sexta-feira, 12 de junho de 2026

AÍ NÃO PODE MESMO HAVER FRONTEIRAS...

Por essas raias adentro todos somos, desde há muito, dum espaço schengen muito mais generoso que o acordado em 1985. Há mais de dois mil anos, consumado e assinado a sangue, foi inaugurado um ‘espaço’ que nos desafia à fraternidade universal, sem fronteiras! Até os putim, os trump, os netanyahu e outros que tais, devem fazer parte da mochila de quem ultrapassa as fronteiras de si próprio para se preocupar com os outros, sem esquecer os predadores e as suas vítimas. Sim, também o bem dos predadores, para que reconsiderem o terrível sofrimento das suas vítimas e o mal que fazem a si próprios e ao mundo; e pelo bem das vítimas, para que não paguem na mesma moeda dos predadores, moeda desprezível, há muito desvalorizada e sem cota no mercado do bem viver e do viver bem.
Muitos dos leitores terão lido o livro de Giovanni Guareschi: ‘O Pequeno Mundo de Dom Camilo’. Outros, com certeza, viram o filme do cineasta francês Julien Duvivier, de 1952, baseado nesse livro, em que, o ator Fernandel faz o papel de Dom Camilo, o pároco da povoação, e Gino Cervi, o papel de Peppone, o governante local, comunista ferrenho. O livro realça as peripécias de Dom Camilo com Peppone e de Peppone com Dom Camilo. Dois cavalheiros, mas com singularidades muito próprias. Eram como o “cão e o gato”, diria o povo. Na hora agá, porém, sempre acabava por permanecer o bom senso e a humanidade. Os empecilhos eram superados, a tolerância, mesmo que rabugenta, lá vencia, e até não se inibiam de partilhar confidências e uma bebida lá na tasca do sítio. Apesar de inimigos ideológicos, ambos primavam pela dedicação à terra e amor à população, e cada um reconhecia a importância do outro no bem-estar da mesma. Quando algum deles estava na mó de baixo, lá estava o outro a defendê-lo perante o povo.
Mas, a que propósito vem isto agora? - perguntarão. Vem vem, vem muito a propósito. Não é uma viola no enterro. É o enterro da viola de quem, porventura, toca a vida a desprezar os outros. Até esquece que a própria oração não pode ter essas fronteiras, mesmo que force a engolir alguns sapinhos em seco ou a ter de os empurrar com o dedo. Os diálogos de Dom Camilo com a imagem de Cristo crucificado, são mais que eloquentes nesse sentido. Apesar de comunista, ateu e rival do Padre, Peppone, em horas de aperto, dirige-se à igreja para suplicar a Dom Camilo que rezasse pelo seu filho, gravemente doente. O Padre, vendo-o tão desesperado e a chorar, comoveu-se, esqueceu a sanha política, prometeu rezar pela criança e até a guerra fria sentiu uma folgazinha. No entanto, Dom Camilo, interiormente amuado pelo atrevimento de Peppone, sente necessidade de ir confidenciar e pôr o Crucificado ao corrente do que se estava a passar. A resposta do Crucificado não se fez esperar. Diz-lhe Dom Camilo: "Senhor, Vós sabeis quem é Peppone. Ele roubou, ameaçou, fez a vida negra à igreja e aos vossos fiéis. Mas hoje ele chorou". E responde-lhe Cristo: "Camilo, o sofrimento dele também é sofrimento teu. Tu deves perdoar e rezar pela criança". E insiste Dom Camilo: "Mas Senhor, Vós não podeis pedir-me tanto! A criança é filho daquele comunista. É pedir demais!". E volta Cristo: "Dom Camilo, não te esqueças de que Eu também perdoei aos que me crucificaram". Dom Camilo, vencido pela palavra e pelo sorrizinho de Cristo, reza pela cura da criança que acaba por recuperar a saúde. Peppone, muito reconhecido, vai à igreja para agradecer, como sabia e sentia, a ajuda divina na sua causa.
É certo que ninguém deve criticar a forma de rezar de quem quer que seja. No entanto, os mestres nessa área dizem-nos que é preciso aprender a rezar: “Senhor, ensina-nos a orar, como João também ensinou os seus discípulos” (Lc 11, 1). Sem dúvida que cada um é cada qual e lá tem o seu caminho e o seu jeito de caminhar, desde que esse jeito e caminho não constituam uma romaria ao redor de si mesmo. Poderá haver gente que se tem como centro do mundo. Tudo faz para que todos girem à sua volta e olhem para si. Até pensa que pode envolver o próprio Deus nessa sua singularidade. Primeiro, eu. Segundo, eu. Terceiro, eu. Quarto, eu. Sempre, eu. E se alguma coisa sobrar para além do meu eu, ó Senhor, que seja para aqueles de quem gosto e me possam ajudar! Nunca reza por outras causas, nem pelos outros, muito menos pelos inimigos ou adversários! Toda a oração que deixa os outros de fora, que deixa o mundo para trás, é uma farsa, afirmava o Papa Francisco: “Se a oração não recolhe as alegrias e as tristezas, as esperanças e angústias da humanidade, torna-se uma atividade ‘decorativa’, uma atitude superficial, teatral, uma atitude intimista”.
O catecismo da Igreja Católica diz-nos que a oração pelos outros nos conforma de perto com a oração de Jesus, o qual intercedeu por todos. Jesus é o único intercessor junto do Pai em favor de todos, em particular dos pecadores, incluindo os que lhe fizeram mal, os próprios inimigos. E continua a fazê-lo, pois possui um sacerdócio eterno, um sacerdócio que não acaba, está vivo para sempre, a fim de interceder por nós (cf. Hb 7, 24-25).
Também o Espírito Santo, de acordo com a vontade de Deus, intercede por todos nós, “com gemidos inefáveis” (Rom 8, 26b-27). Interceder pelos outros é próprio dum coração conforme com a misericórdia de Deus: assim é desde Abraão. As primeiras comunidades cristãs faziam desta forma de partilha uma força de comunhão, de unidade, uma força missionária. Todos, como ainda hoje acontece, eram incluídos na sua oração: pessoas, famílias, povos, autoridades, inimigos, perseguidores, os que rejeitavam o Evangelho e o próprio Deus, as necessidades da Igreja e dos Estados, a paz, a cura de doenças e causas específicas (cf. CIgC2634-2636). São Paulo, em todas as suas orações, pedia com alegria por todos (Fil 1, 4.7), dava graças a Deus por todos (Fil 1,3; Rom 1,8), agradecia a graça que Deus a todos concedia em Jesus Cristo (1Cor 1,4).
Esta atitude de Paulo é “uma visão espiritual, de fé profunda, que reconhece aquilo que o próprio Deus faz neles. E, simultaneamente, é a gratidão que brota de um coração verdadeiramente solícito pelos outros” (EG282). Colocar-se como intercessor entre Deus e as pessoas ou circunstâncias, manifesta humildade, amor, compaixão, caridade, solidariedade. Ao longo da História da Humanidade, grandes homens e mulheres, que influenciaram os destinos do mundo eram grandes intercessores. Colocar-se no lugar do outro, sentir as suas dores e necessidades, interceder pelas suas causas e dificuldades, buscar ativamente a intervenção divina em seu favor, é um ato de amor e de serviço ao próximo.


D. Antonino Dias
Caminha, 12-06-2026


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