É uma verdade de La Palice, o qual, se não tivesse morrido, ainda hoje era vivo. Conta-se que, Luís IX, Rei de França, falecido a 25 de agosto de 1270, certo dia recebeu um Embaixador, estrangeiro, que junto dele fora tratar de negócios de Estado. No fim da audiência, o Embaixador recebeu um documento assinado pelo Rei, assim: “Luís, Rei dos Franceses”, e despediu-se com estas palavras lisonjeiras: “Vossa Majestade deve sentir-se feliz ao assinar: “Luís, Rei dos Franceses”. O Rei concentrou-se uns momentos e, depois, com os olhos fitos no Embaixador, respondeu: “A minha maior glória é poder assinar as minhas cartas particulares com: “Luís de Poissy”. Perante a incompreensão do Embaixador, o Rei explicou: “Poissy é uma pequena terra de França, uma terra quase desconhecida, mas foi nessa terra que eu recebi o Batismo e com o Batismo, a fé. E ser crente é a minha maior glória”. Ele sabia apreciar a fé. Sabia que a fé é um tesouro, um dom gratuito de Deus, um dom inestimável e necessário para a salvação. Sabia que crer é um ato humano, consciente e livre, que está de acordo com a dignidade da natureza humana, é um ato eclesial.
Porque será que muitos cristãos não apreciam devidamente este dom de Deus? Porque será que muitos vivem praticamente como que se não acreditassem? Esta é uma realidade que causa mossa. Ainda há muitos povos que desconhecem o Deus verdadeiro, o Filho de Deus que veio ao mundo, a obra da redenção, a Igreja, a vida cristã, é certo. Mas serão apenas esses aqueles a quem a luz do Evangelho ainda não chegou? Infelizmente, não. Acho que dentro da Igreja há muitos incrédulos batizados, incrédulos confirmados, incrédulos que receberam o sacramento do matrimónio, incrédulos que, porventura, até se confessam e comungam.
“Cala-te, que estás a exagerar”, estar-me-ão a repreender alguns dos leitores. Aceito o reparo, mas acho que este é um dos grandes males com que a Igreja se enfrenta. Um dos caminhos que conduzem a este estado de coisas é a falta de conhecimento dos fundamentos da fé e a pouca ou nenhuma apetência para os querer saber. E, talvez também, a falta de jeito ou de competência para fazer passar a mensagem que se impõe dar a conhecer. O que é certo é que a ignorância leva à incredulidade. Naquele encontro noturno entre Jesus e Nicodemos – aquele chefe judeu que parece ter vergonha de o procurar de dia – Jesus explica-lhe que ninguém pode entrar no Reino de Deus senão nascer da água e do Espírito Santo, isto é, se não receber o Batismo de Jesus e não acreditar n’Ele (cf. Jo 3,1...). O fariseu não entendeu bem e perguntou: “Como pode um homem nascer, sendo velho?”. Jesus respondeu-lhe, assim um pouco em tom de censura: - “Tu és mestre em Israel e ignoras estas coisas?”. Sem querer apontar o dedo a quem quer que seja, esta mesma realidade podemos nós encontrá-la em muitos dos cristãos que se têm como mestres em Israel, mas ignoram as verdades mais rudimentares da fé. Apesar disso, uma das maiores tendências que as pessoas têm é discutir sobre questões religiosas. Quando não se sabe, em princípio não se discute sobre medicina, física, biologia, astronomia, sobre tudo aquilo do qual não se tem conhecimento. Questões de religião, porém, quase toda a gente se julga mestre em Israel: na praça, no clube, na associação, no café, na taberna, onde quer que for... Apesar de se discutir sobre aquilo que apenas se intui, se supõe ou se inventa, mesmo assim, eu olho isso pelo lado positivo. Acho que, bem lá no fundo de cada pessoa, há um grito de eternidade que incomoda, que não se cala e faz reagir de alguma forma! É que “Deus invisível, na riqueza do seu amor, fala aos homens como amigos e convive com eles, para os convidar e admitir à comunhão com Ele”. A resposta adequada a este convite é a fé. E a fé é um ato pessoal, uma resposta livre do homem à proposta de Deus que se revela. Mas não é um ato isolado. Ninguém pode acreditar sozinho, tal como ninguém pode viver só. Ninguém se deu a fé a si mesmo, como ninguém a si mesmo deu a vida. Foi de outrem que o crente recebeu a fé; a outrem a deve transmitir” (CIC166). Ninguém ama o que não conhece!
Que honra e brio poderá ter um doutor, um médico, um advogado, um professor, um agricultor, um governante se não sabe porque linhas se cose nas próprias áreas em que atua? Que honra e brio poderá sentir um cristão, mesmo que seja pai, doutor, advogado, professor, agricultor, médico, político, governante, se inerente à sua fé não está o desejo de conhecer melhor Aquele em quem acredita e de compreender melhor o que Ele revelou e para quê?
Pode haver, com certeza, muita boa gente batizada, com cursos académicos, com muita cultura, dedicados de alma e coração às ciências, às artes, à liderança dos povos e ao bem comum, que nunca se esforçou por gastar – não digo perder, digo gastar – que nunca se esforçou por gastar algum tempo com Aquele que lhe dá todo o tempo e o sopro da própria vida. Que alguém não tenha interesse por esta ou aquela dimensão do saber, entende-se. Mas que um cristão ignore ou até sinta orgulho em não saber os rudimentos da fé, não é muito curial. E isso tem consequências imediatas: a incredulidade. E do abandono ao desprezo da fé vai um passo, por vezes orgulhosamente assumido. Ora, Jesus Cristo esteve durante três horas na cruz para nos resgatar, mas durante três anos percorreu todas as terras da Judeia para nos instruir. Ensinou os pobres, os ricos, os doutores, os doentes, os sacerdotes, os governantes, todos sem exceção. Correu cidades e aldeias, ensinou por toda a parte, sem descanso! E para quê? Para que todos os seus discípulos e pessoas de boa vontade não ignorassem as verdades indispensáveis para a salvação. E antes de partir para o Pai, disse aos seus discípulos: “Foi-me dado todo o poder no Céu e na Terra. Ide, pois, fazei discípulos de todos os povos, batizando-os em nome do Pai, do filho e do Espírito Santo, ensinando-os a cumprir tudo quanto vos tenho mandado. E sabei que Eu estarei sempre convosco até ao fim dos tempos” (Mt 28, 18-20).
D. Antonino Dias
Caminha, 05-09-2026.
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