quinta-feira, 16 de julho de 2026

Ser padrinho ou madrinha

 



Ser padrinho ou madrinha:

quando o coração assina mais do que um papel
Há pedidos que chegam ao cartório paroquial com um sorriso e uma frase quase pronta: "Preciso de um atestado de idoneidade para ser padrinho."
Como se bastasse um papel.
Como se a fé pudesse ser impressa numa folha A4.
Como se o Crisma fosse um bilhete vitalício que se guarda na gaveta, ao lado do certificado da escola e da garantia do frigorífico.
Mas não é assim.
A Igreja não pede aos párocos um certificado de sacramentos. Pede-lhe um atestado de vida. Não pergunta apenas: "Foi crismado?" Pergunta: "É alguém que vive a fé? Participa na comunidade? Pode uma criança olhar para esta pessoa e descobrir, nela, um caminho até Cristo?"
Ser padrinho ou madrinha nunca foi um prémio de amizade. Nem um lugar reservado na fotografia do Batismo. É muito mais bonito. E muito mais exigente.
É aceitar que, um dia, um pequeno coração poderá aprender a rezar porque viu o padrinho ou a madrinha a rezar. Poderá descobrir o valor do perdão porque os viu a perdoar. Poderá acreditar em Deus porque encontrou neles fé... não apenas aos domingos especiais, mas nas segundas-feiras difíceis.
Um padrinho não substitui os pais. Caminha ao lado. Está presente. Recorda, anima, levanta, escuta. E quando o afilhado se afasta da fé, não desiste dele. Continua a mostrar-lhe o caminho.
A Igreja precisa de inspiradores de vida. Porque a fé não se herda por decreto. Nem se transmite por WhatsApp.
Transmite-se à mesa de casa. No banco da igreja. Numa visita a quem sofre. Num sinal da cruz feito sem vergonha. Numa vida que, com todas as suas fragilidades, continua a dizer: vale a pena seguir Jesus.
Se alguém deseja ser padrinho ou madrinha, a pergunta mais importante talvez não seja: "Tenho os documentos?"
Mas esta:
"Se o meu afilhado imitasse a minha maneira de viver a fé, eu ficaria feliz?"
Ser padrinho ou madrinha é assinar um compromisso... primeiro com o coração e só depois com a caneta.
Porque os papéis envelhecem.
As fotografias ficam amareladas.
Mas uma vida que aponta para Deus... essa permanece para sempre.

Padre João Torres

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