sábado, 3 de janeiro de 2026

DAS TERRAS DO ADUFE ÀS DO TRIQUILITRAQUE E DA COCA





O mito popular diz que o cão dá sete voltas antes de se deitar. Quer convencer a malta de que se trata da fidelidade do cão ao seu legado selvagem, quer na descoberta e preparação dum espaço para descansar sem lhe doerem as costelas, quer para mirar ao redor se há possíveis predadores, quer para demarcar o seu território e fazer-se crer a si próprio que aqui quem manda sou eu.
A vida humana também dá muitas voltas, imensamente mais que sete, do que setenta vezes sete, um sem número de voltas. Se há pessoas que, de facto, as dão para fugir dos predadores humanos, a maioria dá-as para se pisgar da vida de cão, seja de cão apaparicado, menos apaparicado ou descartado. A pessoa procura o seu espaço, onde, sem ser pesada para quem quer que seja, se sentir bem e útil em família e em sociedade, a viver e a conviver sadiamente, colaborando para o bem comum na alegria e bem-estar.
Como toda a gente, também eu dei as minhas voltas. Nestes tempos que se aproximam dos últimos, porém, sem pressa nem desejo de ultrapassar quem quer que seja em direção à meta, vou dando mais algumas. Não as voltas sem sentido de quem anda por aí a dar água sem caneco. Não as voltas do vira e do volta a virar a ver se acerta o passo. Não as voltas de quem tem medo da irrelevância ou da insignificância. Não as voltas de quem se quer deitar ou fugir de predadores, mas as voltas que o bom senso aconselha a dar, com serenidade e paz.
Deixando a boa gente das terras dos adufes, da Beira Baixa, e doutras de mais abaixo, do Alentejo e Ribatejo, embora delas continue a fazer parte, regressei às terras altas do Triquelitraque ou Zaquelitraque e a outras ainda mais altas. Àquelas em que, alguém, lá nos quintos, distraindo-se com o regabofe da festa profana, ficou com remorsos por ter deixado passar a hora de cumprir o seu dever sagrado. Vergastado pela consciência, logo confidencia, mui contrito e a malhar com a mão no peito: “por causa da santa coca perdi o demo da missa!”.
Andando os meus diocesanos, colegas, amigos e o pessoal da Instituição à qual, por graça de Deus, pertenço e sirvo desde o Batismo, a perguntar-me onde é agora o meu paradeiro, aqui vou deixar o local do desembarque para quem, acossado pelo vagar, queira tomar um cimbalino comigo, aqui, na praça maior cá do burgo, ou então partilhar um vitamínico num dos pastos locais. Se não for cabrito à moda da Serra d’Arga, outra coisa será, nem que seja batatas grandes com batatas pequenas ou batatas fritas com puré. Se nada houver..., paciência! Passando um dia por Mirandela, com o apetite aguçado para saborear umas alheiras, também eu tive de confirmar, mais uma vez, que a realidade é sempre muitíssimo superior à ideia: não havia alheiras! Tempos houve, e não sei se ainda é assim, em Melgaço também não havia Águas de Melgaço, não tinha de haver. Era uma verdadeira profecia em plena concretização nestes tempos que são os nossos. Um dos atuais alistados no boletim de voto como candidato à República, esperando vencer à terceira volta, anda de coração feito em cacos por amor aos portugueses e aos seus prazeres de Baco. Porque nem de água precisam para a sanidade renal, tal candidato bate-se, com unhas e dentes, para que haja vinho nas torneiras de todos os lares de Portugal. Bem haja!... Se for Alvarinho terá o meu voto!
Perante alguma insistência, e porque Braga, familiarizada com os seus farricocos encapuzados e mui devota de São Bento, já desde o tempo dos biscainhos deixa sempre a porta aberta sem medo de que qualquer desalmado se atreva a entrar, pensei em ficar por lá. E até, se não pudesse ver os priolos em extinção na ilha de São Miguel dos Açores, poderia subir, de quando em vez, ao alto da montanha para ver Braga por um canudo e apreciar mais de perto as picardias desportivas entre bracarenses e vimaranenses. Em tempos de antanho, em que por aquelas bandas se estudava e, enfileirado, se arejavam as danações, a mente e as saudades com chapéu, batina e sapatos de fivela pelas ruas da urbe e arredores, era do monte do Picoto, se tal benesse fosse concedida, que se satisfazia esse gosto, um pouco em jeito de ver mosquitos da Índia naquele estádio 28 de maio tão malfadado pelos revolucionários de turno. Todavia, chamando à vara o discernimento, hoje tanto em voga e atarefado com importâncias e minudências, decidi ficar por mais perto, por Viana do Castelo, mesmo que fosse à distância de não poder ver a princesa Ana à varanda. Porque dela se fala há vários séculos, não só presumo que já tenha desvivido, como presumo que não seria assim tão formosa quanto aquelas jovens de Viana cuja beleza Eça de Queiroz imortalizou em livro e Pedro Homem de Melo e o médico António Eduardo de Sousa Gomes elevaram aos píncaros das danças folclóricas. Reza a lenda, porém, que foi o basbaque de um barqueiro, apaixonado pela tal Ana que vivia no Castelo, quem, sempre que a via surgir à varanda - não sei se a sacudir os tapetes, se a pôr a roupa a secar no arame, se a deitar janela fora a água de lavar os pratos, se a gritar com a vizinha por causa das galinhas que lhe pularam para a horta -, logo corria, babadinho e empurrado pela esperança no enlace, logo corria a anunciar, mui feliz e prazenteiro: ‘Vi a Ana no Castelo, vi a Ana no Castelo...!’. Quem, como toda a gente, não sabe muito sobre tão distinta matéria, mas sempre gosta de dar a sua opinião, atreve-se a dizer que foi essa a razão pela qual a princesa do Lima foi batizada com o nome de Viana do Castelo. Elegantemente debruçada sobre a foz do rio, o geógrafo e filósofo historiador Estrabão, mesmo que estrábico, já antes de Cristo igualara as águas deste rio às águas do rio Letes, o da mitologia grega. E porque as águas do Letes - diz-se! -, faziam perder a memória, até se cacareja que os soldados da infantaria pesada do exército romano não quiseram atravessar o rio Lima por terem medo de esquecer as suas origens e amores. Estranho eu, porém, que, atendendo à bravura brava, bravíssima, dos limianos, ninguém alvitre que os soldados não quiseram atravessar o rio por terem medo de que os limianos, do outro lado do rio, lhes limpassem o sebo ou lhes soltassem a vaca das cordas, fazendo-os sumir aterrorizados em calças com necessidade urgente duma barrela de água quente, com cinza e soda!... Ora vejam lá o que por aí se diz, o que eu sei que se diz, o que eu me atrevo a citar e seriamente aprofundo e aperfeiçoo neste meu trabalho mui científico, mesmo que não seja uma hodierna tese de mestrado ou doutoramento!... Mas deixemos esses grandes temas da humanidade a fazer cócegas nos decifradores de tais enigmas e desçamos ao povoado. A todos informo que, se venho duma cidade de sete conventos, de Portalegre, onde o Estado, mui piedoso e mais que pobre sem abrigo, ao assalto se meteu dentro de todos eles, irei, também eu agora, residir num convento sem me tornar eremita, frade, monge ou cartuxo. Nestes tempos, estive em casa de meus irmãos, sempre acolhedores e dedicados, com netos a traquinar em ambiente familiar sadio, como, aliás, tanto convém a todas as famílias, para bem e felicidade dos seus membros e da sociedade. Dizer-lhes que não iria ficar por ali, não lhes foi fácil de encaixar nem a mim de lhes dizer, mas sempre entendi que deveria ser assim. Por isso, embora continue perto, a partir de ontem, dia um de janeiro, e graças à hospitalidade aí existente, passei a residir no Convento de Santo António, na vila de Caminha. Neste Convento, que estica e espraia o seu olhar sobre a foz do rio Minho e o Monte galego de Santa Tecla, reside uma considerável comunidade de Irmãs Franciscanas Hospitaleiras da Imaculada Conceição. Também têm uma comunidade na Diocese de Portalegre-Castelo Branco, mais propriamente na cidade de Castelo Branco, depois de terem deixado saudades na Vila de Oleiros onde estiveram por várias décadas, a vila que, empática e simpaticamente, pesca turistas com cabrito estonado, maranhos, tigeladas, papas de carolo e vinho Callum. Hospitaleiras e Franciscanas, são filhas da Mãe Clara, isto é, foram fundadas, em Lisboa, a 3 de maio de 1871, pela nobre Senhora Libânia do Carmo Galvão Mexia de Moura Telles e Albuquerque, beatificada em 2011. Ao entrar na vida religiosa, adotou o nome de Maria Clara do Menino Jesus. É a Mãe Clara, como, com ternura e respeitosamente, a tratam as suas Irmãs e discípulas. Aos trabalhos fundacionais da Congregação também o alfacinha Padre Raimundo dos Anjos Beirão deu uma estimulante mãozinha. Aqui vivem, convivem, rezam e descansam, depois de uma vida totalmente dedicada à causa da evangelização por esse mundo fora, com uma riqueza diversificada de experiências e saberes acumulados que impressiona e testemunham.
E já agora, fazendo jus ao título deste texto e porque o vagar faz colheres, a magicação arrasta dúvidas existenciais, a cultura é a alma de um povo e define a sua identidade, cada novo Ano sempre vem espevitar a chama dormente de tais vícios e virtudes, por tudo isso e o mais que for, o leitor saber-me-á esclarecer, provando, se o Adufe e o Triquilitraque não seriam bem melhor entretenimento para Putin, Trump e quejandos? E se os ucranianos encomendassem aos monçanenses uma Coca para ser enviada aos amigos russos com sistemas avançados de guiamento, controlo e ação, não dariam estes às de vila-diogo só em ver aqueles afiados dentes e abismal boqueirão, aquela hercúlea força e tremebunda ferocidade, aquela propulsora e retalhadora cauda? Tais perguntas não são toleima, são muito pertinentes e pedagógicas. Fazem pensar e pensar dá uma trabalheira dos diabos. Trazem no ventre uma pitadinha daquela dúvida metódica de René Descartes e fogem ao teor de tantos escritos, discursos, debates, certezas, perceções, pios parenéticos e tontas pieguices de quem, dia e noite, noite e dia, só fala e escreve sobre guerra e belicistas, deprimindo quem lê ou escuta. Só avivam o que já Plutarco dizia antes de Cristo e Thomas Hobbes assumiu no seu livro Leviatã, no século XVII: “O homem é lobo do outro homem”. De supremo valor e alcance, estas perguntas até fazem rir, e “Rir é muito sério, muito útil, muito revelador, muito libertador, muito estimulante”, escreveu Miguel Esteves Cardoso ao assinalar a morte de Tom Stoppard cujo “público adorava as peças dele porque era impossível não adorar: faziam rir, faziam pensar, davam vontade de escrever e de viver. Comoviam, apetecia encená-las”.
Se, para responder a tais perguntas, o leitor precisar de pedir conselho à Meta ou à Inteligência Artificial, tenha cuidado. Elas sabem muito, a sua ciência está muito para além dos nossos oásis e arredores da sabedoria. E se reclamam forte pedalada a quem preza o conhecimento e quer viver a tempo o seu próprio tempo, também exigem olho fino e pé ligeiro no discernimento da verdade e da mentira destas e doutras coisas, pois só a verdade nos libertará!...


D. Antonino Dias
Caminha, 02/01/2026





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