As festas assinalam o ritmo da vida dos povos, das sociedades, das comunidades, das instituições, das associações, dos clubes, das famílias, das pessoas... São momentos de rutura com o quotidiano, marcam a diferença, fomentam a consciência de pertença, solidificam a unidade, assinalam momentos fortes, refrescam e renovam a vida e a esperança no futuro.
Tal como se costuma falar da época dos saldos, das férias, das colheitas, dois incêndios, das praias, das vindimas..., também podemos dizer que está a chegar a época das festas, sobretudo das festas populares, com origem e sabor religioso, com afirmação da fé e grande expressão festiva. A festa faz parte da natureza humana. Porque a Festa das Cruzes, em Barcelos, é considerada a primeira grande romaria do Minho, e joga-se por estes dias, entre o fim deste mês e o princípio do outro, falemos, sobretudo, do seu cariz religioso, cujo centro é o templo do Bom Jesus da Cruz.
Como sabemos, o nosso Deus é o Deus da Alegria e da Festa. A sua alegria é a nossa força. Ele próprio participava nas festas do seu tempo, iniciou a sua vida pública numa festa. Quis que a sua alegria estivesse em nós e a nossa alegria fosse completa. E tudo fez para que, em comunhão com Ele, já, neste mundo, vivendo as festas da vida, fizéssemos da vida uma festa. E não partiu sem nos convidar e oferecer um ‘lugar’, comprado por ele por um alto preço (1Cor 6,20), para nos sentarmos à mesa da grande Banquete do seu Reino, à mesa das Bodas do Cordeiro (cf. Lc 14, 15-24; Mt 22, 1-14).
Ora, a Festa que dá origem a todas as festas, isto é, a Festa das festas, a Festa por excelência, é a Festa da Páscoa da Ressurreição, a Festa da vitória da vida sobre a morte, a Festa da vitória da Luz sobre as trevas, a Festa da vitória da alegria sobre a tristeza, a Festa do dom da vida em plenitude como destino final do ser humano. Nas festas, sobretudo cristãs, é isso que conta, é isso que verdadeiramente se celebra e deve ser realçado, é isso que não se deveria esquecer com a preocupação de lhes associar muitas outras coisas para que a festa seja maior. Tudo quanto nelas se associa e se promove, deveria ser para centralizar no essencial e não para descentralizar. Ir à festa e não ir ao epicentro da mesma é capaz de ser mais sem sentido do que ir a Roma e não ver o Papa, é andar na festa sem saber bem porquê. Talvez ande por lá por ver andar os outros, embora se possa divertir como convém e é dado que aconteça...
Na Festa das Cruzes, afirma-se, professa-se que Deus falou e continua a falar por meio da Cruz, por meio do mistério de seu Filho, morto e ressuscitado, expressão máxima do amor de Deus para com a Humanidade. A Cruz de Cristo está enraizada no coração da Humanidade e da sua História. Nela, Jesus revela ao mundo o rosto visível de Deus invisível. Nela, manifesta-se a face humana e frágil da infinita misericórdia de Deus: “Pai, perdoai-lhes porque não sabem o que fazem” (Lc 23, 34). Pela Cruz, sempre o Povo de Deus manteve e mantém o olhar fixo em Jesus Cristo, o ‘autor e consumador da fé’ (Heb 12,2). Olhar Jesus na Cruz, faz descobrir “a alegria do amor, a resposta ao drama da tribulação e do sofrimento, a força do perdão face à ofensa recebida e a vitória da vida sobre o vazio da morte, tudo isto encontra plena realização no mistério da sua Encarnação, do seu fazer-Se homem, do partilhar connosco a fragilidade humana para a transformar com a força da sua ressurreição” (Bento XVI, P. Fidei, 13).
Se, na Procissão da Festa, a presença das Cruzes processionais das 89 paróquias do Arciprestado, é que lhe dá o nome de Festa das Cruzes (no plural), na mente e no coração de todos está o Senhor Jesus da Cruz. Da Cruz que não exalta o mistério da dor sem sentido, mas que exalta o mistério do amor de Deus que dá sentido à dor de todas as cruzes da humanidade. Ali, na sabedoria da Cruz, revela-se o amor e a glória de Deus. É uma parábola impressionante e dolorosa, é ‘um livro’, como dizia o Papa Francisco, um livro que não basta comprá-lo, tê-lo e expô-lo na parede ou trazê-lo ao pescoço ou no bolso. É preciso abri-lo, lê-lo e compreendê-lo, aceitando-o como ele é e quanto ele significa e revela. Símbolo de vida e de esperança, símbolo da fé cristã, a Cruz é o emblema de Jesus, morto e ressuscitado, escândalo para uns, loucura para outros, mas fonte de vida e de salvação para as pessoas de todos os tempos e lugares. É um sinal verdadeiramente grande e precioso, como afirmava Santo André de Creta, no século VII: “Grande, porque é a origem de bens inumeráveis, tanto mais excelentes quanto maior é o mérito que lhes advém dos milagres e dos sofrimentos de Cristo. Precioso, porque a Cruz é simultaneamente o patíbulo e o trofeu de Deus: o patíbulo, porque nela sofreu a morte voluntariamente; e o trofeu, porque nela foi mortalmente ferido o demónio, e com ele foi vencida a morte”.
A Cruz do Senhor Jesus estende-se, de forma solidária, a todos os crucificados e oprimidos da história, a todos os que sofrem por causa de guerras, catástrofes climáticas, falta de oportunidades, preconceitos, discriminação, racismo, xenofobia, sistemas políticos e económicos perversos, descarte, fracasso, doença, pobreza nas suas várias dimensões, cansaço, dor, desprezo, solidão, droga, violação, tráfico humano, violência doméstica, incompreensão, ganância e ódio de terceiros… Na Cruz de Cristo, fonte de vida e de luz, de esperança e de salvação, estão significadas todas as cruzes do mundo e da humanidade, toda a dor e sofrimento.
Dela, da Cruz do Senhor Jesus da Cruz, ecoa o convite sempre atual e atuante de quem tanto nos amou: “Vinde a mim, todos vós que andais cansados e oprimidos, que eu vos aliviarei... aprendei de mim que sou manso e humilde de coração ...e encontrareis descanso para as vossas vidas, pois o meu jugo é suave e o meu fardo é leve” (Mt11,28-29). Ir ao encontro de Jesus e caminhar com Jesus implica negar-se a si mesmo e assumir a cruz de cada dia, com alegria e esperança (cf. Mc 8, 34). Desde a fundação de Portugal, também a Cruz de Cristo é um dos símbolos mais caraterísticos da nossa identidade nacional. Ela reflete-se em espaços geográficos, nas instituições, na cultura, nas artes, na liturgia, na vida dos crentes e das famílias... até no brasão de armas de Portugal se refletem as feridas da Paixão.
“In hoc signo vinces”!
D. Antonino Dias
Caminha, 24-04-2026.
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