terça-feira, 14 de julho de 2026

O Preço de estar Vivo

 


O Preço de estar Vivo

Viver não é apenas ver os dias passar no ecrã do telemóvel, contar as faturas pagas ao fim do mês ou cumprir horários numa rotina anestesiada. Timothy Radcliffe recorda-nos uma verdade crua, daquelas que se cravam na pele da nossa existência: "Se amas, serás crucificado; se não amas, já estás morto."
Amar de verdade dá trabalho. Dói. Significa abrir a porta de casa e do peito, sabendo perfeitamente que o vento pode entrar e desarrumar tudo. Amar é expor a nossa vulnerabilidade, na mesa do jantar onde as palavras às vezes falham, ou no silêncio pesado depois de uma discussão estúpida por causa da loiça por lavar. Quando escolhemos cuidar, quando decidimos importar-nos e dar a mão a quem caminha connosco, estamos a desarmar-nos. Ficamos expostos. E o mundo, tantas vezes apressado, egoísta e cínico, julga, aponta o dedo, magoa. Amar é aceitar essa cruz quotidiana; é o preço de quem se recusa a ser indiferente.
Mas qual é a alternativa real? Fechar os estores da alma? Blindar o coração numa redoma de betão para que nada nos atinja?
Quem não arrisca o afeto, quem se esconde do amor para evitar a dor, não está a proteger-se — está apenas a vegetar. Anda pelas ruas como uma sombra que consome oxigénio, mas cujo peito já não vibra por nada nem por ninguém. É um corpo com os batimentos cardíacos em dia, mas com a alma já enterrada no vazio.
Prefiro mil vezes a ferida aberta e sangrenta de quem ama, com todas as suas quedas e incompreensões, à segurança estéril e cinzenta de uma vida sem entrega. Prefiro o peso de uma cruz que me liga aos outros e me cola à realidade, ao caixão invisível do desamor. Que tenhamos a coragem de amar, mesmo sabendo o preço. Porque só quem se atreve a ser quebrado sabe o que é, verdadeiramente, estar vivo.

Padre João Torres

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