numa igreja para rezar. Uma pessoa muito "piedosa" escandalizou-se por a ver ali.
Esqueceu-se de uma coisa.
A Igreja nunca foi um clube de pessoas perfeitas.
É a casa onde os pecadores aprendem, todos os dias, a recomeçar.
Pedro compreendeu isso.
Por isso disse um dia:
— "Afasta-Te de mim, Senhor, porque sou um homem pecador."
E mais tarde reconheceu:
— "Senhor, para quem iremos? Só Tu tens palavras de vida eterna."
E, depois da sua queda, já não fez promessas grandiosas.
Limitou-se a dizer:
— "Senhor, Tu sabes tudo. Tu bem sabes que Te amo."
Quem experimentou a misericórdia deixa de olhar os outros de cima.
Passa a olhá-los ao lado.
Por isso Pedro aparece sempre representado com umas chaves.
E talvez ainda hoje caiamos na tentação de pensar que as chaves servem para fechar portas.
Mas as chaves do Evangelho não servem para impedir a entrada.
Servem para abrir caminhos.
Abrir a porta a quem procura Deus.
Abrir espaço para quem regressa.
Abrir o coração àqueles que julgávamos perdidos.
Afinal, a porta que Jesus abriu na Cruz continua aberta.
E ninguém tem o direito de a fechar.

Padre João Torres

domingo, 28 de junho de 2026

Seguir Cristo na partilha com os irmãos

 

https://www.youtube.com/watch?v=W36l6nCyRNU&list=PLAqKRngqwuSfPdOPEvu7KzjdvMvB1w33f&index=159

Nas leituras deste 13º Domingo do Tempo Comum, cruzam-se vários temas. No geral, os três textos que nos são propostos apresentam uma reflexão sobre alguns aspectos do discipulado. Fundamentalmente, diz-se quem é o discípulo (é todo aquele que, pelo baptismo, se identifica com Jesus, faz de Jesus a sua referência e O segue) e define-se a missão do discípulo (tornar presente na história e no tempo o projecto de salvação que Deus tem para os homens).

O Evangelho é uma catequese sobre o discipulado, com vários passos. Num primeiro passo, define o caminho do discípulo: o discípulo tem de ser capaz de fazer de Jesus a sua opção fundamental e seguir o seu mestre no caminho do amor e da entrega da vida. Num segundo passo, sugere que toda a comunidade é chamada a dar testemunho da Boa Nova de Jesus. No terceiro passo, promete uma recompensa àqueles que acolherem, com generosidade e amor, os missionários do "Reino".
Às vezes, as pessoas procuram os ritos cristãos por tradição, por influências do meio social ou familiar, porque "a cerimónia religiosa fica bonita nas fotografias...". Sem recusarmos nada devemos, contudo, fazê-las perceber que a opção pelo baptismo ou pelo casamento religioso é uma opção séria e exigente, que só faz sentido no quadro de um compromisso com o "Reino" e com a proposta de Jesus.
Integrar a comunidade cristã é assumir o imperativo do testemunho. Sinto verdadeiramente que isso é algo que me diz respeito - seja qual for o lugar que eu ocupo na organização da comunidade?

 Na primeira leitura mostra-se como todos podem colaborar na realização do projecto salvador de Deus. De uma forma directa (Eliseu) ou de uma forma indirecta (a mulher sunamita), todos têm um papel a desempenhar para que Deus se torne presente no mundo e interpele os homens.
Antes de mais, o texto sugere que o projecto de salvação que Deus tem para os homens e para o mundo envolve toda a gente e é uma responsabilidade que a todos compromete. Uns são chamados a estar mais na "linha da frente" e a desenvolver uma acção mais exclusiva e mais exposta; outros são chamados a desenvolver uma acção menos exclusiva e mais discreta, mas nem por isso menos importante. Mas uns e outros decidiram sentir a responsabilidade de colaborar com Deus. Estou consciente disso? Empenho-me verdadeiramente em descobrir o papel que Deus me confia no seu projecto e em cumpri-lo com generosidade?

A segunda leitura
recorda que o cristão é alguém que, pelo Baptismo, se identificou com Jesus. A partir daí, o cristão deve seguir Jesus no caminho do amor e do dom da vida e renunciar definitivamente ao pecado.
Em termos concretos, o que é que implica a nossa adesão a Cristo? Paulo responde: significa morrer para o pecado e viver para Deus. O que é que significa "pecar"? Significa fechar-se no próprio egoísmo e recusar Deus e os outros. "Pecar" é recusar a comunhão com Deus e ignorar conscientemente as suas proposta
s; é recusar fazer da vida um dom, um serviço, uma partilha de amor com os irmãos... Os homens do nosso tempo acham que falar de "pecado" não faz sentido e que o discurso sobre o pecado é um discurso antiquado, repressivo, alienante. No entanto, o "pecado" existe: é o egoísmo que gera injustiça e exploração; é o orgulho que gera conflito e divisão; é a vingança que gera violência e morte. O que se pede ao discípulo de Jesus é que renuncie a esta realidade e oriente a sua vida de acordo com outros critérios - os critérios e os valores de Jesus.


https://www.dehonianos.org/

sábado, 27 de junho de 2026

Acolher significa... viver pintado

 


Acolher significa... viver pintado

Diante das nossas DESCONFIANÇAS, de todos os INTERROGATÓRIOS que sempre fazemos antes de abrir as portas a alguém, somos convidados por Jesus a deixarmo-nos pintar pela vida do outro.
Para acolher incondicionalmente o outro
é necessário despir-se de todos os escuros e cinzentos
que fabricamos com a marca dos
PRÉ-CONCEITOS, dos julgamentos fáceis, da mania da superioridade...
Precisamos da máxima hospitalidade, na maior simplicidade!
A pessoa vale o que vale o seu coração;
cada pessoa vale pelo que dá. Cada um só tem o que dá!
A minha vida vale o que vale o meu amor pelos outros.
Muitas vezes enchemo-nos de coisas e sentimos o peso insustentável do vazio. Sentimos que temos coisas mas elas não falam, sentimos que não somos capazes de multiplicar a vida.
Jesus faz o elogio da hospitalidade.
se alguém der de beber,
nem que seja um copo de água fresca,
a um destes pequeninos... Não perderá a sua recompensa”.
Agrada-me este Deus concreto e palpável,
onde cada rosto é terra prometida,
lugar de acolhimento,
de dom e de entrega....
tudo aquilo que fazemos de bom,
de amor, tudo tem um eco e nós temos de acreditar nisso...
Eu acho que às vezes nós acreditamos pouco nos gestos de amor...
acreditamos mais nas coisas MATERIAIS,
acreditamos mais nos NÚMEROS que vemos,
do que acreditamos na força potenciadora do amor...
que é acolher a cor do outro em mim.
Ter a ousadia de viver pintado...

Padre João Torres