Nas minhas escavações arqueológicas, momentos houve em que pulei ao jeito de Arquimedes no zénite do seu achado, mas com uma grande diferença. Ele descobriu o ‘Princípio do Empuxo’ e logo correu a gritar: “Eureka!”. Eu descobri um recorte do ‘Diário Popular’ e logo vociferei uma jaculatória minhota! É... são sortes!
Arquimedes, com a sua descoberta, denunciou a falcatrua do ourives e sossegou Hierão II, rei tirano de Siracusa, que entendeu que a sua cabecinha de rei bem merecia uma coroa de ouro puro sem prata à mistura. Eu, com o meu achado amarelecido pelo tempo, redescobri que o nosso rei, avesso a coroas doiradas, preferia a devota prece dos seus pides sem pregações à mistura.
Arquimedes percebeu que, ao entrar na banheira, o volume de água que transbordava correspondia ao volume exato do seu corpo. Ora, sendo a prata mais leve que o ouro, uma coroa de ouro com prata à mistura, teria maior volume que uma coroa de ouro puro com o mesmo peso. Assim, a tramoia do ourives ficaria descoberta e o rei sossegado. Eu, porém, logo apliquei o princípio: quando os pides entravam numa igreja, a piedade não transbordava porque a sua devoção não tinha qualquer peso, o rei continuava enganado pelas aldrabices dos seus ‘ourives’, o pio parenético lá dentro da igreja, mesmo que gravado, até esse seria deturpado pelos preconceituosos bufos, mirones e testemunhas. Mas, vamos ao que importa antes que anoiteça e o leitor adormeça ou perca a paciência.
Dirigida “aos senhores diretores de serviços, chefes das delegações, subdelegações e postos de vigilância na metrópole”, com data de 21 de março de 1973, o major Silva Pais, diretor da Pide/DGS, teve a gentil bondade de fazer correr a seguinte circular:
“Como é do conhecimento dos Serviços, são já de certo modo numerosos os sacerdotes que, em ato de culto, atacam declaradamente as instituições e a política ultramarina do Governo – direi da própria Nação – e os seus princípios morais. Trata-se de uma ação subversiva que a lei penal prevê iniludivelmente. Muitas das prédicas de que nos chega conhecimento enquadram-se claramente nas disposições daquela legislação. Há que enfrentar esta atividade delituosa, decididamente. Assim, as homilias dos padres conhecidos nas áreas por tais atividades, devem ser seguidas atentamente, de modo a colherem-se elementos para a devida participação inicial, com indicação de testemunhas, para consequente decisão. Aos domingos, há que fazer assistir à missa habitual pelo menos três agentes, que tomarão boa nota no caso de o sacerdote entrar em afirmações de carácter delituoso. O funcionário mais graduado ou antigo fará depois a devida participação, o que tudo será exposto aos Serviços Centrais (caso das delegações, subdelegações e postos de vigilância). Promover também, sendo possível, a gravação das homilias, sem que isso dispense a simultânea prova testemunhal. O que se torna imperioso é que os serviços se habilitem com os elementos indispensáveis para se promover a devida ação penal, se assim for entendido. O que não pode é assistir-se passivamente, com simples protestos verbais, à ação dissolvente e subversiva conduzida por esses sacerdotes”.
Oram vejam lá se esta coisa não é mesmo de valor incalculável! Incalculável também era a expressão dum cicerone do museu da catedral de Braga - já muito idoso ao nosso olhar de rapazes, mas talvez muito mais novo do que esses rapazes hoje são -, que, desaferrolhando aquelas portas com aquelas chaves de grande medida e peso, nos ia guiando por salas adentro. O refrão era sempre o mesmo sobre tudo e cada coisa: ‘de valor incalculável, de valor incalculável...”. Não sei se o fazia por estar cansado de explicar sempre o mesmo, se por entender que os rapazes eram demasiado traquinas para entender qualquer douta explicação, se era mesmo por, para ele, a explicação menos maçadora e mais valiosa era mesmo essa em jeito de refrão: ‘de valor incalculável, de valor incalculável...’.
Coisa também admirável é o que nos diz, esta semana, uma conceituada revista semanal: um dos seus jornalistas “foi a sete missas diferentes. E quis ir a mais uma”. Se, por um lado, me fez lembrar aqueles que pertencem a nove confrarias e não descansam enquanto não pertencem a mais alguma sem estar em nenhuma, por outro lado, embora o seu artigo resulte também de conversa com pessoas pertencentes a esses movimentos que alcunha de ‘mais conservadores’, o seu zelo de ir a sete missas e de ter sido barrado de ir a mais uma, mesmo que o não seja, dá ares de muito pidesco.
Mas também, caro leitor, quero contar-lhe outra coisa de valor incalculável. Essa sim, é mesmo mesmo de valor incalculável! Numa das paróquias do Arciprestado de Castelo Branco, o Pároco, e também eu algumas vezes, celebrámos com a presença de dois GNRs plantados mesmo ali ao lado do altar. Acho que ainda hoje isso acontece. Perante essa ‘estranha’ presença, o leitor ficará incrédulo e com ares de certa revolta me perguntará: ‘mas, porquê?’. É que ambos tocavam, cantavam e rezavam no Grupo Coral. Ó gente boa e afinada, feliz e colaboradora: um abraço!
D. Antonino Dias
Caminha, 19-06-2026.
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