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sexta-feira, 22 de maio de 2026
O remédio para as feridas do coração
Se a felicidade fosse uma questão de inteligência, então haveria muito mais gente feliz do que existe.
O amor não é lógico. À primeira vista, o egoísmo parece muito mais prudente do que a entrega gratuita sem garantia de reciprocidade.
Os nossos sentimentos e a voz da nossa alma também nos dão indicações em relação aos destinos e caminhos que devemos escolher. Por mais que a razão tente impor-se, a verdade é que ela, por si só, não nos faz felizes.
Se o sentido da vida é a busca da felicidade, então a inteligência é apenas mais uma das ferramentas. Muitas vezes é o coração que tem de abrir as portas da prisão em que os pensamentos nos aprisionaram a alma.
Um sofrimento para o qual não se encontra sentido não deixa de doer; muitas vezes, dói ainda mais. A inteligência nem sempre é a melhor conselheira da paz interior.
O sonho é ilógico e, no entanto, pode preencher muitos vazios interiores. Há quem decida procurar no céu o que não tem na terra. Acreditar é uma das forças essenciais para criar grandes obras.
Talvez os sonhos sejam a forma de o coração pensar.
Importa lembrar que, por mais que reflitamos, há verdades que só se revelam quando entregamos a questão a um silêncio profundo e paciente.
Os sonhos permitem-nos estabelecer metas, imaginar soluções, descobrir forças e ir mais longe do que alguma vez imaginámos.
O amor é o caminho e a força necessária para seguir em frente. A grandeza do amor mede-se pelo que alguém é capaz de sacrificar por ele.
O amor é o remédio para as feridas do coração — feridas que só tem quem não desiste de sonhar.
José Luís Nunes Martins
quinta-feira, 16 de março de 2023
As feridas que todos temos
É muito difícil falarmos das nossas feridas. É complicado assumir que as temos. Que as vemos. Que podemos, até, viver à sombra destas durante toda a vida sem nunca nos apercebermos.
Qual será, então, o perigo de não olharmos para as feridas que temos? Não podemos, simplesmente, escolher não ver?
O perigo é o de vivermos amargados pelas consequências apodrecidas desses golpes, dessas feridas. O problema de escolher não ver é, apenas, escolher ser cego.
Quando não dedicamos tempo às nossas feridas, arriscamo-nos a que nos assaltem nos sonhos, enquanto dormimos ou enquanto vamos andando em piloto automático pelos dias que nos vão sendo dados.
Quando não retiramos momentos para ver o que as (nossas) feridas nos fizeram (e nos fazem, ainda) não somos capazes de nos contemplar por inteiro. Vemos uma parte. Como se escolhêssemos acreditar que a lua só existe em versão quarto minguante e que todos os seus outros lados são meras ilusões.
As feridas ensinam-nos. Mostram-nos coisas bonitas sobre nós. E, principalmente, mostram-nos coisas feias. Coisas que não gostávamos de ser. De sentir. De atirar aos outros. Mas somos. E sentimos. E atiramos e respondemos como se os outros tivessem culpa do novelo preto que enrolamos para dentro de nós e que nos contorna a alma e o peito de uma maneira tosca e pouco ordenada.
Neste tempo “ferido” que vivemos; nesta época de tantas feridas que vemos abertas e que não dependem de nós para sarar, que nos ocupemos de sarar as nossas. Ou, na impossibilidade de o fazer, que possamos (pelo menos!) ter a coragem de as olhar de frente.
Neste tempo de deserto em que queremos caminhar para ser melhores do que aquilo (e aqueles) que vimos e ouvimos todos os dias, que saibamos romper com a falsa luz e que tenhamos fôlego para mergulhar na escuridão que também somos.
Só a partir da coragem de ver, se pode encontrar a coragem para sair dali.
Na dúvida, escolhe ver. Aceita a vergonha. O horror. O tanto que gostavas que não te doesse. Mas não finjas que não vês. E que não és.
Marta Arrais
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