sexta-feira, 20 de fevereiro de 2026

‘DE ANDARILHOS SEM RUMO A SENTINELAS VIGILANTES’



Este mundo admirável tem mesmo razões para estar agoniado! Corrupção de snobs, príncipes, líderes e ‘meninos’ bem, ambições imperialistas, promoção do caos, desrespeito do Direito assumido, sabotagens provocadoras, ciberataques, apagões, desinformação, desprezo, ódios, intrigas, libertinagem, escândalos, racismo, instabilidade, discursos gritados, insonsos e crispados, autorreferencialidade, violência familiar e social, banalização do respeito mútuo, guerras intermináveis e outras a espreitar, mortes sem fim...
Que bom seria se o avanço das ciências e das artes, da educação e do bom senso, das sensibilidades e dos gostos contribuíssem, sim, para fazer surgir uma natural e comum urbanidade e uma nova ordem política, social e económica, que servisse cada vez mais e melhor, que permitisse afirmar e desenvolver a dignidade própria de cada pessoa, de cada grupo, de toda a comunidade humana, privilegiando a cultura da paz e da justiça, da solidariedade e da fraternidade, da diversidade na coesão!
Quando o homem se enche de nove horas pelo que tem, produz e desenvolve, julgando ter o seu deus na barriga; quando, deslumbrado, deixa trepar aos pirolitos que o importante é ter poder e em quem mandar, nem que seja numa cabra; quando, seja lá pelos meios que for, alcança esse tal poder, facilmente se esquece de onde vem e para onde vai. Logo descarrila para becos sombrios e insalubres, optando por uma vida sem rumo nem limites para desgraça de si próprio e de muitos. Mui rapidinho, logo se confirma a monumental sabedoria do povo: “se queres ver o vilão, mete-lhe a vara na mão! Será muito pior que um macaco numa loja recheada de louça! Muito pior que uma raposa faminta num galinheiro abastecido, sempre com mais olhos que barriga, pois até mata mais do que come! A História da humanidade, se é rica em tais exemplos, não o é menos em amnésias sobre essas realidades. Logo esquece o mal estar e os sacrifícios que passou, teimando em voltar ao mesmo sítio ou situação, apanhando ainda mais e com mais força. A sua memória é muito mais que curta, é curtíssima, é memória de peixe dourado! No entanto, mesmo que o homem desconfie dos outros homens, queira dominá-los e os faça sofrer, mesmo que até desconfie do próprio Deus, Deus, porém, na sua paciência infinita, não lhe tira o tapete de debaixo dos pés nem o despede, continua a acreditar nele e na sua liberdade. Deseja que cada um seja feliz e a cada um veio dizer que ele, o homem, do que mais precisa é de Salvação. Foi por causa da Salvação do homem que Jesus, num gesto de amor de Deus Pai para connosco, veio até nós e por nós se ofereceu. Amou-nos até ao fim, na cruz! Salvou-nos e quer que todos nos salvemos e sejamos, desde já, cidadãos do seu Reino de Justiça, de amor e de paz, onde tem preparado para aqueles que o amam o que nem sequer conseguimos imaginar (cf. 1Cor 2,9).
Roberto Pasolini, pregador da Casa Pontifícia, no passado Advento afirmava que, para isso, não podemos ser “andarilhos sem rumo”, mas “sentinelas que, na noite do mundo, mantêm humildemente a sua fé”. A humanidade não deveria esquecer "a necessidade da Salvação”. Não deveria preocupar-se tanto em cuidar as aparências da sua imagem. Não deveria diminuir a radicalidade do Evangelho nem ignorar “a direção para a qual o Reino de Deus continua a mover-se dentro da história”. Não deveria desprezar a importância desse “dom da Salvação universal que a Igreja humildemente celebra e oferece”. A Humanidade não quer mesmo entender!
E ninguém está isento ou acima deste jeito contumaz da humanidade. É por isso que a Quaresma é tempo de avaliação e discernimento. É contraproducente reduzir a fé a uma mera ética, esvaziando-a da sua dimensão transcendental, do seu encontro com Cristo, do viver em graça, permanecendo no pecado. É desaconselhado reduzir a liturgia em que se participa a uma simples cerimónia, despida de ato de culto e de santificação própria, sendo apenas apreciada e aplaudida como um mero show, à qual se assiste sem se participar, ou contra ela se vocifera porque foi uma seca quando a seca pode estar dentro de quem assim reclama. É contraindicado reduzir a vida cristã a moralismos, a um conjunto de regras, proibições e comportamentos alicerçados mais no fazer do que no ser, mais no cumprimento farisaico do que na transformação interior pela graça, pensando que os outros, os não cumpridores, é que têm de bater com a mão no peito. É inútil haver admiradores de quem pratica a caridade, se, também por esse testemunho, tais admiradores não são capazes de levar as mãos aos próprios bolsos para também partilharem com os pobres ou causas nobres. A caminhada quaresmal, a conversão, pede a renovação constante da própria vida.
Esta renovação quaresmal passa:
--- Pela escuta da Palavra de Deus, pois há “um vínculo entre o dom da Palavra de Deus, a hospitalidade que lhe oferecemos e a transformação que ela realiza”.
--- Pela oração, alicerce da conversão, da intimidade com Deus, da resistência ao pecado, da preparação para a Páscoa.
--- Pelo jejum, abstinência e outras formas de privação, as quais constituem “uma prática concreta que nos predispõe a acolher a Palavra” e a pô-la em prática, inclusive, evitando o desperdício de energia, água e alimentos, e cultivando a delicadeza na linguagem: “na família, entre amigos, nos locais de trabalho, nas redes sociais, nos debates políticos, nos meios de comunicação social, nas comunidades cristãs”.
--- Pela esmola, fruto da generosidade, do jejum, da abstinência e doutras privações que se fazem para partilhar com os pobres ou com outras causas nobres, sem esquecer que a melhor esmola é dar-se.

D.Antonino Dias
Caminha, 20-02-2026.

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