quarta-feira, 30 de setembro de 2026

Abraçarem-te a alma.





Abraçarem-te a alma.

Sabes o que é?



Quando alguém chega, de mansinho, e se mostra por dentro, com tudo o que é, da forma mais verdadeira que é, abraça-te a alma.

Quando alguém chega, de mansinho, e consegue ver-te por dentro, com tudo o que és, da forma mais verdadeira que és, abraça-te a alma.

Quando alguém se faz abraço que cura, abraça-te a alma.

Quando alguém te dá a mão como quem te dá o coração, abraça-te a alma.

Quando alguém te sorri e te resgata sempre mais um sorriso, abraça-te a alma.



Quando alguém te fala com o coração, e ao coração, abraça-te a alma.

Quando alguém te sente o coração (mesmo sem ser preciso falar), abraça-te a alma.

Quando alguém se faz presença que ampara e que sossega, longe ou perto, abraça-te a alma.


Quando alguém se faz, e te faz, morada, abraça-te a alma.

Quando alguém se tatua no teu coração, abraça-te a alma.

Quando alguém se faz pedacinho de amor que salva, abraça-te a alma.


Abraçarem-te a alma.

Sabes o que é?


A forma mais bonita de dizer "gosto de ti", sem ser preciso dizer.


Daniela Barreira


 

terça-feira, 29 de setembro de 2026

Como é possível alguém se perder?


“Quem se mete em atalhos… mete-se em trabalhos!”
Ditado popular

Como é possível alguém se perder?

Temos todas as tecnologias à nossa disposição e, nas encruzilhadas, metemo-nos por atalhos.

Partimos a Bússola. Calamos o GPS. Ligamos o instinto que nunca apuramos.

E… quando damos conta perdemos o rumo certo.


Perdidos, começamos a analisar o caminho.

De imediato encontramos buracos na estrada.

Curvas desnecessárias. Indicações pouco visíveis.

Portagens e Scuts por onde não queremos passar.

Concluímos: a culpa é do caminho! Não é reto!


Na vida…

O caminho tem um GPS tão belo, que leva Jesus a todos e todos a Jesus.

É a Eucaristia onde carregamos baterias com a Palavra de Deus e,

recebemos as migalhas do Pão Vivo que partilhamos fraternalmente com a Comunidade.


Hoje, Jesus conta mais uma parábola.

É preciso ser ovelhinha curiosa e escutar!

A Palavra de Deus tão certa e tão assertiva, vem ao nosso encontro.

Indica-nos que fazer algo é muito mais importante do que palavras ditas ao vento.

E desperta em cada um de nós o sentido da Misericórdia Divina.


A nossa alegria não se edifica com verbos, nem com promessas.

Toma forma no arrependimento verdadeiro de algumas más ações…

No trabalho humilde e diligente em prol do crescimento de todos…

Na caridade que nos une e explode num amor infinito.


Quando te perderes no caminho…

Lembra-te: olha para o Céu e recorda todas as vezes que o Senhor que Te chamou.

Analisa as tuas escassas respostas positivas…

ACREDITA que és filho muito amado, que és filha muito amada…

alegra a Tua Alma, porque se te arrependeres de todo o coração,

encontrarás rapidamente o caminho de volta para a Vinha do Senhor.

Onde não há julgamentos pelo que deixaste de fazer, nem pelo mal que fizeste.

Que te parece?


Liliana Dinis,






 

segunda-feira, 28 de setembro de 2026

Entra na vinha, trabalha, agradece

 




“Quem procura, encontra!”
Ditado popular

Temos um Deus que quer ser encontrado por cada um de nós.
Um Deus que é disponibilidade pura.
Um Deus que chama.
Um Deus que aguarda pacientemente.
Um Deus que escuta tudo e todos.
Um Deus que nos recompensa.
Um Deus que abre portas e janelas.
Um Deus que nos alimenta.
Um Deus que perdoa.
Um Deus que ama infinitamente.

A cada amanhecer, lembra o teu pensamento que a justiça divina, não é a justiça humana.
Não percas tempo com olhares distorcidos, que te afastam da lógica divina.
Olha sempre com bondade para cada ser humano e para as suas obras.
Não compares pesos, nem medidas!
Não te valorizes em excesso… nem penses que não és capaz.
Não julgues os teus passos pelo caminho que o teu semelhante faz.
Algures, numa encruzilhada, o teu discernimento falha e, sem dares conta, perdes um denário.
Recomeça o trabalho e apazigua o teu coração.

A cada anoitecer, agradece a força que te fez podar cada tristeza.
Agarra a oportunidade de sentir que nem tudo é bom…
e que Deus partilhou contigo cada grito sufocado por um sorriso leve.
Terás Jesus ao teu lado… Pronto a que O leves aos outros e O tragas conigo a cada oração…


Hoje…
Entra na Casa do Pai.
Fecha os olhos à tua maldade.
Abre os ouvidos à dor dos que te rodeiam.
Respira a bondade que Jesus semeia na humanidade inteira.
Silencia o teu coração.
Ajoelha a tua Alma.
Aí encontrarás o Senhor Teu Deus…
A felicidade dos outros será a Tua melhor recompensa.
E… trabalhar na vinha do Senhor é a alegria que tanto anseias.


Liliana Dinis,




"O SIM não é uma palavra…"

 


"O SIM não é uma palavra…"

No nosso contexto social e religioso reina a diplomacia do “transitar entre o sim e o não”, ou seja, dissimular, não ser claro, nem transparente, deixar as coisas numa certa e intencionada ambiguidade. Quando é pedido um “sim” ou um “não”, costuma-se deixar levar pela “covardia do meio termo”.
De fato, há tantos modos de evitar dar uma resposta clara, de não nos comprometer; que até usamos desculpas convincentes para ocultar nossa incoerência. Dizer “sim” ou “não”, é radical, é ser coerente.
Jesus conta uma parábola aos «chefes dos sacerdotes» e aos «anciãos do povo»: um Pai tinha dois filhos aos quais mandou ir trabalhar para a vinha. Ambos responderam e se arrependeram depois da resposta dada… O que disse “Não vou”, foi, o que disse “Vou”, não foi.
Para Jesus não há dúvida: os líderes religiosos são os primeiros a falar de Deus, da sua lei e do seu templo, mas não procuram reino de Deus e a sua justiça... o publicano Zaqueu, a prostituta que regou os pés com lágrimas e tantos outros… quando Jesus lhes oferece a amizade de Deus, escutam o seu chamamento e dão passos para a conversão.
Os que só dizem, têm de reconhecer que não é o que se DIZ, mas o que se FAZ, que verdadeiramente conta. O SIM não é uma palavra!
O SIM da Fé que o Pai nos pede tantas vezes quando nos convida para as tarefas do Reino, não é uma questão de PALAVRAS, mas de CAMINHOS, de DECISÕES, CRITÉRIOS, ESCOLHAS, ATITUDES… ou seja, VERDADE! A Verdade não é coisa de dizer, mas uma maneira de viver. Ser Autêntico no modo de VER, VIVER e SER, isso é a Verdade!
SIM ou NÃO? Silêncio… falemos com a Vida desta vez...

Padre João Torres

domingo, 27 de setembro de 2026

DIZER SIM AO COMPROMISSO

 

https://www.youtube.com/watch?v=KhlxAN9_kf8&list=PLAqKRngqwuSfPdOPEvu7KzjdvMvB1w33f&index=147

A liturgia do 26º Domingo do Tempo Comum deixa claro que Deus chama todos os homens e mulheres a empenhar-se na construção desse mundo novo de justiça e de paz que Deus sonhou e que quer propor a todos os homens. Diante da proposta de Deus, nós podemos assumir duas atitudes: ou dizer "sim" a Deus e colaborar com Ele, ou escolher caminhos de egoísmo, de comodismo, de isolamento e demitirmo-nos do compromisso que Deus nos pede. A Palavra de Deus exorta-nos a um compromisso sério e coerente com Deus - um compromisso que signifique um empenho real e exigente na construção de um mundo novo, de justiça, de fraternidade, de paz.

Na primeira leitura
, o profeta Ezequiel convida os israelitas exilados na Babilónia a comprometerem-se de forma séria e consequente com Deus, sem rodeios, sem evasivas, sem subterfúgios. Cada crente deve tomar consciência das consequências do seu compromisso com Deus e viver, com coerência, as implicações práticas da sua adesão a Jahwéh e à Aliança.
A leitura convida-nos a tomar consciência de que um compromisso com Deus é algo que nos implica profundamente e que devemos sentir pessoalmente, sem rodeios, sem evasivas, sem subterfúgios. No nosso tempo - no tempo da cultura do plástico, do "light", do efémero - há alguma tendência a não assumir responsabilidades, a não absolutizar os compromissos (no mundo do futebol e da política há até uma máxima que define a flutuabilidade, a incoerência, a contradição em que as pessoas se movem: "o que é verdade hoje, é mentira amanhã"). Mas, com Deus, não há meias tintas: ou se assume, ou não se assume. Como é que eu sinto esses compromissos que assumi com Deus no dia do meu Baptismo e que ao longo da vida, nas mais diversas circunstâncias, confirmei? Trata-se de algo que eu levo a sério e que eu aplico coerentemente a toda a minha existência e às opções que faço, ou de algo que eu só me lembro quando se trata de fazer uma bonita festa de casamento na igreja ou de cumprir a tradição e baptizar os filhos?

O Evangelho diz como se concretiza o compromisso do crente com Deus... O "sim" que Deus nos pede não é uma declaração teórica de boas intenções, sem implicações práticas; mas é um compromisso firme, coerente, sério e exigente com o Reino, com os seus valores, com o seguimento de Jesus Cristo. O verdadeiro crente não é aquele que "dá boa impressão", que finge respeitar as regras e que tem um comportamento irrepreensível do ponto de vista das convenções sociais; mas é aquele que cumpre na realidade da vida a vontade de Deus.
Diante do chamamento de Deus, há dois tipos de resposta... Há aqueles que escutam o chamamento de Deus, mas não são capazes de vencer o imobilismo, a preguiça, o comodismo, o egoísmo, a auto-suficiência e não vão trabalhar para a vinha (mesmo que tenham dito "sim" a Deus e tenham sido baptizados); e há aqueles que acolhem o chamamento de Deus e que lhe respondem de forma generosa. De que lado estou eu? Estou disposto a comprometer-me com Deus, a aceitar os seus desafios, a empenhar-me na construção de um mundo mais bonito e mais feliz, ou prefiro demitir-me das minhas responsabilidades e renunciar a ter um papel activo no projecto criador e salvador que Deus tem para os homens e para o mundo?
Nas nossas comunidades cristãs aparecem, com alguma frequência, pessoas que sabem tudo sobre Deus, que se consideram família privilegiada de Deus, mas que desprezam esses irmãos que não têm um comportamento "religiosamente correcto" ou que não cumprem estritamente as regras do "bom comportamento" cristão... Atenção: não temos qualquer autoridade para catalogar as pessoas, para as excluir e marginalizar... Na perspectiva de Deus, o importante não é que alguém se tenha afastado ou que tenha assumido comportamentos marginais e escandalosos; o essencial é que tenha acolhido o chamamento de Deus e que tenha aceitado trabalhar "na vinha". A este propósito, Jesus diz algo de inaudito aos "santos" príncipes dos sacerdotes e anciãos do povo: "os publicanos e as mulheres de má vida irão diante de vós para o Reino de Deus". Hoje, que é que isto significa? Hoje, quem são os "vós"? Hoje, quem são os "publicanos e mulheres de má vida"?

A segunda leitura apresenta aos cristãos de Filipos (e aos cristãos de todos os tempos e lugares) o exemplo de Cristo: apesar de ser Filho de Deus, Cristo não afirmou com arrogância e orgulho a sua condição divina, mas assumiu a realidade da fragilidade humana, fazendo-se servidor dos homens para nos ensinar a suprema lição do amor, do serviço, da entrega total da vida por amor. Os cristãos são chamados por Deus a seguir Jesus e a viver do mesmo jeito, na entrega total ao Pai e aos seus projectos.




Os valores que marcaram a existência de Cristo continuam a não ser demasiado apreciados em muitos dos nossos ambientes contemporâneos. De acordo com os critérios que presidem ao nosso mundo, os grandes "ganhadores" não são os que põem a sua vida ao serviço dos outros, com humildade e simplicidade, mas são os que enfrentam o mundo com agressividade, com auto-suficiência e fazem por ser os melhores, mesmo que isso signifique não olhar a meios para passar à frente dos outros. Como pode um cristão (obrigado a viver inserido neste mundo e a ser competitivo) conviver com estes valores?

• Paulo tem consciência de que está a pedir aos seus cristãos algo realmente difícil; mas é algo que é fundamental, à luz do exemplo de Cristo. Também a nós é pedido um passo em frente neste difícil caminho da humildade, do serviço, do amor: será possível que, também aqui, sejamos as testemunhas da lógica de Deus?

https://www.dehonianos.org/

sábado, 26 de setembro de 2026

AS ESCADAS DA VIDA E O CORRIMÃO DA FÉ


Pelas escadas da vida acima, há muita variedade de corrimãos: a família, a Igreja, as escolas, as universidades, as instituições, os clubes, os colegas de trabalho, os amigos... enfim, um sem número de corrimãos.
Regra geral, os corrimãos fazem companhia ao lado de quem sobe ou desce as escadas. Mesmo que não façam falta, dão confiança, estão prontos para ajudar. Pela sua natureza, não são coisa para pisar ou desprezar, são para respeitar. Alguém haverá, que, na sua sôfrega ambição e exagerada autoconfiança, anseie, por si só, chegar ao topo das escadas o mais depressa possível, pulando até dois ou três degraus de cada vez como se fosse um campeão olímpico jamais igualado. Nestes propósitos, corre o risco de cair e partir os degraus das escadas com o nariz e os queixos. Com os focinhos, diz este povoléu do qual faço parte, ihihihih... Possivelmente, até dispensará os patamares das escadas para descansar as canetas e avaliar se não será melhor subir mais devagar e com outros propósitos, ou descer alguns degraus para mudar de rumo. Pior ainda se, desconsiderando-os, faz dos diversos corrimãos das escadas da sua vida uns meros trampolins para trepar vaidosamente! O leitor fará o favor de discernir se isto é ou não é mera ficção!...
Há uma preocupação comum a todos os humanos. Constitui o mais importante ponto de convergência de todas as diferenças. É o desejo de felicidade! Sejam quais forem os caminhos, somos criaturas que procuram a felicidade de forma apaixonada e nunca satisfeita. O sonho comanda a vida nesse sentido. A par, a experiência da fragilidade, dos limites, da doença e da morte ensina-nos que não dominamos o tempo nem a qualidade da existência, que não somos omnipotentes, que há coisas que nos desgastam e moem e não têm importância de maior, que a morte nos iguala a todos. Reconhecemos que a vida é curta e misteriosa, que não depende só de nós, que os bens mais importantes são a vida e o amor, que o mais importante é aceitar e disfrutar cada dia como prenda no sapatinho na chaminé. Ainda por cima, sabemos que fomos criados por amor e que Jesus nos veio revelar o rosto de um Deus que ama a vida e a felicidade do homem. Mas - pode perguntar-se -, se assim é, porque é que o Senhor permite a dor, o envelhecimento e a morte? Não há por aí, porventura, quem se declare ateu, forjando razões para apaziguar a sua consciência e se justificar perante os outros, só porque acha que o silêncio de Deus diante da dor é uma injustiça? Sim, há, e esse é, de facto, um dos maiores mistérios da humanidade, é o mistério do mal. O silêncio de Deus, porém, não significa ausência ou indiferença. É o custo doloroso de um mundo livre. A liberdade humana é tão sagrada que Deus prefere correr o risco do mal. Ele não criou um mundo de ‘robôs biológicos’, de seres programados. O amor forçado não é amor. Sem escolha não há virtude. Deus dotou o homem de inteligência, vontade e coração e confiou-lhe a tarefa de cuidar, cultivar e aperfeiçoar a criação, com amor. A questão, pois, não é saber onde está Deus. É saber onde está o homem, a humanidade. Jesus, na cruz, representa o próprio Deus vivenciando a dor extrema, a injustiça, o ódio, o abandono, o desprezo. Ele partilha a dor, ele sofre com o inocente, ele apela ao amor fraterno, à conversão da mente e do coração. Os homens, porém, ainda não entenderam, não querem entender. Preferem a guerra à paz, o ódio ao amor, o orgulho à humildade, a brutalidade dos encontrões à cultura dos encontros!
Mas será que nos devemos resignar? Não, a esperança na felicidade não morre. Como escreveram os Bispos franceses, “a esperança tem a ver com a alegria de viver. Supõe um futuro a esperar, a preparar, a desejar. Sentimos que a esperança requer e suscita unidade no coração: dá sentido e motiva cada um dos nossos sentimentos, cada uma das nossas aspirações, cada um dos nossos projetos.... Se há esperança, há paciência e há vigilância que faz discernir e que impele ao compromisso com cada coisa....”. E se há uma esperança que nasce e cresce graças às relações com as pessoas, também é possível pensar e desejar a esperança como um dom que vem ao nosso encontro de modo imprevisível, como um dom que transcende as nossa possibilidades, os nossos projetos, os nossos horizontes, como um dom que crê e ama: “a esperança de quem se sente amado, querido apoiado no quotidiano, num crescendo de sentido, de alegria, de operosidade construtiva, que vai para além de todos os limites. É esta a esperança que vem de Deus”... há em nós a nostalgia de um amor infinito...
Não acredita? Esqueça, isso passa! Duvida? Deixe lá, Miguel de Unamuno dizia que ‘uma fé que não duvida é uma fé morta’. Talvez Joseph Ratzinger possa ser o seu corrimão para lhe dizer que não está longe do Reino dos Céus, ajudando-o a subir mais alguns degraus nessas escadas da vida. Repare no que ele, já em 1969, muito antes de ser Bento XVI, escreveu: “Ninguém é capaz de apresentar uma prova matemática de Deus e do seu Reino; o próprio crente é incapaz de o fazer para seu próprio uso. Mas o não-crente bem quererá encontrar uma justificação, mas não escapará a este inquietante “talvez isso seja verdade!”.... por outras palavras, tanto o crente como o não-crente, cada qual à sua maneira, conhecerão a dúvida e a fé, se não tentarem iludir-se e disfarçar a verdade do seu ser. Ninguém pode escapar totalmente à fé; num, a fé estará presente contra a dúvida, noutro, graças à dúvida e na forma de dúvida. Há uma lei fundamental do destino humano: a humanidade realiza a sua existência nesta dialética permanente entre a dúvida e a fé, entre a tentação e a certeza. Desta forma, a dúvida, que impede tanto um como o outro de se encerrar na sua torre de marfim, poderia tornar-se o seu lugar de comunhão. Em vez de se dobrarem sobre si mesmos, eles encontrarão nela uma ocasião de abertura recíproca. O crente partilhará, assim, o destino do não-crente e este, graças à dúvida, sentirá o desafio lançado inexoravelmente pela fé”.

D. Antonino Dias
Caminha, 25-09-2026

sexta-feira, 25 de setembro de 2026

A(s) teia(s) da nossa vida





Já reparaste no trabalho que envolve fazer uma teia e ao mesmo tempo para algo tão frágil e efémero. É curioso como as teias cumprem o seu propósito mesmo que desapareçam ou sejam eliminadas rapidamente.

Se estivermos atentos, vemos que as aranhas são rápidas e escolhem sítios estratégicos e que permitam atingir os seus objetivos mesmo que isso implique fazer e refazer uma e outra vez. É um animal engenhoso e teimoso!

Isso leva-me para a teia das nossas relações. Também nós somos construtores de redes, de ligações que nos ajudam a atingir os nossos propósitos sejam eles materiais, espirituais ou emocionais.

Também temos de ser persistentes na união de laços que são muitas vezes assolados por tempestades e ventos mais agrestes.

Também temos de perceber quando devemos deixar uma teia e começar outra, num outro lugar mais protegido ou simplesmente mais bonito.

Também temos de ajustar o tamanho da teia aos que somos capazes de proteger, cuidar e segurar. Nada pode ficar ao acaso, ou melhor: NINGUÉM.

Dá muito trabalho manter uma teia de amizade, pois podemos cair na tentação de achar que ela vale só pelo facto de existir, mas esquecemo-nos que ela apenas resiste na medida em que é fortalecida com gestos e atenções.

Será que temos apenas uma teia? Será que temos várias de acordo com o que pretendemos dela? Não sei. Apenas constato que há muita coisa que nos une e que isso é o que nos torna mais fortes. A força que tenho foi tecida por outros, e eu a outros a passarei, e enquanto isso reforço cada um dos fios que me unem ao que me faz ser a melhor versão de mim mesma.

Nesta teia gigante onde estamos, movemos e relacionamos somos mais importantes na garantia da sua manutenção do que aquilo que pensamos.


E tu, amiga, como é a tua teia?



Raquel Rodrigues

quinta-feira, 24 de setembro de 2026

Leve como uma borboleta ou...?




E tu, quantos kg pesas?

Sim quantos?


És leve como uma borboleta ou pesado como um elefante?


Que fardos carregas na tua mala?


Eu sou os dois, mas tento ser borboleta!


Só devemos carregar o que nos acrescenta não é verdade? Rasgar a página lida do livro, retirar dela a melhor " lição" e seguir em frente, sem pesos desnecessários!


Quem dera fosse mais fácil, mas não será impossível.


Sigamos na busca pela leveza da borboleta!



Lucília Miranda


quarta-feira, 23 de setembro de 2026

O que nos falta?



Talvez nos falte fazer um pouco mais. Ou, para quem se esgota a fazer tudo, optar por fazer um pouco menos.

Falta-nos agradecer. Pelo que é. Pelo que foi. E pelo que, um dia, ainda há de ser.

Falta-nos saber que somos guiados. Que há um Amor maior que nunca nos abandona, mesmo que às vezes nos sintamos desnutridos.

Falta-nos aprender a receber. Um elogio. Um presente. Uma mensagem. Falta-nos encontrar mais encanto nessas coisas simples que dizem tanto sobre o outro. que são, efetivamente, o outro em nós e para nós.

Falta-nos querer menos coisas. Viver (só) com o que se tem como se já fosse tudo.

Falta-nos dizer que não vamos. Que não nos apetece. Que não faz sentido. Vivemos tanto para agradar e para ser aceites pelos outros que, por vezes, deixamos de saber quem somos e o que queremos. A palavra não é tão preciosa como a palavra sim.

Falta-nos a calma para esperar.

Ou a força para mudar.

Falta-nos atar a esperança ao pulso como fazíamos com os balões coloridos que os nossos pais nos davam quando éramos miúdos e miúdas.

Falta-nos normalizar a vulnerabilidade e a tristeza. Valorizamos demasiado a força, a garra e o “aguentar”.

Falta-nos uma validação que venha de dentro. Que não dependa sempre do que o outro acha, sente ou quer.

Falta-nos perceber que o nosso lugar é (mesmo) insubstituível. Que pode sempre existir alguém que faça o que nós fazemos, mas que não há ninguém que seja o que (só) nós somos.

Falta-nos compreender que não há relações perfeitas nem simples. Que não somos nós que estamos errados e que os outros não estão sempre certos. O equilíbrio é medido a cada hora e ninguém está sempre bem. Mesmo que assim pareça nas fotografias ou nas redes sociais.

Falta-nos saber que não sabemos metade do que o outro vive, sente, experiencia ou é. O que vemos dos outros não é a totalidade do que são. Para o bem e para o mal.

Falta-nos parar de correr atrás de um sucesso indefinido e inalcançável. O teu maior sucesso é seres quem és.

Falta-nos perdoar-nos por tudo o que também não fazemos bem. Pelos que deixámos pelo caminho, para nos salvar ou para nos priorizar. Ou pelos erros que ficaram algures, com alguém, e que não pudemos ou soubemos evitar.

E mesmo que nos falte muito, já temos tanto!


Marta Arrais

terça-feira, 22 de setembro de 2026

Entra na vinha





“Quem procura, encontra!”
Ditado popular

Temos um Deus que quer ser encontrado por cada um de nós.
Um Deus que é disponibilidade pura.
Um Deus que chama.
Um Deus que aguarda pacientemente.
Um Deus que escuta tudo e todos.
Um Deus que nos recompensa.
Um Deus que abre portas e janelas.
Um Deus que nos alimenta.
Um Deus que perdoa.
Um Deus que ama infinitamente.

A cada amanhecer, lembra o teu pensamento que a justiça divina, não é a justiça humana.
Não percas tempo com olhares distorcidos, que te afastam da lógica divina.
Olha sempre com bondade para cada ser humano e para as suas obras.
Não compares pesos, nem medidas!
Não te valorizes em excesso… nem penses que não és capaz.
Não julgues os teus passos pelo caminho que o teu semelhante faz.
Algures, numa encruzilhada, o teu discernimento falha e, sem dares conta, perdes um denário.
Recomeça o trabalho e apazigua o teu coração.

A cada anoitecer, agradece a força que te fez podar cada tristeza.
Agarra a oportunidade de sentir que nem tudo é bom…
e que Deus partilhou contigo cada grito sufocado por um sorriso leve.
Terás Jesus ao teu lado… Pronto a que O leves aos outros e O tragas comigo a cada oração…

Hoje…
Entra na Casa do Pai.
Fecha os olhos à tua maldade.
Abre os ouvidos à dor dos que te rodeiam.
Respira a bondade que Jesus semeia na humanidade inteira.
Silencia o teu coração.
Ajoelha a tua Alma.
Aí encontrarás o Senhor Teu Deus…
A felicidade dos outros será a Tua melhor recompensa.
E… trabalhar na vinha do Senhor é a alegria que tanto anseias.


Liliana Dinis,


 

segunda-feira, 21 de setembro de 2026

Contas de partir a cabeça



Contas de partir a cabeça

Custa-nos tanto sentir que alguém tem mais do que nós, que alguém recebeu tanto como nós. Somos tantas vezes mesquinhos, invejosos e ciumentos.
Jesus conta uma parábola para nos revelar como é que Deus, no seu infinito amor, suporta, importa e se comporta connosco.
Ele fala-nos de um proprietário que sai de casa, sem complexos de patrão. Não espera pelos pedidos de emprego no gabinete. Não espera que alguém apareça. Sai.
Sai da sua comodidade.
Temos nós esta coragem de sair, de convidar, de chamar, de envolver, de provocar outros?
Este proprietário sai por amor, a todas as horas. E chega ao cúmulo de ir contratar às cinco da tarde, quando a jornada acabava às quatro. Isto é de loucos! Mas o amor tem destas coisas. E o amor não usa relógio.
Vivemos tantas vezes em part-time.
Este proprietário sai à procura daqueles de quem ninguém quer saber, daqueles a quem ninguém chama ou convida para nada. Sai à procura de todos.
Quem procuramos nós?
Este proprietário não paga à hora nem a horas. Começa pelos últimos. Dá o mesmo a quem é da casa e a quem acabou de chegar.
A medida do pagamento não é o mérito, nem a produção.
A medida da retribuição é a sua bondade.
Este proprietário faz contas de partir a cabeça e o coração.
Deus é assim.

Padre João Torres


NOVA CAMINHADA PASTORAL EM ARRONCHES



Ontem, domingo, 20 de setembro, a Igreja Matriz de Arronches encheu-se de fiéis para um momento de profunda fé e renovação espiritual: a solene tomada de posse do Padre Poncien.
A celebração foi presidida pelo Bispo Diocesano de Portalegre-Castelo Branco, D. Pedro Fernandes, marcando oficialmente o início deste novo capítulo na liderança pastoral da nossa vila. O momento contou com a honrosa presença de entidades locais e de representantes das várias paróquias, demonstrando a união e a comunhão de toda a nossa comunidade.

Neste dia de transição, expressamos a nossa mais profunda e sincera gratidão ao Padre Fernando Farinha e ao Padre Rui Lourenço pelo incansável serviço prestado à nossa comunidade. Obrigado pela vossa dedicação, proximidade e pelo testemunho de fé que deixam nos nossos corações. Que Deus continue a abençoar a vossa missão pastoral! 

Damos as mais calorosas boas-vindas ao Padre Poncien! Que o Espírito Santo guie os seus passos e abençoe a sua missão junto de todos nós, fortalecendo o nosso caminho no amor e no serviço ao próximo.









domingo, 20 de setembro de 2026

Voltar para Deus

 

https://www.youtube.com/watch?v=6tl9fJyfHTM&list=PLAqKRngqwuSfPdOPEvu7KzjdvMvB1w33f&index=149

A liturgia do 25º Domingo do Tempo Comum convida-nos a descobrir um Deus cujos caminhos e cujos pensamentos estão acima dos caminhos e dos pensamentos dos homens, quanto o céu está acima da terra. Sugere-nos, em consequência, a renúncia aos esquemas do mundo e a conversão aos esquemas de Deus.

A primeira leitura pede aos crentes que voltem para Deus. "Voltar para Deus" é um movimento que exige uma transformação radical do homem, de forma a que os seus pensamentos e acções reflictam a lógica, as perspectivas e os valores de Deus.
A conversão é um processo nunca acabado. Todos os dias o crente terá de optar entre os valores de Deus e os valores do mundo, entre conduzir a sua vida de acordo com a lógica de Deus ou de acordo com a lógica dos homens. Por isso, o verdadeiro crente nunca cruza os braços, instalado em certezas definitivas ou em conquistas absolutas, mas esforça-se por viver cada instante em fidelidade dinâmica a Deus e às suas propostas.
Finalmente, o nosso texto sugere uma reflexão sobre a imagem que temos de Deus. Não podemos construir e testemunhar diante dos outros homens um Deus à nossa imagem, que funcione de acordo com os nossos esquemas mentais e que assuma comportamentos parecidos com os nossos. Temos de descobrir, no diálogo pessoal com Ele, esse Deus que nos transcende infinitamente. Sem preconceitos, sem certezas absolutas, temos de mergulhar no infinito de Deus, e deixarmo-nos surpreender pela sua lógica, pela sua bondade, pelo seu amor.

O Evangelho
diz-nos que Deus chama à salvação todos os homens, sem considerar a antiguidade na fé, os créditos, as qualidades ou os comportamentos anteriormente assumidos. A Deus interessa apenas a forma como se acolhe o seu convite. Pede-nos uma transformação da nossa mentalidade, de forma a que a nossa relação com Deus não seja marcada pelo interesse, mas pelo amor e pela gratuidade.
Todos têm lugar na Igreja de Jesus... Mas todos terão a mesma dignidade e importância? Jesus garante que sim. Não há trabalhadores mais importantes do que os outros, não há trabalhadores de primeira e de segunda classe. O que há é homens e mulheres que aceitaram o convite do Senhor - tarde ou cedo, não interessa - e foram trabalhar para a sua vinha. Dentro desta lógica, que sentido é que fazem certas atitudes de quem se sente dono da comunidade porque "estou aqui há mais tempo do que os outros", ou porque "tenho contribuído para a comunidade mais do que os outros"? Na comunidade de Jesus, a idade, o tempo de serviço, a cor da pele, a posição social, a posição hierárquica, não servem para fundamentar qualquer tipo de privilégios ou qualquer superioridade sobre os outros irmãos. Embora com funções diversas, todos são iguais em dignidade e todos devem ser acolhidos, amados e considerados de igual forma.

A segunda leitura apresenta-nos o exemplo de um cristão (Paulo) que abraçou, de forma exemplar, a lógica de Deus. Renunciou aos interesses pessoais e aos esquemas de egoísmo e de comodismo, e colocou no centro da sua existência Cristo, os seus valores, o seu projecto.
Um dos elementos que mais impressionam e questionam neste testemunho é a centralidade de Cristo na vida de Paulo. Diante de Cristo, todos os interesses pessoais e materiais do apóstolo passam a um plano absolutamente secundário. O apóstolo vive de Cristo e para Cristo; nada mais lhe interessa. Paulo aparece, neste aspecto, como o perfeito modelo do cristão: para os baptizados, Cristo deveria ser o centro de todas as referências e interesses, a "pedra angular" à volta da qual se constrói a existência cristã. Que significa CrisVoltar para Deusto para mim? Ele é a referência fundamental à volta da qual tudo se articula, ou é apenas mais um entre muitos interesses a partir dos quais eu vou construindo a minha vida? Quando tenho de optar, para que lado cai a minha escolha: para o lado de Cristo, ou para o lado dos meus interesses pessoais?


https://www.dehonianos.org/

sábado, 19 de setembro de 2026

E se a resposta de Deus não for a que esperavas?




Há perguntas que fazemos a Deus já com a resposta a fervilhar na cabeça. Pedimos que uma porta se abra, que uma situação se resolva, que alguém fique, que uma doença desapareça, que um sonho se concretize. Rezamos com fé, mas, muitas vezes, confundimos fé com a certeza de que Deus fará exatamente aquilo que Lhe pedimos.

E se a resposta de Deus não for a que esperavas?

É talvez aí que começa a verdadeira fé. Porque acreditar em Deus quando tudo acontece como desejamos é relativamente fácil. Mais difícil é continuar a confiar quando o caminho toma uma direção que não compreendemos.

A oração não é uma forma de convencer Deus a fazer a nossa vontade. É, antes, o lugar onde aprendemos a confiar na vontade d’Ele. E isso nem sempre é simples. Há respostas de Deus que chegam sob a forma de um «sim», mas também há «nãos» e há silêncios que nos desconcertam.

O problema é que queremos compreender tudo. Queremos saber porquê, para quê e quando. Deus, porém, nem sempre nos dá explicações. Dá-nos, muitas vezes, a Sua presença.

São Paulo escreve: «Sabemos que Deus concorre em tudo para o bem daqueles que O amam» (Rom 8, 28). Não significa que tudo o que nos acontece seja bom. Significa que Deus é capaz de fazer nascer bem mesmo daquilo que, naquele momento, nos parece uma derrota, uma perda ou um caminho sem saída.

Talvez a resposta que esperávamos não fosse aquela de que precisávamos. Talvez a porta que tanto pedimos para abrir precisasse mesmo de permanecer fechada. Talvez aquilo que interpretámos como ausência de Deus fosse, afinal, uma forma diferente da Sua presença.

Confiar não significa deixar de sofrer ou de fazer perguntas. Significa continuar a caminhar mesmo quando não temos todas as respostas. Significa dizer a Deus: «Eu não entendo, mas continuo a confiar em Ti.»

Porque Deus não deixa de ser Deus quando a Sua resposta nos desilude. E nós não deixamos de ser amados quando a nossa oração não recebe a resposta que esperávamos.


Luísa Gonçalves, Diocese do Funchal

sexta-feira, 18 de setembro de 2026

JÁ APRECIOU A PORTA DA SUA IGREJA?


JÁ APRECIOU A PORTA DA SUA IGREJA?

Ainda não?!... então venha daí que eu vou fazer-lhe uma visita guiada. Ajudá-lo-ei a descobrir a rara beleza que a porta da sua igreja contém. Por detrás do que se vê, há particularidades tão preciosas que fazem dela uma joia de valor incalculável. Tenha sido atamancada por um amador, burilada por um artista de renome ou feita por um faz-tudo assim-assim, todos devem enlevar-se pelo seu encanto e alcance. Há muitas, muitas, muitíssimas portas, é verdade! A porta da sua igreja, porém, é mesmo muito especial. Quando a olha ou por ela entra, mesmo que esteja carcomida pelo tempo, pelo desleixo ou pela velhice, tem motivo para se orgulhar, para a contemplar, agradecer e se inclinar reverentemente perante a sua importância e os seus desafios. Foi ela que, no dia do seu Batismo, se abriu para o abraçar e tornar membro do discipulado universal de Jesus. É ela que continua a escancarar-se para o acolher, individualmente, em família ou em assembleia celebrante. Não lhe estou a dizer que a vamos observar como se ela representasse um daqueles momentos extraordinários da salvação, como aquelas portas que, por decisão ou licença do Papa, se abrem solenemente em Anos Santos ou em Jubileus universais ou diocesanos. Perante essas, peregrina-se e mergulha-se na profundidade do mistério que se evoca e na intensidade da experiência da conversão. Essas são o símbolo máximo da indulgência e do perdão, curando as feridas da alma. Embora ambas manifestem a passagem do profano para o sagrado, elas operam em graus e tempos litúrgicos diferentes. Estou apenas a referir-me à porta da sua igreja paroquial, a esse limiar comum entre o fora e o dentro, dando acesso à celebração das realidades da vida e da fé: tanto das alegrias como das tristezas, tanto das festas pessoais, familiares e comunitárias como dos lutos e afins. Cruzar esta porta é um ato de fidelidade normal, onde o crente entra para agradecer, alimentar e celebrar a fé, saindo fortalecido para ser testemunha da fé, na família e no mundo. Cruzar, ou apenas olhar essa porta, deve lembrar a necessidade da conversão permanente, da passagem do pecado à graça, do homem velho ao homem novo, abraçando uma vida nova em Cristo. A sua importância, pelo seu simbolismo, está muito para além do ser uma mera porta de entrada para um edifício que é preciso cuidar e defender.
Nos apriscos das ovelhas da antiga Palestina não existia nenhuma porta. O pastor recolhia as ovelhas e deitava-se ele próprio na abertura do aprisco. Ao deitar-se ali, o pastor era a porta. Ninguém podia entrar para fazer mal às ovelhas. Nenhuma ovelha saía sem ele dar por isso. Ele era o único responsável pelas ovelhas perante o seu dono e o pastor dado pelo dono às suas ovelhas. Ele as conduzia a pastagens verdejantes e seguras, isto é, a pastagens de erva fresca, à água para matarem a sede, aos lugares livres de predadores e ladrões, a lugares seguros para o descanso, enfim, ele as protegia, alimentava e cuidava.
Quando Jesus afirma: “Eu sou a porta das ovelhas” (Jo 10, 7-19), está-nos a dizer que ele é o único mediador legítimo entre Deus e os homens, entre os homens e Deus. É o Bom Pastor que dá a vida pelas suas ovelhas, que oferece a sua própria vida, o seu próprio corpo como barreira contra o mal, contra os ladrões e salteadores, contra o egoísmo e os inimigos do bem. Não é uma porta de prisão, mas a garantia da verdadeira liberdade, de proteção e cuidados. Não reclama força para se fechar ou abrir. Ela funciona ao som da voz do pastor. Ele conhece uma por uma as suas ovelhas, chama-as pelo nome, elas seguem-no porque conhecem a sua voz, e ele leva-as a pastagens verdejantes. Estas pastagens verdejantes a que Cristo nos conduz, representam o sustento espiritual, a paz e a segurança que ele providencia, sobretudo, através da sua Palavra, da sua graça, do seu próprio Corpo feito pão da vida, do alívio e restauro das forças espirituais aos que estão cansados e oprimidos, do abrigo seguro contra os perigos, do acesso à comunhão plena com Deus. A porta da sua igreja simboliza, pois, Cristo, que afirmou: "Eu sou a porta. Quem entrar por mim salvar-se-á"(Jo 10,9). Ele é a única porta pela qual cada pessoa deve passar para descobrir a sua verdadeira dignidade, para entrar na vida plena, na graça, na salvação. É a porta que o Pai misericordioso abriu no meio do mundo, no meio da história, no meio da sua paróquia. Entrar pela porta da sua igreja significa o desejo de se configurar a Jesus Cristo, de o conhecer cada vez melhor, de acolher o Seu amor, de assumir o caminho da conversão, de viver a plena liberdade, de entrar para o recolhimento com o Senhor e de sair para o mundo, para a missão, totalmente protegido e fortalecido. Cruzar o limiar dessa porta especial, implica escancarar as portas do coração a Cristo Redentor, deixando entrar o ar fresco do seu Espírito, para o aggiornamento pessoal, a conversão. “Eis que estou à porta e bato" (Ap 3,20). E porque bate? “Porque vos amo, porque vos chamei amigos, porque sem mim nada podereis fazer, porque sou o caminho, a verdade e a vida, porque quero que onde eu estiver vos estejais também, porque não há outro nome debaixo do céu pelo qual possais ser salvos’.
Quando entrar ou passar em frente da porta da sua igreja, lembre-se do que ela simboliza, lhe lembra e pede. Se estiver aberta e entrar, ele lá está, no Sacrário, à sua espera. Convide-o para o centro da sua vida, da sua família, das suas escolhas, do seu dia-a-dia para que a rotina da vida não torne a vida rotineira.

D. Antonino Dias
Caminha, 18-09-2026

TRANSMISSÃO DE TESTEMUNHO NA PARÓQUIA DE ARRONCHES


TRANSMISSÃO DE TESTEMUNHO NA PARÓQUIA DE ARRONCHES


Após a emocionante despedida do nosso querido Padre Fernando Farinha, a nossa comunidade prepara-se agora para acolher o seu novo pastor. Convidamos todos os paroquianos e amigos a estarem presentes na solene celebração de acolhimento e tomada de posse:


Próximo domingo, 20 de setembro de 2026
pelas 17h00 
na
Igreja Matriz de Arronches

O Novo Pároco: O Padre Pontien Luboya Ilunga assumirá o testemunho pastoral das paróquias de Assunção, Esperança, Mosteiros e Degolados.
 O acto litúrgico será presidido pelo Bispo da Diocese de Portalegre e Castelo Branco, D. Pedro Fernandes.
Vamos unir-nos em comunidade para receber o Padre Ponciano com a mesma generosidade, carinho e hospitalidade que tanto caracterizam as gentes de Arronches. Que o seu novo ministério entre nós seja ricamente abençoado! 




quinta-feira, 17 de setembro de 2026

Igreja/Migrações: Presidente da Comissão Episcopal da Mobilidade Humana apela à desconstrução dos discursos de ódio

D. Pedro Fernandes rejeita visões que apresentam migrantes como um «peso»

                                                   Foto: Agência ECCLESIA/MC

Lisboa, 13 set 2026 (Ecclesia) – O presidente da Comissão Episcopal da Mobilidade Humana assinalou a necessidade de combater os discursos de ódio e a manipulação de dados sobre a população imigrante.

“Os discursos de ódio, os dados errados, a manipulação de opinião, evidentemente estão muito mais ligados a uma visão extremista da discriminação, de xenofobia, de racismo”, indicou D. Pedro Fernandes, convidado da entrevista semanal conjunta ECCLESIA/Renascença.

“Mesmo do ponto de vista económico, social, demográfico, laboral, as nossas sociedades, e em concreto a sociedade portuguesa, precisam dos imigrantes”, acrescentou.

O bispo de Portalegre-Castelo Branco sublinhou que a sociedade portuguesa é tendencialmente tolerante, identificando um sentimento difuso de insegurança nas sociedades ocidentais que alimenta o populismo, promovendo um clima de “medo”.

A reflexão abordou as recentes decisões legislativas em Portugal, com o prelado a admitir o risco de o poder político capitular perante pressões em detrimento dos valores de humanidade.

“É importante apoiar e não combater os vulneráveis”, sustenta.

O entrevistado evocou o magistério pontifício sobre a matéria, sintetizado nos verbos “acolher”, “proteger”, “promover” e “integrar”, rejeitando abordagens governamentais focadas exclusivamente na gestão de fluxos.

“Significa abrir caminhos, também legais ao nível das legislações, seguros para a entrada de migrantes, evitando que caiam nas mãos de traficantes”, detalhou o responsável católico sobre o imperativo do acolhimento.

D. Pedro Fernandes exemplificou a vulnerabilidade destas populações com os recentes episódios envolvendo menores em Ceuta, recordando as preocupações do pontífice face aos “traumas” provocados pela separação familiar.

A intervenção considerou prioritário o papel institucional da Igreja na desconstrução da desinformação, desafiando as comunidades a formar animadores pastorais alicerçados na doutrina social.

“O que está aqui em causa é um problema de humanidade, que tem a ver com valores fundamentais”, apontou.


Para um cidadão que se diz católico, não pode haver fidelidade à sua fé católica e, eu diria, à sua pertença à Igreja se não houver sensibilidade para todos estes temas.”

O presidente da comissão rejeitou a premissa de que a imigração representa um “peso” para o país.

“Quem diz que eles são um problema a este nível, ou um peso, evidentemente está a mentir, porque contradiz claramente todos os dados estatísticos muito objetivos de que nós dispomos”, apontou.

O bispo comentou também a realidade da Diocese de Portalegre-Castelo Branco, notando a tendência contínua de saída dos jovens para os grandes centros urbanos em busca de melhores condições de vida.

O responsável instou à promoção de políticas públicas mais “eficazes” para a coesão territorial, assegurando que as estruturas eclesiais procuram manter uma presença ativa junto das populações do interior.

Henrique Cunha (Renascença) e Octávio Carmo (ECCLESIA)

quarta-feira, 16 de setembro de 2026

A vida num segundo

 



Já apanhas te um daqueles sustos que te fazem ver a vida num segundo. Daqueles que pensas: “foi por um triz!”?

Acredito que sim! Como foi?

Quais foram as primeiras imagens e sentimentos que surgiram?

Pensas-te em mudar alguma coisa?

Desculpa as minhas perguntas mas acho curioso como numa fração de segundo, o nosso cérebro tem a capacidade de processar tanta informação e ir buscar ao subconsciente memórias quase esquecidas. Dá tempo para relembrar o passado e até de imaginar o que perderíamos que a nossa vida terminasse ali, naquele segundo. Os filhos que não veríamos crescer, os netos que não veríamos casar e eu sei lá o que mais nos ocorre. É como uma tempestade que nos abana mas que depois segue caminho deixando-nos com a destruição.

E depois, o que muda, se é que muda alguma coisa?

Depois de recuperados do susto é tempo de ser gratos e, até fazer de promessas que rapidamente “leva-as vento”. Seguimos caminho a recuperar de medos de voltar a passar por algo semelhante, seja connosco, como com os nossos. Sim, porque quando algo grave acontece com os nossos, a emoção é idêntica. Quando recebes uma chamada de alguém aflito a pedir ajuda. Quando te ligam da escola a dizer que o teu filho se magoou. Quando ligas para casa dos pais e ninguém atende. Quando somos incapazes de controlar o presente, tememos o futuro e somos envolvidos pelo saudosismo do passado.

Seja connosco ou com os nossos, volta e meia somos assolados por sustos que nos fazem ver a vida numa pequena fração de segundo. Quando não for evitável é aproveitar!

É ser grato, é abrir os olhos do coração e é refletir sobre essas emoções e em especial pelas pessoas que as causaram. Se calhar é essa a mudança que precisas. Se calhar são abraços que não foram dados, conversas silenciadas e projetos escondidos.

Se calhar pode ser o princípio de algo!

E tu amiga, que sustos já apanhas-te?


Raquel Rodrigues





terça-feira, 15 de setembro de 2026

Perdão, o caminho para a liberdade?




Como disse Shakespeare:
"Guardar rancor é como beber veneno e esperar que a outra pessoa sofra"



Ser corajoso não é armar um exército contra quem nos ofendeu;

é olhar para quem esteve menos bem connosco e tranquilamente ficar em Paz.

Perdoar é a ação mais libertadora que a nossa vida nos apresenta.

MAS… É uma opção nossa e só nossa.

Podemos manter o desconforto, a tristeza, a dor...

ou respirar fundo, fechar os olhos, acalmar a Alma e sentir Jesus a pulsar no nosso sangue!


A ira e a vingança não faz de nós seres superiores.

O verdadeiro coração Cristão é aquele que aniquila sentimentos mesquinhos,

que nos fazem perder o rumo do caminho certo que nos leva à Santidade:

Levar Jesus a todos e todos a Jesus, nos pequenos grandes gestos do dia a dia.

A liturgia de domingo,

vem ao nosso encontro com aquele Perdão, que só Jesus é capaz de semear...

Aquele número infinito de vezes que a pessoa nos ofende,

e reagimos de olhos fechados, de boca fechada e até de ouvidos fechados…

é quase como uma tortura que emana um doce perfume da Cruz d’O Cristo!


Não podemos pensar que só os outros é que erram connosco.

Cada um de nós já fez algo que interferiu na vida do seu próximo e deixou cicatrizes….

Já colocou um espinho na carne do outro. Já se achou mais do que o outro.



A Parábola do servo impiedoso vem em nosso auxílio e é reforçada pela oração do Pai Nosso:

“Perdoa as nossas ofensas, assim como nós perdoamos!”

Se no Evangelho da semana passada,

Jesus manda-nos falar [diretamente] com aquele que toma más decisões,

hoje, coloca em cada coração a força do Perdão, regada pelo fruto da Paciência.



De que nos adianta uma guerra,

quando os momentos mais felizes são os abraços que oferecemos?

Já escutaste o ritmo do teu coração,

quando sente a angústia e a ira de quem te traz infelicidade?

Provoca-te o pânico e o ar nem entra nos pulmões.

É a ansiedade de viver fora dos sonhos de Deus, nosso Pai.

É a maldade a ganhar raiz… é o humano a vencer o Divino que é o Amor mais puro…



Resta apenas a mundana questão:

“Como posso perdoar-me pelo que fiz para perder o Senhor Jesus?”

Jesus responde misericordiosamente:

“Não precisas de te perdoar, porque EU já te perdoei e perdoar-te-ei, sempre!”



Já pensaste em desconsertar quem te ofende com um silencioso abraço?

Jesus, do alto da Cruz, quando perdoa os pecados da humanidade,

é muito mais do que 70X7!


Agora vai e perdoa.

Irás libertar-te do veneno de não reconheceres Deus em cada coração humano…



Liliana Dinis


segunda-feira, 14 de setembro de 2026

Débitos e créditos...

 


Débitos e créditos...

Achamos sempre que nestas matérias os outros nos devem muito e nós devemos sempre tão pouco aos outros! Se falarmos de perdão, os outros devem-nos sempre muito e nós não devemos nada a ninguém... No entanto, o pequeno crédito que achamos que temos para com os nossos irmãos não é nada comparado com a dívida monstruosa que contraímos para com Deus e que Ele cancelou.
Jesus conta uma parábola que é medicinal, para todos nós, que nos julgamos vítimas de DÍVIDAS IMPAGÁVEIS ou de OFENSAS INAPAGÁVEIS. Jesus sabe que a vingança, que não dá lugar ao perdão, faz mais mal à vítima, do que a ofensa do agressor!
Perdoar faz-nos bem! A ira e o rancor fazem mal ao coração! Quem não perdoa faz mal a si próprio, alimenta o veneno que o mata. Quem não sabe perdoar, pode ficar ferido para sempre.
Perdoar é necessário, para conviver, de maneira saudável: na família, na amizade e no amor e em múltiplas situações da vida.
Perdoar não significa branquear o mal, ignorar a injustiça! Não perdoo, porque eu seja bom e o outro mereça. Perdoamos um ao outro, porque ambos precisamos de seguir em frente... O perdão é um presente com futuro!
Digo-te, agora, a ti mesmo, e de todo o coração: se não for por mais nada,
“perdoa, pela tua rica saúde”!

Padre João Torres

domingo, 13 de setembro de 2026

Arronches despede- se do Padre Fernando

Reverendo Padre Fernando Farinha,

Celebrar os seus 56 anos de sacerdócio e, em particular, os últimos 17 anos dedicados à nossa comunidade é um ato de elementar justiça e profunda gratidão. A Igreja Matriz de Arronches testemunhou hoje não uma despedida, mas sim o reconhecimento público de uma vida inteira entregue a Deus e ao próximo.

É com o coração cheio de emoção e de uma profunda gratidão que hoje nos despedimos das suas funções como nosso pároco. Foram 17 anos de uma dedicação incansável às paróquias de Assunção, Esperança e Mosteiros, mas, acima de tudo, foram 17 anos em que o Padre Fernando foi mais do que um pastor — foi um amigo, um conselheiro e uma presença constante nas nossas vidas.
Obrigado pelo seu brio, pela sua sensibilidade e pela forma tão bonita como sempre cuidou da nossa comunidade.
Agradecemos o seu zelo pastoral, o cuidado que dedicou às nossas paróquias e a dignidade com que sempre celebrou a fé entre nós. O seu dever foi cumprido com uma entrega exemplar.
Levaremos sempre connosco o seu exemplo de fé e humanidade. Que esta nova etapa da sua vida lhe traga o merecido descanso, com a certeza de que a sua marca em Arronches é eterna..
Rezamos para que Deus o abençoe nesta nova fase de recolhimento, concedendo-lhe saúde e paz. Arronches será sempre a sua casa.

Senhor Deus,
Hoje elevamos o nosso coração em ação de graças pela vida, vocação e ministério do Padre Fernando Farinha. Obrigado pelos 58 anos de sacerdócio que ele ofereceu à Tua Igreja e, de forma especial, pelos 17 anos em que ele foi o bom pastor das nossas paróquias de Arronches.
Abençoa-o, Senhor, pelo pão que repartiu, pelas palavras de conforto que proferiu e pelo amor com que nos guiou. Pedimos-Te que lhe concedas agora o descanso merecido, saúde e a constante certeza de que a sua semente deu frutos generosos na nossa terra. Protege-o e guarda-o sempre no Teu amor.
Amén.


Com toda a nossa amizade e gratidão,

Muito obrigado por tudo.




COITADO!... O HOMEM CHORAVA COMO UMA MULHER!...

 


Não fui eu quem viu!... Não fui eu quem o disse!... Tampouco sei apreciar tão lacrimosos epifenómenos através desse suor das janelas da alma!... Sim, isto de ver rios de água a serpentear cara abaixo de qualquer homem feito Madalena ou de qualquer Madalena feita homem não é, para mim, coisa agradável de se ver. Muito menos eu faria uma afirmação assim tão deselegante. A não ser que perdesse o tino e me deixasse influenciar pela baixaria que ecoa lá pela ‘Universidade Politécnica do Parlamento’, no ensino e exercício prático com que transmite e educa o país na arte nobre da política. Se ela fosse uma das competências de avaliação do PISA, haveríamos de ver como o ranking da maior parte dos eleitos pelo povo os faria chorar as pitangas, mas sem propósito de emenda. Perante a contumácia, só um GPS de marmeleiro lhes indicaria o rumo certo!... ihhihihihih!
Terá sido Aixa, mãe do rei de Granada, quem viu e afirmou essa coisa em título. E ao que parece, não eram lágrimas de crocodilo. Eram o amargo fruto daquela tremebunda e monarca tristeza, sentada lá pelos sofás daquele coração feito em cacos, destroçado! Ninguém gosta de perder nem que seja a feijões ou na raspadinha!... Na impossibilidade de torcer o pescoço aos reis de Espanha, o dito cujo, com a mochila às costas carregada com mísseis de raiva visceral, disparou, lá do alto do monte por onde passava, o seu último olhar e suspiro sobre a cidade! Não destruiu nada, não matou ninguém, ninguém se intimidou, foi um mero desabafo em alívio daquele patriótico nó na garganta. Presumo até que, naquele momento, o seu único consolo seria o de saber que iria chegar a casa a tempo e horas para o jantar, com a certeza de que, a partir de agora, iria ter tempo com fartura para o que desse e viesse! Acabava de entregar, à governança de Espanha, definitivamente, as chaves dessa sua amada pátria: Granada. Era o 2 de janeiro de 1492. O monte passou a ser conhecido por “Suspiro do Mouro”. Sua mãe, mulher resistente, de carácter forte e ‘pelo na venta’, de ‘antes quebrar que torcer’, que tudo tinha feito pelo seu filhote rei e pelo reino de todos, desgostosa pela sua fraqueza e capitulação, ter-lhe-á dito, ironicamente: “Chora, chora agora como uma mulher o que não soubeste defender como um homem”....
Mudando o bico ao prego, há muitas coisas na vida que também nós, homens e mulheres, temos de defender com determinação, com valentia e orgulho, para que um dia não tenhamos de chorar a perda daquela Pátria definitiva que nos está reservada. Uma Pátria que nem os olhos viram, nem os ouvidos escutaram, nem o coração suspeitou, nem qualquer mente humana, por mais fulgurosa que seja, pode sequer imaginar quão sublime ela é (cf. 1Cor 2,9). Uma dessas coisas que é preciso defender e cuidar é a fé de que já falámos no texto anterior e continuaremos a falar. Mas o que é a fé? Não é um vago sentimento religioso que toda a gente tem, todas as civilizações e culturas tiveram e continuam a ter. O desejo de Deus “é um sentimento inscrito no coração do homem, porque o homem foi criado por Deus e para Deus. Deus não cessa de atrair o homem para Si e só em Deus é que o homem encontra a verdade e a felicidade que procura sem descanso” (CIC1). A fé também não é um saber de cor um conjunto de princípios que alguém ensinou a papaguear. Não é qualquer coisa que se possa reivindicar pelas ruas, comprar na quermesse, na feira, na farmácia, na loja dos chineses ou no supermercado, embora, mesmo que já se tenha e dela se viva, se deva pedir constantemente com humildade e confiança. Dizer que se tem fé está para além do dizer que se acredita e do clamar pelo Senhor. Não é uma mera concordância intelectual, pois, como São Tiago afirma, “também os demónios creem” (Tg 2,19). Não é uma espécie de passaporte, uma força interior a exigir que Deus satisfaça os nossos caprichos, como São Tiago também denuncia (Tg 4,3). Não é um compromisso cego, um sentimento arbitrário, um otimismo vazio, uma mera esperança humana. Não é coisa que se oponha à razão. Fé e razão devem ser como Romeu e Julieta, precisam uma da outra e uma implica a outra, completam-se, são duas janelas diferentes de olhar o mundo, duas formas diferentes de procurar a verdade, “duas asas pelas quais o espírito humano se eleva para a contemplação da verdade”, como escreveu São João Paulo II no Prólogo da Fides et Ratio. Fé e razão apoiam-se e dialogam entre si, respeitosamente. A fé apoia-se na autoridade divina e na revelação. A razão baseia-se na lógica, na evidência, na capacidade crítica da mente humana. Ciência e fé respondem a perguntas diferentes e utilizam métodos distintos para compreender a realidade do universo. A ciência investiga o “como” do universo e das suas maravilhas, através de evidências empíricas, de testes e do método científico, quer saber como as coisas funcionam e se formaram. A fé procura responder ao ‘porquê’ do universo, centrando-se no sentido da existência, na origem última e nos valores espirituais que estão fora do alcance observável de qualquer laboratório. A razão protege a fé do fanatismo, da superstição, da credulidade cega, das bruxarias, adivinhos, videntes e quejandos. A fé protege a razão da perda de sentido, do ceticismo absoluto, de possíveis endeusamentos e arrogâncias de autossuficiência.
Como escreve José Ayllón, “os ateus acham que Deus não existe. Os agnósticos dizem que Deus não fala. Os crentes creem que Deus nunca se cala. Por vezes, porém, aqueles que o negam ou o ignoram começam a ouvi-lo na imensa linguagem das galáxias, no elegantíssimo idioma da genética, nos números incríveis da física atómica, na linguagem inefável do amor e ainda no desconcertante significado do sofrimento”.
D, Antonino Dias
Caminha, 11-09-2026.

«Senhor, quantas vezes devo perdoar?

 

https://www.youtube.com/watch?v=6tl9fJyfHTM&list=PLAqKRngqwuSfPdOPEvu7KzjdvMvB1w33f&index=149

A Palavra de Deus que a liturgia do 24º Domingo do Tempo Comum nos propõe fala do perdão. Apresenta-nos um Deus que ama sem cálculos, sem limites e sem medida; e convida-nos a assumir uma atitude semelhante para com os irmãos que, dia a dia, caminham ao nosso lado.

O Evangelho fala-nos de um Deus cheio de bondade e de misericórdia que derrama sobre os seus filhos - de forma total, ilimitada e absoluta - o seu perdão. Os crentes são convidados a descobrir a lógica de Deus e a deixarem que a mesma lógica de perdão e de misericórdia sem limites e sem medida marque a sua relação com os irmãos.
O que significa, realmente, perdoar? Significa ceder sempre diante daqueles que nos magoam e nos ofendem? Significa encolher os ombros e seguir adiante quando nos confrontamos com uma situação que causa morte e sofrimento a nós ou a outros nossos irmãos? Significa "deixar correr" enquanto forem coisas que não nos afectem directamente? Significa pactuar com a injustiça e a opressão? Significa tolerar tudo num silêncio feito de cobardia e de conformismo? Não. O perdão não pode ser confundido com passividade, com alienação, com conformismo, com cobardia, com indiferença... O cristão, diante da injustiça e da maldade, não esconde a cabeça na areia, fingindo que não viu nada... O cristão não aceita o pecado e não se cala diante do que está errado; mas não guarda rancor para com o irmão que falhou, nem permite que as falhas derrubem as possibilidades de encontro, de comunhão, de diálogo, de partilha... Perdoar não significa isolar-se num silêncio ofendido, ou demitir-se das responsabilidades na construção de um mundo novo e melhor; mas significa estar sempre disposto a ir ao encontro, a estender a mão, a recomeçar o diálogo, a dar outra oportunidade.

A primeira leitura deixa claro que a ira e o rancor são sentimentos maus, que não convêm à felicidade e à realização do homem. Mostra como é ilógico esperar o perdão de Deus e recusar-se a perdoar ao irmão; e avisa que a nossa vida nesta terra não pode ser estragada com sentimentos, que só geram infelicidade e sofrimento.
Todos os dias vemos, nas notícias que nos chegam de todos os cantos do mundo, onde nos leva a lógica do "responder na mesma moeda". Para vingar ofensas reais ou imaginárias, desencadeiam-se mecanismos de vingança que são responsáveis pela morte de inocentes, por sofrimentos e dramas sem fim e por uma espiral de violência sem limites e sem prazos. É este o mundo que queremos? A única forma de fazermos respeitar os nossos direitos e a nossa dignidade passará por deixarmos à solta os nossos instintos de vingança, de rancor e de ódio?

Na segunda leitura Paulo sugere aos cristãos de Roma que a comunidade cristã tem de ser o lugar do amor, do respeito pelo outro, da aceitação das diferenças, do perdão. Ninguém deve desprezar, julgar ou condenar os irmãos que têm perspectivas diferentes. Os seguidores de Jesus devem ter presente que há algo de fundamental que os une a todos: Jesus Cristo, o Senhor. Tudo o resto não tem grande importância.
Paulo está consciente de que há vários caminhos válidos para chegar a Cristo e à sua proposta de salvação. Esses caminhos não só não se excluem mas, na sua diversidade, constituem um factor de enriquecimento da nossa experiência comunitária. A comunidade tem de estar consciente de que a diversidade não exclui, necessariamente, a unidade. Por isso, a comunidade cristã não é o lugar da intolerância, da incompreensão, do desrespeito pela diversidade de opiniões, da uniformidade imposta em nome da fé; mas é o lugar do amor, do respeito pelo outro, da aceitação das diferenças, da partilha, do perdão. A este respeito, como classifico a minha comunidade cristã ou religiosa?


https://www.dehonianos.org/

sábado, 12 de setembro de 2026

Sem medo de ter saudades

 



Em cada tempo de recomeço, importa olhar o passado para tentar compreender o caminho, mas também olhar para o futuro, porque não se vive sem olhar em frente.

Os sonhos integram todas as saudades, levando-as connosco e cada vez mais longe.

Há quem prefira não sofrer com perdas e, por isso, a nada se apega. Ora, se é verdade que quem não ama não sofre, também será verdade que só não sofre porque não vive. Amar é a única forma de alguém se realizar.

Há quem julgue que, confiando apenas em si mesmo, chegará mais longe. Na verdade, até pode chegar, mas sem ninguém… e que tristeza é a solidão de quem descobre que, afinal, por mais que tenha alcançado, sozinho, ninguém chega a ser feliz.

Sonhemos sem medo de nunca alcançar o que sonhamos ou de perder o que conquistámos. Sonhemos sem medo de nos tornarmos alguém com ainda mais saudades.

Aquilo que temos, amanhã, já terá passado, mas o que somos será a base do que seremos. A perda edifica-nos, constrói-nos, revela-nos o quanto amamos.

A saudade contém dor, porque nasce de uma ausência, mas também gratidão, porque é a prova de que algo magnífico existiu. A saudade dói, mas é um tesouro que se enriquece a cada dia.

Talvez seja bom sermos capazes de valorizar o dia de hoje, porque muito em breve tudo isto fará parte do passado. Cada instante é irrepetível, e quanto melhor vivermos, maior será a saudade.

E que tristeza será a de quem não sente saudades, mas apenas arrependimentos…

José Luís Nunes Martins