segunda-feira, 19 de janeiro de 2026

Quando um banco de jardim deixa de ser vazio


Quando um banco de jardim deixa de ser vazio


Foi num sábado de manhã que me sentei num jardim e percebi que os bancos também têm memória. Estavam cheios de corpos cansados e vazios de presenças. Muitos idosos, sozinhos, à espera que o tempo passasse — ou que a morte chegasse — de braços cruzados, como se já não houvesse nada a fazer para aquietar a dor.
Sentou-se à minha frente uma senhora pequena, rosto pálido, cabelo branco, uns 83 anos escritos no corpo e muitos mais no silêncio. A solidão dela via-se à distância. Bastava deixar-se tocar. Sentei-me ao lado. Não para resolver, mas para partilhar.
Era viúva, reformada, mãe, avó. Tinha filhos que a amavam, mas viviam longe. Tinha pessoas à volta, mas faltava-lhe alguém por dentro. A solidão consumia-lhe a alma, enfraquecia-lhe o corpo, enchia-lhe a casa de memórias. “A vida agora parece que assobia o nada dentro de mim”, disse. E naquela frase cabia um mundo inteiro.
Ficámos ali, a conversar. Ela a falar, eu a aprender. Percebi que ouvir um idoso é entrar numa biblioteca viva, onde cada ruga é uma página e cada silêncio um parágrafo por ler. Aquele tempo valeu mais do que qualquer ecrã, qualquer distração, qualquer pressa.
Os idosos estão cada vez mais sós. Nas cidades cheias e nas aldeias vazias. Sós com os outros, sós consigo mesmos. A pior solidão não é a ausência de gente, é a ausência de sentido. É estar rodeado de pessoas e viver numa ilha deserta.
Fizemos um pacto simples e revolucionário: encontrar-nos naquele banco todos os meses. Eu dar-lhe-ia presença. Ela dar-me-ia tempo. Comeríamos um do outro a sede de felicidade. Porque a solidão mais negra é não ter com quem repartir a fome de abraços.
Nesse dia nasceu algo novo em mim. Aprendi que a solidão não se combate — constrói-se. Constrói-se com encontros, com escuta, com disponibilidade. Os momentos de solidão são necessários para que os encontros não sejam apenas barulho, mas casa.
Talvez seja isso que nos falta: sentarmo-nos mais nos bancos da vida e menos nos bancos da indiferença.


Padre João Torres

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