Quando um banco de jardim deixa de ser vazio
Foi num sábado de manhã que me sentei num jardim e percebi que os bancos também têm memória. Estavam cheios de corpos cansados e vazios de presenças. Muitos idosos, sozinhos, à espera que o tempo passasse — ou que a morte chegasse — de braços cruzados, como se já não houvesse nada a fazer para aquietar a dor.
Sentou-se à minha frente uma senhora pequena, rosto pálido, cabelo branco, uns 83 anos escritos no corpo e muitos mais no silêncio. A solidão dela via-se à distância. Bastava deixar-se tocar. Sentei-me ao lado. Não para resolver, mas para partilhar.
Era viúva, reformada, mãe, avó. Tinha filhos que a amavam, mas viviam longe. Tinha pessoas à volta, mas faltava-lhe alguém por dentro. A solidão consumia-lhe a alma, enfraquecia-lhe o corpo, enchia-lhe a casa de memórias. “A vida agora parece que assobia o nada dentro de mim”, disse. E naquela frase cabia um mundo inteiro.
Ficámos ali, a conversar. Ela a falar, eu a aprender. Percebi que ouvir um idoso é entrar numa biblioteca viva, onde cada ruga é uma página e cada silêncio um parágrafo por ler. Aquele tempo valeu mais do que qualquer ecrã, qualquer distração, qualquer pressa.
Os idosos estão cada vez mais sós. Nas cidades cheias e nas aldeias vazias. Sós com os outros, sós consigo mesmos. A pior solidão não é a ausência de gente, é a ausência de sentido. É estar rodeado de pessoas e viver numa ilha deserta.
Fizemos um pacto simples e revolucionário: encontrar-nos naquele banco todos os meses. Eu dar-lhe-ia presença. Ela dar-me-ia tempo. Comeríamos um do outro a sede de felicidade. Porque a solidão mais negra é não ter com quem repartir a fome de abraços.
Nesse dia nasceu algo novo em mim. Aprendi que a solidão não se combate — constrói-se. Constrói-se com encontros, com escuta, com disponibilidade. Os momentos de solidão são necessários para que os encontros não sejam apenas barulho, mas casa.
Talvez seja isso que nos falta: sentarmo-nos mais nos bancos da vida e menos nos bancos da indiferença.
Padre João Torres
Sentou-se à minha frente uma senhora pequena, rosto pálido, cabelo branco, uns 83 anos escritos no corpo e muitos mais no silêncio. A solidão dela via-se à distância. Bastava deixar-se tocar. Sentei-me ao lado. Não para resolver, mas para partilhar.
Era viúva, reformada, mãe, avó. Tinha filhos que a amavam, mas viviam longe. Tinha pessoas à volta, mas faltava-lhe alguém por dentro. A solidão consumia-lhe a alma, enfraquecia-lhe o corpo, enchia-lhe a casa de memórias. “A vida agora parece que assobia o nada dentro de mim”, disse. E naquela frase cabia um mundo inteiro.
Ficámos ali, a conversar. Ela a falar, eu a aprender. Percebi que ouvir um idoso é entrar numa biblioteca viva, onde cada ruga é uma página e cada silêncio um parágrafo por ler. Aquele tempo valeu mais do que qualquer ecrã, qualquer distração, qualquer pressa.
Os idosos estão cada vez mais sós. Nas cidades cheias e nas aldeias vazias. Sós com os outros, sós consigo mesmos. A pior solidão não é a ausência de gente, é a ausência de sentido. É estar rodeado de pessoas e viver numa ilha deserta.
Fizemos um pacto simples e revolucionário: encontrar-nos naquele banco todos os meses. Eu dar-lhe-ia presença. Ela dar-me-ia tempo. Comeríamos um do outro a sede de felicidade. Porque a solidão mais negra é não ter com quem repartir a fome de abraços.
Nesse dia nasceu algo novo em mim. Aprendi que a solidão não se combate — constrói-se. Constrói-se com encontros, com escuta, com disponibilidade. Os momentos de solidão são necessários para que os encontros não sejam apenas barulho, mas casa.
Talvez seja isso que nos falta: sentarmo-nos mais nos bancos da vida e menos nos bancos da indiferença.
Padre João Torres

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