sábado, 24 de outubro de 2026

‘VENITE AD ME' COM FOCO NO KERYGMA




Sob o título “Venite ad Me”, o Dicastério para a Doutrina da Fé, depois de aprovado por Leão XIV, acaba de publicar uma Nota que convém ter em conta. Ela oferece uma reflexão específica e dá sugestões concretas para o anúncio do Evangelho. Não se trata de uma Nota doutrinária. Trata-se de Considerações sobre a transmissão da fé nestes tempos de grande fragmentação. Pretende estimular a reflexão eclesial e o empenho pastoral em torno da transmissão da fé, embora seja uma questão sempre em aberto para novas análises e desenvolvimentos.
‘Os capítulos I e II estabelecem suas bases teológicas, partindo do anúncio do amor do Pai manifestado na pessoa e nas obras de Jesus de Nazaré, para chegar aos seus principais contextos de transmissão na Igreja, ou seja, a família e a comunidade. O capítulo III aborda os desafios da mudança de época, cuja característica marcante é uma dificuldade sem precedentes em dar continuidade às formas tradicionais de transmissão da fé, à qual o capítulo IV responde apontando o coração pulsante dessa obra, ou seja, o anúncio do kerigma. O capítulo V apresenta diversas reflexões práticas sobre a transmissão da fé na vida das comunidades em seus vários aspetos, enquanto os capítulos VI e VII, respetivamente, aprofundam a relação entre fé e cultura, indicando algumas atenções pastorais específicas. O capítulo VIII, por fim, reúne alguns testemunhos concretos que mostram a transmissão da fé no contexto da vida quotidiana das pessoas’. Como não podia deixar de ser, a referência é Jesus, que “está sempre a caminho. Ele não espera. Não cria um santuário próprio nem uma escola. Ele viaja. Entra nas aldeias e nas cidades de seu povo e de seu tempo. Ele conversa com as pessoas simples, mas também com aqueles que ocupam cargos de poder público, religioso ou político. Por meio desses gestos e dessas palavras, Jesus leva a bom termo a revelação confiada ao povo de Israel” (n.º14). Usando uma linguagem próxima e familiar, ele conquista o coração dos simples ao mesmo tempo que desconcerta e inquieta as autoridades da época. E “não se limita apenas ao anúncio do amor incondicional de Deus. Ele dá testemunho concreto desse amor por meio de uma predileção especial por todos aqueles que já quase não esperam mais nada de ninguém: nem de seus parentes, nem de seus amigos, nem de seus compatriotas, nem de seus correligionários e talvez nem mesmo do Deus da Aliança dos Pais”.
Diante do cansaço e das fadigas do coração humano, Jesus apresenta-se como fonte de descanso, aproximando-se de cada pessoa na realidade concreta da sua vida, concedendo-lhe aquela verdadeira paz que só nele é possível encontrar: “Vinde a mim, todos os que estais cansados e carregados de fardos, e eu vos darei descanso” (cf. n.º1).
De facto, só em Cristo se encontrarão as respostas para os problemas e inquietações da humanidade. Como lemos na Constituição Gaudium et Spes, nenhuma lei humana pode assegurar a dignidade da pessoa e a liberdade do homem, como o Evangelho de Cristo. O Evangelho "anuncia e proclama a liberdade dos filhos de Deus, rejeita toda a servidão que, em última análise, provém do pecado, respeita escrupulosamente a dignidade da consciência e a sua livre decisão, adverte, sem desfalecimento, que todos os talentos humanos devem frutificar para o serviço de Deus e para o bem da humanidade e, por fim, confia cada um ao amor de todos” (GS41).
Há dias, por ocasião do 100.º Dia Mundial das Missões, os nossos Bispos, manifestando gratidão a todos quantos, pessoas e comunidades, ao longo destes cem anos assumiram com empenho, alegria e entusiasmo, a missão de evangelizar em fidelidade à pessoa e ao mandato de Cristo, afirmavam que, se o anuncio do Evangelho continua a ser uma dimensão essencial da Igreja, essa missão, hoje, não se coloca apenas como necessária em terras longínquas. “Hoje, a missão passa pelas nossas cidades, aldeias, escolas, universidades, famílias e lugares de trabalho. Passa por aqueles que se afastaram da fé, por gerações que já não receberam o anúncio cristão e também pelo encontro quotidiano com pessoas de diferentes culturas e tradições religiosas. Não se trata de olhar para esta realidade com medo. Trata-se de reconhecer nela um apelo. Portugal é também, hoje, terra de missão”. E acrescentava que a missão “não pode limitar-se a transmitir doutrina, normas ou competências religiosas: somos chamados a gerar na fé. Evangelizar é fazer acontecer Jesus na vida das pessoas. É permitir que alguém descubra que é amado por Deus. É acompanhar uma pessoa até que o Evangelho deixe de ser apenas uma mensagem exterior e se transforme em princípio de vida. É ajudar a formar comunidades onde Cristo possa ser encontrado, reconhecido e seguido. É gerar homens e mulheres novos, capazes de viver segundo a lógica das Bem-aventuranças e de levar ao mundo a paz, a justiça, a fraternidade e a esperança que nascem do Evangelho”.
Neste documento do Dicastério para a Doutrina da Fé que acaba de ser publicado, salienta-se a necessidade de “uma profunda renovação kerygmática da própria catequese”. O anúncio do kerygma deve “ser capaz de apresentar a boa nova do amor e da misericórdia de Deus de tal forma que aqueles que a recebem possam compreender efetivamente que é justamente a eles que esse amor e essa misericórdia se dirigem”.

D. Antonino Dias
Caminha, 22-10-2026.

sexta-feira, 23 de outubro de 2026

Um Homem novo para um mundo novo.



As circunstâncias mudam muito rapidamente e temos de nos ajustar a realidades cada vez mais desafiantes. Não considero a minha geração mais especial do que aquela que viu surgir a eletricidade, o telefone, o desenvolvimento da ciência e que viu o seu mundo transformado como que de repente vivesse num mundo novo. O que acho é que atualmente somos constantemente sujeitos a alterações sociais, politicas e económicas que nos obrigam a refletir e até a mudar de atitudes.

Durante uns tempos pensamos que tínhamos a liberdade como algo garantido. A democracia como bem protegido e a paz como um valor inalienável. Tudo parecia protegido e seguro! Mas não!

Precisamos de olhar para este novo mundo com vontade de o acompanhar mas também com a noção do que se lutou para chegar aqui. No meio da rapidez e destas convulsões dá-mos por nós a relativizar valores e pensamentos, e a ter de explicar a jovens e velhos que precisamos de ir mais fundo das questões e não ficar pelas letras gordas dos jornais.

Não achas que precisamos de nos transformar?

Eu confesso que tenho dificuldade em me adaptar a certos pensamentos, discursos e ações. Evoluímos muito, mas dou por mim a resistir a certas mudanças qual “Velho do Restelo” a olhar com desconfiança para a leviandade com que se fazem as coisas.

Emergem Homens novos, com discursos bélicos, a infligir o medo, e a maravilha do capitalismo.

Surgem novos atores políticos mas a “cheirar” a mofo a provocar o caos usando táticas antigas do “dividir para conquistar”.

No meio disto ficamos desnorteados, sem saber quem tem razão e em quem confiar.

Para os cristãos a nossa bússola mantem-se que é Cristo que nos impele a ser verdadeiramente Homens novos e a romper com o que nos vendem como sendo a norma válida e absoluta. Pessoas como o Papa Francisco ou o Papa Leão XIV recordam-nos quais devem ser as premissas de um Homem Novo e transformado e isso começa em cada um de nós, no discurso que usamos e nos gestos que cultivamos. As bem aventuranças parecem cada vez mais uma abstração impossível de atingir, uma utopia, mas se calhar, é por aí que deve começar a transformação.

Que nunca nos esqueçamos que nem tudo o que reluz é ouro e o essencial da mudança pode começar com uma pergunta.

E tu amiga, o que precisas de transformar?


 Raquel Rodrigues



quinta-feira, 22 de outubro de 2026

O luto de quem não quer perder

 


A vida é uma quase infinita sequência de perdas. Estamos condenados a perder quase tudo o que julgamos importante. O que é mesmo nosso, e que não perdemos nunca, é a nossa identidade. O que somos, apesar de tudo.

Posso negar que perdi, convencendo-me de que não perdi aquilo que já não tenho, mas que continuo a sentir como parte de mim. A verdade, porém, é que o perdi, embora continue a fazer parte de mim.

Posso indignar-me e tentar com violência reaver o que sinto que com injustiça me foi roubado. Nada consigo de volta a não ser perder as forças com que bato e grito. Preciso de força, muita, mas para encontrar em mim o sentido do caminho daqui para diante.

Posso tentar compreender o incompreensível, mas sem qualquer sucesso. Por mais que me esforce, jamais o meu entendimento descobrirá os porquês de tudo o que me acontece. Não é a razão que me levará para a frente.

Posso deixar-me cair e ficar, esgotado por tantas batalhas perdidas desta revolta profunda, mas também não será assim que terei de volta o que perdi e tanto desejo.

O passado é história e o futuro é mistério. Cada um de nós é uma espécie de ponte em movimento entre esses dois tempos.

O luto é um processo essencial e passa por aceitar que o passado é irrecuperável, por melhor ou pior que tenha sido, aceitando tanto o que recebemos como o que nos foi tirado.

A felicidade nasce das escolhas mais difíceis. Uma delas talvez seja decidir ser feliz apesar de todo o sofrimento passado, presente e o que ainda virá. Lutando todos os dias.

Quem não faz os seus lutos perde mais do que perdeu, porque, ao não aceitar as perdas como parte da sua história, arrisca-se a esquecer-se de quem é e a perder-se a si mesmo.

A fé, a esperança e o amor ensinam-nos a nunca desesperar, apesar de tudo.


 José Luís Nunes Martins



quarta-feira, 21 de outubro de 2026

O que acaba não tem fim






Falamos pouco do que acaba. É natural. É muito mais bonito e simples falar do que começa. É mais agradável rezar sobre o que se inicia, fazer planos de futuro e de novidade.

Mas a verdade é que a vida também nos constrói (e se constrói) com os seus fins. Com as partidas. Com o que se rompe sem ser anunciado. E faz sentido, talvez, refletir sobre a importância do que, em nós, vai terminando. Sobre o que deixa de nos servir, de fazer sentido; sobre o que nos encolhe ou obriga a caber em caixas não compatíveis com a nossa grandeza de alma. E de espírito.

Há, no que se encerra, uma mágoa associada. Uma tragédia pequena, mas forte, que nos assola sempre como se fosse a primeira vez. No entanto, há uma beleza no fim. No precipício. Quando algo termina, surge uma promessa de infinito; surge um fio esguio de esperança que teimamos em colocar ao peito, mesmo que seja, apenas, vestido e usado por nós.

Faz-me, também, sentido pensar sobre o avesso daquilo que acaba.

Se analisarmos bem, o que acaba não tem fim. Não acaba, realmente, uma vez que aconteceu. E o que acontece (seja breve ou prolongado) permanece sempre numa parte mais ou menos recôndita de nós.

O que acaba nunca termina porque deixa os ecos do que foi. Do que ensinou. Do que nos mostrou sobre nós. Do que já conhecíamos e do que passámos a conhecer. Do novo e do velho.

Talvez o fim traga inúmeros inícios premeditados.

No fundo, nada pode começar sem antes uma outra parte (anterior) ter terminado.

Assim, resta-nos aprender. Fazer o luto do que acaba. Sobra-nos, ainda, espaço e tempo para o silêncio do que não compreendemos e do tanto que queríamos que tivesse sido diferente.

Mas, a verdade é que não foi.

Quem sabe se, um dia, aquilo que parecia um fim definitivo não seria, simplesmente, uma paragem no caminho. Um abrandamento que depois nos levaria (ou levará?) a um lugar mais bonito e melhor.

No fim, encontraremos flores. Saibamos nós regá-las e (re)nascer com elas.


Marta Arrais

terça-feira, 20 de outubro de 2026

Há escolhas que fazemos. E escolhas que nos fazem.



“A vida é a soma das suas escolhas.”
Albert Camus


Há uma altura na nossa vida onde a encruzilhada se estreita.

Não há como fugir.

Tomar rumo urge como leão angustiado…

É HORA!

Gosto de pensar que a cada amanhecer Deus capacita-me para O escolher…

quer seja no centro de dia, no local de trabalho, na escola, na creche ou no seio da minha mãe.

O Pai unge-nos e quer-nos… mas, não se impõe!

Apenas nos chama pelo nome e ama-nos, profundamente,

desde o nascer do sol até as estrelas brilharem no céu.


Sei que levar Jesus a todos e todos a Jesus é a aposta certa para a vida.

O método é simples:

Cantar a glória e o poder do Senhor com tal entusiasmo,

que todos anseiem apaixonar-se pelo nosso Deus, que fez os céus e a terra.

O cântico revela-se na Fé com que as palavras da oração do Pai-Nosso saem da nossa boca…

revela-se na Esperança com que esboço um sorriso para quem sofre, pois vive longe de Deus…

revela-se na Caridade com que alimento a Paz num coração perturbado pela calúnia,

pela mentira e pela maldade que habita o mundo…


Hoje, a maldade ronda Jesus…

O Mestre não se deixa levar por palavras.

Maravilha cada um de nós com os Seus gestos.

Toma a moeda de tributo e rapidamente o denário representa a escolha que nos afasta Dele.


Ao olharmos demasiado para os bens materiais,

direcionamos o nosso olhar para longe do único Rosto que devemos adorar:

A face de Deus, O Cristo, O Pão Vivo que a cada Eucaristia nos fita.


Hoje… ao ajoelhares-te no momento da consagração, olha bem para a Tua escolha.

São as migalhas do Corpo d’O Cristo

que partilhamos com todos, todos, todos,

que nos fazem somar infinitas alegrias.


Põe-Te na fila! Não fujas… Jesus quer habitar em ti.

Escolhe saborea-Lo.


Liliana Dinis




segunda-feira, 19 de outubro de 2026

Desconfinados para a Missão


Desconfinados para a Missão
Há em cada ser humano, a tentação de se fechar em si,
nas suas preocupações e nas suas pequenas coisas
é muitas vezes uma opção fácil e cómoda.
«É necessário profanar as coisas que temos»,
desinvestindo-as da sacralidade simbólica com as tratamos.
Missionário é aquele que anuncia o Evangelho,
fazendo suas as palavras e o testemunho de Jesus;
mas é também aquele que, mesmo sem anúncio explícito,
conquista pequenos pedaços de vida,
palavras leves
e silêncios densos...
transformando-os em gestos concretos de solidariedade....
faz-se companheiro mudo de cada solidão,
refúgio e bálsamo para o abandono e a exclusão...
É aquele que está disposto a sair,
lançar-se em terras estranhas e inóspitas,
que abre novas veredas no deserto ou na selva;
na montanha ou na rua ou nos campos...
mas é também aquele que se dispõe a ficar,
convertendo-se em presença viva e atuante em cada dor humana
e em cada porão de sofrimento.
Aprendem a viver de novo...
A devolver a Deus o que é de Deus...
Sem esquecer devolver a César o que é de César...


Padre João Torres


domingo, 18 de outubro de 2026

A caminhar juntos na fé: Arrancou hoje o novo ano de Catequese na nossa Paróquia!

 


A Igreja Matriz de Arronches encheu-se hoje de alegria, sorrisos e muitas mochilas cheias de sonhos para celebrar 
o Início da Catequese, o Envio das nossas Catequistas e a tradicional Bênção das Mochilas. Foi um momento único de festa, onde confiámos a Deus o percurso escolar e espiritual dos nossos mais novos.


A educação na fé é um caminho que se faz em equipa. Por isso, deixamos um apelo muito especial a todas as famílias: a Catequese e a Missa Dominical andam de mãos dadas! 

Pais, os vossos filhos seguem os vossos passos. A vossa responsabilidade é fundamental: Sejam o exemplo: O primeiro e mais bonito testemunho de fé nasce dentro de casa.
Priorizem o Domingo: Levar os vossos filhos à catequese e, logo depois, participar em família na Eucaristia fortalece os laços e a comunidade.
Caminhem lado a lado: Incentivem, perguntem o que aprenderam e rezem juntos.

As nossas dedicadas catequistas receberam hoje a missão de guiar os vossos filhos, mas a vossa presença ativa é o motor que os fará crescer em valores e amor.

Desejamos a todas as crianças, adolescentes, catequistas e famílias um ano letivo e pastoral muito abençoado! Vamos a isso?





















A DEUS O QUE É DE DEUS

 

https://www.youtube.com/watch?v=EeimQLlJEuQ&list=PLAqKRngqwuSfPdOPEvu7KzjdvMvB1w33f&index=144

Quem é que preside à história do mundo? É Deus, ou são esses pequenos “césares” que se julgam no direito de impor aos seus irmãos os seus projetos pessoais e os seus sonhos megalómanos? As leituras que a liturgia do 29º Domingo do Tempo Comum apresenta recordam-nos que Deus é o único Senhor do Universo. É n’Ele que temos de colocar a nossa esperança; é a Ele que devemos confiar a nossa vida; é para Ele que devemos caminhar; é a Sua vontade que devemos abraçar.

Na primeira leitura um profeta da época do Exílio anuncia aos habitantes de Judá, exilados na Babilónia, que está a chegar o dia em que serão libertados do cativeiro e poderão regressar a Jerusalém. Ciro, rei dos persas, será o “Ungido de Deus” para concretizar a libertação anunciada. É Javé, o Senhor do universo, que preside à história dos homens; mas Deus concretiza os seus planos através de pessoas que escolhe e que envia para atuar em Seu nome no mundo e na história.
A intervenção de Deus no mundo e na história dos homens não se processa, habitualmente, através de gestos espetaculares, de fenómenos extraordinários caídos do céu, ou de manifestações que nos deixam espantados, temerosos e sem fôlego… Deus não é um exibicionista que gosta de recorrer a passes mágicos para nos impressionar. Em geral, Ele atua no mundo com discrição e recato, através de pessoas – muitas vezes pessoas limitadas, pecadoras, “normais” – que são chamadas a ser, no meio dos seus irmãos, sinais vivos de Deus, testemunhas da bondade, do amor, da ternura e da misericórdia de Deus. Estaremos também nós envolvidos nesta história de chamamento e de envio? Deus contará connosco – apesar das nossas fragilidades e incongruências – para, através de nós, fazer nascer um mundo mais justo, mais humano e mais feliz? Estamos disponíveis para acolher o chamamento de Deus e para abraçar a missão que Ele entender confiar-nos?

No Evangelho Jesus é questionado pelos discípulos dos fariseus e pelos partidários de Herodes Antipas sobre o pagamento do imposto devido ao imperador de Roma. Jesus aproveita para recordar-lhes que, bem mais do que “devolver a César o que pertence a César”, é importante “devolver a Deus aquilo que pertence a Deus”. Para Jesus, Deus tem de ser a nossa prioridade; os interesses de Deus, os projetos de Deus, as indicações de Deus têm de estar na primeira linha das nossas preocupações.
Jesus deixou claro que Deus tem de ser a nossa referência fundamental e deve estar em primeiro lugar nas nossas escolhas, nos nossos interesses e nas nossas preocupações. Isso não significa, no entanto, que vivamos de olhos postos no céu, alheados do mundo e que negligenciemos as nossas responsabilidades sociais e comunitárias. Fazemos parte de um “corpo social”; partilhamos os sonhos, os anseios e as aspirações dos nossos irmãos e irmãs; somos solidários com os outros homens e mulheres que são nossos companheiros na viagem da vida. Esse “compromisso social” deve traduzir-se no cumprimento dos nossos deveres cívicos, no acatamento das leis fiscais vigentes, na recusa em favorecer esquemas de corrupção e de suborno, no respeito pelas leis justas estabelecidas pelos competentes órgãos de soberania, na promoção do bem comum, na participação ativa na construção de uma sociedade mais justa, mais solidária, mais fraterna, mais humana. Cumprimos os nossos compromissos enquanto cidadãos e membros responsáveis da sociedade?

Na segunda leitura o apóstolo Paulo traz-nos o exemplo de uma comunidade cristã que colocou Deus no centro do seu caminho e que, apesar das dificuldades, se comprometeu de forma corajosa com os valores e os esquemas de Deus. Eleita por Deus para ser Sua testemunha no mundo, vive ancorada numa fé ativa, numa caridade operante e numa esperança inabalável.
Depois de muitos anos de catequese e de compromisso com Jesus, como vivemos o nosso compromisso cristão: com um entusiasmo sempre renovado e sempre coerente, ou com o desleixo e a indiferença de quem está instalado numa fé morna e pouco exigente? A nossa fé é apenas uma questão de palavras, de fórmulas, de dogmas, de doutrina, ou expressa-se num compromisso efetivo com a transformação da nossa vida, da nossa família, da nossa comunidade, do mundo onde caminhamos? O nosso amor traduz-se em atitudes concretas de partilha, de doação, de solidariedade, de serviço, de luta contra tudo o que oprime e fere os nossos irmãos mais pequeninos? A nossa esperança mantém-nos serenos e confiantes, de olhos postos nesse futuro novo que Deus nos reserva, apesar das vicissitudes, das dificuldades, das incompreensões que dia a dia temos de enfrentar?

https://www.dehonianos.org/

sábado, 17 de outubro de 2026

Cem Anos de Comunhão

 Cem Anos de Comunhão

                                         Foto: Jornal Reconquista.

Há cem anos, o Papa Pio XI decidia criar o Dia Mundial das Missões com dois grandes propósitos: promover a formação e o envio de missionários e valorizar a conscientização e mobilização missionária de toda a Igreja. Em cem anos, muita coisa aconteceu e muitas foram as mudanças na realidade civilizacional e eclesial, mas este propósito fundamental continua válido, agora situando o Dia Mundial das Missões em outubro e dinamizando todo este mês em função desta corresponsabilização missionária. Instrumentos importantes para esta mobilização têm sido as mensagens dos Papas para este dia, assiduamente publicadas desde 1963.

Estas mensagens papais são bem a expressão de como, ao longo de mais de sessenta anos, o pensamento da Igreja relativamente à Missão sempre considerou a importância da comunhão, das relações de diálogo e encontro entre povos e sensibilidades, valorizando a escuta como lugar incontornável da missão de servir, anunciar o Evangelho, orar e santificar. A mensagem do Papa Leão XIV para o Dia das Missões deste ano debruça-se precisamente sobre isso: a unidade supõe a diversidade, já que a diversidade é o ambiente próprio da unidade: assim é com Deus, tal como Se nos revelou em Jesus, assim é connosco, se quisermos viver à maneira de Jesus, “enxertados” na cepa vivificante que Ele é.

Quando os cristãos se entendem assim, unidos na diversidade e alicerçados num Deus de Amor que sai de si para se encontrar com todos e a todos acolher, isso tem imensas consequências práticas no modo como estão presentes no mundo e vivem a própria missão. Isso é especialmente notório na realidade contemporânea em que nos situamos: se nos processos de transformação civilizacional que estamos a viver descobrimos muitas e fascinantes novas realidades, também é verdade que nos preocupam as tendências de medo e fechamento que parecem crescer nas sociedades ocidentais. O medo é o ambiente propício para se criarem narrativas simplistas que procuram exorcizar as ameaças sentidas, identificando culpados fáceis (normalmente a partir de critérios redutores e, por isso, distorcidos), e propondo, por vezes de modo muito rígido e até agressivo, medidas de exclusão de uns, para favorecer outros, de diabolização de grupos minoritários, em nome da identidade a preservar ou da segurança a salvaguardar. Um tal ambiente pode facilmente ser aproveitado por grupos populistas, ideológicos e, com frequência, com agendas obscuras que buscam poder político ou ganhos económicos.

Num tal contexto, a Igreja é desafiada a manter-se fiel a si própria e à sua missão, mesmo sabendo que tal fidelidade poderá encontrar firmes opositores fora dela e até dentro dela. Esta fidelidade à missão sempre esteve ligada à doutrina social da Igreja e ao modo como esta doutrina se articula, incontornavelmente, com a oração, com o anúncio e com as práticas pastorais, partindo do olhar lúcido e crítico do Evangelho, que promove as pessoas, a vida, os valores fundamentais que permitem que o Reino de Deus cresça.

No mundo contemporâneo, na linha do que ficou dito atrás, um dos fenómenos preocupantes é o crescimento das narrativas xenófobas, que veem nos migrantes focos de perigo e na sua rejeição um caminho de autopreservação. Os complexos mecanismos sociais, culturais e políticos destas tendências põem as pessoas migrantes na rota da violência e da exclusão: todos os indicadores estatísticos apontam para o crescimento da intolerância e da violência, em muitas latitudes, particularmente contra as minorias e os migrantes. Não deixa de ser irónico que tal tendência esteja a crescer (perigosamente!), nas sociedades ocidentais, onde, nunca como hoje, a população autóctone envelheceu e a mão-de-obra estrangeira se tornou indispensável para a sustentabilidade da economia, dos sistemas de segurança social e do crescimento e vitalidade do tecido social.

Para além das análises estritamente técnicas dos fenómenos migratórios e dos benefícios que a presença migrante traz para as sociedades de acolhimento, é importante que, na Igreja, não se perca nunca de vista os valores fundamentais de comunhão, unidade e universalidade que, ao longo dos séculos, nos orientaram (ainda que, como sabemos, com sombras e maus períodos…). A unidade, dom de Deus, que acolhemos na Igreja, onde todos são irmãos e irmãs, independentemente de origens, culturas ou línguas, é a mesma unidade universal que propomos ao mundo: propomo-la pelo testemunho de fraternidade universal que vivemos e propomo-la no anúncio claro de Jesus e do Seu Evangelho. Esta proposta é crítica e lúcida, afirmando o valor da diversidade e do respeito por todos como base para a justiça e para a viabilidade das comunidades, sejam elas eclesiais ou de outra natureza, alargando-se até ao âmbito nacional e global. A defesa da vida, desde a conceção à morte natural, implica a defesa de todas as vidas, em todos os registos – biológico, cultural, espiritual… pessoal, mas também social; individual, mas também coletivo. Todas as vidas: as europeias ou americanas, mas também as africanas ou asiáticas, as brancas ou as negras…

Os bem conhecidos quatro verbos estruturantes da proposta cristã para a gestão das relações com a população migrante são realmente importantes, não apenas para as questões da imigração, mas também, no fundo, para toda o entendimento da construção de uma família humana minimamente compatível com os valores do Evangelho. Assim, os verbos “acolher”, “proteger”, “promover” e “integrar” mantêm-se referenciais de avaliação para todas as propostas de carácter político, económico ou cultural: olhando cada proposta concreta, política, económica, cultural, e também pastoral, no que se refere às relações com os outros, e particularmente com os mais frágeis, urge sempre perguntar: estamos a acolher, proteger, promover e integrar?

Não falamos de missão de modo abstrato, com belos discursos retóricos e pouco relacionados com as questões reais das pessoas reais. Para nós, cristãos, a missão é sempre encarnada e a nossa intervenção faz-se sempre com base na atenção concreta às pessoas concretas, num pressuposto de empatia, solidariedade e compromisso com todos, especialmente com os mais frágeis. E isso em nome de Deus e do Evangelho que em Jesus Cristo nos comunicou e nos encarregou de anunciar, também com palavras… mas sobretudo com obras, olhar crítico, intervenção assertiva, posicionamentos coerentes com o Amor, de modo sereno e firme.


Que bom se este mês das missões nos ajudar a crescer nisto!



in diocese-braga.pt


D. Pedro Fernandes, Bispo da Diocese de Portalegre-Castelo Branco




Fa
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Papa apela à união em torno da «missão evangelizadora» da Igreja

Leão XIV defendeu que a evangelização concretiza-se «quando as diferenças culturais, espirituais e litúrgicas se expressam plena e harmoniosamente na mesma fé»



O Papa apelou à união em torno da missão evangelizadora da Igreja e incentivou a reforçar o “sentido de comunhão missionária eclesial”, numa mensagem em vídeo divulgada hoje.

“Ao admirar os missionários e as missionárias, dirijo um apelo especial a toda a Igreja: que todos nos unamos a eles na missão evangelizadora através do testemunho de vida em Cristo, da oração e do contributo para as missões”, afirmou Leão XIV, na intervenção publicada pela Sala de Imprensa da Santa Sé.

O vídeo foi lançado a propósito do centenário do Dia Mundial das Missões, que se celebra a 18 de outubro, e para o qual o Papa escreveu uma mensagem com o tema “Um em cristo, unidos na missão”.

“Se a unidade é a condição da missão, o amor é a sua essência. A Boa Nova que somos enviados a anunciar ao mundo não é um ideal abstrato: é o Evangelho do amor fiel de Deus, encarnado no rosto e na vida de Jesus Cristo”, expressou.

O pontífice, que foi missionário no Perú, recorda que, “ao longo dos séculos, multidões de cristãos — mártires, confessores, missionários — deram a vida para dar a conhecer este amor divino ao mundo”.

“Assim, a missão evangelizadora da Igreja continua sob a orientação do Espírito Santo, Espírito de amor, até ao fim dos tempos”, assinalou.

Na mensagem, o Papa agradece “especialmente aos missionários e missionárias ad gentes de hoje: pessoas que, tal como São Francisco Xavier, deixaram a sua terra, a sua família e todas as suas certezas para anunciar o Evangelho, levando Cristo e o seu amor a lugares muitas vezes difíceis, pobres, marcados por conflitos ou culturalmente distantes”.

“Continuam a doar-se com alegria, apesar das adversidades e das limitações humanas, porque sabem que o próprio Cristo, com o seu Evangelho, é a maior riqueza a partilhar”, realçou.

Leão XIV frisou que o “mundo continua a precisar destes corajosos testemunhos de Cristo, e as comunidades eclesiais continuam a precisar de novas vocações missionárias”, que todos devem “sempre ter no coração e pelas quais é necessário rezar continuamente”.

No vídeo, o Papa destacou que “ser cristão não é, antes de mais, um conjunto de práticas ou ideias: é uma vida em união com Cristo” e apontou que “renovar e manter viva a unidade espiritual e fraterna entre os seus membros” é “a primeira responsabilidade missionária da Igreja”.


Em muitas situações, assistimos a conflitos, polarizações, incompreensões e desconfiança mútua. Quando isto acontece também nas nossas comunidades, enfraquece o nosso testemunho. A missão evangelizadora, que Cristo confiou aos discípulos, exige, antes de mais nada, corações reconciliados e ansiosos de comunhão”, disse.

Nesta perspetiva, Leão XIV ressaltou que seria “importante intensificar o empenho ecuménico com todas as Igrejas cristãs, aproveitando também as oportunidades suscitadas pela celebração comum do 1700.º aniversário do Concílio de Niceia”.

Dirigindo-se à União Missionária Pontifícia, fundada em 1916, o Papa reconheceu o empenho em “animar e formar o espírito missionário de sacerdotes, pessoas consagradas e fiéis leigos, promovendo a união de todas as forças evangelizadoras”.

“Nenhum batizado, de facto, é alheio ou indiferente à missão: todos, cada um segundo a sua vocação e condição de vida, participam na grande obra que Cristo confia à sua Igreja. Como o Papa Francisco recordou várias vezes, o anúncio do Evangelho é sempre uma ação coral, comunitária e sinodal”, enfatizou.


Desta forma, o Papa indicou que “unidos na missão significa guardar e alimentar a espiritualidade de comunhão e de colaboração missionária”.

Segundo o pontífice, a “unidade missionária, obviamente, não deve ser entendida como uniformidade, mas como convergência dos diversos carismas para o mesmo fim: tornar visível o amor de Cristo e convidar todos ao encontro com Ele”.


A evangelização concretiza-se quando as comunidades locais colaboram entre si e quando as diferenças culturais, espirituais e litúrgicas se expressam plena e harmoniosamente na mesma fé”, referiu.

“Encorajo, portanto, as instituições e as realidades eclesiais a reforçarem o sentido de comunhão missionária eclesial e a desenvolverem, com criatividade, formas concretas de colaboração entre si, para e na missão”, exortou.

Na mensagem, o Papa faz também agradecimentos às “Obras Missionárias Pontifícias pelo serviço prestado à cooperação missionária”, que teve a oportunidade de “experimentar com gratidão” durante o seu ministério no Peru.

No final do vídeo, o Papa apela todos a contribuir, “cada um segundo a sua vocação e os dons recebidos, para a grande missão evangelizadora, que é sempre obra do amor”.

As vossas orações e o vosso apoio concreto, especialmente por ocasião do Dia Mundial das Missões, serão de grande ajuda para levar o Evangelho do amor de Deus a todos, sobretudo aos mais pobres e necessitados. Cada oferta, mesmo a mais pequena, torna-se um ato significativo de comunhão missionária”, declarou.

LJ ( Eclésia)


sexta-feira, 16 de outubro de 2026

UMA CORDA TRIPLA NÃO REBENTA FACILMENTE

Querem saber quem cacarejou tal coisa? Foi um hebreu reguila do tempo dos Ptolemeus. Viveu antes de ontem, no século III antes de Cristo, na Palestina, colónia helenista! Se apenas parece ou era mesmo um pessimista de gema, não sei, mas o que ressalta dos seus escritos, em estilo um pouco assim-assim, é que era uma pessoa profundamente atenta, crítica, lúcida, realista, inspirada, com ares de genial! Desanca no absurdo da condição humana, sobretudo quando a humanidade aplaude e abraça seguranças ilusórias! O seu dito: “uma corda tripla não rebenta facilmente” (Ecl 4,12) arremessou comigo até Roma para espreitar alguma coisa do que ali presentemente acontece, sim, presentemente. Quanto ao passado, em qualquer pedra que por lá se levante com um mero tropeção, logo se podem ler muitas histórias da História! Nem todas felizes!...
Os chefes das Igrejas Orientais, os presidentes de todas as Conferências Episcopais, alguns casais e diversos especialistas foram convocados pelo Papa Leão XIV para, de 7 a 10 de outubro, celebrarem o décimo aniversário da Exortação Apostólica Amoris Laetitia.
No quarto dia desse encontro, debruçaram-se, sobretudo, sobre a necessidade de “escutar atentamente a experiência dos jovens casais: como contam aquilo que estão a aprender juntos ou aquilo que os impede de aprender e crescer; os recursos que descobrem no sacramento do matrimónio; o que esperam das comunidades cristãs e como compreendem a própria responsabilidade missionária.” Acentuou-se a importância da pastoral da continuidade para que o sacramento não seja apenas celebrado mas também vivido e cultivado ao longo da vida. Casar-se significa doar-se reciprocamente, construir um projeto comum, aprender a amar-se no concreto da vida, com suas alegrias e dificuldades. Mais do que uma preparação concentrada sobretudo na celebração das núpcias, importa uma pastoral que ajude os esposos, antes, durante e depois do matrimónio. Os primeiros anos, o nascimento dos filhos, as responsabilidades profissionais, as dificuldades económicas, a doença e as mudanças pessoais exigem capacidade de diálogo, paciência, perdão e uma renovada vontade de permanecer unidos. O casal precisa de “oferecer a si mesmo um tempo de qualidade para conversar, revisitar a própria história, reconhecer pontos fortes e fragilidades, rezar e discernir”.
Construir um “nós”, sem anular a identidade do “eu” e do “tu”, não nasce automaticamente “do facto de duas pessoas se amarem, nem é a soma de dois indivíduos, nem uma fusão, mas o encontro de duas culturas familiares que dão origem a uma terceira, nova e irrepetível”. Isso exige tempo de qualidade, escuta recíproca, partilha da fé e capacidade de enfrentar os conflitos sem permitir que enfraqueçam o vínculo, mas transformem a sua união num testemunho concreto de fidelidade, perdão e esperança. O matrimónio cristão “não é apenas uma história de duas pessoas; é também uma vocação eclesial, chamada a crescer e a desenvolver-se dentro de uma comunidade”. São “duas liberdades que, sustentadas pela fidelidade de Jesus Cristo, fazem do acolhimento recíproco o sinal visível de um Amor maior”. Como sabemos, “a unidade não exige a supressão da diferença; pertencer não significa possuir; cuidar não significa dominar; e a fidelidade permite atravessar as transformações sem abandonar a aliança.”
O matrimónio entre batizados não é apenas um contrato entre um homem e uma mulher. É uma realidade que não pertence, apenas, ao plano natural, mas adquire uma nova dimensão, a dimensão da graça, a ser assumida pelo homem novo à imagem de Jesus Cristo. É uma aliança sagrada, é um sacramento, onde Jesus Cristo é o centro, a base e o elo de ligação do casal. É ele que lhe dá sentido e concede a graça indispensável para serem vividos em conformidade com a sua vontade. Isto significa que é um sinal visível e eficaz da graça invisível de Deus. Cristo não é uma mera testemunha do casamento. Ele passa a habitar na união do casal. O casal não conta apenas com o amor humano, mas com a graça divina para superar os desafios, perdoar e manter-se fiel. A Sagrada Escritura compara a união entre marido e mulher à união entre Cristo e a Igreja. O amor do casal deve espelhar o amor de Jesus: um amor que é total, fiel, indissolúvel e fecundo, um amor disposto a dar a vida um pelo outro. Cristo torna-se o modelo de entrega e paciência para o marido e para a esposa. Essa realidade tripla não rebenta facilmente, pois a união do casal não confia apenas na força humana de ambos. Com Cristo, a união ganha uma força divina, tornando o matrimónio muito mais resistente às crises e ao desgaste do tempo. Ajuda-os a caminhar como discípulos de Cristo, avançando sempre mais na própria perfeição e na mútua santificação.
Como é agradável ver os casais envolvidos nas comunidades e a participarem, juntos, e com os filhos, na liturgia, sobretudo na santa Missa. Reunir em comunidade, ouvir a Palavra, participar e trocar entre si aquele ósculo da paz que a liturgia convida a fazer, quão benéfico é para lembrar o amor de Cristo pela sua Igreja, aprendendo a ir em frente com alegria e esperança, testemunhando um ao outro e aos filhos a fé que os anima, aperfeiçoando-se, dando firmeza à sua unidade indissolúvel, perdoando, desculpando, ultrapassando obstáculos, acolhendo e integrando as diferenças que sempre enriquecem.
‘Uma corda tripla não rebenta facilmente’! Esta certeza deve ser a dos esposos. Mesmo que a sua formação teime em dizer-lhes que sim, os esposos nunca estão sozinhos no combate contra momentos adversos ou contra a tentação de seguranças ilusórias. Se esticarem os olhos e olharem bem, com eles está e atua Jesus como outrora nas bodas de Caná, proporcionando-lhes que a festa das bodas continue na alegria e entusiasmo da primeira hora.

D. Antonino Dias
Caminha, 16-10-2026

A caridade não é aquilo que fazemos



A caridade não é aquilo que fazemos. É aquilo que somos.

Dá para fazer muito pelos outros e continuar longe deles.
Podemos preencher o formulário, entregar o cabaz, marcar a consulta, cumprir o horário, fechar o relatório. Tudo isso é preciso, e quem o faz merece o nosso respeito. Mas há quem saia de um balcão com o papel carimbado e o coração na mesma. E há quem saia sem papel nenhum, só com a sensação de que alguém o viu.
Fazer bem não é o mesmo que estar presente.
A caridade cristã pede mais do que respostas. Pede proximidade, escuta, tempo. Pede que o outro deixe de ser um caso e volte a ser um rosto.
Costumamos dizer, com orgulho e com razão: «Temos um Centro Social. Temos uma Conferência Vicentina. Temos a santa Casa da Misericórdia. Temos uma equipa socio-caritativa.» É bom que existam. Mas antes de todas as respostas há uma pergunta mais funda: que pessoas somos nós quando encontramos alguém que sofre?
O jesuíta Paul Valadier avisa-nos de um risco silencioso. Não critica as obras sociais da Igreja, nem a urgência de cuidar dos pobres. Teme que a caridade, de tanto se organizar, acabe a gerir a pobreza em vez de a combater. Que passemos a administrar, com toda a competência, a permanência de alguém no sítio de onde devia sair.
Uma instituição pode funcionar na perfeição e já ter perdido a alma.
E acontece sem darmos por isso. A pessoa vai desaparecendo atrás do processo.
O pobre passa a ser um processo.
O idoso passa a ser uma vaga.
O doente passa a ser um diagnóstico.
O preso passa a ser um número.
A família passa a ser um agregado.
O toxicodependente passa a ser um caso.
O alcoólico passa a ser um problema.
Quem vive sozinho passa a ser uma estatística.
Precisamos de nomes, de critérios, de organização. Mas chega um momento em que é preciso parar e perguntar: onde está a pessoa?
Jesus nunca encontrou categorias. Encontrou pessoas. Ele não começava por perguntar o que tinham feito. Perguntava o que lhes estava a acontecer. É uma diferença enorme. É a diferença entre julgar e acolher.
Uma coisa é olhar para alguém e dizer «é um pobre», «é um preso», «é um problema». Outra, bem diferente, é reconhecer: «É alguém. Tem nome. Tem história. Tem feridas. Tem uma dignidade que ninguém lhe pode tirar.»
É aqui que a caridade começa a sério. Não quando classificamos melhor, mas quando voltamos a ver. Não quando gerimos melhor a pobreza, mas quando encontramos o rosto que ela esconde.
E fica a pergunta, só para si: quando foi a última vez que alguém lhe soube o nome sem precisar de consultar a ficha?
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Padre João Torres

quinta-feira, 15 de outubro de 2026

UM DOMINGO MUITO ESPECIAL NA NOSSA PARÓQUIA

 


No próximo domingo, 18 de outubro, a nossa comunidade vai viver um momento de grande alegria e comunhão. Às 12h00, na Igreja Matriz de Arronches, celebramos a Eucaristia que assinala o Início do Ano Catequético!

Será uma celebração repleta de significado, onde iremos vivenciar

:Festa do Acolhimento: Damos as boas-vindas aos mais pequeninos e a todos os que iniciam este caminho de fé.

Envio dos Catequistas: O momento em que a comunidade envia e agradece a missão daqueles que vão guiar as nossas crianças e jovens.

Bênção das Mochilas: Convidamos todas as crianças e jovens a trazerem as suas mochilas escolares para receberem uma bênção especial para este ano letivo.

Contamos com a presença de todos os catequizandos, famílias, catequistas e de toda a comunidade paroquial. 

Vamos começar este ano com o coração cheio de esperança!

quarta-feira, 14 de outubro de 2026

Ver-me com os olhos de Deus




 

Vale a pena olhar para mim próprio com os olhos de Deus. Com justiça e amor. Aceitando-me. Acolhendo os meus erros, os meus arrependimentos e as minhas fragilidades. Procurando com ternura as razões daquelas falhas que eu próprio não consigo (ou não quero) assumir, enfrentar e tentar resolver.


Deus vê para lá do que os olhos conseguem saber. Abre o Seu coração ao meu coração e procura o meu abraço tanto quanto eu procuro o Seu.

O perdão é uma escolha de amor. Quem perdoa não deixa de sentir dor. Não se deve perdoar de acordo com a medida da falta, nem com as emoções, mas sim de acordo com o amor que se tem e se quer ter por quem se perdoa.

É duro perdoar, mas é ainda pior não o fazer. Há quem dê abrigo dentro de si a mágoas de que se poderia livrar se perdoasse a quem é responsável por elas… e, muitas vezes, é a própria pessoa que não é capaz de se perdoar.

Importa perguntar a mim mesmo o que quero de Deus. Desejo os benefícios que Ele me pode dar para não sofrer e ter aquilo com que sonho (ainda que não mereça nem uma coisa nem outra!)? Ou quero a Sua presença e a força para continuar a viver e amar com vontade, sabedoria e perseverança, apesar de tudo o que me dói, de tudo o que me falta e de todos os sonhos que não consigo alcançar?

E o que quererá Deus de mim? Será que consigo escutá-lO como Ele me escuta?


José Luís Nunes Martins

terça-feira, 13 de outubro de 2026

Há convites que nunca chegam




“Adoro o convite feito pelo olhar. Que não precisa dizer nada. Só sentir.”
Aline Goulart


Quando recebemos um convite para uma festa temos duas reações:

adoramos, porque amamos quem nos fez o convite;

detestamos, porque vamos gastar dinheiro.


Por vezes, surgem aquelas evasivas questões:

Porque será que fui convidado?

O que querem que eu leve para a festa?

Nem sei o que vestir?


E às vezes… quando o convite não chega…

Ficamos indignados e muito tristes.



No nosso relacionamento com Deus, o convite não chega pelas mãos divinas.

O Pai fica amorosamente a preparar o Banquete.

Todos os pormenores da grande Festa passam pelos Seus olhos

e são delicadamente tecidos no tear do Seu coração.



O Senhor que nos dá a Vida oferece a importante missão da entrega do Convite a mim e a ti.

Somos nós, a Igreja d’O Cristo,

quem chama cada homem e cada mulher ao Banquete, que é a Eucaristia.



Eis a pergunta que hoje deve crescer no nosso coração:

Como entrego eu o convite do Senhor?

Com um sorriso no rosto.

Com Fé, Esperança e Caridade.

Com Amor verdadeiro!



E quem tem de receber o convite?

«Todos! Todos! Todos!»

Com persistência e sem julgamentos.

Com aquele olhar repleto de Amor…

Porque O único que pode dizer quem é ou não é digno, é o Rei.



A mim e a ti só nos compete levar Jesus a todos e todos a Jesus,

na certeza de que nunca nada nos faltará,

porque sabemos viver na fartura e na fome!

Afinal… é O próprio Deus quem nos prepara o Banquete.


Liliana Dinis

 

segunda-feira, 12 de outubro de 2026

Que coisas melhores temos que fazer hoje do que ser felizes?

 


Que coisas melhores temos que fazer hoje do que ser felizes?
O Deus que Jesus veio revelar é um rei que convida para um casamento. Ele não força, não obriga, não intimida. Ele propõe um elegante banquete, que há muito sonhamos.
Deus é um espetáculo de luz e de vida e pede-me, para participar da Sua vida, para compartilhar da Sua alegria. É um Deus feliz que me quer feliz.
Mas surpreendentemente, os convidados rejeitam o convite para participar no banquete... Na prática Deus recebe um solene e partilhado: não, obrigado.
Temos coisas para fazer. Coisas urgentes, necessárias e importantes.
Mas sempre e somente coisas. Matéria, compromisso, trabalho, suor.
Aqueles que recusam não são maus. Eles estão ocupados demais para serem felizes. Eles iludem-se pensando que encontrarão a felicidade depois de ficarem sem coisas para fazer. Como se a felicidade pudesse esperar. Como se dependesse das coisas.
No entanto, não é preciso muito. Aceite o convite, vá.
Todo o Evangelho consiste num vem e vê.
Que melhor coisa temos para fazer hoje do que ser felizes?
Damos desculpas. Problemas, dores, às vezes até atribuídas a Deus, obstáculos.
De facto, o que de mais precioso se pode oferecer a alguém, neste mundo apressado, é o TEMPO. É o tempo que gastamos com os outros, que tornam os outros tão importantes para nós!
E se aqueles que deveriam participar não estiverem lá, não importa. Deus convida aqueles que ninguém convida... convidados não têm nome, são todos, são todos os nomes.
Mas eu quero lá estar. Quero como São Paulo, experimentar que tudo posso naquele que me dá força. Quero viver esse tempo de graça.
Olhem!
Que coisas melhores temos que fazer hoje do que ser felizes?

Padre João Torres

domingo, 11 de outubro de 2026

«felizes os convidados para a Ceia do Senhor».

 

https://www.youtube.com/watch?v=NGU9-id-u6w&list=PLAqKRngqwuSfPdOPEvu7KzjdvMvB1w33f&index=145


Qual o projeto de Deus para nós? Qual é a meta final da nossa existência, o nosso horizonte último? Para onde é que Deus nos está a conduzir? As leituras que a liturgia do 28º Domingo do Tempo Comum nos oferece recorrem à imagem de um “banquete” para descrever esse mundo de amor, de alegria, de felicidade e de vida sem fim que Deus quer oferecer a todos os seus filhos. “O banquete está preparado; vinde sentar-vos comigo à mesa” – diz-nos Deus.

Na primeira leitura, o profeta Isaías anuncia uma festa esplêndida que, um dia, Deus vai oferecer a todos os seus filhos, sem exceção. Homens e mulheres de todas as raças formarão uma única família, reunida à mesa de Deus, numa fraternidade sem sombras nem fraturas. Sobre a mesa familiar estarão “manjares suculentos”, “comida de boa gordura”, “vinhos deliciosos e puríssimos”, vida bela e abundante. Será o início de uma nova era de paz e de felicidade, de um tempo em que a humanidade estará livre de tudo aquilo que a fere e a faz sofrer. O poema em que Isaías canta estas coisas eternas é um dos mais belos cânticos de esperança que a humanidade já escutou.
No primeiro instante da nossa existência, Deus fez-nos chegar o seu convite para nos sentarmos à Sua mesa, à mesa desse “banquete” fraterno que Ele preparou para “todos os povos”. No dia do nosso batismo nós aceitamos o convite de Deus e dispusemo-nos a integrar a família de Deus. Assumimos um compromisso com Deus, decidimos dizer “não” ao egoísmo e à autossuficiência, dispusemo-nos a abraçar os valores de Deus. Juntamente com todos os outros homens e mulheres que aceitaram o convite de Deus para se sentarem à mesa do “banquete”, comprometemo-nos a construir, já aqui, uma nova terra de justiça, de solidariedade, de partilha, de amor. A nossa vida tem sido coerente com essa opção?

No Evangelho Jesus compara o reino de Deus a uma festa que um rei preparou para celebrar o casamento do seu filho. Houve convidados que se recusaram a comparecer; mas a festa não foi cancelada: o rei abriu as portas da sala do banquete a todo o tipo de pessoas – gente “improvável”, encontrada nas “encruzilhadas dos caminhos” – que tiveram a oportunidade de se sentar à mesa do rei e de participar numa festa inolvidável. No banquete do reino de Deus haverá lugar para todos os homens e mulheres que estiverem dispostos a acolher o convite de Deus.
Para onde caminhamos? Qual o projeto de Deus para nós? Qual é a meta final da nossa existência? A nossa vida resumir-se-á a aproveitar uns breves instantes de felicidade, antes que a morte ponha fim a essa experiência efémera que é a nossa caminhada pela terra? Jesus conhecia bem Deus e estava seguro de que Ele tem um projeto magnífico para os seus filhos. Para nos descrever o projeto que Deus tem para nós, Jesus utiliza uma imagem que fazia sonhar os seus contemporâneos: a de uma festa de casamento. Segundo Jesus, Deus quer reunir todos os seus filhos numa festa eterna, que será como um grandioso banquete nupcial; aí, como em qualquer festa de casamento, haverá alegria transbordante, comida abundante para saciar a nossa fome, vinhos finíssimos para alegrar o nosso coração, fraternidade sem fronteiras, experiência plena de amor, de comunhão, de encontro. O que é que pensamos disto? Trata-se de um “programa” capaz de nos entusiasmar? Vemo-nos a aceitar o convite de Deus para participar nesta festa?

Na segunda leitura, o apóstolo Paulo apresenta-nos um exemplo concreto de uma comunidade que aceitou o convite do Senhor e vive animada pelo dinamismo do reino de Deus: a comunidade cristã de Filipos. É uma comunidade generosa e solidária, verdadeiramente empenhada na vivência do amor e em dar testemunho do Evangelho diante de todos os homens.
 Com o seu generoso gesto em favor de Paulo, prisioneiro por causa do Evangelho, a comunidade cristã de Filipos deixa-nos o exemplo de uma comunidade que se mantém atenta às necessidades das pessoas, que está aberta à partilha e ao dom, que cuida dos seus membros quando estão em situação de fragilidade, que pratica a caridade… O testemunho que os filipenses dão ao mundo é o testemunho de quem acredita no Evangelho, de quem está comprometido com os valores do reino de Deus. Como são as nossas comunidades cristãs? São comunidades que testemunham os valores do reino de Deus? São comunidades atentas às necessidades dos mais frágeis e carentes? São comunidades que cuidam daqueles que a vida feriu e que arrastam cruzes impossíveis de carregar sozinho? São comunidades disponíveis para partilhar os bens? São comunidades “com coração”, onde se pode fazer a experiência da bondade, da misericórdia, da compaixão de Deus por todos os seus filhos?

https://www.dehonianos.org/

sábado, 10 de outubro de 2026

Voltar, com o que a vida me ensinou...

 


Como continuar disponível para os outros sem deixar de escutar a própria vida?

Talvez seja aqui que a Fé se revele; nos dias concretos, entre decisões difíceis, encontros, cansaço e pequenas alegrias.

O silêncio também é lugar de crescimento. Às vezes é preciso parar, para reconhecer melhor a vida, nas perguntas de cada dia.

E, nem sempre conseguimos chegar a tudo. Para cuidar é preciso presença e limites. Só assim cuidamos com mais verdade.

Recomeçar pode ser trazer uma voz madura. Com novas perguntas, mais consciente e sem necessidade de todas as repostas.

Volto a escrever depois de um tempo em que as palavras deram lugar ao movimento da vida.
 E os dias ensinaram-me muito.

Que bom estar de volta!

 Carla Correia

sexta-feira, 9 de outubro de 2026

SERÁ MESMO QUE O DIÁLOGO NOS FARÁ ENTENDER?...


Haja esperança! Fomos criados à imagem e semelhança de quem nos criou. Quem nos criou é essencialmente relacional e livre. Define-se pelo diálogo, pelo encontro, pela comunicação, pela comunhão: “Deus é amor”. Por isso, somos, por natureza, seres sociais e livres. Ainda barro fresco acabado de modelar, talvez já cansados por sermos convidados a dar o nome a toda a bicharada, confrontados com a tentação, logo sucumbimos perante a árvore do bem e do mal. Talvez que esse momento fosse, para o homem, a plena tomada de consciência de si mesmo, a sua passagem “de ser natural e instintivo, a ser que vive uma existência histórica-humana”. A liberdade que tínhamos, de optar, também incluía o risco de optar pelo mal. Por respeito e amor, o Criador assumiu esse risco e a humanidade voltou-lhe as costas. Deus, porém, porque nos amou primeiro e nos continua a amar, não nos pagou na mesma moeda. Veio ao nosso encontro para, como amigo, estabelecer connosco o diálogo da salvação. Esse diálogo foi-se promovendo gradualmente. Deus foi-se revelando até que se revelou em plenitude em Jesus Cristo seu Filho, que se fez homem. Jesus, em constante diálogo com o Pai, dialogou com todos, com respeito por todos. Sem limites, sem cálculos, sem preconceitos, sem exceção, sem olhar aos méritos dos interlocutores, sem se impor, sem obrigar a responder. Instituiu a Igreja e, em seu nome, enviou-a por todo o mundo a fazer como ele fez, o promover o diálogo com Deus e com toda a humanidade e da humanidade entre si, a reproduzir no tempo a vida que existe no seio de Deus. E de forma universal, sem exceção, respeitando as lentidões da maturação psicológica e histórica, sem coação, sem deixar para amanhã o que pode conseguir hoje e tomando a iniciativa, com amor e respeito, com delicadeza, estima, simpatia e bondade, com clareza, mansidão, confiança e prudência pedagógica, convergindo para a verdade, recusando o relativismo, estando no mundo sem ser do mundo. Sem condenação apriorística, sem polêmica ofensiva, sem prurido de falar por falar, mas com apreço pela dignidade e liberdade do interlocutor, dispondo-o à comunhão mais plena de sentimentos e convicções (cf. Paulo VI, Ecclesiam Suam, 6/8/1964). Mesmo assim, os homens muitas vezes falharam e continuam a falhar. O diálogo dos homens com Deus, dos crentes e não crentes ente si, o diálogo com a cultura, a ciência e a filosofia e dos homens entre si como necessidade, orça em déficit acentuado. No último Concílio, o Espírito reconduziu as coisas ao seu lugar e foi publicada a Declaração Nostra aetate, na qual a Igreja reconhece que nas tradições religiosas também há valores verdadeiros e santos, convidando os fiéis a olhar com respeito “esses modos de agir e viver, esses preceitos e doutrinas”. Esse convite continua a constituir para a Igreja “um desafio permanente: como conjugar fidelidade à identidade cristã e abertura sincera à alteridade? Como viver concretamente o apelo à fraternidade universal em sociedades marcadas pela crescente diversidade cultural e religiosa, pela guerra e pela violência e caracterizadas pelo impulso crescente à secularização?” Três Dicastérios publicaram, em conjunto, em 16 de setembro passado, uma Nota a propósito dos sessenta anos dessa Declaração conciliar. Porque a Nota é maior que a própria Declaração e é pena que não chegue às pessoas, vou pescar dela algumas ideias sobre os trabalhos desenvolvidos. Revendo o caminho percorrido, a Nota, com esperança e gratidão, fala da transformação do relacionamento inter-religioso que houve a partir da referida Declaração, dizendo: “A Igreja passou de uma atitude muitas vezes reservada ou distante a um corajoso caminho de diálogo sincero, de encontro respeitoso e de cooperação fraterna. Esta herança constitui um património vivente e irrenunciável, que continua a interpelar os fiéis de hoje e os compromete a prosseguir esta aventura humana e espiritual, tão vital para o nosso tempo”. Afirma a atualidade do documento e que a “fraternidade entre crentes de diversas tradições religiosas não é um simples ideal, mas uma exigência moral, espiritual e social. Diante dos desafios contemporâneos - extremismos religiosos, migrações globais, secularização, crises ecológicas e sociais - as religiões são chamadas a transformar o mundo e a sociedade para que sejam expressões fraternas da vontade de Deus”. Prosseguindo com determinação este caminho exigente, a Igreja convida a que todos se tornem “construtores de pontes, não de muros”, artesãos de paz e de fraternidade, capazes de acolher o outro na sua diferença, de reconhecer as riquezas espirituais e de colaborar na construção de uma sociedade mais justa e mais humana. Acentua a necessidade de avançar resolutamente nesta direção. Neste arco de tempo, se tem havido frutos evidentes na relacionamento entre a Igreja Católica e o judaísmo e o islão, também a Igreja dialogou e colaborou, por exemplo, “em diversos âmbitos e em vários níveis, com os seguidores do hinduísmo, do budismo, do jainismo, do sikhismo, do shintoísmo, do taoísmo, do confucionismo e do zoroastrismo, além das religiões tradicionais, em particular aquelas africanas”. Foram instauradas relações duradouras de amizade entre responsáveis religiosos, encaminhados projetos educativos e sociais conjuntos, publicadas declarações comuns diante de dramas humanitários, guerras ou crises ambientais, promoveu-se a cultura do diálogo e do encontro, trocaram-se mensagens de felicitações aos amigos das outras tradições religiosas por ocasião das suas festas principais, para revigorar e reforçar os laços de estima recíproca e colaboração e aplaudem-se os bons testemunhos de boa convivialidade.
A Nota não esconde que, apesar dos progressos, as dificuldades do diálogo permanecem. Alguns ambientes continuam a duvidar da sua oportunidade, temendo o relativismo doutrinal ou a diluição da identidade religiosa. Em algumas regiões, as relações entre fiéis de diferentes religiões são historicamente conflituosas, e a lembrança das feridas antigas torna difícil a confiança recíproca. Noutros lugares, o crescimento dos fundamentalismos, a permanência dos preconceitos, a manipulação política das pertenças religiosas ou as violências em nome de Deus minam as bases do diálogo. As tensões identitárias, o fechamento das comunidades, a manipulação política do facto religioso, mas também a indiferença crescente em muitos países para com toda forma de espiritualidade, obrigam a renovar as modalidades do diálogo num mundo em rápida transformação. Não é fácil abandonar as lógicas de defesa, de hostilidade ou de conquista, para adotar uma atitude aberta, benévola, corajosa. Os modelos monolíticos e isolados, que encorajam a visão fechada da realidade são inadequados, são fonte de violência e de sofrimento (cf. Nota - Um Caminho de Esperança, dos Dicastérios para a Doutrina da Fé, para a Promoção da Unidade dos Cristãos e para o Diálogo Inter-Religioso, de 16/09/2026).

D. Antonino Dias
Caminha, 09-10-2026.

Há sempre um caminho!

 






Há sempre algo que, em algum momento da nossa vida, nos impele ao caminho.

Seja o início de um novo trabalho.

Seja o início de um novo ano escolar.

Seja um problema de saúde.

Seja o sofrimento alheio, ou o nosso.


Às vezes temos mesmo de nos meter ao caminho, ir à luta, desafiar, propor ou até mesmo inspirar mas será que estás atenta a quem faz caminho lado a lado contigo? Os encontros que se propiciam, as conversas, as resoluções e as oportunidades que surgem podem ajudar a seguir o caminho certo.

A história da nossa Igreja está repleta de peregrinos evangelizadores.

Os apóstolos e discípulos foram desafiados a pôr pés ao caminho e levar Esperança a quem dela precisasse e a fazer encontro curando, partindo o pão e falando do testemunho de Jesus. Não consta que foi fácil! Porventura, houve momentos que queriam voltar atras, desistir e mudar de caminho, mas deixam um testemunho de fé, esperança e caridade que resiste à passagem do tempo.

Também nós somos chamados ao caminho e nem sempre por vontade própria, atrevo-me a dizer que muitos poem pés ao caminho pelos outros e acabam por descobrir nesse ato nobre uma bênção infinita.

Seja qual for o motivo que te leva ao caminho (ou seja, fora do teu conforto) permite que ele tenha um propósito, um sentido, algo pelo qual valha a pena. Aí verás que não fazes apenas caminho, fazes Peregrinação! E isso muda tudo!

E tu amiga que caminhos fazes tu?


Raquel Rodrigues

quinta-feira, 8 de outubro de 2026

Celebração e Fé em Arronches: Procissão de Nossa Senhora do Rosário


No dia 7 de outubro, a nossa comunidade uniu-se em oração e devoção numa noite profundamente marcante. As celebrações em honra de Nossa Senhora do Rosário começaram com a celebração da Santa Missa, realizada pelas 20h00 na Igreja Matriz de Arronches, reunindo dezenas de fiéis.

Logo após a Eucaristia, o silêncio respeitoso e a luz das velas invadiram as ruas do centro da nossa vila. A emocionante procissão percorreu o coração de Arronches, num testemunho vivo de fé, união e tradição que continua a passar de geração em geração.

Neste dia tão especial, recordámos com carinho o eterno apelo de Nossa Senhora: o convite diário para rezarmos o terço. Que esta oração continue a ser uma arma de paz, esperança e conforto para as nossas famílias e para todo o mundo.

Agradecemos a todos os que tornaram este momento possível e a todos os paroquianos que se juntaram a nós nesta manifestação de amor à nossa Mãe do Céu.







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quarta-feira, 7 de outubro de 2026

O que talvez não saibas sobre o Rosário

 



Pegamos nas contas do Rosário, repetimos palavras que conhecemos quase de cor e talvez raramente nos perguntemos como nasceu esta oração que atravessou séculos, famílias, guerras, peregrinações, quartos de hospital e noites de silêncio.

O Rosário não nasceu num único momento. Foi-se formando. São João Paulo II dizia-o de forma muito clara na Carta Apostólica Rosarium Virginis Mariae: o Rosário, «ao sopro do Espírito de Deus se foi formando gradualmente no segundo Milénio».

A história desta oração é, por isso, também a história de muitas gerações que procuraram encontrar uma forma simples de permanecer diante de Deus.

Quando quem não sabia ler também queria rezar

Durante a Idade Média, os 150 Salmos ocupavam um lugar central na oração dos monges e religiosos. Para muitos cristãos, porém, esta forma de oração era inacessível. Não sabiam ler, não possuíam livros ou simplesmente não tinham possibilidade de acompanhar a oração monástica.

Começaram então a surgir formas populares de oração baseadas na repetição do Pai-Nosso e, progressivamente, da Avé-Maria.

As 150 Avé-Marias estabeleciam uma relação simbólica com os 150 Salmos. Paulo VI recordaria precisamente esta ligação ao afirmar que o número tradicional de cento e cinquenta Avé-Marias apresenta «uma certa analogia com o Saltério».

Para contar as orações utilizavam-se nós, contas ou outros pequenos objetos. Aquilo que hoje deslizamos entre os dedos guarda, portanto, a memória de uma oração profundamente simples e popular. Mas o Rosário foi-se tornando mais do que uma sucessão de orações.

A repetição começou a ser acompanhada pela contemplação dos grandes acontecimentos da vida de Cristo. E é aí que o Rosário encontra aquilo que continua a ser o seu verdadeiro centro. Não Maria isolada de Jesus, mas Maria conduzindo a Jesus.

São João Paulo II exprimiu-o de maneira particularmente feliz: apesar da sua «fisionomia mariana», o Rosário «no seu âmago é oração cristológica».

E São Domingos?

Há uma imagem que atravessou séculos de arte e devoção: Nossa Senhora entrega o Rosário a São Domingos de Gusmão.

A tradição dominicana associa profundamente o fundador da Ordem dos Pregadores à propagação desta oração. A própria Ordem Dominicana refere que, «segundo a tradição», São Domingos recebeu o Rosário da Virgem Maria como instrumento espiritual contra a heresia e o pecado.

É importante, contudo, distinguir tradição espiritual e documentação histórica.

As fontes contemporâneas de São Domingos não registam essa aparição. A forma do Rosário que hoje conhecemos desenvolveu-se progressivamente e ganhou particular impulso no século XV, sobretudo através do dominicano Alano de la Roche, que promoveu intensamente esta devoção.

Na década de 1470 surgiram também as primeiras confrarias formalmente organizadas do Rosário. A sua rápida expansão ajudou a estabilizar a estrutura da oração e a torná-la uma das grandes devoções populares da Igreja.

A própria Rosarium Virginis Mariae reconhece que «a história do Rosário mostra como esta oração foi utilizada especialmente pelos Dominicanos». O Rosário cresceu entre a pregação, a contemplação e a necessidade muito concreta de ajudar o povo a entrar no Evangelho.

Lepanto, outubro e uma oração que atravessa a História

No século XVI, outro acontecimento ficaria profundamente ligado ao Rosário. Em 1571, uma coligação cristã enfrentou a frota otomana na Batalha de Lepanto. O Papa São Pio V pediu oração e recitação do Rosário. Depois da vitória, associou o acontecimento à intercessão de Nossa Senhora e determinou que a sua memória fosse celebrada liturgicamente.

Leão XIII recordaria mais tarde que São Pio V quis perpetuar a memória daquela vitória através de uma festa dedicada à Virgem, posteriormente celebrada sob o título de Nossa Senhora do Rosário. A festa permanece no calendário da Igreja a 7 de outubro.

Séculos depois, Leão XIII voltou a dar enorme impulso à devoção, dedicando repetidamente o mês de outubro à oração do Rosário. Em 1891 escrevia que outubro estava já «consagrado à beatíssima Virgem» e convidava os fiéis a recorrer ao Rosário durante todo o mês.

Não é, portanto, por acaso que outubro continua a ser conhecido como o mês do Rosário.

Um Rosário que continua a crescer

Em 2002 aconteceu algo invulgar numa oração com tantos séculos de história. São João Paulo II propôs a introdução de cinco novos mistérios: os Mistérios Luminosos: Batismo de Jesus no Jordão; Bodas de Caná; Anúncio do Reino de Deus; Transfiguração; Instituição da Eucaristia.



O objetivo era tornar ainda mais evidente que o Rosário é uma contemplação da vida de Cristo.



O Papa explicava que estes mistérios permitiam contemplar momentos particularmente significativos da vida pública de Jesus e fazer do Rosário, de modo ainda mais pleno, um «compêndio do Evangelho».

Talvez esteja aqui a chave para compreender esta oração. «Recitar o Rosário nada mais é senão contemplar com Maria o rosto de Cristo», escreveu São João Paulo II.

Talvez seja por isso que esta oração sobreviveu a tantos séculos. Porque cabe numa mão, mas contém uma história inteira. Nascimento. Alegria. Luz. Sofrimento. Morte. Ressurreição.

A vida de Jesus passa diante de quem reza lentamente, mistério depois de mistério. E as palavras repetidas deixam de ser apenas palavras. Transformam-se em ritmo. Em memória. Em contemplação.

As contas passam pelos dedos. O Evangelho passa pelo coração. E Maria continua a fazer aquilo que fez em Caná: «Fazei tudo o que Ele vos disser.» (Jo 2,5)

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