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quarta-feira, 2 de setembro de 2026

HÁ GENTE TÃO POBRE TÃO POBRE TÃO POBRE QUE SÓ TEM DINHEIRO!


Onde é que eu já li ou ouvi este espirro de sabedoria?!... Pensando bem, e pensar dá uma trabalheira dos diabos..., pensando bem, acho que não li nem ouvi. Acho que não inventei nem sonhei. Acho que é fácil de o fisgar por entre aquilo a que chamam notícias e todos os dias nos martirizam a falar de uns tais senhores que a humanidade - e a criação em geral, aliás -, bem dispensavam, se não como pessoas, pelo menos como chefes, chefes saltitantes lá pelos galhos do poder, à procura, não de bananas, mas do vil metal, a sua grande paixão. E a paixão cega, já dizia a mariquinhas!... Se não vivem de aparências para inglês ver e povaréu enganar, como é possível que esses povos, sempre falados como paladinos no progresso civilizacional, no exercício da democracia, na clarividência política e social e no gosto de viverem em liberdade, como é que esses povos tapam os olhos, cerram os ouvidos, engrunham a língua e ofendem o senso comum, acabando, orgulhosamente, por escolher tais líderes?! Eu sei que não é tão difícil penetrar nesse mistério como difícil é penetrar no da Santíssima Trindade, mas que isso é um grande mistério humano lá isso é, é mesmo difícil de decifrar!
Conhecem a fábula de Esopo sobre as rãs que pediram insistentemente um rei? Perguntem à meta! E têm presente o que aconteceu ao povo judeu quando implorou a Samuel que também lhe desse um rei, já que ele estava velho? (1Sam 8, 1-22). Será bom recordar, pois a escolha de um governante deve ser esclarecida e livre. E neste processo de esclarecer ou confundir, não estão isentos de algum mérito ou demérito quem noticia coisas e loisas a esmo, só para mostrar serviço e entreter, um pouco assim como quem deita palha ao gado para que fique sossegado e a remoer. De facto, “Vivemos numa sociedade da informação que nos satura indiscriminadamente de dados, todos postos ao mesmo nível, e acaba por nos conduzir a uma tremenda superficialidade no momento de enquadrar as questões morais” (EG64). Não se pensa criticamente, não se oferece um caminho de amadurecimento nos valores, está-se nas tintas para com a dignidade da pessoa e o bem comum, promovem-se as aparências de bem e os populismos que, camaleonicamente, querem levar a água ao seu moinho como se tudo fosse igual a tudo. “Assim como o bem tende a difundir-se, assim também o mal consentido, que é a injustiça, tende a expandir a sua força nociva e a minar, silenciosamente, as bases de qualquer sistema político e social, por mais sólido que pareça” (EG59). E tão culpado é quem entra no jogo como quem fica na bancada a aplaudir e incentivar. Neste ‘tic tic dare dare’, o dinheiro, a ambição, a ganância e a ilusão do poder pelo poder cantam de galo tão assumidamente que nem o milagroso galo de Barcelos, ao saltar do prato, foi capaz de o fazer com tanta mestria e garbo! E assim, lá se vai a honestidade, a ética e a centralidade no bem comum, precisamente aquilo que faz da política essa arte nobre de bem servir o homem e a criação, vocacional e belamente.
De facto, Jesus esclareceu que “Ninguém pode servir a dois senhores: ou não gostará de um deles e estimará o outro, ou se dedicará a um e desprezará o outro” (Mt 6, 24). E São Paulo não se esqueceu de advertir que “a raiz de todos os males é a ganância do dinheiro” (1 Tm 6, 10). E exorta a comunidade a abandonar os vícios, referindo-se à ganância como "uma idolatria" e um pecado social (Col 13,5). São Lucas exorta: "Guardai-vos de toda a ganância, porque a vida de um homem não consiste na abundância dos bens que ele possui" (Lc 12,15). E a Carta aos Hebreus exorta à simplicidade e à confiança na providência divina: "Seja a vossa vida isenta de ganância, contentando-vos com o que tendes" (Heb 13,5). Não se trata de deitar a riqueza ao mar ou de a condenar como pérfida e hostil à vida, trata-se, isso sim, é de saber como é adquirida e como é usada. O dinheiro pode invadir o campo da consciência individual e impor aí a sua lei, a lei do enriquecimento a qualquer preço, nem que seja através de formas de criminalidade organizada ou esmagando, anestesiando ou matando quem a produz. Pior ainda, quando, porventura, há autoridades que apenas se movem nesse campo, não assumem a defesa intransigente do bem comum e só olham para o seu umbigo, goste quem gostar ou doa a quem doer. O ladrão não pede riquezas, só quer que lhe digam onde é que elas estão!
De facto, mal vai quando a relação com o dinheiro é semelhante à relação de um patrão tirano com quem o serve por necessidade. Francisco dizia que “a crise financeira que atravessamos faz-nos esquecer que, na sua origem, há uma crise antropológica profunda: a negação da primazia do ser humano. (...) A adoração do antigo bezerro de ouro (cf. Ex 32, 1-35) encontrou uma nova e cruel versão no fetichismo do dinheiro e na ditadura duma economia sem rosto e sem um objetivo verdadeiramente humano” (EG55).
E ao comentar a parábola do rico avarento, Francisco afirmava que a ganância do rico o faz vaidoso e soberbo. Vive de aparências que são a máscara do seu vazio interior, é prisioneiro da exterioridade, da dimensão mais superficial e efémera da existência (cf. EG 62). Veste-se como se fosse um rei, simula a posição de um deus, esquece-se que é um simples mortal, assume que nada mais existe além do seu próprio eu. O dinheiro é o seu ídolo, um ídolo tirânico de quem se orgulha e a quem se escraviza. Em vez de instrumento ao seu dispor para fazer o bem e exercer a solidariedade com os outros, o dinheiro subjuga-o, a si e ao mundo inteiro, numa lógica egoísta que não deixa espaço ao amor e dificulta a paz (cf. Audiência 18/05/2016; e Mensagem Quaresma 19/02/2017).
No Antigo Testamento, a ganância é criticada principalmente pelo seu impacto comunitário e pela ilusão de segurança que as riquezas trazem. No Livro do Eclesiastes, por exemplo, lemos que "Quem ama o dinheiro jamais se fartará de dinheiro; e quem ama a riqueza nunca ficará satisfeito com os seus lucros" (Ecl 5,9). A ganância torna as pessoas insaciáveis. O Livro de Amós insurge-se contra quem coloca o lucro acima da dignidade humana, sendo capaz de vender "o justo por dinheiro e o necessitado por um par de sandálias" (Amós 2,6-7). Isaías atira-se àqueles que “juntam casa a casa e acrescentam campo a campo, até não haver mais terreno e serem os únicos a habitar no meio do país” (Is 5, . Ou do mundo!... Neste Dia Mundial de Oração pelo Cuidado da Criação, rezemos por estes pobres tão pobres tão pobres tão pobres que só têm dinheiro e poder e ainda querem mais, nem que seja destruindo as pessoas e o pobre planeta. Coitados, são uns pobres sem abrigo, que, pelo menos, bem mereciam a compaixão de uma cadeia!

D. Antonino Dias
Caminha, 01-09-2026

sexta-feira, 19 de junho de 2026

ACHADO POLICIAL DE VALOR INCALCULÁVEL!...


Nas minhas escavações arqueológicas, momentos houve em que pulei ao jeito de Arquimedes no zénite do seu achado, mas com uma grande diferença. Ele descobriu o ‘Princípio do Empuxo’ e logo correu a gritar: “Eureka!”. Eu descobri um recorte do ‘Diário Popular’ e logo vociferei uma jaculatória minhota! É... são sortes!
Arquimedes, com a sua descoberta, denunciou a falcatrua do ourives e sossegou Hierão II, rei tirano de Siracusa, que entendeu que a sua cabecinha de rei bem merecia uma coroa de ouro puro sem prata à mistura. Eu, com o meu achado amarelecido pelo tempo, redescobri que o nosso rei, avesso a coroas doiradas, preferia a devota prece dos seus pides sem pregações à mistura.
Arquimedes percebeu que, ao entrar na banheira, o volume de água que transbordava correspondia ao volume exato do seu corpo. Ora, sendo a prata mais leve que o ouro, uma coroa de ouro com prata à mistura, teria maior volume que uma coroa de ouro puro com o mesmo peso. Assim, a tramoia do ourives ficaria descoberta e o rei sossegado. Eu, porém, logo apliquei o princípio: quando os pides entravam numa igreja, a piedade não transbordava porque a sua devoção não tinha qualquer peso, o rei continuava enganado pelas aldrabices dos seus ‘ourives’, o pio parenético lá dentro da igreja, mesmo que gravado, até esse seria deturpado pelos preconceituosos bufos, mirones e testemunhas. Mas, vamos ao que importa antes que anoiteça e o leitor adormeça ou perca a paciência.
Dirigida “aos senhores diretores de serviços, chefes das delegações, subdelegações e postos de vigilância na metrópole”, com data de 21 de março de 1973, o major Silva Pais, diretor da Pide/DGS, teve a gentil bondade de fazer correr a seguinte circular:
“Como é do conhecimento dos Serviços, são já de certo modo numerosos os sacerdotes que, em ato de culto, atacam declaradamente as instituições e a política ultramarina do Governo – direi da própria Nação – e os seus princípios morais. Trata-se de uma ação subversiva que a lei penal prevê iniludivelmente. Muitas das prédicas de que nos chega conhecimento enquadram-se claramente nas disposições daquela legislação. Há que enfrentar esta atividade delituosa, decididamente. Assim, as homilias dos padres conhecidos nas áreas por tais atividades, devem ser seguidas atentamente, de modo a colherem-se elementos para a devida participação inicial, com indicação de testemunhas, para consequente decisão. Aos domingos, há que fazer assistir à missa habitual pelo menos três agentes, que tomarão boa nota no caso de o sacerdote entrar em afirmações de carácter delituoso. O funcionário mais graduado ou antigo fará depois a devida participação, o que tudo será exposto aos Serviços Centrais (caso das delegações, subdelegações e postos de vigilância). Promover também, sendo possível, a gravação das homilias, sem que isso dispense a simultânea prova testemunhal. O que se torna imperioso é que os serviços se habilitem com os elementos indispensáveis para se promover a devida ação penal, se assim for entendido. O que não pode é assistir-se passivamente, com simples protestos verbais, à ação dissolvente e subversiva conduzida por esses sacerdotes”.
Oram vejam lá se esta coisa não é mesmo de valor incalculável! Incalculável também era a expressão dum cicerone do museu da catedral de Braga - já muito idoso ao nosso olhar de rapazes, mas talvez muito mais novo do que esses rapazes hoje são -, que, desaferrolhando aquelas portas com aquelas chaves de grande medida e peso, nos ia guiando por salas adentro. O refrão era sempre o mesmo sobre tudo e cada coisa: ‘de valor incalculável, de valor incalculável...”. Não sei se o fazia por estar cansado de explicar sempre o mesmo, se por entender que os rapazes eram demasiado traquinas para entender qualquer douta explicação, se era mesmo por, para ele, a explicação menos maçadora e mais valiosa era mesmo essa em jeito de refrão: ‘de valor incalculável, de valor incalculável...’.
Coisa também admirável é o que nos diz, esta semana, uma conceituada revista semanal: um dos seus jornalistas “foi a sete missas diferentes. E quis ir a mais uma”. Se, por um lado, me fez lembrar aqueles que pertencem a nove confrarias e não descansam enquanto não pertencem a mais alguma sem estar em nenhuma, por outro lado, embora o seu artigo resulte também de conversa com pessoas pertencentes a esses movimentos que alcunha de ‘mais conservadores’, o seu zelo de ir a sete missas e de ter sido barrado de ir a mais uma, mesmo que o não seja, dá ares de muito pidesco.
Mas também, caro leitor, quero contar-lhe outra coisa de valor incalculável. Essa sim, é mesmo mesmo de valor incalculável! Numa das paróquias do Arciprestado de Castelo Branco, o Pároco, e também eu algumas vezes, celebrámos com a presença de dois GNRs plantados mesmo ali ao lado do altar. Acho que ainda hoje isso acontece. Perante essa ‘estranha’ presença, o leitor ficará incrédulo e com ares de certa revolta me perguntará: ‘mas, porquê?’. É que ambos tocavam, cantavam e rezavam no Grupo Coral. Ó gente boa e afinada, feliz e colaboradora: um abraço!

D. Antonino Dias
Caminha, 19-06-2026.

sábado, 6 de junho de 2026

QUO VADIS, HUMANITAS?

Sob o título ‘Quo Vadis, Humanitas?’ (Para onde vais, Humanidade?), a Comissão Teológica Internacional, já neste ano de 2026, diante dos desafios culturais que questionam a especificidade da natureza humana, publicou uma interessante reflexão sobre a antropologia cristã. Ao longo do texto, faz referência aos “aspetos mais inquietantes que não podemos deixar de reconhecer no transumanismo e no pós-humanismo”.
Leão XIV, na Carta Encíclica ‘Magnifica Humanitas’, também agrupa algumas correntes do pensamento atual sob os nomes de transumanismo e pós-humanismo. É certo que não são realidades novas e muitos vão queimando as pestanas a aprofundar tais assuntos. Para a maior parte das pessoas, porém, esses termos não lhe são muito familiares, bem como o que eles significam e ensinam. Se já Aldous Huxley, em 1932, no seu “Admirável Mundo Novo” de ficção científica, apontava para a desumanização dos seres humanos, escravizados pela ditadura proveniente das suas próprias invenções e vontade, foi o seu irmão, o eugenista Julian Huxley, quem, em 1951, usou o termo transumanismo. A fundação e organização deste movimento deu-se na década de 1990. E lá foi e vai fazendo a sua história.
O pós-humanismo começou a ganhar força nas décadas de 70-80, mas já nas décadas de 40 a 60, as reflexões sobre a fusão entre o homem e a máquina começaram a desafiar a ideia clássica do que entendemos por humano, porfiando a desconstrução dessa ideia tradicional. Em 1985, a feminista Donna Haraway, publica o “Manifesto Ciborgue” e utiliza a figura do ciborgue – uma mistura de homem e máquina – para ir destruindo as barreiras entre o natural e o artificial. Pelos anos 90, esta corrente, o pós-humanismo, constituiu-se em movimento organizado e cultural, contestando a centralidade do ser humano. Ambas, como correntes filosóficas, culturais, sociais e até políticas, questionam os limites da espécie humana. Embora aqui e ali se cruzem, elas seguem caminhos diferentes. O transumanismo pretende melhorar as capacidades físicas, intelectuais e psicológicas do ser humano através da ciência e da tecnologia, superando as limitações biológicas, como as doenças, o envelhecimento e a própria morte. Para isso, serve-se da biotecnologia, da robótica, da IA, da engenharia e melhoramento genético, da nanotecnologia e dos implantes cibernéticos, unindo partes artificiais com o corpo humano, fazendo com que, paulatinamente, controlando e acelerando as tendências evolutivas, sejam superadas as fundacionais caraterísticas humanas. Se o transumanismo quer descentralizar o humano, repensando a sua relação com o mundo e com as máquinas, o pós-humanismo rejeita que o ser humano seja o centro do universo e a medida de todas as coisas. Procura desconstruir a visão tradicional sobre o humano e repensar a forma como interagimos com animais, plantas e tecnologias. Afirma que as fronteiras entre o que é humano, máquina e natureza já são uma miscelânea retrógrada, ultrapassada. Rejeita a ideia de que existe uma "natureza humana" fixa ou essencial. Procura desconstruir as categorias tradicionais, como homem/mulher, natureza/cultura, humano/animal. Vê o próprio conceito de género como uma construção social flexível que pode ser questionada e reconfigurada. Defensores, pois, da ideologia de género, defendem que a identidade sexual é um produto cultural, social, psicológico. E não falta também quem proponha a extinção humana voluntária, não por meios violentos, mas de forma voluntária, renunciando a ter filhos. Assim se eliminariam os problemas da espécie humana. Ela própria, como praga ou vírus, seria extinta, deixaria de existir, o planeta deixaria de ter os problemas que os humanos lhe causam, os ciclos naturais voltariam a funcionar... O ‘homo sapiens’, após a fase do transumanismo, será superado pelo pós-humano, dizem. Não haverá mais necessidade do ser humano, é coisa mais que antiquada. Os poderosos lóbis industriais e científicos muito ajudarão a conseguir tal objetivo. Surgirá uma era radicalmente nova, o pós-humano.
E nós cá estaremos para ver, nem que seja do lado de lá, nos ‘novos céus e na nova terra’! (Ap 21,1). Se Otzi, o homem do gelo de há 5.300 anos, imaginasse que isto iria acontecer, se não tivesse morrido assassinado e congelado lá pelos Alpes, teria morrido de desgosto só em saber que haveria de morrer antes de ver acontecer este admirável mundo novo!
Leão XIV afirma que transumanismo e pós-humanismo “constituem o pano de fundo ideológico que está presente nalguns centros do poder tecnológico e coloniza o imaginário coletivo de forma simplificada, especialmente nos meios de comunicação e nas redes sociais, acendendo o entusiasmo pelas novas tecnologias com uma visão futurista do “homem aperfeiçoado” ou do “homem hibridado” com a máquina”. Diz que o “transumanismo e o pós-humanismo incluem em si uma pluralidade de correntes e sensibilidades, sendo difícil dar deles uma descrição unívoca. Podem ser comparados a um arquipélago de ilhas conceituais diferentes, mas ligadas pelo mesmo mar de pressupostos: a centralidade da tecnologia e o sonho de ultrapassar os limites da condição humana. O transumanismo, em linhas gerais, imagina um aperfeiçoamento do ser humano através das tecnologias (biomedicina, engenharia corporal, dispositivos, algoritmos), aspirando a aumentar o seu desempenho e capacidades. O pós-humanismo, sobretudo nas suas versões radicais, vai além: critica o antropocentrismo e propõe uma forma de hibridação entre o ser humano, a máquina e o ambiente, chegando a imaginar uma transição em que a humanidade se superará a si própria, entrando num novo estádio de evolução. Mesmo se estas hipóteses permanecem em grande parte especulativas, elas adquirem relevância, porque modificam o imaginário coletivo e consequentemente, orientam as escolhas sociais, económicas e políticas. O ponto crítico, à luz da Doutrina Social da Igreja, não é o uso da tecnologia em si, mas a visão que lhe está subjacente: se o ser humano for tratado como matéria a aperfeiçoar ou a ultrapassar, é então mais fácil aceitar que alguns sejam considerados menos úteis, desejáveis e dignos. Em nome do progresso, pode chegar-se a imaginar “sacrifícios necessários” e a fazer com que os mais frágeis paguem o preço de uma suposta otimização da espécie. A já mencionada advertência de São Paulo VI mantém-se, portanto, de grande clarividência: as conquistas científicas e técnicas, desvinculadas do progresso moral e social, acabam realmente por se voltar contra o homem. Por isso, é necessário distinguir com clareza: uma coisa é integrar as tecnologias numa visão humana e relacional, outra é deixar-se guiar por um imaginário que desvaloriza os limites e promete uma “salvação” puramente técnica” (MH15-18).

D. Antonino Dias
Caminha, 05-06-2026.



terça-feira, 26 de maio de 2026

A TRUCULÊNCIA DOS LÍDERES ANGUSTIA O POVO


Acho que isto, e muito mais, deve estar nos livros! Se, porém, não estiver, paciência! Entendo que, num líder, tudo lhe sai tão normalmente que o povo confia nele. Regra geral, um líder surge de dentro para fora, não imerge de fora para dentro. Não se estica para ser reconhecido como tal, não se impõe, não é devoto do ‘são nunca à tarde’, não atira para as calendas gregas o que deve ser feito agora e já, desculpando-se com a Eva, com a cobra ou com terceiros. Um líder manifesta-se, no seu dia-a-dia, pelo seu modo de ser, de estar, de se relacionar, pelo que pensa, pelo que diz, pelo que faz, pelo que gera de esperança. É por isso que é seguido. Mas um líder, se é verdadeiramente líder, não é um sabe tudo, um nunca se engana, um infalível que não quer ouvir ninguém, um não volta atrás, um teimoso no erro, um ‘picareta falante’ que pensa que tem razão só porque grita mais alto, um surdo à opinião dos outros, um cego que não quer ver a realidade e reconhecer a verdade. O êxito de qualquer líder está no objetivo que o move: se tem consciência da sua missão junto de quem lidera e trabalha pelo bem comum ou se está apenas apostado em salvar a sua pele e os interesses pessoais ou do seu grupo.
Até nisso a Sagrada Escritura nos rasga autoestradas seguras para chegarmos à meta da conversão, sem estorvos de tal espécie. Toda a gente sabe que o cargo não torna ninguém infalível, nem sábio, nem impecável, nem solitário na liderança, nem autossuficiente. O líder que é líder deve cultivar, cada vez mais, isso sim, aquelas virtudes que nele não se podem dispensar, como, por exemplo, a competência, a honestidade, a honradez, a humildade, a proximidade, a capacidade de dialogar, de ouvir e escutar, de se corrigir quando erra, de querer aprender com aqueles que lidera, de ter confiança neles, de manter a esperança de que será com eles que chegará a bom porto...
Já lá para trás, por exemplo, muito antes que anteontem, o rei Roboão, filho de Salomão, ouviu o que, seu irmão Jeroboão e toda a assembleia de Israel, lhe disseram: “O teu pai impôs-nos um fardo pesado. Se nos aliviares da dura escravidão e do fardo pesado que ele nos impôs, nós servir-te-emos”.
Roboão, que já devia estar com ela fisgada, disse que ia pensar e mandou-os regressar dali a três dias. Entretanto, representando grande preocupação, foi pedir conselho aos anciãos que tinham servido seu pai, o rei Salomão, e perguntou-lhes: “O que é que me aconselhais a responder a este povo?”. Eles disseram-lhe: “Se hoje te colocares ao serviço deste povo, se o servires e lhe responderes com boas palavras, então eles colocar-se-ão para sempre ao teu serviço”.
Roboão, porém, desprezou o conselho do povo e dos anciãos experimentados. Preferiu seguir os que tinham crescido com ele e o serviam, à boa prática do clientelismo político, do ‘cronyism’, do amiguismo e compadrio. Foi aconselhar-se com os seus “jobs for the boys”. E perguntou-lhes: “O que é que me aconselhais a responder a este povo que me disse: “Aliviai-nos do jugo que o teu pai nos impôs”? Os jovens que tinham crescido com ele e o serviam, disseram-lhe: “A esse povo que disse: “Teu pai tornou pesado o nosso fardo; alivia este fardo que pesa sobre nós”, responderás: “O meu dedo mínimo é mais grosso do que a cintura de meu pai. O meu pai colocou sobre vós um fardo pesado. Pois bem! Eu aumentarei sobre vós esse fardo. Meu pai castigou-vos com chicotes, eu castigar-vos-ei com ferrões”. (1Re 1-19)
Passados os três dias, Roboão respondeu isto mesmo ao povo que voltou ao seu encontro, como ficara combinado. Sem ponderar e bem discernir, desprezando o conselho do povo e dos anciãos cheios de experiência política e popular, o jovem rei, rico de si, quis esquecer que a sua função de autoridade justa era servir o povo e ouvir o seu clamor. Assim, até que as coisas se alinhassem, e nunca como se desejaria, abriu-se a guerra, começaram as turras entre o seu irmão e o povo sempre sofredor.
Passados cerca de três mil anos, mais minuto menos segundo, nada se aprendeu, embora nos tivessem dito qual é o Caminho, a Verdade e a Vida. E todos nós sabemos que as armas de hoje são muito mais mortíferas que as fisgas, as fundas e o mais que à mão de semear estivesse naquele tempo.
Em 17 de outubro de 2015, nos 50 anos da instituição do Sínodo dos Bispos, o Papa Francisco falava da "pirâmide invertida" para defender e sublinhar que a verdadeira autoridade é o serviço e não o poder. Na Evangelii Gaudium falou da autoridade como poliedro, o qual une e integra a diversidade, reflete a confluência de todas as partes, evitando lógicas autoritárias ou piramidais (cf. EG236). Na Carta Encíclica Fratelli Tutti, voltou ao tema, para afirmar que o poliedro, tanto na comunidade eclesial como na civil, representa uma sociedade onde as diferenças convivem, integram-se, enriquecem-se e iluminam-se reciprocamente, havendo aspetos da realidade que uns topam mas não se descobrem nos centros de poder onde se tomam decisões determinantes (cf. FT215).
Na Igreja, a sinodalidade está a fazer caminho e tem muito caminho para trilhar. Quando as dinâmicas políticas, em vez de empecilharem uns com os outros, descobrirem este filão, oh oh, ups, o mundo vai ter muita mais beleza, o povo muito mais proveito e alegria! Haja esperança!

D. Antonino Dias
Caminha, 23-05-2026

sexta-feira, 15 de maio de 2026

HÁBITO MARROM, TRÊS MITRAS, HUMOR NOTÁVEL ...


Gosto dos santos que se sabem rir de si próprios. Daqueles que, embora sendo sérios, não se levam demasiadamente a sério. Daqueles que até inspiram os artistas a esculpi-los ou a pintá-los a olhar para o mundo, sem ares demasiadamente seráficos ou poses de santidade para além do já muito supérfluo. Um santo triste é um triste santo, diz o povo. O Papa Francisco valorizava o humor, até como sinal de boa saúde. Achava que era uma graça pela qual rezava todos os dias, uma ferramenta de aproximação, um ato de humildade, de inteligência.

Dizem as crónicas que Bernardino de Sena era um pregador carismático, enérgico, cortante, inexorável, cativante e alegre: um fenómeno. De humor contagiante, usava-o para cativar a atenção dos ouvintes, assim como se servia de fina ironia, de piadas acaloradas e de histórias engraçadas para captar a atenção, para criticar a hipocrisia dos vícios e transmitir a mensagem, iluminando a fé, apelando à conversão e à penitência, convidando à construção da paz. Não raro, ria-se de si próprio, dos seus feitos, planos e experiências. Acho que é uma virtude rara, de se admirar, exprime maturidade e humildade, faz reconhecer que nem tudo o que se pensa e faz é bom, ajuda e liberta. Que bom seria se os líderes de todas as áreas, lá nos píncaros do mando, caíssem do seu sério abaixo e soubessem rir-se de si próprios e de tantas coisas que fazem acontecer e não deviam acontecer, e de outras tantas que não deixam que aconteçam e deviam acontecer! A sociedade, em vez de se rir deles, rir-se-ia com eles, desculpá-los-ia muito mais, teria mais esperança no futuro e sentiria muito menos as pressões e as dores do presente!
Como jovem sonhador, Bernardino quis mudar o mundo. Também hoje, como sempre, há quem alimente esses santos propósitos, mas descorando o essencial. Bernardino, porém, quis começar por aí, isto é, quis começar por primeiro se mudar a si próprio. Para tal, fez-se ermitão: ‘para grandes males, grandes remédios’, diz o povo. Dada a dureza de tal experiência eremítica, porém, e com um físico franzino e achacado a doenças, teve de concluir que era demasiada areia para a sua carroça. É ele quem o conta, com beleza. “Quero contar-lhes o primeiro milagre que fiz. Isso aconteceu antes de me tornar frade”. E continua: “Tomei a resolução de querer viver como um Anjo e não como um homem. Pensei em instalar-me numa floresta e comecei a perguntar a mim mesmo: “Que farás na floresta? Que comerás?’” E respondia a si próprio: “Farei como os Santos Padres; comerei erva quando tiver fome e beberei água quando tiver sede”. Se começou animado neste impulso de grande radicalidade, logo nos diz: “depois de invocar o nome bendito de Jesus, pus na boca uma porção de ervas amargas e comecei a mastigar. Mastigo e mastigo, mas não querem descer. Não podendo engolir, pensei: “Bebamos um pouco d’água”. Pois sim, a água descia e a erva continuava na boca. Bebi vários goles d’água com uma só porção de ervas e não consegui engolir”.
Embora apreciasse a solidão, sobretudo para rezar, acaba por concluir que a sua vocação era pregar ao povo onde o povo se encontrava. Sente-se, então, chamado pelos Frades Menores. Entusiasma-se pela sua regra, despoja-se dos bens que possuía, das honras da nobre família a que pertencia e toma o hábito de São Francisco, tinha 22 anos. Havia nascido a 8 de setembro de 1380, em Massa Marítima, na Toscana, Itália. Ficou órfão de mãe aos três anos e de pai aos sete, tendo sido educado por familiares e estudado Filosofia e Direito na universidade de Sena. Pregador itinerante, exímio e fervoroso, teólogo de renome, com a sua eloquência e entusiasmo arrebatava multidões. Fez do púlpito a sua cátedra de apóstolo do Nome de Jesus e de Maria como medianeira de perdão e de graça. Admirado por todos, recusou ser Bispo de Sena, de Ferrara e de Urbino, preferindo a liberdade da pregação. Faleceu a 20 de maio de 1444, com 64 anos, estando sepultado na igreja dos Franciscanos, em Áquila. Foi canonizado por Nicolau V, em 1450.

São João Paulo II falou várias vezes sobre São Bernardino de Sena, sobretudo para realçar a sua figura humana e a sua obra apostólica. Definiu-o como um homem de “mente aberta à fascinação da verdade e do bem, vivamente sensível às sugestões da beleza”. Como religioso, logo foi Superior local e provincial, na Toscana e na Úmbria, chegando a ser o Vigário-Geral da Observância. Cerca de 300 conventos foram por ele renovados, em Itália. Vivendo em tempos conturbados, tanto na sociedade civil como na Igreja, foi sempre coerente. Nunca se retraiu perante a situação: “espírito inteligente e prudente, compreendeu logo que era necessário vencer o mal semeando o bem, e organizou a sua pregação e o seu ministério como luta encarniçada e continua contra o pecado, chamando os cristãos, leigos e sacerdotes, humildes e poderosos, patrões e trabalhadores, à coerência de vida”. Tal como naquela época, também hoje e sempre, se exige de todo o cristão a coerência de vida, “o mundo precisa de testemunhas, convictas e intrépidas”.
A iconografia de São Bernardino é variada e rica em simbolismos. Na igreja deste convento de Santo António, em Caminha, existe a sua imagem. De hábito marrom, franciscano, com três mitras aos pés (a evocar as três dioceses), um livro aberto sobre o antebraço e mão esquerda (símbolo do seu saber e eloquência), e, na direita, segura o que talvez tivesse sido, sem agora lá estar, o monograma IHS (Jesus Salvador dos Homens). São as três primeiras letras do nome de Jesus, em grego: Ιησούς, em maiúsculas: ΙΗΣΟΥΣ, sobrepostas sobre um sol radiante, que Santo Inácio de Loyola e os jesuítas adotaram e divulgaram.
D. Antonino Dias
15-05-2026.

sábado, 18 de abril de 2026

SEM PERDER A POESIA, QUE LEITURAS NAS ESCOLAS?




Embora seja importante, não sei escrever sobre que livros se devam ler nas escolas. Apesar de concordar que “não há maior fragata que um livro para nos levar a terras distantes”, como afirmava Emily Dickinson, não me sinto à altura de o fazer. Acredito, no entanto, que seja uma grande e justa preocupação em quem tem essa responsabilidade. Além disso, também não estou dentro da verdadeira causa da iniciativa e dos parâmetros estabelecidos para analisar tal questão, quer se trate de saber se há alguma toxicidade nas leituras que estão em uso, quer se trate de mera rotina a confirmar a sua potabilidade, quer se trate de escolher fontes mais empáticas, capazes de provocar uma maior procura dessas águas em prol da saúde pública dos estudantes e do seu desenvolvimento integral. Presumo, no entanto, que, criar o gosto pela leitura, incutir a estima e a gratidão por quem tem o dom e a arte de escrever, apreciar o estilo do autor e levar a interpretar e a saber triar o conteúdo daquilo que se lê, com verdadeiro sentido crítico, é bem mais importante do que temperar o que se deve ler com o sal da obrigatoriedade ou o piripiri de qualquer ideologia.
A minha intenção está em reiterar o apelo do Papa Francisco na sua última Carta Encíclica: é preciso regressar ao coração. Se a preocupação dos pais, dos formadores e professores, isto é, se a preocupação de quem educa, ensina e forma, também incluir a necessidade de formar o coração dos seus educandos, o mundo terá muita mais beleza e encanto! Até evitaremos os tiranos, os egocêntricos e gananciosos, o individualismo doentio!
Hoje aposta-se muito na formação da inteligência, no conhecimento, na defesa dos valores da liberdade, da vontade... e bem, são valores evangélicos. No entanto, se as leituras que se procuram, além do interesse cultural ajudarem a que as ações das pessoas “sejam colocadas sob o ‘controle político’ do coração, que a agressividade e os desejos obsessivos sejam acalmados no bem maior que o coração lhes oferece e na força que ele tem contra os males; que a inteligência e a vontade sejam também postas ao seu serviço, sentindo e saboreando as verdades em vez de as querer dominar, como algumas ciências tendem a fazer; que a vontade deseje o bem maior que o coração conhece, e que a imaginação e os sentimentos se deixem também moderar pelo bater do coração”, então, todos lucraremos, pois cada um será o seu coração, será o coração que o distingue, o molda, o põe em comunhão com os outros, o torna possível de qualquer vínculo autêntico, o faz ultrapassar a fragmentação do individualismo. A desvalorização deste centro íntimo do homem, porém, vem de longe, diz o Papa. Ele “teve pouco espaço na antropologia e é uma noção estranha ao grande pensamento filosófico. Preferiram-se outros conceitos, como a razão, a vontade ou a liberdade. O seu significado permanece impreciso e não lhe foi atribuído um lugar específico na vida humana”. No entanto, ao não se dar o devido valor ao coração, dizia Francisco, quando não “se consideram as especificidades do coração, perdemos as respostas que a inteligência por si só não pode dar, perdemos o encontro com os outros, perdemos a poesia. E perdemos a história e as nossas histórias, porque a verdadeira aventura pessoal é aquela que se constrói a partir do coração. No fim da vida, só isto contará”.
Levar o coração a sério, reformá-lo com “os olhos postos no mundo inteiro e naquelas tarefas que podemos realizar juntos para o progresso da humanidade” terá verdadeiras consequências sociais, a sociedade mundial recuperará o seu coração, pois os “desequilíbrios de que sofre o mundo atual estão ligados com aquele desequilíbrio fundamental que se radica no coração do homem”. Neste mundo líquido, “é necessário voltar a falar do coração; indicar onde cada pessoa, de qualquer classe e condição, faz a própria síntese; onde os seres concretos encontram a fonte e a raiz de todas as suas outras potências, convicções, paixões e escolhas. Movemo-nos, porém, em sociedades de consumidores em série, preocupados só com o agora e dominados pelos ritmos e ruídos da tecnologia, sem muita paciência para os processos que a interioridade exige. Na sociedade atual, o ser humano corre o perigo de se desorientar do centro de si mesmo. O homem contemporâneo encontra-se com frequência transtornado, dividido, quase privado de um princípio interior que crie unidade e harmonia no seu ser e no seu agir. Modelos de comportamento infelizmente bastante difundidos, exaltam a sua dimensão racional-tecnológica ou, ao contrário, a instintiva. Falta o coração”.
É, pois, “necessário recuperar a importância do coração quando nos assalta a tentação da superficialidade, de viver apressadamente sem saber bem para quê, de nos tornarmos consumistas insaciáveis e escravos na engrenagem de um mercado que não se interessa pelo sentido da nossa existência”. O coração é o “centro unificador que dá a tudo o que a pessoa experimenta um substrato de sentido e orientação”. É “o lugar da sinceridade, onde não se pode enganar ou dissimular”. Ele costuma “indicar as verdadeiras intenções, o que se pensa, se acredita e se quer realmente”. É no coração “que se decide tudo: ali não conta o que mostramos exteriormente ou o que ocultamos, ali conta o que somos. E esta é a base de qualquer projeto sólido para a nossa vida, porque nada que valha a pena pode ser construído sem o coração. As aparências e as mentiras só trazem vazio”.

Antonino Dias
Caminha, 17-04-2026.

sexta-feira, 27 de março de 2026

IMAGEM MARCANTE!... HISTÓRICA!... INESQUECÍVEL! ...



Março de 2020, dia 27, sexta-feira!
 Dia chuvoso aquele, dramático e triste! Ao entardecer, numa Praça habituada a multidões diárias, mas totalmente vazia, Francisco, sozinho, em direto para todo o mundo, sobe vagarosamente aquela praça sob o olhar atento e meigo de crentes e não crentes. Foi um momento solene e comovente, para, qual rocha firme em papel de Pedro, como interlocutor da solidariedade humana e da esperança no Senhor da vida, abraçar a Humanidade sofrida e fazer da Palavra de Deus e da oração um gesto extraordinariamente solidário, espiritualmente unificador, pedindo ao Senhor a bonança no meio daquela tempestade pandémica.
Como ele afirmou, “Densas trevas cobriram as nossas praças, ruas e cidades; apoderaram-se das nossas vidas, enchendo tudo dum silêncio ensurdecedor e um vazio desolador, que paralisa tudo à sua passagem: pressente-se no ar, nota-se nos gestos, dizem-no os olhares. Revemo-nos temerosos e perdidos. À semelhança dos discípulos do Evangelho, fomos surpreendidos por uma tempestade inesperada e furibunda. Demo-nos conta de estar no mesmo barco, todos frágeis e desorientados mas ao mesmo tempo importantes e necessários: todos chamados a remar juntos, todos carecidos de mútuo encorajamento. E, neste barco, estamos todos. Tal como os discípulos que, falando a uma só voz, dizem angustiados “vamos perecer”. E o Papa reconhecia que no meio de toda esta história, muitos companheiros de viagem, muitas pessoas habitualmente esquecidas, escreveram “os acontecimentos decisivos da nossa história: médicos, enfermeiros e enfermeiras, trabalhadores dos supermercados, pessoal da limpeza, curadores, transportadores, forças policiais, voluntários, sacerdotes, religiosas e muitos - mas muitos - outros que compreenderam que ninguém se salva sozinho. Perante o sofrimento, onde se mede o verdadeiro desenvolvimento dos nossos povos, descobrimos e experimentamos a oração sacerdotal de Jesus: «Que todos sejam um só» (Jo 17, 21). Quantas pessoas dia a dia exercitam a paciência e infundem esperança, tendo a peito não semear pânico, mas corresponsabilidade! Quantos pais, mães, avôs e avós, professores mostram às nossas crianças, com pequenos gestos do dia a dia, como enfrentar e atravessar uma crise, readaptando hábitos, levantando o olhar e estimulando a oração! Quantas pessoas rezam, se imolam e intercedem pelo bem de todos! A oração e o serviço silencioso: são as nossas armas vencedoras”.
Francisco baseara a sua reflexão em Mc 4, 35-41, quando os discípulos, aflitos no meio duma tempestade no mar da Galileia, acordam Jesus que dormia sossegado na proa do barco e lhes disse: “Porque sois tão medrosos? Ainda não tendes fé?”. A pandemia, tal como esta “tempestade – dizia Francisco - desmascara a nossa vulnerabilidade e deixa a descoberto as falsas e supérfluas seguranças com que construímos os nossos programas, os nossos projetos, os nossos hábitos e prioridades. Mostra-nos como deixamos adormecido e abandonado aquilo que nutre, sustenta e dá força à nossa vida e à nossa comunidade. A tempestade põe a descoberto todos os propósitos de ‘empacotar’ e esquecer o que alimentou a alma dos nossos povos; todas as tentativas de anestesiar com hábitos aparentemente ‘salvadores’, incapazes de fazer apelo às nossas raízes e evocar a memória dos nossos idosos, privando-nos assim da imunidade necessária para enfrentar as adversidades. Com a tempestade, caiu a maquilhagem dos estereótipos com que mascaramos o nosso ‘eu’ sempre preocupado com a própria imagem; e ficou a descoberto, uma vez mais, aquela (abençoada) pertença comum a que não nos podemos subtrair: a pertença como irmãos”.
“Porque sois tão medrosos? Ainda não tendes fé?”. Francisco afirmava que esta palavra de Jesus “atinge e toca-nos a todos. Neste nosso mundo, que Tu amas mais do que nós, avançamos a toda velocidade, sentindo-nos em tudo fortes e capazes. Na nossa avidez de lucro, deixamo-nos absorver pelas coisas e transtornar pela pressa. Não nos detivemos perante os teus apelos, não despertamos face a guerras e injustiças planetárias, não ouvimos o grito dos pobres e do nosso planeta gravemente enfermo. Avançamos, destemidos, pensando que continuaríamos sempre saudáveis num mundo doente. Agora, nós, sentindo-nos em mar agitado, imploramos-Te: “Acorda, Senhor!”. Nesta Quaresma, dizia o Papa, ressoa este apelo urgente: “Convertei-vos…”. Um apelo sempre atual: é “o tempo de decidir o que conta e o que passa, de separar o que é necessário daquilo que não o é. É o tempo de reajustar a rota da vida rumo a Ti, Senhor, e aos outros (...) Não somos autossuficientes, sozinhos afundamo-nos: precisamos do Senhor como os antigos navegadores, das estrelas. Convidemos Jesus a subir para o barco da nossa vida. Confiemos-Lhe os nossos medos, para que Ele os vença. Com Ele a bordo, experimentaremos – como os discípulos – que não há naufrágio. Porque esta é a força de Deus: fazer resultar em bem tudo o que nos acontece, mesmo as coisas ruins. Ele serena as nossas tempestades, porque, com Deus, a vida não morre jamais”.

D. Antonino Dias
Caminha, 27-03-2026.

sexta-feira, 20 de março de 2026

UM JOVEM CRIMINOSO A CAMINHO DOS ALTARES?!...


Sim, é verdade! A sua Quaresma fê-lo entender, desejar e viver a vida nova do Mistério Pascal! Se a sua conversão comoveu multidões, não deixou de ser escândalo para uns, loucura para outros e indignação para puritanos, desconfiados, maldizentes e ciumentos sem pecado. O que interessa, porém, é que foi uma sublime e feliz surpresa de Deus para todos quantos acreditam que não há pecado, por mais grave que seja, que retraia Deus Pai, rico em Misericórdia, de vir ao encontro de qualquer filho pródigo para lhe reiterar, com um abraço e lágrimas de alegria e festa, a sua proposta de amor, de vida e liberdade, de regresso a casa, de salvação! Recordemos então Jacques Fesch, nascido de família abastada a 6 de abril de 1930, em Saint-Germain-en-Laye, França, sendo decapitado aos 27 anos de idade, depois de três anos na prisão de Santé, Paris. Está em curso o seu processo de beatificação.
Sem gosto pelos estudos, na Alemanha combateu pelo exército francês. Após o serviço militar, arranjaram-lhe emprego com alto salário, sendo demitido após três meses. Com vida mundana e fama de playboy, casou aos 21 anos, com Pierrette, filha duma vizinha, da qual nasceu a filha Verónica. Os seus pais, porém, não aceitaram bem a nora por ser filha de pai judeu, eram antissemitas. Sem que o casamento lhe alterasse os modos de vida, nasceu-lhe Gerardo, um filho bastardo que foi entregue aos cuidados de um orfanato. Desnorteado, inquieto, divorciado, pensou aliviar-se, navegando à vota do mundo. Seus pais, tendo-o como sonhador e mais o quê, não aceitaram o seu pedido de ajuda para comprar um barco e iniciar a viagem. Porque estava com ela ferrada, não desiste da ideia e tenta resolver a situação junto de um cambista famoso. Dirige-se à casa de câmbio, aponta um revolver e exige o dinheiro guardado na registadora. O cambista reage e é atingido com duas coronhadas na cabeça. Fugindo com a quantia roubada por rua movimentada, depara-se com um policia que havia sido alertado e lhe ordena que se entregue. Em vez disso, dispara sobre o polícia e mata-o. A multidão persegue furiosa o assassino, que, continuando a disparar, ainda atinge uma jovem no pescoço, mas logo se rende e é preso. Os ecos do crime soaram ao longe. O homicida não era um qualquer fulano, era o filho do diretor de um banco belga instalado em França. Sem manifestar arrependimento, limita-se a dizer, sarcasticamente, que só se arrepende “de não ter usado uma metralhadora”. Já na prisão, à espera de julgamento, disse ao Capelão: “Não tenho fé. Não se preocupe comigo”. Se o Capelão não deixou de se preocupar com ele, também o seu advogado, que era católico convicto, decide batalhar não só para lhe salvar a vida, mas, sobretudo, para lhe salvar a alma. Dizem as crónicas que, Jacques, com o passar do tempo começou a sentir uma angústia profunda. Não só pela vergonha a que sujeitou a sua família, mas também pela pena a que iria ser condenado. Pirrónico e descrente, chegou a ponderar dar cabo da própria vida. No entanto, Deus tem os seus caminhos e o caminho faz-se caminhando, mesmo que difícil e lentamente. Enquanto o seu crime corria pelas salas dos tribunais à procura de justiça, o jovem criminoso, na solidão da sua cela, lia o que lhe chegava às mãos. Embora sem formação cristã - seu pai era ateu e de vida pouco recomendável -, também o Capelão e o seu Advogado lhe facilitavam leituras espirituais. Tocado pelo que lia, ficou profundamente sensibilizado pelas pessoas de Francisco de Assis, Teresinha do Menino Jesus e Teresa de Ávila. Na noite de 28 de fevereiro de 1955, passou por uma experiência mística que o abalou seriamente. É ele que escreve: “Estava deitado, olhos abertos, realmente a sofrer pela primeira vez na vida. Repentinamente, um grito saiu de meu peito, uma súplica por ajuda – Meu Deus – e, como um vento impetuoso que passa sem que soubesse de onde vem, o Espírito do Senhor me agarrou pela garganta. Tive a impressão de um infinito poder e de uma infinita bondade que, daquele momento me fez crer com convicção que nunca estive abandonado”.
Em tempo, a um amigo seu confiou: “agora tenho verdadeiramente a certeza de começar a viver pela primeira vez. Estou em paz e dei um sentido à minha vida, enquanto antes não era mais que um morto vivo”. Isolado na sua pequena cela, comunica a sua fé em cartas que se tornaram objeto de leitura e reflexão para muitos jovens. Depois da conversão, levou uma vida ascética, afirmando que existem duas formas de viver na cadeia: a de se revoltar contra a sua própria situação, ou a de adotar um estilo de vida conventual. Após quase três anos de espera, Jacques foi levado ao julgamento definitivo onde mostrou sincero arrependimento. Não obstante a eloquência do advogado e as suas lágrimas de contrição, houve unanimidade em o condenar à morte. Agendada a data da decapitação, procurou aguardar a execução em paz e oração, tendo-a como uma forma de santificação. E se a sua última esperança fosse a absolvição, aceitou a sentença como ocasião de graça, sem odiar aqueles que o haviam condenado a tal destino. A sua conversão comoveu a sociedade. Nas vésperas da execução, escreveu: “Último dia de luta; amanhã, a esta hora, estarei no Céu! O meu advogado acaba de me dizer que a execução se realizará amanhã, lá pelas quatro horas da manhã. Que se faça a vontade do Senhor em todas as coisas! Tenho confiança no amor de Jesus (...). Devo fortalecer a vontade e, para isso, penso na procissão dos decapitados que honram a Igreja. Serei eu mais fraco do que eles? Deus me livre disso!”
Às 5H30 do dia 1 de outubro de 1957, festa de Santa Teresinha, os guardas foram buscá-lo para a morte e encontraram-no de joelhos, em oração, ao lado da cama: “Senhor, não me abandones, eu confio em Ti” – foram as suas últimas palavras. Apesar de uma vida condenável, Jacques viveu a sua Quaresma. Soube ouvir a voz de Deus e, de forma exemplar, inverter a marcha.
D. Antonino Dias
Caminha, 20-03-2026.

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2026

‘DE ANDARILHOS SEM RUMO A SENTINELAS VIGILANTES’



Este mundo admirável tem mesmo razões para estar agoniado! Corrupção de snobs, príncipes, líderes e ‘meninos’ bem, ambições imperialistas, promoção do caos, desrespeito do Direito assumido, sabotagens provocadoras, ciberataques, apagões, desinformação, desprezo, ódios, intrigas, libertinagem, escândalos, racismo, instabilidade, discursos gritados, insonsos e crispados, autorreferencialidade, violência familiar e social, banalização do respeito mútuo, guerras intermináveis e outras a espreitar, mortes sem fim...
Que bom seria se o avanço das ciências e das artes, da educação e do bom senso, das sensibilidades e dos gostos contribuíssem, sim, para fazer surgir uma natural e comum urbanidade e uma nova ordem política, social e económica, que servisse cada vez mais e melhor, que permitisse afirmar e desenvolver a dignidade própria de cada pessoa, de cada grupo, de toda a comunidade humana, privilegiando a cultura da paz e da justiça, da solidariedade e da fraternidade, da diversidade na coesão!
Quando o homem se enche de nove horas pelo que tem, produz e desenvolve, julgando ter o seu deus na barriga; quando, deslumbrado, deixa trepar aos pirolitos que o importante é ter poder e em quem mandar, nem que seja numa cabra; quando, seja lá pelos meios que for, alcança esse tal poder, facilmente se esquece de onde vem e para onde vai. Logo descarrila para becos sombrios e insalubres, optando por uma vida sem rumo nem limites para desgraça de si próprio e de muitos. Mui rapidinho, logo se confirma a monumental sabedoria do povo: “se queres ver o vilão, mete-lhe a vara na mão! Será muito pior que um macaco numa loja recheada de louça! Muito pior que uma raposa faminta num galinheiro abastecido, sempre com mais olhos que barriga, pois até mata mais do que come! A História da humanidade, se é rica em tais exemplos, não o é menos em amnésias sobre essas realidades. Logo esquece o mal estar e os sacrifícios que passou, teimando em voltar ao mesmo sítio ou situação, apanhando ainda mais e com mais força. A sua memória é muito mais que curta, é curtíssima, é memória de peixe dourado! No entanto, mesmo que o homem desconfie dos outros homens, queira dominá-los e os faça sofrer, mesmo que até desconfie do próprio Deus, Deus, porém, na sua paciência infinita, não lhe tira o tapete de debaixo dos pés nem o despede, continua a acreditar nele e na sua liberdade. Deseja que cada um seja feliz e a cada um veio dizer que ele, o homem, do que mais precisa é de Salvação. Foi por causa da Salvação do homem que Jesus, num gesto de amor de Deus Pai para connosco, veio até nós e por nós se ofereceu. Amou-nos até ao fim, na cruz! Salvou-nos e quer que todos nos salvemos e sejamos, desde já, cidadãos do seu Reino de Justiça, de amor e de paz, onde tem preparado para aqueles que o amam o que nem sequer conseguimos imaginar (cf. 1Cor 2,9).
Roberto Pasolini, pregador da Casa Pontifícia, no passado Advento afirmava que, para isso, não podemos ser “andarilhos sem rumo”, mas “sentinelas que, na noite do mundo, mantêm humildemente a sua fé”. A humanidade não deveria esquecer "a necessidade da Salvação”. Não deveria preocupar-se tanto em cuidar as aparências da sua imagem. Não deveria diminuir a radicalidade do Evangelho nem ignorar “a direção para a qual o Reino de Deus continua a mover-se dentro da história”. Não deveria desprezar a importância desse “dom da Salvação universal que a Igreja humildemente celebra e oferece”. A Humanidade não quer mesmo entender!
E ninguém está isento ou acima deste jeito contumaz da humanidade. É por isso que a Quaresma é tempo de avaliação e discernimento. É contraproducente reduzir a fé a uma mera ética, esvaziando-a da sua dimensão transcendental, do seu encontro com Cristo, do viver em graça, permanecendo no pecado. É desaconselhado reduzir a liturgia em que se participa a uma simples cerimónia, despida de ato de culto e de santificação própria, sendo apenas apreciada e aplaudida como um mero show, à qual se assiste sem se participar, ou contra ela se vocifera porque foi uma seca quando a seca pode estar dentro de quem assim reclama. É contraindicado reduzir a vida cristã a moralismos, a um conjunto de regras, proibições e comportamentos alicerçados mais no fazer do que no ser, mais no cumprimento farisaico do que na transformação interior pela graça, pensando que os outros, os não cumpridores, é que têm de bater com a mão no peito. É inútil haver admiradores de quem pratica a caridade, se, também por esse testemunho, tais admiradores não são capazes de levar as mãos aos próprios bolsos para também partilharem com os pobres ou causas nobres. A caminhada quaresmal, a conversão, pede a renovação constante da própria vida.
Esta renovação quaresmal passa:
--- Pela escuta da Palavra de Deus, pois há “um vínculo entre o dom da Palavra de Deus, a hospitalidade que lhe oferecemos e a transformação que ela realiza”.
--- Pela oração, alicerce da conversão, da intimidade com Deus, da resistência ao pecado, da preparação para a Páscoa.
--- Pelo jejum, abstinência e outras formas de privação, as quais constituem “uma prática concreta que nos predispõe a acolher a Palavra” e a pô-la em prática, inclusive, evitando o desperdício de energia, água e alimentos, e cultivando a delicadeza na linguagem: “na família, entre amigos, nos locais de trabalho, nas redes sociais, nos debates políticos, nos meios de comunicação social, nas comunidades cristãs”.
--- Pela esmola, fruto da generosidade, do jejum, da abstinência e doutras privações que se fazem para partilhar com os pobres ou com outras causas nobres, sem esquecer que a melhor esmola é dar-se.

D.Antonino Dias
Caminha, 20-02-2026.

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2026

A QUARESMA DA INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL




Todos sabemos que o problema não está em ter assuntos importantes para escrever. Albert Einstein terá dito: “Duas coisas são infinitas: o universo e a burrice humana. Mas a respeito do universo ainda tenho dúvidas”. A respeito das temáticas importantes sobre as quais se pode escrever, também eu não tenho dúvidas, são mesmo como a burrice humana, são infinitas! O problema está em saber sobre qual delas, sem doidejar nem pôr a paciência a pique, sobre qual delas é que é importante escrever! Acho, porém, que escrever sobre a Quaresma, agora que ela está mesmo à bica, é tema mais que importante, mesmo que gente muito importante não enxergue a sua importância.
Porque, em horas de sonolência, o pensar me estava a dar cá uma trabalheira dos diabos, ainda por cima com este tempo assanhado sem sombra de chaparro à mão de semear, por curiosidade, mas de pé atrás pelo que me poderia dizer, perguntei à Inteligência Artificial (IA) que pistas me dava para escrever e aconselhar boas práticas para que esta Quaresma fosse, de facto, bem vivida por gente de boa vontade. E..., imaginem só!... a própria IA, clara e rápida, não achou a Quaresma ultrapassada nem manifestou qualquer discriminação entre gente de boa vontade e gente de má vontade. Na minha ciclópica ignorância sobre tal matéria, arrisco a dizer que isso deve ter muito a ver com os segredos dos algoritmos!... Estes, porém, embora não tenham comparação possível, fazem-me lembrar os segredos pontifícios, aqueles que nem o Papa sabe!... Tal como Deus não faz - e ensinou a que não fizéssemos -, também ela, a IA, não fez acessão de pessoas. A todos, mesmo àqueles que partilham do banquete do progresso mal-entendido, das guerras e quejandos, aconselhou as sempre atuais e necessárias práticas, práticas, pelos vistos, nunca ultrapassadas, mesmo que venham de muitíssimo antes dos afonsinhos. E reparem que até ao momento, a IA é o maior dos espirros da inteligência e do progresso humano, embora outros se venham a seguir bem mais estrondosos e admiráveis, suponho eu! Para ela, supina inteligência artificial, somos todos usuários desta ‘cebola cósmica’ a descascar lacrimosamente, onde toda a gente está convidada a abraçar o tempo santo da Quaresma. É um tempo favorável para limpar as ervas daninhas, as poeiras e as lamas da vida. E também o é para varrer as teias d’aranha que sempre teimam em enxamear os olhos, a mente e o coração, com grave influência no rodopio da vida pessoal e familiar, nos hábitos e tinos sociais. Se por todos vivida, em verdade e alegria, até as lágrimas ajudarão a lavar os olhos, o coração e a mente, afastando ódios e vinganças, peneiras e orgulhos, guerras e ganâncias, desprezos e descartes, violências e mortes, indiferenças e línguas maldosas e viperinas...
Eis, ‘ipsis verbis’, o que a IA me disse:
“A Quaresma é um tempo litúrgico de 40 dias - de Quarta-feira de Cinzas até à Quinta-feira Santa - focado na conversão, preparação para a Páscoa, penitência e oração.
A vivência bem-sucedida deste período baseia-se tradicionalmente no "tripé" quaresmal: oração, jejum e esmola.
Aqui estão algumas pistas práticas baseadas na tradição católica para uma Quaresma bem vivida:
1. Oração: Intensificar o Relacionamento com Deus
- Mais Tempo de Oração: Reserve um tempo diário, em silêncio, para rezar, preferencialmente meditando a liturgia diária ou lendo a Sagrada Escritura.
- Via Sacra: Reze a Via Sacra (seja na igreja ou em casa) para meditar sobre o sacrifício de Jesus.
- Adoração e Missa: Participe com mais frequência na Santa Missa, comungando, e dedique tempo à adoração semanal.
- Rezar o Terço: Dedique-se à oração do terço diariamente.
2. Jejum e Penitência: Desapego e Conversão
- Jejum de Alimentos: Cumprir o jejum e a abstinência de carne na Quarta-feira de Cinzas e na Sexta-feira Santa.
- Jejum da Língua: Evite fofocas, calúnias, reclamações e procure falar bem dos outros.
- Jejum Digital/Renúncias: Reduza o tempo nas redes sociais, televisão, jogos ou evite doces/bebidas alcoólicas.
- Mortificação: Pratique pequenas renúncias diárias para treinar a vontade e elevar a mente a Deus.
3. Esmola: Caridade e Solidariedade
- Ajudar os Necessitados: O valor economizado com os jejuns pode ser doado a quem precisa.
- Atos de Caridade: Realize ações concretas de solidariedade, como visitar doentes ou ajudar alguém próximo.
- Doação de Bens: Faça uma limpeza no guarda-roupa ou na casa e doe o que não utiliza.
4. Mudança de Vida e Conversão
- Confissão: Faça um bom exame de consciência e procure o sacramento da Reconciliação (confissão) para se preparar para a Páscoa.
- Leitura Espiritual: Separe minutos da rotina para ler bons livros espirituais ou a Bíblia.
- Praticar a Virtude: Foque na humildade, paciência e resiliência no dia a dia.
- Cuidado com a Casa Comum: Evite o desperdício de energia, água e alimentos.
-- Dica chave: Não tente fazer tudo de uma vez. Escolha um propósito concreto e viva-o com intensidade, preferencialmente com o auxílio do Espírito Santo.”
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Esta manhã, em Roma, foi publicada a Mensagem do Santo Padre para a Quaresma 2026, sob o tema: “Escutar e jejuar - Quaresma como tempo de conversão”.
D. Antonino Dias
13-02-2026.

sábado, 7 de fevereiro de 2026

MATRIMÓNIOS FELIZES – FILHOS AGRADECIDOS!...

                       

Todos os anos, no segundo Domingo de fevereiro, bem próximo do Dia dos Namorados, celebra-se o Dia Internacional do Matrimónio. Nasceu na década de oitenta do século findo, num grupo de casais do Movimento Encontro Matrimonial. Um movimento de espiritualidade conjugal e familiar já presente em mais de cem países, incluindo Portugal. Este Dia pretende homenagear os casais, celebrar o amor e o diálogo conjugal, destacar a beleza e a importância do compromisso, promover a união familiar vivida em alegria e fidelidade, fortalecer a instituição familiar.
Casamento e Matrimónio, palavras usados como sinónimas, fazem alguma diferença. O Casamento acontece com um ato jurídico, celebrado perante a lei civil, entre um homem e uma mulher, para formalizar a união e definir direitos e obrigações. O Matrimónio, por sua vez, está associado à união sagrada, sacramental. Tem conotações teológicas, espelha o ‘sonho de Deus’ para a humanidade, representa a união de Cristo com a Igreja. Quando só civil, mesmo entre não batizados, o Casamento também é irrevogável, indissolúvel. É uma aliança que, pela lei natural, se destina a durar até à morte de um dos cônjuges. E os filhos agradecem! No início da criação, Deus os fez homem e mulher. O homem deixará seu pai e sua mãe e se unirá à sua esposa e serão dois numa só carne (cf. Gn 2, 24). Embora assim não se queira entender e a sua história seja complexa, a indissolubilidade vem desde o princípio, funda-se no amor que, por sua natureza, exige compromisso total e definitivo, para bem de cada um dos cônjuges e dos filhos. Mais tarde, Cristo elevou essa união de um homem e de uma mulher ao nível de Sacramento, sendo para a Igreja a lembrança permanente do que aconteceu na cruz. Os esposos “são um para o outro, e para os filhos, testemunhas da salvação, da qual o sacramento os faz participar”.
Na fé, é possível assumir os bens do Matrimónio como compromissos que se podem cumprir melhor com a ajuda da graça do Sacramento. Este, porém, não é uma simples “convenção social, um rito vazio ou o mero sinal externo dum compromisso”. Não é uma ‘coisa’, nem ‘uma força’. Nem se vai buscar ou comprar à Igreja. O Sacramento celebra-se na comunidade e vive-se no quotidiano da vida. Embora a celebração tenha um princípio e um fim, não é um rito passageiro, vazio, uma mera burocracia. É uma graça, uma ação durável, permanente, a sustentar a vida cristã de quem o celebra. Trata-se dum encontro real com Cristo. É o próprio Cristo que “vem ao encontro dos esposos cristãos, fica com eles, dá-lhes a coragem de o seguirem, tomando sobre si a sua cruz, dá-lhes a coragem de se levantarem depois das quedas, de se perdoarem mutuamente, de levarem o fardo um do outro” (cf. AL). É um dom para a santificação e a salvação dos esposos.
No entanto, tudo o que é dom de Deus implica tarefa humana. O dom não age automaticamente. Se a vida é um dom, eu tenho de procurar viver com dignidade, com respeito absoluto pela minha vida e pela vida dos outros. Se a fé é um dom, eu tenho de o alimentar e de o viver de forma coerente, com adesão pessoal a Deus e amor para com o próximo. Se o Sacramento é um dom, um encontro preparado e pessoal na amizade com Cristo, eu devo-o acolher com abertura de coração e aceitar todas as consequências que daí advêm para a transformação da minha vida quotidiana: cristã, familiar e social. Unidos, pois, em Matrimónio, num projeto de vida comum baseado no amor, na fidelidade e no acolhimento, homem e mulher devem assumir como essencial para a sustentação, fortalecimento e vivência dessa união conjugal, deitar mão daqueles meios que Jesus a todos aconselhou: humildade, oração, vigilância, atenção mútua, inserção na comunidade, participação, companheirismo, capacidade de colocar a felicidade do outro acima dos próprios interesses. Trata-se de um ‘sim’ livre e generoso, capaz de superar desafios e dificuldades para construir uma família, uma comunidade de vida e de amor, cuja construção implica paciência, perdão, amadurecimento diário, fortaleza, tempo e graça de Deus. É verdade que sempre surgem dificuldades, problemas, sofrimento. O importante, porém, é que nunca se perca o entusiasmo da primeira hora, que se reaviva a fé e a graça sacramental, que tudo se vá superando, tantas vezes sabendo perder para se ganhar.
A celebração deste Dia pode incluir celebrações religiosas ou civis, a renovação da aliança, a bênção dos casais e iniciativas várias para a valorização da mais pequenina e importante das comunidades humanas. Paralelamente a todas as atividades que envolvam as comunidades, muitas famílias dão continuidade à celebração deste dia, paredes dentro as suas próprias casas. Sabem remar contra a maré, a qual tende a desvalorizar o valor incontornável da família. Vão renovando e fortalecendo aquele interesse pela santificação mútua e pela educação na fé de todos os seus membros, a começar pelos mais pequeninos. Nenhuma família deverá contribuir, com o seu silêncio e a sua falta de testemunho, para que os seus mais próximos não façam a sua experiência de fé, com determinação e alegria.9



D. Antonino Dias
Caminha, 06-02-2026.










sábado, 17 de janeiro de 2026

DE PRESIDENTE DA REPÚBLICA A BOLO SIDÓNIO





Será que um Presidente da República pode ser simbolizado por um simples pastel ou bolo?!... Acho que sim! No entanto, sempre dependerá da qualidade do material e do gosto ou desgosto de quem trabalha a massa e os ingredientes que o próprio pode oferecer, mas lá isso pode. Ai pode, pode! Em Viana do Castelo, há um bolo com formato retangular, em forma de caixão fúnebre, que, em jeito de homenagem, evoca um Presidente da República. São os ‘Sidónios’, os ‘Sidónios sem ossos’, um doce feito de amêndoa, açúcar e ovos, dizem os livros. A Brasileira, no centro histórico de Viana do Castelo, junto à Sé, na Rua Sacadura Cabral 25, e que escreve a sua história desde 1902, ficou famosa por dar origem a tais doces, os "Sidónios".
Foi Domingos Amorim Viana, emigrante no Brasil e natural de Santa Marta de Portuzelo, o mestre da proeza. Não sei se amigo se desamigo de Sidónio Pais, foi ele o autor do feito e da fama que, por causa dos sidónios, a confeitaria conquistou.
Sidónio Bernardino Cardoso da Silva Pais, nasceu a 1 de maio de 1872, às 21 horas, na Rua Direita n.º 115, em Caminha. Foi eleito Presidente da República a 28 de abril de 1918 e assassinado a 18 de Dezembro do mesmo ano. Era o filho mais velho de Rita Júlia Cardoso da Silva e de Sidónio Alberto Marrocos Pais, funcionário judicial, o qual, por razões profissionais, em 1879 foi mudado para Pedrógão e mais tarde para a Sertã, sempre acompanhado pela família. Tendo-se deslocado a Dornes, a casa do amigo Cotrim Garcez, faleceu subitamente, vítima de pneumonia, o que, por estar presente, causou profunda mossa na vida do jovem Sidónio, com 11 anos de idade, futuro Presidente da República. Após esta morte, a família regressou a Caminha. Aos 13 anos, Sidónio foi para Coimbra, levado pela sua tia Claudina, com o objetivo de prosseguir os estudos. No ano letivo de 1885-86 frequentou várias disciplinas em Coimbra, vindo fazer o exame ao Liceu de Viana do Castelo. Já com as habilitações necessárias para frequentar a universidade, regressou a Coimbra, onde se inscreveu na Universidade, em 1887, no curso de Filosofia e, em 1888, no curso de Matemática. Ingressou também na carreira militar, tendo assentado praça como voluntário a 12 de dezembro de 1888, no regimento de Infantaria n.º 23 em Coimbra, onde serviu até 1889. Em Novembro de 1890, foi chamado para ingressar na Escola do Exército, em Lisboa, interrompendo o curso universitário e vindo a fazer aí o curso de Artilharia. A 2 de Fevereiro de 1895, casou com Maria dos Prazeres Martins Bessa, na Igreja de S. Gonçalo, em Amarante. Nesse mesmo ano retomou a Universidade, finalizando os bacharelatos em Matemática e Filosofia. A 24 de Julho de 1898 doutorou-se em Matemática. Foi professor catedrático, em Coimbra, de Cálculo Diferencial e Integral e eleito vice-reitor após o 5 de Outubro de 1910. Além de outros afazeres e responsabilidades diversas, foi Deputado, Ministro do Fomento, das Finanças e representante de Portugal em Berlim, acabando por ser ele também quem liderou o golpe de Estado que afastou o governo de Afonso Costa e derrubou o Presidente da República, Bernardino Machado, em dezembro de 1917. Tendo presidido à Junta Militar, em 28 de abril de 1918 foi eleito Presidente da República, nas únicas eleições presidenciais da I República, por voto direto e universal, mas restrito a cidadãos do sexo masculino. Obteve 468 275 votos. Tomou posse a 9 de maio de 1918, tendo sido aclamado na varanda dos Paços do Concelho, em Lisboa. Passado o estado de graça, sucedem-se as greves, as contestações, e as tentativas de pôr fim ao regime sidonista. Após barriga farta no Restaurante Silva, no Chiado, a 14 de dezembro de 1918, Sidónio Pais dirigia-se para a estação do Rossio, em Lisboa, para partir para o Porto. Um esquerdista republicano, José Júlio da Costa, que não morria de amores por Sidónio Pais e o tinha como ditador e traidor, aproveitou o momento para, furando o cordão policial, ripar a arma de debaixo do seu capote alentejano e o alvejar com dois tiros. Foi grande o alarido e maior o rebuliço, tendo José Júlio da Costa sido brutalmente espancado pela multidão e Sidónio Pais falecido na Sala do Banco de Urgências do Hospital de São José. Após os exames forenses e ter estado alguns dias em câmara ardente na Sala dos Embaixadores, no Palácio de Belém, o funeral realizou-se a 21 de dezembro de 1918, com um cortejo fúnebre que saiu dos Paços do Concelho em direção ao Mosteiro dos Jerónimos, onde ficou. Foi um funeral marcante na cidade de Lisboa, permitindo as homenagens da nação, com pompa e circunstância. Com a sua morte desaparecia o regime por ele fundado, isto é, a “República Nova”, a qual já tinha alterado a Constituição e introduzido um regime presidencialista, uma experiência inovadora, escreve António Araújo, “uma experiência inovadora que antecipou em vários aspetos - populismo, chefia carismática, contornos autoritários - a tendência totalitária e fascizante de vários governos desenvolvida na Europa durante o período entre as duas guerras mundiais”. A par, nascia o mito do salvador, do “Santo Sidónio, do Presidente-Rei”, como o definiu Fernando Pessoa num dos seus poemas. Estava traçado o destino da primeira República e uma crise permanente que só terminou com a Revolução Nacional de 28 de maio de 1926, pondo fim ao regime. As conveniências do Estado Novo, porém, fizeram recuperar a personalidade política de Sidónio Pais, trasladando, em 1966, dos Jerónimos para o Panteão Nacional.
No livro “O essencial sobre Sidónio Pais”, António Araújo, seu autor, termina assim: “Antes do golpe que o levou à chefia do Estado português, Sidónio Pais não se destacara em nada. Militar de baixa patente, académico sem originalidade ou rasgo, parlamentar apagado e ministro efémero, diplomata no Reich que só falou com o imperador uma vez, Sidónio tornou-se, sem que ninguém o esperasse, Presidente da República e Comandante em Chefe das Forças de Terra e Mar. Este livro acompanha a vida daquele a quem muitos chamaram «Presidente-Rei», numa tentativa de explicar as causas para a sua ascensão meteórica e para o mito que ainda hoje o rodeia”.
Senhor Empregado de Mesa, saia, por favor, um Sidónio e um galão!...

D. Antonino Dias
Caminha, 16-01-2026.


sábado, 3 de janeiro de 2026

DAS TERRAS DO ADUFE ÀS DO TRIQUILITRAQUE E DA COCA





O mito popular diz que o cão dá sete voltas antes de se deitar. Quer convencer a malta de que se trata da fidelidade do cão ao seu legado selvagem, quer na descoberta e preparação dum espaço para descansar sem lhe doerem as costelas, quer para mirar ao redor se há possíveis predadores, quer para demarcar o seu território e fazer-se crer a si próprio que aqui quem manda sou eu.
A vida humana também dá muitas voltas, imensamente mais que sete, do que setenta vezes sete, um sem número de voltas. Se há pessoas que, de facto, as dão para fugir dos predadores humanos, a maioria dá-as para se pisgar da vida de cão, seja de cão apaparicado, menos apaparicado ou descartado. A pessoa procura o seu espaço, onde, sem ser pesada para quem quer que seja, se sentir bem e útil em família e em sociedade, a viver e a conviver sadiamente, colaborando para o bem comum na alegria e bem-estar.
Como toda a gente, também eu dei as minhas voltas. Nestes tempos que se aproximam dos últimos, porém, sem pressa nem desejo de ultrapassar quem quer que seja em direção à meta, vou dando mais algumas. Não as voltas sem sentido de quem anda por aí a dar água sem caneco. Não as voltas do vira e do volta a virar a ver se acerta o passo. Não as voltas de quem tem medo da irrelevância ou da insignificância. Não as voltas de quem se quer deitar ou fugir de predadores, mas as voltas que o bom senso aconselha a dar, com serenidade e paz.
Deixando a boa gente das terras dos adufes, da Beira Baixa, e doutras de mais abaixo, do Alentejo e Ribatejo, embora delas continue a fazer parte, regressei às terras altas do Triquelitraque ou Zaquelitraque e a outras ainda mais altas. Àquelas em que, alguém, lá nos quintos, distraindo-se com o regabofe da festa profana, ficou com remorsos por ter deixado passar a hora de cumprir o seu dever sagrado. Vergastado pela consciência, logo confidencia, mui contrito e a malhar com a mão no peito: “por causa da santa coca perdi o demo da missa!”.
Andando os meus diocesanos, colegas, amigos e o pessoal da Instituição à qual, por graça de Deus, pertenço e sirvo desde o Batismo, a perguntar-me onde é agora o meu paradeiro, aqui vou deixar o local do desembarque para quem, acossado pelo vagar, queira tomar um cimbalino comigo, aqui, na praça maior cá do burgo, ou então partilhar um vitamínico num dos pastos locais. Se não for cabrito à moda da Serra d’Arga, outra coisa será, nem que seja batatas grandes com batatas pequenas ou batatas fritas com puré. Se nada houver..., paciência! Passando um dia por Mirandela, com o apetite aguçado para saborear umas alheiras, também eu tive de confirmar, mais uma vez, que a realidade é sempre muitíssimo superior à ideia: não havia alheiras! Tempos houve, e não sei se ainda é assim, em Melgaço também não havia Águas de Melgaço, não tinha de haver. Era uma verdadeira profecia em plena concretização nestes tempos que são os nossos. Um dos atuais alistados no boletim de voto como candidato à República, esperando vencer à terceira volta, anda de coração feito em cacos por amor aos portugueses e aos seus prazeres de Baco. Porque nem de água precisam para a sanidade renal, tal candidato bate-se, com unhas e dentes, para que haja vinho nas torneiras de todos os lares de Portugal. Bem haja!... Se for Alvarinho terá o meu voto!
Perante alguma insistência, e porque Braga, familiarizada com os seus farricocos encapuzados e mui devota de São Bento, já desde o tempo dos biscainhos deixa sempre a porta aberta sem medo de que qualquer desalmado se atreva a entrar, pensei em ficar por lá. E até, se não pudesse ver os priolos em extinção na ilha de São Miguel dos Açores, poderia subir, de quando em vez, ao alto da montanha para ver Braga por um canudo e apreciar mais de perto as picardias desportivas entre bracarenses e vimaranenses. Em tempos de antanho, em que por aquelas bandas se estudava e, enfileirado, se arejavam as danações, a mente e as saudades com chapéu, batina e sapatos de fivela pelas ruas da urbe e arredores, era do monte do Picoto, se tal benesse fosse concedida, que se satisfazia esse gosto, um pouco em jeito de ver mosquitos da Índia naquele estádio 28 de maio tão malfadado pelos revolucionários de turno. Todavia, chamando à vara o discernimento, hoje tanto em voga e atarefado com importâncias e minudências, decidi ficar por mais perto, por Viana do Castelo, mesmo que fosse à distância de não poder ver a princesa Ana à varanda. Porque dela se fala há vários séculos, não só presumo que já tenha desvivido, como presumo que não seria assim tão formosa quanto aquelas jovens de Viana cuja beleza Eça de Queiroz imortalizou em livro e Pedro Homem de Melo e o médico António Eduardo de Sousa Gomes elevaram aos píncaros das danças folclóricas. Reza a lenda, porém, que foi o basbaque de um barqueiro, apaixonado pela tal Ana que vivia no Castelo, quem, sempre que a via surgir à varanda - não sei se a sacudir os tapetes, se a pôr a roupa a secar no arame, se a deitar janela fora a água de lavar os pratos, se a gritar com a vizinha por causa das galinhas que lhe pularam para a horta -, logo corria, babadinho e empurrado pela esperança no enlace, logo corria a anunciar, mui feliz e prazenteiro: ‘Vi a Ana no Castelo, vi a Ana no Castelo...!’. Quem, como toda a gente, não sabe muito sobre tão distinta matéria, mas sempre gosta de dar a sua opinião, atreve-se a dizer que foi essa a razão pela qual a princesa do Lima foi batizada com o nome de Viana do Castelo. Elegantemente debruçada sobre a foz do rio, o geógrafo e filósofo historiador Estrabão, mesmo que estrábico, já antes de Cristo igualara as águas deste rio às águas do rio Letes, o da mitologia grega. E porque as águas do Letes - diz-se! -, faziam perder a memória, até se cacareja que os soldados da infantaria pesada do exército romano não quiseram atravessar o rio Lima por terem medo de esquecer as suas origens e amores. Estranho eu, porém, que, atendendo à bravura brava, bravíssima, dos limianos, ninguém alvitre que os soldados não quiseram atravessar o rio por terem medo de que os limianos, do outro lado do rio, lhes limpassem o sebo ou lhes soltassem a vaca das cordas, fazendo-os sumir aterrorizados em calças com necessidade urgente duma barrela de água quente, com cinza e soda!... Ora vejam lá o que por aí se diz, o que eu sei que se diz, o que eu me atrevo a citar e seriamente aprofundo e aperfeiçoo neste meu trabalho mui científico, mesmo que não seja uma hodierna tese de mestrado ou doutoramento!... Mas deixemos esses grandes temas da humanidade a fazer cócegas nos decifradores de tais enigmas e desçamos ao povoado. A todos informo que, se venho duma cidade de sete conventos, de Portalegre, onde o Estado, mui piedoso e mais que pobre sem abrigo, ao assalto se meteu dentro de todos eles, irei, também eu agora, residir num convento sem me tornar eremita, frade, monge ou cartuxo. Nestes tempos, estive em casa de meus irmãos, sempre acolhedores e dedicados, com netos a traquinar em ambiente familiar sadio, como, aliás, tanto convém a todas as famílias, para bem e felicidade dos seus membros e da sociedade. Dizer-lhes que não iria ficar por ali, não lhes foi fácil de encaixar nem a mim de lhes dizer, mas sempre entendi que deveria ser assim. Por isso, embora continue perto, a partir de ontem, dia um de janeiro, e graças à hospitalidade aí existente, passei a residir no Convento de Santo António, na vila de Caminha. Neste Convento, que estica e espraia o seu olhar sobre a foz do rio Minho e o Monte galego de Santa Tecla, reside uma considerável comunidade de Irmãs Franciscanas Hospitaleiras da Imaculada Conceição. Também têm uma comunidade na Diocese de Portalegre-Castelo Branco, mais propriamente na cidade de Castelo Branco, depois de terem deixado saudades na Vila de Oleiros onde estiveram por várias décadas, a vila que, empática e simpaticamente, pesca turistas com cabrito estonado, maranhos, tigeladas, papas de carolo e vinho Callum. Hospitaleiras e Franciscanas, são filhas da Mãe Clara, isto é, foram fundadas, em Lisboa, a 3 de maio de 1871, pela nobre Senhora Libânia do Carmo Galvão Mexia de Moura Telles e Albuquerque, beatificada em 2011. Ao entrar na vida religiosa, adotou o nome de Maria Clara do Menino Jesus. É a Mãe Clara, como, com ternura e respeitosamente, a tratam as suas Irmãs e discípulas. Aos trabalhos fundacionais da Congregação também o alfacinha Padre Raimundo dos Anjos Beirão deu uma estimulante mãozinha. Aqui vivem, convivem, rezam e descansam, depois de uma vida totalmente dedicada à causa da evangelização por esse mundo fora, com uma riqueza diversificada de experiências e saberes acumulados que impressiona e testemunham.
E já agora, fazendo jus ao título deste texto e porque o vagar faz colheres, a magicação arrasta dúvidas existenciais, a cultura é a alma de um povo e define a sua identidade, cada novo Ano sempre vem espevitar a chama dormente de tais vícios e virtudes, por tudo isso e o mais que for, o leitor saber-me-á esclarecer, provando, se o Adufe e o Triquilitraque não seriam bem melhor entretenimento para Putin, Trump e quejandos? E se os ucranianos encomendassem aos monçanenses uma Coca para ser enviada aos amigos russos com sistemas avançados de guiamento, controlo e ação, não dariam estes às de vila-diogo só em ver aqueles afiados dentes e abismal boqueirão, aquela hercúlea força e tremebunda ferocidade, aquela propulsora e retalhadora cauda? Tais perguntas não são toleima, são muito pertinentes e pedagógicas. Fazem pensar e pensar dá uma trabalheira dos diabos. Trazem no ventre uma pitadinha daquela dúvida metódica de René Descartes e fogem ao teor de tantos escritos, discursos, debates, certezas, perceções, pios parenéticos e tontas pieguices de quem, dia e noite, noite e dia, só fala e escreve sobre guerra e belicistas, deprimindo quem lê ou escuta. Só avivam o que já Plutarco dizia antes de Cristo e Thomas Hobbes assumiu no seu livro Leviatã, no século XVII: “O homem é lobo do outro homem”. De supremo valor e alcance, estas perguntas até fazem rir, e “Rir é muito sério, muito útil, muito revelador, muito libertador, muito estimulante”, escreveu Miguel Esteves Cardoso ao assinalar a morte de Tom Stoppard cujo “público adorava as peças dele porque era impossível não adorar: faziam rir, faziam pensar, davam vontade de escrever e de viver. Comoviam, apetecia encená-las”.
Se, para responder a tais perguntas, o leitor precisar de pedir conselho à Meta ou à Inteligência Artificial, tenha cuidado. Elas sabem muito, a sua ciência está muito para além dos nossos oásis e arredores da sabedoria. E se reclamam forte pedalada a quem preza o conhecimento e quer viver a tempo o seu próprio tempo, também exigem olho fino e pé ligeiro no discernimento da verdade e da mentira destas e doutras coisas, pois só a verdade nos libertará!...


D. Antonino Dias
Caminha, 02/01/2026





sexta-feira, 28 de novembro de 2025

COM LEÃO XIV VIAJEMOS ATÉ NICEIA

Foi há 1700 anos que teve lugar o primeiro Concílio Ecuménico da história da Igreja. Nestes próximos dias, Leão XIV realiza a sua primeira Viagem Apostólica. Incluindo o Líbano, vai à antiga Niceia, hoje Iznik, na Turquia. Esta viagem, se pretende celebrar este acontecimento marcante na vida da Igreja, também procura promover o diálogo ecuménico e inter-religioso. Estão previstos encontros com os ortodoxos na Turquia e os muçulmanos no Líbano.
Em 325, o debate conciliar em Niceia procurava responder às questões levantadas por Ario. Este padre egípcio, de Alexandria, negava a verdadeira divindade de Jesus Cristo. Ensinava que Jesus, embora fosse a primeira e mais eminente criatura de Deus, não era Filho de Deus. As consequências deste desvio doutrinal eram enormes para os conteúdos da fé cristã, o seu cerne era posto em causa. Fiéis à Sagrada Escritura e à Tradição, os Padres Conciliares rejeitaram os ensinamentos de Ario e, baseando-se no credo batismal da Igreja local, redigiram um símbolo de fé, enxuto e claro, a conter a fé recebida, admitida e professada pelos cristãos desde a primeira hora. É o Credo Niceno-Constantinopolitano que ainda hoje rezamos, um património comum dos cristãos, a sua profissão de fé sempre atual.
A Igreja, porém, se é divina também é humana e pecadora. Os conflitos não acabaram aí, outros se desencadearam, já nesse tempo e ao longo da história, incluindo guerras, perseguições, mortes e discriminações em nome de Deus. A Constituição ‘Gaudium et Spes’ diz-nos que, nesta área, os cristãos não estão imunes de culpa nem de responsabilidades, “na medida em que, pela negligência na educação da sua fé, ou por exposições falaciosas da doutrina, ou ainda pelas deficiências da sua vida religiosa, moral e social, se pode dizer que antes esconderam do que revelaram o autêntico rosto de Deus e da religião” (GS19). Hoje, aqui e ali, infelizmente, não é muito diferente!
Leão XIV refere que o “caminho que se desenvolveu da Sagrada Escritura à profissão de fé de Niceia, à sua aceitação nos Concílios de Constantinopla e Calcedónia, passando pelo século XVI e chegando ao nosso século XXI, foi longo e linear”. No entanto, apesar da divisão dos cristãos, este Credo, universalmente vinculativo, constitui a profissão de fé comum a todas as tradições cristãs do Oriente e do Ocidente, bem como foi mantido no século XVI pelas comunidades surgidas da Reforma. Ainda hoje é fundamental para o diálogo ecuménico, propõe-nos “um modelo de verdadeira unidade na legítima diversidade. Unidade na Trindade, Trindade na Unidade, porque a unidade sem multiplicidade é tirania, a multiplicidade sem unidade é desintegração”. A divisão dos cristãos não testemunha o que Jesus desejou. Ele rezou para que todos fossem um, como Ele e o Pai são um. Por isso, a unidade dos cristãos sempre foi um desafio para a Igreja. O Concilio Vaticano II, realizado entre 1962 e 1965, publicou o decreto ‘Unitatis Redintegratio’ sobre o diálogo ecuménico e a necessidade de se promover a reconciliação e a unidade dos cristãos com base naquilo que é comum a todos. Em maio de 1995, na mesma linha de pensamento, São João Paulo II oferece-nos a Encíclica ‘Ut unum sint’, “considerada como um manifesto que atualizou os mesmos fundamentos ecuménicos estabelecidos pelo Concílio de Nicéia”. Ultimamente, a Comissão Teológica Internacional, a propósito deste aniversário do Concilio de Niceia, também publicou um importante documento sobre “Jesus Cristo, Filho de Deus, Salvador”. Baseado nele, Leão XIV, no dia 23 deste mês de novembro, Solenidade de Nosso Senhor Jesus Cristo Rei do Universo, escreveu-nos a Carta Apostólica “In Unitate Fidei”, com a finalidade de “aprofundar a importância e a atualidade não só teológica e eclesial, mas também cultural e social do Concilio de Niceia”.
A resposta à pergunta que Jesus fez aos discípulos em Cesareia de Filipe continua a ser feita por Jesus a cada um de nós: “Quem dizeis que eu sou?” (Mt 16, 15). Da resposta que lhe dermos depende o estilo de toda a nossa vida cristã. Ou nos comprometemos a seguir Jesus como Mestre e Senhor, como companheiro, irmão e amigo, como Filho de Deus vivo que “pela nossa salvação desceu do céu e morreu ‘por nós’ na cruz, abrindo-nos o caminho para uma vida nova com a sua ressurreição e ascensão”, ou nos acomodamos ao rame-rame duma vida que assumimos como cristã mas que não passa dum ateísmo prático, sem amor à camisola nem compromisso com o mundo, a sociedade e a nossa própria conversão e santidade.
Leão XIV, no documento citado, propõe-nos o Credo de Niceia como guião para uma espécie de exame de consciência sobre o significado de Deus na nossa vida, como testemunhamos a fé n’Ele, como tratamos o que Ele criou e nos servimos do que nos ofereceu com tanto amor e entrega de si próprio.

D. Antonino Dias


sexta-feira, 3 de outubro de 2025

QUEM DISSE QUE NÃO SÃO CONTAS DO SEU ROSÁRIO?!...



Avanço tecnológico, acesso à informação, integração global, inteligência artificial, mobilidade constante, diversidade cultural, participação cívica, capacidade de mobilizar para causas sociais, são caraterísticas do nosso tempo. Escrevendo assim, poupo o leitor àquele chorrilho de coisas e loisas negativas com que tantas vezes se define a pessoa e a sociedade de hoje. Não sei se isso acontece por demasiado pessimismo, se para embelezar o discurso, se para fazer passar a ideia de que não se está em jejum em tais análises sociológicas, se, dado o tema a desenvolver, tem mesmo de ser. O povo diz que não se deve bater no ceguinho, mesmo que o ceguinho não seja cego mas prefira não ver. Alguém me dirá que isso não são contas do meu rosário, que não tenho nada a ver com isso, que me estou a meter onde não sou chamado. Admito, e podem crer que não vou prender o burrinho por causa disso, nem sair da sala, nem esgrimir argumentos para subir ao pódio. Mas entendo que há dimensões da vida que são mesmo contas do rosário de cada um, ainda que se possa pensar que, de facto, não são. Vou lembrar duas dessas dimensões que, quando há verdade e não meros preconceitos, cada vez gostam mais de andar juntas, de mãos dadas: espiritualidade, progresso e missão, quando andam de mãos dadas, ajudam-se mutuamente.
A primeira é de la palisse, é para recordar que estamos no mês de Outubro. O leitor sabe que sim, pois não anda assim tão distraído. Não é tanto de la palisse, porém, dizer-se que o mês de outubro é o mês do Rosário! A secular história do Rosário é digna de registo. Por mais que se queira completar, nunca está terminada a lista dos seus admiráveis efeitos e benefícios. No próximo dia 7, Festa de Nossa Senhora do Rosário, crianças de todo o mundo vão unir-se na oração do terço pela paz, sob a iniciativa “Um Milhão de Crianças rezam o Terço”, desafiando cada pessoa, cada família e cada comunidade cristã a associar-se à iniciativa, pois quem reza faz a diferença. Há quem diga que a oração do Terço é monótono. Será mesmo ou seremos nós que o não sabemos tornar dinâmico, variado e interessante? Há quem diga que é uma seca. Será mesmo ou seremos nós que estamos tão secos tão secos tão secos que já nem a água-viva penetra em nós para que floresçamos e dêmos fruto? Há quem diga que se distrai muito quando o reza. Mas, não é verdade que só se distrai na oração quem reza? Há quem diga que é oração apenas para gente idosa. Mas não foi a crianças que a Senhora pediu que rezassem o terço todos os dias? No decorrer dos séculos, a oração do Rosário foi sempre proposta e valorizada como “um verdadeiro tesouro a descobrir”. Nossa Senhora, em Fátima, em todas as Aparições, insistiu nela e disse para quê: “Rezem o Terço todos os dias para alcançarem a paz para o mundo e o fim da guerra”. Pobres e ricos, sábios e ignorantes, grandes e pequenos, crianças e jovens, idosos e doentes, todos o podem rezar. Dizia a Irmã Lúcia que “depois da oração litúrgica do Santo Sacrifício da Missa, a oração do santo Rosário ou Terço, pela origem e sublimidade das orações que o compõem e pelos mistérios da Redenção que recordamos e meditamos em cada dezena, é a oração mais agradável que podemos oferecer a Deus e de maior proveito para as nossas almas. Se assim não fosse, Nossa Senhora não o teria recomendado com tanta insistência”. Os Papas não se têm cansado de falar sobre a importância da oração do Terço. Francisco afirmou que sempre que rezamos o Terço “o Evangelho retoma o seu caminho na vida de cada um, das famílias, dos povos e do mundo”. Rezá-lo e ensiná-lo a rezar, individualmente e em família, é gosto de cada cristão, são contas do seu rosário! É um ato de fé e gratidão, reúne a família e a comunidade, gera paz interior, mantém a fé e a esperança bem acesas. Quem tem o dever de educar e evangelizar não pode entender que a necessidade de oração e a espiritualidade são realidades adquiridas. Não são, mesmo que alguém diga que até fez o percurso da catequese até ao fim, até à celebração do Crisma. A experiência diz-nos que não é bem assim. O próprio Crisma, para muitos, é, infelizmente, uma espécie de festa de finalistas! Como afirmou Ratzinger, “tudo procede dentro da normalidade, mas na realidade a fé vai-se deteriorando e degenerando na mesquinhez”.
Apresento ainda outra dimensão da vida que também deve fazer parte das contas do rosário de cada um. O mês de Outubro é o mês das Missões. Cada um é missão, somos missão. A missão não é apenas tarefa de alguns, é vocação de todo o batizado. Ser batizado é ser missão, é ser de Deus, é amar como Deus. E Deus enviou o seu Filho Jesus Cristo para dar a sua vida por nós. Por sua vez, Jesus, tendo cumprido a sua missão, enviou-nos em seu nome como Ele tinha sido enviado pelo Pai. Ser cristão é sentir-se enviado, é ter um coração disponível e cheio de Deus para ir por todo o mundo, semeando a esperança alicerçada na fé e no amor. E esse ir por todo o mundo começa em nós mesmos: “Meu caminho é por mim fora, até chegar ao fim de mim e encontrar-me com Deus” escreveu Sebastião da Gama; começa em casa de cada um, nesse porto seguro de amor e de paz mesmo por entre imperfeições, pois a família é uma pequenina igreja doméstica onde todos se vão evangelizando, servindo e amando cada vez mais na alegria e na esperança; continua na paróquia e na diocese, comunidades de fé e centro de vida espiritual, provendo os sacramentos, a cultura da fé e a caridade fraterna, contando com a participação, o estimulo e o apoio de cada um também na partilha para as suas atividades, para o culto e os serviços ministeriais. E a missão vai-se alargando conforme a disponibilidade e circunstâncias de cada um e das próprias famílias e comunidades cristãs. Como lemos na Evangelii Gaudium, n.º 86, no mundo de hoje, há inúmeros sinais da sede de Deus, do sentido último da vida, ainda que muitas vezes expressos implícita ou negativamente. Todos somos chamados a ser pessoas-cântaro para dar de beber a todos, mesmo que o cântaro, por vezes, se torne numa pesada cruz. Foi precisamente na Cruz que o Senhor, trespassado, se nos entregou como fonte de água-viva.

D. Antonino Dias - Bispo Diocesano
Portalegre-Castelo Branco, 03-10-2025.