sábado, 9 de maio de 2026

SONHAR É UMA FORMA DE RESISTÊNCIA INTERIOR

 


Eu continuo a acreditar que é possível sonhar.
Mesmo quando a esperança se esconde atrás de pequenas desilusões que ninguém vê.
Sonhar, às vezes, não é fugir da realidade.
É exatamente o contrário: é não deixar que a realidade nos roube por dentro.
Há livros que não se leem apenas com os olhos, mas com a alma. O diário de Etty Hillesum é um desses lugares onde a vida se torna mais nua, mais verdadeira, mais exigente.
E nela encontro uma voz que não se resigna, mesmo no meio da dor. Uma voz que fala de Deus não como distância, mas como presença a ser cuidada dentro de nós.
Ela escreve algo que inquieta e, ao mesmo tempo, ilumina:
não é Deus que nos deve servir como resposta imediata a tudo…
mas somos nós que, de algum modo, somos chamados a não deixar que essa presença desapareça da forma como vivemos.
Há aqui uma inversão profunda do olhar.
Não é um Deus distante que resolve tudo por nós…
mas uma responsabilidade interior de não deixar morrer o que é mais humano em nós.
“Salvar um pedaço de Deus em nós.”
Que frase estranha e bela.
Como se o sagrado não estivesse fora, à espera de ser encontrado…
mas dentro, à espera de não ser esquecido.
Não te peço nenhuma justificação para a vida.
Peço apenas que não deixes morrer o lugar onde ainda é possível recomeçar.
Porque talvez viver seja isto:
não deixar que o mundo apague aquilo que, em nós, ainda acredita.
E enquanto houver essa chama…
ainda é possível sonhar.


Padre João Torres
Madona de Porto Lligat, 1950, Salvador Dalí



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