segunda-feira, 31 de outubro de 2022
Cabem todos/as!
Cabem todos/as. É este o grande ensinamento de Jesus. É que n'Ele e no Pai cabem todos/as. Não há divisões. Não classificações. Não há critérios de seleção. Em Jesus e por Jesus existem pessoas que na sua inteireza fazem caminho de busca e de encontro.
Cabem todos/as. Jesus não deixou dúvidas nisto. Passou por várias cidades. Derrubou distâncias (literalmente e metaforicamente). Criou pontes entre os diferentes judeus. Entre as diferentes classes sociais. Sentou-se com pecadores/as e santos/as. Ergueu os mais últimos/as do Seu tempo. Realizou milagres para todos/as que o interpelavam com fé. Escreveu, com a Sua vida, esta certeza: cabem todos/as.
Cabem todos/as. E se todos/as sabemos disto porque ateimamos em cair no julgamento? Porque continuamos a insistir que para se ser de Jesus e à Jesus temos de criar discriminações? Onde está a minha capacidade de abraçar os/as que andam perdidos/as? Onde está a minha capacidade de acolher os/as que se revoltaram, por diversas razões, contra a Igreja? Onde está a minha capacidade de sentir a dor dos/as que não têm resposta para tantas situações das suas vidas? Onde está a minha capacidade de integrar todo o tipo de pobres? Onde está a minha capacidade de empatizar com a diferença?
Cabem todos/as. Com mais ou menos pecados. Com mais ou menos conhecimento da Palavra. Com mais ou menos rituais. Cabem todos/as os/as que O querem. Cabem todos/as os/as que O buscam. Cabem todos/as que questionam a Sua existência. Cabem todos/as os/as que O testemunham, sem saber, através dos seus atos. Cabem todos/as que O procuram de coração sincero. Cabem todos/as que encontram nas Suas palavras a água viva capaz de saciar as suas sedes.
Cabem todos/as. É o que Jesus nos oferece e nos convida a ter consciência, por isso pergunto-te: o que irás fazer com esta novidade?
Emanuel António Dias
domingo, 30 de outubro de 2022
Semana dos Seminários 2022
A Igreja celebra este ano a Semana de Oração pelos Seminários entre 30 de Outubro e 6 de Novembro. E, precisamente na semana em que celebramos a santidade como vocação própria e acessível a homens e mulheres de todos os tempos, a Igreja vai buscar o lema desta ‘semana de oração pelos Seminários’ ao apelo encorajador que S. Paulo faz a Timóteo “Não te envergonhes de dar testemunho de Cristo” (2 Tim 1, 8 ). Ou santos ou nada, poderíamos resumir. E assim iniciaríamos um caminho em que a luz de Deus ilumina, entusiasma, purifica, fortalece, ensina, corrige, confirma, congrega, inspira, alegra, envia, abençoa.
É um desafio chegar ao presente texto de S. Paulo deixando-nos guiar pelos versículos que o antecedem e que, partindo do convite a reavivar permanentemente o dom de Deus que está em nós, nos lembra que ‘Deus não nos deu um espírito de timidez (‘cobardia’ talvez traduzisse melhor o que Paulo quer dizer), mas de fortaleza, caridade e temperança’ (2 Tim 1, 6-7).
‘Não ter vergonha de Jesus’ é uma expressão que nos habituámos a ver em S. Paulo. Porquê? A fé pobre, a superficialidade da atitude crente e relacional com Cristo, o medo não resolvido e a estagnar a vida, a confiança em Deus e na sua Palavra dividida com a auto-referencialidade, o perfeccionismo a suplantar a pedagogia do esforço/trabalho e a gradualidade do caminho, o culto da aparência a suspender a busca e concretização de um ideal … e outras insuficiências, promovem tibieza e acabam por ser os grandes motores da vergonha. Dando-lhes o coração perde-se a coragem evangélica. A vergonha suplanta-a.
Não se envergonhar do Evangelho é luta, é escuta da Palavra e do Espírito de Deus, é fé acesa, é discernimento, é purificação, é oração, é acolhimento da Graça, é confronto e deixar-se confrontar, é comunhão, é caminho, é verdade, é entrega, é fidelidade. Nada do que é humano é estranho a Deus. E há caminho a fazer. Parar por vergonha!? E o sentido da vida!? Nada vale a hipoteca do sentido da vida. E muito menos a vergonha.
Esta Semana quer colocar-nos a rezar pelos Seminários, que o mesmo é dizer pelos Seminaristas. Os Seminários são o tempo e o espaço, o tempo e o modo em que cada Seminarista diz a Deus ‘Eis-me aqui’ e faz o caminho da sua vocação, o tempo e o espaço, o tempo e o modo do discipulado, do crescimento, da conversão, da configuração a crescer até à estatura de Cristo. Sempre em Igreja. Inquietos e inquietados por Deus, dizendo-Lhe o “sim” de cada momento, para experimentar o que Ele quiser revelar a seguir.
Esta Semana rezamos pelos Seminários. Todos. E lembramos, de modo, particular os nossos dois Seminaristas, o Gonçalo e o Diogo. E os seus Formadores.
Coordenada pelo Secretariado da Pastoral da Juventude e Vocações, faremos Vigília de Oração diocesana na Igreja de Alferrarede no pf dia 5 de novembro, sábado, às 20h00. Presidirá o nosso Bispo, D. Antonino Dias.
Na oração das nossas Comunidades, na nossa oração pessoal, em vigília, na Eucaristia, diante do Santíssimo Sacramento, aos pés da Virgem Mãe e no Terço rezemos pelos nossos Seminaristas e peçamos ao Céu que muitos outros jovens nunca se envergonhem de uma vida dada, com sentido e alegria, a Deus e aos outros na Igreja.
Emanuel Matos Silva p.
Seminário de Portalegre
O amor de Deus
A liturgia deste domingo convida-nos a contemplar o quadro do amor de Deus. Apresenta-nos um Deus que ama todos os seus filhos sem excluir ninguém, nem sequer os pecadores, os maus, os marginais, os "impuros"; e mostra como só o amor é transformador e revivificador.
Na primeira leitura um "sábio" de Israel explica a "moderação" com que Deus tratou os opressores egípcios. Essa moderação explica-se por uma lógica de amor: esse Deus omnipotente, que criou tudo, ama com amor de Pai cada ser que saiu das suas mãos - mesmo os opressores, mesmo os egípcios - porque todos são seus filhos. Muitas vezes, percebemos certos males que nos incomodam como "castigos" de Deus pelo nosso mau proceder. No entanto, este texto deixa claro que Deus não está interessado em castigar os pecadores... Quando muito, procura fazer-nos perceber - com a pedagogia de um pai cheio de amor - o sem sentido de certas opções e o mal que nos fazem certos caminhos que escolhemos.
O Evangelho apresenta a história de um homem pecador, marginalizado e desprezado pelos seus concidadãos, que se encontrou com Jesus e descobriu n'Ele o rosto do Deus que ama... Convidado a sentar-se à mesa do "Reino", esse homem egoísta e mau deixou-se transformar pelo amor de Deus e tornou-se um homem generoso, capaz de partilhar os seus bens e de se comover com a sorte dos pobres. Testemunhar o Deus que ama e que acolhe todos os homens não significa, contudo, branquear o pecado e pactuar com o que está errado. O pecado gera ódio, egoísmo, injustiça, opressão, mentira, sofrimento; é mau e deve ser combatido e vencido. No entanto, distingamos entre pecador e pecado: Deus convida-nos a amar todos os homens e mulheres, inclusive os pecadores; mas chama-nos a combater o pecado que desfeia o mundo e que destrói a felicidade do homem.
A segunda leitura faz referência ao amor de Deus, pondo em relevo o seu papel na salvação do homem (é d'Ele que parte o chamamento inicial à salvação; Ele acompanha com amor a caminhada diária do homem; Ele dá-lhe, no final da caminhada, a vida plena)... Além disso, avisa os crentes para que não se deixem manipular por fantasias de fanáticos que aparecem, por vezes, a perturbar o caminho normal do cristão.
No nosso caminho pessoal ou comunitário, rumo à salvação, Deus está sempre no princípio, no meio e no fim. É preciso reconhecer que é Ele quem está por detrás do chamamento que nos foi feito, que é Ele quem anima e dá forças ao longo da caminhada, que é Ele quem nos espera no final do caminho, para nos dar a vida plena. Tenho consciência desta centralidade de Deus? Tenho consciência de que a salvação não é uma conquista minha, mas um dom de Deus?
https://www.dehonianos.org/
sábado, 29 de outubro de 2022
Idealizações, expectativas e realidade
As três palavras fazem parte da nossa vida. Nenhuma delas será pouco saudável quando olhada com conta, peso e medida. O problema mora no facto de não sabermos, sempre, equilibrar todas e distingui-las umas das outras.
As idealizações permitem-nos ter sonhos, imaginar uma casa, uma vida que gostaríamos de ter. As expectativas permitem-nos ter esperança, semeiam cá dentro uma espécie de querer que quase rima com conseguir. E a realidade é o que temos a cada dia e o que nos vai sendo dado (ou permitido) viver.
O problema é quando idealizamos o que não depende de nós. Idealizamos o comportamento de uma pessoa, as suas atitudes, aquilo que gostávamos que nos desse… e adequamos, erradamente, as expectativas correspondentes. O perigo é muito claro: quando idealizamos o que não está no nosso controlo corremos o risco de criar uma realidade que nunca será viável, ou possível. Quando criamos expectativas que só existem na nossa cabeça e não rimam com nenhuma ponta da realidade, estamos a desenhar uma alternativa que pode nunca se concretizar.
Então, o que nos sobra? Viver em tons de cinzento uma realidade, tantas vezes, difícil?
Sim. Mas ninguém nos obrigada a aceitar o cinzento. Podemos escolher um azul ou um vermelho. Ou ser audazes e arriscar um branco quase contrário ao que todos querem e esperam. A realidade não tem de ser olhada de forma conformada, tristonha e pouco esperançosa. O que não podemos é viver enganados.
Com esperança, mas com os pés no chão.
Com ânimo, mas sem positividade tóxica.
Com tristeza, quando for para a sentir.
Com coragem, mas sem acreditar que podemos tudo, sempre.
Com alegria, mas sem deixar de sentir comoção pelas misérias alheias.
Com cabeça, mas a dar espaço para a alma.
De braços abertos e com os pés a caminho.
Um dia de cada vez.
Marta Arrais
sexta-feira, 28 de outubro de 2022
VIVER É PERIGOSO, PODE-SE MORRER!...
Ria-se, ria-se, mas sobretudo sorria. O riso ouve-se, faz barulho, dispõe bem, é saudável. O sorriso é diferente, não se ouve, vê-se, nasce de dentro, não faz barulho, se não for o de escarninho, é fruto do Espírito, é dom. Talvez fazendo rir e sorrir, e porque as datas se aproximam, quero recordar aqueles que, tendo experimentado a perigosidade da vida, já se foram, pilhados pela morte! Uns, duma maneira mais hábil, peregrinaram na direção certa ao encontro da Vida. Outros, seguindo embora a boa direção, é possível que se tenham metido por alguns atalhos, por trilho de cabras ou becos ensarilhados, atrasando-se na chegada à meta, mas lá chegarão. Sobre os que preferiram a direção oposta, não sei falar, muito menos julgar, mas acredito na misericórdia divina. É certo que, neste mundo, os caminhos são muitos e diversos para chegar a metas predefinidas, mas quando se perde a direção, é mesmo o cabo dos trabalhos. José Almada Negreiros escreveu que a direção única “não é assim uma coisa tão recente como toda a gente o pode imaginar à primeira vista. Muitíssimo antes de haver automóveis, carruagens e carroças, muitíssimo antes mesmo de ter sido inventada a própria roda, já havia no mundo a direção única. Ela data já daquele dia memorável em que Deus, depois de ter criado o Mundo, deu a alternativa ao Homem. Mas entre Deus e o Homem há uma diferença dos diabos. Entregou Deus ao Homem o nosso planeta inteirinho, com todas as suas maravilhas, com todo o esplendor de todas as suas múltiplas fortunas, e ao confiar-lhe desta maneira todas as riquezas da terra, disse-lhe: - Toma para ti, tudo isto tem uma direção única. E levou ao máximo a sua lealdade de Deus para com o Homem, avisando-o como bom e verdadeiro amigo, de que havia também direções proibidas e, por conseguinte, que tivesse muito cuidadinho com elas”. Para que o leitor passe uns momentos agradáveis, convido-o a ler, ou a reler, esta Conferência que Almada Negreiros fez em 1932 no Teatro Nacional de Almeida Garrett, hoje D. Maria II. Basta buscá-la na net, rir-se-á sozinho, com proveito.
Proponho que ao recordar os que já partiram, ninguém se embrulhe em cara de funeral, de vinagre ou de Sexta-Feira Santa. Com saudades e a consolação das lágrimas, sim, mas sobretudo com a esperança e a alegria dos Santos, com a alegria da Ressurreição. Para lhes aguçar ainda mais o apetite, passo de novo a palavra a esse artista e “apolítico voluntário” que falou assim àquele auditório mui atento: “Fomos instados pelas mais cavalheirescas pessoas da nossa terra para que trouxéssemos aqui à nossa gente alegria a rodos, coragem aos potes, tanks de felicidade, transatlânticos de entusiasmo, e a nossa resposta foi esta: Alegria sim. Faremos todo o possível. Mas que não confundam a alegria com o riso. O riso é a expressão das caveiras. E a alegria é para os vivos a coisa mais séria da vida! Alegria é saber muito bem por onde se vai, é ter a certeza de que o caminho é o bom, que a direção é a única”.
Há quem tenha o descoco de dizer que esta única direção é insonsa e não a melhor. Há quem diga que lhe falta isto, aquilo e não sei mais o quê, talvez orégãos, coentros, alecrim e beldroegas, talvez... Há quem tenha tanto, ou até tudo, mas esse tudo, ou tanto, só lhe serve para se desviar da rota. Adão e Eva, apesar de terem tudo, também “quiseram mais do que ter tudo”. E “foram-se pelas direções proibidas”. E se tudo se estrangalhou, também se foi “por água abaixo a primeira colaboração que se fazia no mundo”. “Palavra de honra que até parece que eram portugueses!”, diz Negreiros. De facto, desde que o rei D. Dinis, para se defender dos vermes e doutra bicharada, se lembrou de levar consigo, para o túmulo, a espada guerreira, Portugal, apesar dos defensores da lei e da grei, apesar da retórica esbraseada lá pelos Passos Perdidos, Portugal tornou-se um baldas! Mas cuidem-se, acabaram de esgaravatar e de escabichar, descobriram a espada. Se faltava a espada, já não falta tudo, arreados com ela, isto agora vai mudar! Vai mesmo mudar? Bem, Camilo C. Branco diria que, de facto, sabendo o que sabe “a ciência não autoriza isto; mas a ciência não sabe os segredos de Deus”. Os milagres acontecem!
Num III Domingo de Advento, lá para as bandas do Rato, Tolentino Mendonça também dizia que o que exaspera a nossa vida é o sentimento de falta, falta-nos sempre alguma coisa: “se temos o poço, falta-nos a corda; se temos a corda, falta-nos o balde; se temos a corda, o balde e o poço, falta-nos a força de ir até ao fundo da nascente buscar a água que nos dessedente. Falta-nos sempre alguma coisa”. No entanto, se pensarmos bem, não nos falta nada, cada um de nós “tem tudo o que precisa para experimentar hoje, no aqui e no agora, a alegria”. Mais do que das circunstâncias, a verdadeira alegria depende do modo de olhar. Importante é “olharmos para a vida, olharmos para o que somos, olharmos para o que nos rodeia de uma outra forma, com um coração agradecido, com um coração capaz de perceber aquilo que o habita”. A alegria “não é uma coisa externa a nós nem é uma invenção que cada um de nós é capaz de fazer: a alegria, antes de tudo, é um dom, um dom que nós recebemos. É porque o Espírito nos habita que nós somos capazes da alegria. É porque esse dom de Deus é derramado em nós e nos dá uma capacidade que nós não temos! Mas é essa capacidade de Deus em nós e é na medida em que nós reconhecemos o dom de Deus na nossa vida, em que reconhecemos aquilo ou Aquele alguém que já está no meio de nós, que nós somos capazes da alegria”.
Já o profeta Sofonias havia escrito: “O Senhor, teu Deus, está no meio de ti como poderoso salvador! Ele exulta de alegria por tua causa, pelo seu amor te renovará. Ele dança e grita de alegria por tua causa” (3,17). Jesus veio para que a sua alegria estivesse em nós e a nossa alegria fosse completa (cf. Jo 15,9-17).
Vivamos os dias de Todos os Santos e dos Fiéis Defuntos com alegria e gratidão. Agradeçamos o testemunho dos Santos, também dos de ao pé da porta. Rezemos pelos Fiéis Defuntos e verifiquemos se, de facto, o GPS da nossa vida estará a indicar a direção certa. Escolher a direção única pelos caminhos da vida é um desafio constante, até porque, como escreveu Guimarães Rosa no “Grande Sertão: Veredas”, viver é perigoso, pode-se morrer!... Jesus, porém, disse-nos: “Eu sou a ressurreição e a vida. Quem acredita em Mim, ainda que tenha morrido, viverá; e todo aquele que vive e acredita em Mim não morrerá para sempre” (Jo 11, 26).
D. Antonino Dias - Bispo Diocesano
Portalegre-castelo-Branco, 28-10-2022.
quinta-feira, 27 de outubro de 2022
Que a minha vida seja amor
O amor não é uma emoção, não resulta de algo estranho a mim, não tem origem numa seta de um qualquer cupido que me atinge e submete. O amor não é um sentimento, é um compromisso.
Amar é decidir seguir um caminho de abnegação e muito trabalho.
Lutar contra o egoísmo natural que existe em mim terá de ser sempre uma resolução firme.
Amar implica abdicar de muitos sonhos de excelência num campo da nossa existência, para alcançar a felicidade única de uma vida equilibrada. Ser excelente não é ser feliz. Até porque os cumes mais disputados deste mundo alcançam-se sempre e só de forma solitária.
Prefiro ser alguém que alguns consideram vulgar, mas ser feliz e ter uma vida harmoniosa, do que conquistar o que tantos invejam entregando a minha paz em troca.
O vazio de andar sempre ao sabor das emoções que acontecem, como se fosse uma vítima das circunstâncias, ou sonhar, construir e percorrer um caminho difícil com alguém para quem quero a felicidade. Da sua chegará a minha, e mesmo que não chegue, bastará ter-me realizado enquanto homem.
O amor que nos une com verdade é partilha, delicadeza e generosidade.
Amar é uma vida difícil a que me obrigo, a fim de chegar a ser eu.
Que a minha vida seja amor. E a tua também!
José Luís Nunes Martins
quarta-feira, 26 de outubro de 2022
Deus não é...

Jesus muito mais do que um mestre era um contador de histórias. Vivia encantado com a história de um Deus que não se cansa de nos receber de braços abertos e que mesmo antes de iniciarmos o caminho de regresso a casa, já se encontra à janela pronto para correr até nós.
Jesus vivia apaixonado pelo Pai e por isso não se cansava de O apresentar. E o maior desafio que teve na Sua apresentação era demonstrar o que Deus não era. Jesus tornou todo o Seu caminho em dar a conhecer o que Deus não era.
Com Jesus percebemos que Deus não é só para alguns. Com Jesus percebemos que Deus não pede sacrifícios. Com Jesus percebemos que Deus não é moeda de troca. Com Jesus percebemos que Deus não é punitivo. Com Jesus percebemos que Deus não é ganancioso. Com Jesus percebemos que Deus não é vingativo.
Jesus demonstrou, com parábolas e palavras simples, que Deus não é a imperfeição que tantas vezes idealizamos, mas sim a perfeição que jamais conseguiremos ver na totalidade. E esta forma de estar e de apresentar Deus ao jeito de Jesus desafia-nos a questionar como apresentamos Deus aos outros.
Que Deus dás a conhecer aos outros? O Deus que tu apresentas é só para alguns? O Deus que tu apresentas responde a todas as tuas questões? O Deus que tu apresentas dá-te todas as seguranças? O Deus que tu apresentas cabe no que tu és? O Deus que tu apresentas dá-te todas as certezas?
Se a todas a estas perguntas respondeste "sim", então talvez o Deus que tu estejas a apresentar aos outros, não seja o Deus apresentado por Jesus. E porquê? Porque o Deus de Jesus dá espaço à novidade. O Deus de Jesus é eternamente jovem. O Deus de Jesus é e será sempre muito mais do que aquilo que vemos e contemplamos.
Se queremos falar e apresentar Deus aos outros temos de ter a humildade de fazer como Jesus: deixar que os nossos gestos falem de amor e de como nos sentimos amados e falar sempre no que Deus não é para que assim possamos estar mais de perto daquilo que Ele efetivamente é!
terça-feira, 25 de outubro de 2022
TESTEMUNHO DE VIDA É FUNDAMENTAL PARA A TRANSMISSÃO DA FÉ
«O testemunho de vida evangélica dos cristãos» é «fundamental» para a transmissão da fé, defende o Papa Francisco na Mensagem para o Dia Mundial das Missões 2022, que se celebrou dia 23 deste mês.
Baseando-se na frase dos Atos dos Apóstolos «Sereis minhas testemunhas», que serve de tema à Mensagem, o Santo Padre afirma que na evangelização o exemplo de vida cristã e o anúncio de Cristo «caminham juntos»: «são os dois pulmões com que deve respirar cada comunidade para ser missionária». «Este testemunho completo, coerente e jubiloso de Cristo será seguramente a força de atração para o crescimento da Igreja também no terceiro milénio», sustenta Francisco, que exorta todos a retomarem a coragem e ousadia dos primeiros cristãos, «para testemunhar Cristo, com palavras e obras, em todos os ambientes da vida».
O Papa lembra que, «tal como Cristo é o primeiro enviado, ou seja, missionário do Pai», «todo o cristão é chamado a ser missionário e testemunha de Cristo». E frisa que a identidade da Igreja passa precisamente por «evangelizar».
A propósito do envio dos discípulos, Francisco afirma que tal acontece «não só para fazer a missão» e «dar testemunho», mas «também e sobretudo para viver a missão que lhes foi confiada» e «ser testemunhas de Cristo».
Os missionários de Cristo não são enviados para mostrar qualidades, capacidades persuasivas ou dotes de gestão, mas «têm a honra sublime de oferecer Cristo, por palavras e ações», afirma Francisco, acrescentando que o amor recebido de Jesus é «a primeira motivação para evangelizar».
O Papa salienta o caráter «comunitário-eclesial» do chamamento missionário. A missão realiza-se em conjunto e em comunhão com a comunidade eclesial e não individualmente. «Ainda que alguém, numa situação muito particular, leve avante a missão evangelizadora sozinho, realiza-a e deve realizá-la sempre em comunhão com a Igreja que o enviou».
Francisco sustenta que os cristãos não fazem proselitismo e lembra as perseguições dos primeiros cristãos e as que acontecem na atualidade, levando à saída para outros países. «Estamos agradecidos a estes irmãos e irmãs que não se fecham na tribulação, mas testemunham Cristo e o amor de Deus nos países que os acolhem».
Para o Santo Padre, a presença de fiéis de nacionalidades diferentes «enriquece o rosto das paróquias, tornando-as mais universais, mais católicas». Por isso, «o cuidado pastoral dos migrantes é uma atividade missionária que não deve ser descurada» porque pode ajudar «os fiéis locais a redescobrir a alegria da fé cristã que receberam».
Até aos confins do mundo
O Papa utiliza a expressão «até aos confins do mundo» procurando interpelar «os discípulos de Jesus de cada tempo, impelindo-os sempre a ir mais além dos lugares habituais para levar o testemunho d’Ele».
Apesar das facilidades resultantes dos progressos modernos, ainda há locais aos quais «não chegaram os missionários testemunhas de Cristo com a Boa Nova do seu amor». «Por outro lado, não existe qualquer realidade humana que seja alheia à atenção dos discípulos de Cristo, na sua missão», afirma o Papa, lembrando que «a Igreja de Cristo sempre esteve, está e estará “em saída” rumo aos novos horizontes geográficos, sociais, existenciais», dando «testemunho de Cristo e do seu amor a todos».
Lembrando que a Igreja tem sempre de ir «mais além das próprias fronteiras, para testemunhar a todos o amor de Cristo», Francisco recorda os muitos missionários «que gastaram a vida para “ir mais além”, encarnando a caridade de Cristo por tantos irmãos e irmãs que encontraram», e mostra-lhes a sua gratidão.
A Mensagem para o Dia Mundial das Missões 2022 destaca a importância do Espírito Santo no anúncio de Cristo. Nenhum cristão pode «dar testemunho pleno e genuíno de Cristo Senhor sem a inspiração e a ajuda do Espírito» e «cada discípulo missionário de Cristo é chamado a reconhecer a importância fundamental da ação do Espírito, a viver com Ele no dia a dia e a receber constantemente força e inspiração d’Ele».
Importa, pois, segundo o Papa, que, quando estamos cansados, desmotivados ou perdidos, nos lembremos de «recorrer ao Espírito Santo na oração» (que «tem um papel fundamental na vida missionária»), «para nos deixarmos restaurar e fortalecer por Ele». Francisco sustenta que o Espírito Santo «é o verdadeiro protagonista da missão», uma vez que «dá a palavra certa no momento justo e sob a devida forma».
Exemplos para a vida e missão da Igreja
Francisco aproveita a Mensagem para lembrar algumas efemérides «relevantes para a vida e missão da Igreja»: a fundação, há 400 anos da Congregação de Propaganda Fide (com a designação atual de Congregação para a Evangelização dos Povos) e, há 200 anos, da Associação para a Propagação da Fé, por Pauline Jaricot. A jovem francesa pôs em movimento uma rede de oração e coleta para os missionários, para que «os fiéis pudessem participar ativamente na missão “até aos confins do mundo”». Foi esta ideia que deu origem ao Dia Mundial das Missões, cuja coleta nas comunidades «se destina ao Fundo universal com que o Papa sustenta a atividade missionária».
O Santo Padre recorda ainda o bispo francês Charles de Forbin-Janson, que começou a Obra da Santa Infância «para promover a missão entre as crianças», e Jeanne Bigard, que deu vida à Obra de São Pedro Apóstolo, que apoia os seminaristas e sacerdotes em terras de missão. Há cem anos, estas três Obras foram reconhecidas como Pontifícias.
Na Mensagem, o Papa lembra igualmente a atual Pontifícia União Missionária, fundada pelo beato Paolo Manna, para sensibilizar e animar a missão dos sacerdotes, religiosas, religiosos e todo o povo de Deus, da qual fez parte São Paulo VI.
«Espero que as Igrejas locais possam encontrar nestas Obras um instrumento seguro para alimentar o espírito missionário no Povo de Deus», afirma o Santo Padre.
segunda-feira, 24 de outubro de 2022
Papa no Angelus: onde há muito eu, há pouco Deus
"Para subir em direção a Ele é preciso descer dentro de nós mesmos: cultivar a sinceridade e a humildade de coração, que nos dão um olhar honesto sobre nossas fragilidades e pobrezas. De fato, na humildade nos tornamos capazes de levar a Deus, sem fingimentos, o que somos, os limites e as feridas, os pecados e as misérias que pesam em nosso coração, e de invocar sua misericórdia para que nos cure, nos cura e nos levante."
"Quanto mais descemos com humildade, mais Deus nos faz subir em direção ao alto."
"Subir e descer", dois verbos presentes na passagem de Lucas (Lc 18,9-14) do Evangelho da liturgia deste domingo inspiraram a reflexão do Papa Francisco antes de rezar o Angelus neste XXX Domingo do Tempo Comum. De fato, a" parábola está entre dois movimentos".
Subir, necessidade do coração de ir ao encontro do Senhor
De um lado o fariseu, "um homem religioso", e de outro o cobrador de impostos, o publicano, "um pecador declarado". Aos peregrinos reunidos na Praça São Pedro, o Papa começou explicando que os dois sobem ao templo para rezar, "mas somente o publicano eleva-se verdadeiramente a Deus, porque com humildade desce à verdade de si mesmo e apresenta-se tal como é, sem máscaras, com a sua pobreza". Ou seja, o primeiro movimento é "subir". E explica:De fato, o texto começa dizendo: "Dois homens subiram ao Templo para rezar". Este aspecto evoca tantos episódios da Bíblia, onde para encontrar o Senhor se sobe ao monte da sua presença: Abraão sobe ao monte para oferecer o sacrifício; Moisés sobe ao Sinai para receber os mandamentos; Jesus sobe ao monte, onde é transfigurado. Subir, portanto, expressa a necessidade do coração de separar-se de uma vida plana para ir ao encontro do Senhor, libertar-nos do próprio eu; de elevar-se das planícies do nosso eu para subir em direção a Deus; de recolher o que vivemos no vale para levá-lo diante do Senhor. Isso é subir, e quando nós rezamos, subimos.
Mas - observou Francisco - para viver o encontro com Deus e ser transformados pela oração, para nos elevarmos a Ele, precisamos do segundo movimento, descer:
Quanto mais descemos, mais Deus nos faz subir ao alto
Para subir em direção a Ele é preciso descer dentro de nós mesmos: cultivar a sinceridade e a humildade de coração, que nos dão um olhar honesto sobre nossas fragilidades e pobrezas interiores. De fato, na humildade nos tornamos capazes de levar a Deus, sem fingimentos, o que realmente somos, os limites e as feridas, os pecados e as misérias que pesam em nosso coração, e de invocar sua misericórdia para que nos cure, nos cure e nos levante. Será Ele a nos levantar, não nós. Quanto mais descemos com humildade, mais Deus nos faz subir em direção ao alto.
Com efeito - acrescentou - o publicano da parábola "fica humildemente à distância, não se envergonha, pede perdão e o Senhor o levanta". O fariseu, por outro lado, "se exalta, seguro de si mesmo, convencido de estar bem: de pé, começa a falar ao Senhor apenas de si mesmo, começa a louvar a si mesmo, a listar todas as boas obras religiosas que faz e despreza os outros. Diz: "Não como aquele lá":
O risco de cair na "soberba espiritual"
Por que a soberba espiritual faz isso - “Mas padre, por que nos fala sobre a soberba espiritual? - Mas todos nós corremos o perigo de cair nisto: leva-te a acreditar-te bom e a julgar os outros e isso é a soberba espiritual: "Eu estou bem, sou melhor que os outros, ele é isso, aquele é aquilo…". E assim, sem perceber, adoras a ti mesmo e apaga teu Deus. É uma subida que volta para si mesmo. Esta é a oração sem humildade.
O Papa então chamou a atenção para o fato de que "o fariseu e o publicano têm muito a ver conosco", convidando a olharmos para nós mesmos:
Onde há muito eu, há pouco Deus
Verifiquemos se em nós, como no fariseu, existe "a íntima presunção de ser justos" que nos leva a desprezar os outros. Acontece, por exemplo, quando buscamos elogios e sempre fazemos uma lista de nossos méritos e de nossas boas obras, quando nos preocupamos mais em parecer do que em ser, quando nos deixamos aprisionar pelo narcisismo e pelo exibicionismo. Vigiemos , irmãos e irmãs, nosso narcisismo e exibicionismo, baseados na vanglória, que levam também nós cristãos, nós sacerdotes, nós bispos a ter sempre uma palavra nos lábios. Qual palavra? "Eu, eu ,eu": "eu fiz isso, eu escrevi aquilo, eu havia dito, eu havia entendido antes de vocês", e assim por diante. Onde há muito eu, há pouco Deus
.Francisco recordou que em seu país, essas pessoas são chamadas de "eu-comigo-para mim-somente eu", ilustrando com o exemplo de um sacerdote que era muito "centrado em si mesmo", e para brincar, as pessoas diziam que quando ele fazia a incensação, fazia ao contrário, pois incensava a si mesmo, "se auto incensava."
Peçamos a intercessão de Maria Santíssima - disse ao concluir - a humilde serva do Senhor, imagem viva daquilo que o Senhor ama realizar, derrubando os poderosos de seus tronos e elevando os últimos.
domingo, 23 de outubro de 2022
'Meu Deus, tende compaixão de mim, que sou pecador'.
A primeira leitura define Deus como um "juiz justo", que não se deixa subornar pelas ofertas desses poderosos que praticam injustiças na comunidade; em contrapartida, esse Deus justo ama os humildes e escuta as suas súplicas. A oração do pobre e do desvalido chega sempre aos ouvidos de Deus... Deus não vira, nunca, as costas a quem chama por Ele e vê n'Ele a esperança e a salvação. Isto é algo que eu devo ter sempre presente, nomeadamente nos momentos mais dramáticos da minha
existência, quando tudo cai à minha volta. A Palavra de Deus que hoje nos é oferecida garante-nos: Deus escuta a oração do pobre (e, no contexto bíblico, dizer que "escuta" significa dizer que Ele se prepara para intervir e para trazer àquele que sofre a libertação e a vida).
O Evangelho define a atitude correcta que o crente deve assumir diante de Deus. Recusa a atitude dos orgulhosos e auto-suficientes, convencidos de que a salvação é o resultado natural dos seus méritos; e propõe a atitude humilde de um pecador, que se apresenta diante de Deus de mãos vazias, mas disposto a acolher o dom de Deus. É essa atitude de "pobre" que Lucas propõe aos crentes do seu tempo e de todos os tempos.
Na segunda leitura, temos um convite a viver o caminho cristão com entusiasmo, com entrega, com ânimo - a exemplo de Paulo. A leitura foge, um pouco, ao tema geral deste domingo; contudo, podemos dizer que Paulo foi um bom exemplo dessa atitude que o Evangelho propõe: ele confiou, não nos seus méritos, mas na misericórdia de Deus, que justifica e salva todos os homens que a acolhem.
sábado, 22 de outubro de 2022
De quantas crises somos feitos?

Ainda não nos refizemos da pandemia e já nos assombra mais uma crise. Já damos por nós a pôr a música mais alta quando começam as notícias na televisão… ou a mudar de estação de rádio quando as anunciam. Será possível que tenhamos, mais uma vez, chegado até aqui?
O meu currículo de crises ainda não é vasto. Talvez muitos dos que estejam a ler este texto se lembrem de muitas mais crises do que eu. Talvez não se assustem tanto ou saibam que, também esta, há de passar. Mas a verdade é que enquanto a ponte não cai, acaba por abanar… por deixar abrir uma ou outra fenda mais ambiciosa.
Estamos, novamente, mergulhados no olho de uma tempestade perfeita que se diz que arrasará o futuro a todos os níveis. Os preços de tudo a aumentar sem ninguém perceber muito bem como ou porquê. Será possível que seja tão caro poder viver? Será possível que seja tão dispendioso querer viver?
Taxas de juro. Inflação. Gasolina. Gasóleo. Luz. Água. Gás. Tudo falta ou tudo se revolve e fervilha novas caras para nos assustar.
O futuro é amanhã. Bem sabemos. Não nos deixam esquecer. Não nos deixam ter tempo para ser ingénuos ou para acreditar que ainda se pode dar a volta.
Mas o futuro é amanhã. Só temos o hoje. O momento. O antes de acontecer o que ainda não aconteceu (quem sabe se será mesmo verdade o que se diz).
Sabemos pouco sobre tudo. Mas há uma coisa que nos pode ajudar verdadeiramente. A preocuparmo-nos com uma coisa de cada vez. Com um dia de cada vez. Com uma crise de cada vez.
Vê se dormes descansado. O futuro é só mais à frente.
Respira fundo. Mais adiante logo veremos.
Tira os sapatos e descalça-te de tudo. Só tens o hoje.
Não te atormentes tanto. Não encolhas tanto. O futuro é só amanhã
Marta Arrais
sexta-feira, 21 de outubro de 2022
ESTE ARDER DO CORAÇÃO NÃO É DOENÇA...
É saudável e recomenda-se, fortalece a missão com a humildade de não ter resposta para todas as perguntas! Numa condescendência sem limites, Deus foi-se revelando, de forma histórica e progressiva. Ao criar, aceitou ‘autolimitar-se’ a fim de que a criatura pudesse existir “fora dele”, com autonomia e liberdade. A criatura humana, porém, logo fez soar as campainhas, usou mal da sua liberdade. No entanto, neste carpir de mágoas, nunca Deus deixou de lhe falar. Falou-lhe por palavras, por acontecimentos e pelos profetas, sempre lhe falou como amigo. Neste relacionamento de Deus com o homem e do homem com Deus, estava em causa a manifestação do amor de Deus pelo homem e o seu plano de salvação para todo o mundo. Por força da lei escrita no seu coração e de outros apoios para o seu peregrinar, o homem, mesmo tropeçando e caindo muitas vezes, foi fazendo caminho. Percebeu a existência de Alguém fora dele. Alguém que veio ao seu encontro e com ele quis fazer uma aliança. Alguém que, apesar de muitas vezes o homem lhe ter sido infiel, Ele permaneceu sempre fiel, nunca o abandonou, nunca deixou de lhe estender a mão nem se inibiu de fazer maravilhas em seu favor, provocando-o ao bem e ao melhor. Graças a esta pedagogia divina, o homem foi transformando o seu coração de pedra em coração de carne, foi tomando consciência dos seus limites, foi descobrindo a importância da fidelidade à palavra dada, da fidelidade à aliança firmada, do bem que era o bom uso da liberdade. O homem foi sentindo a alegria da fidelidade e o peso da transgressão, a alegria de ser amado e perdoado, a necessidade de se abrir às surpresas de Deus e de confiar nas promessas de que melhores dias haveriam de vir, mas sempre aos ziguezagues. E eis senão quando, num gesto supremo de amor, depois de nos ter falado muitas vezes e de muitos modos, Deus nos falou por meio do seu próprio Filho (cf.DV4). Sim, a Palavra de Deus por meio da qual tudo foi criado, o Verbo de Deus encarnou. A Palavra eterna do Pai entrou no mundo, no espaço e no tempo. Com a sua encarnação, “o Filho de Deus, uniu-se de certo modo a cada homem. Trabalhou com mãos humanas, pensou com uma inteligência humana, agiu com uma vontade humana, amou com um coração humano. Nascido da Virgem Maria, tornou-se verdadeiramente um de nós, em tudo semelhante a nós, exceto no pecado (GS22). “Veio para o que era seu” (Jo1,11), identificou-se com o Pai: “quem Me vê, vê o Pai”, tornou-se próximo e amigo e disse-nos que aquilo que fizéssemos aos outros era a Ele que o fazíamos. Como companheiro de viagem, todos se maravilhavam com a sua presença, a sua simplicidade, a sua palavra, a sua sabedoria e o seu poder. A entrega na Cruz, a sua paixão, morte e ressurreição constituem a maior prova e revelação de quanto Deus nos ama. A todos quantos o receberem deu-lhes o poder de se tornarem filhos de Deus (cf.Jo1,12). A resposta do homem a Deus cuja essência é o Amor, a resposta do homem é a fé, é ter a fé de Deus, do Deus de Abrão, Isaac e Jacob. E a fé vem-nos da escuta da Palavra, abrindo a mente e o coração à inspiração, força e ação do Espírito Santo, é um processo dinâmico, nunca acabado.
A Exortação Apostólica sobre a Palavra de Deus na vida e na missão da Igreja, fala da sacramentalidade da Palavra de Deus, experimentada sobretudo na Liturgia. E se há uma forte relação entre a Palavra e o Sacramento, entre o gesto e a palavra, isso ganha maior profundidade aplicado à celebração da Eucaristia. A Palavra eterna do Pai torna-se presente, é atual e atuante, dirige-se a todos e a cada um, cria vínculo entre quem fala e quem escuta, tem caráter performativo, é viva e eficaz, não há separação entre o que Deus diz e faz em favor de todos e de cada um dos homens.
A narração sobre os discípulos de Emaús, por exemplo, fala-nos do vínculo que há entre a escuta da Palavra e a fração do pão. Jesus, no Domingo da Ressurreição, fez-se-lhes encontrado no caminho. Enquanto caminhavam, escutou a sua tristeza, a sua esperança desiludida, manifestou-se familiar às suas vidas e foi-lhes explicando quanto as Escrituras diziam a respeito ao Messias que haveria de vir. Os dois discípulos começaram a sentir as Escrituras de forma diferente, começaram a perceber que os acontecimentos daqueles dias, não eram um fracasso, mas o cumprimento das Escrituras e o começo de algo de novo. No entanto, ainda não estavam a entender tal como gostariam de entender. Só quando Jesus tomou o pão, o abençoou, o partiu e lho deu, é que se lhes abriram os olhos e o reconheceram. A presença de Jesus, primeiro com as palavras e depois com o gesto de partir o pão, é que tornou possível aos discípulos reconhecê-lo e apreciar de outro modo tudo quanto tinham vivido anteriormente com Ele: «Não estava o nosso coração a arder cá dentro, quando Ele nos explicava as Escrituras?» (cf. Verbum Domini, 52-54).
A Palavra de Deus, proclamada e celebrada na Liturgia, faz “arder o coração”, conduz à Eucaristia, faz-se carne sacramentalmente, é pão vivo descido do céu, gera discípulos missionários a fazer arder corações até ao fim do mundo. O Dia Mundial das Missões lembra-nos que somos enviados ao mundo, “não só para fazer a missão, mas também e sobretudo para viver a missão”. Não só para dar testemunho, “também e sobretudo para ser testemunhas de Cristo”.
D.Antonino Dias - Bispo Diocesano
Portalegre-Castelo Branco, 21-10-2022.
quinta-feira, 20 de outubro de 2022
Que nunca nos esqueçamos de deixar amor pelo caminho
Que nunca nos esqueçamos de deixar um abraço de amor pelo caminho. Talvez esse abraço faça sorrir o coração de alguém.
Que nunca nos esqueçamos de estender uma mão de amor pelo caminho. Talvez essa mão abrigue a vida de alguém.
Que nunca nos esqueçamos de deixar um sorriso de amor pelo caminho. Talvez esse sorriso seja a parte mais bonita do dia de alguém.
Que nunca nos esqueçamos de deixar um olhar de amor pelo caminho. Talvez esse olhar abrace a alma de alguém.
Que nunca nos esqueçamos de deixar um gesto de amor pelo caminho. Talvez esse gesto mude o mundo de alguém.
Que nunca nos esqueçamos de ser vida de amor pelo caminho. Talvez essa vida ilumine alguém.
Que nunca nos esqueçamos de deixar amor pelo caminho. Talvez esse amor seja tanto para alguém.
Talvez cure. Talvez salve. Talvez seja tudo.
É isso: talvez esse amor seja tudo. Para alguém. E para nós também.
(E é.)
Daniela Barreira
quarta-feira, 19 de outubro de 2022
Portalegre-Castelo Branco: Diocese reafirma colaboração no «apuramento cabal da verdade» sobre abusos de menores
Conselho Presbiteral refletiu também sobre a JMJ Lisboa 2023, a formação do clero e a sua remuneração
Portalegre, 12 out 2022 (Ecclesia) – O Conselho Presbiteral de Portalegre-Castelo referiu, em comunicado, que a diocese tem colaborado com a Comissão Independente (CI) para o Estudo de Abusos Sexuais contra Crianças na Igreja em Portugal, com o objetivo de apurar a “verdade”.
“A diocese está disponível para colaborar com o apuramento cabal da verdade no que diz respeito aos Abusos de Menores que veementemente condena e censura”, lê-se na informação enviada à Agência ECCLESIA.
Esta terça-feira, em conferência de imprensa, a CI da Igreja Católica em Portugal revelou ter validado 424 testemunhos, desde janeiro; o Conselho Permanente da Conferência Episcopal Portuguesa (CEP) renovou o seu pedido de perdão às vítimas de casos de abusos sexuais.
O Conselho Presbiteral da Diocese de Portalegre-Castelo reuniu-se esta terça-feira, no Seminário do Imaculado Coração de Maria (Portalegre), onde refletiu sobre a próxima edição internacional da Jornada Mundial da Juventude Lisboa 2023.
“A participação dos nossos jovens nos dias da JMJ em Lisboa é o grande desígnio pastoral deste ano”, assinalam, sobre o encontro que se vai realizar de 1 a 6 de agosto de 2023.
Neste contexto, o bispo de Portalegre-Castelo Branco, D. Antonino Dias, convidou a diretora do Secretariado Diocesano de Pastoral Juvenil e Vocacional para participar na reunião e falar sobre a preparação dos ‘Dias na Diocese’, a semana anterior à JMJ, que se vai realizar de 26 a 31 de julho do próximo ano.
A irmã Fernanda Luz adiantou que estão confirmadas “algumas centenas de jovens, sobretudo de dioceses francesas”, que ficarão distribuídas pelos cinco arciprestados da Diocese do Alto Alentejo.
O Conselho Presbiteral de Portalegre-Castelo Branco assinalou também a “necessidade de formação Contínua do Clero”, formação teológica, litúrgica, sociológica e psicológica, e para ano pastoral 2022/2023 já estão definidos os dias 23 e 24 de janeiro de 2023, que vão “valorizar a dimensão formativa” e favorecer “laços de comunhão” dos presbíteros.
Segundo o comunicado, este órgão de corresponsabilidade representativo de todo o presbitério diocesano congratulou-se com a “eleição dos Órgãos Sociais do Instituto Diocesano”, e refletiu sobre a “situação económica do clero”.
“Foi consensual que o atual nível remuneratório do clero não é consentâneo com as responsabilidades e trabalhos que lhes estão confiados”, explica, adiantando que IDC vai propor ao bispo de Portalegre-Castelo Branco “um valor de atualização salarial”, para entrar em vigor no dia 1 de janeiro de 2023.
CB/OC
Portalegre, 12 out 2022 (Ecclesia) – O Conselho Presbiteral de Portalegre-Castelo referiu, em comunicado, que a diocese tem colaborado com a Comissão Independente (CI) para o Estudo de Abusos Sexuais contra Crianças na Igreja em Portugal, com o objetivo de apurar a “verdade”.
“A diocese está disponível para colaborar com o apuramento cabal da verdade no que diz respeito aos Abusos de Menores que veementemente condena e censura”, lê-se na informação enviada à Agência ECCLESIA.
Esta terça-feira, em conferência de imprensa, a CI da Igreja Católica em Portugal revelou ter validado 424 testemunhos, desde janeiro; o Conselho Permanente da Conferência Episcopal Portuguesa (CEP) renovou o seu pedido de perdão às vítimas de casos de abusos sexuais.
O Conselho Presbiteral da Diocese de Portalegre-Castelo reuniu-se esta terça-feira, no Seminário do Imaculado Coração de Maria (Portalegre), onde refletiu sobre a próxima edição internacional da Jornada Mundial da Juventude Lisboa 2023.
“A participação dos nossos jovens nos dias da JMJ em Lisboa é o grande desígnio pastoral deste ano”, assinalam, sobre o encontro que se vai realizar de 1 a 6 de agosto de 2023.
Neste contexto, o bispo de Portalegre-Castelo Branco, D. Antonino Dias, convidou a diretora do Secretariado Diocesano de Pastoral Juvenil e Vocacional para participar na reunião e falar sobre a preparação dos ‘Dias na Diocese’, a semana anterior à JMJ, que se vai realizar de 26 a 31 de julho do próximo ano.
A irmã Fernanda Luz adiantou que estão confirmadas “algumas centenas de jovens, sobretudo de dioceses francesas”, que ficarão distribuídas pelos cinco arciprestados da Diocese do Alto Alentejo.
O Conselho Presbiteral de Portalegre-Castelo Branco assinalou também a “necessidade de formação Contínua do Clero”, formação teológica, litúrgica, sociológica e psicológica, e para ano pastoral 2022/2023 já estão definidos os dias 23 e 24 de janeiro de 2023, que vão “valorizar a dimensão formativa” e favorecer “laços de comunhão” dos presbíteros.
Segundo o comunicado, este órgão de corresponsabilidade representativo de todo o presbitério diocesano congratulou-se com a “eleição dos Órgãos Sociais do Instituto Diocesano”, e refletiu sobre a “situação económica do clero”.
“Foi consensual que o atual nível remuneratório do clero não é consentâneo com as responsabilidades e trabalhos que lhes estão confiados”, explica, adiantando que IDC vai propor ao bispo de Portalegre-Castelo Branco “um valor de atualização salarial”, para entrar em vigor no dia 1 de janeiro de 2023.
CB/OC
terça-feira, 18 de outubro de 2022
«Orar…»
O erguer dos teus braços é oração…
O unir das tuas mãos é oração…
O sorriso dos teus lábios é oração…
O teu escutar é oração…
O teu olhar é oração…
O teu respirar é oração…
O teu caminhar é oração…
O bater do teu coração é oração…
Cada partícula molecular do teu corpo é uma oração profunda ao Senhor que te deu vida.
A liturgia do 29º Domingo do Tempo Comum, do Ano C,
anseia a nossa persistente oração.
Na 1ª Leitura:
«Quando Moisés erguia as mãos, Israel ganhava vantagem»
No Salmo Responsorial:
«Levanto os meus olhos para os montes: donde me virá o auxílio?
O meu auxílio vem do Senhor, que fez o céu e a terra.»
Na 2ª Leitura:
«Proclama a palavra, insiste a propósito e fora de propósito,
argumenta, ameaça e exorta, com toda a paciência e doutrina.»
No Evangelho:
«Deus fará justiça aos seus eleitos, que por Ele clamam»
Na Oração Universal:
«Ouvi, Senhor, a oração do vosso povo.»
Já rezaste hoje?Os teus braços cansaram-se? Reza…As tuas mãos fecham-se? Reza…O teu sorriso perdeu-se? Reza …O teu escutar quer silêncio? Reza …O teu olhar já não tem brilho? Reza …O teu respirar escondeu-se? Reza …O teu caminhar escureceu? RezaO bater do teu coração está fora de ritmo? Reza …
Nunca desistas da Fé que te corre nas veias!És Baptizado! Deus escuta-te, sempre…Reza e proclama com todo o teu corpo:Onde há amor, nascem gestos
Liliana Dinis
segunda-feira, 17 de outubro de 2022
Como tens estado?
Quase nunca respondemos com verdade a esta pergunta. Dizemos sempre que estamos bem. Que vamos andando. Que desde que haja saúde está tudo como deve estar. Que não nos dói nada e que devemos dar graças por isso. Fomos ensinados a estar bem a todo o custo. A sorrir mesmo quando nos apetece franzir a testa e não falar com ninguém.
Ninguém nos ensinou a pedir ajuda. A dizer que não estamos bem. Dizer que se está mal não fica bem nas fotografias. Os divórcios. As doenças. As separações. As vidas por um fio. A morte. As dívidas. As lonjuras. Tudo isso cai mal aos que vivem de aparências. Mas de tudo isso é feita a vida.
No entanto, a verdade é que somos feitos de tudo. De estar bem e de estar mal. De dias de mar da Nazaré e de dias de mares de Monte Gordo. Dias de ouvir e dias de falar. Dias de brindar e ser feliz e dias de chorar e maldizer a sorte. Dias de ter força e fé e dias de apetecer desistir. Dias de dar graças e dias de porquê-a-mim. Somos feitos de caras bonitas e simpáticas e de caras feias e maldispostas.
Numa semana em que comemoramos o Dia Mundial da Saúde Mental, é preciso forçar espaço para abrir janelas diferentes. Para encontrar palavras para dizer que podemos estar mal e pedir ajuda. Que os dias tristes não duram para sempre e que, se durarem mais do que nos parecer saudável, podemos dar a mão a quem nos saiba dar outra cor aos dias.
Não estamos sozinhos. A vida é bonita, mesmo quando é feia. Aquilo que sentimos já alguém terá sentido também. Quase tudo se pode ultrapassar ou atenuar com a ajuda certa e as pessoas certas.
Não estás sozinho. Há espaço para o bom e para o mau. Para o bonito e para o horrível. Para olhar para o trauma e para contemplar a cura. Para expressar o que se sente e para guardar o que não se diz com palavras.
Que saibamos começar a ensinar as nossas crianças a saber falar do que sentem e a não condenar o que dizem. Que saibamos ser crianças outra vez para poder aprender aquilo que ninguém nos soube ensinar.
Estar mal também vale. Está bem?
Marta Arrais
domingo, 16 de outubro de 2022
Compromisso das catequistas, benção das mochilas
Inicio da catequese
Damos hoje início a mais um Ano Catequético com a presentação e o compromisso das nossas catequistas que, animadas pela fé em Jesus Cristo, assumiram perante a comunidade, o compromisso de serem catequistas ao serviço do reino, acolhendo e amando as nossas crianças e adolescentes a elas confiadas.
!º ano - Mª de Lurdes Mendes e Beatriz Martins
2º ano- Mª Céu Mendes e Margarida Romão
4º ano - Miquelina Dias e Margarida Martins
5º e 6º ano - Mª Céu Mendes
7º ano - Júlia Adega
9º ano - Cristina Pascoal
As actividades terão início no próximo dia 24 de Outubro.
Como sublinhou o padre Rui, agradecendo às catequistas a disponibilidade, toda a comunidade é chamada a testemunhar a fé, contribuindo para a celebração, a vivência da fé, corresponsável na educação para a fé, tendo os pais um contributo ainda mais específico. Os pais são fundamentais para que a catequese seja profícua, acompanhando os filhos, mas rezando com eles em casa, interessando-se pelos “ensinamentos” e vivências em cada catequese. Que o Deus da vida a todos inspire e a todos entusiasme neste compromisso batismal, viver e testemunhar a fé.
No final da Eucaristia, O Padre Rui procedeu à Benção das mochilas e crianças presentes. Neste momento elas e os alunos são abençoados, encaminhados para mais um ano letivo repleto da graça de Deus.
O Poder da Oração
O Evangelho sugere que Deus não está ausente nem fica insensível diante do sofrimento do seu Povo... Os crentes devem descobrir que Deus os ama e que tem um projecto de salvação para todos os homens; e essa descoberta só se pode fazer através da oração, de um diálogo contínuo e perseverante com Deus. A oração não é uma fórmula mágica e automática para levar Deus a fazer-nos as "vontadinhas"... Muitas vezes, Deus terá as suas razões para não dar muita importância àquilo que Lhe pedimos: às vezes pedimos a Deus coisas que nos compete a nós conseguir (por exemplo, passar nos exames); outras vezes, pedimos coisas que nos parecem boas, mas que a médio prazo podem roubar-nos a felicidade; outras vezes, ainda, pedimos coisas que são boas para nós, mas que implicam sofrimento e injustiça para os outros... É preciso termos consciência disto; e quando parece que Deus não nos ouve, perguntemos a nós próprios se os nossos pedidos farão sentido, à luz da lógica de Deus.
A primeira leitura dá a entender que Deus intervém no mundo e salva o seu Povo servindo-Se, muitas vezes, da acção do homem; mas, para que o homem possa ganhar as duras batalhas da existência, ele tem que contar com a ajuda e a força de Deus... Ora, essa ajuda e essa força brotam da oração, do diálogo com Deus. É exactamente por a ajuda de Deus ser decisiva na luta por um mundo mais livre e mais humano que os catequistas de Israel sublinham o papel da oração... Quem sonha com um mundo melhor e luta por ele, tem de
viver num diálogo contínuo, profundo, com Deus: é nesse diálogo que se percebe o projecto de Deus para o mundo e se recebe d'Ele a força para vencer tudo o que oprime e escraviza o homem. A oração que dá sentido e conteúdo à intervenção no mundo faz parte da minha vida?
A segunda leitura, sem se referir directamente ao tema da relação do crente com Deus, apresenta uma outra fonte privilegiada de encontro entre Deus e o homem: a Escritura Sagrada... Sendo a Palavra com que Deus indica aos homens o caminho da vida plena, ela deve assumir um lugar preponderante na experiência cristã. A leitura que nos foi proposta chama, também, a atenção daqueles que estão ao serviço da Palavra: eles devem anunciá-la em todas as circunstâncias, sem respeito humano, sem jogos de conveniências, sem atenuarem a radicalidade da Palavra; e devem, também, preparar-se convenientemente, a fim de que a Palavra se torne atraente e chegue ao coração dos que a escutam... É assim que procedem aqueles a quem a Igreja confia o serviço da Palavra?´
https://www.dehonianos.org/
sábado, 15 de outubro de 2022
Talvez não seja bem assim...
A Igreja Católica Apostólica Romana portuguesa passa por momentos complicados. E passa-o porque arriscou, e bem, em querer aprofundar uma problemática que assombra há muito a instituição e, em especial, o clero.
No entanto, tem existido dois fenómenos que marcam, de forma negativa, a postura da sociedade e também da Igreja. A primeira delas é a sociedade querer fazer da Igreja aquilo que, na generalidade, ela não é. E, claro que muitos poderão dizer que esta minha visão está enviesada por ser um crente do catolicismo. No entanto, acreditem que faço um esforço para não analisar toda esta situação de olhos fechados e com fundamentalismos. É claro que a sociedade deve sentir-se indignada e tem todo o direito em apontar para o mal que tantos religiosos e leigos fizeram a tantas crianças e jovens. É claro que a sociedade tem o direito de exigir justiça. E não é menos claro que também tem o direito de denunciar e de sentir que a Igreja já não é tão confiável. Mas o que a sociedade não pode fazer é cair na generalização. Como se todos os sacerdotes e religiosos consagrados fossem abusadores sexuais. O que a sociedade não pode fazer é olhar para a temática do abuso sexual como se apenas existisse no contexto católico. E com isto não quero dizer que o que aconteceu é admissível. Não, muito pelo contrário. É inadmissível o que aconteceu. Não, não deveria ter existido um único caso, mas também não podemos cair no maior erro dos nossos tempos: o de anularmos. Anulando, não se corrige. Anulando, perde-se o diálogo. Perde-se a conversão. Perde-se o perdão. Perde-se aquilo que tanto queremos: a mudança.
Um outro fenómeno tem sido as declarações de Bispos, de sacerdotes e de figuras públicas assumidamente católicas. Existe, infelizmente, uma parte da Igreja que ainda não está olhar verdadeiramente para a problemática. Estes, que deveriam possuir o dom da palavra, estão a falhar redondamente na comunicação. Passam uma mensagem fria, de relativização, quase como se nada do que tem sido reunido com provas fosse efetivamente válido. Caindo quase sempre na desculpa de que antigamente isso não valia, ou de que já foi há muito tempo e não conta. Esta postura de sentido de impunidade ou de que isto "não é nada connosco" faz crescer o ódio e o medo das vítimas, achando que a sua palavra e o seu sofrimento não contam para nada.
A Igreja tem, no meio de tanto sofrimento e de tanta crueldade, de seguir o exemplo das suas figuras mais emblemáticas: estar junto dos que sofrem, de preferência calada e pedindo perdão. Se não der para fazer tudo em silêncio que ao menos seja para pronunciar o perdão, a compaixão e a empatia.
E a sociedade deve fazer o seu caminho com seriedade: denunciar, pedir justificações e permitir que algo de novo possa surgir e, para isso, não pode cair em fundamentalismos.
Os tempos que nos esperam são extremamente desafiantes, mas aproveitemos para renovar a Igreja. Aproveitemos para lhe dar maior beleza e maior qualidade humana e, deste jeito, talvez possamos voltar a ser reflexo de Deus na Terra.
Emanuel António Dias
sexta-feira, 14 de outubro de 2022
SEM DISTORÇÕES AMBIGUIDADES OU REDUÇÕES

Se algum personagem ilustre, de trabalho reconhecido, tivesse sido convidado para um almoço de gratidão e homenagem, se aceitasse o convite, aparecesse no dia e à hora, tivesse o devido acolhimento e se sentasse à mesa para a refeição, mas, agora, ao servir a refeição se negasse a comer, com certeza que todos arregalariam os olhos a fazer perguntas. Que se passará? Encontrar-se-ia mal? Estará doente? Não gostará da comida? Querer-nos-á ofender? Queimou os fusíveis? Claro que isso não aconteceria, seria ridículo se acontecesse.
Essa é, no entanto, a figurinha que muitos de nós, os cristãos, fazemos. E não somos nós quem convida uma pessoa ilustre. É a Pessoa ilustre, o Filho de Deus, que, com o sacrifício da sua própria vida, veio propositadamente ao nosso encontro para nos convidar para a sua Ceia, sem outro interesse se não o de manifestar o seu amor por nós e desejar que nós estivéssemos com Ele. Somos felizes porque o Senhor se lembrou de nós: “Felizes os convidados para a Ceia do Senhor”. É certo que ‘todo o mundo está convidado, mas ainda o não sabe’. Se o encontro com Cristo provoca a urgência de testemunhar e evangelizar, “não podemos permitir-nos um momento de descanso, ao saber que ainda nem todos receberam o convite para esta Ceia ou sabendo que outros dele se esqueceram ou se perderam pelo caminho nas reviravoltas da vida humana”.
Nós aceitámos o convite, no dia e à hora comparecemos, somos acolhidos e criamos bom ambiente uns com os outros, sentamo-nos à volta da Mesa do Altar, coloca-se a comida sobre a mesa e não comemos. Porque será? Será porque estamos doentes? Talvez ... ou talvez não. O doente físico, de facto, se está mesmo doente e não respeita a dieta, morre mais depressa. Mas ninguém gosta de estar doente. Ninguém, por descuido ou incúria, deseja agravar a doença. Ninguém anseia que a doença se torne crónica. Ora, se estamos espiritualmente doentes, isto é, em pecado grave, também temos de respeitar a dieta, para que a doença não se agrave, comungando. Mas será que nos sentimos bem assim, doentes, em pecado grave, tornando esta doença numa espécie de doença crónica? Será que rejeitamos a terapia necessária para podermos comer saudavelmente da Ceia do Senhor para a qual fomos amorosamente convidados e comparecemos?
Nas nossas comunidades é capaz de haver quem, sem ter impedimento de pecado grave, não participe da Ceia do Senhor por indiferença ou desconhecimento, por falta do real entendimento da importância deste Sacramento. Mas também pode haver quem, pelas mesmas razões, sem a devida preparação e até talvez em pecado grave, sempre que participa na eucarística apresenta-se à Comunhão. Ambas as situações merecem vigilância, não são boas. É verdade que o Senhor disse que se não comermos a sua carne e não bebermos o seu sangue, não teremos a vida em nós (cf. Jo 6, 53), mas também sabemos que quem come e bebe, sem discernir o corpo do Senhor, come e bebe a sua própria condenação (cf. 1Cor 11, 27-29). E poderemos perguntar: Mas a Eucaristia, o pão da vida, não é um remédio para os pecadores? Sim é, de facto, a Eucaristia não é um prémio para os justos e santos. Tomada como deve ser, é um remédio sem igual para curar e transformar a dureza do coração e da mente em docilidade e misericórdia, a hipocrisia e a mentira em retidão e verdade, a duplicidade de caráter e o fingimento em coerência de vida, a exploração e a injustiça em respeito e fraternidade... A Eucaristia faz-nos assimilar o modo de viver de Cristo que passou pelo mundo fazendo o bem, fez-se nosso companheiro de viagem, respondeu ao mal com o bem, doou-se como alimento, fez-se preço na cruz para nos resgatar e foi-nos preparar um lugar porque quer que onde Ele estiver nós estejamos também. É remédio salutar, sim, é a grandeza de Deus na fragilidade de um pedaço de pão que se parte e dá, ensinando-nos a amar e a servir, a dar e partilhar também a nossa vida. No entanto, tal como há doenças físicas cujas pessoas, antes de iniciarem certa medicação, precisam de se sujeitar a uma cirurgia, assim também a receção conveniente da Eucaristia pode reclamar a necessidade da Reconciliação com Deus e com a Igreja, o traje apropriado. Para usufruir frutuosamente da riqueza eucarística, “dos valores que exprime, das atitudes que inspira e dos propósitos de vida que suscita”, a pessoa precisa de ouvir o apelo à conversão. Habituar-se, sentir-se no ‘direito’ de comungar e não fazer esforço por se converter pode ser desastroso no ser, estar e agir, no testemunho que se deve dar. Este Sagrado Banquete “é um dom demasiado grande para suportar ambiguidades e reduções”.
D. Antonino Dias - Bispo Diocesano
Portalegre-Castelo Branco, 14-10-2022.
Portalegre-Castelo Branco, 14-10-2022.
Viver para pagar contas e morrer?
Não foi para isto que viemos cá. Não é para isto que andamos a ver documentários de slow living, de como aprender a meditar, de como viver para o essencial. Não viemos cá para pagar contas e morrer. Ou será que fomos enganados e, afinal, é esse o futuro que nos espera?
Quero acreditar que não. Que as contas para pagar são uma distração. Que o aperto que muitos começam a sentir (com a subida de tudo) seja temporário, um pesadelo que há de revelar-se pouco condizente com a realidade a longo prazo.
De outra forma, que vida seria esta se aqui tivéssemos vindo para isso? Para viver como quem não sabe se terá o dia de amanhã? Como quem não sabe se terá a sua casa no dia seguinte? Como quem não sabe como fará as compras para o mês seguinte?
Talvez nos ajude virar um pouco o foco para outras coisas, ainda que não possamos retirar importância às que antes referimos.
É preciso virar a luz para o lado de dentro. É a única forma de conseguir iluminar os que, como nós, têm medo de viver às escuras.
Não podemos convencer-nos que a vida é apenas isto. Estes dias de roda do rato de onde ninguém consegue sair ileso.
Quero acreditar que no meio do caos, das contas, das preocupações e das lutas diárias, haverá espaço para brindar sem ter medo do dia seguinte. Espaço para abraçar os nossos sem ter medo da iminência de lhes falhar. Espaço para investir no descanso do corpo e da alma. Espaço para receber o que não cabe em extratos ou taxas Euribor.
A vida é demasiado bonita. Demasiado cara para ser gasta com dinheiro e com poder(es).
Havemos de conseguir ultrapassar os dias menos bons.
Havemos de conseguir dar ao coração aquilo que o mundo não sabe dar.
Vira o foco de luz para dentro.
É assim que consegues iluminar os que andam, também, às escuras… como tu.
Marta Arrais
quinta-feira, 13 de outubro de 2022
Jesus, dentro ou fora da norma?
Jesus não seguia a norma. Jesus, no Seu tempo e para o Seu tempo, era desviante. A forma como apresentava Deus, como se relacionava com os outros e como desafiava autoridade, fazia de Si alguém que rompia com todos os parâmetros sociais daquele tempo e cultura.
Jesus não o fazia para chamar à atenção. Jesus fazia-O porque era, efetivamente, inovador. E sabia que trazia consigo uma mensagem muito maior do que as normas vigentes. Jesus desviava-se da norma, não para Se destacar, mas para transmitir a mensagem do Seu Pai.
Jesus provocava fariseus. Jesus desafiava os doutores da Lei. Jesus chicoteava e expulsava homens e mulheres do templo. Jesus acolhia últimos e renegados da sociedade. Jesus fazia tudo ao contrário, mas nunca deixava de apresentar um Deus Pai com entranhas de Mãe.
E hoje? Quantos não renegamos na nossa Igreja por terem uma forma diferente de viver a vida? Quantos não renegamos por se preocuparem e defenderem outras causas? Quantos não renegamos por vivenciarem e experienciarem a fé de um outro jeito? Quantos não renegamos por terem um estilo de vida diferente da norma?
Se Aquele em que acreditamos, no Seu tempo, era visto como alguém que fugia da norma, porque não havemos de ter maior cuidado para receber aqueles que são colocados à margem da nossa sociedade? Se Aquele em que acreditamos era tão fora da linha, porque não havemos de ter as portas abertas para todos e todas?
Não sei como Jesus atuaria hoje, nem muito menos o que diria, mas cada vez que caminho na Sua direção e me relaciono com a Sua Palavra e com os Seus gestos, fico com maior certeza que na nossa Igreja cabiam mais, muitos mais.
Jesus não seguia a norma, seguia O Pai. Façamos o mesmo: sigamo-Lo, imitemo-Lo e construíremos, finalmente, o Seu amor.
Emanuel António Dias
quarta-feira, 12 de outubro de 2022
terça-feira, 11 de outubro de 2022
Outubro, mês das Missões: «Sereis minhas testemunhas»

Quando nos solicitam que sejamos testemunha de alguém ou de algum acontecimento, temos plena consciência que só podemos testemunhar o que vimos e ouvimos, ou o que vivemos.
Jesus pediu aos seus discípulos para serem suas testemunhas, para que a sua mensagem chegasse a todos. Pois eles viram, ouviram e viveram a vida de Jesus como sendo sua.
Hoje em dia, cabe-nos a nós ser suas testemunhas. Ser testemunha de Jesus é viver a nossa vida como exemplo para os outros. É viver uma vida de total entrega aos outros.
Ser testemunha do amor é dar-se por amor! Ser missionário é isto mesmo, ser testemunha do grande amor que Jesus tem por cada um de nós. Ser missionário é entregar-se ao outro sem esperar nada em troca. É levar Jesus aos outros, como quem oferece o melhor e maior presente.
Sempre tive a vontade de partir em missão, mas sempre me faltou a coragem. Mas depois da primeira experiência, a vontade de repetir, uma e outra vez, é cada vez maior. Nunca nos cansamos de ir ao encontro do outro, de sair do nosso conforto e partir em busca do desconhecido, mas na certeza que iremos encontrar irmãos, de braços abertos, para nos receber.
Durante a experiência missionária, vivemos momentos de verdadeiro encontro com o outro e com Deus. E apesar de muitas diferenças visíveis (culturais, linguísticas e raciais), percebemos que afinal somos todos iguais. Amamos, choramos, rimos e principalmente vivemos com o sentido de entreajuda.
Existe uma frase que os moçambicanos usam que, resume tudo isto que é ser testemunha de Jesus. “Tamos juntos”, é quase como que um cumprimento entre eles. Mas é também reflexo da vivência, porque aconteça o que acontecer, seja em que luta estiveres “tamos juntos”. Nunca estamos sós.
Ser missionário é ser e estar com o outro! Ser missionário é ser feliz!
Ana Marujo
Subscrever:
Mensagens (Atom)