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terça-feira, 5 de maio de 2026

Diz antes que seja tarde



Diz antes que seja tarde

Há palavras que ficam presas na garganta.
Não porque não sejam verdadeiras,
mas porque temos medo.
Medo de parecer frágeis.
Medo de não sermos correspondidos.
Medo de dizer demais…
num mundo que nos ensinou a sentir de menos.
E assim vamos adiando.
Guardando o que é essencial
como se o tempo fosse infinito.
Mas não é.
A vida passa nos dias simples,
nos encontros que achamos garantidos,
nas pessoas que pensamos que estarão sempre ali.
E, de repente, já não estão.
Ou já não somos os mesmos.
Ou já é tarde demais.
Há um peso silencioso
que muita gente carrega:
o peso de não ter dito.
De não ter dito “gosto de ti”,
quando o coração pedia.
De não ter dito “amo-te”,
quando isso podia ter mudado tudo.
Porque, no fim,
não são as palavras ditas que nos inquietam…
são as que ficaram por dizer.
Dizer não nos diminui.
Não nos torna fracos.
Torna-nos verdadeiros.
Amar não é um risco —
é uma necessidade.
Por isso, hoje,
não adies.
Não compliques.
Não esperes pelo momento perfeito.
Se sentes, diz.
Se amas, mostra.
Talvez não mudes o mundo…
mas mudas o mundo de alguém.
E o teu também.
Diz enquanto é tempo.

Padre João Torres

sábado, 7 de fevereiro de 2026

Viver com sentido

 



A luz nasce no meio da vida
A luz não começa no céu.
Começa no chão que pisamos todos os dias.
No cansaço de quem acorda cedo e chega tarde.
Nas contas que não acabam.
Nos sonhos adiados.
Nas relações gastas pelo tempo e pelas palavras que nunca foram ditas.
Nas frustrações silenciosas de quem dá tudo e recebe pouco.
É aí, nesse mundo real, sem filtros, que a luz decide brilhar.
Não brilha em discursos grandiosos, mas em gestos simples:
numa casa que abriga,
numa esperança restaurada,
num olhar que se detém na dor do outro,
num pão que é sempre repartido, mesmo quando parece pouco.
A luz brilha quando escolhemos calar a maledicência,
quando recusamos a fraude,
quando não alimentamos a difamação,
quando optamos pela verdade dita com delicadeza.
A luz não se impõe.
Oferece-se.
E só pode ser oferecida pela modéstia, pela mansidão, pela atenção ao outro.
A sabedoria de Deus não está no brilho do poder,
mas na loucura da Cruz.
Uma sabedoria estranhamente ligada ao sal e à luz:
ao que preserva,
ao que dá sabor,
ao que impede que a vida apodreça por dentro.
Não fomos chamados a embalsamar múmias,
nem a repetir gestos vazios,
nem a ser cegos a guiar outros cegos.
A planta que não se volta para a luz definhar-se.
E o cristão que prefere fixar-se apenas nas sombras,
que se alimenta do cinismo, do medo ou do ressentimento,
condena-se a uma morte lenta.
Não cresce.
Não floresce.
Não se edifica em Cristo.
Ser luz não é ser perfeito.
É escolher, todos os dias, para onde olhar.
É voltar o rosto para a Luz,
e deixar que ela atravesse a nossa vida —
tal como ela é.


Padre João Torres