Os textos que a liturgia do trigésimo segundo Domingo do Tempo Comum nos convida a escutar contêm um veemente apelo à vigilância. Recordam-nos que a segunda vinda de Jesus está no horizonte final da história humana. De olhar fixo nesse horizonte, caminhamos pela vida atentos ao Senhor que vem, com o coração sempre preparado para O acolher.
Na primeira leitura um “sábio” de Israel apresenta-nos a “sabedoria”, dom gratuito e incondicional de Deus oferecido aos homens para os ajudar a encontrar os caminhos que conduzem à vida verdadeira. A iniciativa de Deus resulta do seu amor infinito, da sua eterna preocupação com o bem e a felicidade dos seus queridos filhos. Ao ser humano resta estar atento, vigilante e disponível para acolher, a cada instante, a vida e a salvação que Deus lhe oferece. A “visão” que a catequese de Israel propõe no seu discurso sobre a sabedoria, dom de Deus ao homem, vai no sentido oposto: o interesse de Deus não é escravizar-nos, controlar-nos e limitar-nos, mas sim ajudar-nos a perceber como dar sentido pleno à nossa vida. Deus não é e nunca será nosso adversário; mas é e será sempre um Pai que nos ama e que só pretende o nosso bem. Como “lemos” a relação que Deus tem connosco? Vemos Deus como alguém que nos condiciona e que nos impede de fazer o que pretendemos, ou como um Pai que nos ama infinitamente e que nos ajuda a fazer as escolhas que nos levam à vida verdadeira?
No Evangelho, Jesus, poucas horas antes de morrer na cruz, pede aos seus discípulos que permaneçam atentos e vigilantes, comprometidos a cada instante com os valores do reino de Deus. Viver distraído, não definir corretamente as prioridades, correr atrás de valores efémeros, atuar de maneira irresponsável ou negligente, instalar-se no imobilismo, poderá significar passar ao lado de algo imperdível, construir a vida sobre a areia, falhar completamente o sentido da existência.A reflexão que nos é proposta por Mateus refere-se primordialmente ao nosso encontro final com Jesus. Contudo, sabemos que Jesus vem ao nosso encontro muitas vezes e de muitas formas. Compete-nos perceber os sinais da sua presença, escutar a sua voz, reconhecer o seu rosto, acolher os seus apelos, abraçar os seus desafios… Ele vem certamente ao nosso encontro na Palavra de Deus que escutamos nas nossas celebrações eucarísticas; mas Ele também vem ao nosso encontro na indignação das vítimas das injustiça, no olhar dolorido de uma criança com fome, no pedido de auxílio de um imigrante sem papéis, na tristeza de um velho sem família e sem amor, no sofrimento de um doente terminal, no grito silencioso de um pobre abandonado na berma da estrada, nas lágrimas de uma mulher vítima de violência, na revolta do “condenado” que exige ser respeitado na sua dignidade… Conseguimos reconhecê-l’O? Somos capazes de escutar os seus apelos? Dispomo-nos a acolhê-l’O?
Na segunda leitura, o apóstolo Paulo garante aos cristãos de Tessalónica que Jesus virá de novo para concluir a história humana e para inaugurar a realidade do mundo definitivo. Os tessalonicenses podem estar tranquilos e viver confiantes: todo aquele que tiver aderido a Jesus e se tiver identificado com Ele irá ao seu encontro e permanecerá com Ele para sempre. A certeza de estar destinado à ressurreição influenciou decididamente a forma como Paulo via a vida. Deu-lhe forças para viver a sua fé e a missão que lhe foi confiada; levou-o a relativizar determinadas coisas e a dar mais peso a outras; ajudou-o a enfrentar a vida com esperança. Ter sempre diante dos olhos a vida futura transformou a nossa capacidade do apóstolo de encarar e viver a vida presente. Sentimos isso, também nós? Que influência tem a certeza da ressurreição na forma como encaramos a vida? Ajuda-nos a ter um olhar de esperança sobre o presente? A certeza da ressurreição condiciona a nossa forma de estar, de atuar, de ver o mundo, de ver os irmãos que caminham ao nosso lado nos caminhos do mundo e da história?
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