sábado, 5 de abril de 2025

A CONSCIÊNCIA BEM FORMADA DEFENDE A VIDA


Em 21 de março, e aproximando-se o dia 5 de abril, publiquei um texto sobre o “Dia Internacional da Consciência”, tendo, como pretexto, Aristides de Sousa Mendes, “o homem perito em humanidade, justo entre as nações”. Fiz referência ao desejo do “Comité do Dia da Consciência”, que era o de a carta que o Papa Francisco dirigiu, em 10 de fevereiro, aos Bispos dos Estados Unidos servir de pano de fundo para esta semana em que, a 5 de abril, por decisão das Nações Unidas, se celebra o “Dia Internacional da Consciência”.
Hoje, embora já tivesse escrito algumas vezes sobre o assunto, venho reiterar o que também reclama uma persistente formação da consciência: o respeito pela vida. “Avida é sempre um bem” (EV31). Francisco lembra que “cada vida humana, única e irrepetível, é válida por si mesma, constitui um valor inestimável. Isto deve ser proclamado sempre de novo, com a coragem da palavra e das obras. Isto exige solidariedade e amor fraterno pela grande família humana e por cada um dos seus membros.”
Como sabemos, não basta estar no papel, pois também a Constituição portuguesa proclama que “a vida humana é inviolável”, que “em caso algum haverá pena de morte”, que “a integridade moral e física das pessoas é inviolável”, que “ninguém pode ser submetido a tortura, nem a tratos ou penas cruéis, degradantes ou desumanos” (Artigos 24º e 25º) e a realidade é o que é...
A Assembleia Geral da Pontifícia Academia para a Vida, constituída por cientistas, professores, especialistas em ética e medicina, leigos e religiosos, publicou uma Declaração que levou vários anos a produzir com a consulta a diversos peritos na matéria e aprovada pelo Papa Francisco em 2024. Aí, falando de várias e gravíssimas formas de violação da dignidade e da vida do ser humano, como homicídio, genocídio, aborto, eutanásia e suicídio assistido, pena de morte, mutilações, torturas infligidas ao corpo e à mente, constrições psicológicas, condições de vida sub-humana, encarceramentos arbitrários, deportações, escravidão, prostituição, comércio de mulheres e de jovens, ignominiosas condições de trabalho, encarcerados em condições indignas, descarte de idosos e de pessoas com deficiência, abusos sexuais, inseminação artificial, maternidade por substituição, guerra, crianças e adolescentes-soldado, terrorismo, violência digital, ideologia de género, abandono dos pobres, rejeição dos emigrantes..., aí se afirma que tudo isso é um “sinal eloquente de uma perigosíssima crise do senso moral, que se torna sempre mais incapaz de distinguir entre o bem e o mal”. E reafirma que perante tão grave situação, “é preciso mais que nunca ter a coragem de encarar a verdade e de chamar as coisas pelo seu nome, sem ceder a compromissos de comodidade ou à tentação do autoengano.” (Dignitas infinita, 47).
Também o Documento Final da última Assembleia Sinodal reafirma que “o empenho pela defesa da vida e dos direitos da pessoa (...) fazem parte da missão evangelizadora que a Igreja é chamada a viver e encarnar na história” (n.º 151), sendo necessário “desenvolver uma cultura capaz de profecia crítica face ao pensamento dominante e, assim, oferecer um contributo peculiar na procura de respostas a muitos dos desafios que as sociedades contemporâneas devem enfrentar e na construção do bem comum” (n.º 47). A ambiguidade da terminologia usada por quem se faz defensor desses atropelos à dignidade da pessoa humana, é só para convencer a opinião pública de que tudo é fruto do progresso e do bem-estar social. São João Paulo II disse que talvez esse “fenómeno linguístico seja sintoma de um mal estar das consciências” (EV58).
Presumo que já o profeta Isaías teria deitado as mãos à cabeça quando denunciava o que constatava: “Ai dos que ao mal chamam bem e ao bem mal, dos que transformam as trevas em luz e a luz em trevas” (Is 5, 20). Esta coisa de, quase sempre por afirmação ideológica, ou não, por ignorância, ou não, por qualquer outra razão culpável, ou não, se meter os pés pelas mãos e confundir o bem com o mal e o mal com o bem, torna urgente e obriga a investir na formação das consciências, levando a cultivar e a “considerar a qualidade ética e espiritual da vida em todas as suas fases. Existe uma vida humana concebida, uma vida em gestação, uma vida vinda à luz, uma vida menina, uma vida adolescente, uma vida adulta, uma vida envelhecida e consumada - e existe a vida eterna”, diz Francisco.
As comunidades cristãs não podem estar alheias a estas problemáticas, nem a boa pastoral e os seus promotores a podem dispensar ou silenciar.

D. Antonino Dias- Bispo Diocesano
Portalegre-Castelo Branco, 04-04-2025.

sexta-feira, 4 de abril de 2025

Quem ama sofre



Sim, eu sei que já sabias, mas reflete novamente e pensa assim: SÓ quem ama é que sofre. Esta mudança de palavra parece que clarifica muita coisa. O amor é algo maravilhoso pois potencia o que de melhor temos, abre horizontes e faz “borboletas na barriga”. Por outro lado, quem ama preocupa-se, cuida, protege e tem tendência para tomar como sua a dor dos outros. Seja o amor aos pais, aos filhos, aos companheiros(as), aos amigos, quando é genuíno às vezes traz muito sofrimento.

Tive a oportunidade de refletir mais um pouco sobre isso num momento de oração em se falou da Paixão=amor de Cristo e como isso está tão presente no nosso dia a dia. Fazemos imensas analogias à cruz como símbolo de dor e morte, mas na verdade ela representa a vida na sua forma mais intensa. Quando amamos e vivemos intensamente as nossas relações, sejam de que espécie forem, carregamos o medo de perder o que isso nos dá. Carregamos o medo, do sofrimento do outro. Carregamos o medo de injustiças ou de traições. Carregamos, mas não desistimos de dar mais um e mais um passo. Neste caminho de amor encontramos tanta gente boa que nos tranquiliza, que nos toma no colo, que nos limpa as lágrimas. No caminho encontramos traidores, gente que nos humilha, que nos olha com escárnio e desdém, às vezes só porque…estamos no lugar errado e na hora errada.

Mas quando amamos vale a pena o risco! Vale a pena saber que iremos ter medos e sofrimentos mas que isso significa que somos matéria espiritual, é isso que nos recorda o que verdadeiramente somos.

Só quem ama é que sofre, mas a vida não se resume ao nível de sofrimento, mas ao tamanho do amor.

Não tenhas medo de amar só porque podes sofrer.

Pensa no que podes perder se optares por não amar.

E tu amiga, o que tens sofrido por amor?


Raquel Rodrigues




quinta-feira, 3 de abril de 2025

De tempestade em tempestade




A nossa existência é semelhante a uma longa viagem através de mares muitas vezes revoltos. Brisas suaves e ventos fortes alternam-se. Embora quase nunca consigamos prever quando acaba o que está e chega o que virá.

Esperamos a paz no meio da tormenta, mas quase nunca nos damos conta de que os tempos de bonança também acabam, mais cedo ou mais tarde.

Navegar por entre tempestades exige que levemos pouco connosco, para que não percamos muito e nos julguemos perdidos por causa disso. Tudo passa, o que mais importa saber é o que resta no final de cada capítulo.

Devíamos valorizar sempre quem fica connosco nos piores momentos, aqueles que não nos abandonam quando caímos, que nos ajudam a ficar de pé e a sair dos temporais. Quase todos afastam-se com subtileza depois, afinal, como não são necessários, nem precisam do nosso agradecimento, ou vão ajudar outros ou… voltam (tantas vezes sozinhos) às tempestades das suas vidas.

Alcançar a felicidade exige arriscar o fracasso, mas muitos preferem não tentar. Por outro lado, outros, com fé, conhecem a certeza de que não há comparação entre o que se perde por fracassar e aquilo que se perde por não tentar.

Muitas vezes, as tempestades estão dentro de nós e é a nossa alma que é chamada a sobreviver ao que não temos vontade de lhe fazer… mas fazemos.

Mas a alma, como o amor, resiste a tudo, pode até nem se reconhecer depois de ter passado a tempestade, chega até a não se lembrar do que se passou, por vezes nem sequer está segura de que já seja tempo de paz… No entanto, há algo de muito valioso em qualquer tempestade: confere sentido à nossa vida, aperfeiçoam-nos, ainda que julguemos que é tudo ao contrário disso.

Amar faz de nós melhores. Sempre.

O amor tem a leveza da brisa e a força da tempestade. Dá-nos conforto no meio da tormenta e mantém-nos longe da desgraça face às mudanças violentas.

Tudo passa, só o amor é que não tem fim!


José Luís Nunes Martins



quarta-feira, 2 de abril de 2025

A formiga e o elefante



A reflexão de hoje incide sobre algo que me intriga, que é nem mais nem menos, que a incrível capacidade que algumas pessoas têm de ver a "formiga" no nariz do outro assim como a incrível incapacidade de ver o "elefante" no seu.
E na maioria das vezes é flagrante!

Como é fácil apontar o dedo, julgar, olhar sobranceiro. Como é fácil dizer "se fosse eu fazia assim". Esquecemo-nos é que o outro é isso mesmo - OUTRO (com ser, estar, fazer, viver, experienciar diferente) e que isso muda tudo!

Temos também o dom de esquecermos rápido situações desconfortáveis, pelas quais passamos e que acarretaram tantas vezes sofrimento e deixamos para trás a empatia quando não é connosco.

Olhar para mim primeiro, olhar para o outro depois com olhos mais justos.

Lembro-me muitas vezes de algo que li algures que seria dentro disto "quem está sujo não é, muitas vezes, o lençol da vizinha e sim o vidro da minha janela".

Vamos lá tentar fazer diferente (uma proposta para este tempo de quaresma), porque não?



Lucília Miranda

terça-feira, 1 de abril de 2025

«Senhor, Bom Pai…»





Senhor, Bom Pai…

é o ressentimento que me faz cair no desespero de uma vida perdida…

Aquela mágoa, porque ouvi palavras que não gostei…

Aquela tristeza que se apodera do meu peito, quando não sou reconhecida…

Aquelas trevas que me cegam com um ciúme desmedido…

Aquele pão que partilho, mas não sacia nem tem sabor…

Mas…

Eis que uma forte Esperança invade o meu pensamento.

No fundo do meu coração ecoa uma voz pura:

“‘Pai, pequei contra o Céu e contra ti. Já não mereço ser chamado teu filho.”


Pai Misericordioso,

ajoelho-me perante o Teu altar e peço-Te que me aceites como sou…

orgulhoso e sem esperança

invejoso e sem caridade

prepotente e sem fé

avarento e sem alegria

preguiçoso e sem coragem

ansioso e sem luz

enraivecido e sem amor


Sei que, SEMPRE, me esperas com os braços abertos,

com um banquete requintado,

com a luz da reconciliação acesa,

com o fermento da Tua justiça,

com a alegria da Paz,

com todo o Teu amor…


És Tu quem me quer mais do que eu me quero a mim!

És Tu quem tiras o pecado do mundo!

És Tu quem está sempre presente!


Pai, pequei contra ti…

Vem… vem instar comigo,

hoje e sempre…

para que eu leve Jesus a Todos e Todos a Jesus,

num desassossego sem fim,

onde só mora a minha alegria pelo meu irmão que volta para Ti…

e eu serei o Peregrino de Esperança,

o bom e fiel herdeiro de tudo o que é Teu!



Liliana Dinis