Pelas escadas da vida acima, há muita variedade de corrimãos: a família, a Igreja, as escolas, as universidades, as instituições, os clubes, os colegas de trabalho, os amigos... enfim, um sem número de corrimãos.
Regra geral, os corrimãos fazem companhia ao lado de quem sobe ou desce as escadas. Mesmo que não façam falta, dão confiança, estão prontos para ajudar. Pela sua natureza, não são coisa para pisar ou desprezar, são para respeitar. Alguém haverá, que, na sua sôfrega ambição e exagerada autoconfiança, anseie, por si só, chegar ao topo das escadas o mais depressa possível, pulando até dois ou três degraus de cada vez como se fosse um campeão olímpico jamais igualado. Nestes propósitos, corre o risco de cair e partir os degraus das escadas com o nariz e os queixos. Com os focinhos, diz este povoléu do qual faço parte, ihihihih... Possivelmente, até dispensará os patamares das escadas para descansar as canetas e avaliar se não será melhor subir mais devagar e com outros propósitos, ou descer alguns degraus para mudar de rumo. Pior ainda se, desconsiderando-os, faz dos diversos corrimãos das escadas da sua vida uns meros trampolins para trepar vaidosamente! O leitor fará o favor de discernir se isto é ou não é mera ficção!...
Há uma preocupação comum a todos os humanos. Constitui o mais importante ponto de convergência de todas as diferenças. É o desejo de felicidade! Sejam quais forem os caminhos, somos criaturas que procuram a felicidade de forma apaixonada e nunca satisfeita. O sonho comanda a vida nesse sentido. A par, a experiência da fragilidade, dos limites, da doença e da morte ensina-nos que não dominamos o tempo nem a qualidade da existência, que não somos omnipotentes, que há coisas que nos desgastam e moem e não têm importância de maior, que a morte nos iguala a todos. Reconhecemos que a vida é curta e misteriosa, que não depende só de nós, que os bens mais importantes são a vida e o amor, que o mais importante é aceitar e disfrutar cada dia como prenda no sapatinho na chaminé. Ainda por cima, sabemos que fomos criados por amor e que Jesus nos veio revelar o rosto de um Deus que ama a vida e a felicidade do homem. Mas - pode perguntar-se -, se assim é, porque é que o Senhor permite a dor, o envelhecimento e a morte? Não há por aí, porventura, quem se declare ateu, forjando razões para apaziguar a sua consciência e se justificar perante os outros, só porque acha que o silêncio de Deus diante da dor é uma injustiça? Sim, há, e esse é, de facto, um dos maiores mistérios da humanidade, é o mistério do mal. O silêncio de Deus, porém, não significa ausência ou indiferença. É o custo doloroso de um mundo livre. A liberdade humana é tão sagrada que Deus prefere correr o risco do mal. Ele não criou um mundo de ‘robôs biológicos’, de seres programados. O amor forçado não é amor. Sem escolha não há virtude. Deus dotou o homem de inteligência, vontade e coração e confiou-lhe a tarefa de cuidar, cultivar e aperfeiçoar a criação, com amor. A questão, pois, não é saber onde está Deus. É saber onde está o homem, a humanidade. Jesus, na cruz, representa o próprio Deus vivenciando a dor extrema, a injustiça, o ódio, o abandono, o desprezo. Ele partilha a dor, ele sofre com o inocente, ele apela ao amor fraterno, à conversão da mente e do coração. Os homens, porém, ainda não entenderam, não querem entender. Preferem a guerra à paz, o ódio ao amor, o orgulho à humildade, a brutalidade dos encontrões à cultura dos encontros!
Mas será que nos devemos resignar? Não, a esperança na felicidade não morre. Como escreveram os Bispos franceses, “a esperança tem a ver com a alegria de viver. Supõe um futuro a esperar, a preparar, a desejar. Sentimos que a esperança requer e suscita unidade no coração: dá sentido e motiva cada um dos nossos sentimentos, cada uma das nossas aspirações, cada um dos nossos projetos.... Se há esperança, há paciência e há vigilância que faz discernir e que impele ao compromisso com cada coisa....”. E se há uma esperança que nasce e cresce graças às relações com as pessoas, também é possível pensar e desejar a esperança como um dom que vem ao nosso encontro de modo imprevisível, como um dom que transcende as nossa possibilidades, os nossos projetos, os nossos horizontes, como um dom que crê e ama: “a esperança de quem se sente amado, querido apoiado no quotidiano, num crescendo de sentido, de alegria, de operosidade construtiva, que vai para além de todos os limites. É esta a esperança que vem de Deus”... há em nós a nostalgia de um amor infinito...
Não acredita? Esqueça, isso passa! Duvida? Deixe lá, Miguel de Unamuno dizia que ‘uma fé que não duvida é uma fé morta’. Talvez Joseph Ratzinger possa ser o seu corrimão para lhe dizer que não está longe do Reino dos Céus, ajudando-o a subir mais alguns degraus nessas escadas da vida. Repare no que ele, já em 1969, muito antes de ser Bento XVI, escreveu: “Ninguém é capaz de apresentar uma prova matemática de Deus e do seu Reino; o próprio crente é incapaz de o fazer para seu próprio uso. Mas o não-crente bem quererá encontrar uma justificação, mas não escapará a este inquietante “talvez isso seja verdade!”.... por outras palavras, tanto o crente como o não-crente, cada qual à sua maneira, conhecerão a dúvida e a fé, se não tentarem iludir-se e disfarçar a verdade do seu ser. Ninguém pode escapar totalmente à fé; num, a fé estará presente contra a dúvida, noutro, graças à dúvida e na forma de dúvida. Há uma lei fundamental do destino humano: a humanidade realiza a sua existência nesta dialética permanente entre a dúvida e a fé, entre a tentação e a certeza. Desta forma, a dúvida, que impede tanto um como o outro de se encerrar na sua torre de marfim, poderia tornar-se o seu lugar de comunhão. Em vez de se dobrarem sobre si mesmos, eles encontrarão nela uma ocasião de abertura recíproca. O crente partilhará, assim, o destino do não-crente e este, graças à dúvida, sentirá o desafio lançado inexoravelmente pela fé”.
D. Antonino Dias
Caminha, 25-09-2026
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