domingo, 15 de março de 2026

LUZ E TREVAS

 

https://www.youtube.com/watch?v=LQIu6Z8_jVg&list=PLAqKRngqwuSfPdOPEvu7KzjdvMvB1w33f&index=167



Não fomos feitos para a escuridão; as trevas assustam-nos e não nos deixam caminhar em direção à vida plena. Só concretizamos a nossa vocação quando nos deixamos conduzir e iluminar pela luz de Deus. “Ama a luz, escolhe a luz, busca a luz, vive na luz” – pede-nos a Palavra de Deus que nos é dirigida nesta quarta etapa do caminho quaresmal.

No Evangelho Jesus apresenta-se como “a luz” que vem iluminar o mundo e libertar os homens das “trevas”. É essa a “obra” que o Pai Lhe confiou e na qual Ele irá trabalhar. Quem adere a Jesus, recebe o seu batismo e acolhe as suas indicações, envereda por um caminho novo, belo, desafiante, luminoso, onde progressivamente encontra a liberdade, a realização, a vida em plenitude. O homem que aceita viver na luz torna-se um Homem Novo, um homem que concretiza o projeto original que Deus tinha quando criou os seres humanos. João, o autor do Quarto Evangelho, garante-nos: apesar das nossas escolhas erradas, apesar das nossas mentiras e hipocrisias, apesar do nosso egoísmo e da nossa autossuficiência, apesar da nossa instalação e do nosso comodismo, a nossa plena realização continua a ser a prioridade de Deus. Deus nunca se conforma quando vê os seus queridos filhos caminharem sem rumo, mergulhados e acomodados numa vida de “trevas”. Foi por isso que Ele enviou ao nosso encontro o Seu Filho Jesus. Jesus veio, segundo a Sua própria expressão, “trabalhar na obra” de Deus; e a “obra de Deus” é oferecer aos homens a possibilidade de abandonarem as trevas para viverem na luz. Jesus lutou objetivamente para derrotar as ideologias, as doutrinas, as instituições, as leis, os valores, os costumes que geram “escuridão”, sofrimento, injustiça, maldade. Jesus disse-nos claramente – com a Sua vida, com as Suas palavras, com os Seus gestos – como deveríamos viver para não ficarmos atolados numa vida sem saída. Deixou-se matar para vencer as “trevas” que dominavam o mundo. Apesar de tudo isso, continuamos – vinte e um séculos depois – a viver num mundo cheio de sombras. Porquê? O que é que está a faltar para que a luz de Deus ilumine plenamente os caminhos e a história dos homens?

Na segunda leitura, o apóstolo Paulo lembra aos cristãos de Éfeso que, depois de terem aderido a Cristo, cortaram definitivamente com as trevas e abraçaram uma nova realidade. Agora são “filhos da luz” e devem produzir obras de bondade, de justiça, de verdade, de reconciliação, de misericórdia e de paz. Através deles e da luz que projetam, Jesus continua a iluminar o mundo e a história dos homens.

Luz” e “trevas” são, neste texto da Carta aos Efésios, duas esferas de poder capazes de tomar conta do homem e de condicionar a sua vida, as suas opções, os seus valores, os seus comportamentos. Não somos obrigados por ninguém – nem sequer por Deus – a escolher uma destas duas “ordens” em detrimento da outra: a nossa vida não é dirigida por um cego determinismo que se nos impõe, quer queiramos, quer não. Somos livres de fazer as nossas escolhas. Não somos obrigados a escolher Deus e os caminhos que Ele nos aponta; no entanto, devemos ter consciência de que escolher Deus implica renunciar a tudo aquilo que está em absoluta contradição com o mundo de Deus: o egoísmo, a mentira, a violência, o orgulho, a ambição, a vaidade, a autossuficiência. Nós, os que um dia escolhemos Deus e recebemos o batismo, optamos pela luz. Temos de viver de forma coerente com essa opção. Jesus, o Filho de Deus que veio ao encontro dos homens para lhes mostrar a realidade de Deus, indica-nos o caminho que devemos percorrer, enquanto “filhos da luz”. Nós, os que optamos por Deus e que nos comprometemos a seguir Jesus, vivemos de forma coerente com essa opção? Quais são os esquemas, comportamentos e valores que devem ser definitivamente saneados da nossa vida, a fim de que sejamos verdadeiras testemunhas da “luz”?

A primeira leitura conta a escolha de David, o filho mais novo de Jessé de Belém, para rei de Israel. À luz da lógica dos homens, parece, em todos os sentidos, uma escolha estranha; mas Deus parece não ter qualquer pejo em subverter as nossas lógicas e em escolher pessoas “improváveis” para serem uma luz que brilha na noite do mundo. Quem são esses que Deus escolhe para, através deles, intervir no mundo e transformar a história dos homens? São anjos? São seres especiais, perfeitos, feitos de um material diferente do “barro” dos outros homens e mulheres? Não. São pessoas normais, mas que, apesar da sua fragilidade e limitações estão, simplesmente, disponíveis para colaborar no projeto que Deus tem para o mundo; são todos aqueles que aceitam ser instrumentos de Deus e que aceitam sonhar o sonho de Deus para o mundo; são todos aqueles que, como dizia Jesus, aceitam ser “sal da terra” e “luz do mundo”; são todos aqueles que caminham pela vida semeando à sua volta sementes de esperança. Estamos conscientes de que isto nos diz respeito? No dia em que escolhemos Deus e aceitamos integrar a família de Deus, recebemos a missão de colaborar com Deus na construção desse mundo mais justo e mais fraterno que queremos ver nascer. Temos cumprido o nosso papel? Temos sido sinais vivos de Deus no mundo e na vida dos irmãos que caminham ao nosso lado?

https://www.dehonianos.org/

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