A luz nasce no meio da vida
A luz não começa no céu.
Começa no chão que pisamos todos os dias.
No cansaço de quem acorda cedo e chega tarde.
Nas contas que não acabam.
Nos sonhos adiados.
Nas relações gastas pelo tempo e pelas palavras que nunca foram ditas.
Nas frustrações silenciosas de quem dá tudo e recebe pouco.
É aí, nesse mundo real, sem filtros, que a luz decide brilhar.
Não brilha em discursos grandiosos, mas em gestos simples:
numa casa que abriga,
numa esperança restaurada,
num olhar que se detém na dor do outro,
num pão que é sempre repartido, mesmo quando parece pouco.
A luz brilha quando escolhemos calar a maledicência,
quando recusamos a fraude,
quando não alimentamos a difamação,
quando optamos pela verdade dita com delicadeza.
A luz não se impõe.
Oferece-se.
E só pode ser oferecida pela modéstia, pela mansidão, pela atenção ao outro.
A sabedoria de Deus não está no brilho do poder,
mas na loucura da Cruz.
Uma sabedoria estranhamente ligada ao sal e à luz:
ao que preserva,
ao que dá sabor,
ao que impede que a vida apodreça por dentro.
Não fomos chamados a embalsamar múmias,
nem a repetir gestos vazios,
nem a ser cegos a guiar outros cegos.
A planta que não se volta para a luz definhar-se.
E o cristão que prefere fixar-se apenas nas sombras,
que se alimenta do cinismo, do medo ou do ressentimento,
condena-se a uma morte lenta.
Não cresce.
Não floresce.
Não se edifica em Cristo.
Ser luz não é ser perfeito.
É escolher, todos os dias, para onde olhar.
É voltar o rosto para a Luz,
e deixar que ela atravesse a nossa vida —
tal como ela é.
Padre João Torres

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