
Chega o tempo em que as luzes se apagam devagar, as músicas cessam e a casa volta ao seu silêncio habitual. O Natal parece despedir-se sem ruído. Arrumam-se as estrelas, a árvore, desmonta-se o presépio. Tudo acontece com naturalidade, como se fosse apenas mais um fim de ciclo.
Mas o Natal não é um objeto.
E o Menino não é decoração.
O presépio foi o coração da casa durante semanas. Ali esteve Deus feito fragilidade, silêncio e promessa. Ali aprendemos — ainda que sem palavras — que Deus não entra no mundo com poder, mas com amor. E é precisamente por isso que o maior risco não é desmontar o presépio, mas desmontar o Natal dentro de nós.
Segundo a tradição da Igreja, o presépio não deve ser desmontado no Dia de Reis. O tempo do Natal prolonga-se até à Festa do Batismo do Senhor, que encerra este grande mistério. É no dia seguinte a essa festa que o presépio e a árvore de Natal devem ser recolhidos, com respeito e oração, porque só então o Natal se cumpre liturgicamente.
Desmontar antes é apressar o mistério.
É fechar a porta antes de Deus terminar de falar.
Quando chegar esse dia, não arrumem o presépio com pressa. Reúnam a família. Façam silêncio. Agradeçam. Beijem a imagem do Menino. Guardem-na com veneração. E lembrem-se: o que se guarda na caixa não pode ser o que se guarda na alma.
O Natal não termina quando se desmonta o presépio.
Termina quando Deus deixa de contar nas nossas escolhas.
O Menino veio para ficar.
Para atravessar os dias comuns, os cansaços, as dúvidas, as quedas e as recomeços. Veio para ser presença quando já não há luzes, nem festas, nem aplausos. Veio para ser Deus-connosco, todos os dias do ano.
Por isso, quando desmontarem o presépio, façam-no com fé.
Mas, por favor,
não arrumem o Menino no sótão.
Guardem-no no centro do coração.
E deixem-no viver convosco.
Padre João Torres
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