sábado, 6 de junho de 2026

QUO VADIS, HUMANITAS?

Sob o título ‘Quo Vadis, Humanitas?’ (Para onde vais, Humanidade?), a Comissão Teológica Internacional, já neste ano de 2026, diante dos desafios culturais que questionam a especificidade da natureza humana, publicou uma interessante reflexão sobre a antropologia cristã. Ao longo do texto, faz referência aos “aspetos mais inquietantes que não podemos deixar de reconhecer no transumanismo e no pós-humanismo”.
Leão XIV, na Carta Encíclica ‘Magnifica Humanitas’, também agrupa algumas correntes do pensamento atual sob os nomes de transumanismo e pós-humanismo. É certo que não são realidades novas e muitos vão queimando as pestanas a aprofundar tais assuntos. Para a maior parte das pessoas, porém, esses termos não lhe são muito familiares, bem como o que eles significam e ensinam. Se já Aldous Huxley, em 1932, no seu “Admirável Mundo Novo” de ficção científica, apontava para a desumanização dos seres humanos, escravizados pela ditadura proveniente das suas próprias invenções e vontade, foi o seu irmão, o eugenista Julian Huxley, quem, em 1951, usou o termo transumanismo. A fundação e organização deste movimento deu-se na década de 1990. E lá foi e vai fazendo a sua história.
O pós-humanismo começou a ganhar força nas décadas de 70-80, mas já nas décadas de 40 a 60, as reflexões sobre a fusão entre o homem e a máquina começaram a desafiar a ideia clássica do que entendemos por humano, porfiando a desconstrução dessa ideia tradicional. Em 1985, a feminista Donna Haraway, publica o “Manifesto Ciborgue” e utiliza a figura do ciborgue – uma mistura de homem e máquina – para ir destruindo as barreiras entre o natural e o artificial. Pelos anos 90, esta corrente, o pós-humanismo, constituiu-se em movimento organizado e cultural, contestando a centralidade do ser humano. Ambas, como correntes filosóficas, culturais, sociais e até políticas, questionam os limites da espécie humana. Embora aqui e ali se cruzem, elas seguem caminhos diferentes. O transumanismo pretende melhorar as capacidades físicas, intelectuais e psicológicas do ser humano através da ciência e da tecnologia, superando as limitações biológicas, como as doenças, o envelhecimento e a própria morte. Para isso, serve-se da biotecnologia, da robótica, da IA, da engenharia e melhoramento genético, da nanotecnologia e dos implantes cibernéticos, unindo partes artificiais com o corpo humano, fazendo com que, paulatinamente, controlando e acelerando as tendências evolutivas, sejam superadas as fundacionais caraterísticas humanas. Se o transumanismo quer descentralizar o humano, repensando a sua relação com o mundo e com as máquinas, o pós-humanismo rejeita que o ser humano seja o centro do universo e a medida de todas as coisas. Procura desconstruir a visão tradicional sobre o humano e repensar a forma como interagimos com animais, plantas e tecnologias. Afirma que as fronteiras entre o que é humano, máquina e natureza já são uma miscelânea retrógrada, ultrapassada. Rejeita a ideia de que existe uma "natureza humana" fixa ou essencial. Procura desconstruir as categorias tradicionais, como homem/mulher, natureza/cultura, humano/animal. Vê o próprio conceito de género como uma construção social flexível que pode ser questionada e reconfigurada. Defensores, pois, da ideologia de género, defendem que a identidade sexual é um produto cultural, social, psicológico. E não falta também quem proponha a extinção humana voluntária, não por meios violentos, mas de forma voluntária, renunciando a ter filhos. Assim se eliminariam os problemas da espécie humana. Ela própria, como praga ou vírus, seria extinta, deixaria de existir, o planeta deixaria de ter os problemas que os humanos lhe causam, os ciclos naturais voltariam a funcionar... O ‘homo sapiens’, após a fase do transumanismo, será superado pelo pós-humano, dizem. Não haverá mais necessidade do ser humano, é coisa mais que antiquada. Os poderosos lóbis industriais e científicos muito ajudarão a conseguir tal objetivo. Surgirá uma era radicalmente nova, o pós-humano.
E nós cá estaremos para ver, nem que seja do lado de lá, nos ‘novos céus e na nova terra’! (Ap 21,1). Se Otzi, o homem do gelo de há 5.300 anos, imaginasse que isto iria acontecer, se não tivesse morrido assassinado e congelado lá pelos Alpes, teria morrido de desgosto só em saber que haveria de morrer antes de ver acontecer este admirável mundo novo!
Leão XIV afirma que transumanismo e pós-humanismo “constituem o pano de fundo ideológico que está presente nalguns centros do poder tecnológico e coloniza o imaginário coletivo de forma simplificada, especialmente nos meios de comunicação e nas redes sociais, acendendo o entusiasmo pelas novas tecnologias com uma visão futurista do “homem aperfeiçoado” ou do “homem hibridado” com a máquina”. Diz que o “transumanismo e o pós-humanismo incluem em si uma pluralidade de correntes e sensibilidades, sendo difícil dar deles uma descrição unívoca. Podem ser comparados a um arquipélago de ilhas conceituais diferentes, mas ligadas pelo mesmo mar de pressupostos: a centralidade da tecnologia e o sonho de ultrapassar os limites da condição humana. O transumanismo, em linhas gerais, imagina um aperfeiçoamento do ser humano através das tecnologias (biomedicina, engenharia corporal, dispositivos, algoritmos), aspirando a aumentar o seu desempenho e capacidades. O pós-humanismo, sobretudo nas suas versões radicais, vai além: critica o antropocentrismo e propõe uma forma de hibridação entre o ser humano, a máquina e o ambiente, chegando a imaginar uma transição em que a humanidade se superará a si própria, entrando num novo estádio de evolução. Mesmo se estas hipóteses permanecem em grande parte especulativas, elas adquirem relevância, porque modificam o imaginário coletivo e consequentemente, orientam as escolhas sociais, económicas e políticas. O ponto crítico, à luz da Doutrina Social da Igreja, não é o uso da tecnologia em si, mas a visão que lhe está subjacente: se o ser humano for tratado como matéria a aperfeiçoar ou a ultrapassar, é então mais fácil aceitar que alguns sejam considerados menos úteis, desejáveis e dignos. Em nome do progresso, pode chegar-se a imaginar “sacrifícios necessários” e a fazer com que os mais frágeis paguem o preço de uma suposta otimização da espécie. A já mencionada advertência de São Paulo VI mantém-se, portanto, de grande clarividência: as conquistas científicas e técnicas, desvinculadas do progresso moral e social, acabam realmente por se voltar contra o homem. Por isso, é necessário distinguir com clareza: uma coisa é integrar as tecnologias numa visão humana e relacional, outra é deixar-se guiar por um imaginário que desvaloriza os limites e promete uma “salvação” puramente técnica” (MH15-18).

D. Antonino Dias
Caminha, 05-06-2026.



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