sexta-feira, 23 de janeiro de 2026

Sem tempo para cuidar das feridas



Poucos são os dias em que a vida nos é agradável sem que tenhamos de lutar por isso. Não podemos controlar o que nos acontece, mas somos chamados a responder a tudo o que sucede connosco e à nossa volta, procurando sempre apontar o rumo da história para onde queremos.

Não se trata de uma escolha por ano, nem sequer por semana; é necessário decidir várias vezes ao dia, corrigindo os desvios das adversidades e anulando as tentações a que estamos sempre expostos. É mais fácil deixar-se ir, mas nesse caso o destino é quase sempre um conjunto de desgraças cada vez maiores.

Neste oceano dos dias, quem não se esforça para se manter à superfície vai ao fundo como se fosse uma pedra.

Contudo, há algo verdadeiro que parece ilógico à maior parte das pessoas: se procuramos o nosso próprio bem, nunca chegaremos a concretizar os nossos sonhos. Só é feliz quem luta contra os seus instintos egoístas e se dedica a cuidar do bem dos que lhe estão próximos.

Só é feliz quem ama, todos os dias. Só ama quem vence o seu natural egoísmo.

Muitas são as doenças graves que não se podem combater, porque o adversário não joga segundo as mesmas regras que nós. Na verdade, ninguém perde a luta contra uma enfermidade, porque nela não existe qualquer justiça. Ainda assim, nesses casos, cabe a cada um de nós lutar contra o desânimo que, qual tempestade, procura enfraquecer-nos e fazer de nós vivos sem vida.

Somos chamados a ser guerreiros, amando os que estão próximos de nós a cada dia e cuidando do que há de bom em nós, pensando neles.

Se há algo que pude aprender na vida é que temos de lutar tanto que, quando acontece uma vitória, não é uma enorme alegria que sinto, mas um alívio pelos meus esforços terem valido a pena.

Consiga cada um de nós que o seu último sopro aqui e o primeiro lá – seja um só suspiro… de alívio!


José Luís Nunes Martins

quinta-feira, 22 de janeiro de 2026

Sei por onde não quero ir



É fácil perdermo-nos quando os caminhos sugeridos são imensos.

Vai por aqui.

Dizem.

Faz assim. Compra isto. Faz esta viagem. Experimenta este restaurante. Segue este influencer. De repente, todos somos peritos em sugestões e em caminhos.

No meio de tanta informação ficamos sem bússola. Ou melhor, a nossa bússola começa a disparar em todas as direções. Torna-se complexo saber que rumo será o acertado a cada momento. Faço porque os outros me dizem para fazer ou faço porque me faz sentido?

De que forma posso acertar o ponteiro da minha bússola interna?

Talvez a solução não caiba da mesma forma a cada um. Mas, pode fazer sentido encontrar tempo para respirar fundo, sozinho(a), no silêncio que nem sempre sobra no final de cada dia. E nesse movimento tentar compreender, de olhos fechados, e sem distrações ou estímulos, por onde é que quero seguir.

Acompanhado ou solitário?

Silencioso ou comunicativo?

Empenhado ou a privilegiar o descanso?

Expressivo ou mais contemplativo?

Julgo que todos temos os dois lados das várias moedas. Por vezes preferimos fazer caminho de mãos dadas e, outras vezes, preferimos encontrar apenas a presença da nossa própria mão. Há alturas em que nos faz sentido falar e outras em que o silêncio nos ajuda mais a comunicar.

Precisamos de todos os nossos estados. Mas, essencialmente, precisamos de nos habitar a nós próprios, independentemente das opiniões díspares dos outros.

O que faz sentido para mim e o que rima com a minha raiz interna é o que deve prevalecer.

Mesmo que, às vezes, tenhamos de virar as costas a uma ou outra ideia. A esta ou aquela pessoa.

E quando não soubermos qual o caminho a seguir, que saibamos sempre por onde não queremos ir.


Marta Arrais

quarta-feira, 21 de janeiro de 2026

Quando a consciência pesa mais do que o lucro


Vivemos num tempo em que, no quotidiano português, muitas vezes não vendemos apenas produtos — criamos necessidades. Dizemos às pessoas que lhes falta algo, mesmo quando até ontem viviam bem sem isso. E quem trabalha a fazê-lo sabe: nem sempre o desconforto é económico; muitas vezes é interior. Há um peso silencioso quando o que se vende entra em conflito com aquilo em que se acredita.
Entre o emprego que paga as contas, a pressão dos números, os objetivos mensais, o prestígio social ou institucional, cresce uma tensão profunda: ser fiel a quem somos ou adaptar-nos ao que convém. No café, no escritório, na empresa, na paróquia, na escola, nas instituições — esta pergunta atravessa a vida comum de todos nós. Quantas vezes mudamos o discurso para agradar? Quantas vezes inventamos urgências para justificar decisões? Quantas vezes trocamos a verdade pela eficácia?
Talvez uma das maiores lutas do nosso tempo seja esta: manter a coerência num mundo que recompensa a aparência. Não se trata de demonizar o mercado nem de romantizar a pobreza, mas de reencontrar equilíbrio, consciência e humanidade. Saber distinguir o que é essencial do que é acessório. O que serve verdadeiramente as pessoas do que apenas as transforma em consumidores.
No meio da correria diária, entre notificações, prazos e campanhas, importa parar e perguntar:
o que é que não estamos dispostos a perder?
Qual é a essência da nossa vida, do nosso trabalho, das nossas instituições, que não pode ser vendida, negociada ou mascarada?
Enquanto esta pergunta nos inquietar, ainda não estamos perdidos. Porque quando a consciência fala, o humano resiste.

Padre João Torres

terça-feira, 20 de janeiro de 2026

Reza por mim



Rezar é uma conversa com aqueles que não estão fisicamente, a lembrança daqueles que nos precederam e a oração para seguir o seu exemplo. Rezar é pedir por eles. E também pedir a eles por aqueles que estão aqui.

Rezar é o momento mais calmo do dia, e, no meu caso, o das primeiras horas da manhã, pouco depois das seis, com a água quente do duche a cair devagar sobre os ombros.

Rezar é uma fotografia a sépia, um regresso à casa dos avós e ao tempo sem tempo da infância.

É um Pai-Nosso dito a Deus para que ajude nos exames. É o abrigo contra o frio e o silêncio acolhedor. Rezar é ter memória.

Rezar é o que vem antes ou depois do trabalho, mas nunca o substitui.

É o único que se pode fazer quando já não se pode fazer mais. É a forma de compromisso de quem não tem outro meio, como quando rezamos por um doente prestes a ser operado e já tudo está nas mãos do cirurgião (e de Deus).

Rezar faz milagres, consola quem reza e aquele por quem se reza. Rezar nunca é inútil, porque conforta sempre.

Rezar é dizer ‘rezarei por ti’ e, também, ‘reza por mim’. É, portanto, o contrário da vaidade.

Rezar é a aceitação das nossas limitações. É aprender a resignar-se quando o que podia ter sido não foi. É viver sem rancor, aprender a esquecer, aceitar a derrota com dignidade e celebrar a vitória com humildade.

Rezar é procurar forças quando não se tem e confiar que as coisas serão como devem ser.

Rezar é otimismo, é não dar nada por perdido, é lutar e resistir. Rezar é fragilidade e firmeza.

Rezar é desligar e apagar o telemóvel. É introspeção na sociedade do exibicionismo. É relaxar e acalmar os nervos. É preparar-se mentalmente para o que está para vir. Não é apenas procurar coragem, mas também inspiração, a ideia, o enfoque, a luz, a clareira no meio da espessura.

Rezar é raciocinar, ainda que pareça o mais irracional. É a mente a funcionar como num jogo de ténis: a planear, a antecipar as jogadas. É abstração em tempos de materialismo. É pausa num mundo excitado. É calma quando tudo é ansiedade. E é aborrecido na ditadura do entretenimento.

Rezar é uma forma extrema de independência.

Rezar é um prazer escondido, reservado para a intimidade. Um ato privado, quase às escondidas, que, quando partilhado, exige muita confiança.

Rezar é uma declaração de amor pela pessoa que se leva nas orações. É derramar carinho sobre os que mais amamos e sentir o carinho dos que rezam por nós.

Rezar é ter outros nas tuas orações e estar nas orações de outros – o que é muito mais do que estar apenas na sua memória.

Rezar, e sobretudo que rezem por ti, é a maior aspiração que alguém pode ter na vida. Um privilégio imenso. É amar tanto alguém ao ponto de rezar por ele, e ser amado tanto ao ponto de que rezem por ti.
Haverá maior orgulho? Existirá maior plenitude do que saber que uma mãe, um irmão, um filho ou um amigo deseja que Deus te proteja, te dê saúde, te ilumine, te ajude, te acompanhe e esteja sempre contigo?

Rezar é ter fé. Fé na vida, nas pessoas, nos amigos, nos filhos, nos pais, em Deus.

Rezar é um superpoder que nos predispõe para o bem.

Rezar é acreditar e ser praticante de um mundo melhor.


«Reza por mim» é um texto de Miguel Ángel Robles publicado no ABC de Sevilla

segunda-feira, 19 de janeiro de 2026

Quando um banco de jardim deixa de ser vazio


Quando um banco de jardim deixa de ser vazio


Foi num sábado de manhã que me sentei num jardim e percebi que os bancos também têm memória. Estavam cheios de corpos cansados e vazios de presenças. Muitos idosos, sozinhos, à espera que o tempo passasse — ou que a morte chegasse — de braços cruzados, como se já não houvesse nada a fazer para aquietar a dor.
Sentou-se à minha frente uma senhora pequena, rosto pálido, cabelo branco, uns 83 anos escritos no corpo e muitos mais no silêncio. A solidão dela via-se à distância. Bastava deixar-se tocar. Sentei-me ao lado. Não para resolver, mas para partilhar.
Era viúva, reformada, mãe, avó. Tinha filhos que a amavam, mas viviam longe. Tinha pessoas à volta, mas faltava-lhe alguém por dentro. A solidão consumia-lhe a alma, enfraquecia-lhe o corpo, enchia-lhe a casa de memórias. “A vida agora parece que assobia o nada dentro de mim”, disse. E naquela frase cabia um mundo inteiro.
Ficámos ali, a conversar. Ela a falar, eu a aprender. Percebi que ouvir um idoso é entrar numa biblioteca viva, onde cada ruga é uma página e cada silêncio um parágrafo por ler. Aquele tempo valeu mais do que qualquer ecrã, qualquer distração, qualquer pressa.
Os idosos estão cada vez mais sós. Nas cidades cheias e nas aldeias vazias. Sós com os outros, sós consigo mesmos. A pior solidão não é a ausência de gente, é a ausência de sentido. É estar rodeado de pessoas e viver numa ilha deserta.
Fizemos um pacto simples e revolucionário: encontrar-nos naquele banco todos os meses. Eu dar-lhe-ia presença. Ela dar-me-ia tempo. Comeríamos um do outro a sede de felicidade. Porque a solidão mais negra é não ter com quem repartir a fome de abraços.
Nesse dia nasceu algo novo em mim. Aprendi que a solidão não se combate — constrói-se. Constrói-se com encontros, com escuta, com disponibilidade. Os momentos de solidão são necessários para que os encontros não sejam apenas barulho, mas casa.
Talvez seja isso que nos falta: sentarmo-nos mais nos bancos da vida e menos nos bancos da indiferença.


Padre João Torres

domingo, 18 de janeiro de 2026

Eu venho, Senhor, para fazer a vossa vontade.





As leituras que a liturgia deste domingo nos propõe recordam-nos que Deus conta connosco para concretizar o seu projeto de salvação em favor dos homens. Ele escolhe-nos, chama-nos, envia-nos e habilita-nos para sermos suas testemunhas no mundo. Não temos o direito de frustrar, com as nossas recusas, o projeto de Deus.

A primeira leitura traz-nos a história de vocação de um “servo de Javé”, escolhido por Deus “desde o seio materno” para ser “luz das nações” e levar a salvação de Deus “até aos confins da terra”. Consciente de que Deus o sustenta com a sua força, o “servo” dispõe-se a cumprir a missão que lhe é confiada. Quando Deus nos inclui nos sus planos, a nossa resposta só pode ser um “sim” sem reticências.

Poderemos nós, seres frágeis e indignos, ser sinais de Deus no mundo? Poderemos, com todas as nossas limitações, concretizar a “obra” de Deus no meio dos nossos irmãos e anunciar, com palavras e com gestos, um mundo mais belo, mais justo e mais humano? Sim podemos, com a força de Deus. Convém, no entanto, que não nos iludamos: aquilo que fazemos de extraordinário não resulta das nossas forças ou das nossas qualidades, mas sim de Deus. Quando nos louvarem ou nos aplaudirem por causa das obras que fazemos, que o nosso coração não se encha de orgulho, de vaidade, de autossuficiência, de autoconvencimento: por detrás de todos os nossos êxitos está Deus, esse Deus que é capaz de renovar e transformar o mundo a partir da nossa fragilidade. Estamos bem conscientes dos nossos limites e, em simultâneo, da força de Deus que atua em nós e através de nós?

Na segunda leitura Paulo de Tarso, lembra aos cristãos da cidade de Corinto que todos são chamados a cumprir a missão que Deus lhes destina. Paulo, chamado por Deus a ser apóstolo de Jesus Cristo, irá anunciar o Evangelho em todo o lado aonde a vida o levar; os coríntios, chamados à santidade, deverão viver de forma coerente com a vida nova que assumiram no dia em que se comprometeram com Jesus e com o Evangelho.

Paulo lembra aos cristãos de Corinto – e a nós também – que todos os batizados são chamados à santidade. Para muitos cristãos, contudo, a palavra “santidade” assusta: parece demasiado exigente e, portanto, irrealizável. Na verdade, a vocação à santidade não implica obrigatoriamente seguir caminhos extremos de ascese, de privação, de sacrifício, de renúncia, de abandono do mundo; mas significa, sobretudo, viver de forma coerente com a vida nova que assumimos no dia em que fomos batizados, o dia em que nos comprometemos no seguimento de Jesus; significa deixarmos para trás as obras das trevas e passarmos a viver na luz, como pessoas novas, animadas pelo Espírito. Temos procurado concretizar a nossa vocação à santidade? A nossa vida dá testemunho dos valores de Deus?

No Evangelho
, João Batista apresenta Jesus: Ele é “o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo”, o “Filho de Deus” que possui a plenitude do Espírito e que vem batizar os homens no Espírito. Jesus recebeu do Pai a missão de oferecer aos homens a vida nova de Deus; e irá cumpri-la com absoluta fidelidade. Nós, os que nos aproximamos de Jesus e que decidimos segui-l’O, continuamos a obra de Jesus: somos enviados a levar ao mundo a salvação de Deus.

Segundo João Batista, Jesus veio “batizar no Espírito”. A todos aqueles que se dispuserem a acolher a sua proposta, Jesus comunica a vida de Deus, a força de Deus, o amor de Deus (o Espírito Santo). Os primeiros discípulos de Jesus fizeram essa experiência no dia de Pentecostes (cf. At 2). Aquele que recebe esse “batismo no Espírito”, passa a viver segundo um dinamismo novo: os seus gestos, as suas palavras e o seu estilo de vida refletem a vida de Deus. O que é batizado no Espírito, renuncia à escravidão do pecado e passa a fazer as obras de Deus. Ser batizado no Espírito corresponde a um novo nascimento. Para nós, este caminho começou no dia em que fomos batizados, o dia em que nos comprometemos a caminhar com Jesus e recebemos d’Ele a vida de Deus. Temos vivido de forma coerente com essa opção? Renovamos em cada dia a nossa decisão por Jesus ou, entretanto, optamos por outros caminhos, outras propostas, outras formas de vida? A nossa vida, as nossas escolhas, os nossos valores, os nossos gestos refletem a opção que fizemos no dia em que fomos “batizados no Espírito”?

https://www.dehonianos.org/

sábado, 17 de janeiro de 2026

DE PRESIDENTE DA REPÚBLICA A BOLO SIDÓNIO





Será que um Presidente da República pode ser simbolizado por um simples pastel ou bolo?!... Acho que sim! No entanto, sempre dependerá da qualidade do material e do gosto ou desgosto de quem trabalha a massa e os ingredientes que o próprio pode oferecer, mas lá isso pode. Ai pode, pode! Em Viana do Castelo, há um bolo com formato retangular, em forma de caixão fúnebre, que, em jeito de homenagem, evoca um Presidente da República. São os ‘Sidónios’, os ‘Sidónios sem ossos’, um doce feito de amêndoa, açúcar e ovos, dizem os livros. A Brasileira, no centro histórico de Viana do Castelo, junto à Sé, na Rua Sacadura Cabral 25, e que escreve a sua história desde 1902, ficou famosa por dar origem a tais doces, os "Sidónios".
Foi Domingos Amorim Viana, emigrante no Brasil e natural de Santa Marta de Portuzelo, o mestre da proeza. Não sei se amigo se desamigo de Sidónio Pais, foi ele o autor do feito e da fama que, por causa dos sidónios, a confeitaria conquistou.
Sidónio Bernardino Cardoso da Silva Pais, nasceu a 1 de maio de 1872, às 21 horas, na Rua Direita n.º 115, em Caminha. Foi eleito Presidente da República a 28 de abril de 1918 e assassinado a 18 de Dezembro do mesmo ano. Era o filho mais velho de Rita Júlia Cardoso da Silva e de Sidónio Alberto Marrocos Pais, funcionário judicial, o qual, por razões profissionais, em 1879 foi mudado para Pedrógão e mais tarde para a Sertã, sempre acompanhado pela família. Tendo-se deslocado a Dornes, a casa do amigo Cotrim Garcez, faleceu subitamente, vítima de pneumonia, o que, por estar presente, causou profunda mossa na vida do jovem Sidónio, com 11 anos de idade, futuro Presidente da República. Após esta morte, a família regressou a Caminha. Aos 13 anos, Sidónio foi para Coimbra, levado pela sua tia Claudina, com o objetivo de prosseguir os estudos. No ano letivo de 1885-86 frequentou várias disciplinas em Coimbra, vindo fazer o exame ao Liceu de Viana do Castelo. Já com as habilitações necessárias para frequentar a universidade, regressou a Coimbra, onde se inscreveu na Universidade, em 1887, no curso de Filosofia e, em 1888, no curso de Matemática. Ingressou também na carreira militar, tendo assentado praça como voluntário a 12 de dezembro de 1888, no regimento de Infantaria n.º 23 em Coimbra, onde serviu até 1889. Em Novembro de 1890, foi chamado para ingressar na Escola do Exército, em Lisboa, interrompendo o curso universitário e vindo a fazer aí o curso de Artilharia. A 2 de Fevereiro de 1895, casou com Maria dos Prazeres Martins Bessa, na Igreja de S. Gonçalo, em Amarante. Nesse mesmo ano retomou a Universidade, finalizando os bacharelatos em Matemática e Filosofia. A 24 de Julho de 1898 doutorou-se em Matemática. Foi professor catedrático, em Coimbra, de Cálculo Diferencial e Integral e eleito vice-reitor após o 5 de Outubro de 1910. Além de outros afazeres e responsabilidades diversas, foi Deputado, Ministro do Fomento, das Finanças e representante de Portugal em Berlim, acabando por ser ele também quem liderou o golpe de Estado que afastou o governo de Afonso Costa e derrubou o Presidente da República, Bernardino Machado, em dezembro de 1917. Tendo presidido à Junta Militar, em 28 de abril de 1918 foi eleito Presidente da República, nas únicas eleições presidenciais da I República, por voto direto e universal, mas restrito a cidadãos do sexo masculino. Obteve 468 275 votos. Tomou posse a 9 de maio de 1918, tendo sido aclamado na varanda dos Paços do Concelho, em Lisboa. Passado o estado de graça, sucedem-se as greves, as contestações, e as tentativas de pôr fim ao regime sidonista. Após barriga farta no Restaurante Silva, no Chiado, a 14 de dezembro de 1918, Sidónio Pais dirigia-se para a estação do Rossio, em Lisboa, para partir para o Porto. Um esquerdista republicano, José Júlio da Costa, que não morria de amores por Sidónio Pais e o tinha como ditador e traidor, aproveitou o momento para, furando o cordão policial, ripar a arma de debaixo do seu capote alentejano e o alvejar com dois tiros. Foi grande o alarido e maior o rebuliço, tendo José Júlio da Costa sido brutalmente espancado pela multidão e Sidónio Pais falecido na Sala do Banco de Urgências do Hospital de São José. Após os exames forenses e ter estado alguns dias em câmara ardente na Sala dos Embaixadores, no Palácio de Belém, o funeral realizou-se a 21 de dezembro de 1918, com um cortejo fúnebre que saiu dos Paços do Concelho em direção ao Mosteiro dos Jerónimos, onde ficou. Foi um funeral marcante na cidade de Lisboa, permitindo as homenagens da nação, com pompa e circunstância. Com a sua morte desaparecia o regime por ele fundado, isto é, a “República Nova”, a qual já tinha alterado a Constituição e introduzido um regime presidencialista, uma experiência inovadora, escreve António Araújo, “uma experiência inovadora que antecipou em vários aspetos - populismo, chefia carismática, contornos autoritários - a tendência totalitária e fascizante de vários governos desenvolvida na Europa durante o período entre as duas guerras mundiais”. A par, nascia o mito do salvador, do “Santo Sidónio, do Presidente-Rei”, como o definiu Fernando Pessoa num dos seus poemas. Estava traçado o destino da primeira República e uma crise permanente que só terminou com a Revolução Nacional de 28 de maio de 1926, pondo fim ao regime. As conveniências do Estado Novo, porém, fizeram recuperar a personalidade política de Sidónio Pais, trasladando, em 1966, dos Jerónimos para o Panteão Nacional.
No livro “O essencial sobre Sidónio Pais”, António Araújo, seu autor, termina assim: “Antes do golpe que o levou à chefia do Estado português, Sidónio Pais não se destacara em nada. Militar de baixa patente, académico sem originalidade ou rasgo, parlamentar apagado e ministro efémero, diplomata no Reich que só falou com o imperador uma vez, Sidónio tornou-se, sem que ninguém o esperasse, Presidente da República e Comandante em Chefe das Forças de Terra e Mar. Este livro acompanha a vida daquele a quem muitos chamaram «Presidente-Rei», numa tentativa de explicar as causas para a sua ascensão meteórica e para o mito que ainda hoje o rodeia”.
Senhor Empregado de Mesa, saia, por favor, um Sidónio e um galão!...

D. Antonino Dias
Caminha, 16-01-2026.


sexta-feira, 16 de janeiro de 2026

Contruir pontes

 

Jesus sentava-se com quem era excluído, tocava em quem ninguém tocava, conversava com quem era invisível aos olhos do mundo. A fé que Ele ensinou era uma fé de cuidado, de escuta, de atenção. Jesus não dividia apenas o pão para matar a fome. O seu milagre era maior do que isso. Ele dividia o pão para devolver a dignidade. Ele não ensinou o desprezo, muito menos ensinou a calar quem pensa diferente. Não ensinou a usar o nome de Deus para justificar o ódio, preconceito ou vaidade. Ele ensinou a mansidão, misericórdia, tolerância e uma forma de amar que não cabe em nada do que vemos e ouvimos hoje em dia. Precisamos voltar à essência da mensagem de Jesus. Ele não construiu muros, construiu pontes. Não hasteou bandeiras de poder mas estendeu as mãos a quem o mundo tinha esquecido. Sabes, a fé que Jesus ensinou não grita, não humilha, não exclui… ela acolhe, escuta, cuida e restaura. Seguir Jesus é escolher amar quando seria mais fácil julgar. É oferecer dignidade onde só existem rótulos. É entender que mansidão não é fraqueza mas é força espiritual. Misericórdia não é conivência, mas é maturidade. O amor que vem de Jesus não cabe em discursos vazios mas revela-se em atitudes diárias. Que a nossa fé seja parecida com a D’Ele: viva, pratica e cheia de graça. Vive assim e serás feliz. Um dia muito feliz para todos sempre com Deus no coração

Padre Ricardo Esteves

quinta-feira, 15 de janeiro de 2026

NO FUNDO, ANDAMOS TODOS À PROCURA DO MESMO



Na passagem de ano escrevi votos de bom ano a dois amigos.
Um é muçulmano.
O outro, judeu.
As palavras foram simples, quase banais: saúde, paz, um ano melhor. Não esperava mais do que uma resposta cordial. Mas o que recebi ficou a ecoar dentro de mim.
Ambos responderam de forma diferente, mas disseram o mesmo.
Disseram que acreditavam nos seres humanos.
Que esperavam um mundo melhor.
Que sonhavam com mais paz.
Fiquei espantado. E, ao mesmo tempo, profundamente tocado.
Não falaram de fronteiras, nem de dogmas, nem de diferenças. Falaram de humanidade. Como se, por um instante, o essencial tivesse vindo à superfície: antes de sermos cristãos, judeus ou muçulmanos, somos responsáveis uns pelos outros.
Lembrei-me então de Lévinas: o rosto do outro precede tudo. Antes das ideias, das religiões, das identidades, está o outro que me olha e me confia o mundo. A ética nasce aí. Não no que pensamos, mas no modo como respondemos.
Talvez seja isto que nos une mais profundamente: todos esperamos que o humano seja melhor do que a sua história. Todos desejamos um mundo onde a paz não seja apenas uma palavra repetida nos discursos, mas uma prática quotidiana. Todos acreditamos — mesmo quando duvidamos — que o outro não é um inimigo, mas uma promessa.
No fundo, andamos todos à procura do mesmo.
De um lugar onde a dignidade seja respeitada.
De um tempo em que a fraternidade não seja exceção.
De um mundo onde acreditar nos seres humanos ainda faça sentido.
E talvez o ano novo comece precisamente aqui:
quando reconhecemos no outro — diferente, crente ou não, próximo ou distante — alguém que espera o mesmo que nós.

Padre João Torres


quarta-feira, 14 de janeiro de 2026

Tens o copo cheio.

 



Não há nada que te possa dizer que acrescente alguma coisa ou que possa ser bem recebido. Já sentiste isso? Eu já! E sabes, tanto tentei encher, como às vezes, eu própria pareço um copo cheio.

Começo por aí. Por vezes estamos tão cheios das nossas convicções e ideias que damos por nós a ter dificuldade de ouvir e aceitar valores diferentes dos nossos. Mudamos de canal, de estação de rádio e deixamos de ouvir aquilo que aparentemente já sabemos. Andamos tão cansados das mesmas notícias e informações, exploradas até ao limite, que sempre que temos de ter trabalho para saber mais sobre algo ficamos cansados. Ver uma reportagem, conversar com alguém que pensa diferente de nós, ora acaba em discussão ou em aborrecimento. Lemos as letras gordas das notícias, vemos os tiktoks e pronto…já sabemos tudo sobre o assunto!

O conhecimento cansa!

Outras vezes somos nós a tentar “encher o copo a alguém” mas nem sempre o outro quer da água que lhe damos. Ora porque somos chatos, ora porque o assunto não interessa e nem sempre conseguimos captar o interesse de quem nos ouve. Falamos e falamos e o outro limita-se a acenar com a cabeça e a reter pouco.



Quando provocamos a audiência com somos rotulados de “ultrapassados” pois quem nos ouve já sabe tudo sobre o assunto, ou considera que, o que sabemos, nada acrescenta à sua felicidade.

E prontos, não conseguimos levar a “água ao nosso moinho”.

Nem sempre somos o copo capaz de receber o que nos é dado e nem sempre somos a água que o copo precisa de receber.

Acredito, contudo, que alguma coisa se aproveite.

Da minha parte, vou tentando esvaziar o copo de preconceitos, juízos de valor, e ideias pré concebidas para que possa haver espaço para outras ideias diferentes das minhas. Nesse processo decido, qual a água que quero ter, ou seja, quais os valores e convicções que não posso abdicar e não devo desvalorizar na esperança de que a minha água possa também ser proveitosa para outros.

Até lá… que nunca te falte a água pura!

E tu amiga, como está o teu copo?

Raquel Rodrigues

terça-feira, 13 de janeiro de 2026

Papa aponta Batismo como «luz» nas horas sombrias e «porta do céu» na morte

Leão XIV sublinhou que Deus «não observa o mundo de longe» e convidou os católicos a imitar os gestos de amor de Jesus



Cidade do Vaticano, 11 jan 2026 (Ecclesia) – O Papa Leão XIV afirmou hoje, no Vaticano, que o Batismo constitui um “sinal sagrado” que acompanha toda a vida dos católicos, servindo de guia nos momentos de escuridão e de conflito.

“Nas horas sombrias, o Batismo é luz; nos conflitos da vida, o Batismo é reconciliação; na hora da morte, o Batismo é a porta do céu”, declarou, desde a janela do apartamento pontifício, perante milhares de pessoas reunidas na Praça de São Pedro para a oração do ângelus.

Na reflexão que assinalou a festa do Batismo do Senhor, que encerra o tempo litúrgico do Natal, Leão XIV falou de um Deus atento à realidade humana.

Caríssimos, Deus não observa o mundo de longe, sem tocar a nossa vida, os nossos males e as nossas expectativas! Ele vem para o meio de nós com a sabedoria do seu Verbo feito carne, envolvendo-nos num surpreendente projeto de amor por toda a humanidade.”

O Papa destacou a humildade de Jesus ao apresentar-se no rio Jordão junto de João Batista, explicando que Cristo quis revelar a “infinita misericórdia” ao colocar-se ao lado dos pecadores.

“Na verdade, o Filho Unigénito, no qual somos irmãos e irmãs, vem para servir e não para dominar, para salvar e não para condenar. Ele é o Cristo redentor: toma sobre si o que é nosso, incluindo o pecado, e dá-nos o que é seu, ou seja, a graça de uma vida nova e eterna”, desenvolveu.

Leão XIV recordou a celebração a que presidiu esta manhã na Capela Sistina, onde batizou vários bebés, sublinhando a dimensão comunitária da fé.

“Precisamente hoje, batizei alguns recém-nascidos, que se tornaram nossos novos irmãos e irmãs na fé: como é lindo celebrar como uma única família o amor de Deus, que nos chama pelo nome e nos liberta do mal!”, assinalou.

Com o encerramento do ciclo do Natal, a Igreja Católica inicia agora uma nova etapa do calendário litúrgico.

“A festa do Batismo de Jesus, que celebramos hoje, dá início ao Tempo Comum: este período do ano litúrgico convida-nos a seguir juntos o Senhor, escutando a sua Palavra e imitando os seus gestos de amor para com o próximo”, recomendou o Papa.

Após a oração, Leão XIV lembrou os filhos de funcionários do Vaticano, que batizou na Sistina e quis estender a sua bênção “a todas as crianças que receberam ou receberão o batismo nestes dias, em Roma e em todo o mundo”.

“Confio-as à proteção maternal da Virgem Maria”, acrescentou.

Na saudação aos vários grupos de peregrinos, reunidos em São Pedro, o Papa dirigiu-se a uma associação mexicana, com um apelo global: “Deixemos que as crianças sonhem”.

OC

segunda-feira, 12 de janeiro de 2026

Sinodalidade: Pergunta «quem manda na Igreja» deve dar lugar à questão «que tipo de ser serviço é pedido»

160 participantes em encontro nacional deixaram propostas pastorais concretizar o caminho sinodal


Fátima 10 jan 2026 (Ecclesia) – A Conferência Episcopal Portuguesa promoveu sábado,10, o II Encontro Sinodal Nacional para identificar propostas pastorais de concretização do caminho sinodal, sublinhando que o mais importante é identificar “que tipo de serviço” cada um é chamado a concretizar.

“Somos também chamados a uma conversão do olhar e da linguagem: a deixar para trás as categorias mundanas que nos levam a perguntar ‘quem manda na Igreja’, para entrarmos no espaço mais exigente e libertador da pergunta verdadeiramente evangélica: que tipo de serviço é pedido a cada um na Igreja, segundo o dom que recebeu”, indica o documento conclusivo preliminar.


Trata-se de passar do desejo de poder à disponibilidade para o dom, da lógica da ocupação de lugares à alegria da entrega”.

Organizado pela Equipa Sinodal da CEP, o II Encontro Sinodal Nacional identificou propostas apresentadas pelos 160 participantes, após o debate em 20 grupos sinodais, seguindo o método da conversação no Espírito, em torno da questão: “Que Igreja somos chamados a ser a partir da conversão no Espírito?”.

A prioridade da escuta, traduzida em “práticas pastorais consistentes, com espaços e tempos próprios de escuta espiritual, humana e comunitária, no quotidiano das paróquias, dioceses e locais de vida e trabalho” foi a proposta comum aos trabalhos dos vários grupos.

Do II Encontro Sinodal Nacional resultou também a determinação de promover “uma Igreja de acolhimento e misericórdia”, de “portas abertas, que não coloca obstáculos nem condições prévias a quem procura Jesus” e uma Igreja “corresponsável e participativa”, onde todos os batizados “são chamados a participar nos processos de discernimento, decisão e ação pastoral”.

“Uma Igreja centrada em Cristo, orante e missionária: que prioriza o ser antes do fazer, que se renova, continuamente, através da formação, a partir do Evangelho” foi outra proposta apresentada, indo “ao encontro das situações de sofrimento, injustiça e exclusão, assumindo uma presença profética na sociedade”.

O II Encontro Sinodal Nacional apontou a necessidade de uma pastoral que “comunica e caminha em rede”, com “especial atenção ao protagonismo dos jovens como agentes ativos do anúncio do Evangelho”.

Durante o encontro, os representantes de todas as dioceses apresentaram os “passos já dados” na implementação do Documento Final do Sínodo, nomeadamente a “valorização dos Conselhos Pastorais como espaços de corresponsabilidade e discernimento”, os “processos de reorganização pastoral e criação de unidades ou redes sinodais”, o “investimento na formação do clero e dos leigos”, um “maior envolvimento dos fiéis leigos e dos ministérios laicais” e as “práticas de escuta alargada para o discernimento pastoral”, seguindo nomeadamente o método sinodal da conversação no Espírito.

Entre as dificuldades persistentes encontradas, as dioceses identificam “resistências clericais, fragilidade da decisão partilhada, défices formativos, cansaço pastoral, limitações estruturais e ritmos diferenciados das comunidades”.

Os representantes das dioceses também “sinais de esperança”, nomeadamente o “crescimento da corresponsabilidade, entusiasmo em comunidades que já experimentam práticas sinodais, compromisso dos bispos, surgimento de novos ministérios laicais, renovação pastoral e aproximação de pessoas anteriormente afastadas”.

“As partilhas revelam uma transição cultural em curso, lenta, mas real, onde a sinodalidade se afirma como caminho, método e horizonte, abrindo espaços de comunhão, participação e missão”, indica o documento conclusivo do II Encontro Sinodal Nacional.

PR

domingo, 11 de janeiro de 2026

Festa do Batismo do Senhor

 

https://www.youtube.com/watch?v=fDfFv_bO6Fw



A liturgia deste dia celebra o Batismo de Jesus. Evoca o momento em que Jesus, ungido pelo Espírito Santo e apresentado aos homens como “Filho Amado” de Deus, abraçou a missão que o Pai lhe entregou: recriar o mundo, fazer nascer um Homem Novo. E propõe-nos, a todos nós que fomos batizados em Cristo, que tiremos desse facto as consequências que se impõem.

A primeira leitura anuncia um misterioso “Servo”, escolhido por Deus e enviado aos homens para instaurar um mundo de justiça e de paz sem fim… Investido do Espírito de Deus, ele concretizará essa missão com humildade e simplicidade, sem recorrer ao poder, à imposição, à prepotência, pois esses esquemas não são os de Deus.A história do “Servo de Javé”, que recebeu a plenitude do Espírito para ser “luz das nações”, abrir “os olhos aos cegos”, tirar “do cárcere os prisioneiros” e “da prisão os que habitam nas trevas”, lembra-nos, desde logo, que Deus age através de “profetas” a quem confia a transformação do mundo e a libertação dos homens. No dia em que fomos batizados, recebemos, também nós, o Espírito que nos capacitou para uma missão semelhante à desse “Servo”. Tenho consciência de que cada batizado é um instrumento de Deus na renovação e transformação do mundo? Estou disposto a corresponder ao chamamento de Deus e a assumir a minha responsabilidade profética? Os pobres, os oprimidos, os que “jazem nas trevas e nas sombras da morte”, os que não têm eira nem beira, nem voz nem vez, nem convite para se sentar à mesa da humanidade podem contar com a minha solidariedade ativa, com a minha ajuda fraterna, com o meu abraço, com a minha partilha generosa?

No Evangelho, aparece-nos a concretização da promessa profética da primeira leitura: Jesus é o Filho/”Servo” enviado pelo Pai, sobre quem repousa o Espírito e cuja missão é realizar a libertação dos homens. Obedecendo ao Pai, Ele tornou-Se pessoa, identificou-Se com as fragilidades dos homens, caminhou ao lado deles, a fim de os promover e de os levar à Vida em plenitude. Depois de batizado e de ser ungido pelo Espírito, Jesus não se instalou numa crença religiosa de meias tintas ou de serviços mínimos. Animado pela força do Espírito, partiu para a Galileia a anunciar o Reino de Deus e a testemunhar – com palavras e com gestos – o projeto libertador do Pai. É dessa forma – coerente, comprometida, apaixonada – que eu procuro viver a missão que Deus me confiou no dia em que eu fui batizado? Os meus irmãos e irmãs maltratados pela vida e pelos homens podem contar com o meu empenho em levar-lhes a carícia do Deus que cura e que dá Vida?

A segunda leitura reafirma que Jesus é o Filho amado que o Pai enviou ao mundo para concretizar um projeto de salvação em favor dos homens; por isso, Ele “passou pelo mundo fazendo o bem” e libertando todos os que eram oprimidos. É este o testemunho que os discípulos devem dar, para que a salvação que Deus oferece chegue a todos os povos da terra.Jesus recebeu o Batismo e foi ungido com a força do Espírito; depois, “passou pelo mundo fazendo o bem e curando todos os que eram oprimidos pelo demónio”. Em cada passo do caminho que percorreu, Ele distribuiu, em gestos concretos, bondade, misericórdia, perdão, solidariedade, amor… Nós, cristãos, que “acreditamos” em Jesus, que nos comprometemos com Ele e O seguimos, assumimos este “programa”? Nós, que fomos batizados e ungidos com a força do Espírito, testemunhamos também, em gestos concretos, a bondade, a misericórdia, o perdão e o amor de Deus pelos homens? Empenhamo-nos em libertar todos os que são oprimidos pelo demónio do egoísmo, da injustiça, da exploração, da exclusão, da solidão, da doença, do analfabetismo, do sofrimento?


https://www.dehonianos.org

sábado, 10 de janeiro de 2026

Falsas promessas de felicidade


Será que alguém é feliz por ser rico, não por nada mais do que isso, apenas por ter muito? Talvez não. Por isso é muito comum que quanto mais se tem, mais se queira ter, porque afinal o que se queria, e que, entretanto, se alcançou, não funciona como se esperava.

Há quem viaje muito em busca de algo que não existe em lugar algum: uma paz que não depende de nós. Um lugar que nos faz felizes sem que sequer tenhamos de nos comprometer com isso. Uma espécie de prémio numa caça ao tesouro.

O mais precioso de todos os bens é a vida que já temos. O ser que nos foi dado. De que precisamos mais? De viver bem, de não desperdiçar o nosso tempo, de investir o nosso tempo no bem-estar dos que estão próximos de nós. Daqueles nossos familiares ou colegas com quem partilhamos os mesmos espaços.

Pode alguém ser feliz enquanto aqueles que ama não o são? Não. Ora, ou tratamos de ser feliz em conjunto ou nunca lá chegaremos, por mais que tenhamos e/ou por mais que demos voltas a este mundo.

A felicidade não é rápida, nem fácil, menos ainda garantida. Não há dinheiro, reconhecimento ou prazer que façam alguém feliz.

A vida é feita de muitas perdas, frustrações e adversidades. Ou aprendemos a ser felizes apesar de tudo isto ou… seremos infelizes, por culpa própria.

Só o amor é capaz de gerar a verdadeira felicidade. Sem espetáculo nem euforia. Um sorriso ainda que com lágrimas.


José Luís Nunes Martins

sexta-feira, 9 de janeiro de 2026

NÃO ARRUMEM O MENINO NO SÓTÃO



Chega o tempo em que as luzes se apagam devagar, as músicas cessam e a casa volta ao seu silêncio habitual. O Natal parece despedir-se sem ruído. Arrumam-se as estrelas, a árvore, desmonta-se o presépio. Tudo acontece com naturalidade, como se fosse apenas mais um fim de ciclo.
Mas o Natal não é um objeto.
E o Menino não é decoração.
O presépio foi o coração da casa durante semanas. Ali esteve Deus feito fragilidade, silêncio e promessa. Ali aprendemos — ainda que sem palavras — que Deus não entra no mundo com poder, mas com amor. E é precisamente por isso que o maior risco não é desmontar o presépio, mas desmontar o Natal dentro de nós.
Segundo a tradição da Igreja, o presépio não deve ser desmontado no Dia de Reis. O tempo do Natal prolonga-se até à Festa do Batismo do Senhor, que encerra este grande mistério. É no dia seguinte a essa festa que o presépio e a árvore de Natal devem ser recolhidos, com respeito e oração, porque só então o Natal se cumpre liturgicamente.
Desmontar antes é apressar o mistério.
É fechar a porta antes de Deus terminar de falar.
Quando chegar esse dia, não arrumem o presépio com pressa. Reúnam a família. Façam silêncio. Agradeçam. Beijem a imagem do Menino. Guardem-na com veneração. E lembrem-se: o que se guarda na caixa não pode ser o que se guarda na alma.
O Natal não termina quando se desmonta o presépio.
Termina quando Deus deixa de contar nas nossas escolhas.
O Menino veio para ficar.
Para atravessar os dias comuns, os cansaços, as dúvidas, as quedas e as recomeços. Veio para ser presença quando já não há luzes, nem festas, nem aplausos. Veio para ser Deus-connosco, todos os dias do ano.
Por isso, quando desmontarem o presépio, façam-no com fé.
Mas, por favor,
não arrumem o Menino no sótão.
Guardem-no no centro do coração.
E deixem-no viver convosco.


Padre João Torres



quinta-feira, 8 de janeiro de 2026

Reis Magos... buscadores de vida



Epifania, é festa dos buscadores de vida, buscadores de Deus.
Os “Reis Magos” são o símbolo de tantos homens e mulheres que,
em qualquer parte do mundo, se perguntam, buscam e caminham.
Esperamos sempre algo mais na vida,
somos movidos pelo anseio do coração que se sabe incompleto
e procura a ‘estrela’ que lhe mostre o pleno sentido da vida.
O Evangelho narra a procura de Deus como uma VIAGEM,
ao ritmo da caravana...
caminham juntos,
atentos às estrelas
e atentos uns aos outros.
A viagem exige desapego, coragem, procura, esperança.
Quem está preso à terra pelo peso das coisas,
pelos apegos,
pelos egoísmos,
não é capaz de se tornar buscador de vida.
Quem está convencido de possuir tudo, não tem o desejo da procura...
O presente mais precioso que os magos levam a Jesus
não é o ouro, incenso e mirra,
mas a sua própria viagem.
O presente impagável são os meses passados à procura,
- andar e andar atrás de um desejo mais forte que desertos e fadigas.
Deus deseja que tenhamos desejo dele.
Deus tem sede da nossa sede: o nosso presente maior.
Toda viagem que culmina na manjedoura,
é ponto de partida para novos caminhos...
...quem se encontra com Jesus voltará
à sua CASA,
ao seu TRABALHO,
às suas OCUPAÇÕES,
por outros CAMINHOS, porque já não é o mesmo...


Padre João Torres

quarta-feira, 7 de janeiro de 2026

Homilia da Solenidade de Stª Maria Mãe de Deus








“Maria, a Mãe, é a portadora de uma nova humanidade,
porta escancarada por onde entrou este Deus que se fez humano
para que o plano divino se cumpra na nossa humanidade. ”



Queridas irmãs, queridos irmãos:

Ano Novo, vida nova: dizemos todos os anos. Mas sabemos que isso é mais um desejo que uma constatação. Desejamos que o tempo se renove e que a nossa vida não esteja condenada à decadência dos anos, mas destinada a uma plenitude de alegria cada vez maior. Muitas vezes, porém, percebemos que precisamos de arrepiar caminho, de rever tendências e corrigir desvios, verificamos que tanta coisa correu mal e que precisamos de nos libertar de muitos processos tóxicos que nos sufocam e nos tiram a esperança. E queremos acreditar que é possível recomeçar, refazer a estrada. Só isso dá sentido à celebração de um dia por ano a que chamamos “novo”: o dia em que recordamos que é possível mudar e dar novos sentidos ao tempo. É isso que permite considerar que o tempo se torna novo. Cabe-nos garantir que esta novidade não se desvanece, mas se mantém acesa pela consistência dos nossos bons propósitos, sempre.

Relendo os jornais, é fácil encontrar artigos que referem os acontecimentos marcantes do ano que passou:quem morreu, quem se evidenciou, o que se aprendeu, o que se perdeu e se ganhou. Para além da efervescência dos jornais, será útil nós próprios cultivarmos esse exercício de balanço, de revisão de vida, a nível individual, familiare comunitário: que acontecimentos marcaram? O que trouxe esperança e abriu caminhos? O que houve de pecado e entropia? Este é um exercício valioso que podemos fazer no silêncio da nossa oração pessoal, mas também (porque não?) na franqueza do nosso diálogo em casal ou em família, entre amigos ou nos debates públicos que sejam, finalmente, travados com honestidade, sem estratégia, sem manha nem manipulações eleitoralistas.

O texto do Evangelho de Lucas, que acabámos de escutar, fala-nos da viagem para o presépio empreendida pelos pastores e diz-nos que estes se dirigiram “apressadamente” a Belém. A palavra “apressadamente” é encontrada igualmente noutras passagens da Escritura, como a que relata a viagem que Maria fez ao encontro de Isabel, depois da anunciação, assim como a viagem que os discípulos fizeram ao encontro de outros discípulos, ao ser-lhes revelada a Ressurreição do Senhor. É um “apressadamente” que não tem a tanto a ver com a pressa da precipitação de quem não tem tempo, ou tem medo de o perder, mas tem mais a ver com a determinação, a urgência, de quem sabe qual a prioridade em que deve investir e não aceita dispersar-se com nada que o distraia do que realmente importa. O que realmente importava, para os pastores -como para Maria ou os discípulos deslumbrados com Cristo Ressuscitado- era o encontro com um Deus que os escolhera, amara e enchera de alegria. E quando se está cheio dessa alegria há um transvasar de vida que começa no brilho dos olhos e se estende a todos os gestos e às mais pequenas opções. Esses homens pobres, apascentando o seu gado nas periferias da cidade, eram portadores de uma notícia de paz que lhes vinha de Deus e que os atraía para Jesus. Esta mesma notícia os enchera de uma tal alegria que o mesmo movimento determinado prosseguiria nas suas vidas, depois do presépio: louvar, agradecer, reconhecer a presença amorosa de Deus nas suas vidas e passá-la impreterivelmente aos outros, assumindo um novo modo de estar nesta terra e de tecer as relações com os outros, marcadas pela fraternidade.

Encontrar-se com Jesus Cristo, portador de um projeto que transforma por dentro todos os nossos modelos, implica mudar de vida, de facto. Reconhecer que há realidades caducas e tóxicas, tanto ao nível pessoal como coletivo, e dispor-se a substituir essas realidades por uma nova vitalidade, dom de Deus e fruto do nosso compromisso.

É, por isso, interessante que a imagem que nos é proposta neste primeiro dia do ano seja precisamente a da maternidade de Maria, na festa litúrgica que encerra a oitava do Natal. Maria, a Mãe, é a portadora de uma nova humanidade, porta escancarada por onde entrou este Deus que se fez humano para que o plano divino se cumpra na nossa humanidade. Por essa razão, a humanidade estilhaçada pelo egoísmo e pelas opções mortíferas que foi fazendo, pode dar lugar a esse novo modo de existir, numa vida nova, restaurada por Cristo e pela Paz que só Ele pode dar.

A paz de Jesus Cristo, a paz duradoura e consistente, não é o resultado da contenção defensiva provocada pelo medo, fruto de relações de violência que partem dasuspeição e da ameaça. A paz de Jesus reconhece o valor, a preciosidade do outro, e brota desta valorização recíproca que é, na verdade, a concretização de relações justas, que valorizam e concedem a cada um o que lhe é devido, sem julgar, condenar, excluir ou menosprezar. De há muito que o pensamento social da Igreja, fundado no Evangelho, nos diz que não há paz sem justiça: Justiça e Paz são duas irmãs gémeas que só a ilusão do pecado consegue separar. O Papa Leão XIV, na sua mensagem para hoje, Dia Mundial da Paz, fala-nos de uma Paz desarmada e desarmante, quer dizer, de uma paz que parte de relações humanas que não se nutrem do medo nem da ameaça, mas da disponibilidade diante do outro, de braços abertos. E braços abertos desarmam, pois suscitam abraço e não confrontação.

Olhando o mundo contemporâneo, deploramos a gravidade da deterioração a que chegaram as relações entre os povos. Numa pesquisa rápida, descobri um total de 61 conflitos armados, em 2025, afetando 36 países. Destes conflitos, 11 são especialmente graves, como a guerra na Ucrânia, em Gaza, mas também no Sudão, no Mianmar, na Somália e em inúmeros outros focos de conflito na África subsariana e noutras regiões do mundo. Horrorizamo-nos diante de tudo isso, e com razão. Precisamos, porém, de detetar a raiz de egoísmo e de intolerância, fruto de todas as guerras e, talvez, tristemente descobrir que esses mesmos movimentos de egoísmo, intolerância e medo do outro podem igualmente estar presentes nas nossas vidas e afetar as nossas relações, minar a confiança e destruir casamentos, desestabilizar relações sociais, deitar a perder velhos laços de amizade. Esses mesmos movimentos podem ferir a nossa paz interior e pôr-nos em estado de tensão e de rutura, em nós e entre nós. Só a Paz de Jesus nos pode curar.

Na sua mensagem, o Papa apela à responsabilidade política na construção de uma ordem mundial fundada na confiança e na lealdade e não na corrida desenfreada ao armamento. Entre nós, quero recordar que quando o investimento na defesa armada, por medo de ameaças externas, suspende a prioridade do estabelecimento de relações justas, então a ameaça que tememos de fora instala-se dentro, fruto das injustiças que não soubemos evitar. Quando se gasta dinheiro em armas, mas se poupa na saúde, na educação, na justiça, no setor social, na cultura ou na desconstrução das assimetrias sociais e territoriais, então o medo que nos assola por causa dos outros há de corroer-nos por causa de nós mesmos. Quando se expulsam imigrantes em vez de os acolher, proteger, promover e integrar, então, da autopreservação que queríamos garantir despertaremos para o pesadelo de uma sociedade fragmentada pelos discursos e sentimentos de ódio e intolerância, que tornam insustentável qualquer projeto de prosperidade coletiva, nacional ou local.

Sonho com um Ano Novo, um tempo novo, em que a lógica da paz se sobreponha aos esquemas da suspeita e da estratégia; um tempo novo em que nenhuma minoria seja maltratada, mas todas as pessoas sejam valorizadas e acolhidas nas suas diferenças, sejam elas de origem étnica, de filiação religiosa ou ideológica, de orientação psicoafectiva ou de padrão cultural ou moral. Sonho com um Ano Novo, um tempo novo, em que a violência doméstica seja recordada como uma vergonhosa realidade do passado, em que os abusos sexuais, laborais ou de poder sejam sempre identificados, punidos e, sobretudo, evitados. Sonho com um tempo novo em que mulheres e homens tenham o mesmo salário, para trabalho idêntico, e em que os jovens não tenham de emigrar para procurar fora da sua vila ou do seu país o que deveriam encontrar dentro. Sonho com esse tempo novo em que todos nós, cristãos, continuaremos a dar testemunho de Jesus Cristo vivo, numa Igreja sinodal de batizados comprometidos, apaixonados pelo Evangelho e dedicados ao seu anúncio.

Que este ano seja um tempo novo. Que a bondade de Maria, nossa Mãe, nos ensine a viver como filhos e, portanto, como irmãos. E a todos vós, meus queridosirmãos e irmãs, deixai-me repetir as Palavras de bênção que escutámos na primeira leitura e que bem podem ser para nós um modo de estar na vida e na relação com os outros:


“O Senhor te abençoe e te proteja.
O Senhor faça brilhar sobre ti a sua face
e te seja favorável.
O senhor volte para ti os seus olhos e te conceda a paz!”


Pedro Fernandes, Bispo de Portalegre – Castelo Branco
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terça-feira, 6 de janeiro de 2026

Lugar...



O meu lugar favorito, torna-se todo aquele onde eu consigo sorrir de corpo e alma.


Adoro estar em casa... é a minha zona de conforto (literalmente) e cada vez gosto mais. Na mesma medida, cresce também o desejo de conhecer e experienciar novos lugares, novos momentos - e há tantas formas!

De fora para dentro, de dentro para fora. Sem rigidez.

Para isso é preciso ter também a capacidade de parar. Observar, escutar, espantar-se com o que a vida tem para oferecer. Celebrar! Ir além do superficial.

O essencial mora no simples e no profundo. No que somos. No que vamos integrando e resignificando dentro de nós.

Há muitas formas de nos reencontrarmos. Tenho para mim que passamos a vida nos nossos reencontros: em relação connosco, na relação com os outros.

Parar permite ver. Permite criar uma distância onde o coração se alinha. Onde também há limites que se impõem e abrem espaço apenas para Ser.

Boa semana!



Carla Correia

segunda-feira, 5 de janeiro de 2026

As vontades não são desejos



Diz-se que a liberdade é poder fazer o que se quer, mas quem decide o que quer? Há em nós forças que podemos aprender a guiar e outras que são mais selvagens.

As vontades são as forças que nos levam a vencer obstáculos e a conquistar o que decidimos alcançar: o esforço que somos capazes de escolher fazer.

Os desejos são forças que nos tentam dominar, levando-nos a fazer algo que na verdade não escolhemos, não queremos, mas que, como costumamos dizer, tem de ser.

Os desejos são alheios a quem os possui; as vontades não. É comum confundir estes dois tipos de forças interiores, chamando vontades aos desejos. É assim que alguém se julga livre quando, na verdade, é apenas escravo dos seus apetites.

Devemos aprender a querer. Devemos aceitar os meios para chegarmos ao que queremos. Devemos aceitar também as consequências do caminho que nos leva ao que queremos.

Apesar de não querer o que tenho de fazer para alcançar o que pretendo, devo estar consciente de que importa pagar o preço para chegar onde sonho. Não quero, portanto, o que faço, mas aquilo para que o faço.

Ninguém quer as feridas que talvez sejam essenciais para chegar ao céu. Ninguém quer sofrer. Mas quem quer amar, sabe que, ainda que sofra, o que ganha é muito mais do que aquilo que perde.

A razão mais comum do fracasso é querer o que se quer, de imediato, sem ter de ordenar forças e talentos, coragem e paciência para conseguir o que se determinou.

A vontade tem muitas vezes de ser orientada para enfrentar os desejos, diminuindo-os para que possamos ser felizes. O muito é sempre pouco para quem sempre deseja mais.

O coração de cada um de nós precisa de muito menos do que julgamos.


José Luís Nunes Martins

domingo, 4 de janeiro de 2026

SOLENIDADE DA EPIFANIA DO SENHOR

 




A liturgia deste dia celebra a manifestação de Jesus a todos os homens… O Menino do presépio é uma “luz” que se acende na noite do mundo e atrai a si todos os povos da terra. Essa “luz” encarnou na nossa história e no nosso mundo, iluminou os caminhos dos homens, conduziu-os ao encontro da salvação e da vida definitiva.

A primeira leitura anuncia a Jerusalém a chegada da luz salvadora de Deus. Essa luz transfigurará o rosto da cidade, iluminará o regresso a casa dos exilados na Babilónia e atrairá à cidade de Deus povos de todo o mundo.Podemos, naturalmente, ligar a chegada da “luz” salvadora de Deus a Jerusalém (anunciada pelo profeta) com o nascimento de Jesus. O projeto de libertação que Jesus veio apresentar aos homens será a luz que vence as trevas do pecado e da opressão e que dá ao mundo um rosto mais brilhante de vida e de esperança. Reconhecemos em Jesus a “luz” libertadora de Deus? Estamos dispostos a aceitar que essa “luz” nos fale, nos aponte caminhos de vida nova e nos liberte das trevas do egoísmo, do orgulho e do pecado? Estamos disponíveis para dar testemunho dessa luz junto dos irmãos que compartilham o caminho connosco?

No Evangelho, vemos a concretização dessa promessa: ao encontro de Jesus vêm uns “magos” do oriente, que representam todos os povos da terra… Atentos aos sinais da chegada do Messias, esses “magos” procuram-n’O com esperança até O encontrar, reconhecem n’Ele a “salvação de Deus” e aceitam-n’O como “o Senhor”. A salvação rejeitada pelos habitantes de Jerusalém torna-se agora um dom que Deus oferece a todos os homens, sem exceção.Os “magos” representam os homens de todo o mundo que vão ao encontro de Cristo, que acolhem a proposta libertadora que Ele traz e que se prostram diante d’Ele. É a imagem da Igreja – essa família de irmãos, constituída por gente de muitas cores e raças, que aderem a Jesus e que O reconhecem como o seu Senhor. Estamos bem conscientes de que Jesus é o centro para o qual todos convergimos e do qual irradia a luz salvadora que ilumina a nossa vida e a vida do mundo? E, quando olhamos para os irmãos e irmãs que connosco se reúnem à volta de Jesus, sentimos a comunhão, a fraternidade, os laços de família que a todos nos ligam?

A segunda leitura apresenta o projeto salvador de Deus como uma realidade que vai atingir toda a humanidade, juntando judeus e pagãos numa mesma comunidade de irmãos – a comunidade de Jesus.A fraternidade implica o amor sem limites, a partilha, a solidariedade… Sentimo-nos solidários com todos os irmãos que partilham connosco esta vasta casa que é o mundo? Sentimo-nos responsáveis pela sorte de todos os nossos irmãos, mesmo aqueles que estão separados de nós pela geografia, pela diversidade de culturas e de raças?

https://www.dehonianos.org/

sábado, 3 de janeiro de 2026

DAS TERRAS DO ADUFE ÀS DO TRIQUILITRAQUE E DA COCA





O mito popular diz que o cão dá sete voltas antes de se deitar. Quer convencer a malta de que se trata da fidelidade do cão ao seu legado selvagem, quer na descoberta e preparação dum espaço para descansar sem lhe doerem as costelas, quer para mirar ao redor se há possíveis predadores, quer para demarcar o seu território e fazer-se crer a si próprio que aqui quem manda sou eu.
A vida humana também dá muitas voltas, imensamente mais que sete, do que setenta vezes sete, um sem número de voltas. Se há pessoas que, de facto, as dão para fugir dos predadores humanos, a maioria dá-as para se pisgar da vida de cão, seja de cão apaparicado, menos apaparicado ou descartado. A pessoa procura o seu espaço, onde, sem ser pesada para quem quer que seja, se sentir bem e útil em família e em sociedade, a viver e a conviver sadiamente, colaborando para o bem comum na alegria e bem-estar.
Como toda a gente, também eu dei as minhas voltas. Nestes tempos que se aproximam dos últimos, porém, sem pressa nem desejo de ultrapassar quem quer que seja em direção à meta, vou dando mais algumas. Não as voltas sem sentido de quem anda por aí a dar água sem caneco. Não as voltas do vira e do volta a virar a ver se acerta o passo. Não as voltas de quem tem medo da irrelevância ou da insignificância. Não as voltas de quem se quer deitar ou fugir de predadores, mas as voltas que o bom senso aconselha a dar, com serenidade e paz.
Deixando a boa gente das terras dos adufes, da Beira Baixa, e doutras de mais abaixo, do Alentejo e Ribatejo, embora delas continue a fazer parte, regressei às terras altas do Triquelitraque ou Zaquelitraque e a outras ainda mais altas. Àquelas em que, alguém, lá nos quintos, distraindo-se com o regabofe da festa profana, ficou com remorsos por ter deixado passar a hora de cumprir o seu dever sagrado. Vergastado pela consciência, logo confidencia, mui contrito e a malhar com a mão no peito: “por causa da santa coca perdi o demo da missa!”.
Andando os meus diocesanos, colegas, amigos e o pessoal da Instituição à qual, por graça de Deus, pertenço e sirvo desde o Batismo, a perguntar-me onde é agora o meu paradeiro, aqui vou deixar o local do desembarque para quem, acossado pelo vagar, queira tomar um cimbalino comigo, aqui, na praça maior cá do burgo, ou então partilhar um vitamínico num dos pastos locais. Se não for cabrito à moda da Serra d’Arga, outra coisa será, nem que seja batatas grandes com batatas pequenas ou batatas fritas com puré. Se nada houver..., paciência! Passando um dia por Mirandela, com o apetite aguçado para saborear umas alheiras, também eu tive de confirmar, mais uma vez, que a realidade é sempre muitíssimo superior à ideia: não havia alheiras! Tempos houve, e não sei se ainda é assim, em Melgaço também não havia Águas de Melgaço, não tinha de haver. Era uma verdadeira profecia em plena concretização nestes tempos que são os nossos. Um dos atuais alistados no boletim de voto como candidato à República, esperando vencer à terceira volta, anda de coração feito em cacos por amor aos portugueses e aos seus prazeres de Baco. Porque nem de água precisam para a sanidade renal, tal candidato bate-se, com unhas e dentes, para que haja vinho nas torneiras de todos os lares de Portugal. Bem haja!... Se for Alvarinho terá o meu voto!
Perante alguma insistência, e porque Braga, familiarizada com os seus farricocos encapuzados e mui devota de São Bento, já desde o tempo dos biscainhos deixa sempre a porta aberta sem medo de que qualquer desalmado se atreva a entrar, pensei em ficar por lá. E até, se não pudesse ver os priolos em extinção na ilha de São Miguel dos Açores, poderia subir, de quando em vez, ao alto da montanha para ver Braga por um canudo e apreciar mais de perto as picardias desportivas entre bracarenses e vimaranenses. Em tempos de antanho, em que por aquelas bandas se estudava e, enfileirado, se arejavam as danações, a mente e as saudades com chapéu, batina e sapatos de fivela pelas ruas da urbe e arredores, era do monte do Picoto, se tal benesse fosse concedida, que se satisfazia esse gosto, um pouco em jeito de ver mosquitos da Índia naquele estádio 28 de maio tão malfadado pelos revolucionários de turno. Todavia, chamando à vara o discernimento, hoje tanto em voga e atarefado com importâncias e minudências, decidi ficar por mais perto, por Viana do Castelo, mesmo que fosse à distância de não poder ver a princesa Ana à varanda. Porque dela se fala há vários séculos, não só presumo que já tenha desvivido, como presumo que não seria assim tão formosa quanto aquelas jovens de Viana cuja beleza Eça de Queiroz imortalizou em livro e Pedro Homem de Melo e o médico António Eduardo de Sousa Gomes elevaram aos píncaros das danças folclóricas. Reza a lenda, porém, que foi o basbaque de um barqueiro, apaixonado pela tal Ana que vivia no Castelo, quem, sempre que a via surgir à varanda - não sei se a sacudir os tapetes, se a pôr a roupa a secar no arame, se a deitar janela fora a água de lavar os pratos, se a gritar com a vizinha por causa das galinhas que lhe pularam para a horta -, logo corria, babadinho e empurrado pela esperança no enlace, logo corria a anunciar, mui feliz e prazenteiro: ‘Vi a Ana no Castelo, vi a Ana no Castelo...!’. Quem, como toda a gente, não sabe muito sobre tão distinta matéria, mas sempre gosta de dar a sua opinião, atreve-se a dizer que foi essa a razão pela qual a princesa do Lima foi batizada com o nome de Viana do Castelo. Elegantemente debruçada sobre a foz do rio, o geógrafo e filósofo historiador Estrabão, mesmo que estrábico, já antes de Cristo igualara as águas deste rio às águas do rio Letes, o da mitologia grega. E porque as águas do Letes - diz-se! -, faziam perder a memória, até se cacareja que os soldados da infantaria pesada do exército romano não quiseram atravessar o rio Lima por terem medo de esquecer as suas origens e amores. Estranho eu, porém, que, atendendo à bravura brava, bravíssima, dos limianos, ninguém alvitre que os soldados não quiseram atravessar o rio por terem medo de que os limianos, do outro lado do rio, lhes limpassem o sebo ou lhes soltassem a vaca das cordas, fazendo-os sumir aterrorizados em calças com necessidade urgente duma barrela de água quente, com cinza e soda!... Ora vejam lá o que por aí se diz, o que eu sei que se diz, o que eu me atrevo a citar e seriamente aprofundo e aperfeiçoo neste meu trabalho mui científico, mesmo que não seja uma hodierna tese de mestrado ou doutoramento!... Mas deixemos esses grandes temas da humanidade a fazer cócegas nos decifradores de tais enigmas e desçamos ao povoado. A todos informo que, se venho duma cidade de sete conventos, de Portalegre, onde o Estado, mui piedoso e mais que pobre sem abrigo, ao assalto se meteu dentro de todos eles, irei, também eu agora, residir num convento sem me tornar eremita, frade, monge ou cartuxo. Nestes tempos, estive em casa de meus irmãos, sempre acolhedores e dedicados, com netos a traquinar em ambiente familiar sadio, como, aliás, tanto convém a todas as famílias, para bem e felicidade dos seus membros e da sociedade. Dizer-lhes que não iria ficar por ali, não lhes foi fácil de encaixar nem a mim de lhes dizer, mas sempre entendi que deveria ser assim. Por isso, embora continue perto, a partir de ontem, dia um de janeiro, e graças à hospitalidade aí existente, passei a residir no Convento de Santo António, na vila de Caminha. Neste Convento, que estica e espraia o seu olhar sobre a foz do rio Minho e o Monte galego de Santa Tecla, reside uma considerável comunidade de Irmãs Franciscanas Hospitaleiras da Imaculada Conceição. Também têm uma comunidade na Diocese de Portalegre-Castelo Branco, mais propriamente na cidade de Castelo Branco, depois de terem deixado saudades na Vila de Oleiros onde estiveram por várias décadas, a vila que, empática e simpaticamente, pesca turistas com cabrito estonado, maranhos, tigeladas, papas de carolo e vinho Callum. Hospitaleiras e Franciscanas, são filhas da Mãe Clara, isto é, foram fundadas, em Lisboa, a 3 de maio de 1871, pela nobre Senhora Libânia do Carmo Galvão Mexia de Moura Telles e Albuquerque, beatificada em 2011. Ao entrar na vida religiosa, adotou o nome de Maria Clara do Menino Jesus. É a Mãe Clara, como, com ternura e respeitosamente, a tratam as suas Irmãs e discípulas. Aos trabalhos fundacionais da Congregação também o alfacinha Padre Raimundo dos Anjos Beirão deu uma estimulante mãozinha. Aqui vivem, convivem, rezam e descansam, depois de uma vida totalmente dedicada à causa da evangelização por esse mundo fora, com uma riqueza diversificada de experiências e saberes acumulados que impressiona e testemunham.
E já agora, fazendo jus ao título deste texto e porque o vagar faz colheres, a magicação arrasta dúvidas existenciais, a cultura é a alma de um povo e define a sua identidade, cada novo Ano sempre vem espevitar a chama dormente de tais vícios e virtudes, por tudo isso e o mais que for, o leitor saber-me-á esclarecer, provando, se o Adufe e o Triquilitraque não seriam bem melhor entretenimento para Putin, Trump e quejandos? E se os ucranianos encomendassem aos monçanenses uma Coca para ser enviada aos amigos russos com sistemas avançados de guiamento, controlo e ação, não dariam estes às de vila-diogo só em ver aqueles afiados dentes e abismal boqueirão, aquela hercúlea força e tremebunda ferocidade, aquela propulsora e retalhadora cauda? Tais perguntas não são toleima, são muito pertinentes e pedagógicas. Fazem pensar e pensar dá uma trabalheira dos diabos. Trazem no ventre uma pitadinha daquela dúvida metódica de René Descartes e fogem ao teor de tantos escritos, discursos, debates, certezas, perceções, pios parenéticos e tontas pieguices de quem, dia e noite, noite e dia, só fala e escreve sobre guerra e belicistas, deprimindo quem lê ou escuta. Só avivam o que já Plutarco dizia antes de Cristo e Thomas Hobbes assumiu no seu livro Leviatã, no século XVII: “O homem é lobo do outro homem”. De supremo valor e alcance, estas perguntas até fazem rir, e “Rir é muito sério, muito útil, muito revelador, muito libertador, muito estimulante”, escreveu Miguel Esteves Cardoso ao assinalar a morte de Tom Stoppard cujo “público adorava as peças dele porque era impossível não adorar: faziam rir, faziam pensar, davam vontade de escrever e de viver. Comoviam, apetecia encená-las”.
Se, para responder a tais perguntas, o leitor precisar de pedir conselho à Meta ou à Inteligência Artificial, tenha cuidado. Elas sabem muito, a sua ciência está muito para além dos nossos oásis e arredores da sabedoria. E se reclamam forte pedalada a quem preza o conhecimento e quer viver a tempo o seu próprio tempo, também exigem olho fino e pé ligeiro no discernimento da verdade e da mentira destas e doutras coisas, pois só a verdade nos libertará!...


D. Antonino Dias
Caminha, 02/01/2026





sexta-feira, 2 de janeiro de 2026

Novo ano ou novo eu?



Talvez não seja nem uma coisa nem outra.

Vivemos esta altura com as expectativas implantadas da novidade. De repente, é esperado que tudo mude e, obviamente, para melhor. De um minuto para outro é importante que se tomem resoluções repentinas e acaloradas que nem sempre rimam com a realidade. Essa ficção que somos chamados a viver só nos afasta daquilo que é a verdade com que vivemos diariamente.

Aquilo que a vida é, não se muda num dia.

Aquilo que somos não se altera só porque bate a meia-noite.

Nós podemos demorar uma vida a alterar um detalhe em nós. Quando nos trabalhamos interiormente nasce-nos esta esperança quase infantil de acordarmos diferentes. Mais iluminados. Mais bondosos. Mais adultos, até. Mas as verdadeiras mudanças internas não se compadecem das nossas pressas. Vão-se revelando, a pouco e pouco, à medida que envelhecemos e que avançamos na experiência do que a vida é. Basta estar na disposição de receber e de se deixar permear pelos acontecimentos mais diversos que nos forem atropelando os dias.

E, se assim é, como podemos esperar que tudo (nos) mude quando se muda a página do calendário?

Que este final de ano possa servir-nos para observar o tanto que já vivemos e as diferentes lições que nos têm sido ensinadas. Para aprender alguma coisa é preciso querer. Para mudar, também.

Que a nossa verdade (seja ela qual for) possa ser o que nos enche o copo e as medidas. Que a nossa inteireza e coerência de espírito possam substituir os confettis e as passas ressequidas. Só quando nos conhecemos verdadeiramente podemos, enfim, abrir espaço para que o novo faça casa em nós.

Mais do que um ano bom, que seja um ano de verdade. Com tudo o que isso implica e significa!


Marta Arrais

quinta-feira, 1 de janeiro de 2026

Solenidade de Santa Maria, Mãe de Deus

 




Oito dias depois da celebração do Natal de Jesus, a liturgia convida-nos a olhar para Maria, a mãe de Deus (“Theotókos”), solenemente designada com este título no Concílio de Éfeso, em 431. Com o seu “sim” tornou possível a presença de Jesus nas nossas vidas e no nosso mundo.

Mas este dia é também o primeiro dia do ano civil: é o início de uma caminhada que queremos percorrer de mãos dadas com esse Deus que nos ama, que nos abençoa e que conduzirá os nossos passos, com cuidado de Pai, ao longo deste Ano Novo.

Também celebramos o Dia Mundial da Paz: em 1968, o Papa Paulo VI propôs aos homens de boa vontade que, no primeiro dia de cada novo ano, se rezasse pela paz no mundo. Hoje, portanto, pedimos a Deus que nos dê a paz e que faça de cada um de nós testemunha e arauto da reconciliação e da paz.

As leituras que a liturgia deste dia nos propõe abraçam esta diversidade de temas e de evocações.

A primeira leitura oferece-nos, através de uma antiga fórmula de bênção, a certeza da presença contínua de Deus ao nosso lado nos caminhos que percorremos todo os dias. Ele será sempre para nós fonte de Vida e de paz.A “bênção” de Deus de que fala este texto do livro dos Números não cai do céu como uma chuva mágica que transforma toda a nossa vida, quer queiramos quer não. A oferta de vida que Deus nos faz, para ter efeitos práticos na nossa vida, tem de ser acolhida com amor e gratidão. Temos de estar disponíveis para acolher os dons de Deus e para nos deixarmos transformar por Ele. Temos de dar ouvidos a Deus, temos de acolher as suas indicações, desafios e propostas; e então, efetivamente, trilharemos caminhos de Vida nova, de felicidade e de paz. Estamos prontos a acolher os dons de Deus?

Na segunda leitura evoca-se o amor e o cuidado de Deus, mil vezes manifestados na história dos homens. Ele enviou o seu Jesus ao nosso encontro para nos libertar da escravidão e para nos tornar seus “filhos”. É nessa situação privilegiada de “filhos” livres e amados que podemos dirigir-nos a Deus e chamar-lhe “abbá” (“papá”).A experiência cristã é fundamentalmente uma experiência de encontro com um Deus que é “abbá” – isto é, que é um “papá” muito próximo, com quem nos identificamos, a quem amamos, a quem nos entregamos e em quem confiamos plenamente. Era assim que Jesus sentia Deus e foi essa experiência de Deus que Ele nos comunicou. É esta proximidade libertadora e confiante que temos com o nosso Deus? É esse o testemunho que procuramos transmitir a todos aqueles que nos questionam sobre a nossa fé?

O Evangelho
mostra como a presença de Deus na nossa história é fonte de alegria e de esperança para todos os homens e mulheres, mas particularmente para os pobres e os marginalizados. Sugere ainda que Maria, a mãe de Jesus, é o modelo do crente que, em silêncio e sem espalhafato, acolhe as propostas de Deus, guarda-as no coração e deixa-se guiar por elas.Naquele Menino frágil que os pastores encontram deitado numa manjedoura de uma gruta de Belém, Deus desce à nossa história e abraça a nossa frágil humanidade. Ele traz-nos a salvação e a paz. Não sejamos insensatos a ponto de colocar a nossa esperança de salvação nas ideologias, na clarividência dos líderes, no poder do dinheiro, na força das armas, na embriaguez dos aplausos. A salvação verdadeira vem de Jesus e da proposta irrecusável que Ele nos trouxe. Hoje, ao olhar para o Menino do presépio, podemos decidir-nos a viajar com Ele e a fazer dele a nossa referência; hoje, ao contemplar o Deus que se vestiu de fragilidade para nos apontar caminhos novos de realização e de plenitude, podemos decidir-nos por uma vida mais digna, mais fraterna, mais solidária. Estamos disponíveis, neste Ano Novo, para um novo começo, com Jesus?



https://www.dehonianos.org/