quarta-feira, 26 de agosto de 2026

O lugar onde os sonhos assentam os pés

 


O lugar onde os sonhos assentam os pés


Às vezes esquecemo-nos do que é ser criança. Escrevemos palavras grandes, erguemos muros de certezas, vestimos preconceitos antigos e esquecemo-nos de olhar para o chão, onde a vida verdadeiramente acontece.
E lá em baixo, ao nível dos olhos de quem está a começar, o mundo é simples.
Quando uma criança cigana corre, ri ou olha para o céu, não está a carregar o peso do passado nem os rótulos de quem a vê passar. Está apenas a viver. Traz no olhar a mesma sede de descobrir o mundo, a mesma fome de futuro e o mesmo direito sagrado de ser feliz que qualquer outra criança.
Mas a infância não se protege sozinha.
Esta responsabilidade não é de "uns" nem de "outros". É de todos nós. Compete à comunidade cigana e à sociedade civil, sem dedos apontados, sem julgamentos fáceis, de peito aberto. Se nos despirmos do ruído e nos focarmos no que é verdadeiramente essencial, percebemos que o futuro de uma criança é a medida da nossa própria humanidade.
Cuidar delas, abrir caminhos, garantir que têm espaço para aprender, sonhar e voar em igualdade, não é um favor. É o compromisso mais bonito que podemos assumir enquanto pessoas.
Acredito profundamente que é no encontro, no respeito e na coragem de dar a mão que nos salvamos a nós próprios. Porque quando garantimos que o mundo é um lugar seguro e justo para uma criança, o mundo torna-se, finalmente, um lugar melhor para todos.
Afinal, a infância devia ser sempre esse lugar onde o amor não pede licença e os sonhos têm onde pousar.

Padre João Torres

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