Na passagem de ano escrevi votos de bom ano a dois amigos.
Um é muçulmano.
O outro, judeu.
As palavras foram simples, quase banais: saúde, paz, um ano melhor. Não esperava mais do que uma resposta cordial. Mas o que recebi ficou a ecoar dentro de mim.
Ambos responderam de forma diferente, mas disseram o mesmo.
Disseram que acreditavam nos seres humanos.
Que esperavam um mundo melhor.
Que sonhavam com mais paz.
Fiquei espantado. E, ao mesmo tempo, profundamente tocado.
Não falaram de fronteiras, nem de dogmas, nem de diferenças. Falaram de humanidade. Como se, por um instante, o essencial tivesse vindo à superfície: antes de sermos cristãos, judeus ou muçulmanos, somos responsáveis uns pelos outros.
Lembrei-me então de Lévinas: o rosto do outro precede tudo. Antes das ideias, das religiões, das identidades, está o outro que me olha e me confia o mundo. A ética nasce aí. Não no que pensamos, mas no modo como respondemos.
Talvez seja isto que nos une mais profundamente: todos esperamos que o humano seja melhor do que a sua história. Todos desejamos um mundo onde a paz não seja apenas uma palavra repetida nos discursos, mas uma prática quotidiana. Todos acreditamos — mesmo quando duvidamos — que o outro não é um inimigo, mas uma promessa.
No fundo, andamos todos à procura do mesmo.
De um lugar onde a dignidade seja respeitada.
De um tempo em que a fraternidade não seja exceção.
De um mundo onde acreditar nos seres humanos ainda faça sentido.
E talvez o ano novo comece precisamente aqui:
quando reconhecemos no outro — diferente, crente ou não, próximo ou distante — alguém que espera o mesmo que nós.
Padre João Torres

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