sábado, 18 de abril de 2026

SEM PERDER A POESIA, QUE LEITURAS NAS ESCOLAS?




Embora seja importante, não sei escrever sobre que livros se devam ler nas escolas. Apesar de concordar que “não há maior fragata que um livro para nos levar a terras distantes”, como afirmava Emily Dickinson, não me sinto à altura de o fazer. Acredito, no entanto, que seja uma grande e justa preocupação em quem tem essa responsabilidade. Além disso, também não estou dentro da verdadeira causa da iniciativa e dos parâmetros estabelecidos para analisar tal questão, quer se trate de saber se há alguma toxicidade nas leituras que estão em uso, quer se trate de mera rotina a confirmar a sua potabilidade, quer se trate de escolher fontes mais empáticas, capazes de provocar uma maior procura dessas águas em prol da saúde pública dos estudantes e do seu desenvolvimento integral. Presumo, no entanto, que, criar o gosto pela leitura, incutir a estima e a gratidão por quem tem o dom e a arte de escrever, apreciar o estilo do autor e levar a interpretar e a saber triar o conteúdo daquilo que se lê, com verdadeiro sentido crítico, é bem mais importante do que temperar o que se deve ler com o sal da obrigatoriedade ou o piripiri de qualquer ideologia.
A minha intenção está em reiterar o apelo do Papa Francisco na sua última Carta Encíclica: é preciso regressar ao coração. Se a preocupação dos pais, dos formadores e professores, isto é, se a preocupação de quem educa, ensina e forma, também incluir a necessidade de formar o coração dos seus educandos, o mundo terá muita mais beleza e encanto! Até evitaremos os tiranos, os egocêntricos e gananciosos, o individualismo doentio!
Hoje aposta-se muito na formação da inteligência, no conhecimento, na defesa dos valores da liberdade, da vontade... e bem, são valores evangélicos. No entanto, se as leituras que se procuram, além do interesse cultural ajudarem a que as ações das pessoas “sejam colocadas sob o ‘controle político’ do coração, que a agressividade e os desejos obsessivos sejam acalmados no bem maior que o coração lhes oferece e na força que ele tem contra os males; que a inteligência e a vontade sejam também postas ao seu serviço, sentindo e saboreando as verdades em vez de as querer dominar, como algumas ciências tendem a fazer; que a vontade deseje o bem maior que o coração conhece, e que a imaginação e os sentimentos se deixem também moderar pelo bater do coração”, então, todos lucraremos, pois cada um será o seu coração, será o coração que o distingue, o molda, o põe em comunhão com os outros, o torna possível de qualquer vínculo autêntico, o faz ultrapassar a fragmentação do individualismo. A desvalorização deste centro íntimo do homem, porém, vem de longe, diz o Papa. Ele “teve pouco espaço na antropologia e é uma noção estranha ao grande pensamento filosófico. Preferiram-se outros conceitos, como a razão, a vontade ou a liberdade. O seu significado permanece impreciso e não lhe foi atribuído um lugar específico na vida humana”. No entanto, ao não se dar o devido valor ao coração, dizia Francisco, quando não “se consideram as especificidades do coração, perdemos as respostas que a inteligência por si só não pode dar, perdemos o encontro com os outros, perdemos a poesia. E perdemos a história e as nossas histórias, porque a verdadeira aventura pessoal é aquela que se constrói a partir do coração. No fim da vida, só isto contará”.
Levar o coração a sério, reformá-lo com “os olhos postos no mundo inteiro e naquelas tarefas que podemos realizar juntos para o progresso da humanidade” terá verdadeiras consequências sociais, a sociedade mundial recuperará o seu coração, pois os “desequilíbrios de que sofre o mundo atual estão ligados com aquele desequilíbrio fundamental que se radica no coração do homem”. Neste mundo líquido, “é necessário voltar a falar do coração; indicar onde cada pessoa, de qualquer classe e condição, faz a própria síntese; onde os seres concretos encontram a fonte e a raiz de todas as suas outras potências, convicções, paixões e escolhas. Movemo-nos, porém, em sociedades de consumidores em série, preocupados só com o agora e dominados pelos ritmos e ruídos da tecnologia, sem muita paciência para os processos que a interioridade exige. Na sociedade atual, o ser humano corre o perigo de se desorientar do centro de si mesmo. O homem contemporâneo encontra-se com frequência transtornado, dividido, quase privado de um princípio interior que crie unidade e harmonia no seu ser e no seu agir. Modelos de comportamento infelizmente bastante difundidos, exaltam a sua dimensão racional-tecnológica ou, ao contrário, a instintiva. Falta o coração”.
É, pois, “necessário recuperar a importância do coração quando nos assalta a tentação da superficialidade, de viver apressadamente sem saber bem para quê, de nos tornarmos consumistas insaciáveis e escravos na engrenagem de um mercado que não se interessa pelo sentido da nossa existência”. O coração é o “centro unificador que dá a tudo o que a pessoa experimenta um substrato de sentido e orientação”. É “o lugar da sinceridade, onde não se pode enganar ou dissimular”. Ele costuma “indicar as verdadeiras intenções, o que se pensa, se acredita e se quer realmente”. É no coração “que se decide tudo: ali não conta o que mostramos exteriormente ou o que ocultamos, ali conta o que somos. E esta é a base de qualquer projeto sólido para a nossa vida, porque nada que valha a pena pode ser construído sem o coração. As aparências e as mentiras só trazem vazio”.

Antonino Dias
Caminha, 17-04-2026.

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