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quarta-feira, 6 de maio de 2026

Quando a ausência fala




Quando a ausência fala

Nem tudo na vida se impõe.
Nem tudo precisa de ser explicado, defendido ou insistido.
Há momentos em que damos tudo:
tempo, atenção, cuidado, presença…
e, ainda assim, parece não ser suficiente.
E isso cansa.
Desgasta por dentro.
Faz-nos duvidar do nosso valor.
Mas há uma sabedoria simples — e exigente:
nem sempre é preciso dar mais… às vezes é preciso saber parar.
Existe um ditado japonês que o diz com clareza:
“Se tudo o que ofereces não for suficiente, oferece a tua ausência.”
Não como fuga.
Não como castigo.
Mas como verdade.
Porque há presenças que só são reconhecidas quando deixam de estar.
Como o sal:
não aparece no menu,
não chama a atenção,
não faz barulho…
mas quando falta, tudo perde sabor.
Na vida do dia-a-dia é assim:
há pessoas discretas que sustentam muito,
há gestos pequenos que fazem toda a diferença,
há silêncios que cuidam mais do que mil palavras.
E quando isso não é visto,
quando não é acolhido,
quando não é valorizado…
talvez seja tempo de dar espaço.
Não para desistir,
mas para deixar que o outro veja, sinta, perceba.
Às vezes, a ausência não afasta —
revela.
Revela o valor do que estava,
a falta do que sustentava,
o lugar que alguém ocupava.
E, no meio disso,
também nos ensina a nós:
a não mendigar atenção,
a não forçar o que não cresce,
a cuidar da nossa dignidade.
Porque quem é presença verdadeira
não precisa de se impor —
precisa apenas de ser reconhecido.

terça-feira, 5 de maio de 2026

Diz antes que seja tarde



Diz antes que seja tarde

Há palavras que ficam presas na garganta.
Não porque não sejam verdadeiras,
mas porque temos medo.
Medo de parecer frágeis.
Medo de não sermos correspondidos.
Medo de dizer demais…
num mundo que nos ensinou a sentir de menos.
E assim vamos adiando.
Guardando o que é essencial
como se o tempo fosse infinito.
Mas não é.
A vida passa nos dias simples,
nos encontros que achamos garantidos,
nas pessoas que pensamos que estarão sempre ali.
E, de repente, já não estão.
Ou já não somos os mesmos.
Ou já é tarde demais.
Há um peso silencioso
que muita gente carrega:
o peso de não ter dito.
De não ter dito “gosto de ti”,
quando o coração pedia.
De não ter dito “amo-te”,
quando isso podia ter mudado tudo.
Porque, no fim,
não são as palavras ditas que nos inquietam…
são as que ficaram por dizer.
Dizer não nos diminui.
Não nos torna fracos.
Torna-nos verdadeiros.
Amar não é um risco —
é uma necessidade.
Por isso, hoje,
não adies.
Não compliques.
Não esperes pelo momento perfeito.
Se sentes, diz.
Se amas, mostra.
Talvez não mudes o mundo…
mas mudas o mundo de alguém.
E o teu também.
Diz enquanto é tempo.

Padre João Torres

segunda-feira, 4 de maio de 2026

CAMINHO | VERDADE | VIDA

CAMINHO | VERDADE | VIDA



Como Tomé, também nós dizemos, neste tempo estranho,
que já não sabemos para onde ir, nem a quem ouvir…
que já não sabemos em quem confiar, nem no que acreditar.
E, no meio desta incerteza, Jesus não aparece como uma resposta fácil —
aparece como uma pergunta que nos desinstala.
Não nos dá soluções prontas.
Aponta-nos caminhos.
E diz, com uma serenidade que atravessa o ruído:
“Não se perturbe o vosso coração.”
Fala de Si com três palavras que não se esgotam:
caminho, verdade e vida.
Sou o caminho.
Não um trilho de terra ou uma estrada de alcatrão,
mas uma forma de viver com entranhas e coração.
Diante de Mim não há muros fechados,
mas horizontes abertos que te põem em movimento.
Eu sou a verdade.
Não uma verdade que se possui,
mas uma atitude que se aprende.
Não está fechada numa doutrina ou numa lei —
vive-se.
Eu sou a vida.
Sou Aquele que faz viver.
Quanto mais Evangelho entra em ti, mais vivo te tornas:
no coração, na mente, no corpo.
E ganhas força para libertar os medos
e tudo aquilo que te prende por dentro.
E então surge a pergunta:
“Jesus vai tirar-me todos os problemas?”
Não.
Os problemas continuam.
As dificuldades também.
Mas quando estás ligado a Ele,
há uma força que nasce em ti —
uma força que não sabias que tinhas.
E isso muda tudo.
Porque, às vezes, não é a vida que muda primeiro…
somos nós.
E Jesus, discretamente, surpreende.
Padre João Torres



quarta-feira, 8 de fevereiro de 2017

Reflexão sobre o Conselho Pastoral Paroquial como órgão de corresponsabilidade na Paróquia (I)



Fundamento canónico

Código Direito Canónico



Pároco pastor
515-§1. A paróquia é uma certa comunidade de fiéis, constituída estavelmente na Igreja particular, cuja cura pastoral. Sob a autoridade do Bispo diocesano, está confiada ao pároco, como seu pastor próprio.


Deveres do pároco
528-§1. O pároco está obrigado a providenciar para que a palavra de Deus seja integralmente anunciada a todos os que residem na paróquia; por isso, esforce-se por que os fiéis leigos sejam instruídos nas verdades da fé, sobretudo pela homilia que se deve fazer todos os domingos e festas de preceito, e pela instrução catequética, e fomente as actividades pelas quais se promova o espírito evangélico, mesmo no respeitante à justiça social; dê peculiar atenção à educação católica das crianças e dos jovens; esforce-se sumamente por que, associando a si também o trabalho dos fiéis, a mensagem evangélica chegue igualmente àqueles que se tiverem afastado da prática da religião ou que não professem a verdadeira fé.
§2. Vele o pároco por que a santíssima Eucaristia seja o centro da assembleia paroquial dos fiéis; trabalhe para que os fiéis se alimentem pela devota celebração dos sacramentos e que de modo especial se aproximem com frequência dos sacramentos da santíssima Eucaristia e da penitência; esforce-se de igual modo ainda por que os mesmos sejam levados a praticar a oração em família, e tomem parte consciente e activa na sagrada liturgia, que o pároco, sob autoridade do Bispo diocesano, deve orientar na sua paróquia, e na qual está obrigado a vigiar para que se não introduzam abusos subrepticiamente.


Conselho Pastoral
536-§1. Se, a juízo do Bispo diocesano, ouvido o conselho presbiteral, for oportuno, constitua-se em cada paróquia o conselho pastoral, presidido pelo pároco, e no qual os fiéis, juntamente com aqueles que por força do ofício participam no cuidado pastoral da paróquia, prestem a sua ajuda na promoção da acção pastoral.
§2. O conselho pastoral tem apenas voto consultivo, e rege-se pelas normas estabelecidas pelo Bispo diocesano.

Reflexão sobre a corresponsabilidade do Conselho Pastoral Paroquial

O Pároco sente necessidade de um Conselho Pastoral para colaborar com ele na condução da Paróquia ou acha que ele, Pároco, é suficiente?
Os paroquianos sentem necessidade e utilidade na existência de um Conselho Paroquial para colaborarem estreitamente com o Pároco na condução da Paróquia, ou acham que isso é para o Pároco? Acham que são ouvidos através do Conselho Pastoral ou acham que é indiferente existir ou não o Conselho Pastoral?
O Conselho Pastoral é entidade canónica erigida pelo Bispo, com estatuto próprio ou é um grupo de paroquianos que se juntam para conversar sobre alguns assuntos da Paróquia?
Os estatutos aprovados pelo Bispo são cumpridos, com a maleabilidade aconselhada pelo bom senso, ou são gratuita e sistematicamente transgredidos?
O Conselho Pastoral reúne-se, enquanto órgão canónico que necessita de ser apoiado pelo Espírito Santo, em torno da mesa da Eucaristia, ou os seus membros encontram-se, por acaso, se acontece irem à mesma missa?
O Conselho Pastoral debate temas de importância pastoral, organizando-se em grupos de trabalho, quando necessário, ou trata de ajustes de datas e outros, que não poderão nunca ser tratados em reunião com elevado número de pessoas?
Os paroquianos sentem-se representados nos membros do Conselho Pastoral?
O Conselho Pastoral sente-se representado nos membros do Secretariado Permanente?
Os representantes dos grupos e sectores no Conselho Pastoral fazem a ponte com os seus representados?
Os membros do Secretariado Permanente fazem a ponte com os seus representados?
As reuniões do Conselho Pastoral são conduzidas com eficácia, com uma boa gestão de Agenda, de inscrição de oradores, de tempos de intervenção? No final há votações para o Pároco saber qual é o sentir do Conselho Pastoral, enquanto órgão consultivo, ou o Pároco nem chega a saber a opinião do Conselho Pastoral, pois metade dos seus membros não faz intervenções?
Como são as relações do Conselho Pastoral com o Conselho Económico e com a Direcção do Centro Paroquial? Há diálogo?
O Pároco e os paroquianos estão dispostos a mostrar por atitudes que o Conselho Pastoral é viável, como forma séria e honesta de conduzir, em atitude de corresponsabilidade a Paróquia?
Por que razão não são afastados ou substituídos os membros do Conselho Pastoral que sistematicamente faltam e que menosprezam a importância deste órgão canónico?
Seria válido o Secretariado Permanente ou um grupo de trabalho preparar uma proposta para o ano pastoral seguinte a ser debatida em Conselho Pastoral. Ao contrário, o assunto, sem ser preparado, é levantado no Conselho e depois remetido para o Secretariado Permanente redigir como achar melhor. Quer dizer, o principal, nem sequer é normalmente debatido. Com se celebram anos especiais? Como se vão articular as acções entre os vários grupos e sectores? Estas coisas devem ser previamente preparadas e depois distribuídas aos conselheiros, para no Conselho saberem já do que vão falar, tendo já reflectido nos assuntos, apoiados pela documentação que lhes foi fornecida. É assim que tem de funcionar um órgão deste tipo.
Por vezes verifica-se a existência de “sensibilidades” no Conselho. Quando uma pessoa se levanta para falar, já há quem, sendo doutra sensibilidade, esteja a preparar a resposta, mesmo sem ter ouvido. Em Igreja, entre nós pequeninos e simples paroquianos, a atitude não pode ser essa. Escuta fraterna, correcção fraterna, diálogo fraterno, sempre abertos à acção do Espírito Santo.
Quando se sabe que vai haver um evento diocesano ou mundial para o ano seguinte. Que acções de evangelização novas são desenvolvidas pela Paróquia? Que acções concertadas entre grupos e sectores diferentes, num gesto de comunhão? Quantos, mesmo entre os paroquianos empenhados sabem que a nova evangelização devia presidir às actividades pastorais? Que acções se desenvolvem a nível global da Paróquia, de concertação entre grupos e sectores para o estudo e aprofundamento da Palavra?
Quando não se está no caminho correcto nem se arrepia caminho a Paróquia começa a decair. Alguns grupos vão-se extinguindo, sem darem lugar a novos. O material humano vai sendo desaproveitado. Como conseguir que as pessoas que ainda vão à missas, se mantenham? Que não continuem a desaparecer? Como manter catequese com catequistas e crianças e adolescentes, quando parecem ser cada vez menos?

Excertos da Exposição apresentada em Conselho Pastoral em Julho de 2003, por Orlando de Carvalho

quinta-feira, 1 de dezembro de 2016

6 reflexões extraordinárias do Papa Francisco sobre o Jubileu da Misericórdia recém-terminado

"O nome de Deus é misericórdia... Amor a Deus e amor ao próximo são dois amores inseparáveis... A Igreja não é um time de futebol que busca torcedores"

6 reflexões extraordinárias do Papa Francisco sobre o Jubileu da Misericórdia recém-terminado



A jornalista Stefania Falasca, do jornal italiano Avvenire, entrevistou o Papa Francisco a respeito do encerramento do Jubileu da Misericórdia e da busca da união entre os cristãos.

Confira alguns trechos, com destaque para 6 reflexões inspiradoras:

“O Omnipotente tem péssima memória. Quando Ele perdoa você, Ele se esquece do seu pecado”
Quem descobre que é muito amado começa a sair daquela solidão ruim, daquela separação que leva a odiar os outros e a si mesmo. Eu espero que muitas pessoas tenham descoberto que são muito amadas por Jesus e tenham se deixado abraçar por Ele. A misericórdia é o nome de Deus e é também a “fraqueza” dele, o ponto fraco dele. A misericórdia de Deus o leva sempre ao perdão, a esquecer os nossos pecados. Eu gosto de pensar que o Omnipotente tem uma péssima memória. Quando Ele perdoa você, Ele se esquece [do seu pecado]. Porque Ele é feliz em perdoar. Para mim, isso basta. Assim como para a mulher adúltera do Evangelho, “que muito amou”. “Porque Ele muito amou”. Todo o cristianismo está aqui.

“Amor a Deus e amor ao próximo são dois amores inseparáveis”
Jesus não pede grandes gestos, apenas o abandono e o reconhecimento. Santa Teresa de Lisieux, que é doutora da Igreja, na sua “pequena via” para Deus, indica o abandono da criança, que adormece sem reservas nos braços do seu pai, e lembra que a caridade não pode permanecer fechada no fundo. Amor a Deus e amor ao próximo são dois amores inseparáveis.

“O nome de Deus é misericórdia (Bento XVI)”

[O Jubileu] Foi um processo que amadureceu no tempo, por obra do Espírito Santo. Antes de mim, houve São João XXIII que, com a Gaudet mater Ecclesia, no “remédio da misericórdia”, indicou o caminho a seguir na abertura do Concílio; depois, o Bem-aventurado Paulo VI, que, na história do Samaritano, viu o seu paradigma. Depois, houve o ensinamento de São João Paulo II, com a sua segunda encíclica, Dives in misericordia, e a instituição da Festa da Divina Misericórdia. Bento XVI disse que “o nome de Deus é misericórdia”. São todos pilares. Assim, o Espírito leva adiante os processos na Igreja, até o cumprimento.

“A Igreja existe somente como instrumento para comunicar às pessoas o desígnio misericordioso de Deus”
Fazer a experiência vivida do perdão que abarca a família humana inteira é a graça que o ministério apostólico anuncia. A Igreja existe somente como instrumento para comunicar às pessoas o desígnio misericordioso de Deus. No Concílio, a Igreja sentiu a responsabilidade de estar no mundo como sinal vivo do amor do Pai. Com a Lumen gentium, ela voltou para as fontes da sua natureza, ao Evangelho. Ele desloca o eixo da concepção cristã de um certo legalismo, que pode ser ideológico, à Pessoa de Deus que se fez misericórdia na encarnação do Filho. Alguns continuam não compreendendo, ou branco ou preto, mesmo que seja no fluxo da vida que se deve discernir. O Concílio nos disse isso. Os historiadores, porém, dizem que um Concílio, para ser bem absorvido pelo corpo da Igreja, precisa de um século… Nós estamos na metade.

“Quanto às opiniões, sempre é preciso distinguir o espírito com o qual são ditas. Quando não há um mau espírito, elas também ajudam a caminhar”

O próprio Jesus reza ao Pai para pedir que os seus sejam uma coisa só, para que assim o mundo creia. É a Sua oração ao Pai. Desde sempre, o bispo de Roma é chamado a conservar, a buscar e servir essa unidade. Sabemos também que não podemos curar por nós mesmos as feridas das nossas divisões, que dilaceram o corpo de Cristo. Portanto, não podem ser impostos projectos ou sistemas para voltarmos a estar unidos. Para pedir a unidade entre nós, cristãos, só podemos olhar para Jesus e pedir que o Espírito Santo atue entre nós. Que seja Ele que faça a unidade. No encontro de Lund com os luteranos, eu repeti as palavras de Jesus, quando diz aos seus discípulos: “Sem mim, vocês não podem fazer nada”. O encontro com a Igreja Luterana em Lund foi um passo a mais no caminho ecuménico que iniciou há 50 anos e em um diálogo teológico luterano-católico que deu os seus frutos com a Declaração Comum, assinada em 1999, sobre a doutrina da Justificação, isto é, sobre como Cristo nos torna justos salvando-nos com a Sua Graça necessária, ou seja, o ponto a partir do qual tinham partido as reflexões de Lutero. Portanto, voltar ao essencial da fé para redescobrir a natureza daquilo que nos une. Antes de mim, Bento XVI tinha ido para Erfurt e ele tinha falado cuidadosamente sobre isso, com muita clareza. Ele tinha repetido que a pergunta sobre “como eu posso ter um Deus misericordioso?” tinha penetrado no coração de Lutero e estava por trás de toda a sua busca teológica e interior. Houve uma purificação da memória. Lutero queria fazer uma reforma que devia ser como um remédio. Depois, as coisas se cristalizaram, se misturaram aos interesses políticos da época, e acabou-se no cuius regio eius religio, pelo qual era preciso seguir a confissão religiosa de quem tinha o poder. Eu sigo o Concílio. Quanto às opiniões, sempre é preciso distinguir o espírito com o qual são ditas. Quando não há um mau espírito, elas também ajudam a caminhar. Outras vezes, logo se vê que as críticas são feitas aqui e ali para justificar uma posição já assumida, não são honestas, são feitas com mau espírito para fomentar divisão. Logo se vê que certos rigorismos nascem de uma falta, de querer esconder dentro de uma armadura a própria triste insatisfação. Se você assistir ao filme “A festa de Babette”, há esse comportamento rígido.

“Todo proselitismo entre cristãos é pecaminoso. A Igreja não é um time de futebol que busca torcedores”

Servir aos pobres significa servir a Cristo, porque os pobres são a carne de Cristo. E, se servimos aos pobres juntos, isso significa que nós, cristãos, nos reencontramos unidos ao tocar as chagas de Cristo. Eu penso no trabalho que, depois do encontro de Lund, a Cáritas e as organizações de caridade luteranas podem fazer juntas. Não é uma instituição, é um caminho. Certos modos de contrapor as “coisas da doutrina” às “coisas da caridade pastoral”, ao contrário, não estão de acordo com o Evangelho e criam confusão. A Declaração Conjunta sobre a Justificação é a base para poder continuar o trabalho teológico. O estudo teológico deve seguir em frente. Há o trabalho que está sendo feito pelo Pontifício Conselho para a Promoção da Unidade dos Cristãos. O caminho teológico é importante, mas sempre junto com o caminho de oração, fazendo, juntos, obras de caridade. Obras que são visíveis. A unidade não se faz porque nos colocamos de acordo entre nós, mas porque caminhamos seguindo Jesus. E caminhando por obra daquele que seguimos, podemos nos descobrir unidos. É o caminhar atrás de Jesus que une. Converter-se significa deixar que o Senhor viva e opere em nós. Assim, descobrimos que nos encontramos unidos também na nossa missão comum de anunciar o Evangelho. Caminhando e trabalhando juntos, percebemos que já estamos unidos no nome do Senhor, e que, portanto, não somos nós que criamos a unidade. Percebemos que é o Espírito que nos impele e nos leva para a frente. Se você é dócil ao Espírito, será Ele que irá lhe dizer o passo que pode dar. O resto é Ele quem faz. Não podemos ir atrás de Cristo se Ele não nos leva, se o Espírito não nos impulsiona com a Sua força. Por isso, é o Espírito o artífice da unidade entre os cristãos. É por isso que eu digo que a unidade se faz caminhando, porque a unidade é uma graça que se deve pedir, e também porque eu repito que todo proselitismo entre cristãos é pecaminoso. A Igreja nunca cresce por proselitismo, mas “por atracção”, como escreveu Bento XVI. O proselitismo entre os cristãos, portanto, é em si mesmo um pecado grave. Porque contradiz a própria dinâmica de como nos tornamos e permanecemos cristãos. A Igreja não é um time de futebol que busca torcedores. O encontro de Lund, assim como todos os outros passos ecuménicos, também foi um passo à frente para levar a compreender o escândalo da divisão, que fere o corpo de Cristo e que, também diante do mundo, não podemos nos permitir. Como podemos dar testemunho da verdade do amor se brigamos, se nos separarmos entre nós? Quando eu era criança, não se falava com os protestantes. Havia um sacerdote em Buenos Aires que, quando os evangélicos vinham rezar com as barracas, ele mandava o grupo de jovens queimá-las. Agora, os tempos mudaram. O escândalo deve ser superado simplesmente fazendo as coisas juntos, com gestos de unidade e de fraternidade.

origem: http://pt.aleteia.org/