Vivemos num tempo em que, no quotidiano português, muitas vezes não vendemos apenas produtos — criamos necessidades. Dizemos às pessoas que lhes falta algo, mesmo quando até ontem viviam bem sem isso. E quem trabalha a fazê-lo sabe: nem sempre o desconforto é económico; muitas vezes é interior. Há um peso silencioso quando o que se vende entra em conflito com aquilo em que se acredita.
Entre o emprego que paga as contas, a pressão dos números, os objetivos mensais, o prestígio social ou institucional, cresce uma tensão profunda: ser fiel a quem somos ou adaptar-nos ao que convém. No café, no escritório, na empresa, na paróquia, na escola, nas instituições — esta pergunta atravessa a vida comum de todos nós. Quantas vezes mudamos o discurso para agradar? Quantas vezes inventamos urgências para justificar decisões? Quantas vezes trocamos a verdade pela eficácia?
Talvez uma das maiores lutas do nosso tempo seja esta: manter a coerência num mundo que recompensa a aparência. Não se trata de demonizar o mercado nem de romantizar a pobreza, mas de reencontrar equilíbrio, consciência e humanidade. Saber distinguir o que é essencial do que é acessório. O que serve verdadeiramente as pessoas do que apenas as transforma em consumidores.
No meio da correria diária, entre notificações, prazos e campanhas, importa parar e perguntar:
o que é que não estamos dispostos a perder?
Qual é a essência da nossa vida, do nosso trabalho, das nossas instituições, que não pode ser vendida, negociada ou mascarada?
Enquanto esta pergunta nos inquietar, ainda não estamos perdidos. Porque quando a consciência fala, o humano resiste.
Padre João Torres

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