sábado, 17 de janeiro de 2026

DE PRESIDENTE DA REPÚBLICA A BOLO SIDÓNIO





Será que um Presidente da República pode ser simbolizado por um simples pastel ou bolo?!... Acho que sim! No entanto, sempre dependerá da qualidade do material e do gosto ou desgosto de quem trabalha a massa e os ingredientes que o próprio pode oferecer, mas lá isso pode. Ai pode, pode! Em Viana do Castelo, há um bolo com formato retangular, em forma de caixão fúnebre, que, em jeito de homenagem, evoca um Presidente da República. São os ‘Sidónios’, os ‘Sidónios sem ossos’, um doce feito de amêndoa, açúcar e ovos, dizem os livros. A Brasileira, no centro histórico de Viana do Castelo, junto à Sé, na Rua Sacadura Cabral 25, e que escreve a sua história desde 1902, ficou famosa por dar origem a tais doces, os "Sidónios".
Foi Domingos Amorim Viana, emigrante no Brasil e natural de Santa Marta de Portuzelo, o mestre da proeza. Não sei se amigo se desamigo de Sidónio Pais, foi ele o autor do feito e da fama que, por causa dos sidónios, a confeitaria conquistou.
Sidónio Bernardino Cardoso da Silva Pais, nasceu a 1 de maio de 1872, às 21 horas, na Rua Direita n.º 115, em Caminha. Foi eleito Presidente da República a 28 de abril de 1918 e assassinado a 18 de Dezembro do mesmo ano. Era o filho mais velho de Rita Júlia Cardoso da Silva e de Sidónio Alberto Marrocos Pais, funcionário judicial, o qual, por razões profissionais, em 1879 foi mudado para Pedrógão e mais tarde para a Sertã, sempre acompanhado pela família. Tendo-se deslocado a Dornes, a casa do amigo Cotrim Garcez, faleceu subitamente, vítima de pneumonia, o que, por estar presente, causou profunda mossa na vida do jovem Sidónio, com 11 anos de idade, futuro Presidente da República. Após esta morte, a família regressou a Caminha. Aos 13 anos, Sidónio foi para Coimbra, levado pela sua tia Claudina, com o objetivo de prosseguir os estudos. No ano letivo de 1885-86 frequentou várias disciplinas em Coimbra, vindo fazer o exame ao Liceu de Viana do Castelo. Já com as habilitações necessárias para frequentar a universidade, regressou a Coimbra, onde se inscreveu na Universidade, em 1887, no curso de Filosofia e, em 1888, no curso de Matemática. Ingressou também na carreira militar, tendo assentado praça como voluntário a 12 de dezembro de 1888, no regimento de Infantaria n.º 23 em Coimbra, onde serviu até 1889. Em Novembro de 1890, foi chamado para ingressar na Escola do Exército, em Lisboa, interrompendo o curso universitário e vindo a fazer aí o curso de Artilharia. A 2 de Fevereiro de 1895, casou com Maria dos Prazeres Martins Bessa, na Igreja de S. Gonçalo, em Amarante. Nesse mesmo ano retomou a Universidade, finalizando os bacharelatos em Matemática e Filosofia. A 24 de Julho de 1898 doutorou-se em Matemática. Foi professor catedrático, em Coimbra, de Cálculo Diferencial e Integral e eleito vice-reitor após o 5 de Outubro de 1910. Além de outros afazeres e responsabilidades diversas, foi Deputado, Ministro do Fomento, das Finanças e representante de Portugal em Berlim, acabando por ser ele também quem liderou o golpe de Estado que afastou o governo de Afonso Costa e derrubou o Presidente da República, Bernardino Machado, em dezembro de 1917. Tendo presidido à Junta Militar, em 28 de abril de 1918 foi eleito Presidente da República, nas únicas eleições presidenciais da I República, por voto direto e universal, mas restrito a cidadãos do sexo masculino. Obteve 468 275 votos. Tomou posse a 9 de maio de 1918, tendo sido aclamado na varanda dos Paços do Concelho, em Lisboa. Passado o estado de graça, sucedem-se as greves, as contestações, e as tentativas de pôr fim ao regime sidonista. Após barriga farta no Restaurante Silva, no Chiado, a 14 de dezembro de 1918, Sidónio Pais dirigia-se para a estação do Rossio, em Lisboa, para partir para o Porto. Um esquerdista republicano, José Júlio da Costa, que não morria de amores por Sidónio Pais e o tinha como ditador e traidor, aproveitou o momento para, furando o cordão policial, ripar a arma de debaixo do seu capote alentejano e o alvejar com dois tiros. Foi grande o alarido e maior o rebuliço, tendo José Júlio da Costa sido brutalmente espancado pela multidão e Sidónio Pais falecido na Sala do Banco de Urgências do Hospital de São José. Após os exames forenses e ter estado alguns dias em câmara ardente na Sala dos Embaixadores, no Palácio de Belém, o funeral realizou-se a 21 de dezembro de 1918, com um cortejo fúnebre que saiu dos Paços do Concelho em direção ao Mosteiro dos Jerónimos, onde ficou. Foi um funeral marcante na cidade de Lisboa, permitindo as homenagens da nação, com pompa e circunstância. Com a sua morte desaparecia o regime por ele fundado, isto é, a “República Nova”, a qual já tinha alterado a Constituição e introduzido um regime presidencialista, uma experiência inovadora, escreve António Araújo, “uma experiência inovadora que antecipou em vários aspetos - populismo, chefia carismática, contornos autoritários - a tendência totalitária e fascizante de vários governos desenvolvida na Europa durante o período entre as duas guerras mundiais”. A par, nascia o mito do salvador, do “Santo Sidónio, do Presidente-Rei”, como o definiu Fernando Pessoa num dos seus poemas. Estava traçado o destino da primeira República e uma crise permanente que só terminou com a Revolução Nacional de 28 de maio de 1926, pondo fim ao regime. As conveniências do Estado Novo, porém, fizeram recuperar a personalidade política de Sidónio Pais, trasladando, em 1966, dos Jerónimos para o Panteão Nacional.
No livro “O essencial sobre Sidónio Pais”, António Araújo, seu autor, termina assim: “Antes do golpe que o levou à chefia do Estado português, Sidónio Pais não se destacara em nada. Militar de baixa patente, académico sem originalidade ou rasgo, parlamentar apagado e ministro efémero, diplomata no Reich que só falou com o imperador uma vez, Sidónio tornou-se, sem que ninguém o esperasse, Presidente da República e Comandante em Chefe das Forças de Terra e Mar. Este livro acompanha a vida daquele a quem muitos chamaram «Presidente-Rei», numa tentativa de explicar as causas para a sua ascensão meteórica e para o mito que ainda hoje o rodeia”.
Senhor Empregado de Mesa, saia, por favor, um Sidónio e um galão!...

D. Antonino Dias
Caminha, 16-01-2026.


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