As chaves de Pedro não servem para fechar
Celebramos hoje São Pedro.
Talvez o imaginemos de chaves na mão, firme, seguro, quase perfeito. Mas o Evangelho apresenta-nos um homem bem diferente.
Pedro era impulsivo. Falava antes de pensar. Tinha o coração maior do que a prudência. Prometia mais do que era capaz de cumprir.
Quando ouviu dizer que queriam prender Jesus, fez voz grossa:
— "Ainda que todos Te abandonem, eu nunca Te abandonarei."
Não estava a fingir.
Acreditava sinceramente naquilo que dizia. Estava convencido de que seria capaz de morrer pelo Mestre.
Mas chegou a noite.
Chegou o medo.
Chegou a solidão.
E bastaram as perguntas de uma criada para fazer cair todas as certezas.
Três vezes negou conhecer Jesus.
Três vezes.
Não sabemos exatamente o que se passou dentro dele. Sabemos apenas que Pedro descobriu, da forma mais dura, que uma coisa é a imagem que fazemos de nós próprios; outra, bem diferente, é a verdade do nosso coração quando a vida nos coloca à prova.
Talvez por isso Jesus lhe tenha dito:
"Tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha Igreja."
Não porque Pedro fosse uma rocha.
Mas porque decidiu apoiar a sua vida na verdadeira Rocha, que é Cristo.
A Igreja não nasceu da perfeição dos homens.
Nasceu da fidelidade de Deus.
Pedro caiu, mas deixou-se levantar.
Errou, mas não desistiu.
Chorou, mas não fugiu da misericórdia.
Foi precisamente um pecador perdoado que Jesus escolheu para confirmar os irmãos na fé.
Talvez seja esta a grande lição para os nossos dias.
Vivemos com demasiada facilidade a apontar o dedo aos erros dos outros. Há sempre alguém de quem falar, alguém para julgar, alguém que, na nossa opinião, já não merece uma segunda oportunidade.
Por vezes, até dentro da Igreja, surgem os "santaneiros" de ocasião: rápidos a condenar, lentos a compreender; prontos para fechar portas, mas pouco disponíveis para abrir o coração.
Conta-se que certa vez uma mulher, conhecida pela sua vida desregrada, entrou numa igreja para rezar. Uma pessoa muito "piedosa" escandalizou-se por a ver ali.
Esqueceu-se de uma coisa.
A Igreja nunca foi um clube de pessoas perfeitas.
É a casa onde os pecadores aprendem, todos os dias, a recomeçar.
Pedro compreendeu isso.
Por isso disse um dia:
— "Afasta-Te de mim, Senhor, porque sou um homem pecador."
E mais tarde reconheceu:
— "Senhor, para quem iremos? Só Tu tens palavras de vida eterna."
E, depois da sua queda, já não fez promessas grandiosas.
Limitou-se a dizer:
— "Senhor, Tu sabes tudo. Tu bem sabes que Te amo."
Quem experimentou a misericórdia deixa de olhar os outros de cima.
Passa a olhá-los ao lado.
Por isso Pedro aparece sempre representado com umas chaves.
E talvez ainda hoje caiamos na tentação de pensar que as chaves servem para fechar portas.
Mas as chaves do Evangelho não servem para impedir a entrada.
Servem para abrir caminhos.
Abrir a porta a quem procura Deus.
Abrir espaço para quem regressa.
Abrir o coração àqueles que julgávamos perdidos.
Afinal, a porta que Jesus abriu na Cruz continua aberta.
E ninguém tem o direito de a fechar.
Padre João Torres
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